Alexandre herculano o bobo

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  • 1. O Bobo, de Alexandre HerculanoFonte:HERCULANO, Alexandre. O bobo. So Paulo: Saraiva, 1959.Texto proveniente de:Biblioteca Virtual do Estudante de Lngua Portuguesa A Escola do Futuro da Universidade de So PauloPermitido o uso apenas para fins educacionais.Texto-base digitalizado por:Antonio de Padua Danesi Guaxup/MGEste material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaes acimasejam mantidas. Para maiores informaes, escreva para .Estamos em busca de patrocinadores e voluntrios para nos ajudar a manter este projeto. Se voc querajudar de alguma forma, mande um e-mail para ouO BOBOAlexandre HerculanoIIntroduoA morte de Afonso VI, Rei de Leo e Castela, quase no fim da primeira dcada do sculo XII, deu origema acontecimentos ainda mais graves do que os por ele previstos no momento em que ia trocar o brial decavaleiro e o cetro de rei, pela mortalha com que o desceram ao sepulcro no Mosteiro de Sahagun. Andole inquieta dos bares leoneses, galegos e castelhanos facilmente achou pretextos para dar largass suas ambies e mtuas malquerenas na violenta situao poltica em que o falecido Rei deixara opas. Costumado a considerar a audcia, o valor militar e a paixo da guerra como o principal dote de umprncipe, e privado do nico filho varo que tivera, o Infante D. Sancho, morto em tenros anos na batalhade Ucles, Afonso VI alongara os olhos pelas provncias do imprio, buscando um homem temido noscombates e assaz enrgico para que a fronte lhe no vergasse sob o peso da frrea coroa da Espanhacrist. Era mister escolher marido para D. Urraca, sua filha mais velha, viva de Raimundo Conde deGaliza; porque a ela pertencia o trono por um costume gradualmente introduzido, a despeito das leisgticas, que atribuam aos grandes e at certo ponto ao alto clero a eleio dos reis. Entre os ricos-homens mais ilustres dos seus vastos estados, nenhum o velho Rei achou digno de to elevadoconsrcio. Afonso I de Arago tinha, porm, todos os predicados que o altivo monarca reputavanecessrios no que devia ser o principal defensor da Cruz. Por isso, sentindo avizinhar-se a morte,ordenou que D. Urraca apenas herdasse a coroa desse a este a mo de esposa. Esperava por um ladoque a energia e severidade do novo Prncipe contivessem as perturbaes intestinas, e por outro que,ilustre j nas armas, no deixaria folgar os ismaelitas com a notcia da morte daquele que por tantos anos

2. lhes fora flagelo e destruio. Os acontecimentos posteriores provaram, todavia, mais uma vez, quantopodem falhar as previses humanas.A histria do governo de D. Urraca, se tal nome se pode aplicar ao perodo do seu predomnio, nada maisfoi do que um tecido de traies, de vinganas, de revolues e lutas civis, de roubos e violncias. Adissoluo da Rainha, a sombria ferocidade do marido, a cobia e orgulho dos prceres do reinoconvertiam tudo num caos, e a guerra civil, deixando respirar os muulmanos, rompia a cadeia detriunfos da sociedade crist, qual tanto trabalhara por dar unidade o hbil Afonso VI.As provncias j ento libertadas do jugo ismaelita no tinham ainda, digamos assim, seno osrudimentos de uma nacionalidade. Faltavam-lhes, ou eram dbeis grande parte dos vnculos morais ejurdicos que constituem uma nao, uma sociedade. A associao do rei aragons no trono de Leo norepugnava aos bares leoneses por ele ser um estranho, mas porque a antigos sbditos do novo rei seentregavam de preferncia as tenncias e alcaidarias da monarquia. As resistncias, porm, eramindividuais, desconexas, e por isso sem resultados definitivos, efeito natural de instituies pblicasviciosas ou incompletas. O conde ou rico-homem de Oviedo ou de Leo, da Estremadura ou de Galiza,de Castela ou de Portugal, referia sempre a si, s suas ambies, esperanas ou temores os resultadosprovveis de qualquer sucesso poltico, e aferindo tudo por esse padro, procedia em conformidade comele. Nem podia ser de outro modo. A idia de nao e de ptria no existia para os homens dento domesmo modo que existe para ns. O amor cioso da prpria autonomia que deriva de uma concepoforte, clara, consciente, do ente coletivo, era apenas, se era, um sentimento frouxo e confuso para oshomens dos sculos XI e XII. Nem nas crnicas, nem nas lendas, nem nos diplomas se encontra umvocbulo que represente o espanhol, o indivduo da raa godo-romana distinto do sarraceno ou mouro.Acha-se o asturiano, o cntabro, o galiciano, o portugalense, o castelhano, isto , o homem da provnciaou grande condado; e ainda o toledano, o barcelons, o compostelado, o legionense, isto , o homem decerta cidade. O que falta a designao simples, precisa, do sbdito da coroa de Oviedo, Leo eCastela. E por que falta? porque, em rigor, a entidade faltava socialmente. Havia-a, mas debaixo deoutro aspecto: em relao ao grmio religioso. Essa sim, que aparece clara e distinta. A sociedade criadaera uma, e preenchia at certo ponto o incompleto da sociedade temporal. Quando cumpria aplicar umadesignao que representasse o habitante