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A HISTORICIDADE DAS LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA OFICIAL PORTUGUESA Josilene Silva Campos “O que mais me dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstém-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada dessa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes”. (Mia Couto) Resumo: As literaturas moçambicanas, cabo verdianas, guineense e angolanas foram um grande instrumento de luta de libertação durante o julgo colonial português. Operaram historiograficamente ao se comprometerem com a escrita da história e das experiências passadas das sociedades abaladas pela colonização. O objetivo deste trabalho é promover uma reflexão sobre o percurso dessas literaturas que se constituíram antes das independências. Palavras chave: Literatura – História- Colonização- África- Resistência Apontar as franquezas do meu artigo talvez não seja uma maneira convencional de iniciá-lo. Mas a minha intenção é refletir sobre os problemas com os quais me deparei ao longo desse percurso, e posso adiantar-lhes que foram inúmeros e variados Os problemas se iniciaram com o título atribuído a esse estudo: “A historicidade das literaturas africanas de língua oficial portuguesa”. Eu estava tão preocupada em me afastar das posições de autores como Manuel Ferreira (1987), que usa o termo “Literaturas africanas de expressão portuguesa”, ou de Alfredo Margarido (1980), que prefere “Literaturas das nações africanas de língua portuguesa”, ou ainda de termos como “Literaturas Africanas lusófonas” de Russel Hamilton (1975), que acabei tropeçando em minhas próprias certezas. Sou a prova viva de que a ideologia do colonizador é poderosa! As literaturas não são de língua oficial portuguesa, elas são moçambicanas, angolanas, cabo verdianas, são tomenses, guineense. Tirar do sujeito à legitimidade de produtor de arte e conhecimento, associando este sempre ao colonizador e à sua cultura, é operar dentro das perspectivas de um pensamento dominante (imperialista) que anula a validade do outro. Falar sobre a África, de uma maneira geral, é um exercício de eterna vigilância, pois caímos recorrentemente no erro de legitimar a posição do opressor. Como bem concebeu Mary Pratt (1992), é necessário uma

A HISTORICIDADE DAS LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA

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  • A HISTORICIDADE DAS LITERATURAS AFRICANAS DE LNGUA OFICIAL PORTUGUESA

    Josilene Silva Campos

    O que mais me di na misria a ignorncia que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausncia de tudo, os homens abstm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada dessa iluso de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes. (Mia Couto)

    Resumo: As literaturas moambicanas, cabo verdianas, guineense e angolanas foram um grande instrumento de luta de libertao durante o julgo colonial portugus. Operaram historiograficamente ao se comprometerem com a escrita da histria e das experincias passadas das sociedades abaladas pela colonizao. O objetivo deste trabalho promover uma reflexo sobre o percurso dessas literaturas que se constituram antes das independncias. Palavras chave: Literatura Histria- Colonizao- frica- Resistncia

    Apontar as franquezas do meu artigo talvez no seja uma maneira

    convencional de inici-lo. Mas a minha inteno refletir sobre os problemas com os quais

    me deparei ao longo desse percurso, e posso adiantar-lhes que foram inmeros e variados Os

    problemas se iniciaram com o ttulo atribudo a esse estudo: A historicidade das literaturas

    africanas de lngua oficial portuguesa. Eu estava to preocupada em me afastar das posies

    de autores como Manuel Ferreira (1987), que usa o termo Literaturas africanas de expresso

    portuguesa, ou de Alfredo Margarido (1980), que prefere Literaturas das naes africanas

    de lngua portuguesa, ou ainda de termos como Literaturas Africanas lusfonas de Russel

    Hamilton (1975), que acabei tropeando em minhas prprias certezas. Sou a prova viva de

    que a ideologia do colonizador poderosa! As literaturas no so de lngua oficial portuguesa,

    elas so moambicanas, angolanas, cabo verdianas, so tomenses, guineense.

    Tirar do sujeito legitimidade de produtor de arte e conhecimento, associando

    este sempre ao colonizador e sua cultura, operar dentro das perspectivas de um

    pensamento dominante (imperialista) que anula a validade do outro. Falar sobre a frica, de

    uma maneira geral, um exerccio de eterna vigilncia, pois camos recorrentemente no erro

    de legitimar a posio do opressor. Como bem concebeu Mary Pratt (1992), necessrio uma

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    descolonizao do conhecimento no trabalho intelectual, para que as posturas autoritrias

    no continuem a se perpetuar.

    No vou negar as dificuldades, o que era para ser um tema predominante

    acabou diludo em minhas prprias incertezas, flutuando em hipteses que se relacionam, mas

    tratando muito pouco do que se anunciou: A historicidade dessas literaturas. O fato que essa

    idia quase um consenso entre os estudiosos da rea, mas falta uma sistematizao desse

    pensamento traduzido em bibliografias. Pelo menos que seja de meu nfimo conhecimento.

    A minha compreenso de literatura africana, aplicada neste estudo, se refere

    literatura escrita em lngua oficial portuguesa, cujos autores sejam africanos de nascimento ou

    estrangeiros que tenham adotado algum pas do continente africano como sua ptria e esteja

    alinhado com as posturas crticas em relao ao imperialismo. Exclui-se, portanto, a literatura

    colonial, pois mesmo que ela faa referncia aos estados e povos africanos, abordados nesta

    pesquisa, muitas esto em consonncia com o pensamento do colonizador. Comparto da

    posio de Laranjeira, segundo o qual, Essa literatura era incentivada oficialmente para

    funcionar como instrumento ideolgico do estado colonial (1975, p.180).

    Para ser mais exata, o foco principal da minha anlise so as narrativas que

    precedem as independncias, pois compreendo que estas so mais elucidativas para as

    questes que levanto nesse trabalho. Contudo, no excluirei, a perspectiva ps-independncia

    pois compreendo que estas cumprem um papel histrico ao realizar o debate sobre as

    identidades nacionais e o sujeito ps-colonial1

    Tentei ao mximo no me prender a nenhuma literatura em especial, mas

    confesso que Moambique e Angola me guiaram nessa jornada. Isso no quer dizer que Cabo

    Verde, Guin Bissau, So Tom e Prncipe no sejam objeto de estudo e no estejam

    representados. O que procurei fazer foi estabelecer uma linha de reflexo que fosse comum

    em todas as narrativas. No minha inteno estabelecer ou aprofundar pontos de

    diferenciao, ainda que eles existam e sejam de extrema importncia. Ressalto que cada uma

    dessas literaturas tem suas especificidades, particularidades, temporalidades, enfim, elementos

    que as tornam nica.

    Cumpre chamar ateno para as variadas experincias histricas que viveram

    cada um dos pases. No sou negligente ao ponto de colocar a histria de Angola, Cabo-

    Verde, Moambique, So Tom e Prncipe e Guin Bissau dentro de um mesmo ngulo de

    compreenso. Pensar um fio condutor que une essas literaturas considerar que essas

    1 Uso termo ps-colonial no sentido de depois da independncia.

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    sociedades vm de composies tnicas distintas, percursos polticos culturais diferenciados,e

    que sofreram e reagiram de diferentes maneiras a violncia do colonizador. Mas tambm ter

    em mente os laos fortes que as unem. Nesse sentido, Leila Leite Hernandez observa que

    A aproximao entre os pases africanos, mais do que por motivos de ordem estrutural, possibilitada pelos efeitos do colonialismo, com o agravamento da crise econmica e o endividamento externo, alm das srias conseqncias da represso. A unio se impe, a despeito da diversidade de matizes ideolgicos e polticos dos movimentos nacionalistas dos diferentes pases africanos. (2005, p. 162).

    Se por um lado acho que essas literaturas so completamente diferentes entre

    si, por outro acredito que elas tenham percursos semelhantes, saberes compartilhados,

    patrimnios em comum e referncias culturais que se aproximam. O fator colonialismo

    apresenta-se como uma importante contingncia compartilhada entre todas as naes. So os

    desdobramentos da experincia da dominao colonial que permitira o surgimento de uma

    tradio histrico cultural que se aproximam e cria uma rede de solidariedade. De acordo com

    Perrone-Moiss (1990), sobre determinado cho cultural (discursivo) podem ocorrer

    confluncias, coincidncias de tema e de solues formais que nada tm a ver com as

    influncias, mas com a existncia de certas condies literrias e determinado momento

    histrico.

