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Getulio lira neto

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  • Sou contra biografias.Getlio Vargas

  • Para Adriana

  • Sumrio

    PrlogoOnze avies sobrevoam o Rio de Janeiro.Na fuselagem, ostentam o emblema fascista (1931)

    1. A terra ali vermelha feito brasa.Dizem que por tanto sangue derramado nela (1865-96)

    2. No tiroteio, um jovem tomba morto.Seria Getlio, aos quinze anos, o assassino? (1896-8)

    3. Getlio levanta o brao e adere ao motim.O gesto vai mudar sua vida (1898-1903)

    4. Aps suspirar por uma Dama de Vermelho,Getlio cai de amores pela militncia estudantil (1903-7)

    5. Simptico, republicano e deputado:Getlio um bom partido para a filha do figuro local (1908-12)

    6. Desafeto dos Vargas recebe um tiro no ouvido.Ele sabia e falava demais (1913-6)

    7. ndia estuprada e cacique, morto a tiro.O culpado Getlio Dornelles Vargas (1917-21)

  • 8. Nova guerra civil derrama sangue no Rio Grande.O parecer de Getlio o estopim do conflito (1922-3)

    9. S possvel reprimir violncia com violncia,l Getlio em seu primeiro discurso no Rio (1923)

    10. A Coluna Prestes comea a inflamar o Brasil.Getlio a compara a uma correria de cangaceiros (1924-6)

    11. O ministro da Fazenda no entende de finanas.Mas sabe tudo de poltica (1926-7)

    12. E se a Repblica do caf com leite se transformassena Repblica do caf com po? (1928)

    13. Getlio inaugura a arte de tirar as meias semdescalar os sapatos (1929)

    14. A renovao criadora do fascismo citadacomo exemplo pelo candidato Getlio Vargas (1929)

    15. Guerra vista: Rio Grande encomenda ao Canad5 milhes de cartuchos pontiagudos (1929)

    16. O clima no Rio de Janeiro de orgia cvica;mas dessa vez Getlio o nico a no sorrir (1930)

    17. Um jornalista entrevista o obelisco:Os cavalos gachos no vm mais (1930)

    18. Tropas federais chegam a Porto Alegre.Getlio, tranquilo, passeia a p pela cidade (1930)

    19. A revoluo explode nas ruas.Os dois lados comeam a contar seus mortos (1930)

  • 20. A massa no grita mais Queremos!.O brado agora outro: J temos Getlio! (1930)

    Este livro

    Fontes

    Notas

    Crditos das imagens

  • Prlogo

    Onze avies sobrevoam o Rio de Janeiro.Na fuselagem, ostentam o emblema fascista (1931)

    Na tarde daquele 15 de janeiro de 1931, uma quinta-feira escaldantede vero carioca, as 10 mil pessoas aglomeradas ao longo da amurada da praiado Flamengo voltavam os olhos para o horizonte. Os relgios marcavam quatro emeia em ponto quando onze gigantescos hidroavies Savoia Marchetti S-55 A, defabricao italiana, surgiram em voo baixo, por trs do Po de Acar. Asaeronaves vinham dispostas em impecvel formao, tomando o aspecto de umapirmide no ar. As fuselagens prateadas brilhavam sob o sol, destacadas no fundoazul de um cu sem nuvens. No mesmo minuto, obedecendo a um movimentorigorosamente cronometrado, a proa de um destrier cinzento de 107 metros decomprimento apareceu por trs da silhueta do morro Cara de Co, entrada dabaa da Guanabara. O navio, com a bandeira da Itlia e o pavilho negro doregime fascista de Benito Mussolini tremulando no mastro, singrou rpido pelasguas, acompanhado por outras sete embarcaes de guerra, dispostas em fila.1

    No se tratava de um ataque militar. Era uma manobra festiva. Noalto, os onze avies avanaram na direo da praia e, ainda em formao,deram um rasante sobre o pblico. Observados de perto, eram ainda maisimpressionantes. Com 24 metros de envergadura, 16 de comprimento e 5 milquilos cada um, arrancaram aplausos e gritos de entusiasmo. No leme,

  • avistavam-se as trs cores oficiais da nao italiana verde, branco evermelho. Em cada um dos flutuadores de pouso, estava pintado o fascio, o feixede varas dourado acompanhado da machadinha, smbolo da justia na RomaAntiga, reincorporado como insgnia pelos fascistas.

    Viva o Brasil! Viva a Itlia! Viva Getlio Vargas! Viva Mussolini!,bradava a multido.2

    Na avenida Rio Branco, na fachada do edifcio Hasenclever ondefuncionava a sede dos Dirios Associados e a sucursal brasileira da HearstCorporation, o conglomerado de comunicao do magnata norte-americanoWilliam Randolph Hearst, um entusiasta do fascismo , alto-falantes apontadospara a rua multiplicavam o rudo dos motores Fiat de 1120 cavalos queequipavam os avies. O radiotransmissor principal estava instalado na cabine decomando da aeronave que seguia imediatamente frente das demais. Com omanche nas mos protegidas por um par de luvas brancas, quem a pilotava era oprprio comandante da Aviao italiana, Italo Balbo, 33 anos, o mais jovemministro de toda a Europa. Vestido com o uniforme escuro, Balbo era ocomandante da expedio area que sara de Orbetello no dia 17 de dezembro e,depois de escalas em Cartagena e no norte da frica, cruzara o oceano Atlnticopelos ares at chegar ao Brasil, fazendo paradas prvias em Natal e Salvador,percorrendo um total de 10 400 quilmetros desde o ponto de partida,estabelecendo um novo marco na aviao mundial.3

    Asas gloriosas da Itlia nova, lia-se na manchete do fluminenseCorreio da Manh. Os heris italianos, identificados por um distintivo negro como emblema do fascio, concluram a sua ltima etapa, no maior empreendimentode aviao de todos os tempos, dizia a matria. Nunca ser demais exaltar topico feito, em que o valor de um povo forte reponta como a prpria esperanade mais brilhantes dias para a histria da civilizao.4

    A travessia area sobre o Atlntico no era mais uma novidade desde1922, quando os pilotos portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral aefetuaram pela primeira vez. O ineditismo e a faanha de Balbo residiam no fatode faz-la em formao de esquadrilha, o que acrescentava dificuldadesconsiderveis misso, dada a necessidade de manter velocidade e posioconstantes durante todo o trajeto, para que os avies no se desgarrassem ou,mais grave ainda, se entrechocassem nos cus. Balbo e toda a Itlia estavamorgulhosos da proeza, considerada uma verdadeira ode ao poder da mquina eparticularmente dos homens que as controlavam, forjados na disciplina frrea doregime fascista.5

    Ave, Roma! mais uma vez o prestgio incontrolvel da alma latinaque se afirma no Universo, atravs do valor secular do povo italiano, saudouainda o Correio da Manh. A travessia, sustentava o peridico, era umtestemunho eloquentssimo do valor civilizador da Itlia moderna.6

  • Italo Balbo no chegara por acaso ao comando da fora area de seupas. Na fase anterior tomada do poder na Itlia pelos fascistas, ele senotabilizara por ser um dos mais truculentos seguidores do Duce o termo peloqual os italianos se referiam a Mussolini, derivado do latim, dux, vocbulo queem portugus equivale a lder. Balbo se vangloriava de ter ateado fogo edestrudo poca inmeros escritrios, grficas, bibliotecas, cooperativas ecrculos culturais ligados a grupos socialistas e comunistas de Ferrara, ondenascera e tivera sua iniciao poltica.7 Em julho de 1922, comandara um ataquede 24 horas ininterruptas a prdios pertencentes a movimentos de esquerda nacidade. Nossa passagem foi marcada por altas colunas de fogo e fumaa,descreveu, com orgulho, no dirio que publicaria decorridos exatos dez anos doepisdio. Nosso objetivo era desmoralizar o Estado, destruir o regime e todas assuas venerveis instituies. Quanto mais nossas aes fossem consideradasescandalosas, melhor.8

    Alm dos incndios criminosos de Ferrara, tambm pesavam contraBalbo as acusaes de ter sido conivente, em 1923, com o assassinato de umsacerdote antifascista, o padre Giuseppe Minzoni, proco de Argenta. Mas omaior feito de seu currculo em prol do regime de extrema direita que entocontrolava a Itlia ocorrera cerca de um ano antes da morte de Minzoni, quandoBalbo foi o mais jovem dos quatro idealizadores da famosa Marcha sobre Roma,a manifestao que em outubro de 1922 reuniu cerca de 26 mil camisas-negras grupo paramilitar encarregado de promover aes polticas por meioda violncia para invadir a Cidade Eterna e exigir a tomada do poder nopas. A marcha marcou a ascenso de Mussolini chefia do governo italiano e aposterior nomeao de Balbo para o ministrio. Com experincia quase nula emaviao, fez um curso de pilotagem aps assumir o cargo e logo em seguidacriou a mstica do voo em massa, as travessias ocenicas com esquadrilhasareas que se transformaram em um dos smbolos mximos da propagandafascista no exterior.9

    A chegada de Balbo ao Rio de Janeiro fora antecedida por umatragdia na equipe. Numa decolagem noturna na cidade de Bolama, ento capitalda Guin-Bissau, ltima das escalas africanas antes de o grupo rumar para oBrasil, dois avies apresentaram problemas logo nos primeiros minutos de voo.Um deles conseguiu descer no meio do oceano e ficou para trs. O outro tevemenos sorte. Aps um curto-circuito, explodiu no ar, matando os cinco tripulantesa bordo. Os corpos, carbonizados, jamais seriam resgatados das guas doAtlntico. Na Itlia, Mussolini decretou luto oficial em toda a pennsula. Por isso,em vez dos treze avies que partiram de Orbetello, apenas onze amerissaram naenseada de Botafogo.10

    Recepcionados por autoridades brasileiras no Hotel Glria, ondeficariam hospedados, Italo Balbo e seus 51 companheiros de viagem entre

  • aviadores, tcnicos e oficiais militares, inclusive o chefe do Estado-Maior daaviao italiana, o general Giuseppe Valle, piloto de dirigveis durante a PrimeiraGuerra Mundial receberam as honras de representantes oficiais de Mussolinino Brasil. Ao se postar diante do microfone para pronunciar seu discurso deagradecimento pelas boas-vindas do povo brasileiro, Balbo sublinhou cada frasecom gestos largos, que lembravam os trejeitos histrinicos do prprio Duce emsuas aparies pblicas. A diferena que, ao invs da careca luzidia do chefe, oministro italiano ostentava uma vasta cabeleira negra, da mesma cor docavanhaque pontudo que cultivava desde os tempos de incendirio em Ferrara.11

    Trago a saudao da Itlia fascista ao Brasil novo, declarou Balbo,em aluso ao fato de o pas onde acabara de desembarcar estar sendo dirigidopor um regime recm-surgido dos rescaldos de uma luta armada. Apenas doismeses e meio antes, o gacho Getlio Dornelles Vargas, aos 48 anos de idade,assumira o comando da nao, aps uma junta militar destituir o ento presidenteda Repblica, Washington Lus. 12 Na agenda brasileira de Balbo, o principalcompromisso era justamente uma audincia solene, no dia seguinte, com o chefedo Governo Provisrio instaurado aps a vitria da chamada Revoluo de 30.No bolso do uniforme, o italiano levaria um telegrama de Mussolini que daria otom da conversa com o brasileiro Getlio Vargas.

