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UNIVERSIDADE CATÓLICA DOM BOSCO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM PSICOLOGIA JEFERSON CAMARGO TABORDA GENEALOGIA-CARTOGRÁFICA: DITOS E ESCRITOS SOBRE FAMÍLIAS-CUIDADO CAMPO GRANDE-MS 2012

GENEALOGIA-CARTOGRÁFICA: DITOS E ESCRITOS SOBRE … · demonstrado na prática a necessidade de correr atrás dos próprios sonhos, na falta de financiamentos exteriores, acreditar

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  • UNIVERSIDADE CATLICA DOM BOSCO

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO

    MESTRADO EM PSICOLOGIA

    JEFERSON CAMARGO TABORDA

    GENEALOGIA-CARTOGRFICA: DITOS E ESCRITOS

    SOBRE FAMLIAS-CUIDADO

    CAMPO GRANDE-MS 2012

  • Ficha catalogrfica

    Taborda, Jeferson Camargo T114g Genealogia-cartogrfica: ditos e escritos sobre famlias-cuidado / Jeferson Camargo Taborda; orientao, Anita Guazzelli Bernardes. 2011 116 f. + anexos Dissertao (mestrado em psicologia) Universidade Catlica Dom Bosco, Campo Grande, 2011.

    1. Famlia Cuidados 2. Famlia Cuidados Sade 3. Famlia Aspectos psicolgicos I. Bernardes, Anita Guazzelli II. Ttulo CDD 155.924

  • JEFERSON CAMARGO TABORDA

    GENEALOGIA-CARTOGRFICA: DITOS E ESCRITOS

    SOBRE FAMLIAS-CUIDADO

    Dissertao apresentada ao Programa Ps-Graduao Curso de Mestrado em Psicologia da Universidade Catlica Dom Bosco, como requisito parcial para obteno do ttulo de Mestre em Psicologia, rea de concentrao: Psicologia da Sade, sob a orientao da Prof. Dr. Anita Guazzelli Bernardes.

    CAMPO GRANDE-MS 2012

  • JEFERSON CAMARGO TABORDA

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao Mestrado em Psicologia da

    Universidade Catlica Dom Bosco (UCDB), intitulada Genealogia-Cartogrfica: Ditos e

    Escritos sobre Famlias-Cuidado, como requisito parcial para obteno do

    ttulo de Mestre em Psicologia.

    BANCA EXAMINADORA

    ____________________________________________ Prof. Dr. Anita Guazzelli Bernardes (orientadora/UCDB)

    ____________________________________________ Prof. Dr. Luciane Pinho de Almeida (UCDB)

    ____________________________________________ Prof. Dr. Fr. Mrcio Luis Costa (UCDB)

    ____________________________________________ Prof. Dr. Neuza Maria de Ftima Guareschi (UFRGS)

    Campo Grande, MS,_____ de ____________________ de 2012.

  • Dedico este trabalho a meu pai

    Altevir Taborda.

  • AGRADECIMENTOS

    Em primeiro lugar meu pai Altevir, que dentre tantos motivos cito apenas trs: por

    ter dado a meus irmos e a mim uma vida digna em meio a tantas adversidades; por ter

    demonstrado na prtica a necessidade de correr atrs dos prprios sonhos, na falta de

    financiamentos exteriores, acreditar em mim e investir financeiramente para que esta

    pesquisa fosse realizada.

    A minha me Cida, pelo afeto e dedicao em cuidar de Lucas, meu filho, sempre

    quando precisvamos.

    Fabiana minha inestimvel esposa, pela compreenso e pacincia em suportar todos

    os processos envolvidos nesta caminhada.

    Anita Guazzelli Bernardes minha orientadora, pelos esclarecimentos, sugestes, e

    principalmente pela liberdade com a qual pode ser realizada estas investigaes.

    Aos professores do Programa de Ps-graduao em Psicologia especialmente

    professora ngela Coelho.

    Aos professores membros da banca de qualificao e de defesa, prof. Dr. Mrcio

    Luis Costa, prof. Dr. Luciane Pinho de Almeida e prof. Dr Neuza

    Guareschi.

    A professora Jacy Curado, e aos colegas do grupo de estudos que me auxiliaram

    com diversas ideias para esta pesquisa.

    A todas e a todos participantes dos seminrios de Foucault que com exposies e

    discusses norteadoras enriqueceram esta pesquisa e meu aprendizado no universo

    foucaultiano.

    Enfim, agradeo a todas as pessoas, que de maneira direta ou indireta, contriburam

    para a efetivao desta pesquisa.

  • A palavra

    uma roupa que a gente veste

    Uns gostam de palavras curtas.

    Outros usam roupa em excesso.

    Existem os que jogam palavra fora.

    Pior so os que usam em desalinho.

    Alguns usam palavras raras.

    Poucos ostentam caras.

    Tem quem nunca troca.

    Tem quem usa a dos outros.

    A maioria no sabe o que veste.

    Alguns sabem e fingem que no.

    E tem quem nunca usa a roupa certa pra ocasio.

    Tem os que se ajeitam bem com poucas peas.

    Outros se enrolam em um vocabulrio de muitas.

    Tem gente que estraga tudo que usa.

    E voc, com quais palavras voc se despe?

    (Viviane Mos)

  • RESUMO

    Esta pesquisa lana um olhar de estranhamento sobre alguns discursos em que a famlia apresenta se como enunciado para o cuidado. Por meio dos referenciais genealgicos de Michel Foucault e do conceito de linhas cartogrficas de Gilles Deleuze, uma genealogia-cartogrfica ser o modo de colocar em anlise materialidades diversas que conformam desenhos/discursos sobre uma famlia-cuidado. Para tanto, as relaes de poder e os regimes de verdade constituem as principais ferramentas conceituais para esta forma de pesquisa. A proposta de emparelhar materialidades variadas, indo de referncias acadmicas ao senso comum, embasa-se, portanto, numa perspectiva ps-estruturalista, e tem como objetivo tanto analisar como se constitui mltiplo o traado desta famlia-cuidado quanto problematizar o conceito de neutralidade cientfica. Ao invs de conceber os discursos contidos nestas materialidades como representaes da realidade, propem-se que suas linhas traadas performam determinadas realidades, sendo as marcas identitrias de gnero pulverizadas pelos saberes psi, importantes vetores na conformao de justificativas de intervenes sobre o cotidiano familiar, em especfico das famlias mais pobres. O campo da sade e o campo social constituem assim, dois eixos por onde esta pesquisa problematiza as provenincias e condies de emergncia de algumas prticas ancoradas neste desenho. Conceituam-se de sries, enunciados como cuidado familiar-identidade feminina e famlia desestruturada-enfermidade-pobreza que quando articulados compe as linhas de uma ontologia da famlia-cuidado. Ao desnaturalizar as linhas/discursos das famlias como locus do cuidado, em que se toma tambm o das famlias desestruturadas e o dos menores infratores, torna-se possvel cartografar que antes de constituir uma essncia indissocivel, a constituio de uma famlia-cuidado implica muito mais analis-la como mecanismo e agncia. Palavras-chave: Famlia; Cuidado; Genealogia; Cartografia; Discursos.

  • ABSTRACT

    This research takes a look of estrangement on some speeches in which the family presents itself as to the statement to care. Through references to Michel Foucault and genealogy of the concept of cartographic lines of Gilles Deleuze, a genealogy-cartographic will be put in the way of analysis differ materially conform to drawings/speeches about a family-care. For this purpose, the relations of power and regimes of truth are the main conceptual tools for this form of research. The proposed match varied material, ranging from academic references to common sense, underlies, therefore, a post-structuralist perspective, and aims to analyze how much is the layout of this multi-family care and problematize the concept of scientific neutrality. Instead of conceiving of the speeches contained in this material as representations of reality, it is proposed that lines drawn perform certain realities, and the gender identity marks sprayed by knowledge "psi", important vectors in the conformation of the justifications of interventions on family life in particular the poorest families. The field of health and social field are two axes where this research discusses the origins and conditions of the emergence of practices anchored in this drawing. To conceptualize the series, listed as "family care, feminine identity" and "disarranged family-disease-poverty" that when the lines articulated consists of an ontology family-care. By denaturing the lines/statements of the families as a locus of care, which also takes the "disarranged families" and the "delinquency", it becomes possible to map that before constituting an indivisible essence, the establishment of a family-care requires much more analyze as a mechanism and agency. Keywords: Family; Care; Genealogy; Cartography; Discourses.

  • LISTA DE SIGLAS

    Cadnico - Cadastro nico

    CRAS Centro de Referncia em Assistncia Social

    ECA Estatuto da Criana e do Adolescente

    ESF Estratgia Sade da Famlia

    FEBEM Fundao Estadual do Bem-Estar do Menor

    UNICEF Fundo das Naes Unidas para a Infncia

    INSERM Institut National de la Sant et de la Recherche Medicale

    DSM Manual de Diagnstico e Estatstica dos Transtornos Mentais

    MPDFT Ministrio Pblico do Distrito Federal e Territrios

    OMS Organizao Mundial da Sade

    PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios

    PNBEM Poltica Nacional do Bem-Estar do Menor

    PBF Programa Bolsa Famlia

    SUS Sistema nico de Sade

    TOP Troubles Oppositionnels avec Provocation

  • SUMRIO

    1 ANNCIOS INICIAIS ........................................................................................................11

    2 ANNCIOS DE UMA PESQUISA POR IMPLICAO .............................................18

    2.1 Implicaes em linguagem-saber ou uma pesquisa Pragmtica .................................21

    2.2 Implicaes sobre quem cuida ........................................................................................24

    2.3 Marcas identitrias: uma outra implicao ..................................................................26

    3 CINCIAS HUMANAS E NO-HUMANAS? ................................................................36

    3.1 Ateno cartogrfica em documentos do cotidiano ......................................................37

    3.2 Encontro entre cartografia e genealogia: o acompanhamento de processos

    e a anlise genealgica ......................................................................................................40

    3.3 Histria da famlia-cuidado como acontecimento .........................................................48

    3.4 Pesquisa por processualidade ..........................................................................................50

    4 A LINHA FAMLIA-CUIDADO E O CAMPO DA SADE ........................................53

    4.1 Do governo pela sexualidade a confisso das desestruturas.........................................54

    4.2 O agonstico campo da sade na provenincia de uma famlia-cuidado .....................61

    4.3 Integrao biopsicossocial ou fragmentao do corpo-sade da famlia-cuidado? ..67

    4.4 Sade ampliada como linha de fuga para a famlia-cuidado ......................................70

    5 A LINHA FAMLIA-CUIDADO E O CAMPO SOCIAL .............................................80

    5.1 Algumas linhas da questo social ...................................................................................80

    5.2 Provenincias das polticas sociais da questo social no Brasil ...................................84

    5.3 Se pode trabalhar por que no trabalha?.......................................................................91

    6 MAIS ALGUMAS LINHAS SOLTAS NO TECIDO DA FAMLIA-CUIDADO.......100

    REFERNCIAS....................................................................................................................102

    ANEXOS................................................................................................................................111

  • 1 ANNCIOS INICIAIS

    A fico consiste no em fazer ver o invisvel,

    mas em fazer ver at que ponto invisvel a invisibilidade do visvel

    (FOUCAULT, 2004)

    fcil encontrar diversos discursos tanto polticos, acadmicos quanto do senso

    comum, tomando a famlia e a prtica do cuidado como um elemento natural. Alis, vrias

    polticas sociais bem como projetos de sade so traados tendo esta tecnologia do cuidado1

    pela famlia como uma centralidade inquestionvel.

