British and Foreign Anti-Slavery Society Anti-Slavery ... ?· escravidão havia sido abolida nas Índias…

  • Published on
    21-Jan-2019

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Transcript

Abolicionismo e formao da classe trabalhadora no Brasil:

uma abordagem para alm do nacional

Marcelo Badar Mattos*

Os estudos sobre o abolicionismo no Brasil viveram diferentes ciclos no que diz respeito s

suas nfases interpretativas. Condicionantes internacionais do processo de desescravizao no

Brasil sempre foram mencionados, com destaque para a presso inglesa contra o trfico

transatlntico de escravos. Mais recentemente, entretanto, uma outra dimenso internacional do

processo vem sendo destacada, a dos intercmbios entre os abolicionistas brasileiros e a principal

organizao inglesa de combate internacional escravido. Em 1839, em Londres, foi criada a

British and Foreign Anti-Slavery Society. A sociedade fora antecedida por uma Anti-Slavery Society

(criada em 1823) e passou a ser chamada anos depois de Anti-Slavery International Society. Como a

escravido havia sido abolida nas ndias Ocidentais em 1833 e o sistema de aprendizagem que lhe

sucedeu for a extinto em 1838, o objetivo da sociedade era estender a Abolio a outros recantos

das Amricas (e do mundo). Em todos os relatrios anuais da sociedade h diversas referncias

escravido no Brasil, com dados da populao escrava e do trfico negreiro, alm de anlises sobre

o emprego da fora de trabalho escravizadas nas minas e plantaes. Somente nos anos 1880,

entretanto, mais de quarenta anos depois de sua fundao, um contato mais sistemtico entre a Anti-

Slavery Society e os lderes parlamentares do abolicionismo brasileiro foi estabelecido,

especialmente atravs de Joaquim Nabuco e, na sequncia, da Confederao Abolicionista por ele

animada. Esse contato vem sendo objeto de diversos estudos recentes.1

Por outro lado, as diferentes abordagens sobre a abolio e o abolicionismo no Brasil,

conferiram peso varivel ao papel dos segmentos populares nas mobilizaes que apressaram o

fim da escravido nos anos 1880. H, porm, poucas pistas sobre um aspecto desse processo, que

aqui considerado fundamental. Trata-se da participao nas lutas abolicionistas dos setores

organizados da classe trabalhadora em formao nos centros urbanos do pas.

Esta comunicao procura combinar a ateno a esses dois aspectos do processo. As

referncias e trocas internacionais do abolicionismo brasileiro no plano organizativo ou no das

* Professor Titular de Histria do Brasil da Universidade Federal Fluminense. Registra-se o apoio do CNPq pesquisa

em curso e a importncia do trabalho da bolsista de IC Lilian Matias. 1 ROCHA, 2009, quem mais avana em analisar esses dados, tratando de uma coligao entre Nabuco e a

sociedade com sede em Londres, e da importncia dessa relao para ambos. Ver tambm BETHELL & CARVALHO, 2008.

ideias polticas e o papel da classe trabalhadora no movimento abolicionista (assim como do

abolicionismo no processo de formao da classe). Desde fins do sculo XVIII, possvel encontrar

em diversos registros uma circulao de informaes e propostas polticas abolicionistas que,

partindo do continente europeu ou da Amrica do Norte, encontrava no Brasil audincia e, muitas

vezes, gerava repercusses, da mesma forma que movimentos locais repercutiam no Norte do

Globo. Tal audincia das propostas abolicionistas em sua circulao internacional foi, muitas vezes,

anterior e de origem mais plebeia do que o intercmbio entre Joaquim Nabuco (parlamentar

abolicionista brasileiro) e os respeitveis dirigentes da British and Foreign Anti-Slavery Society nos

anos 1880 indicaria. Pensando a partir de uma perspectiva que supere os limites da abordagem

nacional, a proposta de pesquisa aqui ensaiada parte da constatao de que, se na Inglaterra dos

anos 1790 a 1830, abolicionismo e luta pela a reforma parlamentar foram os dois principais

movimentos de massa, cujos contatos foram ora mais diretos ora mais distantes, no Brasil dos anos

1860 a 1880, ltimo pas das Amricas a por fim escravido, o abolicionismo ganhou dimenses

populares amplas e envolveu, inclusive, o nascente movimento da classe trabalhadora. Esta

comunicao restringe-se a apresentar algumas pistas desse processo, em suas primeiras

manifestaes no Brasil.