    Os coraes de nossos povos irmos batem juntos pela primeira vez.Certamente, no ser a ltima, dizia a mensagem.13

    O protocolo do Palcio do Catete ento sede do governo federal, no Riode Janeiro, capital da Repblica exigiu dos convidados o uso de casaca, coletepreto e gravata branca. Os militares deveriam trajar farda de gala.14 Italo Balbo,em um elegante uniforme branco, chegou com sua comitiva rigorosamente s 15horas, como indicado no convite. O ministro italiano tinha obsesso pelas coisasexcelentemente organizadas, matematicamente certas.15 Depois de passar pelasequncia de seis colunas neoclssicas do hall de entrada e subir a escadaria deferro fundido para chegar ao piso nobre do prdio onde estava localizado osalo de honra , Balbo deparou-se com imagens que por certo lhe eramfamiliares. As esculturas, afrescos e vitrais com motivos da mitologia greco-romana no escapariam ao olhar de um observador habituado a celebrar osmonumentos e a iconografia da Roma imperial, reapropriados pelo fascismocomo smbolos da superioridade cultural latina e, mais especificamente, italiana.

    No alto, em um nicho vermelho, a Afrodite de Cpua do Palcio doCatete era uma cpia em metal da obra verdadeira, de mrmore, custodiadapelo Museu Arqueolgico Nacional de Npoles. As pinturas nas paredes exibiamreprodues de obras do pintor renascentista italiano Rafael Sanzio e remetiam

  • Vila Farnesina, em Roma. Conduzido ao Salo Amarelo, Balbo pde observar aornamentao suntuosa e o mobilirio pesado, de inspirao veneziana. Eracomo se um pedao da Itlia houvesse sido transplantado para os trpicos,provocando em um olho mais treinado uma certa (e inevitvel) sensao deartificialismo. Conduzido enfim ao salo de honra decorado com rplicas depinturas que igualmente aludiam a temas da mitologia greco-romana , oministro de Mussolini foi anunciado e levado presena de Getlio Vargas.16

    Conforme o testemunho do correspondente do jornal paulistano Folhada Manh presente solenidade, Balbo, com o peito estufado e apinhado demedalhas militares, perfilou-se diante do governante brasileiro. Rgido, de joelhosunidos, levantou subitamente o brao direito, deixando a palma da mo voltadapara baixo, em posio estendida. Era a clebre saudao fascista. Getlio olhouo visitante e, aps alguns poucos segundos de hesitao, estendeu-lhe a mo, emum cumprimento convencional. Em fila indiana, todos os membros da comitivaitaliana repetiram o gesto de Balbo. Como retribuio, tiveram as mos apertadaspor Getlio.17 Tudo entre sorrisos, notou o reprter da Folha, destacando ainformalidade do chefe de governo brasileiro, em contraposio ao cenrio e postura marcial dos convidados.18

    Conversei com Italo Balbo, esprito gil, inteligente, e muitosimptico, anotaria Getlio mais tarde, em um caderninho de bolso, a caparevestida de tecido preto.19 Desde o dia 3 de outubro do ano anterior, data doincio do movimento que o conduzira ao comando da nao, ele comeara aredigir um dirio pessoal, no qual deixava preciosas anotaes acerca docotidiano e do exerccio do poder. J enchera um volume inteiro com elas ecomeara um segundo. Sobre a chegada da expedio area italiana ao Rio, aque assistira do mirante localizado no alto do morro Mundo Novo, nos fundos doPalcio Guanabara residncia oficial da Presidncia da Repblica ,registrara o seguinte comentrio:

    Foi um espetculo admirvel.20A audincia solene no Catete no demorou mais do que alguns

    minutos. Ao final, Getlio recebeu das mos de Balbo uma comprida caixametlica, no interior da qual havia uma raridade cartogrfica: um mapa docontinente americano datado de 1751. Era um presente da Itlia ao povobrasileiro, sublinhou o representante de Mussolini.21

    A conversa entre Getlio e Balbo teria continuidade e desdobramentosdecisivos poucas horas depois, noite, em um banquete oferecido aos militaresestrangeiros no Palcio do Itamaraty , sede do Ministrio das Relaes Exteriores. mesa, Getlio sentou-se em frente a Balbo e ao lado do embaixador italiano noBrasil, Vittorio Cerrutti, e do nncio apostlico, representante da Santa S no pas,o monsenhor italiano Benedetto Aloisi Masella religioso que em 1943prefaciaria a obra Em defesa da Ao Catlica, de autoria de Plnio Correia de

  • Oliveira, o fundador da organizao Tradio, Famlia e Propriedade (tfp).22Para apresentar ao ministro fascista os sabores exticos da culinria

    brasileira, o jantar teve como atraes principais um caldo de tartaruga, fils derobalo, carneiro ao forno e macuco assado. hora da sobremesa compotasde frutas tropicais e sorvete de bacuri , Italo Balbo levantou a taa dechampanhe e fez um brinde ao Brasil. Disse que Mussolini desejava cultivarcom o mximo empenho as relaes de amizade entre os dois povos egovernos. Depois de ouvirem o Hino Nacional Brasileiro, a Marcha Real Italianae a Giovinezza (hino oficial do fascismo), os convidados seguiram para abiblioteca, onde lhes foram oferecidos cigarros, charutos, licor e caf. Ojornalista do Correio da Manh aproximou-se da roda em que Getlio e Balboconversavam, e assim pde ouvir e descrever parte da conversa. Para surpresado reprter, Getlio falava um italiano fluente.23

    O povo italiano adora caf, comentou Balbo, aps levar a xcaraquente aos lbios. Em todas as nossas cidades, sejam elas grandes ou pequenas,h um caf em cada esquina. E esto sempre cheios. Estou certo de que emnenhum pas da Europa se bebe mais caf do que na Itlia.24

    Getlio sorriu, rolando um grosso charuto entre os dedos. A palestrachegara aonde ele queria. A misso Balbo, espetaculoso golpe de publicidadefascista, tinha motivaes evidentemente polticas, mas tambm financeiras. Ogoverno italiano pretendia negociar com o Brasil a venda dos avies militares quefizeram a travessia area do Atlntico. A recomendao do Duce era a de queBalbo e seus homens voltassem para casa de navio. Getlio props ento aoministro italiano da Aviao uma espcie de escambo. O Exrcito brasileiroficaria com as aeronaves. Em troca, em vez de dinheiro vivo, o pas remeteriapara Roma toneladas de caf em gro. O negcio, costurado depois pelosrepresentantes comerciais dos respectivos governos, acabou aprovado. O Brasilpagaria 8 mil contos de ris (8.000:000$000, na grafia da poca, o equivalenteento a cerca de 88 milhes de dlares), em sacas de caf, para ficar com osmodernos Savoia Marchetti.25

    Foi um negcio e tanto. Mais de 20 milhes de sacas do produtoestavam apodrecendo nos armazns reguladores nacionais. Nas administraesanteriores, a poltica oficial de proteo ao caf, principal item da pauta deexportaes brasileiras, consistira na compra pelo governo dos excedentes deproduo. Por algum tempo, o artifcio interferira na lei da oferta e procura,mantendo os preos em alta no mercado internacional. Mas desde outubro de1929, com o crash histrico da Bolsa de Nova York e a crise econmica mundialdela decorrente, os compradores mundo afora sumiram. Os preos, porconseguinte, despencaram. A saca de caf, que chegara a custar 200 mil-ris emagosto de 1929, cara para mseros 12 mil-ris naquele incio de 1931, o que arigor deixava o pas beira da bancarrota.26

  • A misso Balbo e a consequente negociao das aeronaves militaresitalianas ajudaram a minorar apenas uma pequena parte do problema, bemverdade. Dali a menos de um ms, para socorrer os cafeicultores e aplacar opnico instalado no setor, o governo federal recorreria ao velho expediente edecretaria a compra pelo Ministrio da Fazenda de 17,5 milhes de novas sacas,mais da metade da safra anual que seria registrada no fim daquele ano.27 Dali amais alguns meses, Getlio apelaria para uma medida ainda mais extrema: aincinerao pura e simples dos estoques, numa tentativa desesperada de manteros preos estveis.

