Entrevista Mezaros Sobre Lukacs

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    Verinotio revista on-linede educao e cincias humanas

    Espao de interlocuo em cincias humanasn.10, Ano V, out./2009 Publicao semestral ISSN 1981-061X

    Temposde Lukcs e nossos tempos: socialismo e liberdade*1

    Entrevista com Istvn Mszros**1

    Por J. Chasin, Ester Vaisman, Carlos Eduardo Berriel,Narciso Rodrigues, Ivo Tonet e Srgio Lessa

    Da esquerda para a direita: I. Mszros, Narciso Rodrigues Jr., Ester Vaisman, IvoTonet e J. Chasin. De costas: Srgio Lessa e Norma Casseb.

    1* Publicada originalmente na Revista Ensaion. 13. So Paulo: Ensaio, pp. 9-29, 1984. 1** Professor Emrito de Filosoa da Faculdade de Artes da University of Sussex.

    ENTREVISTA

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    fantstico, mas, na atualidade, a herana lukacsiana quase no reclamada.Poucos so, pelo mundo inteiro, aqueles que fazem de sua obra e de sua vida pontode apoio e inspirao. No to fantstico, se considerado for que a escassez con-

    tempornea tambm de marxistas tout court. No borradas as propores, h quecompreender que o destino de Lukcs depende e est atado estreitamente ao destinode Marx.

    Os romanos diziam que os livros tm seu destino. H que acrescentar: tambmos escritores. E que tais destinos, bvio, so muito mais impessoais do que, nacinza do cotidiano, somos levados a colorir. Em suma, como dizia o prprio Lukcsem Narrar ou descrever: A verdade do processo social tambm a verdade dosdestinos individuais.

    Eis que, no processo social de nossos tempos, o ostracismo de Lukcs a pedra

    angular na construo do ostracismo de Marx.Que outra coisa poderia advir da crueldade da vida social, do rebaixamentodo nvel de humanidade, enquanto fatos objetivos que acompanham o desenvolvi-mento do capitalismo [como diz Lukcs no texto citado], ainda acrescidos, desde aComuna de Paris, por mais de um sculo de derrotas do proletariado?

    Decerto, quando a histria dos homens puser abaixo esta muralha de esqueci-mento, o destino prprio a Marx e a Lukcs tornar devida luz. Supor meramenteo contrrio , no mnimo, ruminar o mau gosto das desatenes elementares. Quan-tas vezes j mataram Hegel? E Aristteles, quantas j foram as suas ressurreies?

    At l, com calma e coragem, ir saltando para alm da paliada, perturbar afaina dos pedreiros e ir abrindo brechas onde for possvel. Uma rstia, iluminando,sempre passar.

    Istvn Mszros (+1930) um destes valentes britadores atuais. O mais ati-vo e conhecido deles. O nico do reduzidssimo crculo que teve oportunidade detrabalhar diretamente com Lukcs a sustentar com convico e coerncia o peso deuma identidade e a fertilidade de uma perspectiva.

    A nosso convite, veio pela primeira vez ao Brasil, para participar do I Simpsiode Filosoa do Nordeste, centrado sobre o pensamento de Marx, que se realizou

    em Joo Pessoa, em outubro de 1983, sob patrocnio do mestrado e do Departa-mento de Filosoa da UFPb e da Seaf-Regional Nordeste, com apoio da Capes edo CNPq.

    Na ocasio, Istvn Mszros pde ir tambm a So Paulo, onde proferiu confe-rncia no Tuquinha, e travou contato com uma srie de integrantes e colaboradoresda [Revista] ENSAIO, da qual membro do Conselho Consultivo.

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    Horas antes de deixar J. Pessoa, em convvio de grande descontrao e afabili-dade com o grupo de professores da UFPb, Ufal e PUC-SP que formou a equipe deentrevistadores, gravou o depoimento ora publicado, cujo texto revisou posterior-

    mente, j na Inglaterra, onde vive desde 1959.I. Mszros um homenzarro de alma doce, maneiras delicadas e intelignciavibrante. Ama o desconhecido: homens e cenrios. E no resiste a uma comida bemapimentada. Escolhe mesmo o que vai comer quase que sob este nico critrio.Nessas horas, era uma delcia v-lo perguntar, em portugus, que foi aprendendocom rapidez fulminante, se tal ou qual prato era ou no era pimentza, com ar umpouco ansioso, preocupado em no fazer alguma escolha enganosa. Quase delirouao ver, pela primeira vez na vida, a tapioca natural, preparada comumente, entre ou-tros lugares, nas caladas de J. Pessoa e ruelas de Olinda, alimento que j conhecia,

    vejam s, na forma de biscoitos, facilmente encontrveis, segundo disse, nos super-mercados londrinos.Incansvel, vido de todas as realidades, sempre disposto a discorrer sobre os

    tempos de Lukcs e a enfrentar os dramas agudos de nossos tempos, nutre o grandeprazer de pr em tudo a mais humana das gentilezas. Em verdade, um modo deser, uma forma de encarar a vida.

