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Beatriz de Almeida Magalhães

Caso oblíquo

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  • Beatriz de Almeida Magalhes

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    www.autenticaeditora.com.br0800 2831322

    9 7 8 8 5 7 5 2 6 4 4 2 3

    ISBN 978-85-7526-442-3

    Dezenove anos! O dia e o lugar de meu nascimento esto mais e mais longe. Aps cinco meses, eu consigo recordar s a Bruges dos bilhetes postais de saudaes, enquadrada, em partes, mas esmaecida, gris sob a neblina da realidade e a nvoa da memria, reflexos trmulos nos canais apenas: empenas serrilhadas, telhados pontiagudos, agulhas de igrejas, cisnes retrados, os bicos sob as penas. Pelas pontes, trotes de caleches, as capotas levantadas. Chuva l. Chuva c. O vu fino que me regou a infncia e a adolescncia tornou-se grossa rede ao se lanar sobre minha juventude tropical. Chove cordas no vero aquoso do Brasil. Nada slido. Nada acontece. O jorro contnuo da gua. Pancadas secas no relgio da Matriz. Badaladas graves nos sinos de seu par de torres. Repiques argentinos na Capela do Rosrio. Surdas exploses de dinamite nas pedreiras ao longe. Belo Horizonte no existe: nem belo nem horizonte!

    A Proclamao da Repblica deflagra em Minas Gerais complicado processo, indito no Brasil, que instala um paradoxo: a escolha de comear do zero uma cidade para ser a Capital implica a gradual expulso da populao republicana que reivindicara sedi-la e a total destruio de seu secular casario. Assim, a partir de 1894, ano da instalao da Comisso Construtora da Nova Capital, a Freguesia do Arraial do Belo Horizonte turbilhona-se com a vinda de forasteiros, compreendendo pessoal tcnico, operrios, empreiteiros, empresrios, negociantes, bem como a chegada de equipamentos, materiais, mercadorias, tecnologias, conhecimentos, informaes, ideologias, religies, prticas, costumes, capitais, idiomas estrangeiros... O vigrio da Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, jovem republicano, divide-se entre colaborar com o revolucionrio empreendimento, combatido por conservadores da velha capital mineira, Ouro Preto, dosar as aes dos positivistas que encarnam a nova Ordem, a do Progresso, e deter o avano de protestantes, maons, aventureiras e oportunistas que, a seu ver, introduzem a degradao, a discrdia, a violncia. Para defender os fiis das ameaas, o seu domnio at ento pacfico sobre eles e articular a memria do arraial em vias de desaparecimento, lana a pioneira folha local, o semanrio Bello Horizonte, a bordo do comboio inaugural da linha entre o grande canteiro de obras e a Estrada de Ferro Central do Brasil. Nos vages, vm autoridades nacionais, civis, militares, eclesisticas, representantes da imprensa do Estado e da Capital Federal e populares para o festivo e memorvel Dia da Ptria de 1895. Eis que, nem bem o remoto arraial liga-se ao mundo por trem, telgrafo, telefone e jornal, o isolam dele chuvas torrenciais de um atpico vero na passagem para o ano de 1896. Os impactos se fazem sentir de forma bastante irnica: o Chefe do Trem do Ramal Frreo a primeira vtima da precariedade e da insalubridade reinantes, em traio de propsitos, expectativas e desejos.

    Beatriz de Almeida Magalhes estreou na fico com Sentimental com filtro, vencedor na categoria Romance do I Prmio Nacional Vereda Literria, em 2002. Nasceu em Ouro Fino, Sul de Minas, vive em Belo Horizonte. bacharel em Artes pela UEMG, bacharel em Arquitetura e doutora em Letras: Estudos Literrios pela UFMG. Poetopos: cidade, cdigo e criao errante, tese defendida em 2008, trata da produo esttica e potica de desabrigados e andarilhos nas ruas de Belo Horizonte, cidade que tem sido seu tema constante: Belo Horizonte: um espao para a Repblica (Proex/UFMG, 1989), Belo Horizonte: o barroco e a utopia, Cadernos de Arquitetura e Urbanismo (PUC-MG, 1994), ReGIZtros efmeros, ZAP Cultural: Revista da Secretaria Municipal de Cultura (1996), A formao da cidade, arquitetura da modernidade (UFMG, 1998) e Sentimental com filtro (Autntica, 2003). Caso oblquo um projeto premiado pelo Programa Petrobras Cultural 2007.

