CRIMES NO MOSTEIRO

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Três monges assassinados, a misteriosa morte do Papa e um segredo sobre o Final dos Tempos que pode abalar os pilares da igreja

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  • Degustao

  • 2

    Trs monges so assassinados, um aps o outro,

    dentro do Mosteiro de So Bento, no Centro de So

    Paulo.

    Cabe ao famoso detetive Mario Ferretti desvendar este

    mistrio. A tarefa no fcil, pois o assassino esconde-

    se sob o rosto de um daqueles homens santos.

    Afinal, os tempos no so fceis. Como se j no

    houvesse crime suficiente nesta terra, a Mfia

    napolitana estende sua atuao para o Brasil.

    O Papa morre de uma maneira misteriosa no Vaticano.

    Tudo parecia previsto pelo profeta Malaquias. Paulo

    VII seria o ltimo pontfice antes do Final dos

    Tempos.

    Em meio a uma crise religiosa sem precedentes, os fiis

    assistem pelas redes sociais, atnitos, revelao de um

    segredo que pode mudar a Histria do Ocidente.

    Desvende este mistrio. Antes que seja tarde.

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    Sem Papa

    SO PAULO, A CIDADE QUE NUNCA DORME,

    amanheceu nublada. O sol, tmido, lutava contra nuvens cor-de-chumbo no horizonte. Uma nvoa espessa envolvia as torres da baslica do Mosteiro de So Bento. L do alto, esculturas de anjos fitavam com indiferena as sombras do vale do Anhangaba. O grande relgio bateu cinco horas, acionando os sinos de bronze. A igreja parecia despontar de dentro do nevoeiro, como uma fantasmagrica apario medieval. Ao redor, as ruas do Centro ainda exalavam o cheiro da urina noturna derramada por vadios, criminosos e prostitutas. Por detrs das pesadas portas do mosteiro, uma cerimnia secreta acontecia. Somente os enclausurados podiam participar do primeiro ofcio do dia. A fumaa do incenso tomou conta da nave, imersa na escurido. Vultos encapuzados caminhavam na direo do altar central. Os monges abriram seus hinrios e entoaram um canto gregoriano pungente. Abade Calixto se ajoelhou diante do crucifixo. Seus 65 anos molestavam juntas e joelhos. Subitamente, as portas centrais da baslica foram empurradas com estardalhao. Vindo da rua, o novio Marcos invadiu o recinto, cambaleante e esbaforido. O moo correu ruidosamente pelo corredor central, ignorando totalmente a proibio que o impedia de estar quela hora entre os professos, que seguiam cada letra da rigorosa Regra de So Bento.

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    O jovem caiu no cho, quase batendo a boca em um banco. Catatnico, levantou-se sem se dar conta do tombo. medida que se aproximava, ouvia-se sua respirao nervosa. Os rostos se viraram para ele. O moo gritou desesperado: Dom abade! Veja isto. Ser o Final do mundo ?! Agitava nas mos um jornal. Seguiu esbarrando pelos bancos vazios como um inseto tonto. O rosto estava plido e as mos tremiam, num ataque de nervos. A cerimnia parou. O cntico gregoriano deu lugar a um murmrio inquieto. Marcos subiu cambaleante os degraus que levavam para o altar. O abade deu alguns passos na direo dele. O que acontece a este rapaz? Lgrimas escorriam pelas faces do jovem. Que desgraa aconteceu com o Papa, dom abade? Quebrando todas as normas, o jovem abriu a portinhola que, nas missas, separava o altar sagrado do pblico. Invadiu ento o espao consagrado, sem ao menos fazer o sinal da cruz. Abade Calixto avanou para ele e o segurou pelos ombros, com autoridade. Ordenou que se ajoelhasse. Os demais monges permaneceram estticos e boquiabertos, com os libretos de cntico suspensos no ar. O rapaz chorava compulsivamente. Entre um flego e outro, levantou os olhos umedecidos, agitando o jornal. No conseguiu mais pronunciar palavra, apesar dos seus esforos. Calma pediu novamente o abade. O que aconteceu? Respire fundo e fale devagar. O jovem estendeu a primeira pgina do matutino, apontando a manchete, ilustrada por uma enorme foto na vertical. Diante daquela imagem ttrica, alguns monges gritaram de horror. Outros benzeram-se repetidas vezes. Formaram lentamente um crculo em torno do abade e do novio. Todos leram, assustados, a frase desastrosa, para a cristandade e para o mundo:

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    Papa Paulo VII encontrado morto

    em seu quarto no Vaticano

    A notcia era aterradora. O Papa Paulo VII, eleito seis meses atrs, estava morto? Tinha apenas 56 anos, era considerado jovem para o cargo. O impacto desnorteante vinha das circunstncias de sua morte, sugerida pela foto, horrenda e pattica. A violncia da imagem deixou alguns monges sem flego. Monge Pedro no suportou a crueldade do fato e desmaiou. O reflexo rpido de monge Marcelo impediu que ele batesse a cabea no mrmore e maculasse o local sagrado. O abade Calixto sentiu seu corao bater violenta e dolorosamente. Foi dobrando os joelhos at o cho. De seu peito angustiado, saram as notas de um canto gregoriano triste e compungido. Os outros monges se ajoelharam. Dois deles seguravam monge Pedro, que se recuperava lentamente do desmaio. Seguiram o cntico em unssono, que se levantou numa splica desesperada: Pater de caelis, Deus, misere nobis, Fili, Redemptor mundi, Deus, miserere nobis. Spiritus Sancte, Deus, miserere nobis. Sancta Trinitas, unus Deus, miserere nobis. Pai do cu, Deus, tende piedade de ns. Filho, Redentor do mundo, Deus, tende piedade de ns. Esprito Santo, Deus, tende piedade de ns. Santa Trindade, Deus nico, tende piedade de ns. Tonto, o novio Marcos deixou cair o jornal. Uma sbita rajada de vento carregou a pgina e a levantou na direo da cpula. O papel ficou rodopiando por alguns segundos. De repente, um golpe de ar carregou-o na direo de um crucifixo de prata, colando-o pea.

  • 7

    A foto ampliada, que mostrava os ltimos instantes de vida do Papa, tremulou como uma bandeira negra, exibindo a cena aterrorizante que dificilmente pode ser encarada com tranquilidade por qualquer pessoa que louva a vida e o milagre da criao. Era momento de rezar, rezar muito, para que o mundo ganhasse alguma esperana, j que, para o Papa Paulo VII, no houvera nenhuma.

  • 8

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    Profecia

    A POUCOS QUARTEIRES DALI, o tradutor de lnguas antigas Saulo Kuram bebia uma caneca extra de caf para espantar o sono. Passara a noite e a madrugada debruado sobre um papiro egpcio de 1.900 anos, que chegara a suas mos em circunstncias inslitas. Ufa! Consegui acabar a traduo, suspirou aliviado. Naquele momento, Saulo conclua o rascunho da Editio Princeps, primeira edio de um manuscrito histrico. Ele conseguira verter para o portugus um complicado texto bblico proibido pela igreja. O texto original estava em copta, uma lngua egpcia antiga falada por cristos foragidos do imprio romano. Ainda naquela manh, entregaria o trabalho para a editora. Ainda bem que no preciso digitar todo esse texto.

    Saulo tinha averso por computadores. Aquele comportamento lhe rendera vrias piadinhas na universidade. Colegas e at alunos o chamavam de dinossauro, uma raa extinta incapaz de se adaptar s novidades da vida moderna. Saulo sabia: o lanamento daquele evangelho apcrifo era uma bomba nos alicerces da Histria crist. Uma mentira fora repetidamente contada durante sculos. Sua traduo revelava finalmente a verdade escondida por tanto tempo.

    O papiro trazia segredos nunca antes revelados sobre a vida ntima de Jesus. Ao mesmo tempo que previa altas vendas, sua editora temia uma retaliao violenta dos xiitas tradicionalistas. Por isso, a existncia do papiro estava sendo

    mantida a sete chaves. Saulo passara os ltimos dias quase sem dormir, numa dieta de caf, sanduches, pizzas e refrigerantes, para cumprir o

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    apertado prazo que lhe dera Jandiro Paixo, o editor rabugento. O tradutor dirigiu-se janela de sua pequena casa no Centro de So Paulo para respirar ar puro. Deu uma olhada na rua deserta. Rarssimos madrugadores passavam pela calada da frente quela hora. Seus amigos professores, que preferiam a altura e o conforto dos apartamentos, achavam uma loucura morar numa casa trrea naquela regio. Saulo odiava alturas. E adorava bater pernas pela parte velha da cidade. Naquele momento, ouviu as badaladas do sino do Mosteiro de So Bento ali perto. Eram cinco e meia. Saulo voltou ao pequeno escritrio, entulhado de livros, e resolveu ligar a TV para relaxar um pouco.

    A notcia que viu no telejornal teve o mesmo efeito que um soco no maxilar. Saulo custou a acreditar em seus olhos e ouvidos. O apresentador do telejornal explicava em voz grave que o Papa Paulo VII fora encontrado numa forca em seu quarto, no Vaticano. A TV mostrou o Sumo Sacerdote vestido em paramentos de gala. A cmera fez uma volta em torno do corpo e fechou foco em um rosto plido e conturbado. Os olhos abertos do cadver passavam pnico e apreenso. A mandbula, cada para a esquerda, lado contrrio para onde pendera a cabea, dava feio do morto um aspecto sinistro. O jornal exibiu uma entrevista com o secretrio do Papa, agora na funo de carmelengo. Ele tomaria conta do pontificado interinamente, at ser eleito o novo representante de Deus na Terra: Sua Santidade estava muito deprimido nas duas ltimas semanas informava o cardeal francs Antonienne Flaubert, em um ingls com forte sotaque. Ele no dormia direito havia meses. A presso poltica sobre o Santo Padre estava enorme. Reclamava muito disso. No final de semana, me confessou, particularmente, no estar preparado para o cargo de Pontfice. Mas nunca desconfiei que o Vigrio de Cristo pudesse chegar a

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    um extremo desses benzeu-se e abaixou a cabea, entristecido. Saulo aumentou o volume para no perder uma s palavra. Lembrou-se de que o novo Papa enfrentara resistncia aguerrida d