    As despedidas de Balbo ficariam marcadas por um escndalodiplomtico. No Rio de Janeiro, o aviador e sua equipe foram alvos de seguidasrecepes. Homenageados em um baile de gala no luxuoso Copacabana Palacee com uma corrida especial no Jockey Club, figuraram ainda como convidadosde honra de um espetculo musical no Theatro Lrico, cujo ponto alto seria aapresentao dos tenores Machado Del Negri e Francisco Pezzi, que entoaramcanes do mais assumido repertrio fascista. Entusiasmado com as atenesdispensadas, Balbo decidiu conhecer tambm So Paulo, ao ser informado deque na cidade existia a maior colnia de italianos no pas. Na capital paulista, ashomenagens prosseguiram, ainda mais acaloradas. Contudo, terminariam emtumulto.28

    Com os avies j praticamente negociados, a comitiva viajou para SoPaulo por via frrea e, no mesmo dia da chegada, participou da inaugurao danova sede do consulado italiano na cidade, em um prdio localizado na praa daRepblica. Numa concorrida solenidade, nas dependncias do Instituto MdioDante Alighieri (o futuro Colgio Dante), na alameda Ja, as centenas de alunosda instituio e de outros estabelecimentos de ensino talo-brasileiros foramorientados pela direo e pelos professores a receber Italo Balbo com a saudaofascista, o que valeu uma nota de protesto na Folha da Noite. A admoestao dojornal provocou algum constrangimento aos anfitries, mas algo muito maisgrave ainda estava por vir.29

    Antes de embarcarem de volta ao Rio, de onde deveriam tomar ovapor para a Europa, os aviadores foram surpreendidos por um burburinho naEstao da Luz. O que comeou com um simples empurra-empurra derivoupara cenas explcitas de pugilato. Imigrantes italianos adeptos do movimentoanarquista entraram em confronto com os compatriotas simpatizantes dofascismo em So Paulo. No meio da confuso, manifestantes das duas facesrivais acabaram cercando o automvel no qual se encontravam o embaixadoritaliano Vittorio Cerrutti e o comandante da esquadra de guerra que escoltara osavies durante a travessia transatlntica, o almirante Umberto Bucci.30

    Para escapar do conflito, Cerrutti saltou do carro e abriu caminho aesmo, distribuindo palavres e cotoveladas em meio multido, tendo ofendido e

  • atingido indistintamente anarquistas e fascistas ao longo do caminho. Bucciconseguiu acompanh-lo de perto, mas ambos foram barrados pelo inspetor depolcia encarregado de impedir o acesso dos manifestantes plataforma. Oembaixador ainda tentou forar a passagem. Mas o policial, por no conseguirdistingui-los dos demais, e sem conseguir entender uma nica palavra do quegritavam, conteve-os com um enrgico empurro.31

    No sabia o que eles diziam, mas pelo tom e pelas maneiras,compreendi que pronunciavam irreverncias, deps o rapaz mais tarde imprensa.32

    Revoltado com o bloqueio, o almirante desferiu uma sonora bofetadano rosto do inspetor. Cerrutti aproveitou para tambm atac-lo, desfechando-lheum soco de cima para baixo. O golpe passou de raspo, conseguindo apenasfazer com que o quepe do policial se deslocasse para a frente de seus olhos. Oinspetor, sem enxergar nada por alguns instantes, disparou um murro cego, masvigoroso, em direo aos oponentes. A pancada atingiu em cheio o rosto doembaixador, que ficou grogue. Recuperado da condio de inferioridade e antesque Bucci pudesse correr em auxlio do companheiro, o rapaz pegou oembaixador pelas lapelas do palet e continuou lhe aplicando uma srie desafanes.33

    O quiproqu s terminou quando os demais membros da comitivaconseguiram se aproximar e, com a ajuda de um intrprete, explicaram queaqueles dois senhores desgrenhados eram altos representantes do governoitaliano. O policial, lvido, percebendo o tamanho da complicao na qual semetera, pediu desculpas a ambos. O almirante retribuiu o gesto, mas oembaixador se negou a fazer o mesmo. O episdio resultou em um protesto dosestudantes da Faculdade de Direito de So Paulo, que exigiram o afastamento doembaixador do pas e um pedido formal de desculpas do governo italiano pelodesacato a um representante da polcia brasileira.34

    Getlio precisou entrar em ao. Por causa do revide do inspetorcontra Cerrutti, considerou que o mais recomendvel era dar o assunto porencerrado, aps uma rpida reunio de conciliao entre as partes e umaindicao imprensa para que no se escrevesse mais nenhuma linha sobre ocaso. O pedido do chefe do Governo Provisrio foi prontamente atendido.35

    De todo modo, Vittorio Cerrutti no demoraria muito mais tempo noBrasil. Dali a pouco mais de um ano, Mussolini o transferiria para a embaixadaitaliana na Alemanha, onde o lder do Partido Nacional Socialista dosTrabalhadores Alemes, mais conhecido como Partido Nazista, Adolf Hitler,preparava o terreno para sua ascenso ao poder.36

  • Embora o Palcio do Catete tenha estendido seus tapetes vermelhos aofascista Italo Balbo, Getlio Vargas ainda no deixara claro opinio pblicaqual rumo ideolgico pretendia imprimir ao governo aps a tomada do poder.Particularmente em um momento histrico no qual o mundo assistia aosurgimento de governos totalitrios esquerda e direita, a questo fazia todosentido. Havia at mesmo quem desconfiasse de que estivesse em andamentoum processo de aproximao com a Unio Sovitica, a poderosa nao surgidacerca de oito anos antes, em 1922, aps o triunfo da Revoluo Russa de 1917 eda vitria do Exrcito Vermelho sobre o Exrcito Branco, na guerra civil queconsolidou o domnio dos bolcheviques comandados por Vladmir Lnin. Ojornalista e advogado paulista Plnio Barreto, redator-chefe do O Estado de S.Paulo, publicao que apoiou abertamente a Revoluo de 30, apontava umasuposta inclinao esquerdista do novo governo brasileiro: Recebidos comentusiasmo, os revolucionrios comeam, agora, a causar inquietao ao povo,denunciou Barreto. O motivo desta reviravolta, manifesto a todos os olhos, seencontra na crena que justa ou injustamente se arraigou no esprito pblico deque estamos condenados a uma ditadura militar de carter comunista.37

    Entretanto, de Montevidu, o engenheiro militar Lus Carlos Prestes, noexlio desde 1927 e s vsperas de ir morar na Unio Sovitica a convite dogoverno daquele pas, tratava de negar qualquer vnculo da Revoluo de 30 edo governo de Getlio com a causa marxista: No Brasil, como em toda aAmrica Latina, os mistificadores servem-se da palavra revoluo para enganargrosseiramente as massas, acusava Prestes.38

    Os que temiam a bolchevizao do regime baseavam suas suspeitas nofato de estarem sendo organizadas por todo o pas, com o apoio de membrosinfluentes do governo federal e de pessoas bem prximas a Getlio, as chamadasLegies Revolucionrias, organizaes que buscavam atrair o operariado commensagens de forte contedo social. Os integrantes dessas agremiaesutilizavam como distintivo uma sugestiva braadeira vermelha. Em So Paulo, oprimeiro manifesto dos legionrios foi distribudo populao com a ajuda deum aeroplano que inundou a cidade com panfletos de linguagem ardente. Diziamos folhetos:

    Da vitria nas armas, no se conclua que a ao revolucionria tenhachegado ao seu termo e que os combatentes possam dar por findo o seutrabalho, e que a Nao, milagrosamente, esteja reintegrada no uso e gozodas suas prerrogativas inalienveis. Povo de So Paulo! Ide hoje para ovosso trabalho, cada um de vs, com uma faixa vermelha no brao,expresso da certeza de que est disposto a cumprir sua misso.39

  • Em simultneo, seria formada em Belo Horizonte a Legio Mineira,de assumida extrao direitista. Em contraste com a braadeira vermelha, seusafiliados adotaram como smbolo a camisa cqui. Apesar de antagnicos nosaspectos externos, os mtodos dos dois grupos eram de tal modo semelhantes quemuitas vezes chegaram a se confundir. Como trao adicional de afinidade, existiaa defesa intransigente que faziam do Governo Provisrio. Afinal, ambas ascorrentes haviam nascido das fileiras revolucionrias que iaram Getlio aoCatete.

    A Revoluo de 30 contara com o apoio e a coalizo dos maisdiferentes matizes ideolgicos, que ento se sentiam no direito de cobrar suaparte correspondente no governo, impondo nao os respectivos interesses.Posto no meio de um fogo cruzado, Getlio at ali procurava contemporizar, oraafagando uns, ora agradando outros. A indefinio e a dualidade ajudariam aplasmar a imagem de um poltico de poucas palavras e muitos sorrisos, apto aatrair sobre si uma cordilheira de adjetivos recorrentes, que logo se encravariamem sua biografia como inevitveis clichs. Passaria a ser, desde ento, a eternaesfinge, o impenetrvel, o enigmtico Getlio Vargas.

    O Rio Grande do Sul at aqui era uma floresta africana, que sproduzia lees. O sr. Getlio a primeira raposa dos pampas, definia ojornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello o Chat, donodos Dirios Associados e uma das lnguas mais venenosas da imprensabrasileira.40 A imagem do leo era uma referncia ao passado belicoso dopovo gacho, historicamente envolvido com guerras de fronteiras e conflitosinternos. A metfora poltica da raposa, bicho manhoso e astuto, ficaria parasempre associada imagem de Getlio.