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  • Beatriz de Almeida Magalhes

    CASO OBLQUO

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  • 3CASO OBLQUO

    Este livro foi selecionado pelo Programa Petrobras Cultural

    Beatriz de Almeida Magalhes

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  • 4 Copyright 2009 Beatriz de Almeida Magalhes

    projeto grfico de capa e mioloBeatriz de Almeida Magalhes

    editorao eletrnicaWaldnia Alvarenga Santos Atade

    reviso

    Ana Elisa Ribeiro

    editora responsvelRejane Dias

    Todos os direitos reservados pela Autntica Editora.Nenhuma parte desta publicao poder ser reproduzida,seja por meios mecnicos, eletrnicos, seja via cpia xerogrfica, sem autorizao prvia da Editora.

    AUTNTICA EDITORA LTDA.

    Rua Aimors, 981, 8 andar . Funcionrios 30140-071 . Belo Horizonte . MGTel: (55 31) 3222 68 19TELEVENDAS: 0800 283 13 12 www.autenticaeditora.com.br

    Magalhes, Beatriz de AlmeidaCaso oblquo / Beatriz de Almeida Magalhes ; selecionado pelo

    Programa Petrobras Cultural. Belo Horizonte : Autntica Editora, 2009.

    ISBN 978-85-7526-442-3

    1. Fico brasileira I. Petrobras Cultural. II. Ttulo.

    09-11183 CDD-869.93

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

    ndices para catlogo sistemtico:1. Fico : Literatura brasileira 869.93

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  • 5

    Em memria de meus pais

    Jos Diogo e Elody

    Para Rodrigo e meus filhos

    Gustavo, Carolina, Gilberto e Manuel

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  • Agradecimentos aLudmila De JaegherHenrique ChaudonAugustin de Tugny

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  • 7A narrativa um cavalo: um meio de transporte cujo tipo de andadura,

    trote ou galope, depende do percurso a ser executado,

    embora a velocidade de que se fala aqui seja uma velocidade mental.

    Italo Calvino

    A besta ruana, que eu montava, era o nosso guia,

    pois j havia transitado duas vezes por aqueles caminhos e meu irmo recomendra:

    No tenham medo de errar a estrada: s bambear a redea da ruana

    e ela os levar a Belo Horizonte.Ablio Barreto

    A maior velocidade experimentada at a metade do sculo XIX

    era a do cavalo, nos lembra o palhao Hunter Patch Adams.

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  • 8caso obliquo301009FinalGrafica.indd 8 3/11/2009 09:04:03

  • 9A chuvaCavalo visto em Aqurio 15

    Cavalo a vapor 23

    Mau tempo, piano em calda 29

    Do Velho Mundo ao Acaba Mundo 35

    Peixes no ar, asno desembestado 43

    Biso de armrio 51

    Bolinhas de barro, bolinhos de chuva 63

    In extremis 67

    Vinda do Salvador 71

    Domus novae, viae novae 81

    O estioFora de Aqurio e Peixes 91

    Pastoral de grota 105

    Agnus Dei 111

    Via Sacra no, Via Lactea 117

    Acaba Mundo, cosmos e carrapichos 123

    Durey-Sohy e parelha em marcha 129

    Senhor e Senhora da Boa Viagem 135

    Dia de ptria e efemrides vrias 141

    Via Crucis em cinzas 145

    Teatro ainda que provisrio 151

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  • 10

    O anoAurora para mulheres 159

    Grande golpe de vento e chuva torrencial 165

    Murchas as flores do baile 169

    Cavalo outra vez em Aqurio 175

    Cemitrio antecipado, plano contrariado 179

    Cachoeira, luz eltrica e convescote 183

    O ano seguinteGrinalda de ferro para uma virgem 189

    O apagar das luzesDiabos de luneta 195

    A uma passante 199

    Nossa Senhora dos Navegantes 203

    Amor? Ordem? Progresso!Nossa Senhora de Copacabana 215

    Post scriptumUm corao simples 223

    Era uma vez uma segunda vez 227

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  • 11

    A chuva

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  • 12

    Desastres das ultimas chuvas

    As chuvas torrenciais que, sobre quasi todo o nosso Estado,

    cahiram nestes ultimos dias, causaram,

    alm dos prejuizos de retardarem algumas obras, varios desabamentos;

    entre os quaes o do grande crte, contiguo ao tunel,

    por onde deve passar o encanamento das aguas destinadas

    Nova Capital.