    Problematizando a evidncia na qual as articulaes entre famlia e cuidado se

    encontram, a partir de uma perspectiva da Psicologia Social, objetiva-se contribuir com a

    desnaturalizao2 de discursos que tomam a noo de famlia como um enunciado para o

    cuidado. A economista feminista Cristina Carrasco (2003) afirma que to bsico quanto se

    alimentar so as relaes de cuidado em que se inclui desde os laos afetivos at bens e

    servios. importante frisar que mesmo dentro do campo da Psicologia esta pesquisa no

    questiona a caracterstica afetiva do cuidado familiar, mas o cuidado em sua dimenso

    poltica, analisando assim alguns discursos que responsabilizam a famlia por determinados

    problemas sociais como uma fico poltica.

    O neologismo famlia-cuidado se trataria assim de uma fico, uma narrativa

    alternativa que procura desmembrar o cuidado como uma tarefa nica e exclusiva da famlia.

    Para Foucault (2003) e tambm para Butler (2002) fazer fico poltica significa colocar em

    anlise certos discursos que precisam continuamente serem repetidos para existirem. Esta

    pesquisa, portanto, procura retirar de opacidade algumas fices sobre estas famlias-cuidado,

    acompanhando o modo como pequenos enunciados compe este tecido discursivo. Tomando

    algumas linhas pulverizadas em materialidades diversas, acompanha-se desde textos

    acadmicos provenientes de saberes psi3, textos tcnicos como livros de Psicologia e de

    ______________ 1 Tecnologia do cuidado uma referncia aos estudos das tecnologias do eu de Nikolas Rose (2001) entendidas aqui como as racionalidades aplicadas a prtica do cuidado pela famlia. 2 Apesar de naturalizao e essencializao constiturem processos diferenciados o primeiro enfocado nas cincias naturais e o segundo em ontologias metafsicas , tanto a desnaturalizao quanto a dessencializao aqui proposta remetem ao trabalho do genealogista que busca [...] no seu segredo essencial e sem data, mas o segredo que elas so sem essncia, ou que sua essncia foi construda pea por pea a partir de figuras que lhe eram estranhas. (FOUCAULT, 1979, p. 18) 3 O conceito de saberes psi utilizado nesta pesquisa como forma de englobar os saberes da Psicanlise, Psicologia, Psiquiatria, ou seja, saberes que possuem em comum o campo psi (ROSE, 2001).

  • 12

    Economia, cartilhas do Fundo das Naes Unidas para a Infncia (UNICEF), relatrios de

    imprensa, folders impresso de cursos religiosos, matrias em blogs, letra de msica e imagens.

    Partindo de uma perspectiva Pragmtica, esta pesquisa se ancora em autores

    chamados ps-estruturalistas como Michel Foucault e Gilles Deleuze, associado aos conceitos

    de Robert Castel (1994, 1998, 2001), Zygmunt Bauman (1998, 1999, 2005, 2008), entre

    outros estudiosos que referenciam estas anlises.

    Pela genealogia de Foucault (1979) mediante a anlise de provenincia torna-se

    possvel trilhar as derivaes dos discursos e a constituio de regimes de verdade sobre as

    famlias, pela anlise da emergncia possvel decompor as relaes de fora/poder que

    possibilitam a existncia de determinados discursos em detrimento de outros. J em Deleuze

    (1992) que se apropria de alguns conceitos da Geografia, esta pesquisa utiliza seu conceito de

    linhas cartogrficas. Para o autor, os efeitos destas relaes de fora e de saber constituem

    linhas, isto , discursos ao mesmo tempo discursos institudos e instituintes que compe

    ontologias, mas que ao serem colocados em anlise tem-se a possibilidade de acompanhar e

    traar suas coordenadas (KASTRUP; BARROS, 2010).

    Em especfico, articulando os referenciais foucaultianos da genealogia junto aos

    estudos deleuzianos sobre as linhas cartogrficas, passou-se a definir de genealogia-

    cartogrfica como um mtodo para acompanhar estas formas de saberes que constituem uma

    ontologia da famlia-cuidado.

    Esta pesquisa se inicia problematizando a chamada neutralidade cientfica, ainda

    muito em vigor nas cincias humanas e sociais, tendo no conceito de implicao uma forma

    de compreender que toda produo de conhecimento se constitui atravessada pela poltica,

    entre aquele que pesquisa e seu objeto pesquisado. Partindo da impossibilidade de um saber

    neutro, busca-se apresentar uma breve trajetria que levou a realizao desta pesquisa: de um

    polo apontando como a chamada perspectiva construcionista serviu de suporte para um

    trabalho de monografia sobre avs cuidadoras, que culminou no problema de pesquisa desta

    dissertao. Num outro polo, este trabalho tambm se encontra ancorado pela importncia das

    implicaes da linguagem que possibilitaram a transio para uma perspectiva Pragmtica,

    tendo tambm como efeito a mudana do enfoque das avs cuidadoras para uma famlia-

    cuidado.

    O que uma letra de um frevo-cano composta em 1945 teria em comum com um

    informal dicionrio de grias e um manual de Psicologia contemporneo? Criado pela av,

  • 13

    crise de identidade, assim como outras marcas identitrias4 constituem assim uma linha

    comum entre estas materialidades. Tais correlaes entre saberes diversos passam a ser assim

    analisadas como estratgia crtica ao conceito de neutralidade, ao mesmo tempo em que busca

    revelar como os discursos compem territrios diversos.

    Por que importante identificar corretamente essas famlias? constitui tanto um

    ttulo do Guia de Cadastramento nico de Famlias Indgenas (BRASIL, 2011, p. 49),

    quanto um questionamento constante nesta pesquisa. De igual modo, o chamado senso de

    identidade feminino disponvel no mesmo manual de Psicologia constitui algumas linhas

    possveis que conformam a importncia de uma cartografia identitria.

    Problematiza-se assim, as implicaes sobre este quem cuida, to caro ao conceito

    de identidade da Psicologia tradicional, por meio dos estudos de Silva (2000) e Bauman

    (2005), bem como pela perspectiva de gnero com as crticas de Butler (2003), reposiciona-se

    este quem pelo conceito de marcas identitrias, por entender que identificar os sujeitos j

    implica uma poltica de subjetivao. As linhas cartogrficas propostas por Deleuze (1992)

    passam a ser explicadas, situando como seu traado se compe de sries que conformam

    certos desenhos ou ontologias sobre a famlia-cuidado. A crtica de alguns pastores sobre o

    chamado Estatuto da Famlia5 que entre outras questes versa sobre direitos civis a

    homossexuais , veiculada em um blog constitui uma importante linha na constituio de uma

    ontologia desta famlia-cuidado. Linhas de dizibilidade e linhas de fuga, isto , discursos

    institudos e discursos intituintes sobre uma famlia-cuidado passam a ser acompanhados, pois

    mesmo estes sendo atravessados por questes jurdicas, a pulverizao destas materialidades,

    acaba por performar a conformao de determinados discursos ao invs de outros no

    cotidiano.

    Cincias Humanas e No Humanas? constitui um segundo momento desta

    pesquisa. Problematiza-se, de incio, os pressupostos de realidade no ocidente (IBNEZ,

    1994), para discutir o quanto a performatividade de elementos no-humanos possibilitam

    ontologias sobre a famlia-cuidado. Por meio da observao cartogrfica de um folder

    religioso foi possvel traar os primeiros passos para a realizao desta pesquisa, tambm a

    autoridade dos especialistas em comportamento, por meio dos estudos de Rose (2001)

    constitui materialidades de anlise.

    ______________ 4 Utiliza-se nesta pesquisa o conceito de marcas identitrias tanto como forma de conferir sua potncia dinmica e poltica, quanto para diferir dos estudos que enfocam a identidade como uma essncia a ser perscrutada. 5 Devido a diversas lacunas do Novo Cdigo Civil de 2002, o Estatuto das Famlias (ainda tramitando no congresso durante esta pesquisa) visa retirar todo o Livro da Famlia deste Cdigo, passando a estabelecer uma lei especial e mais atualizada. Cf. http://www.ibdfam.org.br/ Acesso em: 31 jan. 12.

  • 14

    O encontro entre os referenciais cartogrficos e genealgicos se constitui em outro

    ponto de destaque deste estudo. Se o acompanhamento de processos pela perspectiva

    cartogrfica permite realizar uma pesquisa-experincia, possibilitando tranar uma

    multidirecionalidade de linhas sobre esta famlia-cuidado, pelos referenciais genealgicos,

    problematiza-se a provenincia e condies de emergncia que determinados discursos se

    sobrepuseram a outros. Pelo fato dos referenciais foucaultianos e deleuzianos partirem de

    perspectivas semelhantes, e por isso mesmo, ser comum o uso concomitante destes nos textos

    acadmicos, um mtodo genealgico-cartogrfico seria mais uma oportunidade de deixar

    explcito este enlace.

    Utilizando-se das pesquisas de Castel (1998), a emergncia de uma famlia-

    providncia passa a ser problematizada, onde a questo dos suportes sociais outrora

    conquistados com a emergncia da propriedade privada/social, passam a ser diminudos com

    o movimento econmico do neoliberalismo, possibilitando esta forte centralidade do cuidado

    pela famlia. As cincias humanas e sociais por sua vez, emergem como oferecimento de

    servios ao Estado no que tange ao controle social. J as cincias psi se destacariam,

    conforme as anlises realizadas por Rose (2001), pela generosidade caracterstica em

    fornecer modelos do eu.

    A seguir, passa-se a discutir as implicaes no modo de realizar uma pesquisa de

    campo desta natureza. Sobre a questo de sair da teoria e ir para a prtica, Spink (2008)

    fornece o conceito de campo-tema, onde mais que ir a campo implica no posicionamento da

    relao pesquisador-pesquisado e de seu tema, que neste caso implica uma pesquisa que opera

    com problemas e no evidncias.

    Contrariando a ideia de alienao proveniente dos estudos marxistas, Foucault (2010)

    prope o governo de si e do outro ancorado pelo princpio de liberdade, que remete a esta

    pesquisa ao quanto os sujeitos destas famlias-cuidado querem o que os experts querem que

    elas queiram. A hiptese av veiculada num site, em que as avs possuem em sua essncia

    um papel social de cuidadora, passa a ser colocado em anlise como agenciamento dos efeitos

    do saber-poder.