    Maquiavel pinto para o sr. Getlio Vargas, reforava Chat.41S havia uma nica certeza quela altura dos acontecimentos. A

    despeito do vis ideolgico que seu governo viesse a tomar, entregando-se aosbraos do fascismo ou s mos dos comunistas, Getlio estava disposto a fazerum governo forte, sem nenhuma considerao aos princpios darepresentatividade parlamentar e do liberalismo econmico valores queestavam em xeque desde que a crise da bolsa de Wall Street empurrara osEstados Unidos para o abismo da Grande Depresso. O desemprego em massa, ofechamento de bancos, as falncias e os suicdios em srie abalavam naqueleinstante a crena na democracia liberal e no Estado mnimo em todo o Ocidente.Em seu lugar, surgiram as propostas regeneradoras de regimescentralizadores, com forte ingerncia do Estado sobre a economia e a tutelavigilante sobre a vida privada dos indivduos. Desse desencanto poltico radical,por diferentes caminhos e em diferentes conjunturas, brotaria o fascismo naItlia, o nazismo na Alemanha, o franquismo na Espanha, o salazarismo emPortugal e, em certa medida, com suas especificidades, o getulismo no Brasil.42

  • Deem-me a ordem que eu lhes darei boa administrao, diziaGetlio.43

    Porm, nem propriamente fascista, muito menos comunista, eleinauguraria um autoritarismo todo particular, temperado por uma imagempblica bonachona, de um chefe de Estado capaz de sair do palcio sem nenhumguarda-costas e, como um cidado comum, ir ao dentista de txi, abdicando daprerrogativa do carro oficial. Foi exatamente o que Getlio fez na manh de 14de novembro de 1930, apenas onze dias depois de tomar posse como chefe doGoverno Provisrio, ao visitar o odontlogo Bello R. Brando, cujo escritrioficava rua So Jos, nos altos do Caf Rio Branco, ponto de encontro bomio,frequentado por artistas e gente ligada ao futebol. Os habitus do estabelecimentoficaram surpresos com aquele novo dirigente da nao que caminhava de ternode linho branco e sapatos bicolores entre os comuns dos mortais, deixando atrsde si, como um rastro caracterstico, as baforadas do inseparvel charuto.44

    A respeito da sem-cerimnia de Getlio, uma saborosa marchinhapopular, de autoria do irreverente Lamartine Babo e lanada naquele janeiro de1931, sintetizava com perspiccia a imagem popular construda e desfrutada pelonovo governante brasileiro:

    S mesmo com a revoluo,Graas ao rdio e o parabelo,Ns vamos ter transformaoNeste Brasil verde e amarelo.

    G-e GeT-u tuL-i-o lio.Getlio!

    Certa menina do EncantadoCujo papai foi senadorAo ver o povo de encarnadoSem se pintar, mudou de cor.45

    Estava tudo l, na letra da marchinha que Almirante gravou

    acompanhado pela Orquestra Guanabara e o Bando dos Tangars: a luta armada,a habilidade de Getlio para lidar com os novos meios de comunicao, o apelo

  • nacionalista s cores da bandeira brasileira, a capacidade de atrair e aceitaradesistas de undcima hora. O refro irresistivelmente pegajoso, ao soletrar asletras de seu nome maneira infantil, conferia uma intimidade ldica e umaidentificao afetuosa entre o lder carismtico e o povo. O ttulo da msica,G-G, tambm referida no selo do disco como Seu Getlio, quebrava asolenidade do cargo, cunhava um apelido e o aproximava ainda mais dosmilhares de brasileiros que ouviam a cano pelas ondas do rdio.

    Por outro lado, Getlio governava com a Constituio suspensa, umtribunal revolucionrio arrolando dezenas de inimigos do novo regime, oJudicirio cerceado e o Congresso arbitrariamente fechado. A demonizao dapoltica e dos polticos profissionais seria uma das marcas mais fortes do GovernoProvisrio que logo se revelaria no to provisrio assim. A tese da morte dapoltica seria explorada exausto no s pelos discursos oficiais de Getlio,mas tambm na prpria imprensa, por meio de charges que faziam um humora favor, ao retratar essa mesma poltica sempre como uma velha coroca, comtraos de megera.

    Na revista satrica Careta, a imagem de uma bruxa dependurada naforca e em cujos trajes se lia a expresso poltica profissional falava por si.46Na edio seguinte, a mesma publicao traria na capa, em cores, a ilustraoda fachada do Congresso Nacional, onde se via afixada uma enorme placa dealuga-se. Pelas escadarias, o esteretipo do poltico, de fraque e cartola, mascom a roupa em frangalhos e o olhar macambzio, indicava o propalado declnioda classe. O Jeca, representao tradicional que a revista fazia do povo,aparecia em trajes revolucionrios e exclamava, apontando para a cena: Eis aRepblica dos meus sonhos!.47

    Por trs da animosidade pblica ao parlamento, inconsciente ou no, atentao totalitria est sempre espreita. Getlio soube explorar a atvicaindignao popular contra os congressistas e direcion-la em seu proveitopessoal. Ele prprio sendo um poltico de carreira ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-ministro da Justia, ex-governante do Rio Grande do Sul ,apresentava-se como algum que extirpara definitivamente a poltica da vidanacional, como se faz a um cncer, em nome da moralizao dos costumes e emprol da eficincia administrativa.

    Ao mesmo tempo, j nos primeiros decretos assinados como novodirigente da nao, Getlio estabeleceu a anistia aos exilados e presos polticosperseguidos pelos governos anteriores, alm de criar o Ministrio do Trabalho e oda Educao e Sade. Pela primeira vez no Brasil, um presidente reconhecia aquesto social, em vez de trat-la como mero caso de polcia. Ao implementaruma indita poltica trabalhista, Getlio estabelecia novas perspectivas em umpas que, apenas quatro dcadas antes perodo relativamente curto quandoencarado em uma perspectiva histrica , vivia sob o escndalo repugnante da

  • escravido. Se o trabalhismo inaugurado por ele tinha como objetivo reprimir osesforos de organizao independente do operariado urbano e submet-lo aocontrole do estado, s os prximos anos diriam.

    Mais instantnea foi sua conivncia com a represso da polcia doDistrito Federal Marcha da Fome, programada para 19 de janeiro de 1931,quando Italo Balbo ainda se encontrava em terras cariocas. A manifestao,anunciada em cartazes pregados pelos muros e postes do Rio, foi precedida deuma ao policial preventiva, que apreendeu boletins de propaganda e arrancouda cama, em plena madrugada, operrios e organizadores, para depois lev-los cadeia, onde foram postos em incomunicabilidade e ameaados de degredo nailha de Fernando de Noronha.

    A inteno nica e pr-estudada da manifestao consistia emperturbar a ordem, tanto assim que os cartazes eram impressos em letrasvermelhas, justificou a nota oficial da polcia distribuda imprensa.48

    Entre uma contradio e outra, Getlio iniciava ali a mais longa trajetriade um nico indivduo no comando da repblica brasileira. Ao todo, contados osdois perodos frente do poder, passaria dezoito anos e meio no Catete. S mortoo abandonaria, apontando contra o prprio peito o cano frio de um Colt calibre 32com cabo de madreprola. Tempo e gestos suficientes para fazer dele opersonagem mais importante, mais dramtico e mais controvertido da histriapoltica nacional.

    Ningum como Getlio despertou tanta paixo e tanto dio. Quasesessenta anos aps sua morte, seu fantasma e as representaes coletivas emtorno de sua figura ainda nos rondam, provocando contestaes, desafiandoexegetas, contrapondo analistas. Para muitos, ele deixou uma herana deinestimveis realizaes a servio da soberania do pas e em nome doengrandecimento de seu povo. Para outros, transmitiu um legado maldito, queatravanca o presente e retarda o avano da sociedade brasileira, conformeafirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao tomar posse da cadeirapresidencial, em 1o de janeiro de 1995. O sucessor de fhc, Luiz Incio Lula daSilva, pensaria de modo exatamente oposto. Lula, que jamais escondeu suaadmirao por Getlio, chegou a copiar-lhe uma imagem clssica, quando exibiupara os fotgrafos a mo tisnada de petrleo, do mesmo modo que o gachofizera em 1952, quando da campanha pela criao da Petrobras. Em setembrode 2010, o mesmo Lula assinou a lei 12 326, que oficialmente inscreveu o nomede Getlio Dornelles Vargas no Livro dos Heris da Ptria, que se encontra noPanteo da Liberdade e da Democracia, em Braslia.

    Bem antes de tudo isso, no longnquo 3 de dezembro de 1930,

  • exatamente um ms aps Getlio ter assumido no Rio de Janeiro a chefia doGoverno Provisrio, um senhor de bigodes muito brancos escreveu-lhe umacarta, diretamente de So Borja, interior do Rio Grande do Sul. Pela dificuldadede comunicao poca, a mensagem s encontrou o destinatrio em meadosde janeiro, quando ele j estava envolto na intrincada tarefa de escolher, entre osmuitos ulicos que o rodeavam, os homens que o acompanhariam ou no nogoverno. Havia, no meio destes, esquerdistas, direitistas, liberais, civis, militares,revolucionrios sinceros, descarados oportunistas.

    Presumo que sairs da velho, devido ao excessivo trabalhointelectual dia e noite. Olha, faz como o Marechal de Ferro [Floriano Peixoto]:confia em todos, desconfiando igualmente, dizia a tal carta.49

    A assinatura era de um general quase nonagenrio, de nome Manueldo Nascimento Vargas o pai de Getlio, eterno florianista, veterano da Guerrado Paraguai e de muitas outras batalhas travadas nas coxilhas gachas.

    Getlio, ao longo de toda a vida, jamais ousara desobedecer a umaordem paterna. No seria daquela vez que iria contrariar o velho general Vargas.

  • 1. A terra ali vermelha feito brasa.Dizem que por tanto sangue derramado nela (1865-96)

    No meio da tarde, ouviu-se o estrondo. O barulho vinha de dentro de

    casa. No parecia estampido de tiro, coisa comum numa terra em que asquestes eram resolvidas bala. Era como se algo bem pesado houvessedespencado com violncia e se espatifado ao cho. sombra do velhoumbuzeiro, cenrio habitual das confabulaes partidrias, o general Manuel doNascimento Vargas, ento com 51 anos, interrompeu a reunio e se apressou eminvestigar a origem do abalo.

    Naquela tarde do vero de 1896, ele convocara sede da fazenda Itu,localizada cerca de trinta quilmetros do centro de So Borja, um grupo deestancieiros locais para tomar chimarro e, como de costume, tratar de negciose de poltica pautas que, para o general Vargas, membro do PartidoRepublicano no municpio e proprietrio de largas faixas de terra ali na fronteiracom a Argentina, constituam, no fundo, o mesmo assunto. Aquele homembaixote, tronco volumoso, ombros largos, maxilar quadrado, vasto bigode, olhosnegros encimados por cerradas sobrancelhas, adentrou acelerado na sala dejantar, seguido de perto pelos demais membros da reunio interrompida.1

    O general deparou-se ento com a cena que o deixaria perplexo. Osolene quadro a leo que retratava o poderoso Jlio de Castilhos, presidente doRio Grande do Sul (o equivalente a governador, poca), lder dos republicanosde todo o estado, estava cado no piso da sala, a tela amarrotada, a molduraestilhaada. Ao lado do retrato, havia um enigmtico guarda-chuva aberto.

