Acaso Subversivo

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poesia brasileira

Text of Acaso Subversivo

  • A c a s o

    S u b v e r s i v o

    Ricardo Mendes Mattos

  • Acaso Subversivo, Ricardo Mendes Mattos

    ISBN: 978-85-913155-0-5

    Criao: Flagrante Delito

    So Paulo

    2012

    acaso-subversivo.blogspot.com

    acasosubversivo@gmail.com

  • Somos ns os assassinos

    Ribemont-Dessaignes

    Tudo aquilo que vocs chamam de histria no seno o nosso

    plano de fuga da civilizao de vocs

    Roberto Piva

    Ns respeitamos os atributos e instrumentos da criminalidade:

    agresso, provocao, subverso, corrupo. Queremos conhecer,

    exercendo-nos dentro de poemas, at onde estamos radicalmente

    contra o mundo

    Herberto Helder

  • Certa noite surpreendi o acaso bulinando o Devir, expelindo o ligeiro lquido

    da existncia. Nadei nas cores de Labisse, cujas correntezas traficavam

    vilezas visveis apenas aos versados em sutis ironias.

    Finalmente consegui contato teleptico com o desacontecido polimorfo.

    Seus vermelhos cegavam os horizontes do idioma. Andou com meus ps at

    o tal viaduto, embaixo do qual adentramos nos audaciosos labirintos do

    paradoxo.

    Mal nossas tochas acenderam, pudemos ver aquelas escrituras rupestres

    selvagens, cintilando suspiros, procuradas por sculos a fio pelos mais

    fugazes rituais de ayahuasca.

    do rduo trabalho de decifrao, surgiram baionetas arredias que

    danavam sob o som de alvios.

    Custou-me cerca de 97 vidas para desencontrar os significados imberbes

    daquelas cifras, at que em uma irrupo incontrolvel passei a vomitar

    pequenas liblulas gosmentas aos milhes.

    Lembro-me de estar cado, esgotado, em meio quele revoar de esdrxulos,

    pouco antes de entrar em sono profundo.

    Ao despertar, estupefato fiquei ao sentir um mar de poesias que

    sussurravam palavres a qualquer movimento.

    Paralisado, pude apenas subornar aquele ancio embriagado, que tinha o

    dom de adestrar sandices.

    Do tumulto de palavras estapafrdias, consegui trazer do abismo apenas

    algumas em pergaminho.

    Uma delas quis estuprar o orvalho...

    outra chupou o Caos at este gozar em sua cara.

    Uma terceira vibrou com tanta intensidade na aurora que v a volpia

    correr aturdida.

    Para dom-las tive que prometer menstruar natimortos nas primaveras,

    alm de limpar o rabo com gravatas toda terceira Lua de Saturno.

    Transcrevo-as em transe com a sugesto de l-las para alm dos muros de

    outrora.

  • Parte I Punhais revelia

  • Conspirao concupiscente

    Se alicias a lua

    lobos lambem suas fendas

    eriam os plos de seu sexo

    e sua VulVa pari o mltiplo

    Paira no mar seu olho incandescente

    suas plpebras assimilam a linha do horizonte

    e se piscas amanhece o dia

    no fluir de seus braos rajam coriscos

    racham a terra

    emergem enigmas

    a cada suspiro os astros mudam de direo

    e se soluas tormentas acariciam os acasos

    seus passos dilatam dilvios

    e seu hlito inaugura a brisa que nos alisa a face

    quando morde os lbios e circulas sua lngua

    a existncia inflama e delira

    sua voz arrepia o vento

    e da se cria a msica ao sabor do seu encanto

    Se sussurras segredos

    sobrevm o silncio: matria de toda poesia

  • A pronncia da queda

    Perigo de letras caindo em outras mos,

    Entre assombros escritos em pleno vcuo.

    Floriano Martins

    Esfregue a maquinaria do sonho em seu ventre

    e sente o elo dos astros

    que rompe os espectros

    quantos v bailar nos espelhos incandescentes,

    quando se esvai esparso seu ardil de fantoches?

    esse o uivo que descabela as janelas

    em que lhe fitava a matinha de olhos ubuescos

    esse mutiro de outros que criara para repousar mrbido no conforto do

    consenso]

    equipar sua morada com o mobilirio sbrio do hbito

    imaginar sua fuga no fantasioso hlito do longnquo

    o verbo que sussurra seus assombros

    fremi na mesma mirade do yage

    quando acalanta a morte no rs-do-cho da relva

    o que me diz da realidade,

    no momento em que seus ps despencam nas flmulas movedias da selva?

    sorvem avessos seus contornos dispersos nas brisas do salto?

