Da fotografia como arte à arte como fotografia: a ...· A composição dessa rede varia de acordo

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    1. Docente do Museu de Arte Contempornea da Universi-dade de So Paulo. E-mail: .

    Anais do Museu Paulista. So Paulo. N. Sr. v.16. n.2. p. 131-173. jul.- dez 2008.

    Da fotografia como arte arte como fotografia: a experincia do Museu de Arte Contempornea da USP na dcada de 1970

    Helouise Costa1

    RESUMO: Este ensaio visa sistematizar os primeiros resultados de uma pesquisa, ainda em curso, sobre o processo de legitimao da fotografia pelo sistema de arte no Brasil, cujo foco principal o museu. Os museus de arte da cidade de So Paulo foram escolhidos para dar incio a essa investigao. Primeiramente, ser abordada, em linhas gerais, a presena da fotografia no Museu de Arte Moderna de So Paulo e na Bienal de So Paulo, dada a vinculao de origem do Museu de Arte Contempornea com essas duas instituies paulistanas. Na seqncia ser analisada a formao do acervo fotogrfico do Museu de Arte Contempornea da Universidade de So Paulo durante a dcada de 1970. Por fim, esse percurso permitir observar que a atuao de Walter Zanini, o primeiro diretor do Museu, e as particularidades da posio do MAC-USP no sistema de arte no Brasil naquele perodo resultaram no entendimento da fotografia prioritariamente no mbito da arte contempornea de carter experimental e no como obra de arte autnoma, segundo os princpios da chamada fotografia artstica.PALAVRAS-CHAVE: Museu de arte. Fotografia artstica. Coleo fotogrfica. Museu de Arte Moderna de So Paulo. Bienal de So Paulo. Museu de Arte Contempornea. Universidade de So Paulo.

    ABSTRACT: This article presents the first findings of a research still under development about the process of legitimation of photography as a kind of art by the artistic scene in Brazil. The art museums of the city of So Paulo were chosen for starting that research. Initially, we will be investigating the presence of photography at the Contemporary Art Museum of So Paulo and at the Biennial of So Paulo, as the origin of the Contemporary Art Museum is tided to those two institutions. Following, the arrangement of the photographic technical reserve of the Contemporary Art Museum in the 1970s will be analyzed. This study will be focusing on the work of Walter Zanini, as the first director of the museum, and on the particularities of MAC-

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    2. Este ensaio resultado parcial de pesquisa realizada para a Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo (Fapesp) no binio 2005-2009. Para sua elabora-co, foram consultados os arquivos do Museu de Arte Contempornea da USP, do Museum of Modern Art New York e da Fundao Bienal de So Paulo (arquivo Wanda Svevo).

    3. Fazem parte dessa rede de agentes os artistas, os marchands e galeristas, os colecionadores, os crticos, os acadmicos, os curado-res, os diretores e profissio-nais de museus e institui-es culturais, os editores de publicaes especializa-das ou de divulgao, entre outros. A composio dessa rede varia de acordo com a poca e os pases considera-dos. Sobre a arte moderna e contempornea como siste-ma, ver Anne Cauquelin (1992).

    4. Legitimar tem sua origem etimolgica ligada palavra lei. A legitimao um conceito de origem poltico-jurdica que designa o reco-nhecimento, pelas institui-es do poder, e segundo articulaes discursivas que esse mesmo poder domina, de determinados factos so-ciais, sejam eles processos ou objectos. Como produto social que sempre , a litera-tura esteve, desde a origem, sujeita a essa mesma legiti-mao. Podemos afirmar que esse fenmeno ocorre tambm com a arte em geral e a fotografia em particular. Ver: Dicionrio eletrnico de termos literrios. Acess-vel em: . Acesso em dezembro de 2007.

    5. Os termos coleo e acer-vo sero utilizados neste en-saio seguindo a sugesto de Maria Ceclia Frana Louren-o: Diferenciamos coleo de acervo, no tanto pelo sentido etimolgico, pois praticamente coincidem no

    USP position in the art system in Brazil which resulted in the understanding of photography as belonging to the sphere of contemporary art in an experimental way and not as an autonomous work of art, according to the principals of the so called artistic photography.KEyWORDS: Art museum. Photography as art. Photographic collection. Museum of Modern Art of So Paulo. Biennial of So Paulo; Museum of Contemporary Art. University of So Paulo.

    A possibilidade de integrar o projeto temtico Lugares e modos crticos da arte contempornea nos museus motivou-me a formalizar uma pesquisa, cujo objetivo central resgatar o processo de legitimao da fotografia pelo sistema de arte no Brasil, tendo como foco principal o museu2. Para tanto, parti do pressuposto de que o museu uma das instncias fundamentais do sistema de arte, e sua atuao tem profundos desdobramentos no campo da crtica e da histria da arte. Por sistema de arte, entendo uma rede complexa de agentes que confere significado social obra de arte3; e, por legitimao, o resultado de estratgias diversas, levadas a cabo por esses mesmos agentes para obter o reconhecimento, junto a seus pares, de certas modalidades de obras ou prticas artsticas, em observncia a determinados sistemas de valores compartilhados4. Nessa linha interpretativa, o museu, na sua qualidade de instituio normalizadora, dita padres de legitimao para diferentes prticas artsticas, por meio de estratgias diversas, especialmente pelas exposies que realiza, pelas publicaes que organiza ou endossa, e pela poltica de incorporao de obras adotada para seu acervo5.