    Nem houve tempo para Manuel Vargas conjecturar uma explicaopara o caso, pois logo se ouviu o ganido na sala contgua: Bamo dispar, nhonh,sino nis entremo na madeira!.2

    Alm de constituir notria confisso de culpa, o grito tinha um autorevidente. A voz era a do pretinho Gonzaga, filho de ex-escravos, meninote quevivia por ali a dedilhar sempre o mesmo cavaquinho feito de lata velha, as cordasde crina de cavalo. Um diabinho, o preto Gonzaga, amigo mais chegado doterceiro dos ento quatro filhos do general Vargas, o franzino Getlio.

    Um era a sombra do outro. Gonzaga e Getlio viviam juntos, feito

  • siameses. Se o primeiro tinha responsabilidade no entrevero, o segundo estarianaturalmente envolvido, como alis atestavam as palavras de pnico do moleque.Era caso para distribuir bordoadas aos dois, sem nenhuma piedade, considerou ovelho Vargas. Afinal, destruir o quadro de Jlio de Castilhos, naquela casa,equivalia a um crime de lesa-ptria. No lar do republicano Manuel doNascimento Vargas, Jlio de Castilhos era considerado um mito, o heri que seteanos antes conspirara a favor da proclamao da Repblica brasileira e lutarapela derrocada do majoritrio Partido Liberal agremiao adversriachefiada pelo poderoso Gaspar Silveira Martins, que chegou a ser retratado emuma caricatura de poca ao p da qual se lia a proverbial legenda:

    Eu posso, eu quero, eu mando, eu chovo.3Mas, no incio da Repblica, quem ento mandava e fazia chover no

    Rio Grande do Sul era Jlio de Castilhos. Por isso, enquanto cuidava dedesaparecer do local do desastre, o pequeno Getlio, que a esse tempo ainda nochegara aos catorze anos nem altura do peito dos amigos de mesma idade,tinha conscincia de que estava bem encrencado. Tudo no passara de umacidente, podia alegar a seu favor. Conforme ele prprio recordaria dcadasmais tarde, ao admirar o guarda-chuva do pai, tentou experiment-lo, para seexibir aos olhos de Gonzaga. Porm, no percebeu que se plantara rente demais parede e, pior ainda, da pintura a leo to idolatrada pelo general Vargas. Deu-se a tragdia. As pontas das varetas abertas do guarda-chuva engancharam namoldura de madeira torneada e, ao tentar desvencilh-las, Getlio provocou aqueda do quadro, que saltou do prego e foi ao cho.

    O menino no se arriscaria a enfrentar o pai para gaguejar-lhe adevida explicao e o necessrio pedido de desculpas. Conhecia bem a naturezadas zangas paternas. Ao ouvir o som das botas do general que se aproximava, nohesitou. Seguiu a recomendao do pequeno comparsa e disparou dali. Pensouem se esquivar pela porta dos fundos da casa. Mas, por temer ser avistado pelame, denunciado pelos irmos mais velhos ou, quem sabe, delatado por algumcriado, decidiu escapar pela janela da sala ao lado, acompanhado de Gonzaga. Oprimeiro esconderijo que lhe ocorreu foi exatamente a copa do velho umbuzeiro.

    Os dois, Getlio e Gonzaga, galgaram troncos e galhos em segundos.Ali, suspensos a seis metros do cho, permaneceram ocultos entre a folhagem darvore sob a qual o general Vargas, minutos antes, conferenciava aos visitantes.L de cima, o menino Getlio ouviu o pai, colrico, ordenar a um peo dafazenda que procurasse pelos dois pirralhos e os trouxesse, de pronto, a suapresena. Iria aplicar-lhes a imediata lio.4

    Se o pai o ameaava com o relho, cumpriria a promessa. O general

  • Manuel Vargas era homem rgido, incapaz de quebrar uma jura. Desde amocidade, orgulhava-se da fama de audaz. Ningum ousava lhe pisar no poncho,como se dizia por ali, na fazenda Itu.

    Se o general Vargas disse que assim, ento porque , rendiam-seos prprios oponentes.5

    Aos vinte anos de idade, em 1865, aquele rio-grandense de PassoFundo largara o avental sobre o balco da loja de secos e molhados na qualtrabalhava e se alistou nas tropas brasileiras que seguiam para a guerra contra oParaguai.6 poca, atendendo convocao geral e compulsria, apresentara-se ao 28o Corpo Provisrio de Cavalaria da Guarda Nacional, sediado em SoBorja, ento um pequenino municpio de apenas onze ruas de terra vermelhacomo brasa, traadas margem direita do rio Uruguai, remanescente doprimeiro dos antigos Sete Povos das Misses, fundados pelos jesutas espanhisainda no sculo xvii.7 Quatro meses aps Manuel Vargas ter sentado praa, SoBorja, situada em zona de fronteira, foi invadida por uma coluna paraguaia de 12mil homens, que partira de Encarnacin, adentrara o territrio argentino e depoistomara o povoado de Santo Tom, localizado na margem exatamente oposta dorio Uruguai. Os so-borjenses jamais esqueceriam aqueles dias de horror.Advertida, a maior parte dos moradores conseguiu fugir antes do ataque,deixando tudo o que possua para trs.

    Os soldados inimigos atravessaram o rio com a ajuda de lanches e,comandado pelo coronel Antonio de La Cruz Estigarribia, pilharam So Borjadurante uma semana inteira. Alm dos litros de cachaa e das barricas defarinha e acar incorporadas ao farnel dos combatentes, os invasores seapoderaram de todas as mercadorias e objetos de valor que encontraram. O queno podia ser transportado a ttulo de butim foi reduzido a destroos. As casas doscomerciantes e dos estancieiros eram as mais visadas. Poltronas foram rasgadas faca. Mesas de mrmore, quebradas a marteladas. Pianos, despedaados commachadadas, e as teclas, espalhadas pelas ruas. Compoteiras, floreiras, xcaras ebules de delicada porcelana foram atirados com fora s paredes e ao cho.Colches e travesseiros, estripados a punhal, tiveram a l e a palha doenchimento misturadas a carcaas de gatos e cachorros.8

    Ao passo que a cidade missioneira rua, o 28o Corpo Provisrio, ondeestava engajado o jovem Manuel Vargas, permaneceu imvel nas barrancas dorio Uruguai, quarenta quilmetros ao norte de So Borja, acampado em territrioinsalubre. Os homens, alm do pavor da guerra, passaram a ser acossados pelotifo, doena que viria a provocar incontveis baixas antes mesmo do efetivoconfronto. Mandado em uma primeira misso de reconhecimento cidade,Manuel Vargas testemunhou o saque e o incndio de estncias situadas nosarredores de So Borja.

    Por saber ler e escrever, fato singular entre os alistados, Manuel foi

  • imediatamente promovido de soldado raso a cabo. Enviado ao combate, o caboVargas viveu seu batismo de fogo na sangrenta batalha do Butu, quando osbrasileiros investiram contra uma vanguarda adversria, que em inferioridadenumrica havia voltado o cano das armas para o solo, em sinal de rendio. Adespeito disso, foi trucidada.9

    O menino Getlio nascera e crescera ouvindo o pai falar dasperipcias e faanhas dos tempos da Guerra do Paraguai. Manuel Vargasparticipara de 21 combates e, ao longo do conflito, fora sucessivamentepromovido, sempre por bravura. De cabo a furriel. De furriel a sargento. Desargento a alferes. De alferes a tenente. De tenente a capito.10 Trouxera daguerra, alm dos gales de oficial superior, uma reluzente medalha de mritomilitar por herosmo espetada no peito e as cicatrizes de dois ferimentos lana,ambos sofridos na batalha de So Solano, pouco depois de ter participado damaior carnificina registrada em toda a histria do confronto, a Batalha do Tuiuti,ao fim da qual milhares de cadveres paraguaios foram incinerados, por falta decovas, em pilhas de cinquenta a cem corpos por vez. Alimentadas pela gordurados cadveres, as labaredas crepitavam e cresciam ainda mais, em umespetculo aterrador.11

    De acordo com o que ele prprio revelaria anos mais tarde, quandogaroto, em So Borja, Getlio sempre pedia que o pai contasse, pela milionsimavez, as mesmas histrias da guerra, cujos pormenores ele j bem conhecia:datas, horrios, vencedores e vencidos. Manuel Vargas atendia aos pedidos dofilho com notrio orgulho.12 Como era de supor, as narrativas da campanhacontra o Paraguai vinham sublinhadas por um autoproclamado esprito guerreiro.Mas, entre as batalhas de que o pai de Getlio tomara parte, estava a operaodesfechada em Cerro Cor, na fronteira paraguaia com Mato Grosso, na qual oexrcito inimigo, por ausncia de novos braos para repor os milhares desoldados perdidos na frente de batalha, se resumira a um punhado de meninos ejovens imberbes, todos esquelticos e famintos, que mal podiam com o peso doprprio fuzil. Na refrega, o ditador paraguaio Solano Lpez foi alvejado e, depoisde morto, teve os dentes quebrados a coronhadas, um dedo da mo cortado eparte do couro cabeludo arrancado para servir de trofu.13

    Nas brincadeiras de criana, o pequeno Getlio tentava reproduzir aspelejas vividas pelo velho Manuel Vargas, manobrando um exrcito emminiatura. No lugar dos tradicionais soldadinhos de chumbo, brincava com osossos dos bois abatidos na fazenda. Nessas lutas de faz de conta, a patente doscombatentes era determinada por Getlio com base na dimenso e largura dosossos. Os menores eram simples recrutas. Os maiores e mais robustos, altivosgenerais.14 De modo idntico, na fantasia do garoto extasiado pelas narrativasblicas do pai, at mesmo empinar papagaios de papel na rua e cortar a linha doadversrio com cerol se transfiguravam em dramtica interveno de guerra.15