    Constituindo um terceiro momento desta pesquisa, algumas linhas genealgico-

    cartogrficas so traadas como os eixos de trabalho desta pesquisa. A fim de problematizar a

    evidncia desta famlia-cuidado, num primeiro eixo o campo da sade constitui um traado

    histrico-poltico sobre o tema, analisando por este vis algumas condies que possibilitaram

    tornar a famlia um enunciado de cuidado. Um trecho de uma pesquisa de mestrado capturado

    num site de notcias, o enunciado de que a desestrutura familiar leva os jovens as drogas d

  • 15

    incio a estas anlises. Pelo fato desta pesquisa privilegiar os saberes diversos, com certo

    destaque aos do cotidiano, mesmo o termo famlia desestruturada se constituir superado no

    meio cientfico6, o forte contato com esta expresso durante as investigaes necessitou

    inclu-la nas anlises. Desta forma, o conceito de desestrutura familiar assim como a

    medicalizao do ocidente estudado por Foucault (1979) constituem ferramentas que auxiliam

    a compreender como o conjunto familiar passou a se constituir num campo de sade e

    cuidado privilegiado.

    Do mesmo modo, embasa-se nos estudos deste autor sobre o governo pela

    sexualidade, em que os rsticos procedimentos de confisso religiosos se constituram em

    provenincia s inmeras tcnicas de inqurito sobre a famlia e uma sade normal.

    Desestrutura familiar constitui um enunciado to pulverizado no cotidiano, que a

    imagem de um adesivo de carro recebida por e-mail tambm passou a compor as

    materialidades analisadas por esta pesquisa. Mediante os estudos foucaultianos a respeito do

    dispositivo da sexualidade e a questo da anormalidade (FOUCAULT, 1977; 2001) as

    tcnicas de exame de saberes diversos, inclusive os psi, emergem como necessidade de

    compreender estas famlias que escaparam das normas. Do mesmo modo, os enunciados do

    cotidiano contidos nas materialidades analisadas tambm parecem conformar uma

    necessidade de conter estas famlias anormais/desestruturadas que falharam em cuidar.

    O artigo 227 da Constituio Federal de 1998 tambm colocado em anlise. Em

    especfico, se toma o modo como o constituinte deixa explicitado a hierarquizao de deveres

    entre famlia, sociedade e Estado em garantir que os direitos da criana e do adolescente

    sejam efetivados. Analisa-se como este cdigo constitui o campo da sade, proveniente de um

    discurso higienista no ocidente, passando a forjar perspectivas biomedicalizantes sobre a

    famlia.

    Dentre algumas destas perspectivas, um trecho do best seller Freakonomics

    (LEVITT; DUBNET, 2005) objeto destas problematizaes. Neste sentido, quando seus

    autores, provenientes do campo da Economia, sustentam como o aborto entre famlias pobres

    ______________ 6 Isso tambm acontece com o termo menor infrator, isto , mesmo ciente que adolescentes em conflito com a lei o substitui, esta pesquisa privilegia exatamente a atualidade destes conceitos nos discursos do cotidiano. Para se ter uma noo do vigor e da aplicabilidade do conceito de famlias desestruturas, no caso de jovens em conflitos com a lei, os conceitos de famlia desestruturada ou estruturada constituem-se em justificativa, desde a defesa prvia feita pelo advogado do adolescente at os laudos da equipe tcnica, para a escolha da medida a ser aplicada bem como justificativa para a desinternao. Cf. SANTOS FILHO, J. dos R.; SILVA, T. M. Notas sobre o processo de institucionalizao do adolescente responsvel por ato infracional. In: Simpsio Internacional do Adolescente, 2., 2005, So Paulo. Disponvel em: http://www.proceedings.scielo .br/scielo.php?script=sciarttext&pid=MSC0000000082005000200093&lng=en&nrm=abn. Acesso em: 30 Jan. 2012.

  • 16

    diminuiu os ndices de criminalidade nos E.U.A., coloca-se em anlise os efeitos que a

    biomedicalizao se apresenta no corpo familiar como principal estratgia de governo.

    Mediante a emergncia da perspectiva biopsicossocial, ao mesmo tempo em que

    possibilita a consolidao dos saberes psi no campo da sade, tambm forja um discurso que

    fragmenta corpo-mente-ambiente. Em alguns discursos da UNICEF (2007; 2011), coloca-se

    em anlise como a ampliao do discurso biopsicossocial ao mesmo tempo em que permite

    uma ampliao da chamada desestrutura familiar, conforma tambm a consolidao dos

    saberes psi. Igualmente se faz importante notar a constituio do discurso biomedicalizante

    por meio de uma cultura do remdio. Colocando em anlise a publicidade de um

    medicamento ansioltico tendo como pblico-alvo as mulheres, possvel articular a srie

    mulher-me-trabalhadora nestes discursos.

    A emergncia da reforma sanitria e do Sistema nico de Sade (SUS) marcam uma

    certa transio no campo da sade, mas nem por isso os discursos biomedicalizantes so

    abandonados. Prova disso o Programa Estratgia Sade da Famlia (ESF), que ao mesmo

    tempo em que privilegia os cuidados primrios, constitui tanto uma centralizao dos

    problemas no conjunto famlia, quanto estratgia biopoltica de controle da populao mais

    pobre.

    Pelo fato das famlias pobres serem referncia de diversos programas de governo,

    inicia-se o segundo eixo desta pesquisa, que passa a se traar uma linha histrico-poltica,

    mediante a articulao existente entre questo social e a famlia-cuidado. Para tanto,

    utilizando dos estudos de Castel (1998) sobre o pauperismo, possvel acompanhar duas

    notcias do mbito jurdico, uma em 2002 e outra de 2011, articulando uma famlia

    desestruturada como produtora de menores infratores. E assim como o conceito de famlias

    desestruturadas, superado academicamente, mas que no perdeu sua potncia discursiva, a

    superao do termo menor infrator por adolescentes em conflito com a lei, nos discursos

    analisados aparecem ainda abundante e fortemente articulados as famlias pobres, e neste

    sentido que algumas provenincias das polticas sociais passam a ser problematizadas. Em

    outra matria divulgada por um site de notcias, o perfil dos menores infratores so traados,

    dando destaque a falta de sonhos. Igualmente curiosos so os estudos que correlacionam

    menor infrator e baixa inteligncia. A teoria do capital humano problematizada por Foucault

    (2008b) passa a ser utilizada para compreender como o empreendedorismo se constitui numa

    premissa bsica para estas articulaes analisadas. Na esteira dos discursos sobre jovens

    oriundos de famlias pobres e perspectivas biomedicalizantes, o Relatrio do Institut National

    de la Sant et de la Recherche Medicale (INSERM), apresenta suas consideraes sobre um

  • 17

    novo transtorno de conduta previsto ainda na gravidez, o Troubles Oppositionnels avec

    Provocation (TOP), que traduzido seria algo como Distrbios de Oposio por Provocao.

    Os pressupostos bem como as diferenas contidas entre a poltica social de Bem-

    Estar e do neoliberalismo so acompanhadas, elencando a poltica do Imposto Negativo e sua

    relao com o Programa Bolsa Famlia (PBF) como objetos de anlise. As condicionalidades

    do PBF e o Cadastro nico (Cadnico), instrumento utilizado para efetivar a participao dos

    usurios, passam a ser problematizados junto a outros discursos prprios de uma sociedade de

    controle. A repugnncia da classe mdia para com esta poltica social encerra estas anlises.

  • 2 ANNCIOS DE UMA PESQUISA POR IMPLICAO

    No h saber neutro. Todo saber poltico.

    (MACHADO, Prefcio, XXI, 1979).

    comum nas pesquisas em cincias humanas encontrar textos em que visivelmente

    seus escritores procuram manter uma boa distncia do seu objeto de estudo. Com fins de no

    contagiar seu objeto com sua experincia pessoal, tal distanciamento objetiva tornar o saber

    produzido em algo neutro e, portanto, mais cientfico.

    Quando se diz que todo saber poltico, significa compreender a impossibilidade de

    estudar os objetos sem nenhuma preocupao com seus efeitos ou suas consequncias. J em

    1979, em meados da Crise na Psicologia Social, Garcia-Roza (1979, p. 55) responde aos

    defensores da neutralidade cientfica colocando que tal mito servia apenas para encobrir uma

    sutil forma de dominao que o saber cientfico dispunha: Como se fosse possvel um saber

    neutro; como se o saber no implicasse necessariamente uma forma de compromisso, sob

    pena de no estar dizendo nada sobre coisa nenhuma. Agindo sob esta aura angelical, o

    denso manto branco da neutralidade envolveria o cientista isentando-o, assim de seu meio.

    Este estudo no segue esta metodologia.

    Partindo do pressuposto de que no h conhecimento neutro, esta pesquisa sustenta-

    se sob o argumento de que todo conhecimento performtico, ou seja, constitui e intervm na

    prpria realidade, neste caso a famlia-cuidado. Conhecimento performtico significa que

    conhecer/dizer no apenas representar a realidade, mas j se encontra implicado um fazer

    (FERREIRA; BEZERRA; TEDESCO, 2008).

    Oriundo dos estudos da Fsica Quntica, o conceito de implicao emergiu a partir

    do Princpio de Heinsenberg ao indicar aquele que observa j se encontra implicado no campo

    observado, pois ambos se modificam neste processo (PASSOS; KATRUP; ESCSSIA,

    2010). Portanto, numa ressonncia recproca, observador-observado no se separam. Muito

    pelo contrrio, como afirmam Hillesheim, Bernardes e Medeiros (2009), no h um anterior a

    outro, j que ambos somente existem no e pelo encontro.

  • 19

    Desta forma, como parte das implicaes no desdobramento do tema famlia-

    cuidado, faz-se necessrio registrar meu primeiro contato se deu concomitantemente com a

    prtica de estgio do curso de Psicologia e com o nascimento de meu filho.

    Tendo em vista necessidade curricular de estagiar na rea social, por intermdio de

    meu colega de estgio, Alex Fabiano, levamos uma proposta de interveno junto a uma

    entidade filantrpica que realiza atendimentos psicoterpicos populao carente. J nas

    primeiras reunies, durante a fase do planejamento, a equipe nos informava que uma de suas

    maiores demandas, eram de avs que precisavam cuidar de seus netos e netas. Gravidez na

    adolescncia e famlia desestruturada foram algumas das conjecturaes produzidas por todos

    ns na poca.

    Com a necessidade de mudana do local de estgio, fomos alocados em um Centro

    de Referncia em Assistncia Social (CRAS) com foco no grupo de idosos. Como junto

    estrutura deste CRAS funcionava ao mesmo tempo um Centro de Educao Infantil (CEINF),

    no foi difcil perceber tambm por ali a presena de diversas avs cuidadoras.