    Resta sublinhar que, ainda que eu tenha conhecimento do papel preponderante

    desempenhado na luta pela libertao colonial pelos jornais, revistas, partidos polticos,

    frentes revolucionrias, a Casa do Estudante do Imprio, e outras entidades organizadas. No

    meu objetivo estabelecer nenhum tipo de relao com esses elementos, mesmo que eles

    tenham um vnculo indissocivel com as literaturas, influenciando-as e diferenciando-as de

    maneira enftica e decisiva.

    Uso o termo historicidade neste artigo compreendendo-o como construo do

    sentido histrico. Entendendo que as literaturas de Moambique, Cabo Verde, Angola, Guin

    Bissau e So Thom, esto em consonncia com o tipo de funo exercida pela disciplina

    Histria. Dentre os fatores que contriburam para tal postura das literaturas, destaco o fato de

    que a histria do tipo acadmica produzida sobre os povos colonizados era feita pelo

    colonizador, o que envolvia o problema de enunciao (quem est falando de quem, sobre

    quais circunstncias, a partir de onde). Outro complicador a falta de quadro especializado

    nativo que fizesse esse trabalho, problema que se arrasta at os dias de hoje. De acordo com

    Luis Kandjimbo, que reflete sobre a realidade angolana, partindo das consideraes do

    relatrio: Contributos para a Revitalizao da Universidade em Angola, elaborado pela

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    Universidade do Porto. O autor atesta a inexistncia de uma unidade orgnica dedicada s

    Letras, Humanidades e Cincias Sociais e Humanas em Angola. Diagnostico que pode

    perfeitamente ser estendido para toda frica.

    Vale ressaltar que todos os gneros da literatura, romances, contos e poesias

    sero levados em considerao nas abordagens que sero feitas. Mas a poesia vai merecer um

    papel de destaque no texto, em razo do apelo histrico ser mais explcita em seu texto. Pires

    Laranjeira, argumenta que a preferncia dos africanos pela poesia, enquanto forma de protesto

    social, se deve pela facilidade de memorizao, o que permitia sua transmisso mais

    rapidamente j que sua mensagem tinha como finalidade operar uma interveno na

    sociedade. Ainda segundo o autor, a poesia convinha mais a expresso de revolta e

    denuncia directa, pontual e emocional de quadros histricos, sociais e polticos

    (LARANJEIRA, 1975, p.178). Sem contar, claro, que a poesia exerceu uma funo

    ideolgica vital, principalmente nos momentos de guerra colonial, ela foi mais um

    guerrilheiro a ir para o front. Sobre o engajamento da poesia, Manuel de Souza e Silva

    discorre,

    De um lado, esto os que a aceitam, sem restries, por seu vis poltico-ideolgico: a poesia, entende-se, o veiculo de transmisso e ampliao da revolta. A contraposio feita por aqueles que a e recusam por sua pouca poeticidade, por sua excessiva instrumentalizao, por seu panfletarismo, ou seja, por no seguir as receitas da tradio potica. (1996, p.119).

    A importncia da poesia como arma de combate est representado no

    fragmento do poema Motivo do angolano Costa Andrade:

    Juntei na mo Os meus poemas E lancei-os ao deserto Para que as areias Se transformem em protesto

    As literaturas africanas desempenharam um papel muito importante na luta

    pela independncia e na projeo de uma nao. Foram protagonistas de uma guerra que foi

    tambm ideolgica. Hoje, a luta para se libertar da perifericidade e dos status de

    subliteratura a que foram reduzidas dentro de um espao intelectual que toma a literatura

    ocidental como referncia. Essas narrativas, muitas vezes, foram julgadas inferiores devido

    simplicidade de sua escrita (principalmente a poesia de combate) e relao direta dessa

    escrita com a poltica vigente. Alm disso, segundo alguns crticos, a produo elaborada

    nesses espaos geogrficos no pode ser encarada como nacional, j que h uma

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    inviabilidade de se definir o que seria nacional numa populao composta por etnias

    dspares, cuja fronteira territorial resultado de uma diviso artificial.

    As literaturas de Moambique, Angola, Guin Bissau, Cabo-Verde e So

    Tom e Prncipe se deparam constantemente com a questo da legitimidade. O problema se

    torna mais contundente quando se questiona o fato dessas literaturas serem escritas na lngua

    do colonizador, essa colagem, faz com que a produo literria africana seja encarada como

    uma espcie de produto neocolonial. H uma cobrana para que o autor represente em sua

    obra formas de expresso reconhecidas como autenticamente africano pelos no-africanos.

    Como o tocar de tambores, a natureza selvagem, o velhinho sentado na beira da fogueira, os

    dbios orixs, os mortos que no morrem, e todas as excentricidades que envolve o

    continentes. As narrativas que por ventura no tiver essas caractersticas no podem ser

    consideradas legitimamente africanas.

    Exposto minhas crticas, autocrticas, dificuldades e problemas, s me resta

    convidar o leitor a percorrer os caminhos de meu raciocnio, tendo a certeza de que ainda falta

    muito at o final da estrada. De qualquer forma, apresento meus argumentos sobre a questo

    da historicidade das literaturas africanas de lngua oficial portuguesa. A inteno mostrar

    como a histria construda dentro da literatura e como esta funciona como objeto

    historiogrfico, usando e se inspirando em trs fatores:

    Primeiramente, oralidades tradio oral: ao recorrer a esses elementos

    presentes nas literaturas africanas, o escritor busca inspirao nas coisas de sua terra, mas

    tambm procura pelas memrias do que se passou. A histria sai da memria dos indivduos e

    corporifica-se nas paginas literrias. Em segundo, o passado: o desejo de Buscar o passado

    reflete basicamente duas intencionalidades: desconstruir os argumentos do colonizador,

    comprovando a historicidade dos povos e a grandeza dos reinos africanos de outrora; e

    encontrar um referencial prprio que inspirasse a nao que estava sendo construda,

    demonstrando que as glrias do passado poderiam ser ainda maiores no futuro. E em terceiro,

    a nao: o intuito do tipo de nao que se quer construir deve estar de acordo como o tipo de

    povo que a constituiria. A nica forma de projetar a nao sabendo a histria e os anseios da

    populao.

    Questes sobre a Literatura

    Bhabha (1998) explica que um texto literrio precisa ser dialtico e considerar

    a heterogeneidade da prxis social, cuja articulao textual deve ser aberta s contribuies

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    exteriores, pois a forma artstica impregnada de marcas sociais e histricas, como uma

    relao entre a temporalidade intervalar e a realidade intervalar. Na fronteira entre o

    tempo e a realidade, habita uma quietude do tempo e uma estranheza de enquadramento que

    cria a imagem discursiva na encruzilhada entre histria e literatura, unindo a casa e o mundo

    (1998, p.35).

    Vrios historiadores e crticos literrios, entre eles Antonio Candido (2000) e

    Jean-Paul Sarte (1978), apontam que a literatura deve ser distinta da historiografia, mas que a

    produo literria deve ser respeitada tanto em seu aspecto do passado, enquanto afirmao

    retrospectiva de cultura, como em sua perspectiva de futuro, pela preservao de valores que

    asseguram a continuidade de uma cultura hegemnica e porque, na sua materialidade, a obra

    literria faz circular informaes, traz em voga valores e princpios que constituem a literatura

    como reino especfico.

    Conforme Candido, o estudo da funo histrico-literria de uma obra s

    adquire pleno significado quando referido intimamente sua estrutura, superando-se deste

    modo o hiato freqentemente aberto entre a investigao histrica e as orientaes estticas.

    (2000, p.172). Ao longo dos tempos, a Literatura e a Histria mantiveram relaes estreitas,

    uma complementava ou ilustrava a outra. O autor afirma ainda que a Literatura um

    processo histrico, de natureza esttica, que se define pela inter-relao das pessoas que a

    praticam, que criam certa mentalidade e estabelecem certa tradio. (1995, p.8-9).