  • Quando no estava comandando soldadinhos de osso ou participandodas batalhas de pandorgas (como so chamadas as pipas no Rio Grande do Sul),Getlio gostava de construir armadilhas para capturar animais silvestres,abundantes nas verdes coxilhas da fronteira.16 Tambm se dedicava, verdade,a recreios menos marciais. Chegou a administrar uma fazendinha no fundo doquintal, onde as reses eram pacatos bichinhos-da-seda.17 Entretanto, como sefazia obrigatrio a todos os filhos de Manuel Vargas, desde muito cedo aprendeua montar um cavalo de verdade, a atirar o lao e a marcar as cabeas de gadoda fazenda com o ferro em brasa, na ponta do qual se liam as flamejantesiniciais do pai.18

    Como bom filho de estancieiro, tambm aprendeu, ainda menino, acarnear um boi. Primeiro era preciso laar o animal pelos chifres e perfurar-lhea cartida com um golpe profundo no peito provocando o espesso eincontrolvel jorro de sangue. Depois pendur-lo de ponta-cabea, suspendendo-o pelas patas traseiras, degolando-o a faco. Em seguida, abrir a barriga do bichocom um talho de cima a baixo, para retirar as vsceras sangrentas, ainda mornas.Por fim, esquartejar a rs e separar a carne da carcaa, enquanto era aceso obraseiro para o tradicional churrasco gacho.

    Para o rio-grandense, a carneao sempre foi um rito no qual anecessidade, a morte e a festa andam juntas. O bero missioneiro tratou deiniciar o menino Getlio nesta implacvel sentena dos pampas: o homemprecisa matar com as prprias mos, fazer jorrar o sangue de outras vidas paragarantir a sobrevivncia dos seus. O escritor e poltico gacho Pedro Vergararesumiria tudo em uma judiciosa sentena: No se pode comer sem matar; issofoi autorizado aos homens por uma divindade que se comprazia do cheiro dacarne assada.19

    Naquela tarde, ainda escondido em cima do umbuzeiro ao lado deGonzaga, Getlio ouviu a me relativizar o estrago do qual ele era o principalresponsvel:

    Este quadro estava to velho que j devamos t-lo enviado para oretocarem na cidade, observou dona Candoca.20

    Era sempre assim. Se nutria assumida admirao pela virilidadeguerreira de Manuel Vargas, o menino Getlio encontrava refgio certo no coloda me, a sra. Cndida Dornelles Vargas, a dona Candoca. Era ela quemcontemporizava com o marido sempre que qualquer um dos filhos exagerava nastravessuras, fato que no era difcil de ocorrer numa famlia em que todos osrebentos do casal eram meninos, criados na liberdade da estncia, no convviocom pees rsticos, cavalos e touros bravios. Apesar do nome, dona Cndida,

  • segundo relata a tradio familiar, era mulher de opinio. Em um episdiorepetido gerao aps gerao, narrado sempre em meio a inevitveis sorrisospor parte dos Vargas, conta-se que certa vez Candoca mandara comprar umpeixe, que ela mesma identificou como sendo um pati, espcie de pescado bemcomum nos rios da regio. O marido, contudo, afirmou que aquilo se tratava deum surubi, tambm facilmente encontrvel nas guas do caudaloso Uruguai. Adiscusso caminhou por ali, sem que os dois chegassem mnima probabilidadede acordo. Ela dizia que era pati. Ele garantia que era um surubi. Ficaram nisso,trocando resmungos durante horas, at a mulher desfechar o desconcertanteveredicto, dando o assunto por encerrado:

    Pois ento, Manuel, isso um pati com cabea de surubi.21O resoluto Manuel Vargas e a geniosa Cndida Dornelles haviam se

    conhecido bem no incio da Guerra do Paraguai, quando a tropa na qualmarchava o ento cabo Vargas arranchara na Fazenda Santos Reis, propriedadedo major de milcias Serafim Dornelles. Ao fim da guerra, o j capito Vargasretornou ao local, dessa vez pretextando uma visita de cortesia ao major, um dosmaiores e mais prsperos estancieiros da regio. Na realidade, planejara aocasio para pedir-lhe a filha Candoca em casamento. Na condio de candidatoa genro, informou que havia economizado parte do soldo e passara a negociarerva-mate, a matria-prima do chimarro e uma das fontes bsicas da economialocal. Havia comprado tambm algumas cabeas de gado, arrendara campos einiciara a construo de um razovel patrimnio.22 No inadmissvel supor quea origem dessa relativa abastana de Manuel fosse decorrente, pelo menos emparte, dos despojos de guerra, uma vez que fazia parte da rotina dos soldados ochamado carcheio gauchismo para definir a apropriao do esplio dosvencidos , alm de estar ento em pleno vigor a prtica oficial de se concedersesmarias aos combatentes, a ttulo de servios prestados.23

    provvel que, alm do generoso p-de-meia, o peso e o brilho damedalha de mrito militar que Manuel Vargas conquistara nos campos debatalha lhe serviram de credencial aos olhos do futuro sogro. No Rio Grande doSul, estado historicamente s voltas com guerras e revolues, o uso da fardapassara a significar um indicador de autoridade e prestgio social, umaverdadeira mstica, ao ponto de o uniforme ser ento considerado, mais do queuma vocao, uma segunda pele, como se dizia, para os rio-grandenses. Essamitologia instituda em torno da presumida bravura, da fora e do espritoguerreiro do povo local fazia parte, na realidade, de um processo gradativo deidealizao dos antigos e verdadeiros gachos, bandoleiros indomveis queperambulavam pela fronteira, muitas vezes ganhando a vida como ladres degado e de cavalos. A palavra gacho, inicialmente, significava o mesmo quebandido ou facnora. A partir de sua apropriao romntica, tornou-semotivo de orgulho e distino, a ponto de passar a ser adotada como gentlico

  • pelos rio-grandenses.24Por um ou outro motivo, o major deu integral consentimento unio.

    Assim, Manuel Vargas e Cndida Dornelles casaram-se em 16 de janeiro de1872 e se fixaram em So Borja, passando a dividir a vida entre a sede daFazenda Triunfo, a primeira das propriedades compradas por Manuel, e umacasa localizada no centro da cidade, bem defronte praa principal, ondemantinha um escritrio para seus negcios comerciais. Um ano depois,comeariam a surgir os filhos. Jovita, a nica menina gerada pelo casal, novingou. Morreu ainda beb. Com isso, o menino Viriato, nascido em 1874, era oprimognito de fato e de direito da famlia Dornelles Vargas e, tudo indicava, oherdeiro destinado a ocupar o papel de sucessor natural do pai. Quando crescesseum pouco mais, hora do almoo e do jantar, Viriato teria o direito de ocupar acabeceira oposta quela em que sentava Manuel Vargas. 25 Dona Candoca, porser mulher, ficava direita do marido. Coube a Protsio, de 1876, o posto desegundo irmo e a prerrogativa de sentar imediatamente ao lado da me.Somente seis anos depois nasceu o terceiro rebento, Getlio.

    um menininho, para voc carregar, Viriato, avisaram ao irmomais velho.26

    Desde os primeiros minutos aps o parto, percebeu-se que era umacriana frgil. Os prprios pais chegaram a imaginar que o pequeno Getliopoderia vir a repetir a sina da infeliz Jovita.

    meio magro, mas tem bons pulmes, teria se consolado ManuelVargas ao contemplar o primeiro choro daquele menino de pernas curtas iguaiss suas, nascido em 19 de abril de 1882, na sede da Fazenda Triunfo.27

    Durante toda a infncia, o magricela Getlio padeceu de sadeprecria. Quase morreu envenenado aos dois anos de idade, quando j ganharamais um irmo, Esprtaco. Um descuido dos pais fez com que despejassegarganta abaixo alguns goles de querosene. Sobreviveu, mas daria novo susto famlia aos sete anos, quando caiu de cama, assolado por acessos incontrolveisde febre.28

    Mais uma vez Getlio resistiu. Porm, cresceu uma criana calada,dada a longos silncios, trancafiado em seu prprio mundo, ao qual poucostinham acesso. Preferia ouvir a falar. Quando provocado, respondia de formaevasiva, quase arisca. Ao recordarem dele, os amigos de infncia apelariampara uma imagem tipicamente gauchesca. O menino Getlio, contavam, erauma espcie de bagual caborteiro o que no vocabulrio dos pampassignifica o potro difcil de domar. Um arredio.29

    Aos sete anos, o esquivo Getlio assistira s contingncias da poltica

  • invadirem-lhe a porta de casa e se instalarem no seio familiar. s vsperas daquartelada que resultou na proclamao da Repblica, em 1889, os Vargas e osDornelles se viram situados em campos polticos radicalmente opostos. O pai deGetlio se declarou republicano convicto. Os irmos de dona Candoca, aocontrrio, como a maioria, permaneceram fiis aos liberais comandados porGaspar Silveira Martins, o homem que mandava e fazia chover no Rio Grandedo Sul naquelas ltimas dcadas do Imprio.30

    Os dois cls, Vargas e Dornelles, esqueceram a origem em comum.Ambos eram provenientes de troncos familiares que remetiam aos casaisaorianos que, no sculo xviii, haviam desembarcado no Brasil com a iluso deencontrar aqui a Terra Prometida. 31 Seus antepassados vieram em naviossuperlotados, obrigados a suportar mais de dois meses numa travessia marcadapela escassez de gua e alimentos. Muitos foram atirados ao mar, depois demorrerem vitimados por doenas provocadas pela desnutrio e pela falta dehigiene a bordo. Ao desembarcarem, em vez das benesses anunciadas,descobriram-se abandonados.