    Outra implicao necessria diz respeito ao fato de que na perspectiva deste estudo,

    no h qualquer diviso entre a prtica cientfica e a cotidiana (SPINK, 2008). Minha

    experincia pessoal com as avs de meu filho, o contato pessoal com familiares e vizinhos,

    aliado a militncia feminista de minha orientadora de estgio-monografia, contribuiu e muito

    para identificar o quanto esta prtica de cuidado por meio das avs se fazia presente no

    cotidiano campograndense.

    Aguado por uma nova percepo sobre a relao mulher-famlia-cuidado, nesta

    aventura exploratria os primeiros auxlios provieram tanto da perspectiva construcionista,

    utilizada para a construo de minha monografia de graduao, quanto dos livros de histria

    sobre as amas-de-leite e as prticas do cuidado no Brasil Colnia.

    Segundo Gergen (1985), os estudos scio-construcionistas focam-se nos processos

    cotidianos, ou seja, como as pessoas falam, percebem e experienciam o mundo em que vivem.

    Diferente de teorias que realizam suas investigaes sem questionar seus objetos,

    concebendo-os como uma evidncia, a postura bsica desta perspectiva criticar a

    naturalizao dos fenmenos sociais.

    Desta forma, analisar as procedncias de como o cuidado era realizado no Brasil, j

    constituam anncios da necessidade de historicizar uma prtica to comum. Diferente do

    cuidar contemporneo, at o sculo XIX no Brasil, o uso das amas-de-leite pelas classes

    abastadas era algo cotidiano: Se o recm nascido pertence a uma classe distinta, raro que a

    prpria me o amamente: este cuidado incumbido usualmente a uma mulata ou preta

  • 20

    (FERDINAND DENIS, 1816, p. 213 apud LEITE, 1997, p. 29). Sendo a atividade de cuidar

    dos filhos uma grande exigncia de esforos por parte das senhoras, a utilizao das amas-de-

    leite neste perodo era to conveniente que havia inclusive o aluguel destas (MAUAD, 2000;

    LEITE, 1997).

    Para Curado (2008), ao contrrio de outras teorias que naturalizam os fenmenos

    criados pelo prprio ser humano, a perspectiva construcionista critica os modelos tradicionais

    problematizando-os com investigaes sociais e histricas. Experimentar este tipo de

    perspectiva acabou por trazer uma importncia ainda maior em desnaturalizar os processos

    histricos sobre o cuidado e suas articulaes com as relaes de gnero.

    Outro ponto a se destacar nesta perspectiva se refere aos seus pressupostos. A

    aproximao de seus pressupostos ps-modernos permitiram de alguma forma compreender

    que possvel trabalhar com uma perspectiva ampla e aberta, inclusive a contradies, sem se

    fechar necessariamente a uma escola ou corrente terica (IIGUEZ, 2008). Neste

    sentido, uma pesquisa construcionista se faz [...] buscando sua origem, seu processo, os

    efeitos que gera a quem beneficia, a quem prejudica, por que aparece em determinado

    momento e no em outro (IIGUEZ, 2004, p. 127). A famlia, as mes, as avs, enfim os

    sujeitos so efeitos dos discursos, pois so neles posicionados e possveis de existirem. Assim,

    as amas-de-leite possuem um sentido bem prprio daquele perodo, diferente da concepo de

    terceirizao do cuidado to em voga atualmente.

    Segundo Aris (1978), a tradio de entregar o cuidado dos filhos a outra pessoa

    remonta a Europa do sculo XVII. No Brasil colonial, o uso das amas-de-leite era to comum

    que quanto mais alta a classe social, mais distante era o convvio das crianas com seus pais

    (MAUAD, 2000). Este contato com a literatura histrica sobre o cuidado, bem como seus

    questionamentos implcitos serviram tanto para sustentar uma melhor discusso sobre a

    questo das avs cuidadoras e as relaes de gnero na pesquisa que se seguia, quanto para

    aguar a percepo sobre outros problemas relacionados s famlias.

    Para a pesquisa de monografia, parte do processo de estudo foi realizado mediante

    uma srie de oficinas com um grupo de sete avs cuidadoras durante o estgio. Neste sentido,

    uma importante herana para a atual pesquisa foi a respeito do uso da linguagem. Entendendo

    que os seres humanos s podem ser concebidos em interao, nesta perspectiva, a linguagem

    constitui-se a mais importante manifestao interacional, no apenas numa forma de

    expresso desarticulada e solta, mas como intercmbio onde as articulaes do poder e do

    saber se manifestam (SPINK, 2004; IIGUEZ, 2004; FOULCAULT, 1977).

  • 21

    Pelo interesse suscitado pelo tema e por se tratar de um assunto pouco explorado pela

    Psicologia em geral, no hesitei em dar continuidade ao mesmo no mestrado. De incio, este

    pr-projeto de pesquisa seguia os mesmos rumos do estudo anterior, tanto nos pressupostos

    construcionistas, quanto na tcnica de oficinas com avs, mas agora pretendendo analisar a

    relao entre o cuidado exercido pelas avs e as polticas pblicas.

    Conforme se avanou na construo desta pesquisa, as leituras, assim como as

    orientaes realizadas, possibilitaram novas provocaes do projeto, expandindo a questo

    das avs cuidadoras como objeto inicial. O problema da pesquisa passou a ser quem este

    que cuida? Ao se perguntar quem, implicitamente questiona-se sobre marcas identitrias,

    marcas que definem e controlam. Logo, refletir sobre este quem implicou primeiramente

    em problematizar as questes identitrias, de modo desconstruir algumas das obviedades

    que permeiam o campo famlia-cuidado. Entretanto, objetivando problematizar algumas

    nuanas referente s marcas identitrias e suas implicaes, preciso antes de tudo, refletir

    sobre o fenmeno do giro lingustico, que com a centralizao da linguagem possibilita a

    criticidade aqui pretendida.

    2.1 Implicaes em linguagem-saber ou uma Pesquisa Pragmtica

    certo que uma grande contribuio do contato com a perspectiva construcionista foi

    ter me introduzido nas questes da linguagem e na importncia do fenmeno do giro

    lingustico ou virada lingustica ocorrido entre a dcada de 60 e 80 (IBAEZ, 2004).

    Para Iiguez (2004, p. 55) [...] o giro lingustico foi um giro no sentido de ter sido

    uma mudana radical graas ao seu questionamento se a linguagem cotidiana suficiente para

    explicar o mundo e a vida real. Com a ascenso do discurso cartesiano, o penso, logo

    existo, consolidou pela dicotomia corpo-alma, os discursos platnicos-cristos de mundos

    separados, e se por um lado a introspeco passou a ser o principal modo de acesso a

    subjetividade, por outro centrou por mais de dois sculos toda uma filosofia da conscincia

    ancorada nas noes de mundo interior e mundo exterior (IIGUEZ, 2004). A noo de uma

    famlia ideal, to disperso nos discursos cotidianos j encontra a alguma ancoragem.

    Como prprio do perodo positivista, a neutralidade do conhecimento cientfico se

    constitua como postura essencial para percorrer o caminho entre mundos separados, at

    mesmo a introspeco como uma auto-observao feita em primeira pessoa, necessitava de

  • 22

    um terceiro acompanhando todo o processo a fim de manter a distncia necessria do sujeito

    observado (FERREIRA, 2008).

    Contudo, dois grandes movimentos diagonais incitaram diversos questionamentos no

    hegemnico discurso introspectivo: a primeira grande ruptura pela lingustica moderna

    destacada por Saussure, e a segunda pela teoria da quantificao, tornada base da lgica

    moderna, possibilitaram novos discursos centrados na linguagem como de Russell,

    Wittgenstein e os neopositivistas do Crculo de Viena (IBAEZ, 2004). A emergncia de

    um novo campo epistemolgico, proveniente do deslocamento do mundo das idias com a

    introspeco privada, por um discurso lingustico pblico e objetivado, possibilitou alm de

    novos modos de praticar o conhecimento, a mudana de concepo de que as idias no

    apenas representam os objetos da realidade, mas na linguagem que eles so construdos

    (IBAEZ, 2004).

    Abre-se aqui um breve parntese sobre estas implicaes. Ao contrrio de expor ou

    mesmo analisar fatos histricos sobre o cuidado, trabalha-se com uma linguagem que vai alm

    do campo das representaes, que na perspectiva desta pesquisa, significa trabalhar com uma

    escrita poltica, que ao invs de ser apenas rebuscada, procura problematizar os sentidos das

    palavras que utiliza. Em entrevista a Prins e Meijer, Butler (2002) coloca isto da seguinte

    maneira:

    Com efeito, parece-me crucial recircular e ressignificar os operadores ontolgicos, mesmo que seja apenas para apresentar a prpria ontologia como um campo questionado. Acho, por exemplo, que crucial escrever frases que comeam com acho, mesmo correndo o risco de ser mal interpretada como adicionando o sujeito ao ato. No existe nenhuma forma de contestar esses tipos de gramticas a no ser habit-las de maneira que produzam nelas uma grande dissonncia (BUTLER, 2002, p. 159).

    neste sentido tambm que esta pesquisa evita o conceito de paradigma que

    concebe os movimentos em blocos mais ou menos homogneos trabalhando-se ao invs

    disso com o conceito de constituio, significando que os discursos so compostos de diversos

    enunciados ou linhas de enunciao (KASTRUP; BARROS, 2010).

    Fechado este parntese, talvez agora se possa compreender porque no primeiro

    movimento do giro lingustico, ao invs de uma transio lingustica paradigmtica, foi um

    movimento que carregou ainda diversos resqucios como as aspiraes neopositivistas de

    alcanar uma linguagem absolutamente lgica e pura (IBAEZ, 2004).

  • 23

    Segundo Ibaez (2004), o cientificismo que ainda concebia a linguagem como objeto

    representativo e passivo, passou a ser duramente criticado pelas perspectivas neopragmticas,

    que sustentaram que apenas parte da linguagem seria representativa, sendo sua maioria ativa e

    responsvel pela realidade analisada.

    Como afirmam Ferreira, Bezerra e Tedesco (2008), neste nterim, desencadeada pela

    Lingustica e pela Semitica, os estudos de Austin, Searle, Foucault e Deleuze fomentaram o

    que se chamou de Pragmtica desaguando sobre diversas cincias um movimento que

    consolida a linguagem como performtica, plano de possibilidades e imanente, que entrelaa

    conhecer, dizer e fazer.

    Considerado como o segundo giro lingustico, segundo Ferreira, Bezerra e Tedesco

    (2008), quando Austin insere o conceito de performatividade afirmando que no apenas parte

    da linguagem performa a realidade, isto implica que todo dizer fazer. Dizer e pesquisar

    sobre famlia e o cuidar implica assim, num posicionamento poltico daquele que pesquisa,

    consciente de que as informaes produzidas podem dar condies de possibilidade ou no

    para a continuidade de certas prticas.

