Carol Dami£o Manifesto Afasia - .c©u. Tudo, tudo, tudo © azul! Azul e imenso azul. Azul e mais

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Text of Carol Dami£o Manifesto Afasia - .c©u. Tudo, tudo, tudo © azul! Azul e imenso azul....

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Manifesto

Afasia Para nomear os bois preciso reconhec-los. Mas o que eu vejo o vo. E ainda que do vo eu

reconhea as beiradas, no sou capaz, no sou capaz de dar nome aos bois.

Suspend-los no tempo, sutur-los entre os prprios limites e submet-los, prisioneiros, de

uma nica luz, para que assim, nomeados, se fizessem expostos, eles e eu, no. Proponho que

busquem as frestas, e percebam que a luz que atravessa por elas reveladora.

No pensem nas peas, nas montagens, o todo o prprio buraco, a parte que escapa de cada

parte, o que o olho procura quando no v. E assim como aos quebra-cabeas so intrnsecos

os espaos, tambm aos encenadores pertinente a percepo das margens, que nelas que

residem as nuances que diferem as reprodues.

Se na penumbra eu posso ver dos bois somente as manchas e ento diz-los sapos, torn-los

pedras, faz-los plantas, e a cada encontro provocado obter de novo o novo que me torna

to complexo encerrar os bois em termos, por ser incapaz de agrup-los de todas as suas

infinitas possibilidades.

certo que nem toda potncia um vo, todavia todo o vo uma potncia.

Eu busco o vo, o furo, a fenda, o racho, o rasgo, o que passvel de nomear, mas no tem

nome. O conceito que pulsa, o conceito que se criar nas circunstncias do agora.

E embora s de dizer vazio, vazio, eu disse, e j no era.1.

1+1=N, N>2.

1 Trecho que escrevi em Advertir-se, texto que estou desenvolvendo.

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

again agora e ainda

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

(a silhueta)

Ele ri, constantemente, sozinho, sentado em seu canto, ele ri.

Ele gargalha como se algum lhe tivesse contado uma piada, ou lhe feito ccegas, ou como se

todos ao seu redor rissem, assim como, ele ri.

Ele anota coisas em um papel, coisas que ningum ir ler alm dele mesmo, ele bebe caf e

fuma muitos cigarros. Ele deixa o papel de lado e l um livro, ou dois. Ele se levanta, vagueia

por um tempo e volta. Ele fica instantes, longos, olhando para um mesmo ponto, sem. Ele fica

olhando. Ele anota coisas em um papel, coisas que ningum ir ler alm dele mesmo, ele bebe

caf e fuma muitos cigarros. Ele deixa o papel de lado e l um livro, ou dois. Ele se levanta,

vagueia por um tempo e volta.

Ele ri, constantemente, sozinho, sentado em seu canto, ele ri.

Sorrir diferente. Ele ri.

Aproxima-se dele o homem.

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Ele demora a perceber o homem.

Ele ri, sozinho.

O homem sai.

Ela espera o que por ela no espera, mas ela, est ali.

Ela procura o que ningum lhe escondeu, tateia os sons, os vincos, as frestas. Ela procura o

que no se encontra onde, nem quando, nem nunca e ela, espera.

Ela mira, caando o que pode acontecer, o que pode acontecer e s ela espera e ningum mais

alm dela prpria. Ela espreme as mos, os dedos, as peles envoltas nas unhas. Ela conta o

tempo e rumina as horas. Ela pensa o que pode acontecer e s ela pensa e nada. Ela espreme

as mos, os dedos, as peles envoltas nas unhas. Ela conta o tempo e rumina as horas. Ela pensa

o que pode acontecer e s ela pensa e nada mais alm dela prpria.

- Que eu fico a esperar o prximo e do prximo sempre o prximo e o outro, e o outro...

Ser isso mesmo?

Que eu passo a esperar que chegue e sempre chegue e chegue e chegue...

Voc sabe para onde voc vai?

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Eles vo chegar.

E quem so eles?

O um sempre o outro

E o outro sempre o prximo

E o prximo sempre passa

Assim, como, eu passo

Nesse passo desengatado

Sempre um novo vcio

Um novo cio

Um novo ego

Um novo dia

E toda essa proximidade com o amanh e todas essas horas que sempre se conectam e

reconectam e reconfortam e recompem este relgio.

sempre um novo dia

Um novo passo

Nova espera

Um novo tipo

Uma nova

Lua nova.

E eu, caminhante, sozinho do tempo.

Sero todos uns fracos? Uns sacos? Uns brotos? Uns poucos?