II Edward Said props uma caracterizao social de um aspecto dos mais conhecidos da

histria das ideias: a circulao de teorias e ideias. Afinal, como pessoas e escolas de crtica

literria, ideias e teorias viajam de pessoa a pessoa, de situao a situao, de um perodo a

outro. (SAID, 1983,266)

Said buscou definir a dinmica temporal e espacial do processo, explicando cada um dos

passos da viagem das ideias, desde sua origem em um momento e lugar, at sua transformao

pelos novos usos em outros lugares e momentos, passando pelos caminhos percorridos e pelas

condies de recepo dessas ideias e teorias. Em suas palavras:

Primeiro, h um ponto de origem, ou algo que parea com um, um quadro de

circunstncias iniciais no qual a ideia nasce ou adentra ao discurso. Segundo, h uma

distncia percorrida, uma passagem atravs da presso de vrios contextos a medida

que a ideia se move de um ponto anterior para outro tempo e lugar onde ela ganhar

uma nova proeminncia. Terceiro, h um conjunto de condies de aceitao ou,

como uma parte inevitvel da aceitao, resistncias as quais ento confrontam a

teoria ou ideia transplantada, tornando possvel sua introduo ou tolerncia, no

importa o quo estrangeira ela parea ser. Quarto, a agora completa ou parcialmente

ideia acomodada (ou incorporada) , em alguma medida, transformada pelos novos

usos, sua nova posio em um novo tempo e lugar. (SAID, 1983, 266-267)

Entre as ideias que viajaram mais ao longo dos sculos XVIII e XIX, estiveram as

relacionadas ao termo liberdade, no que nos interessa mais de perto em suas aplicaes ao

trabalho e aos trabalhadores, escravizados ou livres. O Brasil foi um dos portos em que aquelas

ideias desembarcaram ao longo do sculo XIX. Por tratar-se de uma das maiores colnias/naes

escravistas das Amricas e que ao longo do sculo viria a definir-se como a ltima a por fim

escravido o Brasil por certo um dos mais interessantes espaos sociais para que entendamos de

que forma trabalhadores escravizados e livres receberam e processaram as influncias das ideias

de liberdade do abolicionismo internacional e das propostas polticas e organizativas originadas no

movimentos da classe trabalhadora europeia.

No que diz respeito aos primeiros passos do movimento abolicionista internacional, a partir

de sua matriz britnica, possvel dizer que, nos seus momentos iniciais (anos 1770-80) ou na fase

das vitrias parlamentares do incio do sculo XIX, possvel encontrar convergncias e

distanciamentos entre os movimentos antiescravistas e o radicalismo que origina um movimento

prprio da classe trabalhadora.2 No entanto, na segunda metade do sculo XIX, numa perspectiva

internacional, este movimento da classe incorpora claramente o tema da abolio como uma

bandeira sua.

Um momento chave para entendermos tal incorporao a dcada de 1860, quando da

encruzilhada fundamental enfrentada pelos EUA, que levou Guerra Civil entre os estados do

Norte e do Sul, tendo por razo central a manuteno ou no do escravismo como base estruturante

da economia agrria daqueles ltimos. Assim, na Mensagem Inaugural da Associao Internacional

dos Trabalhadores (AIT), de outubro de 1864, diante da Guerra Civil estadunidense e da disjuntiva

Sul escravista x Norte abolicionista, a AIT no tem dvidas em defender uma posio e em registrar

a responsabilidade da classe trabalhadora em pressionar os governos da Europa Ocidental para

2 H uma enorme bibliografia sobre essas relaes entre abolicionismo e radicalismo de base operria. Para ficar em

algumas referncias, menciono FLADELAND, 1984; BLACKBURN, 2002; OLDFIELD, 1998. Apresentei uma sntese do debate em MATTOS, 2012.

renunciarem a qualquer neutralidade a respeito de questes como a da escravido nas Amricas e a

servido no Leste Europeu:

Se a emancipao das classes operrias requer o seu concurso fraterno, como que

iro cumprir essa grande misso, com uma poltica externa que persegue objetivos

criminosos, joga com preconceitos nacionais e dissipa em guerras piratas o sangue e

o tesouro do povo? No foi a sabedoria das classes dominantes, mas a resistncia

heroica das classes operrias de Inglaterra sua loucura criminosa, que salvou o

Ocidente da Europa de mergulhar de cabea numa cruzada infame pela perpetuao e

propagao da escravatura do outro lado do Atlntico.3

A manifestao da AIT no foi isolada. Em diversos artigos anteriores, desde ao menos

1961, Marx j vinha tratando do tema da escravido nos EUA e da Guerra Civil como uma questo

central para a poltica de classe do proletariado em escala internacional. Sua maior preocupao nos

primeiros artigos escritos sobre o tema era desmontar os argumentos que procuravam justificar o

levante dos estados confederados do Sul, em nome de uma presumida resistncia liberal a tarifas

restritiva impostas pelo governo da Unio, sob presso dos estados do Norte. A questo central que

levara guerra, Marx no tinha dvidas quanto a isso, era a da escravido.4

Mais tarde, Marx louvaria a maturidade da conscincia de classe do proletariado britnico

quando, ainda que passando pelas maiores dificuldades decorrentes da crise da indstria txtil com

a interrupo do fornecimento do algodo pelos estados do Sul dos EUA, mantiveram-se firmes em

defender publicamente, atravs de suas associaes, um posicionamento do governo Ingls a favor

dos estados do Norte e do fim da escravido.5

Mais significativa ainda foi a troca de correspondncias entre a AIT (novamente atravs da

pena de Marx) e o presidente Lincoln, por ocasio de sua reeleio.6 Em, novembro de 1864, com a

assinatura de diversos dos seus dirigentes, a Internacional encaminhou, atravs do embaixador

estadunidense em Londres, uma carta felicitando Lincoln pela reeleio, com ampla margem de