    Concomitante a pragmtica e a performatividade, Foucault (1979) ao estudar as

    condies de emergncia e provenincia histrico-polticas, reconsidera a linguagem, mas

    agora pelo conceito de saber-poder, e vai alm ao analisar as prticas discursivas no apenas

    como atributos humanos, em suas proposies e atos de fala, mas tambm atributos no-

    humanos, ou seja, documentos, arquiteturas e outros elementos derivados das aes e

    estratgias implementadas pela emergncia dos saberes.

    desta maneira que Foucault (2010) defende que analisar os saberes, consiste em

    no diferenciar os saberes, em no separar o conhecimento em leigo ou erudito, em cientfico

    ou no-cientfico, mas igualar os saberes, isto , conceber que os diversos discursos, sejam

    eles da cincia ou do cotidiano, so constituintes de regimes de verdade. E sobre este

    nivelamento entre os saberes/verdades que esta pesquisa se ancora.

    Sem abandonar alguns pressupostos da perspectiva construcionista, esta pesquisa

    passou assim a ser operada a partir do enfoque da Pragmtica, tamanha influncia dos estudos

    de Foucault, e posteriormente de Deleuze. De qualquer modo, vale citar que tanto para o

    construcionismo quanto para a perspectiva pragmtica, no h como a Psicologia apenas

    descrever, sem o risco de interferir nos processos, tal como almejaram os clssicos

    experimentos introspectivos, pois a cada vez que define/fixa os seres humanos, a Psicologia j

    inscreve polticas de subjetivao/identificao (FERREIRA, BEZERRA, TEDESCO, 2008).

  • 24

    Portanto, inicialmente o escopo desta pesquisa era se restringir as avs cuidadoras,

    contudo, a objetivao das avs s torna-se possvel em relao da afirmao da famlia como

    campo de cuidados. Um impasse se desenvolveu, pois esta afirmao tambm contribua na

    naturalizao dos cuidados e famlia.

    Neste sentido, ao invs de conceituar a marca identitria das avs que cuidam como

    algo natural desta fase humana, foi preciso deslocar esta problematizao deste quem cuida,

    como processos de identidade/subjetivao, colocando em anlise os modos como se

    constituem essa figura famlia-cuidado, ou seja, ao modo como estas prticas de cuidado

    passaram a ser correlacionadas famlia.

    2.2 Implicaes sobre quem cuida

    Criado Com V7

    O Lourival sempre foi abobalhado.

    Dele at eu tenho d.

    Sabe por que ele assim, minha gente?

    Porque foi criado com v. (bis)

    O Lourival sempre foi assim,

    Cheio de dengo, cheio de mgoa.

    Toma caf e, depois de muito tempo,

    Ele pergunta:

    "Vov, eu j posso beber gua?"

    Pode, pode, Lourival!

    Beber gua no faz mal!

    Pelo fato deste pesquisador trabalhar numa instituio de Educao a Distncia, a

    grande maioria dos materiais analisados nesta pesquisa foram capturados aleatoriamente por

    ______________ 7 Frevo-cano escrito por Maramb em 1945, gravado na mesma poca por Linda Batista, posteriormente eleita primeira rainda do rdio (DICIONRIO CRAVO ALBIN DA MSICA POPULAR BRASILEIRA, 2002).

  • 25

    meio de ferramentas de busca e em sites de notcias. A expresso criado pela av, segundo

    um Dicionrio de Grias (2008) disponvel na internet, possui a seguinte definio:

    Envaidecido; pessoa cheia de no me toques. Homossexual. Delicado. Ex1: O cara cheio de

    coisa, n? Deve ter sido criado pela av Como estratgia de romper os pressupostos da

    neutralidade, torna-se cada vez mais comum em pesquisas da Psicologia Social o uso

    concomitante de materiais cientficos e do senso comum (SPINK, 2008). Desta forma, a

    utilizao de um dicionrio no especializado, assim como a letra da msica criado com v

    de Linda Batista, no so vistas como representaes da realidade, mas ferramentas para

    problematizar o cuidado e seus regimes de verdades. Alm disso, possibilita o questionamento

    da neutralidade cientfica, revelando o quanto as marcas identitrias constituem tanto o erudito

    quanto o senso comum.

    Tais questes devem ser problematizadas, pois, cotidianamente nos mais diferentes

    mbitos psiclogas e psiclogos so questionados sobre as marcas identitrias de indivduos

    ou grupos, seja para explicar a crise de identidade na adolescncia, seja para dar respostas

    sobre a identidade de quem criado por avs, por exemplo. O escopo da presente pesquisa

    tambm trata, portanto, de indicar alguns movimentos no intuito de intrigar e provocar as

    prticas psi que intervm sem questionar seus objetos de estudo.

    A principal tarefa da adolescncia, disse Erikson (1968), confrontar a crise de identidade versus confuso de identidade (ou de papel) para tornar-se um adulto nico com um senso de identidade coerente e um papel valorizado na sociedade. A crise de identidade raramente se resolve completamente na adolescncia; questes relativas identidade podem aparecer repetidas vezes durante a vida adulta (PAPALIA; OLDS, 2000, p. 342, grifo do autor).

    Nas vises tradicionais, a estabilidade da circunscrio identitria parece ser a

    questo por excelncia para a resoluo dos problemas sociais, sendo lanada como o grande

    desafio da Psicologia como um todo, seja ela clnica, social, jurdica... Mesmo o conceito de

    crise de identidade essencializado como algo prprio da adolescncia, a fixao deste conceito

    no se restringiu apenas a estes sujeitos, alcanando tambm outros estratos:

    Assim, disse Erickson, as mulheres (em contraste dos homens) desenvolvem a identidade por meio da intimidade, e no antes dela. Como veremos, a orientao masculina de Erickson foi alvo de crticas. Mesmo assim, o conceito de Erickson de crise de identidade inspirou muitas pesquisas valiosas (PAPALIA; OLDS, 2000, p. 343).

  • 26

    Os conceitos relativos identidade, pulverizado em materialidades discursivas como

    jornais, livros, revistas e inclusive em manuais cientficos8 constituem-se vestgios de como a

    inspirao das pesquisas psicolgicas, como formao discursiva, tornam-se arquivos.

    Foucault (1982) entende o arquivo como a expresso registrada dos discursos, daquilo que

    pode ser dito num determinado momento histrico, e como traos de existncia. A

    compreenso quase unssona do sentido mulher-intimidade revela todo o potencial

    enunciativo destas materialidades.

    Pelo fato de Foucault (1980) trabalhar por problematizaes e no com teorias fixas

    ao modo tradicional, seus conceitos mveis o permitiram posteriormente deslocar os conceitos

    de saber-poder para o governo pela verdade expondo o quanto os saberes cientficos

    constituem-se por meio de rituais de manifestao de verdades para que possam existir. E

    justamente por meio da problematizao destas verdades identitrias que se faz necessrio

    maiores consideraes.

    2.3 Marcas identitrias: uma outra implicao

    Por que importante

    identificar corretamente essas famlias?

    Ttulo de captulo do Guia de Cadastramento

    nico de Famlias Indgenas (BRASIL, 2011, p. 49).

    Caso se pea para uma pessoa dizer por meio de um mapa poltico onde termina um

    longnquo pas e onde comeam seus vizinhos, certamente se obteria facilmente e de maneira

    segura suas respostas. Por no se tratar de um especialista a facilidade estaria garantida pelas

    fronteiras ali estabelecidas. De outra forma se pede para um leigo mostrar alguma localidade

    desconhecida, num mapa do tipo geogrfico, que no contenha legendas ou fronteiras, isto ,

    ausente de coordenadas, as dificuldades seriam bem maiores.

    Esta pode ser uma metfora para demonstrar que a fixao da identidade e da

    diferena significa, conforme Silva (2000), sobretudo, no estabelecimento de fronteiras, e por

    isso mesmo tambm serve para ora incluir, ora excluir.

    ______________ 8 A citao acima encontra-se num manual utilizado durante quatro semestres na graduao deste pesquisador.

  • 27

    Segundo Carol Gilligan (1982, 1987a, b; L. M. Brown & Gilligan, 1990), o senso de identidade feminino se desenvolve mais pelo estabelecimento de relacionamentos do que pela conquista de uma identidade individual. As meninas e as mulheres, diz Gilligan, julgam a si mesmas de acordo com sua capacidade de lidar com suas responsabilidades e de cuidar de si mesmas e dos outros. Toda mulher de alto desempenho alcana a identidade mais pela cooperao do que pela competio (PAPALIA; OLDS, 2000, 345, grifo meu).

    Neste caso, lidar com suas responsabilidades e cuidar de si mesmas e dos outros

    como est compreendido para a marca identitria feminina, no deveriam pertencer ao

    masculino. Como as palavras no apenas descrevem, mas possuem capacidade performativa

    de produzir subjetividades, o mesmo ocorre nos processos de fixao da identidade e da

    diferena. Assim, marcas identitrias de gnero trazem em seu bojo implicaes polticas, pois

    seus significados carregam valores: Toda mulher de alto desempenho alcana a identidade

    mais pela cooperao do que pela competio (PAPALIA; OLDS, 2000, 345). Articular

    desempenho, cooperao e competio fazem parte de um campo do qual emerge aquilo que

    da mulher e aquilo que do homem, campos que no se ligam a anatomia exclusivamente,

    mas sim ao papel social. Alm disso, as subjetivaes provenientes dos saberes psicolgicos

    tendero a fortalecer ainda mais estes discursos-verdades.

    Bauman (2005) expe como a identidade constitui-se em nossa sociedade lquido-

    moderna uma faca de dois gumes tendo em sua ambivalncia o poder de ora tranquilizar ora

    martirizar seus usurios. Conforme o autor, num mundo globalizado o poder de identificar, tal

    como ocorre em manuais de Psicologia tradicionais, ocorre mais ou menos entre dois plos:

    de um lado sujeitos que tem a seu bel-prazer inmeras possibilidades de escolha de

    identidades; do outro, esto aqueles que possuem sua identidade escolhida, sendo que a

    maioria oscila entre estas duas dimenses (BAUMAN, 2005).

    A questo da identificao se complexifica quando o estabelecimento de fronteiras se

    torna instrumento capaz de garantir ou no certos benefcios, como no polmico caso das

    cotas para afrodescendentes ingressarem em universidades ou no caso da identificao de

    famlias indgenas por meio do Guia de Cadastramento nico de Famlias Indgenas9.

    A pergunta contida neste guia (BRASIL, 2011, p. 49) [...] por que importante

    identificar corretamente essas famlias? precisar nesta pesquisa ser ento reescrita no

    seguinte sentido: por que importante identificar essas famlias? Isto , deixa-se de lado a

    necessidade de examinar a exatido dos discursos sobre a famlia, para se ater ao modo como

    estes fragmentos de identidade compem certas ontologias sobre uma famlia-cuidado.

    ______________ 9 Guia destinado a orientar os agentes quanto ao cadastro das famlias indgenas no Programa Bolsa-Famlia. As anlises do Cadastro nico se encontram no ltimo captulo desta dissertao.