da parte da Pennsula livre do jugo do Islam, s uma havia:christianus. O epteto que indicava a crena representava a nacionalidade. E assim cada catedral, cadaparquia, cada mosteiro, cada simples ascetrio era um anel da cadeia moral que ligava o todo, na faltade um forte nexo poltico.Tais eram os caracteres proeminentes da vida externa da monarquia neogtica. A sua vida social interna;as relaes pblicas entre os indivduos e entre estes e o estado, tinham sobretudo uma feio bemdistinta. Era a larga distncia que separava das classes altivas, dominadoras, que fruam, das classes,em parte e at certo ponto servas, e em parte livres, que trabalhavam. A aristocracia compunha-se danobreza de linhagem e da jerarquia sacerdotal, a espada e o livro, a fora do corao e brao, e asuperioridade relativa da inteligncia. A democracia constituam-na dous grupos notavelmente desiguaisem nmero e em condio. Era um o dos burgueses proprietrios com pleno domnio, moradores decertas povoaes de vulto, comerciantes, fabricantes, artfices, isto , os que depois se chamaram entrens homens de rua, indivduos mais abastados e mais insofridos, fazendo-se respeitar ou temer, numaspartes pela fora do nexo municipal, concesso do rei ou dos condes dos distritos em nome dele, noutraspartes pelas irmandades (conjurationes, germanitates), associaes ajuramentadas para resistirem aosprepotentes, e cujas origens obscuras talvez vo confundir-se com as origens no menos obscuras dasbeetrias. O outro grupo, incomparavelmente mais numeroso, constituam-no os agricultores habitantesdas parquias rurais. Nessa poca ainda eram raros os osis da liberdade chamados alfozes ou termosdos concelhos. Dispersa, possuindo a terra por ttulos de diversas espcies, todos mais ou menosopressivos e precrios, na dependncia do poderoso imunista, ou do inexorvel agente do fisco, apopulao rural, ainda parcialmente adscrita gleba, quase que s vezes se confundia com ossarracenos, mouros ou morabes, cativos nas freqentes correrias dos leoneses, e cuja situao seassemelhava dos escravos negros da Amrica, ou a cousa ainda pior, dada a dureza e ferocidade doshomens daqueles tempos.A burguesia (burgenses), embrio da moderna classe mdia, assaz forte para se defender ou, pelomenos, opor opresso a vingana tumulturia, era impotente para exercer ao eficaz na sociedadegeral. Veio isso mais tarde. Assim, o nico poder que assegurava a unidade poltica era o poder do rei. Amonarquia ovetense-leonesa fora como uma restaurao da monarquia visigtica, entre todos os estadosbrbaros a mais semelhante na ndole e na ao ao cesarismo romano. Uma srie de prncipes, se nodistintos pelo gnio, como Carlos Magno, todavia de valor e de energia no vulgares, tinham sabidomanter a supremacia real, anulada gradualmente alm dos Pireneus pela sucessiva transformao dasfunes pblicas em benefcios e dos benefcios em feudos. Entretanto autoridade central faltava umarrimo slido a que se encostasse; faltava-lhe uma classe mdia, numerosa, rica, inteligente, mula doclero pela sua cultura. Essa classe, como j advertimos, ainda simples embrio, s no sculo XIIIcomeou a ser uma fraca entidade poltica, alis rapidamente desenvolvida e avigorada. Desde aquelapoca que a realeza aproveitou mais ou menos a sua aliana para domar as aristocracias secular e 3. eclesistica, como com o auxlio dela as monarquias de alm dos Pireneus conseguiram tirar aofeudalismo a preponderncia, e quase inteiramente o carter poltico.Hoje fcil iludirmo-nos, crendo ver nas revolues e lutas do ocidente da Pennsula no decurso dossculos VIII a XII a anarquia feudal, confundindo esta com a anarquia aristocrtica. No era a jerarquiaconstituindo uma espcie de famlias militares, de cls ou tribos artificiais, cujos membros estavamligados por mtuos direitos e deveres, determinados por um certo modo de fruio de domnio territorial,em que se achava incorporada a soberania com excluso do poder pblico. Em vez disto, era oindividualismo rebelando-se contra esse poder, contra a unidade, contra o direito. Quando as mos queretinham o cetro eram frouxas ou inabilmente violentas, as perturbaes tornavam-se no s possveis,mas, at, fceis. A febre da anarquia podia ser ardente: o que no havia era a anarquia crnica, aanarquia organizada.Eis as circunstncias, que, ajudadas pelos desvarios da filha de Afonso VI, converteram o seu reinadonum dos mais desastrosos perodos de desordens, de rebelies e de guerras civis. A confuso vinha aser tanto maior, por isso mesmo que faltava o nexo feudal. Eram to tnues os laos entre o conde e oconde, o maiorino e o maiorino, o alcaide e o alcaide, o prestameiro e o prestameiro, o homem demesnada e o homem de mesnada, e, depois, entre estas diversas categorias, que as parcialidades secompunham, dividiam ou transformavam sem custo, merc do primeiro mpeto de paixo ou clculoambicioso. Deste estado tumulturio derivou a separao definitiva de Portugal, e a consolidao daautonomia portuguesa. Obra a principio de ambio e orgulho, a desmembrao dos dous condados doPorto e de Coimbra veio