    Sem a apregoada ajuda governamental, uns vagaram ao lu, outrosaos poucos comearam a se aclimatar ao novo pas e, com isso, deram incio ancleos de povoamento que seriam a origem de vrias das futuras cidadesgachas, inclusive a capital Porto Alegre. Cinco ou seis geraes depois, com aocupao gradativa de territrios e a luta contnua pela posse de terras, alguns dosdescendentes dos pioneiros aorianos haviam se firmado como estancieiros nointerior da provncia.32 Era o caso dos Vargas e dos Dornelles, irmanados pelalinhagem, mas tornados arquirrivais pelas circunstncias da poltica partidria.

    Como atestado de que era um antimonarquista histrico, o pai deGetlio evocava um episdio ocorrido ainda nos tempos da Guerra do Paraguai,quando num gesto de promoo poltica o imperador d. Pedro ii decidiu vistoriaro front, o que levou o monarca at a cidade de Uruguaiana, onde os paraguaiosestavam submetidos ao cerco das tropas da Trplice Aliana. Na ocasio, ooficial Manuel Vargas tivera a oportunidade de conhecer o imperador de pertomas, segundo ele prprio afirmaria depois ao filho Getlio e mais tarde aosnetos , recusara a honraria:

    Eu no ia beijar a mo de um homem de falinha de mulher, barba demilho, mozinha delicada. Eu no fui falar com ele no, gabava-se o bigodudoManuel Vargas.33

    Seja isso fato ou folclore familiar, o certo que o pai de Getliocolaborou em uma das aes tticas mais significativas da pregao republicana:o abolicionismo. Antes da decretao da Lei urea, em consonncia com aorientao emitida pelo congresso de 1884 do Partido Republicano do Rio Grandedo Sul (prr),34 Manuel Vargas concedeu a carta de alforria a todos os escravosda estncia35 muito embora, na zona de fronteira onde estava localizada a

  • Fazenda Triunfo, o trabalho dos cativos nunca tenha representado uma presenarealmente ativa na economia rural, ao contrrio do que acontecia nas regies rio-grandenses dedicadas produo de outro produto bsico da economia regional,o charque.36

    Do mesmo modo, Manuel Vargas apoiou, desde a primeira hora, onome do chefe do prr, Jlio de Castilhos, para o comando poltico do estado. Noera toa que Manuel mantinha o retrato do lder na parede principal da sala dejantar da fazenda. Castilhos, nascido em Cruz Alta, zona das serras gachas,bacharel pela Faculdade de Direito de So Paulo, havia sido o principal redatordo jornal A Federao, combativo rgo da propaganda republicana local nachamada fase heroica do movimento. Gago, baixinho, atormentado pelascicatrizes da varola que lhe havia devastado o rosto na infncia, Castilhos era umorador medocre, mas um demnio diante de uma folha de papel em branco.Seus artigos, carregados de ironia e furor, fustigavam adversrios e arrebatavamleitores.37 Entre estes ltimos, inclua-se Manuel Vargas, assinante compulsriode A Federao, o alcoro partidrio, como o jornal viria a ser definido,38 ecujos exemplares chegavam Fazenda Triunfo sempre atrasados, emcompanhia da correspondncia trazida na mala semanal dos correios de PortoAlegre at So Borja, distantes quase 600 quilmetros uma da outra.39

    No se tem registro, contudo, de que Manuel Vargas fosse dado aleituras mais densas ou que fosse um esmerado discpulo de Auguste Comte,como se dizia Jlio de Castilhos, que em seus escritos pregava a tese de que asociedade precisava ser regida pelas mesmas leis e mtodos da matemtica e dabiologia. Defendia, por isso mesmo, a necessidade de uma ditadura cientfica,na qual o poder deveria decorrer do saber e no do voto. Inspirado nopositivismo, Castilhos advogava a instalao de um governo forte, um Executivohipertrofiado, que se autoinvestisse da tarefa suprema de modernizar asociedade, regenerar o Estado e educar os cidados para a vida em comum. evidente que muitos lderes polticos rio-grandenses se utilizaram de tal doutrinacomo mera fachada ideolgica para legitimar o autoritarismo que oscaracterizava.40 O menino Getlio cresceu numa casa em que o sistemaparlamentar defendido pelos liberais, para usar o trocadilho atribudo ao entodeputado castilhista Germano Hasslocher, era tido como um sistema pralamentar.41

    Quando veio a Repblica, Manuel Vargas permaneceu na sede domunicpio com o filho mais velho, Viriato, para acompanhar os desdobramentosda questo:

    Tudo calmo, informou em carta esposa Candoca, que ficara naestncia. Ao lado das notcias polticas, Manuel reservou o fim de um pargrafopara indagar sobre os filhos mais novos. Regozijo indescritvel nos republicanos,mesmo entre aqueles que no aderiram, receando perseguio. Protsio vai

  • bem? Como vai Getlio?42Depois de uma srie de instabilidades polticas e de articulaes de

    bastidores, Castilhos e seu minoritrio prr assumiram oficialmente o governo doRio Grande do Sul em julho de 1891, sob as graas do primeiro presidente dahistria do pas, o marechal Deodoro da Fonseca. Logo tratou de pr seu iderioem ao, lastreado por uma Constituio estadual que ele, Castilhos, havia escritopraticamente sozinho e que foi aprovada, por unanimidade, em uma assembleiaconstituinte dcil e que se reuniu por apenas duas semanas.43 Pela Constituiocastilhista, o Legislativo funcionava por minguados dois meses a cada ano e tinhaa competncia limitada aprovao do oramento, cabendo ao Executivoestadual a prerrogativa de governar por decreto. Em nome da continuidadeadministrativa, o presidente do estado podia se reeleger quantas vezes fosse deseu desejo, desde que obtivesse trs quartos da votao total44 o que no eradifcil de se conseguir com a presso do voto a descoberto, em reforo s normasde conduta dos positivistas, que preconizavam a necessidade de os cidadosviverem s claras, em oposio ao princpio do sufrgio secreto.45

    No positivismo seletivo de Jlio de Castilhos, a plena liberdade deexpresso, defendida por Comte e tambm prevista na Constituio estadual rio-grandense, foi solenemente ignorada. A imprensa oposicionista era alvo deconstantes perseguies, sendo frequente o empastelamento de jornaisadversrios ao governo.46 Na retrica instaurada por Castilhos, repisada todo dianas pginas oficiais de A Federao, o campo da poltica era descrito como umcharco lodoso, onde apenas chafurdavam as ambies e veleidades pessoais.Assim, o discurso da austeridade e da excelncia moral embalava uma doutrinapartidria que tinha na eficincia tcnica e na eficcia administrativa a sua pedrade toque. Qualquer questionamento administrao pblica ou mesmo a maisleve crtica ausncia da representao parlamentar eram considerados portantoum retrocesso, ou seja, um retorno ao pntano mesquinho da poltica.47

    Uma das primeiras medidas econmico-administrativas adotadaspelos republicanos desagradou em cheio aos adversrios. Decretou-se o fim daantiga tarifa especial, instituda ainda em 1878, quando o ento todo-poderosoGaspar Silveira Martins ocupava o cargo de ministro da Fazenda no Imprio. Pormeio do velho benefcio, a fronteira do Rio Grande do Sul se tornara uma espciede zona de livre-comrcio com o Uruguai o que favorecera a elite pecuria eos negociantes tradicionais da regio, em sua maioria leais a Gaspar Martins, emoposio s novas classes mercantis e financeiras do litoral, que viriam a ser umadas bases polticas de Castilhos. Alm de extinguir a regalia alfandegria dosinimigos, os republicanos puseram em prtica uma poltica de represso aocontrabando na fronteira, o que novamente afrontou os gasparistas, defensores daampla liberalizao do comrcio com os pases do Prata.48

    ao, seguiu-se a correspondente reao. Em novembro de 1891,

  • Castilhos foi apeado do poder local em consequncia da queda do marechalDeodoro no plano federal. Os antigos liberais, reunidos a republicanos dissidentescontrrios liderana autocrtica de Castilhos, trataram de ir forra, coligadossob a denominao comum de federalistas.49 Em So Borja, o que antes eramera desavena poltica entre os Vargas e os Dornelles virou dio mtuo.Acuado, Manuel Vargas teve que fugir da cidade para no ser preso oumesmo morto pelos encarregados de instituir a nova ordem. Em segredo,cruzou a fronteira e exilou-se em Corrientes, provncia argentina.50

    Getlio contava ento nove anos de idade, e os temores do pai noeram gratuitos. Relatos de poca do conta de pelo menos dois assassinatoscometidos por motivao poltica, nesse momento, em So Borja. O republicanoJoo Pereira de Escobar, tenente-coronel da Guarda Nacional, foi mortosupostamente aps resistir voz de priso. Recebeu dois tiros, um atrs da orelhae outro na coxa, alm de um golpe de lana altura do umbigo. Outrorepublicano notrio, o tambm tenente-coronel Marciano Loureiro, mereceuidntico tratamento, com seu cadver lanceado diante da prpria famlia. Muitosrepublicanos tiveram as casas arrombadas e invadidas sob o pretexto da busca dearmas. Dinarte Dornelles, irmo de dona Candoca, ordenava as operaes.51

    Mas a retirada de Manuel Vargas fora apenas uma manobra ttica. NaArgentina, o pai de Getlio prontamente aderiu conspirao para reconduzirJlio de Castilhos ao poder. Em reunio secreta na cidade de Monte Caseros, daqual participou, estabeleceu-se o plano. Os fiis ao castilhismo reuniriam homenspara invadir o Rio Grande do Sul por So Borja, em uma ao conjugada com oscorreligionrios da capital, que providenciariam a insurreio simultnea emPorto Alegre. Naquela reunio histrica, alm do pai de Getlio, estiverampresentes outros nomes que dominariam o cenrio poltico regional nos anosseguintes, incluindo o senador Jos Gomes Pinheiro Machado, que viria a setornar um dos tutores da chamada Primeira Repblica. O plano dos conjuradosdeu certo, com a conivncia do novo chefe de governo, o marechal FlorianoPeixoto, que pretendia neutralizar os partidrios do velho Silveira Martins, que,alm de parlamentaristas, eram acusados de serem monarquistas saudosos.52

    Quando o menino Getlio viu o pai Manuel Vargas retornar vitorioso aSo Borja, havia chegado o momento da retaliao. Novamente donos dasituao, os republicanos demitiram os federalistas de todos os cargos pblicos edos comandos municipais. No ficaram nisso. Reproduziram, com sinalcontrrio, as mesmas perseguies das quais tinham sido vtimas pouco antes.Sobretudo no interior do estado, estabeleceu-se a barbrie.