    O texto literrio no autnomo em relao ao ambiente histrico e cultural em que produzido. Ele um modo de projeo das questes e pontos de vista que configuram esse ambiente, sintoniza-se, em alguma medida, com a percepo prpria do seu tempo. Noutros termos, a experincia literria no exclusivamente esttica, mas diz respeito a um certo modo de percepo que histrico-cultural, implica uma escolha discursivo-ideolgica daquele que escreve. (CAETANO 2007, p. 3).

    A produo artstica aqui particularmente a Literatura surge como parte do

    processo de consolidao das identidades nacionais, por meio de seu carter de representao.

    Exemplo disso a busca de expresso de identidade cultural que a literatura africana vem

    demonstrando, ao resgatar traos culturais preservados pela oralidade, e atravs de uma voz

    de engajamento social, o que confirma o carter de representao da criao artstica, sendo

    uma projeo que uma sociedade faz de si mesma, buscando representar a realidade, e no

    apenas reproduzi-la.

    Na linguagem artstica, h confluncia de prxis coletivas, de modo que a

    estratgia discursiva se configura como uma insero subjetiva com que o escritor-criador

    procura reciclar formas estabelecidas, cujo imaginrio materializa aspiraes que,

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    dialeticamente, no so apenas suas, mas de toda uma coletividade, de modo que a

    consagrao do objeto de arte s se efetiva a partir da articulao entre a produo artstica e

    um engajamento social, atravs do dilogo da instncia discursiva em vrios nveis com o

    conjunto da vida cultural, evocando temas relativos s carncias do povo (MAGNANI, 2001,

    p.31).

    Para Magnani (2001), a literatura elemento transformvel e transformador,

    pela dialtica entre a simbologia da obra e a simbologia social, em que o indivduo atinge o

    universal, seja pela liberdade de formas ou pela intertextualidade que permite correlaes

    entre obras de pocas diferentes, o que possibilita criao literria instituir-se como fator

    multicultural. Essa condio dialtica se explica pelo fato de que a ficcionalidade simboliza

    um espao pblico, compreendendo-se como uma retomada e uma reconfigurao da maneira

    como uma sociedade simboliza a sua Histria.

    Essa relao Histria-fico um dos elementos que reforam a funo

    humanizadora da literatura, sobretudo pelas possibilidades de (re)criar, questionar,

    transformar. A literatura uma forma de conhecimento da realidade que se serve da fico e

    tem como meio de expresso a linguagem artisticamente elaborada (DONOFRIO, 1999,

    p.10), ou seja, o prprio conceito de literatura est relacionado ao contexto e ao julgamento de

    valor, e este julgar relaciona-se com o meio histrico. A obra de arte como uma sntese de

    toda potencialidade humana, revelando sua importncia, fracassos, negaes, levando o ser

    humano reflexo. A literatura no corrompe nem edifica como convencionalmente a

    rotulamos, ela traz livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal,

    humaniza em sentido profundo, porque faz viver (CANDIDO, 1972, p.5).

    Jobim (1992) esclarece que o autor, ao elaborar sua obra, conhece as

    delimitaes do considerado literrio no momento, induzido pelo prprio contexto, pelas

    normas vigentes. Cada poca tem seu quadro de referncia, normas estticas, convenes,

    vises e valores de mundo para relacionar e constituir a literatura, a partir das quais efetua

    julgamento.

    Na relao Literatura e Histria, no se deve investigar at que ponto, ou

    melhor, at onde se estende o discurso literrio, ou em que ponto se inicia ou se limita o

    discurso histrico, mas sim realizar um dilogo produtivo entre estes elementos, conforme a

    concepo aristotlica da imitao artstica da realidade. evidente que no compete ao

    poeta narrar exatamente o que aconteceu, mas sim o que poderia ter acontecido, o possvel,

    segundo a verossimilhana ou a necessidade (...) (MAGNANI, 2001, p.78).

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    Assim entendida, a obra literria pode reciclar o mundo, de forma que

    atravs de um discurso subjetivo, possvel chegar-se verdade histrica atravs da literatura,

    pois no se trata de substituir a histria pela fico, mas de possibilitar uma aproximao

    potica em que todos os pontos de vista contraditrios, mas convergentes, estejam presentes,

    formando uma representao totalizadora, uma forma privilegiada de se ler os signos da

    histria. (ESTEVES, 1998, p.12).

    Neste pressuposto, pode-se dizer que o texto literrio muitas vezes serve de

    instrumento para retratar a realidade, com intuito de pensar, persuadir, informar, documentar,

    alertar, refletir ou simplesmente proporcionar prazer ao leitor, mas tambm como condutor de

    conhecimentos do mundo, cuja prxis social permite a conscientizao de realidade passadas,

    presentes e de projees futuras. Para Zilberman (2002), a literatura metalingisticamente

    social e ideolgica, tendo como funo principal o discurso de compromisso com a realidade,

    com a histria.

    Trajetrias histricas, perspectivas literrias:Angola, Moambique, Cabo

    Verde, Guin Bissau e So Tom e Prncipe:

    As relaes entre portugueses e africanos estabelecida desde o sculo XV,

    estreitam-se pelas feitorias de captura de escravos destinados, a grande maioria, s economias

    de plantations na Amrica, principalmente no Brasil. O fim do trfico e a independncia do

    Brasil impem necessidade de se pensar um novo imprio. Como pontua Valentim (2000), o

    imaginrio portugus criou a idia de que o pas no poderia sobreviver sem o imprio devido

    ao perigo de ser absorvido pela Espanha, devendo, portanto, criar um novo Brasil. A idia

    vai marcar todo pensamento nacionalista portugus dos sculos XIX e XX, que v na

    construo de um novo sistema colonial a preservao da herana histrica e a garantia da

    existncia da nao. (2000, p. 181).

    A postura de Portugal frente aos povos africanos foi condicionada pelos

    diferentes momentos histricos, mas foi certamente no final do sculo XIX, com a

    conferncia de Berlim, que a situao se altera visivelmente. Serrano (2007), pontua que este

    encontro teve como principal objetivo regulamentar a expanso das potncias coloniais na

    frica, visava ordenar e estabelecer consensos diplomticos. Uma das resolues diz respeito

    necessidade de uma ocupao efetiva, essa atitude provoca uma alterao na relao frica-

    Europa, j que a obrigatoriedade da presena acontece por intermdio da violncia fsica e

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    simblica. O moderno Imperialismo usou de estratgias poltico-ideolgicas para justificar a

    presena e a brutalidade do ato colonial.

    Uma das grandes armas do imperialismo o poder de nomear e rotular. O

    pensamento dominante a partir de uma perspectiva preconceituosa, promoveu com freqncia

    reflexes equivocadas sobre a frica. Esse olhar quase sempre foi realizado com lentes

    imprprias o que provocou vises distorcidas e equivocadas. Todas as idias preconceituosas

    e racistas foram revestidas de legitimidade cientfica (especialmente antropolgica), fazendo

    com que se tornassem instrumentos polticos para comprovar a superioridade ocidental e

    justificar a invaso sistemtica de pases europeus na frica. Segundo Andersom Oliva, essas

    teorias tiveram um efeito norteador nas representaes elaboradas sobre os africanos do

    sculo XIX em diante. A dominao imperial, a imposio da f crist e dos valores

    europeus, estariam justificadas pela inferioridade biolgica, mental e espiritual dos povos do

    continente. (2005, p.104)

    O imaginrio ocidental construiu uma imagem da frica comprometida com as

    teorias evolucionistas e o Darwinismo social. Os africanos, a partir dessa perspectiva, foram

    classificados para ocupar os estgios iniciais da evoluo humana. Assim, estariam muito

    mais prximos dos animais do que do homo sapiens. O continente seria um espao onde

    povos identificados como primitivos viveriam em um estado de barbrie. As relaes seriam

    regidas por crendices e supersties. Segundo Hernandez, o termo africano ganha um

    significado preciso: negro, ao qual se atribui em amplo espectro de significaes negativas

    tais como frouxo, fleumtico, indolente e incapaz (2005: p.18). As sociedades africanas

    foram entendidas como sem cultura, sem arte, sem escrita, logo, sem histria.

