Alexander Solzhenitsyn - Pavilhão dos Cancerosos

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Text of Alexander Solzhenitsyn - Pavilhão dos Cancerosos

Pavilho dos Cancerosos

Alexandre Soljenitzine

Ttulo original: Cancer Ward

Traduzido por urea Weissenberg

Editora Expresso e Cultura, RJ

Ano: 1971

Digitalizao: Vtor Chaves

Correo: Marcilene Aparecida Alberton Ghisi Chaves

NDICE

Primeira PARTE

1. No cncer, de modo algum - 7

2. Educao no inteligncia - 19

3. Ursinho de brinquedo - 41

4. Os problemas dos pacientes - 59

5. Os problemas dos mdicos - 82

6. A histria de uma anlise - 98

7. Direito a tratamento - 120

8. Por que vive o homem? - 140

9. Tumor fcordis - 157

10. As crianas - 172

11. Cncer do vidoeiro - 189

12. As paixes retornam - 212

13. e os espectros tambm -- 237

14. Justia - 250

15. A cada um o seu - 264

16. Absurdos - 279

17. A raiz de Issyk-kul - 289

18. No limiar da morte - 308

19. Atingindo a velocidade da luz - 323

20. Belas reminiscncias - 343

21. As sombras seguem seu caminho - 362

Segunda PARTE

1. O rio que desagua na areia - 379

2. Viver bem, por que no? - 388

3. Transfuso de sangue - 416

4. Vega - 433

5. Uma soberba iniciativa - 449

6. Cada qual tem seus interesses - 469

7. Total falta de sorte - 486

8. Palavras speras, palavras macias - 504

9. O velho mdico - 524

10. dolos da praa pblica - 544

11. A outra face da moeda - 561

12. Final feliz - 582

13. e outro menos feliz - 598

14. O primeiro dia da criao - 611

15. e o ltimo 641

Primeira parte

1 -- NO CNCER, DE MODO ALGUM

Para comear, a enfermaria do cncer tinha o nmero "treze". Pavel Nicolayevich Rusanov nunca havia sido, nem poderia ser, pessoa supersticiosa, mas seu corao bateu acelerado quando viu anotarem "Enfermaria 13" na sua ficha de inscrio. Bem que poderiam ter tido o cuidado de dar o nmero treze a algum departamento de cirurgia plstica ou de obstetrcia.

E aquela clnica era o nico lugar, em toda a Repblica, onde ele poderia encontrar ajuda.

No ... no cncer, hem doutora? Eu no tenho cncer, no ?

Pavel Nicolayevich fez a pergunta ainda esperanoso, enquanto apalpava o tumor maligno que tinha no lado direito do pescoo. O volume parecia aumentar a cada dia e, no entanto, a pele clara que o cobria tinha aspecto inofensivo e normal.

Mas no!... Claro que no!... respondeu a Dra. Dontsova, encorajando-o pela dcima vez, enquanto preenchia, com sua caligrafia firme, as pginas do formulrio sobre o caso. Quando escrevia colocava os culos de aros retangulares de cantos arredondados, e retirava-os imediatamente quando parava de escrever. Ela j no era uma mulher jovem; seu rosto plido mostrava quanto estava fatigada.

Acontecera alguns dias atrs, na sala de recepo para pacientes externos. Os doentes designados para o Departamento de Cancerologia, mesmo os externos, lutavam

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sempre com a insnia. E a Dra. Dontsova ordenara que Pavel fosse imediatamente para a cama.

Incubado e sem sintomas externos, o mal viera sobre ele, um homem feliz e sem preocupaes, no curto espao de duas semanas. Pavel Nicolayevich estava atormentado pela doena e no menos pelo fato de ter de inscrever-se na clnica como um paciente comum, igual a um qualquer. No conseguia lembrar a ltima vez em que estivera internado num hospital pblico. Fora h muito tempo.

Vrios telefonemas haviam sido feitos, para Evgeny Semenovich, Shendyapin e Ulmasbaev, que por sua vez entraram em contato com outras personalidades a fim de descobrir se haveria na clnica alguma enfermaria de "gente importante" ou, ento, se seria possvel converter, por algum tempo, alguma sala em aposento confortvel. Porm a clnica estava superlotada, no havia espao disponvel e nada pde ser feito.

A nica vantagem que Pavel Nicolayevich conseguiu, por intermdio do mdico-chefe, foi com relao utilizao do banheiro coletivo e troca de roupa.

Yuri conduziu os pais, em seu pequeno Moskovich, at os degraus da entrada da Enfermaria 13.

Apesar do frio, duas mulheres vestindo pesados robes de algodo estavam do lado de fora do prtico de pedra. A atmosfera gelada as fazia tiritar, porm ambas continuaram agentando.

