As Visµes Historiogrficas sobre o “p£o e circoâ€‌: Les Courants

  • View
    234

  • Download
    11

Embed Size (px)

Text of As Visµes Historiogrficas sobre o “p£o e circoâ€‌:...

  • NEHMAAT http://www.nehmaat.uff.br 27 http://www.pucg.uff.br CHT/UFF-ESR

    As Vises Historiogrficas sobre o po e circo: a plebs no contexto poltico-social da Roma imperial, sculos I II d. C.

    Les Courants Historiographiques sr le 'du pain et du cirque': la plebs dans le contexte politique-social en Rome Impriale,

    sicles I II d. C.

    Alexandro Almeida Lima Araujo1 Ana Livia Bomfim Vieira2

    Submetido em Maio/2015 Aceito em Maio/2015

    RESUMO:

    Neste artigo, objetivamos discutir o que consideramos as duas principais vertentes tericas que pensaram o lugar social da plebs na Roma dos sculos I e II d.c. A primeira, associada a uma concepo historiogrfica tradicional construiu, entre o sculo XIX e incio do sculo XX, uma leitura da plebs romana como aptica e submissa, relegada ao segundo plano dentro da estrutura social romana. A segunda, ao lado da qual nos posicionamos, resgata o lugar poltico da plebs, discutindo a mxima do po e circo, ou seja, do apaziguamento social atravs da diverso e da distribuio de gros. Este novo modelo terico, forjado pelos novos olhares dos historiadores da segunda metade do sculo XX e sculo XXI, reposiciona a plebs para um lugar de agentes ativos na Roma Imperial.

    Palavras-chave: Roma Imperial plebs panem et circenses.

    RSUM:

    Dans cet article, nous voulons discuter de ce que nous considrons comme les deux principaux volets

    thoriques qui pensaient le place social de plebs Rome pendant des sicles I et II d. C.. La premire,

    associe une conception historiographique traditionnelle, a construit, entre le XIXme sicle et du

    dbut du XXme sicle, une lecture de la plbe romana comme apathique et soumise, relgu l'arrire-

    plan au sein de la structure sociale romaine. La deuxime, ct de qui nous nous positionnons, sauve le

    lieu Politique de la plebs, en discutant le maximum du "pain et du cirque", c'est--dire l'apaisement social

    travers le plaisir et la distribution des grains. Ce nouveau modle thorique, forges par les nouvelles

    perspectives d'historiens de la seconde moiti du XXme sicle et le XXIme sicle, repositionne la plebs

    vers un endroit d'agents actifs de la Rome Impriale.

    Mots-cls: Rome Imprial plebs panem et circenses.

    1 Graduado em Histria Licenciatura pela Universidade Estadual do Maranho UEMA. Integrante do grupo de Pesquisa Mnemosyne Laboratrio de Histria Antiga e Medieval do Maranho. E-mail: alexandroaraujo12@yahoo.com.br 2 Professora de Histria Antiga da Universidade Estadual do Maranho UEMA e do Programa de Ps-Graduao em Histria, Ensino e Narrativas PPGHEN/UEMA. Coordenadora do grupo de pesquisa em Histria Antiga e Medieval Mnemosyne - Laboratrio de Histria Antiga e Medieval do Maranho, da UEMA. E-mail: analiviabv@gmail.com

  • Revista Mundo Antigo Ano IV, V. 4, N 07 Junho 2015 ISSN 2238-8788

    NEHMAAT http://www.nehmaat.uff.br 28 http://www.pucg.uff.br CHT/UFF-ESR

    Introduo

    O binmio po e circo foi difundido em diversas obras de autores que se

    debruaram acerca dos espetculos pblicos e de questes que envolviam o poltico e

    tambm o social na Roma Antiga. H correntes historiogrficas que defendem e refutam

    a viso de uma plateia aptica, que s queria saber de duelos sangrentos nos anfiteatros

    e alimentos distribudos pelos Csares.

    Neste sentido, confrontaremos duas posies argumentativas: a que refutamos,

    tida como tradicional a do sculo XIX e da primeira metade do sculo XX , e a que

    defendemos a historiografia da segunda metade do sculo XX e do sculo XXI ,

    entendida aqui como uma nova historiografia. Logo, a poltica do po e circo se

    [formou] entre os classicistas do sculo XIX a partir da leitura das fontes escritas e

    [passou] a constituir parte de um olhar mais tradicional que acabou por condenar as

    camadas populares romanas a um segundo plano. (GARRAFFONI, 2004, p. 23).

    A viso tradicional concerne no entendimento de que as pessoas que subiam

    as arquibancadas dos anfiteatros eram apticas e cerceadas por uma pequena elite que

    detinha o poder na vrbs. Entretanto, a nova historiografia, a que nos aliceramos,

    fomenta a viso de que este pblico no negligenciava ao trabalho para ficar horas

    inteiras nos anfiteatros, pois no dependia s de po e circo.

    Acreditamos, portanto, que s a esprtula distribuda durante os espetculos

    gladiatrios no era o suficiente para manter uma famlia romana. Neste sentido,

    veremos que a populao da urbs no era preguiosa e que no vivia de panem et

    circenses. A imagem de que a plebe romana passava a maior parte do ano no Coliseu

    olhando homens lutando at a morte ou sendo mortos por selvagens animais uma

    distoro. (MENDES, 2009, p. 47).