    A lgica colonialista incorporou o discurso da diferena e inferioridade para

    justificar as suas aes no Continente Africano. A presena europia seria uma ajuda para

    que os povos superassem seus atrasos. O modo de viver europeu seria um espelho, um

    modelo a ser seguido no caminho da evoluo humana, s assim os africanos iriam estrear sua

    presena na histria da humanidade. Para Fanon (2005), um dos artifcios usados pelo

    colonizador na sua tarefa de subjugao foi a desvalorizao dos sujeitos e do passado dos

    colonizados.

    (...) o colonialismo no se contenta com impor a sua lei ao presente e ao futuro do dominado. O colonialismo no se contenta com encerrar o povo nas suas redes, com esvaziar a cabea do colonizado de qualquer forma e de qualquer contedo. Por uma espcie de perverso da lgica, orienta-se para o passado do povo oprimido, distorce-o, desfigura-o, e aniquila-o. Essa empresa de desvalorizao da histria anterior colonizao assume hoje o seu significado dialtica. (FANON, 2005: p. 244)

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    Nessa medida, as literaturas africanas nascem como uma recusa literatura e

    ao pensamento colonial. Tornam-se um espao de negao, protesto e reivindicao. A

    inteno reescrever sua histria, que no ser concebida como um simples anexo da histria

    ocidental. Desconstruir a discursividade colonial uma maneira de reinscrio e reinveno

    da frica. Na efetivao desse projeto, que se alinhava na luta contra o colonialismo, e na

    tentativa de edificar sua histria, a literatura lana mo de alguns artifcios que tm como

    principal objetivo ressaltar a africanidade dessas produes.

    A formao e o desenvolvimento das literaturas africanas de lngua portuguesa, desde o primeiro livro impresso, em 1849, at actualidade, passaram pela construo do ideal nacional no discurso. No discurso literrio, o nacionalismo foi a antecipao da nacionalidade, modo especfico de a escrita se naturalizar como prpria de uma Nao-Estado em germinao. A conscincia nacional, no discurso literrio, atravessou, assim, diversos estdios de evoluo, desde meados do sculo XIX at actualidade. (LARANJEIRA, 2001,p.185).

    A incorporao de elementos da oralidade, a desconstruo gramatical da

    lngua oficial, a mitificao do passado glorioso, o aspecto de denncia, o intenso

    compromisso poltico, o uso de lnguas e expresses culturais nativas, representam a nsia

    desses escritores em se afastar da perspectiva colonial e fundar algo que pudesse ser visto e

    identificado como efetivamente africano. A elaborao de um contra-discurso colonialista est

    presente na poesia Negra da poeta moambicana Noemia de Sousa

    Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos Quiseram cantar teus encantos Para elas s de mistrios profundos, de delrios e feitiarias... Teus encantos profundos de frica. Mas no puderam. Em seus formais e rendilhados cantos, Ausentes de emoo e sinceridade, quedas-te longnqua, inatingvel, Virgem de contactos mais fundos. E te mascararam de esfinge de bano, amante sensual, Jarra etrusca, exotismo tropical, Demncia, atrao, crueldade, Animalidade, magia... E no sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

    Nesse caminho, a oralidade um dos elementos mais importantes que

    compem essa estratgia de desconstruo da imagem produzida pelo ocidente em relao

    frica. A incorporao dessa forma discursiva nas obras literrias a maneira que os autores

    encontraram de evidenciar caractersticas lingsticas presentes nas culturas locais, que foram

  • 11

    inferiorizadas pelo colonizador, buscavam com essa medida uma maior identificao com as

    referncias nacionais. A evocao dessa forma de expresso a legitimao do tipo de

    conhecimento ancestral que ela produz. A valorizao da oralidade tambm a exaltao da

    sabedoria milenar que rege esses povos, e do seu passado glorioso fielmente guardado na

    memria e repassado verbalmente ao longo das geraes.

    Um dos grandes equvocos forjados pelo pensamento ocidental foi pensar a

    frica como um continente grafo. A questo se resumia no fato de que se um povo no tem

    escrita, no tem uma histria. Essa simplificao no era inocente, ignorar a singularidade do

    continente e suas especificidades culturais era a maneira de as potncias ressaltarem suas

    diferenas e firmarem sua superioridade perante o outro. No era desconhecido dos Europeus

    que parte da frica tinha um moderno sistema de escrita, principalmente em regies que

    foram penetradas pelo Isl. Tambm no segredo nenhum a antiguidade da escrita egpcia

    (hierglifos).

    Seria um erro reduzir a civilizao da palavra falada simplesmente a uma

    negativa ausncia do escrever, e perpetuar o desdm inato dos letrados pelos iletrados

    (Vansina, apud Fonseca, 2006: 115). Na verdade, o que se tem uma predominncia da

    oralidade em detrimento da escrita. Mesmo em lugares com escrita, muitas vezes ela era

    relegada a um plano secundrio. O fato de ter sido essencialmente grafa no priva a frica

    de ter um passado e um conhecimento legtimo, como alegavam os europeus.

    Vale salientar que as oralidades no so algo da natureza intrnseco ao

    africano. Esse tipo de essencializao se mostra perigoso ao atribuir a aspectos culturais a

    origens biolgicas. Segundo Leite, a predominncia da oralidade em frica resultante de

    condies histricas (...). Apesar disso, muitos crticos partem do princpio da que h algo de

    ontologicamente oral em frica, e que a escrita um acontecimento disjuntivo e aliengeno .

    (Leite, 1998: 17).

    Narrar histrias est na base da condio de ser humano, est relacionado com

    a necessidade de resgatar a experincia da perenidade e da fragilidade da vida. Na frica, a

    presena da oralidade est diretamente relacionada com a importncia da memria, do

    testemunho. Para Hampat Ba, o conhecimento sobre a frica s ser possvel caso se apie

    nessa herana de conhecimento de toda a espcie, pacientemente transmitidos, de boca a

    ouvido, de mestre a discpulo ao longo dos sculos. Essas heranas pode se dizer so

    memrias vivas da frica.(B, 1982: p.182).

    Fernanda Cavacas (2006), afirma que a tradio oral na frica um sistema de

    auto-interpretao concreta. Por ela a sociedade explica o outro e a si prpria. A palavra

  • 12

    falada traz em si a inteno da aprendizagem, que feita dentro da prpria famlia, atravs

    dos mais velhos, dos tradicionalistas ou griots. A transmisso da experincia por intermdio

    da palavra falada, alm do seu valor moral fundamental, possui carter sagrado, e associada

    com uma origem divina e com foras ocultas nela depositadas.

    A palavra falada o cdigo social que rege as instituies, tem a funo de

    depositria da memria e do saber institudo, regida pela fora da voz. A tradio oral, de

    acordo com Hampat Ba (1982), ao mesmo tempo religio, cincia natural, iniciao arte,

    histria, divertimento e recreao, tudo o que uma sociedade considera importante para o

    perfeito funcionamento de suas instituies, para uma correta compreenso dos vrios status

    sociais e seus respectivos papis para os direitos e obrigaes de cada um, tudo

    cuidadosamente transmitido. Esses conhecimentos so passados em forma de provrbios,

    mximas, adgios, lendas, fbulas, poesias, contos, msicas, histrias e mitos. Ainda segundo

    o autor,

    Nas civilizaes orais, a palavra compromete o homem, a palavra o homem. Da o respeito profundo pelas narrativas tradicionais legadas pelo passado, nas quais permitido o ornamento na forma ou na apresentao potica, mas onde a trama permanece imutvel atravs dos sculos, veiculada por uma memria prodigiosa que a caracterstica prpria dos povos de tradio oral. Na civilizao moderna, o papel substitui a palavra . ele que compromete o homem.(B, 1997p.).