A comear pelos roupes, folgados e de aspecto sombrio, Pavel Nicolayevich achou tudo o que via desagradvel: o caminho de cimento, desgastado pelo pisar de milhares de ps, e que levava entrada do pavilho; as maanetas das portas, escuras de to pegadas pelos pacientes; a sala de espera com o assoalho encardido, as paredes cor de azeitona (que cor to sombria e suja), cuja pintura estava descascando... e os surrados bancos de madeira que no ofereciam espao suficiente para todos os pacientes. Muitos deles tinham vindo de longe

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e acabavam sentando mesmo no cho. Havia usfoe-ques trajando pesados casacos acolchoados e velhas mulheres usbeques com xales enormes e brancos, jovens da mesma origem com trajes coloridos, e todos calavam botas altas e impermeveis. Um jovem russo, magro como bambu, com o abdome inchado e trajando um casaco desabotoado que chegava at o cho, l estava tomando um banco s para ele. Gritava, incessantemente, de dor. Seus gritos ensurdeciam Pavel Nicolayevich e o incomodavam tanto como se fossem motivados pelos seus prprios sofrimentos..

Pavel Nicolayevich, com lbios muito brancos e muito angustiado, sussurrou para sua mulher:

Kapa, eu vou morrer aqui; no posso ficar. Vamos embora.

Kapitolina Matveyevna segurou-o pelo brao com firmeza e respondeu:

Pashenka! E para onde iramos? E o que poderamos fazer?

Bem... talvez pudssemos arranjar alguma coisa em Moscou...

Kapitolina Matveyevna voltou para o marido a grande cabea, que se tornava ainda mais volumosa pelo penteado em cachos.

Pashenka... Se formos para Moscou, teremos de esperar mais duas semanas. Ou talvez nem consigamos chegar l. Como podemos pensar em esperar?! O tumor cresce todo dia!

A mulher segurou firmemente o brao do marido, como se quisesse transmitir-lhe a sua coragem. Em suas funes civis e oficiais, Pavel Nicolayevich era imperturbvel e assim achava mais simples e cmodo poder confiar mulher os encargos e assuntos familiares. Ela tomava todas as decises importantes com rapidez e preciso.

O rapaz deitado no banco continuava com seus gritos lancinantes.

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- Talvez pudssemos chamar os mdicos em nossa casa. Ns lhes pagaramos bem... argumentou Pavel um tanto inseguro.

- Pasik! exclamou a mulher, sofrendo tanto quanto o marido. Voc sabe que eu seria a primeira a concordar. Chamar um mdico e pagar a consulta... Mas j passamos por isso antes: e estes mdicos no vo casa dos clientes e no cobram consultas. E h tambm a questo dos equipamentos necessrios... Seria impossvel.

Pavel Nicolayevich sabia perfeitamente que era impossvel. Apenas aventara a possibilidade porque sentia que precisava dizer alguma coisa.

Conforme fora combinado com o mdico responsvel pela Clnica Oncolgica, a enfermeira-chefe deveria esper-los s duas horas da tarde, ali, ao p da escada que um paciente, no momento, descia cautelosamente, equilibrando-se em suas muletas. Porm a enfermeira no aparecera, naturalmente, e sua pequena sala, sob a escada, tinha a porta trancada com um grande cadeado.

Esta gente to irreverente resmungou Kapitolina Matveyevna. Afinal para que que eles so pagos?!

. E assim mesmo como estava, vestindo seu abrigo de peles, ela caminhou pelo corredor, ignorando o aviso que dizia: Proibida a entrada de pessoas com trajes de rua".

Pavel Nicolayevich continuou de p na sala de espera. Timidamente virou a cabea um pouco para a direita e apalpou o tumor que formava uma protuberncia entre a sua clavcula e o queixo. Ele tinha a impresso de que naquela meia hora que se passara desde que se olhara ao espelho, enquanto enrolava uma charpe em volta do pescoo, a coisa tinha crescido. Pavel Nicolayevich se sentiu fraco e teve vontade de sentar. Mas... os bancos eram to sujos e alm disso teria de pedir a algumas daquelas camponesas de xale encardido, e segurando sacolas sebentas, para que se afastassem.

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De certo modo, chegava a sentir, mesmo a distncia, o odor desagradvel que se desprendia das sacolas.

Quando o povo aprenderia a viajar com maletas limpas e arrumadas?! (Enfim, agora que sofria com aquele tumor, o assunto j no interessava tanto.)

Sofrendo, angustiado pelos gritos de dor do rapazinho e por tudo que seus olhos viam e que seu olfato sentia, Rusanov continuou de p, apoiado parede. Um campons apareceu carregando um recipiente de meio litro, onde havia uma etiqueta presa, e quase cheio de um lquido amarelado. Ele no procurava esconder o seu fardo, pelo contrrio transportava-o quase triunfante, como se fosse um jarro de cerveja pelo qual houvesse entrado numa fila para disput-lo. Parou diante de Pavel Nicolayevich, quase como se quisesse entregar o jarro, fez meno de perguntar alguma coisa, mas, reparando no fino chapu de pele de foca que Pavel usava, continuou a andar. Olhou em volta e dirigiu a palavra a um paciente de muletas:

Para quem entrego isso?

O homem sem perna apontou para a porta do laboratrio.

Pavel Nicolayevich se sentiu nauseado.

A porta principal foi aberta e a enfermeira-chefe entrou, trajando apenas o avental branco. Seu rosto era muito comprido e nada tinha de bonita. Avistou Pavel Nicolayevich, identificou-o imediatamente, e se dirigiu para ele.

Desculpem falou quase sem flego e, na pressa, suas faces haviam adquirido quase a cor do batom que usava. Desculpem, por favor. Esto esperando h muito tempo? que chegaram alguns remdios e eu tive de assinar os tales.

Pavel Nicolayev