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Cortiços de Cortiça - O · PDF fileque podia esconder o cortiço dos amigos do alheio, sendo no entanto fácil de detectar pelo olfacto apurado das abelhas. Nesta fase o ramo de

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  • Cortios... de Cortia Joaquim Pfano (Aderavis)

    Cada vez mais as colmeias malditas, j no h cartilha apcola que no lhe atribua defeitos, problemas s resolvidos pelas caixas de madeira. A saber:

    Pouco produtivos pela falta de espao, os melhores com 10% da produo das colmeias mveis. De difcil controlo sanitrio, pela dificuldade/impossibilidade de acesso ao interior. Impossibilidade de encontrar/manipular a rainha, pelas razes do ponto anterior. Medicamentos aplicados na prpria cmara (nica) de produo. Transumncia impossvel ou muito difcil. E outros que no me ocorrem...

    Restam-lhes os argumentos estticos, talvez at a leveza e os baixos custos, que permitem uma fcil aquisio e a possibilidade de os disseminarem pelo mato para a captura de enxames. Se os roubarem a perda pequena, dizem os apicultores. No foi a primeira batalha perdida pela cortia, nem ser decerto a ltima, o orgulho da terra Transtagana, que antes animava a economia nacional com exportaes record. Hoje no passa de uma casca rija e enrugada, igual pele dos tiradores que ainda restam. Eram precisamente esses tiradores, de machada em punho, que separavam os melhores caneiros e os apartavam da restante cortia, no fosse o rachador faz-la em pranchas. Se no eram abelheiros a encomenda era-lhes feita por outros com esse vcio. Quando a cortia era boa, amadia, densa, um cilindro quase perfeito, originava os melhores e mais cobiados cortios, de forma obviamente cilndrica. Eram os mais comuns:

  • Os bordos eram aparelhados em bisel, de modo que os sovinos de pau de Esteva os pudessem pregar e unir sem lhe tirar a forma.

    No interior, a um tero e dois teros da altura eram colocadas as chamadas trancas, grupos de duas varas de Esteva em forma de cruz, cujo objectivo era dar maior firmeza aos favos que nelas se apoiavam. As mesmas trancas ainda delimitavam reas com funes diferentes no interior do cortio, nomeadamente onde o apicultor operava diversas tarefas:

    Estinha - No fim do Inverno, era o acto de cortar a parte de baixo dos favos, prxima do cho. Servia para retirar as ceras velhas, negras e com bolor, para as abelhas reporem ceras novas. Estas eram cortadas at altura das trancas de baixo, outras vezes nem tanto.

    Cresta- O retirar dos favos com mel, no quarto minguante de Agosto, quando no havia criao. Primeiro arrancavam os sovinos do tampo, para o poderem remover, depois, com a ajuda da crestadeira, utenslio metlico que lembra uma gadanha, ceifavam os favos carregados de mel at s trancas de cima.

  • A crestadeira tem duas extremidades, uma em forma de esptula com que separam os favos da cortia, e outra que lembra uma gadanha com que seccionam os favos junto s trancas.

    A forma dos cortios tambm dependia muito da regio e das tradies, outras vezes era a qualidade e a disponibilidade de cortia. Quando no se apanhavam caneiros redondos, cilndricos, faziam-se cortios de formas mais caprichosas. Meia cana pregada a uma prancha mais recta, que normalmente fazia de parede frontal, resolviam o problema e albergavam o enxame. No so raros os que apresentam esta forma:

    Menos comuns, mas igualmente belos, so os de seco quadrada ou rectangular. Tm mais mo de obra, so necessrios mais pregos de Esteva, mas o resultado funcional e muito esttico. E as abelhas no se queixam da geometria rectilnea...

  • Outras habilidades que se faziam com os cortios...

    Sempre ouvi dizer aos mais velhos que o mtodo mais eficaz para combater a tinha era o de colocar os cortios no forno, aps a cozedura do po. A tinha ou traa era o pesadelo dos antigos abelheiros, ainda nem se sonhava com a Varroa, como se tal caro colorisse os sonhos a algum, e j aquelas larvas destruam imensas colnias. Sempre que morria um cortio retiravam-se os favos velhos, cuja cera era apurada para vender aos carpinteiros de obra fina. Para desinfectar as colmeias colocavam-nas dentro do forno, quando as temperaturas ainda letais para a traa e outras molstias, eram mais baixas, o que s se conseguia momentos depois de retirar o po.

    Depois de desinfectados, os cortios estavam outra vez prontos para albergarem abelhas. Para as capturarem, aromatizavam-nos esfregando plantas aromticas no interior, como o Rosmaninho, a Esteva e o Alecrim, ou outras, consoante a regio do pas. Aps a esfrega, que tambm higienizava, deixavam-lhe o bouquet de flores e aromas no interior para acentuar a funo. S as retiravam quando colocavam o cortio no tal stio especial, onde os enxames nunca falham, pudera, a canada das abelhas passava justamente por ali...

  • O stio especial compunha-se quase sempre de um rochedo enfeitado de vegetao, mato fechado, que podia esconder o cortio dos amigos do alheio, sendo no entanto fcil de detectar pelo olfacto apurado das abelhas.

    Nesta fase o ramo de flores, facto curioso, era deslocado do interior para cima do tampo, onde se mantinha graas a uma pedra estratgicamente colocada e que evitava que o vento as levasse. Ainda hoje no percebi, nem procurei saber, se tal hbito visa manter o aroma activo ou camuflar ainda mais a colmeia, se calhar... ambos. Mas trata-se de um quadro muito comum.

    Nem sempre a montanha ia a maom, muitas eram as vezes que tinha de ser o cortio a ir s abelhas. Bastava para isso que o enxame pousasse num ramo alto e de difcil acesso, o que nunca desmotivava os abelheiros. Uma corda lanada sobre o ramo iava o cortio at perto das abelhas. Uma escada de madeira, que costumava fazer parte da moblia do apirio e uma ponta de coragem, levavam o apicultor aos pncaros, onde um toque certeiro derrubava o enxame para dentro do cortio. Paciente, o ajuda descia o conjunto, agora mais pesado. Colocava-o na posio correcta e a ficava at ao Inverno, quando as ceras ficavam rijas e lhe permitiam o transporte para local definitivo.

  • Haviam tambm os criativos de vanguarda, ou talvez... vanguardistas saudosos!? que aliavam estas relquias da apicultura s modernas alas para maiores produes. O resultado final desafiava a gravidade e a lgica, mas merc de vrios artifcios conseguiam equilibrar uma e at mais alas sobre o cortio. Muitas eram as percias e habilidades que se faziam com tais colmeias de quadros fixos. Com o passar dos anos, as fracturas, os buracos da traa ou os incndios traavam-lhes o destino, ainda assim honrado pela morte em combate. Pior era quando acabavam como ninhos num pombal ou cortados ao meio e de cabea para baixo, albergando um florido vaso, onde antes labutavam mirades desses insectos que nos adoam a vida.

    Comentrios em http://montedomel.blogspot.com

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