    A oralidade, sendo um dos elementos mais representativos das culturas

    africanas, invade a escrita formal da lngua portuguesa, assumindo um novo papel, dando um

    outro tom s narrativas. Segundo Loureno Rosrio, a literatura de tradio oral se encontra

    refletida na literatura escrita na forma e no contedo, com a adoo de recursos estticos,

    integrao de elementos estruturais e recuperao de valores, o que permite sugerir que a

    cidade e o campo esto to prximos, na conjuntura atual, de tal forma que impossvel

    vislumbrar universos integrados dessa proximidade criando modelos de identidade.

    A tradio oral um dos grandes temas das literaturas, em parte por ser uma

    das marcas das ideologias nacionalistas. Com os movimentos de libertao, houve a

    necessidade de buscar elementos que gerassem, nas populaes, um sentimento de

    identificao, orgulho e reconhecimento dos traos culturais. O apelo oralidade est

    relacionado com a partilha de um sentido, uma ligao comum que une as populaes, a

    literatura ao incorporar esses elementos exaltava a diferena frente ao colonizador e resgatava

    a dignidade das culturas africanas.Alfredo Margarido (1987) pondera que a recuperao da

    autonomia cultural antecipava e confirmava a recuperao da autonomia poltica.

  • 13

    Se esse apego ao passado pode ser percebido na escolha temtica, no domino da estrutura potica podemos detectar outros sinais desse enraizamento. Estamos pensando na presena da tradio oral que sutilmente corta essa produo literria. Surge explicita ou implicitamente um tom de conversa sugerindo a interlocuo prpria da oralidade. (CHAVES, 2000 p. 248).

    fundamental pensar a oralidade e o seu papel transformador nas anlises

    feitas sobre as literaturas africanas. A linguagem literria ajusta-se aos propsitos do escritor

    africano de ressaltar elementos que expressem seu povo, a nica forma de conseguir se ver na

    lngua do opressor e burlando as regras gramaticais do portugus. A desobedincia traduz-se

    na adoo de procedimentos que envolvam o campo lexical, morfolgico, sinttico, valendo-

    se de emprstimos das lnguas locais e de tudo mais que considere vlido para conferir uma

    feio africana linguagem portuguesa. A utilizao de expresses nativas, o recurso aos

    provrbios veiculados nas lnguas nacionais, a criao de termos atravs de processos de

    amlgamas, o uso sem preconceitos de corruptelas prprias da fala popular, constituem a base

    do fenmeno de apropriao e contaminao do idioma oficial. A lngua j no a que o

    colonizador trouxe, ela que outrora foi um veculo privilegiado de dominao, agora um

    veculo de libertao, pois sofre um processo de metamorfose, de africanizao.

    Por intermdio da insubmisso s regras da literatura colonial e aos valores do

    colonialismo, funda-se um novo estilo lingstico comprometido com o seu povo. Buscam-se

    novos parmetros para pensar e dizer o pas. A lngua escrita um dos meios escolhidos para

    recuperar a mundividncia mtica, as marcas culturais da sociedade tradicional, o onirismo e a

    simbologia a ela ligados, privilegiando a relao entre homem e natureza. Como bem define

    Secco (2006), h uma oraturizao do sistema verbal portugus. Nessa dinmica, elementos

    fundamentais da oralidade so agora apropriados pela escrita. Dessa maneira, de acordo com

    Leite,

    O romancista africano tende a recuperar simbolicamente a preeminncia do narrador que, na tradio oral, recebe o legado e o retransmite, orientando o acto narrativo, com autoridade incontestada pelo seu pblico, e pelas personagens da sua narrativa. (LEITE, 2005: 60).

    As literaturas escritas em lngua oficial portuguesa coexistem na maleabilidade

    das narrativas, fazendo coabitar o novo com o antigo, a escrita com a oralidade, num discurso

    hbrido. Origina uma escrita criativa mestia, resultante dos dilogos entre formas de

    textualidade das lnguas europias escritas e formas de textualidade das lnguas nativas. As

    palavras falam da busca de um lugar entre o que poder ser e o que foi, da procura de uma

  • 14

    identidade condicionada ao exerccio constante da sobrevivncia nas diferenas. Como bem

    definiu o escritor moambicano Mia Couto (2002), o portugus sozinho no consegue

    transmitir a realidade africana, h que se usar as potencialidades da lngua portuguesa e

    trabalh-la inserindo elementos que possam representar os significados da frica. Nessa

    perspectiva, nada mais prprio do que as oralidades, essa mutao nada mais de que uma

    maneira africana de contar coisas africanas usando a lngua portuguesa. O poeta

    moambicano Jorge Viegas nos mostra em sua poesia Subverso a importncia da

    transformao lingstica como forma de contestao da ordem instituda.

    O pintor subverte a paisagem O poeta subverte os planos da linguagem O guerrilheiro subverte os homens sem mensagem. Subverte, Subvertemos. Subvertidos fomos. subverso devemos A estatura do que somos.

    Na construo de modelos literrios e culturais prprios em um processo de

    auto-afirmao, de busca de expresso prpria, a autoridade e as certezas institudas pelo

    discurso hegemnico do colonizador so subvertidas, questionadas, desestabilizadas para

    produzir um novo discurso hbrido e libertador, em consonncia com o momento poltico, seja

    de luta pela independncia, seja de luta pela consolidao do estado nacional. A percepo da

    individualidade dessas culturas subalternas cria uma poltica afirmativa das diferenas, um

    pensamento da margem que prima pela lgica da diversidade, da enunciao fraturada e

    hbrida. O processo de ressimbolizao do que ser africano, moambicano, macua, formula

    um projeto libertador que poltico e literrio, compromissado com os referentes histricos.

    A criatividade e a inventividade lingsticas so caractersticas de literaturas que se querem afirmar diferentes da do colonizador, que se inscrevem na mesma lngua, de certa maneira corporizando as aspiraes colectivas e estilizando uma tendncia natural do dinamismo de uma lngua quando transportada pra outros espaos, falada por outras gentes, para expressar realidades outras. (MATA, 1998, p.263).

    A luta contra a dominao estrangeira e pela firmao de uma identidade

    nacional efetuada pela literatura passa necessariamente pela retomada da dignidade do

    passado. A descaracterizao da imagem forjada pelo opressor se d por intermdio de uma

    recuperao e valorao da histria que fora negada ou mal contada pelo colonizador. Essa

    incurso ao passado se faz necessria na medida em que criar um sentimento nacionalista ou

  • 15

    de identificao nacional requer, obrigatoriamente, se livrar da negatividade imposta pelo

    colonizador e fundar bases que afirmem a aspirao da construo de um pas independente

    ou de uma nao consolidada. Esse exerccio quase sempre feito pela criao de mitos

    fundadores, inveno de tradies, criao de heris, elevao do passado.Para Manoel

    Ferreira (1987) o texto literrio africano nega a legitimidade do colonialismo e faz da

    revelao e da valorizao do universo africano, sua raiz primordial.

    A incorporao da oralidade tambm a introjeo do que a compe. Os

    eventos narrados ou cantados pelos chamados detentores da memria social, assumem um

    papel determinante diante da literatura escrita, j que resguardam do esquecimento os grandes

    feitos hericos e as civilizaes esplendorosas de pocas passadas, que foram desconsideradas

    pelo colonizador. A destituio da Histria Oral do estatuto de legitimidade no foi por acaso

    ou inocente, mas tratou-se de uma estratgia de negao da historicidade do continente

    africano.

    A compilao dessas experincias ao longo do tempo no foi feita em letras,

    papel ou pergaminho, mas na mente daqueles que eram designados para serem os guardies

    da histria de um povo, que poderiam ser os tradicionalistas, griots1, ou o mais velho da

    comunidade. Apesar de no fazer parte do territrio colonizado por Portugal, que o nosso

    espao de compreenso, a epopia de Sundjata, ou epopia Mandinga, que foi coletada das

    histrias orais pelo historiador senegals Djibril Tamsir Niane, um exemplo cabal de como

    as narrativas orais podem fornecer informaes importantes sobre o passado dos povos

    colonizados. Essa narrativa oral africana nos conta a respeito dos feitos e glrias do fundador

    do Imprio do Mali, Sundjata Keita, mas tambm nos proporciona importantes revelaes

    sobre a vida social, poltica, a idia de tempo, espao, as religiosidades e a penetrao do isl

    naquela sociedade.