    A histria das instituies e de seu papel na conformao de sistemas de valores em uma determinada rea de conhecimento vem, h muito tempo, sendo contemplada como objeto de investigao pela Sociologia. O mesmo no ocorre no mbito da arte. Ao defender a autonomia da obra de arte e a subjetividade privilegiada do artista como fatores determinantes do significado da arte na sociedade moderna, a teoria esttica modernista subestimou o papel das instituies na conformao dos valores artsticos. Foi somente a partir dos anos 1970, com o advento da chamada crtica ps-moderna, que o interesse pelos processos de institucionalizao da arte ganhou flego no trabalho de autores como Rosalind Krauss, Douglas Crimp e Abigail Salomon-Goudeau, para citar apenas alguns dos nomes, cuja produo terica refere-se mais diretamente fotografia6. No por acaso, parte desses autores valeu-se das questes suscitadas pela assimilao da fotografia pelo museu para fundamentar suas reflexes acerca da institucionalizao da arte moderna e contempornea e evidenciar seus paradoxos. J no Brasil, s recentemente a institucionalizao da arte moderna e contempornea comeou a ser tomada como objeto de pesquisas acadmicas de modo mais sistemtico7. Ainda assim, poucos estudos tm sido dedicados assimilao da fotografia pelos museus nacionais8. Foi, portanto, com o intuito de atuar nesta lacuna que dei incio a este projeto de pesquisa.

    A primeira etapa desta investigao, realizada entre 2005 e 2007, tratou do processo de formao do acervo fotogrfico do Museu de Arte Contempornea da Universidade de So Paulo. A escolha do MAC-USP deveu-se no apenas a meu vnculo profissional com a instituio, mas, principalmente,

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    intento aglutinador []. A palavra coleo associa-se a voluntarismos, em que um sujeito elege objetos como parte reveladora de sua exis-tncia, seja por lazer, capri-cho, amuleto ou vaidade [] indica conjunto fecha-do e privado, transferido ou no para instituies. A es-colha da palavra acervo para segmentos conectados, se-gundo um projeto museol-gico, aqui intencional []. Pressupe o debate e a elei-o de critrios, o estabele-cimento de plano de metas, dentro de padres especial-mente formulados segundo a realidade existente. Cf. Maria Ceclia Frana Louren-o (1999, p. 13).

    6. Tais autores estiveram vinculados ao projeto edito-rial da revista October nos primrdios de sua existn-cia. Lanada em 1976, a re-vista teve como um dos ob-jetivos de seu projeto edito-rial colocar em xeque a histria da arte de cunho formalista a partir de abor-dagens interdisciplinares. Ver Rosalind Krauss (1990); Douglas Crimp (1993); e Abigail Solomon-Goudeau (1991).

    7. Ver Marcelo Mattos Ara-jo (2002); Maria Ceclia Frana Loureno (1999).

    8. Ver Mariana Martins (2005); Carolina Coelho Soares (2006).

    9. Beaumont Newhall foi curador do Departamento de Fotografia do MoMA de 1940 a 1945, tendo compar-tilhado a gesto com sua es-posa Nancy Newhall. Ver Diana Dobranszky (2008); e Beaumont Newhall (1993).

    10. Ver Christopher Phillips (1982).

    11. Sobre o processo de le-gitimao da fotografia pelo MoMA, ver tambm Douglas Crimp (1993).

    s peculiaridades de sua trajetria. Fundado em 1963, constituiu-se no primeiro museu de arte contempornea do pas e teve sua origem ligada ao Museu de Arte Moderna de So Paulo e Bienal de So Paulo. Essas conexes primordiais e sua condio de museu universitrio pareceram-me conferir ao MAC-USP uma trajetria complexa e particularmente propcia realizao deste estudo. Os museus universitrios constituem-se em uma dupla referncia no sistema de arte: alm de exercerem o papel de instituio museolgica, tm por princpio, como fundamento de todas as atividades que desenvolvem, a produo de conhecimento acadmico. A vinculao universitria propicia a esse tipo de museu uma relativa autonomia em relao ao mercado de arte, o que ocorre de modo ainda mais evidente durante o perodo abarcado por este ensaio, quando ainda no havia um sistema de arte estruturado no pas.

    De incio, tratarei do processo de incorporao da fotografia pelo Museu de Arte Moderna de So Paulo. Na seqncia, em linhas gerais, abordarei a presena da fotografia na Bienal, para, finalmente, analisar a experincia do Museu de Arte Contempornea da Universidade de So Paulo na dcada de 1970. O recorte temporal adotado para a abordagem das instituies nacionais cobrir os