    Com efeito, nosso objetivo ser apresentar e verificar as linhas argumentativas

    dos principais pesquisadores que abordaram os espetculos pblicos na Roma imperial,

    mais precisamente os espetculos ocorridos nos anfiteatros.

  • Revista Mundo Antigo Ano IV, V. 4, N 07 Junho 2015 ISSN 2238-8788

    NEHMAAT http://www.nehmaat.uff.br 29 http://www.pucg.uff.br CHT/UFF-ESR

    Panis et Circenses e a historiografia classicista: uma plebe aptica?

    Numa linha interpretativa tradicional ou classicista, salientamos Jrme

    Carcopino (1990), em seu livro A vida cotidiana: Roma no apogeu do Imprio, que

    evidencia uma ideia bastante difundida no sculo XIX, a viso do po e circo ou panis

    et circenses. Sua obra traz interpretaes semelhantes s difundidas pela historiografia

    do sculo XIX, apesar de ser uma obra publicada no sculo XX. A mesma foi

    originalmente publicada em 1939, La vie quotidienne a Rome a lapoge de lempire.

    Portanto, como bem afirma a historiadora Renata Senna Garraffoni (2005),

    historiografia do sculo XIX e da primeira metade do sculo XX esto embasadas em

    interpretaes que afirmam que o povo romano deveria ser disciplinado atravs de

    divertimentos pblicos e distribuio de vveres.

    J. Carcopino (1990) apresenta em sua obra que os Csares deveriam cercear a

    plebs romana, pois a mesma, caso no fosse ocupada com distraes, seria perigosa e

    poderia, a qualquer momento, se manifestar de forma violenta, ou seja, sublevar-se

    contra o poder vigente, incitando assim uma revolta.

    Com efeito, os csares encarregavam-se ao mesmo tempo de aliment-lo e distra-lo. Com as distribuies mensais do Prtico de Minucius, asseguravam-lhe o po de cada dia. Com as representaes que ofereciam em seus diversos recintos religiosos ou laicos no foro, nos teatros, no estdio, no anfiteatro, nas naumaquias , proporcionavam e disciplinavam seu lazer, mantinham-no em constante expectativa por meio de divertimentos sempre renovados, e at nos anos magros, em que problemas no Tesouro os obrigavam a racionar as prodigalidades, esforavam-se por proporciona-lhe ainda mais festas que nenhuma plebe, em nenhuma poca, em nenhum pas, havia presenciado. (CARCOPINO, 1990, p. 242).

    Jrme Carcopino (1990) caracterizava a massa urbana de Roma como uma

    massa ociosa ao trabalho, desta forma, a mesma teria bastante tempo livre. Esse tempo

    livre, de alguma forma, poderia ser utilizado para debilitar a ordem poltica e social

    instalada no perodo imperial romano, uma ordem de cima para baixo. Para o referido

    autor, era imprescindvel que o Imperador buscasse meios para ocup-los. Os meios

    estratgicos, segundo Carcopino, foram arcar com as despesas dos espetculos e

    garantir a oferta de alimentos.

    Na Cidade, onde as massas compreendiam cento e cinqenta mil ociosos que a assistncia pblica dispensava do trabalho e talvez

  • Revista Mundo Antigo Ano IV, V. 4, N 07 Junho 2015 ISSN 2238-8788

    NEHMAAT http://www.nehmaat.uff.br 30 http://www.pucg.uff.br CHT/UFF-ESR

    outros tantos trabalhadores que do comeo ao fim do ano cruzavam os braos depois do meio-dia e aos quais, entretanto, era negado o direito de empregar a prpria liberdade na poltica, os espetculos ocupavam seu tempo (...). Um povo que boceja est maduro para a revolta. Os Csares no deixaram a plebe romana bocejar, nem de fome nem de tdio. Os espetculos foram a grande diverso para a ociosidade dos sditos e, por conseguinte, o instrumento seguro de seu absolutismo. Cercando-os com cuidados, o que consumia somas fabulosas, conscientemente providenciaram a segurana de seu poder. (CARCOPINO, 1990, p. 248).

    A respeito da expresso po e circo, o historiador Pedro Paulo Abreu Funari

    (2011), em seu livro Grcia e Roma, evidencia o poeta satrico latino Juvenal como o

    criador dessa sentena. Essa expresso foi incorporada nos discursos dos

    pesquisadores modernos que defenderam a tese de manipulao do povo romano atravs

    da poltica implantada pelos Csares, ou seja, a distribuio de trigo, o Po, e

    espetculos pblicos oficiais, o Circo. Para Funari (2011, p. 114), o estado fornecia

    trigo gratuitamente, todos os dias, a quase duzentas mil pessoas. Essa poltica ficou

    conhecida como a do po e circo, em expresso cunhada [por] Juvenal e servia

    basicamente para manter a populao pobre da cidade sob controle, submissa.

    Apesar da obra do autor Pedro Paulo Funari (2011) ser recente e, portanto, se

    encaixaria em um olhar historiogrfico que relativizaria tal ideia de ociosidade da

    plateia que assistia aos jogos fornecidos pelos imperadores, o mesmo no possibilita ao

    leitor outro olhar sobre os espetculos pblicos de Roma. A sua perspectiva

    caracterstica de um olhar