    Voltar ao passado se transforma numa experincia de renovao, de autognose,

    de dimensionar sua prpria existncia. Ao colocar em letra e papel as histrias bem

    conhecidas pelas primorosas memrias, tem-se a oportunidade de se fazer reconhecer e

    lembrar a si e ao colonizador que grandes reinos e civilizaes fizeram parte da frica, como

    o Imprio da Etipia, Egito, Nbia, Gana, Songai e Monomotapa. De acordo com a professora

    Rita Chaves,

    Instrumento de afirmao da nacionalidade, a literatura ser tambm um meio de conhecer o pas, de mergulhar num mundo de historias no contadas, ou mal contadas, inclusive pela chamada literatura colonial (...) Personagens lendrios so recuperados no recorte que interessava s circunstancias do momento, o que significa erguer um ponto de vista diverso daquele que at ento vigorava. Tratava-

  • 16

    se, sem dvida, de voltar-se contra o processo de reitificao que est na base do modo colonial de ver o mundo. (2000, p. 251).

    A invaso das naes europias no continente africano de fato uma parte da

    histria da frica, mas no a histria em si. A inaugurao histrica desse continente no

    se d com a presena do colonizador, sempre bom lembrar que o contato da frica com os

    povos europeus foi uma constante desde os primrdios da histria da humanidade. Eles eram

    realizados sempre sob a tica da autonomia e liberdade. Esse estado s fora alterado no final

    do sculo XIX com a corrida colonial.

    A efetiva presena europia na frica, acompanhada pela violncia da

    dominao, no foi realizada de maneira submissa e pacfica. A resistncia agresso do

    colonizador foi permanente nesse processo de dominao. Muitas foram as formas e os

    movimentos de resistncia frente ao colonizador. Esses eventos so de extrema importncia,

    j que enfatiz-los dar luz a importantes indivduos histricos que fizeram da luta de

    libertao parte de suas vidas. A partir dessa dialtica dominao/resistncia, uma nova

    relao entre subjugador/subjugado se impe e dita o futuro das sociedades africanas.

    A luta contra o colonialismo constituiu-se em negao da submisso secularizada e introjetada no esprito do colonizado. Assume, em virtude disso, o carter de luta contra todos os valores de que o colonizador portador e defensor. Por outras palavras, o combate configura a necessidade da busca de valores que afirmem o colonizado e neguem o colonizador. A ruptura pressupe a recuperao da prpria histria. (SILVA,1996, p.69).

    As literaturas cabo verdianas, so tomenses, guineenses, moambicana,

    angolana, configuram-se como um importante instrumento de resistncia frente explorao

    portuguesa. Uma das estratgias usadas nessa prtica a valorizao, da Histria nacional. A

    busca pelo orgulho do passado realizado pelos artistas, no se d unicamente em nveis

    nacionais, as glrias que so exaltadas so de todos os povos do continente que esto

    engajadas na luta contra o imperialismo. Essa atitude revela um sentimento de solidariedade e

    cumplicidade que unia todos em torno de uma experincia e de um objetivo em comum: o

    colonialismo e a liberdade. Em relao a essa postura de valorizao do passado, de maneira

    continental, Fanon (2005) justifica afirmando que uma resposta ao colonialismo, j que este

    tambm exerceu sua dominao e condenao em nvel continental. Segundo o autor,

    Esse mergulho no especificadamente nacional. O intelectual colonizado que decide declarar guerra s mentiras colonialistas trava esse combate escala do continente. Valoriza-se o passado. A cultura que arrancada ao passado para ser mostrada em todo o seu esplendor (...). O intelectual colonizado que partiu muito

  • 17

    longe do lado da cultura ocidental e que decide proclamar a existncia de uma cultura nunca o faz em nome de Angola ou Daom. A cultura que se afirma a cultura africana.(FANON, 2005: p.245)

    Essas literaturas sempre estiveram antenadas com os movimentos polticos,

    sociais, de resistncia e solidariedade ao povo negro, como o pan-africanismo e a negritude,j

    que estes tambm trazem em seus pensamentos a iniciativa de valorao do passado e a

    mitificao do continente. Essas formas de manifestao so guiadas por uma noo de

    irmandade simblica, que visava o combate ao racismo, a luta pela liberdade e a positivao

    do negro. Essas mobilizaes que se efetivaram no mbito poltico e acadmico, repercutiram

    e influenciaram ideologicamente na criao de grupos culturais, revistas, grmios, sindicatos

    e, principalmente, nas polticas de luta pelas independncias. As literaturas tomadas como

    objeto neste trabalho, tambm tiveram esses ideais refletidos em suas produes,

    principalmente os da negritude.

    A negritude considerada um dos mais importantes movimentos potico-

    cultural e poltico-social de crtica ao colonialismo e ao racismo, foi um dos principais

    instrumentos ideolgicos nas lutas de libertao nacional na frica. Tinha entre seus

    objetivos: a conscientizao e reivindicao dos direitos civis dos negros, a reverso do

    sentido pejorativo de elementos que eram associados ao mundo negro, a construo de uma

    nova identidade baseada no critrio racial fosse ostentada com orgulho. A negritude

    tributria do sentimento de fidelidade, e solidariedade racial do pan-africanismo, uma

    resposta identitria, racial e tnica ao excludente universalismo colonialista. A negritude, com

    o seu discurso sobre o colonialismo, teria como objetivo criar um alteridade que se

    contrapusesse identidade imposta pela metrpole, muitas vezes a partir de suas polticas de

    assimilao2.

    Para Laranjeira (1975) a poesia da Negritude foi escrita com a inteno, entre

    outras, de fazer passar uma mensagem de luta anti-colonial e de crena na mudana.Esses

    encontra-se estampado na poesia Cano do Mestio do so tomense Francisco Jos Tenreiro,

    Eu tambm canto a Amrica Eu sou o irmo mais escuro Eles me mandam comer na cozinha Quando as visitas chegam, Mas eu dou gargalhadas E como bem, E como forte Amanh Eu sentarei mesa Quando as visitas chegarem.

  • 18

    Ningum ir ousar Dizer-me, Coma na cozinha Ento.

    O conceito de africanidade, que converge do ideal continentalista,

    fundamental para a idia de autonomia tanto poltica quanto cultural, por radicar uma posio

    marcada por questes de ordem libertria, de contestao ao eurocentrismo, de construo das

    identidades dos povo africano, constituindo uma luta que historicamente tem sido incorporada

    pela literatura no continente.

    A negritude, por sua vez, como um discurso do homem negro universal,

    introduz no discurso literrio uma conscincia racial que supera diferenas de classe e tnia

    para expor a condio do sujeito explorado e alienado no decurso da histria. Segundo

    Laranjeira,

    O discurso da Negritude constitui, portanto, a emergncia esttica da ampla doutrina da africanidade e da ideologia pan-africanista, contributo inestimvel para o fazer literrio segundo uma concepo autonomista que, embora aceitando naturalmente os contributos culturais variados (polticos, ideolgicos, cientficos, tnicos, populares, eruditos, etc.), incluindo os europeus, se atm a princpios autonomistas, africanos, anti-colonialistas, recusando a submisso aos padres impostos pelas potncias dominantes. (2001,p.53).

    A construo da identidade nacional, conquanto guarde especificidades, passa

    pela experincia que a frica teve nos ltimos cinco sculos. Com a chegada dos primeiros

    portugueses, ainda no sculo XV, iniciou-se um processo de administrao dos conflitos

    popularmente conhecido como dividir para reinar, desencadeado pelos exploradores. Em

    um continente que j tinha problemas de disputa interna pela dominao entre etnias, a

    ganncia depredadora dos imprios europeus, sobretudo portugus, ingls e francs, acirrou

    hostilidades entre comunidades de uma mesma regio. Esses problemas, somados

    demarcao aleatria dos limites geogrficos na Conferncia de Berlim (1884-1885),

    dificultaram o surgimento de um sentimento de unidade nacional.