    S uma coisa rompe com o encanto dessa dimenso ntima, e a rompe preci-samente para a conrmar: a averso, o dio permanente por tudo que derive dadominao do capital, em qualquer de suas formas, ou seja, a barbrie capitalista e a

    barbrie stalinista.Na esteira, pois, da na herana lukacsiana e da perspectiva socialista, que Msz-ros no entende to longnqua, dada a crise estrutural em que entalou o capital.

    Decerto aludindo a isso, numa dupla metfora ao mundo velho sem porteiratodo carecido de um bom remdio, e ao desejo que alimenta de que sua ajuda naalquimia da poo seja frtil , satisfaz a curiosidade de algum que indagava pelosignicado, em hngaro, de seu sobrenome, exclamando: Carniceiro! e completacom um gesto, voz tranqila e a ponta de um sorriso e bom que seja assim....

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    J. Chasin: Voc um nome razoavelmente conhecido junto intelectualidade brasileira,

    mas no o suciente. Sugiro, ento, que comece por falar de sua infncia e juventude, para que, aospoucos, cheguemos a um perl completo.

    I. Mszros:Minha infncia foi muito difcil. Foi antes da Guerra, no regimede Horthy2, em condies muito pobres. ramos quatro, minha me, minhas duasirms e eu. De incio minha me foi enfermeira, mas, no tempo da crise, no perodoentre [19]29 e [19]33, ela teve de deixar este trabalho e se tornou operria metalrgi-ca. E eu, em funo da pobreza, tive de trabalhar em uma fbrica aos 12 anos e meio,falsicando a carteira de trabalho, onde elevei minha idade para 16 anos, mnimapermitida por lei. Trabalhei, nesta ou naquela fbrica, praticamente at o momentode entrar para a universidade.

    Chasin:Que tipo de fbrica?

    Mszros:Fbricas de avies, txteis, tipograas etc. Ao mesmo tempo estuda-va. Aos 18 anos entrei para uma universidade. Naquela poca a vida se tornou maisfcil: no tinha que trabalhar ao mesmo tempo em que estudava. Podia, assim, mededicar integralmente aos estudos. Neste momento, conheci Lukcs, em circunstn-cias muito interessantes. Ele estava sendo atacado por Rvai3e outros elementos doPartido.

    E. Vaisman:Em que ano?Mszros:Em 1949, eu tinha 18 anos e meio.Chasin:Em razo do livro A responsabilidade dos intelectuais?4

    Mszros:Sim, sobre a democracia popular e outras coisas do tipo. Dois outrs meses depois que entrei para a universidade; tentaram me expulsar em funoda minha ligao com Lukcs. Todavia, isto no aconteceu, estudei com ele e doisanos depois eu me tornei seu assistente. Sempre trabalhamos em mtua colaboraoe nos tornamos grande amigos, incluindo sua mulher, Gertrud, que era uma pessoamaravilhosa.

    Chasin: Um dos propsitos desta entrevista alcanar, pelo seu depoimento, a conguraodesta relao de trabalho e amizade com Lukcs. E tambm, evidente, a prpria reconstruo da

    gura de Lukcs.

    2 Mikls Horthy (1869-1957), contra-almirante da marinha habsburguesa que, em 1919, apoiou a alianacontra a Repblica Hngara dos Conselhos. Em 1920 foi chefe do regime reacionrio da Hungria. Destitudoem 1944 por um golpe nazista, foi feito, depois, prisioneiro de guerra pelos aliados; foi, na seqncia, entregueao governo hngaro.3Jzsef Rvai(1886-1939), idelogo e publicista. Entre as duas Grandes Guerras, emigrou e viveu, por ltimo,na Unio Sovitica. Depois do retorno Hungria, em 1945, fez parte do vrtice do Partido Comunista at1956.4A responsabilidade dos intelectuaisfoi publicado no vero de 1944. Trata-se de um volume de ensaios sobrehistria e literatura hngaras; escrito entre 1939 e 1941, foi publicado pela primeira vez em Uj Hang com umaintroduo datada de maro de 1944. Este foi o primeiro volume escrito em hngaro por Lukcs depois de umintervalo de 20 anos. Em 1945, o livro se tornou o centro de discusses ideolgico-culturais na Hungria.

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    Mszros: Ocorria, na poca, uma mudana na orientao do Partido. Haviadescrena de que se poderia falar seriamente em democracia popular. Na verdade,era uma palavra vazia, sem signicado, pois todas as possibilidades de envolvimento

    popular estavam suprimidas: era propriamente um desdobramento do stalinismo.Neste contexto, havia uma presso de Moscou no sentido da autocrtica. Mascomo pode um chefe de partido fazer autocrtica? impossvel! Deve encontraralgum que faa isso por ele! Esse era o papel de Lukcs no debate com Rvai eoutros. (Tudo de que Lukcs era acusado pode ser encontrado nos prprios escritosde Jzsef Rvai.) Sobre isso, Lukcs gostava de contar uma anedota para caracterizarseu papel. Narrava que, em tempos passados, quando estivera na Universidade deBonn, os estudantes levavam uma vida bomia, divertindo-se e bebendo muito. De-pois de embriagados, andavam pelas ruas quebrando os lampies a gs. Os policiais

    no tinham como identicar exatamente os responsveis. Adotaram, assim, o mto-do de agarrar algum, que devia ento arcar com o prejuzo. E Lukcs dizia