    A Capital

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  • 13

    Cavalo visto em Aqurio

    Animal sumido

    Dos pastos do alto da serra desta localidade desappareceu um cavallo queimado claro,

    bonito e bom de sella, com a marca V no quarto direito.

    Quem o achar e entregar aos abaixo assigndos em Villa Nova de Lima,

    ser gratificado com a quantia de 100$000.

    Aristides & Comp.

    Bello Horizonte

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  • 14

    Chuvas

    Devido profuso das chuvas esto interrompidos alguns trechos da Central,o que tem obstado a que cheguem at aqui as

    malas do correio.

    Bello Horizonte

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  • 15

    Belo Horizonte, domingo 9 de fevereiro de 1896

    O cavalo, imvel, um borro, l fora. O mundo, sob a constelao de meu desgnio, Aqurio, transborda com infinda chuva. Confinada nesta sorte de redoma, aqurio ao revs, eu sou o revs de um peixe, indo e vindo e vendo pelo vidro a vida distorcida pela lente lquida, minha verso literal, em nada literria, de Viagem ao Redor do Meu Quarto. Faltam cinco dias, sem sinal de estio, para meu aniversrio, 14 de fevereiro. Na Blgica, a festa de So Valentim, h mil seiscentos e vinte e seis anos o protetor dos namorados, que aqui no me tem valido. Eu vou me tornar uma celibatria. Dezenove anos! O dia e o lugar de meu nascimento esto mais e mais longe. Aps cinco meses, eu consigo recordar s a Bruges dos bilhetes postais de saudaes, enquadrada, em partes, mas esmaecida, gris sob a neblina da realidade e a nvoa da memria, reflexos trmulos nos canais apenas: empenas serrilhadas, telhados pontiagudos, agulhas de igrejas, cisnes retrados, os bicos sob as penas. Pelas pontes, trotes de caleches, as capotas levantadas. Chuva l. Chuva c. O vu fino que me regou a infncia e a adolescncia tornou-se grossa rede ao se lanar sobre minha juventude tropical. Chove cordas no vero aquoso do Brasil. Nada slido. Nada acontece. O jorro contnuo da gua. Pancadas secas no relgio da Matriz. Badaladas graves nos sinos de seu par de torres. Repiques argentinos na Capela do Rosrio. Surdas exploses de dinamite nas pedreiras ao longe. Belo Horizonte no existe: nem belo nem horizonte!

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  • 16

    A circulao dos trens parou sob o dilvio, cargas e malas postais no desembarcam h dias, eu no vou receber os presentes nem sequer as cartas de meus avs, tios e primos. Pior, no vir nada de meu irmo Frdric. Logo Fritz ficou para trs, preso ao curso de engenharia. Ele deve assumir a usina de meu av, j velho, e a de meu pai, que nos trouxe, a mim, minha me e minhas duas irms, atravessando um oceano, para a Mudana da Capital do Estado de Minas Gerais. Onde nada muda. O tempo, fechado. O piano, fechado. Eu, fechada aqui. Mais de quarenta e dois dias me fariam superar Xavier de Maistre a deambular em sua priso. J uma viagem ao redor de mim mesma, ou melhor, dentro de mim mesma, essa sim, seria original. Eu me sento diante da secretria. Fechando os olhos, eu mergulho meus pensamentos na minha circulao, enviando-os feito peixes a explorar pontos remotos, ignotos do meu interior, mas a circum-navegao se mostra complexa demais, alm do mais, h o problema de acesso a lugares recnditos, como o corao, as tentativas recorrentes fracassam, imperiosa, a corrente sangunea reconduz os emissrios sempre de volta cabea. A algazarra das crianas nuas na rua os traz tona do real, sol com chuva, casamento da viva, chuva com sol, casamento do espanhol! Eu abro meus olhos. Raios de luz atravessam a chuvarada, projetam no cu opaco o Arco da Velha Aliana, douram as gotas dgua na vidraa, resplendem a pedra ao alto do barranco em frente e, l, o cavalo cabisbaixo, ensimesmado como eu, que registro a cena no meu dirio. Em portugus, para me exercitar, com letras de forma, em linhas separadas: O cavalo imvel sob a chuva... a bordo do navio, eu lia e relia sobre o Cavalo. E o Tempo, as Mquinas, os Bales, a Eletricidade, o Universo, os Astros, o Mundo, a Europa.