    Em face disso, os conceitos de africanidade e negritude desempenham um

    papel fundamental na legitimao, de um sentimento de unidade nacional, e de autonomia,

    que passava simultaneamente pela luta armada. A literatura africana incorpora e transmite

    esses ideais. Ela passa a ser uma bandeira, um estandarte onde a ideologia da libertao

    pintada em cores fortes e intensas, as idias da ptria livre e nao autnoma confundem-se

  • 19

    com a prpria arte. O escritor quem porta, transmite os desejos da sociedade a sua

    mensagem um brado de denuncia contra a opresso, Tecto de Silncio do poeta guineense

    Antonio Soares Lopes um grito contra a violncia do opressor.

    Ergo a minha voz E firo o tecto de silncio Nego a morte de crianas Porque h mngua de medicamentos

    Na angstia Liberto o verbo Mordo o plen da desgraa Que grassa Nesta frica desventurada Em obra E graa Subdesenvolvendo-se

    Antony Smith (1997), argumenta que as naes e o nacionalismo devem ser

    compreendidos como fenmeno cultural e no apenas como ideologia ou forma de poltica. O

    nacionalismo se relaciona como conceito de identidade nacional de carter multidimensional,

    que compreende sentimentos, simbolismo e uma linguagem especfica. Assim, a identidade

    nacional encarada como um fenmeno cultural coletivo. A identidade individual, por sua

    vez, que vai compor esse coletivo, formada por mltiplos papis sociais e categorias

    culturais, baseados em classificao de carter mvel. Essas categorias, segundo Smith, so

    classificadas, conforme as identidades, em familiar, territorial, de classe, religiosa, tnica e de

    gnero sexual.

    Ao analisar a relao do sujeito fragmentado e suas identidades culturais,

    Stuart Hall parte do princpio de identidade nacional para afirmar que a identidade cultural

    metafrica, no est impressa em nossos genes. Nesse sentido, a nao passa a ser sistema de

    representao cultual, onde as pessoas participam da idia de nao tal como representada em

    sua cultura nacional, numa forma de comunidade simblica. Portanto, as diferenas regionais

    e tnicas foram aos poucos sendo colocadas no que Ernest Gellner chama, segundo Stuart

    Hall, de teto poltico do estado nao, num discurso prprio que organiza e constri

    sentidos com os quais o sujeito se identifica e forma a prpria identidade.

    A busca pela identidade cultural de um povo passa pelas diversas etapas de

    construo da nao, dentro do processo inevitvel de evoluo e involuo histrica.

    Segundo Abdala Junior, independe da situao em que se encontra, seja colnia ou antiga

    metrpole, as razes de qualquer nao esto nos mltiplos povos que a formaram e que

  • 20

    conseguiram desenvolver culturas to interessantes como qualquer outra (ABDALA JR,

    1989, p.181). O que surge em questo, portanto, no o tipo ou a forma de manifestar-se

    culturalmente dos povos formadores de uma nao, tampouco julgar o valor de cada

    manifestao para determinada sociedade, mas o fato de serem culturas fundadoras e,

    consequentemente, parte de um coletivo vrias vezes reprimido ao longo da histria.

    A colonizao tardia fez com que o incipiente nacionalismo fosse decisivo para

    os movimentos de libertao. Liderado por intelectuais muitas vezes vinculados vivendo fora

    do pas, a revoluo precisava convencer uma ampla diversidade tnica e lingstica a lutar

    por uma causa comum, nacional. Mormente nas cidades e em regies mais prximas dos

    conflitos armados, consolidava-se um sentimento nacional patritico, embora estivesse mais

    ligado reao contra um inimigo estrangeiro comum do que propriamente ao sentimento de

    pertena a uma comunidade imaginada, como conceituou Benedict Anderson (1989).

    Pensar essas literaturas a partir de uma perspectiva histrica reconhecer o

    importante papel exercido por elas na construo, ainda que inacabada, da idia de nao.

    Podemos delimitar duas posturas diferentes frente questo nacional no pr-independncia,

    quando a literatura era realizada como um instrumento poltico de combate ao colonialismo,

    auto firmao, cuja preocupao naquele momento era derrotar o inimigo colonial. No ps-

    independncia, quando houve uma modificao de perspectiva no que tange ao aspecto

    poltico-instrumental de que a literatura servia revoluo. O ponto de observao passa a ser

    interno, as preocupaes so de mbito nacional no mais continental. De qualquer forma, a

    idia, a compreenso de que so os estados-nao, em frica, passa necessariamente pela

    literatura. Patrick Chabal (1954) afirma que,

    A literatura uma componente central da identidade cultural de todos os estados-nao, apesar de evidentemente ser muito mais do que isso. Nessa perspectiva, a moderna literatura melhor entendida historicamente como uma das mais importantes formas de produo cultural, atravs das quais um estado-nao pode ser identificado. (1994, p.15)

    Mesmo aps os processos de independncia, as literaturas moambicana,

    angolana, so tomense, cabo verdiana e Guineense, continuam sendo um palco de reflexo

    sobre a realidade dos recentes estados nacionais. Ocorre apenas uma mudana de perspectiva

    dos autores, o foco no mais um discurso ufanista de oposio ao regime colonial, agora, de

    acordo com Salgado (2004) os escritores ps-coloniais buscam novos caminhos e

    experincias ficcionais, continuam ligados ao fenmeno colonial, mas voltam-se para

    questes que aflige as sociedades no presente. Segundo Benjamim Abdala Junior (2003) a

  • 21

    identidade cultural dos pases colonizados mostra-se por uma luta que no se esgota na

    independncia poltica. uma conquista contnua de uma autodeterminao a efetivar-se

    dentro das condies de subdesenvolvimento e de necessidade de modernizao.

    Num tempo distpico, atravessado pelo desencanto e pela perda da inocncia, o tempo ps-colonial, Memria e Histria so agora matrizes do novo discurso da identidade cuja topologia passa tambm pela revitalizao de um passado e o questionamento de um passado mtico, construdo sobre uma mstica do herico e do pico, em que radica o discurso nacionalista. (MATA, 1999, p.253).

    A preocupao no mais o colonizador, mas o rumo que a ptria toma, a

    relao do mundo com a frica e da frica com o mundo, a relao povo e poder institudo.

    inegvel o clima de desencantamento presente em algumas obras. Sentimento gerado talvez

    pelas guerras civis que assolaram os pases e que colocaram irmos contra irmos. Ou pela

    postura tirana e violenta que alguns chefes de estado assumiram ao conquistar o poder. O

    romancista angolano Pepetela em sua obra A Gerao da Utopia nos mostra o clima de

    incerteza e rememorao dos fatos vividos, que invade a Literatura.

    (...) Costumo pensar que a nossa gerao devia chamar a gerao da utopia. Tu, eu, Laurindo, o Vtor antes, para s falar dos que conheceste. Mas tantos outros, vindos antes ou depois, todos ns a um momento dado ramos puros e queramos fazer uma coisa diferente. Pensvamos que amos construir uma sociedade justa, sem diferenas, sem privilgios, sem perseguies, uma comunidade de interesses e pensamentos, o Paraso dos cristos, em suma. A um momento dado, mesmo que muitos breve nalguns casos, fomos puros, desinteressados, s pensando no povo e lutando por ele. E depois... Tudo se adulterou, tudo apodreceu, muito antes de se chegar ao poder. Quando as pessoas se aperceberam que mais cedo ou mais tarde era inevitvel chegarem ao poder. Cada um comeou a preparar as bases de lanamento para esse poder, a defender posies particulares, egostas. A utopia morreu. E hoje cheira mal, como qualquer corpo em putrefao. Dela s resta um discurso vazio. (...)2

    Para Kwame Anthony Appiah (1997), os modernos escritores europeus esto

    voltados para a descoberta de um eu que seja objeto de uma viagem interior de

    descobrimento. Sua referncia si mesmo e sua preocupao com a autenticidade e como

    existencialismo. Os escritores africanos por sua vez, esto preocupados com o ns. O seu

    problema consiste em descobrir um papel publico, sua luta para desenvolver suas culturas.