3 Karl Marx, Mensagem Inaugural da Associao Internacional dos Trabalhadores, Fundada em 28 de Setembro de

1864 numa reunio pblica, realizada em St. Martin's Hall, Long Acre, Londres, in

http://www.marxists.org/portugues/marx/1864/10/27.htm. 4 Ver por exemplo o artigo publicado por Marx sob o ttulo The North American Civil War (Die Presse, October

25, 1861), in http://marxists.org/archive/marx/works/1861/10/25.htm 5 Karl Marx, "A London Workers Meeting" (Die Presse, February 2, 1862), in http://www.marxists.org/archive/marx/works/1862/02/02.htm 6 O episdio e seu contexto foram abordados na introduo do livro de BLACKBURN (2011), que tambm reproduz

algumas dessas fontes.

votos. Segundo a carta, se a palavra de ordem reservada da sua primeira eleio foi resistncia ao

Poder Escravocrata, o grito de guerra triunfante da sua reeleio Morte Escravatura.7 O mote

central da carta era no apenas o da solidariedade do proletariado europeu luta contra a

escravido, mas o da valorizao do fim da escravido como parte do processo maior de

emancipao da humanidade. E saudando a origem de classe de Lincoln, afirmava-se:

Os operrios da Europa sentem-se seguros de que, assim como a Guerra da

Independncia Americana iniciou uma nova era de ascenso para a classe mdia,

tambm a Guerra Americana contra a escravatura o far para as classes operrias.

Consideram uma garantia da poca que est para vir que tenha cado em sorte a

Abraham Lincoln, filho honesto da classe operria, guiar o seu pas na luta

incomparvel pela salvao de uma raa agrilhoada e pela reconstruo de um

mundo social.8

Na resposta datada de janeiro de 1865, o embaixador em Londres, Charles Francis Adans,

afirmava ter Lincoln lido a carta da AIT e orientado sua mensagem, reconhecia o sentido mais

amplo da luta contra a escravido em seu pas e agradecia o apoio do Conselho Central da AIT,

afirmando que:

Naes no existem para si mesmas, mas para promover o bem estar e a felicidade

da humanidade pelo intercmbio benevolente e pelo exemplo. nessa relao que os

Estados Unidos consideram sua causa no presente conflito contra a escravido,

mantendo a insurgncia pela causa da natureza humana, e retiram novos

encorajamentos para perseverarem do testemunho dos trabalhadores da Europa de

que a atitude da Nao apoiada pela sua aprovao esclarecida e simpatia

sincera.9

Aps o assassinato do Lincoln, a Internacional chegou a tentar manter a correspondncia,

agora endereada a Andrew Johnson, o novo presidente, anunciando a possibilidade de uma nova

era de emancipao do trabalho e lembrando que para iniciar a nova era da emancipao do 7 Karl Marx, A Abrahan Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da Amrica, novembro, 1864.

http://www.marxists.org/portugues/marx/1864/11/29.htm 8 Idem. 9 http://marxists.org/archive/marx/iwma/documents/1864/lincoln-letter.htm

trabalho, o povo americano delegou as responsabilidades da liderana sobre dois homens do

trabalho - um Abraham Lincoln, o outro Andrew Johnson.10 As aes de Johnson, entretanto, logo

seriam questionadas por Marx e Engels. Em setembro de 1865, a Internacional mandou nova

mensagem para o povo dos EUA defendendo que os libertos tivessem direito a voto. Em abril de

1866, Marx escreveu a Engels dizendo que a fase revolucionria aberta pela Guerra Civil estava

sendo enterrada. (BLACKBURN, 2011, 54)

A causa antiescravista continuaria a ser abraada por figuras e organizaes destacadas das

lutas dos trabalhadores europeus, envolvidas naquele contexto com a AIT. Se a British and Foreign

Anti-Slavery Society fora fundada e continuava a ser dirigida por respeitveis homens de negcio,

quacres, dispostos a persuadir autoridades das naes em que ainda havia escravido a

progressivamente abolirem a instituio, alguns dos que dialogaram com aquela associao em

outros pases possuam propostas mais radicais. Um exemplo interessante viria da Conferncia de

1867, promovida em Paris pela prpria British and Foreign Anti-Slavery Society, quando a

escravido no Brasil foi palco de uma cida polmica. Clia Azevedo atentou para o ocorrido, em

seu estudo comparativo sobre o abolicionismo no Brasil e nos EUA. (AZEVEDO, 2003, 61-65) Em

sua anlise, destacou o contraste, nos documentos da conferncia, entre a imagem negativa dos

senhores escravistas do Sul dos Estados Unidos, recm derrotados na Guerra Civil e a viso

relativamente positiva da escravido brasileira, supostamente submetida a regras senhori...