    Brasil era um nome no mapa.

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  • 17

    Eu trouxe comigo os dois primeiros nmeros do novo almanaque francs: agenda, memorial familiar, manual de conhecimentos, efemrides, moda, quase um livro, todo ilustrado com gravuras. Por sugesto do editorial, em vez da brochura de um franco e meio, por mais um eu tenho os exemplares de capa cartonada, coberta de papel-tela, que eu prefiro edio luxuosa de escritrio, em marroquim, pela bela cromolitografia, padro, s mudando a data ao alto do frontispcio: dentro da moldura drica, em valos, margaridas laranjas e suas folhas verdes serrilhadas emergem do fundo azul-noite, visveis s nos intervalos dos doze calendrios mensais dos santos a tudo sobrepostos, uma pena. Os cinco primeiros meses vm no tero superior, acima da cornija da cartela, com o ttulo:

    Almanach Hachette PETITE ENCYCLOPDIE POPULAIRE

    De la Vie Pratique

    Junho e julho ocupam os lados do quadro central, definido por gotas, que deixa a cada canto uma pinha entre duas folhas ao inscrever grosso aro feito a compasso contendo uma guirlanda. Tudo estilizado, geomtrico e em cores, o azul-escuro, o laranja e o verde claro, at esse detalhe, mais culo que moldura, que revela o foco de um plano subjacente e sem cor: a trao livre, um delicado busto feminino voltado para a direita. Trata-se de Marianne, pelos atributos: nos cabelos em coque, a tiara de espigas de trigo da fartura, presa por sinuoso lao que paira sobre a nuca sem tocar a veste estampada de cabeas de galo, os bicos abertos no canto da alvorada. Atrs, o emblema de Paris, a galera. Proa, popa, leme. Para a esquerda, a vela se enfuna e a flmula tremula no topo do mastro. Para a direita, remos saem do alto casco, as ps revolvem as ondas.

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  • 18

    A frgil e solitria cena humana de inspirao pag contrasta o rol profuso dos santos cristos. A efgie, sobrancelhas arqueadas, olhar atento, sorriso preso nas comissuras, longo colo, tem um ar predestinado: uma viagem est insinuada. No fossem franceses os smbolos, a jovem poderia ser eu mesma, mas o camafeu o retrato fiel de minha irm primognita, Marguerite, alis, muito de acordo com as margaridas em volta. A ausncia de cor sugere o tdio da grande travessia da mudana, ou da grande mudana da travessia, para o nada, para o lugar de tempo suspenso, que ainda no nem deixa de ser. No tero inferior, simtricos aos cinco primeiros meses esto os ltimos. Ao p, em tipos de fantasia, vem o nome da editora, HACHETTE & CIE., muito estranho, se traduzido: MACHADINHA & CIA. Abaixo, o ilustrador conseguiu inserir, esquerda, minsculo, manuscrito, Ques. st., por certo o nome do lugar onde vive, e, direita, a ponto de sair do papel, tambm a mo, quase imperceptvel, uma rubrica, A. Gir., e a data, 93. S a chuva me obriga a chegar a esses detalhes, s minha lupa me permite ler tais mincias. De fato, os dois almanaques, orgulhosos do dorso muito flexvel e do qudruplo pesponto indilacervel, resistiram bem viagem. Este que eu examino, do ano do lanamento, 1894, o meu predileto. Nas quatrocentas e cinquenta e seis pginas, entre vrios assuntos, se ensina COMO ESCOLHER UM CAVALO... COMO SE ACHA A IDADE DE UMA PESSOA... COMO CONSTRUIR SUA

    CASA. O melhor: COMO SE FABRICA UM LIVRO E O QUE ELE PODE CUSTAR, ofcio que h geraes ocupa minha famlia: avaliao do manuscrito, composio, correo das provas, colocao em pginas, papel, imposio da sua dobradura, aprovao do autor, tiragem, encadernao e oramento. Como eu gostaria de um dia escrever e produzir um livro!