  • 28

    Na argumentao de Bauman (2005) seria impossvel descobrir uma identidade,

    como pregam algumas autoridades cientficas tradicionais, j que se trata de algo a ser

    inventado num campo agonstico10. Para Bauman (2005, p. 83): [...] a identidade sejamos

    claros sobre isso um conceito altamente contestado. Sempre que se ouvir essa palavra,

    pode-se estar certo de que est havendo uma batalha. O campo de batalha o lar natural da

    identidade.

    Na concepo de Deleuze (1992) em relao s modificaes na sociedade como

    campo agonstico, garante ter sofrido duas grandes modificaes especificamente entre espao

    e tempo. Em sua leitura de Foucault, Deleuze (1992) afirma que desde o sculo XVIII, uma

    sociedade disciplinar fundada em instituies de confinamento e calcada sob princpios

    rgidos e metdicos produzia subjetividades do tipo toupeira. Deleuze (1992) utiliza da

    imagem deste animal explicando que a fixao de identidades ocorria espacialmente, ou seja,

    eram nos espaos e instituies fechadas que se disciplinavam os sujeitos: na famlia a casa,

    na educao a escola, no trabalho a indstria, na sade o hospital e no crime a priso, a

    instituio de confinamento por excelncia.

    Esta sociedade disciplinar na perspectiva de Deleuze (1992), ou slida, nos dizeres de

    Bauman (2005), de modo gradativo vai sendo substituda pelas atuais sociedades de controle,

    que se caracteriza uma dinamicidade muito maior, pois as fixaes identitrias ocorrem no

    tanto pelo espao, mas pelo tempo, produzindo subjetividades flexveis e heterogneas

    semelhantes s serpentes (DELEUZE, 1992). Encaixar peas certas nos locais corretos,

    conforme as perspectivas tradicionais sobre a identidade seria, assim, minimizar o potencial

    do conceito de identidade (BAUMAN, 2005).

    A chamada crise na instituio familiar, assim como a crise nas escolas, so alguns

    dos efeitos que as instituies tradicionalmente fechadas sofreriam por esta transio de

    modos de subjetivao/objetivao.

    Parafraseando Foucault (1977), a vontade de saber, de certa forma, remete no desejo

    de identificar, e mais precisamente consiste numa vontade de saber/fixar identidades. Mesmo

    este autor no trabalhando diretamente com os processos de fixao de identidades, seus

    estudos sobre os modos de subjetivao versam, mesmo de modo transversal, sobre as

    implicaes que as produes de verdades tm sobre os modos de viver. No toa que

    Foucault (CASTRO, 2009), sabendo das limitaes que as definies fechadas ocasionavam,

    ______________ 10 O conceito de agonstica remete as relaes de poder estudadas por Foucault (1979, p. 257): Quem luta contra quem? Ns lutamos todos contra todos. Existe sempre algo em ns que luta contra outra coisa em ns.

  • 29

    se esforava ao mximo para no apresentar nenhum de seus estudos numa condio

    conclusiva de modo a no se fechar para outras possibilidades.

    Grande parte dos estudos desenvolvidos na rea das cincias humanas e sociais, e

    mais especificamente os de Psicologia, tomam a identidade como ponto central de suas

    discusses. A infncia, a adolescncia ou a famlia, por exemplo, geralmente so

    taxonomizados em fases, etapas ou estgios sem qualquer problematizao, tomados como

    objetos prontos e acabados, s restando ao pesquisador perscrutar sua verdadeira essncia.

    Para a perspectiva dos Estudos Culturais, nos quais se estabelece a perspectiva

    contrucionista em Psicologia Social, definir a identidade sem questionar seus pressupostos,

    deriva-se da autossuficincia implcita nestes modelos:

    Em uma primeira aproximao, parece ser fcil definir identidade. A identidade simplesmente aquilo que se : ou brasileiro, sou negro, sou heterossexual, sou jovem, sou homem. A identidade assim concebida parece ser uma positividade (aquilo que sou), uma caracterstica independente, um fato autnomo. Nessa perspectiva, a identidade s tem como referncia a si prpria (SILVA, 2000, p. 74).

    Ao naturalizar a identidade to somente como a afirmao daquilo que ao mesmo

    tempo em que se inscreve uma definio, fecham-se todas as outras possibilidades. Silva

    (2000) afirma que nesta mesma vertente, a diferena tomada como aquilo que o outro

    apenas invertendo seu posicionamento: ele filho de pais separados, ela me solteira, eles

    so amasiados, e da por diante. Em ambos os casos, os conceitos identidade e diferena so

    adotados como meras definies autoexplicativas.

    Foucault (2003) considera grave considerar a subjetividade, ele cita a identidade e a

    individualidade, como eventos naturais conforme prega a Psicologia tradicional posto que

    so processos determinados por fatores scio-polticos, que podem mais aprisionar do que

    libertar.

    A primeira problematizao em decorrncia da afirmao da identidade, bem como

    da diferena, est na implicao de suas negaes: por trs da declarao sou me solteira,

    pode-se entender no sou casada ou sua famlia monoparental, sua famlia

    desestruturada, e assim por diante, num longo e quase interminvel encadeamento. Apesar de

    soar como uma obviedade, Silva (2000) aponta que a mesma gramtica que permite impor

    uma definio, tambm esconde estas cadeias negativas, pois naturaliza a identidade tomando-

    a como ponto de referncia.

    Entendendo que a identidade e a diferena so moldadas por meio de definies

    criadas culturalmente e socialmente, estas demarcaes fazem parte de um determinado

  • 30

    vocabulrio, sendo este mesmo um grande sistema de diferenciao, pois a linguagem

    estrutura-se por meio de cdigos inconstantes, onde as palavras existem como os rastros dos

    objetos originrios (SILVA, 2000).

    Deste modo, tendo como pressuposto o devir, a diferena entendida como processo e

    no resultado sugerida como referncia para o processo de produo da identidade e da

    prpria diferena, j que ambas so performadas lingusticamente. E se a linguagem uma

    estrutura instvel, a identidade e a diferena tambm so marcadas pela instabilidade e

    indeterminao, permitindo outras possibilidades de significao menos coercitivas (SILVA,

    2000).

    Scott (1995, p. 09-10), referncia na defesa dos direitos feministas que: [...] a

    linguagem no designa unicamente palavras, mas os sistemas de significao, a ordem

    simblica que antecedem o domnio da palavra propriamente dita, da leitura e da escrita [...]

    atravs da linguagem que construda a identidade de gnero.

    No que concerne s marcas identitrias, um vetor interessante para analisar suas

    implicaes lingusticas est em relacion-las com as questes de gnero. Segundo a Pesquisa

    Nacional por Amostra de Domiclios (PNAD/2007), trs grandes revolues sociais so

    dignas das transformaes familiares: a) revoluo da contracepo, que a dissociao entre

    sexualidade e reproduo humana; b) revoluo sexual, ou seja, a separao de sexualidade e

    casamento e; c) revoluo da posio social, que so as mudanas tradicionais de gnero.

    Butler (2003), outra importante terica feminista, entende que mesmo entre as teorias

    feministas h um discurso falocntrico baseado numa categoria singular de identidade, que

    fixa a noo de gnero mulher. Tal discurso alm de corroborar com o determinismo

    biolgico refora um determinismo cultural, esquecendo-se que tanto a noo de corpo quanto

    de gnero so construes sociais.

    Contudo, se o conceito de gnero s existe em relao ao outro no se deve calc-lo

    num binarismo masculino/feminino, j que apenas fortalece noes pr-discursivas em que o

    sexo carregaria atributos essenciais e imutveis. De tal forma, Butler (2003, p. 25) vai alm e

    cogita: [...] talvez o prprio construto chamado sexo seja to culturalmente construdo

    quanto o gnero; a rigor, talvez o sexo sempre tenha sido o gnero, de tal forma que a

    distino entre sexo e gnero revela-se absolutamente nenhuma. A dissociao entre sexo e

    gnero mostra-se redundante, posto que esta viso binria remeta aos discursos ancorados nos

    pressupostos humanistas, que reforam a anatomia ao papel social e vice-versa. Em outras

    palavras tratam-se de fices, racionalidades fictcias que ganharam estatuto de verdades

    inquestionveis. A autora ainda enfatiza a tomada de posicionamentos alternativos,

  • 31

    objetivando o distanciando das noes universalistas, entendendo que gnero s existe

    mediante as relaes, e por isso mesmo construdas em determinados contextos. E assim como

    sexo e gnero se essencializaram, no seriam as prticas de cuidado essencializadas nos

    discursos sobre o feminino e a famlia? neste sentido que o conceito de maternidade, na

    cultura ocidental, se apresenta muito mais colado as prticas do cuidado do que um atributo da

    paternidade.

    A identidade, antes posta sobre um pedestal sagrado, quando colocada em anlise,

    graas centralizao da linguagem na cincia, muito da composio de sua obviedade est

    imersa em naturalizaes. A problematizao a partir das marcas identitrias torna-se

    importante, pois at uma metafsica dos objetos tambm inscrevem regimes de verdade e,

    portanto, lutas polticas. Deste modo, conceitos como os de papel social ou de fixao de

    identidade tratam-se, sobretudo de produes na direo de essencializ-las, ou seja, de

    polticas de identidade, pois de um lado se tem o sujeito e de outro o papel/identidade. O

    problema reside em que o sujeito torna-se assim pr-existente ao papel, a metafsica do

    sujeito, da verdade do sujeito, inaugurada na modernidade por Descartes (FERREIRA,

    BEZERRA, TEDESCO, 2008).

    O pensamento inicial desta pesquisa tratava-se de analisar sob quais jogos

    heterogneos e difusos as marcas identitrias das avs foram institucionalizadas. Contudo, o

    estranhamento ocasionado pela implicao observador-observado, ao tomar a marca

    identitria da famlia dentro de uma srie com interferncias, ausente de estabilidade e repleta

    de movimentos oscilantes, o cuidado emergiu como diagonal possibilitando tomar a famlia-

    cuidado como caso-pensamento11.

    Do mesmo modo, a perspectiva de gnero constitui-se como vetor substancial aos

    estudos do campo da famlia. E enfatiza-se nesta pesquisa este elemento, pois antes de se

    questionar sobre o mito da famlia estruturada, preciso compreender quais jogos de

    verdade e de poder encontram-se implicados. As marcas identitrias, especialmente as de

    gnero, quando articuladas a discursos essencializados sobre o campo famlia-cuidado, por

    exemplo, so costurados por inmeros discursos, podendo tecer fatdicos enunciados, como:

    ______________ 11 Mtodo que visa se distanciar das pesquisas em que a neutralidade sempre invocada, privilegiando-se, portanto, a experincia sensvel entre observador-observado, dependendo do estranhamento e da emergncia dos processos envolvidos. Quanto maior o estranhamento sobre determinados processos, maior a potncia de se tornar um caso-pensamento, isto , um dispositivo para fazer-pensar. Cf. SIEGMANN, C.; FONSECA, T. M. G. Caso-pensamento como estratgia na produo de conhecimento. Interface, Botucatu, v. 11, n. 21, abr. 2007. Disponvel em . Acesso em 03 fev. 2012.