    Para esse autor h uma profunda diferena entre os projetos dos escritores contemporneos

    europeus e africanos: uma diferena que resumirei, a titulo de slogan, como a diferena entre

    a busca do eu e a busca de uma cultura. (p. 113)

    2 PEPETELA. A gerao da utopia. 3. ed.Lisboa: Dom Quixote, 1995, p.202.

  • 22

    O autor supracitado ressalta a necessidade de o intelectual (escritor) africano

    ver a frica no como um subproduto do olhar ocidental civilizado, no o continente pan-

    africano ou negro, mas a partir de sua cultura, um olhar de dentro, com suas tenses,

    contradies, conflitos e heranas. Rita chaves (2000) argumenta que a conscincia da ruptura

    aberta pelo colonialismo clara e ilumina a inevitabilidade da situao que mesmo a

    independncia no pode solucionar. Diante do panorama que se abre, no h regresso o que

    resta a fazer dinamizar o legado, apropriar-se daquilo que outrora foi instrumento de

    dominao e foi, seguramente, fonte de angustia. A recuperao integral do passado

    invivel. Seu esquecimento total se coloca como uma mutilao a deformar a identidade que

    se pretende como forma de defesa e de integrao no mundo. A de se inventar, interferir,

    desescrever com o que o presente tem a oferecer. Destitudo de tanta coisa, o africano

    recupera-se na desalienao, ponto de partida para a afirmao de seu mundo, para a sua

    afirmao num mundo que j outro, no qual ele precisa conquistar um lugar. A empresa

    colonial levou muita coisa , mas deixou outras tantas.

    A obsesso ainda que legtima por construir uma identidade africana pelos

    movimentos de resistncia e independncia, ignorou aquilo que Bhabha (1998) define de entre

    lugar do sujeito colonial. Na nsia de conferir autenticidade ao sujeito africano na construo

    de uma imagem, de uma representabilidade, de uma identidade verdadeiramente africana,

    h um retorno s origens, uma sacralizao do passado que exclui a experincia colonial. A

    identidade representada como algo estvel, fixo, que perdurou ao longo do tempo sem sofrer

    influncias de elementos externos.

    A complexidade da construo identitria, segundo Mbembe (2001), acentua-

    se quando articulada com a necessidade de se (re) definir a identidade em uma regio ps-

    colonial, marcada pela presena efetiva e violenta do outro colonizador. A necessidade de

    uma construo da identidade africana esbarra na problemtica de cair no essencialismo da

    raa e na rigidez esttica de reproduzir os cdigos organizacionais herdados do colonizador,

    alterando apenas os indivduos brancos pelos negros. Dessa forma, a questo no seria s a

    retomada do espao que o ocidental ocupou na poca colonial, mas, como afirma o autor, a

    reinterpretao do lugar do sujeito ps-colonial inscrito na contra-textualidade colonial e

    emergente dela.

    Pensar uma identidade africana considerar que as culturas, os sujeitos so

    hbridos. Said (1994) afirma que, devido ao imperialismo, todas as culturas esto mutuamente

    imbricadas, nenhuma pura e nica, todas so hbridas, heterogneas, extremamente

    diferenciadas, sem qualquer monolitismo. Segundo Stuart Hall (2003), o hibridismo no

  • 23

    uma referncia composio racial mista de uma populao, mas um outro termo para a

    lgica cultural da traduo, isto , um processo atravs do qual se faz uma reviso dos

    prprios sistemas de referncia, normas e valores, pelo distanciamento de suas regras

    habituais.

    A ambivalncia e o antagonismo acompanham cada ato de traduo cultural.

    Ao nos deslocarmos, os nossos vnculos com o lugar antropolgico so automaticamente

    revisados, diludos e novos elementos so incorporados nossa identidade, que passa a ser

    outra, hbrida e transcultural. A negociao com a nova cultura, na qual nos inserimos,

    provoca o surgimento de uma nova identidade que se ope tanto assimilao quanto

    manuteno integral da identidade vinculada ao lugar antropolgico. A esse processo, o

    antroplogo Fernando Ortiz denominou transculturao.

    As literaturas continuam sendo um lugar de protesto e representao de idias

    e sentimentos. Ela permanece atenta e vigilante em seu eterno compromisso de pensar uma

    identidade, uma sociedade, uma nao, uma frica que se quer melhor. A sua misso

    enquanto combatente desconstruir os exotismos e idias de uma cultura purista

    genuinamente africana. A sua anlise deve considerar o homem mestio, a cultura hbrida, a

    experincia colonial. Do processo de transculturao geram-se novos e imprevisveis produtos

    culturais, as culturas ps-coloniais so marcadas por histrias de deslocamento e por

    aproximaes de diferentes culturas. O sujeito hbrido pensado por Bhabha (1998), que nasce

    desse processo declamado na poesia Identidade de Mia Couto, que se inicia com a sugestiva

    frase: Preciso ser um outro para ser eu mesmo (...) .

    A relao entre histria e literatura apresenta-se como um campo de

    investigao em que ambas se completam, so meios utilizados para pensar o homem,

    formas de apreenso do mundo que tem o real como referente. Como mostra Garcia

    (2002), a literatura uma historiografia inconsciente que permite um acesso privilegiado a

    uma temporalidade transcorrida. Forma de evocao do passado que captura as

    sensibilidades de uma poca. Como salienta Sevcenko, a produo literria revela todo o

    seu potencial como documento, como uma instncia complexa, repleta das mais variadas

    significaes que incorpora a histria em todos os seus aspectos (1989, p. 246).

    A historicidade das literaturas guineense, cabo verdiana, angolana, so

    tomense e moambicana est fundamentada em trs alicerces, cuja compreenso foi

    desenvolvida ao longo do texto: A oralidade; O passado; A nao. Esses elementos

    interligam-se, relacionam-se, cumprem a funo de construo de um sentido histrico.Essas

  • 24

    literaturas africanas operam historiograficamente ao registrar acontecimentos, fenmenos

    sociais e culturais da natureza humana. So monumentos erguidos em memria do tempo

    (passado- presente-futuro) contra o esquecimento a que esto relegados os povos subalternos.

    Notas:

    1 Os chamados tradicionalistas so detentores dos conhecimentos, so eles os guardies dos

    segredos das histrias de um povo, de uma famlia. Segundo Hampt Ba (1982) o compromisso maior desse

    guardio com a verdade, com o compromisso de manter a harmonia e os mistrios do cosmos. Hernandez

    (2005), afirma que esses tradicionalistas tm a misso de iniciar indivduos em funes como ferreiros, teceles,

    sapateiros, caadores e pescadores. Para Hampt Ba Os tradicionalistas foram postos a parte seno

    perseguidos, pelo poder colonial que, naturalmente, procurava extirpar as tradies locais a fim de implantar

    suas prprias idias. (HAMPT B: 1982: 188).

    Os Griots por sua vez no tem o mesmo compromisso com a verdade que os tradicionalistas, so

    tambm conhecedores de histrias e genealogias. Os seus conhecimentos muitas vezes so repassados em forma

    de msica e versos. Exercem a funo de animadores e porta voz, so responsveis por boa parte das epopias

    de heris africanos que conhecemos hoje. Serrano (2007), define os griots da seguinte maneira: homens de

    memria prodigiosa que armazenavam na mente milhares de contos, histrias e provrbios. Hampt Ba (1982)

    tambm nos indica divises entre os griots, que podem ser msicos, embaixadores, genealogistas, historiadores e

    poetas. So encontrados nas regies de savanas.

    2 Segundo Leila Leite Hernandez (2005), a poltica cultural de assimilao, defendendo os

    princpios tradicionais das histrias das naes colonizadoras, tinha como objetivo converter gradualmente o

    africano em europeus, o que significava que a organizao, o direito consuetudinrio e as culturas locais

    deveriam ser transformadas.( LEITE, 2005: 104).

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