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  • 19

    Eu devolvo o almanaque ao seu nicho, ajeitando-o at ele ficar paralelo ao outro, igual, um pouco mais grosso, datado de 1895, ano feliz e infeliz. No escaninho, est a comprovao de tal ambiguidade, o porta-cartes das c.d.v., as cartes de visite, feitas pela Gruzet Frres, na Rue de lcuyer, em Bruxelas, com a fotografia dos meus dezoito anos, au charbon, proced inaltrable. Inteis, depois da mudana, como o vestido de baile da pose, a mofar no guarda-vestidos. No h a quem enviar tantas. Circundadas nas bordas por um fio vermelho, elas parecem um baralho s de damas de um s naipe. Eu invento um uso, fazer um leque e com ele eu, a dama original, me abano, frvola como essa moda francesa dos cartes de visita, a cardomania. Que eu troco, com prazer, pelas belas artes, buscando na gaveta meu estojo de desenho abandonado desde o Natal. Para soprar o p finssimo do fundo, eu retiro os creions, bastes de carvo, bistres, sanguneas, esfuminhos, algodes de proteo e os retorno em ordem aos compartimentos, apontando ento os lpis de cor com ateno para no lhes quebrar a massa, guardando-os em degradao... no, em portugus no se diz assim, usa-se o francs mesmo, em dgrad, tratando de recolher as lascas espalhadas pelo tampo, seno Marguerite no me dar paz. Levantando para atir-las ao cesto, eu me vejo no psich, nome devido ao espelho to alto que uma mulher pode se ver por inteiro e, em consequncia, bela como Psych, a paixo de Cupido. Para mim, esse atributo no resolve nada. Mesmo que eu me olhe de cima a baixo por horas, eu no me vejo bela de todo, meu queixo no me agrada nem as sardas que meu rosto ganhou na primavera. O Sol no brilhou mais. O vero no chegou de modo completo. Ainda bem. Sem essa chuva, no haveria p-de-arroz que bastasse.

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  • 20

    Eu voltei a ser plida: morder os lbios, beliscar as faces, nada adianta, s mesmo um pouco de rouge. Minhas tranas me fazem parecer uma menina, eu solto os cabelos e prendo-os em coque. Eu no sou uma Marianne. Ser que meu colo ficaria mais longo com um decote como o das atrizes? Eu abro a gola, sem resultado. Sempre posso disfarar com uma joia. No escrnio, repousam em paz e lastimvel rigor mortis meus trancelins, gargantilhas, torsades, pendentifs, camafeus. Eu desisto do ensaio, preferindo remexer as gavetinhas do psich, onde eu acho, amarrando meus cachos louros de beb, a fita rosa e prata semelhante que Rousseau furtou quando jovem, acusando a criada Marion, sua colega de emprego, ao ser descoberto. Eu li essa triste histria em suas Confisses para uma lio de Moral. Encontro tambm o estereoscpio, que eu elevo para rever as cenas de Paris, mas o que eu vejo antes, de relance, pelo espelho, o arraial: a chuva parou, eu no creio! Tudo voltou ao normal, eu posso abrir a vidraa, arejar o quarto, faz calor, h mormao no ar. Meninos descalos lanam na enxurrada barquinhos feitos de folhas e galhos midos. O pequeno Basilio atrela aos varais da charrete os bodes que pastavam enquanto chovia. Esperto, ele lhes deu nomes propcios, os toca e a um tempo apregoa as mercadorias: Eia Charuto! Eia Cachimbo! Seu amigo Abilio o segue com o tabuleiro, eles vo para a Rua General Deodoro, ali h freguesia para o cigarro a granel e os pastis. O Escritrio da Comisso Construtora da Nova Capital fica aberto o dia todo, todo dia, at domingo e dias santificados. No sobrado, chova ou faa sol, entram e saem funcionrios, tcnicos, operrios, empreiteiros, moradores e gente de fora que vem ver as obras, polticos, jornalistas, curiosos, mas sem o trem, s aqueles que vieram a cavalo.

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