  • 32

    famlias desestruturadas geram problemas de identidade, s podia ser criado pela av,

    dentre outros.

    Com a ampliao destas questes, de objeto inicial, as avs passaram a ser

    compreendidas como derivaes subjetivadas. Do mesmo modo, a questo do cuidado foi

    estendida para alm das prticas das avs, tornando-se, o que se acredita ser, a principal

    tecnologia ou prtica essencializada a famlia. Uma das principais questes passou ento a ser:

    quais as condies que possibilitaram tornar a famlia um enunciado para cuidado?

    Tomar o operador famlia como famlia-cuidado, ao mesmo tempo em que causou

    um estranhamento, tamanha obviedade associada em ambos, bifurcou completamente os

    rumos da pesquisa. Com estas novas provocaes sob o objeto de pesquisa, bem como o

    contato com novas ferramentas conceituais possibilitaram a substituio das tcnicas de

    entrevistas pela perspectiva construcionista para as anlises de elementos no-humanos do

    cotidiano, ao que se passou a denominar de uma genealogia-cartogrfica.

    Pesquisar da ordem da criao e, como coloca Deleuze [...], criar ter uma idia, o

    que, em Filosofia, implica a criao de conceitos (HILLESHEIM; BERNARDES;

    MEDEIROS, 2009). As implicaes destes estudos provocaram na genealogia-cartogrfica

    aqui empreendida, no mais traar linhas apenas pelas marcas identitrias femininas, sejam

    mes ou avs que cuidam, e sim avanar por linhas transversais, problematizando como tais

    prticas sustentam uma certa ontologia da famlia-cuidado no contemporneo.

    Entende-se por linhas os vetores de subjetivao constitudos a partir de jogos de

    fora e de forma que conformam certos desenhos cartogrficos, que na metfora deleuziana se

    assemelhariam aos novelos de linhas. (KASTRUP; BARROS, 2010). Segundo Kastrup e

    Barros (2010), a aplicao cartogrfica perpassa quatro tipos de linhas: visibilidade,

    enunciao, fora e de subjetivao.

    Linhas de visibilidade, compreendidas como linhas de visibilidade-dizibilidade so,

    segundo concepo deleuziana, dois campos indissociveis que conformam as formaes

    histricas. As visibilidades so os efeitos das formas dos saberes, dos arquivos, ou seja,

    quando as linhas de dizibilidade envergam, produzindo um campo de expresso, um plano de

    constituio de objetos. A realidade constitui-se assim tanto de regimes discursivos quanto de

    regimes de visibilidade ou de luz12 (BARROS; KASTRUP, 2010). Dito de outro modo, fala-se

    o que possvel falar, v-se o que possvel ver. Isto explica o entendimento da pesquisa

    ______________ 12 Aproveitando esta concepo deleuziana, uma metfora possvel da linha vizibilidade-dizibilidade pode ser feita mediante a prpria constituio da luz. Sendo ao mesmo tempo partcula e onda, caractersticas, portanto, indissociveis, seu efeito continua o mesmo. Cf. .

  • 33

    supracitada em remeter a linha competio para a linha da masculinidade, na mesma

    medida, s que de maneira inversa, na qual a linha de cooperao se articularia a linha do

    feminino.

    Acontece tambm que distintas linhas de visibilidade-dizibilidade podem ser

    mescladas. As linhas de enunciao seriam como linhas aparentemente uniformes, mas que

    tateando sua superfcie, experienciando sua textura, denuncia-se um longo tranado feito de

    objetos distintos13. Famlia como instituio cuidadora constitui-se em algo to bvio que no

    se problematiza os motivos de tal prtica e responsabilidade. Tendo isto como pressuposto,

    isto pode explicar os motivos de muitas pesquisas de cunho psicolgico pularem

    diretamente para o que interessa ignorando suas construes: As meninas e as mulheres,

    diz Gilligan, julgam a si mesmas de acordo com sua capacidade de lidar com suas

    responsabilidades e de cuidar de si mesmas e dos outros (PAPALIA; OLDS, 2000, p. 345). A

    obviedade poderia assim, ser a marca principal das linhas de enunciao.

    Como as linhas/tranas enunciativas no flutuam no vcuo, estas somente se

    constituem por meio de jogos, suas existncias s so possveis por meio das relaes de

    poder, ou mais precisamente, atravs das relaes de fora que atualizam ou no tal

    visibilidade. As abstratas linhas de fora poderiam ser assim descritas como linhas

    magnticas, que racionalizadas pelos discursos, constrangeriam as demais linhas: no se

    receita qualquer livro ou manual para um curso de Psicologia, s so aceitos aqueles que

    cumprem determinadas diretrizes, livros/conhecimentos que orbitam em torno do campo

    gravitacional acadmico.

    Parafraseando Deleuze (1992), rachar as palavras e as frases contidas em documentos

    do cotidiano14 ser o modo de considerar as visibilidades das tecnologias do cuidado, o modo

    de decompor os enunciados sobre as famlias-cuidado, ou seja, colocam-se em anlise as

    linhas que amarram estas relaes de poder-saber.

    Nesta empreitada, o pesquisador muito longe de estar neutro destas amarraes,

    caminha e compe esta complexa rede, no qual seus movimentos tambm ativam ou

    desativam pontos que sustentam todo o emaranhado, toda a cartografia existente (KASTRUP;

    ______________ 13 Para melhor compreender as linhas de enunciao basta compar-las a construo do pigmento de cor verde, ou seja, do mesmo modo que no se percebe o amarelo e o azul em sua composio, certos discursos se tornam to evidentes que sua heterogeneidade ignorada. 14 Documentos do cotidiano uma estratgia de enfatizar o senso comum na constituio dos discursos.

  • 34

    BARROS, 2010). E se so as linhas de fora que sustentam os diversos discursos existentes,

    isto decorre porque caminhamos todos dentro de dispositivos15.

    Mas apesar de aderentes, como as teias de aranha, estas complexas redes so

    maleveis e lquidas, possuidoras de diversas instabilidades que permitem o movimento por

    linhas de fuga, que nas palavras de Deleuze (1992) consiste no caminhar na borda entre os

    dispositivos. As linhas de subjetivao seriam as linhas quebradas ou de fuga por onde os

    sujeitos escapam e inventam novos modos de existncia, mesmo que depois sejam

    apreendidos novamente pelas malhas do poder-saber. o prprio devir.

    As audincias pblicas bem como as conferncias so alguns dos vetores de

    subjetivao que possibilitam estas fissuras entre dispositivos. Em uma audincia pblica,

    ocorrida em 12 de maio de 2010 sobre o Estatuto das Famlias projeto que retira o livro da

    famlia do Novo Cdigo Civil de 2002 , teve como maior polmica as reivindicaes de

    direitos sobre as unies homoafetivas. Mesmo os defensores alegando no terem interesse

    sobre casamento, e sim sobre direitos iguais tais como herana e separao de bens, muitos

    lderes religiosos contrrios a estas transformaes, utilizaram argumentos ancorados na

    tradicional instituio familiar, isto , se ancoraram nas linhas de visibilidade e dizibilidade

    que compem uma ontologia da famlia:

    O pastor da Assemblia de Deus Silas Malafaia afirmou que conceder os diretos civis a porta para depois aprovarem o casamento. Ele defendeu que a famlia o homem, a mulher e a prole, sendo que a prpria Constituio defende esse desenho familiar. [...] Ento vamos liberar relaes com cachorro, vamos liberar com cadveres, isso tambm no um comportamento? O pastor foi muito aplaudido durante sua exposio (CRUZU, 2010).

    De fato, o Novo Cdigo Civil de 2002, no artigo 1.723 cita: reconhecida como

    entidade familiar a unio estvel entre o homem e a mulher, configurada na convivncia

    pblica, contnua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituio de famlia.

    Contudo, conforme o desembargador Carlos Roberto Gonalves na palestra intitulada

    Responsabilidade Civil e Relaes Familiares, como no concubinato regido no Cdigo Civil

    de 1916 as mulheres no tinham direito algum aps a separao, comeou-se a questionar o

    enriquecimento ilcito por parte de muitos maridos. Desta forma, o desembargador afirma que

    a maior inteno do artigo 1.723 do Novo Cdigo Civil de 2002, no estaria na reafirmao

    ______________ 15 Os dispositivos podem ser entendidos como a residncia dos discursos ou os lugares do poder, um bom exemplo de dispositivo a priso, no em seu sentido de instituio, mas como possuidora da capacidade de diferenciar o crime e o criminoso ao mesmo tempo em que formaliza a lei (CASTRO, 2009). Maiores explicaes sobre o conceito de dispositivo ocorrem no tpico Pesquisa por processualidade.

  • 35

    da instituio familiar, mas principalmente, na regularizao da unio estvel como conceito

    substituto do concubinato.

    Contrariando as linhas j institudas pela cincia, isto , em oposio aos livros e os

    saberes psicolgicos sobre cuidado e feminilidade, as unies homoafetivas, como novos

    modos de existncia ativam linhas de fuga e a desconstruo da famlia passa a ser um

    grande temor:

    Na mesma linha crtica, o pastor da Igreja Assembleia de Deus Abner Ferreira afirmou que o Estatuto das Famlias seria, na verdade, o Estatuto da Desconstruo da Famlia. Segundo ele, ao admitir a unio de pessoas do mesmo sexo, a proposta pretende destruir o padro da famlia natural, em vez de proteg-la. Ele disse que todas as outras formas de famlia so incompletas e que toda manobra contrria famlia natural deve ser rejeitada. (CRUZU, 2002, grifo meu).

    No artigo 25 do Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA), h a seguinte definio

    sobre o termo famlia natural: Entende-se por famlia natural a comunidade formada pelos

    pais ou qualquer deles e seus descendentes. Segundo Muniz (1998), famlia e casamento,

    para a Constituio de 1988, constituem-se realidades distintas, assim, seja a famlia fundada

    pelo casamento, o que se chama famlia natural, seja a famlia fundada na unio de fato ou a

    famlia adotiva, ambas possuem a mesma equivalncia jurdica.

    Com a emergncia de uma linha famlia-homoafetividade, os discursos provenientes

    das tradicionais linhas de dizibilidade que conformavam a famlia-cuidado so postos em

    questionamento, onde famlia natural seria o padro, frente as famlia incompletas

    isto , configuraes familiares ainda no institudas.

    Deleuze (1992) afirma que, assim como as famlias, todos os meios de

    confinamentos, caractersticos das sociedades disciplinares encontram-se em crise. Famlia,

    escola, hospitais e prises so algumas das instituies que gradualmente so problematizadas

    numa transio para as sociedades de controle. Nestas sociedades, as configuraes

    maleveis, no propriamente substituem, mas sofisticam as antigas estruturas disciplinares e

    estveis a famlia nuclear burguesa citada pelos estudos freudianos, em que pai, me e filhos

    formavam a regra geral, nas sociedades de controle cada vez mais se torna exceo.