    A voz que zumbi

    no trovejar de atabaques silvando batuques selvagens

    plpebras trmulas na torrente do transe

    quantas mscaras abandonas

    quando encaras a si na sombra da chama?

    Nan em Roma

  • Sufrgio e quinquilharias

    Flcidos talheres copulam nos pratos calvos da ltima ceia

    Abortos aoitam janelas para melhor verem os obtusos ngulos da vida.

    Era a hora da morte, sussurrando palidez nos ouvidos da noite.

    Vira de soslaio as marcas do tempo no rosto do urro.

    Ouvira os suores nas garras que esfacelam as fotos da infncia?

    Pberes rabes perdem digitais ao rodear os dedos violentamente em seus clitris

    As lgrimas dos muros produzem vis espingardas que disparam contra as

    agonias]

    Escarram volpia as lnguas que me alucinam o caralho?

    Escrnio: saber de si nas sombras dos copos que suicidam-se das mesas de bar

    No fino da agulha passou uma avarento que comprou deus para trepar com a

    virgem. Pagaremos tambm pela morte do bastardo?

    A culpa me chupa na alvoroada suruba do Nada.

    L se foram as fbulas que danavam no meio fio da angstia.

    Ninarei meus filhos com a asfixia do travesseiro?

  • Ecos ocos

    O ser contraditrio ambguo incompreensvel

    A multiplicidade de ser o ser mltiplo: fragmentariamente esquizofrnico

    o mistrio-de-ser o ser-inominvel

    a subverso da classificao

    a despalavrao

    o absurdo vivido no limiar do paradoxo

    desencontrado l mesmo onde se imaginava escondido

  • Infames embustes

    Na conscincia do despertar da embriaguez o dionisaco

    v por toda a parte o horrvel ou o absurdo

    do ser humano: esse o repugna

    Nietzsche

    nusea que navega no sarcasmo

    ao ver o trnsito mastigando idiotas

    cuspindo os restos de ruas poludas

    nas runas da cidade moribunda

    Abortos hipnotizam vitrines ventrloquos tagarelam mesmices

    suntuosos prdios encarceram horizontes

    uniformes originais na vereda do bvio

    nojo que incendeia a face do stiro que encena a comdia

    ensurdecedora gargalhada vergonha desesperada

    de quem v os espectros da vida prostrada diminuda

    inciso com a faca de cozinha dada atravs da barriga de cerveja da ltima poca cultural weimar alem

  • #@&*#/?/?*

    Os jogos erticos desvendam um mundo inominvel

    que a linguagem noturna dos amantes revela.

    Essa linguagem no se escreve.

    Cochicha-se de noite, ao ouvido, com voz rouca.

    De madrugada est esquecida

    Jean Genet

    Ainda os gemidos conspcuos

    adestrando precipcios na soleira da aurora

    luzes tingem a retina rubra com vertigens

    sombras gesticulam orgias nos poros do vento

    Ainda a saliva espumosa onde mergulham desejos

    leve toque do punhal que trago em meu ventre

    troveja violento nos despojos da noite

    esplios do horizonte se riem satisfeitos

  • Condutores de Cadveres

    Letra em brasa rodopia no grito

    brio urro

    vibra qual estrondo

    ecoa nos corpos

    Cabeleiras incandescentes

    giram convulsionadas

    Rajadas de cotovelos acariciam bocas apaixonadas

    coturnos feitos na medida para a bunda dos Karetas

    Distores arredias desfilam garras felinas

    esfacelam a textura do tempo

    jorram saturnais dionisacas em cujas orgias foi concebida a vida subversiva

    show de 30 anos do Clera

  • Hotel du Pavot, quarto 202

    concubina dos delrios vorazes

    Vadiemos deriva nos becos

    embebidos de delitos

    vamos ninar ao murmrio de estrondos

    e girar na hemoptise etlica

    os gritos do sapato encantado

    que viveu abraado ao adivinho do maravilhoso

  • Uma semana de bondade

    O devir da vertigem incauto

    no dorso do drago bailarino

    ao som de coriscos que esbravejam: preciso gargalhar em dobro para o

    mundo virar de pernas para o ar

    Na fuligem da inveno

    a noite um pequeno delito do desejo

    Emaranhado de ideais ajoelhado em prantos cortejo fnebre das iluses

    t r e p i d a o corpo com o sussurro insacivel

    era apenas uma alucinao na ponta dos meus olhos?

  • Felinos labirintos

    Rodovirias e suas calvas mesmices

    Milhares de solides ruminando suas sombras

    esclerose de bancos adormecem esperas

    Mochileiros anestesiados da ltima dose pesada de qualquer miragem

    Relgios palidecem inconformados