Seremos todos ento fracos brotos e poucos sacos!?

E eu que me canso de ser, nessas horas de se ver passar!

E sempre passa e sem pressa e sempre essa apressa e passa.

Eu vou caminhando, olhando em volta, tudo, tudo azul. Os pssaros j no se distinguem do

cu. Tudo, tudo, tudo azul! Azul e imenso azul. Azul e mais azul. E por cima um filtro de

delicadeza que ainda nos permite ver os limites de um corpo e de outro corpo azul.

S VEZES PRECISO MORRER

CONTINUO

Caminhando.

Olhando em volta, tudo, tudo azul.

Os pssaros j no se distinguem do cu.

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Tudo, tudo, tudo azul.

Um nada de cores onde tudo azul.

Eu vejo um azul claro e calmo, cheio de anilazulmarinhoazuladoazuloazulazulazulazul.

Todos os dias eu paro e penso se todos os dias no se repetem.

Todos os dias eu penso e paro por que todos os dias no se repetem.

Todos os dias eu me repito e penso e paro e paro e penso e penso e paro e paro e penso.

Todos os dias eu paro e me repito eu me repito e penso.

Todos os dias eu penso e me repito eu me repito e paro.

Aproxima-se dela o homem.

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Ela demora a perceber o homem.

Ela espera.

O homem sai.

H o tempo, no h?

Se eles vo chegar...

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Quando vo chegar?

Ele, o homem, ele que o homem, ele, o homem, ele.

Trs passos para alm de l. Dez passos para alm de c. Nem prximo ao cu, nem prximo

ao cho.

Ele, o homem, ele que o homem, ele, o homem, ele.

- Digo, pare com esta risada!

E ele que continua rindo

Digo pare.

E ele rindo.

Peo, chega!

E ele

Ri

Constantemente, sozinho, sentado em seu canto, ele ri.

Havia uma moa que se batia quando no conseguia se conter.

Toda roxa, roxa, roxa, roxa, rosa, roxa, roxa, roxa, rosa, roxa, roxa, rosa, roxa.

Nascia no jardim.

Ele, o homem, no consegue.

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

(a sombra)

- Olho para as mos e no os vejo

Escondidos agora, entre o amanh e o depois

Entre o que foram

Entre cada um deles o nada

Olho

Para os braos estendidos e o que vejo

um outro

um prximo, rerrelato

Relembrana

Rememria

Reticencias

Olho para os ps e no os vejo

Perdidos entre o cho e o esforo

Circunstncias

Sussugados

Sussublimes

Sublimados

Mas nunca com tal fora que os tire

Mas sempre com tal fora que os force

E nunca com tal tempo que os rompa

Mas sempre com tal tempo que os vele

E de que corpo vem se no vo?

E de que tempo tem se no so?

E de que olho olham?

E de que boca cospem?

E se se remodelam e se se redefinem e se se rerrepetem e se se reconfortam em contornos e

buracos

Olho

Para o corpo

Para o barco

Para o morro

Para a pia

Para a perna

Para aqueles

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Escondidos entre o agora

Escondidos entre o nada

Universos sem perguntas

Se respondem ao infinito

S respondem

S respondem

S respondem

S repetem

Aproxima-se

Funde-se

Perde-se

Passa-se

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

(a luz)

noite. No dia.

noite e no dia.

No, dia.

No.

noite.

No noite.

No, noite.

No dia.

dia.

No.

No noite.

No , noite.

, dia.

No

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Ele, o homem, est confuso.

Est frio e no h lua.

Ela, espera

O homem, se aproxima.

O homem, olha

Ela, olha

O homem, olha.

Ela, espera

O homem, diz:

Est azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul, azul e mais azul.

E vejo pssaros para alm.

No h noite que suporte tanta luz e nem dia que suporte tanto

S o azul que eu vejo j me faz.

O homem olha para o cu.

Est frio e no h lua.

O homem se confunde.

Est frio?

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

No, h lua.

H estrelas.

Ele, ri

O homem, se aproxima.

O homem no est confortvel.

Ele ri, constantemente.

O homem olha para o cu.

H, estrelas, no h?

O homem gagueja.

Ele ri.

Eu digo pare.

Ele ri.

Eu peo chega e

O homem fica instantes sem.

Carol Damio Ncleo de Dramaturgia - 2012

Ele e as estrelas continuam.

Algum lugar, entre.

Ela, espera, olha.

Ele ri.

Ela, imita o homem, olha para o cu.

Ele ri.

Ela olha

Espera e ri.

Olha, no.

No olha.

Espera.

Ele, ri