  • 3 CINCIAS HUMANAS E NO-HUMANAS?

    Colocando em anlise algumas linhas que percorrem a famlia, por meio de

    documentos do cotidiano, percebe-se o quanto a performatividade de elementos no-humanos

    possibilitam a ontologia de uma famlia-cuidado. Para tanto, problematizar alguns

    pressupostos do que se entende por realidade constitui-se primordial para justificar as

    orientaes metodolgicas escolhidas.

    O problema da realidade, para Ibaez (1994) na forma como foi constituda a cincia

    no ocidente, deve-se a duas ancoragens recprocas: a crena numa realidade inteiramente

    externa e fora de alcance e a crena de que haveria um modo de acesso exclusivo a esta. A

    imparcialidade nos testes ericksonianos, por exemplo, forjado a partir das linhas de fora

    positivistas da academia, constitui numa das principais garantias da correlao entre a linha de

    dizibilidade identidade feminina e a linha cuidado. O discurso positivista sobre uma realidade

    universal abraa a neutralidade cientfica como principal pressuposto nas estratgias de

    produo do conhecimento, inclusive no campo das cincias psicolgicas. Caso se parta de

    uma perspectiva de que o conhecimento construdo, e que este mesmo conhecimento

    implica modos de subjetivar os sujeitos que se estuda, o que vem a ser a realidade bem como

    as formas de acesso a esta constituem pressupostos epistemolgicos fundamentais

    (FERREIRA, BEZERRA, TEDESCO, 2008).

    Do mesmo modo, Foucault (2003) tece crticas a noo essencialista de uma

    realidade nica e inequvoca. Nas palavras do autor (2003, p. 329):

    preciso desmistificar a instncia global do real como totalidade a ser restituda. No h o real do qual se iria ao encontro sob a condio de falar de tudo ou de certas coisas mais reais que as outras. [...] Um tipo de racionalidade, uma maneira de pensar, um programa, uma tcnica, um conjunto de esforos racionais e coordenados, objetivos definidos e perseguidos, instrumentos para alcan-los etc., tudo isso algo do real, mesmo se isso no pretende ser a prpria realidade, nem a sociedade inteira.

    Nesta perspectiva, a realidade no seria to somente constituda de determinados

    eventos registrados pela histria oficial. Discursos oficiais e extra-oficiais, como e-mails,

    notcias e manuais, enfim, uma srie de tecnologias humanas e no-humanas podem ser

    correlacionadas como estratgias racionais que corroboram para que certos eventos ocorram

    em detrimento de outros (FOUCAULT, 2003). E nem por isso essas tecnologias sero

  • 37

    menos reais. Nesta perspectiva, os documentos do cotidiano tambm se constituem como

    uma realidade, que mesmo originrias do senso comum implicam efeitos diversos em outras

    instncias.

    3.1 Ateno cartogrfica em documentos do cotidiano

    A necessidade de pontuar a escolha de uma racionalidade epistemolgica, longe de

    revisitar conhecidas trilhas histricas, atravs de montonas cronologias lineares da

    constituio da cincia, tem o potencial de revelar o solo em que so germinadas as

    estratgias de produo do conhecimento.

    Uma mudana de percurso desta pesquisa, que vale a pena ressaltar, foi o contato

    com o livro Pistas do Mtodo da Cartografia de autoria de Passos, Kastrup e Escssia (2010).

    Originria dos estudos de Gilles Deleuze e Flix Guatarri, o mtodo cartogrfico no objetiva

    representar objetos to caros aos mtodos tradicionais mas acompanhar os processos de

    produo dos objetos (PASSOS; KASTRUP; ESCSSIA, 2010). Desta forma, o contato mais

    denso com os referenciais foucaultianos aliados aos estudos da cartografia, lanaram novas

    luzes sobre o terreno epistemolgico escolhido a ser traado.

    Conforme Passos e Barros (2010) o intuito da cartografia se constitui em

    acompanhar a multidirecionalidade dos processos por onde transitam distintas linhas de

    visibilidade, e ao embutir as ferramentas genealgicas sobre a famlia-cuidado, ser ento um

    modo de empreender uma genealogia-cartogrfica.

    Ao colocar em anlise as condies que possibilitam uma ontologia da famlia-

    cuidado, foi necessrio delinear sobre quais eixos epistemolgico-metodolgicos esta anlise

    percorre. Como primeiro eixo desta pesquisa est a anlise de materialidades que compem

    arquivos, campos de saber, que mesmo por sua diversidade, acabam por conformar uma

    histria do presente sobre a famlia-cuidado. A principal ideia de utilizar materiais do

    cotidiano proveio de uma correspondncia recebida em minha casa, ainda no comeo do

    Mestrado. Em formato de folder impresso, trata-se de um folheto denominado Curso Famlia

    Feliz (ANEXO A). A estranheza partiu, no tanto pelo carter religioso relacionado

    famlia-cuidado, mas pelo fato do seu principal argumento ser uma pesquisa cientfica:

  • 38

    H alguns anos, uma revista de Nova York publicou um estudo realizado sobre as famlias norte-americanas. De um lado estava o lar de Maximiliano Jukes, homem incrdulo, casado com uma jovem to irreligiosa quanto ele. At o momento em que se completou o referido estudo, observou-se que seus descendentes foram 1.206, dos quais 300 morreram cedo; 100 foram encarcerados por vrios delitos; 109 se entregaram ao vcio e a imoralidade; 102 puseram-se a beber; toda esta famlia custou ao Estado de Nova York 1.100.00 dlares (aproximadamente 2 bilhes, trezentos mil reais). Por outro lado, examinou-se a famlia de Jnatas Edwards, homem cristo, que se uniu em matrimnio com uma mulher tambm crist. Seus descendentes foram 729, dos quais 300 foram pregadores; 13 foram reitores de universidades; 6 autores de bons livros; 3 deputados e 1 vice-presidente da nao. Essa famlia no custou um dlar sequer ao Estado. [...] Se a f crist fosse cultivada em todos os lares, no existiria rebeldia por parte dos filhos, nem delinqncia juvenil, nem uso de drogas, nem prostituio, muito menos os males por estes causados (CURSO FAMLIA FELIZ, s/d, sic, grifo meu).

    O uso do discurso cientfico pelos religiosos tendo como foco a famlia no contm,

    a princpio, nada de novo. Contudo, a metodologia cartogrfica ensina que ao cartgrafo cabe

    exercitar uma ateno a espreita, onde o pressuposto uma concentrao sem focalizao

    (KASTRUP, 2010). Assim, com o olhar treinado em normas e metodologias acadmicas, ao

    pousar a ateno sob o folder em questo, certa estranheza adveio pelo fato de que, mesmo se

    utilizando da autoridade cientfica, a mencionada pesquisa no continha nenhuma referncia

    de quem ou quando foi realizada.

    Nem seria preciso dizer que no se objetiva aqui realizar uma anlise de normas de

    metodologia de material ou muito menos aferir se tal estudo foi realizado ou no. Objetiva-se,

    sobretudo, apontar por um lado o modo como se articula a ateno na perspectiva cartogrfica

    e por outro a capacidade performativa do material em relao famlia-cuidado.

    Desta forma, mesmo a estranheza da ateno cartogrfica se assemelhando ateno

    flutuante freudiana, h entre ambas uma diferena considervel. Enquanto na perspectiva

    psicanaltica a associao livre essencialmente auditiva, na cartografia trata-se de uma

    associao livre multissensorial, em que todos os sentidos so valorizados (KASTRUP,

    2010). Utilizando de uma metfora do filsofo William James, Kastrup (2010) explica como a

    ateno cartogrfica assemelha-se ao vo dos pssaros que, em constante movimento, no faz

    paradas bruscas, mas pousa momentaneamente sobre algo: H alguns anos, uma revista de

    Nova York publicou um estudo realizado sobre as famlias norte-americanas. (CURSO

    FAMLIA FELIZ, s/d, grifo meu).

    Para Bauman (1998), como efeito do projeto moderno, h cada vez mais, na ps-

    modernidade, uma desenfreada busca, no por autoridades religiosas, mas por especialistas

    em identidade. No toa, assim como muitos outros religiosos, o pastor Silas Malafaia

    reafirma sua formao em Psicologia para enfatizar seu posicionamento perante o Estatuto

  • 39

    das Famlias e utilizar da autoridade de um especialista em comportamento: Ento vamos

    liberar relaes com cachorro, vamos liberar com cadveres, isso tambm no um

    comportamento? (CRUZU, 2010). Contra a ambivalncia intrnseca a dinmica das famlias,

    os mais diversos especialistas psi apresentam respostas para tais ambivalncias, ancorados

    desta forma no projeto moderno, onde o pressuposto seria o controle e a administrao da

    natureza (BAUMAN, 1999).

    Rose (2001) problematiza esta questo dos experts perguntando-se sobre quais

    aparatos se sustentam a autoridade das autoridades e qual a relao entre quem governa e

    quem governado? Para tanto, o autor sugere que se parta pela heterogeneidade dos saberes

    ao invs de tomar como pressuposto um poder intrnseco das autoridades e questionar sobre

    quais formas de vida, sobre quais programas particulares se constituem estes modelos:

    [...] o pai responsvel que vive uma vida de prudncia e moderao. O trabalhador que aceita sua sorte com uma docilidade que se baseia em uma crena na inviolabilidade da autoridade ou na recompensa de uma vida futura. A boa esposa que cumpre seus deveres domsticos com uma eficincia invisvel, sem se exibir. O indivduo empreendedor que se esfora por melhorias seculares em sua qualidade de vida. O amante apaixonado nas artes do prazer. Que cdigos de saber sustentam esses ideais, e a que valorizao tica esto eles ligados? (ROSE, 1999, p. 39).

    Quando os saberes e as tcnicas psi performam alguns modelos de conduta, no se

    deve esquecer que estes so objetos de programas particulares e especficos, constitudos para

    responder alguma urgncia histrica e no uma caracterstica inviolvel das culturas humanas

    (ROSE, 2001).

    Um conceito como cooperao feminina definida/fixada pelas autoridades psi,

    um tipo de agenciamento, j que se torna um campo de conexo, podendo tanto fortalecer

    prticas como as defendidas pelo Curso Famlia Feliz como enfraquecer possibilidades como

    uma competitividade feminina.

    Tal como na audincia pblica sobre o Estatuto das Famlias, a linha de fora sobre a

    qual orbita o curso Famlia Feliz tambm traada por cincias que visam prescrever o

    comportamento, que mesmo indiretamente, se amparam sobre a autoridade dos saberes psi

    para fortalecer as linhas que compem a famlia-cuidado. Cincia e religio como amplos

    domnios de saber-poder, quando mesclados, constituem linhas enunciativas, que produzem

    diversos modos de subjetivao sobre outros objetos, inclusive sobre uma famlia-