    O inteiro desagravo da Repblica ultrajada requer que ultrapassadosmesmo certos limites, com as devidas cautelas e discries, sofram pelaeliminao o justo castigo que merecem odientos caudilhos, orientou Castilhos,em ofcio classificado de muito reservado, aos aliados do interior do estado.53

  • No poupe adversrios, castigue nas pessoas e bens, respeitando famlias. Vivaa Repblica!, explicitou.54

    Em So Borja, havia notcias de federalistas arrancados de casa fora e levados cadeia sem ordem judicial, depois de aoitados em pblico.Outros, de menos sorte, eram assassinados com a justificativa de praxe:resistncia priso. Empregados e agregados de Dinarte Dornelles, o irmo deCandoca, foram igualmente mortos.55

    Em todo o estado, institucionalizou-se a degola poltica. No se tratavade uma simples metfora. Era literal. A vtima era obrigada a ajoelhar-se demos atadas e, pelas costas, o inimigo montava-lhe os ombros. Com a moesquerda, o degolador puxava-lhe o cabelo para trs. Com a direita, em um golperpido de faco, rasgava-lhe a garganta de uma ponta a outra, como numa rspor ocasio do abate. Uma variante consistia em deitar a vtima com as costaspara o cho, sentar-lhe sobre as pernas e levantar-lhe o queixo com a sola dabota, para que o pescoo ento ficasse merc do corte, de orelha a orelha.56

    Enviado por Floriano Peixoto como observador oficial da presidnciaao Rio Grande do Sul, o general de brigada Joo Baptista da Silva Telles, veteranoda Guerra do Paraguai, expediu telegrama no qual confirmava as denncias: V.Excia. no faz ideia dos horrores que se tm praticado; os assassinatos so emnmero elevado, pois por toda parte se degolam homens, mulheres e crianas,como se fossem cordeiros.57

    Como resposta represso exercida pelos republicanos, os decadosfederalistas planejaram a volta ao poder e, a partir da fronteira uruguaia,deflagraram aquela que carregaria a chaga de ser a maior e mais sanguinolentade todas as guerras civis da histria brasileira. As degolas sumrias deadversrios passaram a ser adotadas como prtica comum tanto por um quantopelo outro lado. Sangravam o inimigo e, sobretudo nos casos de acusaes deestupro, cortavam-lhe a faco os rgos genitais, que depois eram inseridos naboca da vtima, como forma suprema de humilhao.58

    Naquele cenrio em que as elites rio-grandenses se digladiavamferozmente, o menino Getlio viu o pai e o tio Dinarte Dornelles se baterem emposies antagnicas. De um lado, Manuel Vargas retirou da parede da sala avelha espada dos tempos da Guerra do Paraguai, transformou a Fazenda Triunfoem campo de recrutamento e comandou uma das brigadas da clebre Diviso doNorte, lutando pelos republicanos, junto ao senador Pinheiro Machado. Dinarte,em contrapartida, chefiou uma das colunas federalistas arregimentadas em SoBorja, tendo participado de encarniadas aes revolucionrias. Um era pica-pau, como foram apelidados os republicanos, por causa das listras brancas e doquepe vermelho que traziam no uniforme, embora sua marca fosse realmente oleno branco amarrado ao pescoo, smbolo da legalidade. O outro eramaragato, alcunha pejorativa infligida aos federalistas pelo fato de muitos dos

  • que se engajaram no movimento serem uruguaios, provenientes da provnciaespanhola de Maragatera. O termo acabou sendo assumido pelos federalistas,que adotaram o leno vermelho no pescoo como insgnia rebelde.59

    Dividida entre a fidelidade devida ao marido pica-pau e a afeiofraternal ao mano maragato, dona Candoca chegou a esconder em casa outroirmo, Modesto Dornelles, sem que Manuel Vargas desconfiasse que havia umfederalista de leno vermelho abrigado em seus domnios na Fazenda Triunfo, deonde os revolucionrios haviam confiscado centenas de cabeas de gado.60

    Pelas ruas de So Borja, a meninada se sentia estimulada a repetirentre si o furor demonstrado pelos pais nos campos de combate. Divididos emgrupos rivais, dezenas de maragatos e pica-paus de calas curtas muniam-se depaus, pedras ou canivetes e partiam para a briga, o que invariavelmente resultavaem ferimentos graves para os dois lados. Em um desses duelos, o retrado Getliosurpreendeu a todos ao aparecer um dia frente dos pica-paus mirins, montado acavalo, levantando poeira e armado de cacete, distribuindo bordoadas entre ospequenos maragatos, que fugiram assustados. Quando o pai, Manuel Vargas,soube do ocorrido, passou-lhe uma descompostura e ordenou ao filho que nuncamais repetisse o gesto. Guerra era coisa de homem, no uma brincadeira decriana.61

    A guerra civil de verdade, a chamada Revoluo Federalista,prolongou-se de 1893 at 1895, aprofundando a ciznia entre os Vargas e osDornelles e resultando em mais de 10 mil mortos em combate, o equivalenteento a um tero de toda a populao masculina da capital Porto Alegre.62 Avitria coube aos republicanos, com Jlio de Castilhos fortalecido frente dogoverno rio-grandense, apoiado por Floriano Peixoto, mas tambm amparadopor uma brigada militar estadual constituda para reprimir os adversrios e poruma extensa teia de apoios polticos no interior do estado, onde pontificavam oschefes municipais que lhe juraram lealdade. Pela participao na represso aomovimento, Manuel Vargas recebeu a patente honorria de general, por decretoassinado pelo prprio presidente da Repblica. A partir da, ele era o generalVargas, o homem que havia comandado a vanguarda da batalha que terminaracom a morte de um dos principais lderes maragatos, Gumercindo Saraiva, cujacabea, conta-se, teria sido cortada e enviada numa caixa de papelo a PortoAlegre, para Jlio de Castilhos, como suvenir de guerra.63

    Quando o peo voltou da busca, avisou ao general que no encontrararastro de Getlio e Gonzaga. No fim da tarde, os dois continuavamdesaparecidos. Manuel Vargas ordenou ento uma varredura pelos matos quecontornavam a fazenda. Cerca de trinta pessoas foram designadas para a tarefa.

  • Mesmo assim, ningum localizou os meninos. O pai no se importou. Acreditavaque, hora do jantar, derrotados pela fome, eles voltariam acabrunhados,prontos para receber a prometida surra. Para surpresa de Manuel Vargas, noapareceram. Por volta da meia-noite, ainda foi feita nova procura, com a ajudade lampies que esquadrinharam a estncia. Nada.

    O general mostrou-se realmente preocupado quando uma lavadeiraque servia famlia jurou ter visto, pouco mais cedo, os dois garotos desceremem disparada na direo da lagoa que ficava por trs do matagal. Dona Candoca,assombrada, imaginou o pior. Talvez o mirrado Getlio, que no sabia nadarmuito bem, tivesse sido tragado pelas guas e se afogado. Uma tragdia familiar,alarmou-se a me. Sondaram-se ento as margens escuras da lagoa, mastambm no se obteve nenhuma pista.

    Enquanto a famlia se desesperava, Getlio e Gonzaga continuavamem cima do umbuzeiro. A essa altura, ambos estavam com o corpo torturadopela incmoda posio que tiveram de adotar para se equilibrar, durante horas,no alto do esconderijo. Para se distrair, Getlio puxara do bolso um pequenoalmanaque e, enquanto o sol forneceu luz suficiente, conseguiu tapear o tempo.Mais difcil, entretanto, foi quando a noite chegou.

    Manuel Vargas e dona Candoca passaram a madrugada emsobressalto. Quando o dia amanheceu, ainda no havia notcia do filho. Durante anoite, tiritando de frio e de medo, Gonzaga havia proposto que descessem de umavez por todas dali e entregassem o lombo s chavascadas do general. Talvezimaginasse que a surra que iriam levar seria, quem sabe, menos torturante doque aquela provao a que estavam submetidos desde o meio da tarde. Getliofoi contra. Objetou que s podiam capitular depois que estivessem a salvo dorisco de levarem uma boa sova. fato que a raiva do pai j se transformara empreocupao, mas essa mesma preocupao precisava se converter emverdadeira aflio.

    Apenas na manh j alta, quando percebeu a me aparecer varandacom os olhos inchados, Getlio decidiu que havia chegado a hora da rendio.Desceu do umbuzeiro e correu ao encontro de dona Candoca, que o recebeu comum abrao, enxugando o rosto. O alvio por ver o filho inclume amoleceutambm as iras do general, que o dispensou do castigo.

    Dcadas mais tarde, ao evocar a lembrana idealizada daquelelongnquo episdio de infncia, Getlio dizia ter conseguido extrair dele umensinamento que, segundo afirmava, guardou para sempre. Tal lio podia serresumida em uma sentena pretensamente infalvel: quando a circunstncia nose mostrar garantida, o melhor a fazer esperar, resistir, transformar o tempoem aliado. Jamais descer do umbuzeiro antes da hora.64

  • 2. No tiroteio, um jovem tomba morto.Seria Getlio, aos quinze anos, o assassino? (1896-8)

    Para a polcia, a principal questo era saber quem disparara o

    primeiro tiro, aquele que iniciara a tragdia. Dcadas mais tarde, os inimigospolticos de Getlio no teriam nenhuma dvida. Diriam ter sido ele o autor docrime, ocorrido na distante tera-feira de 7 de junho de 1897, em Ouro Preto,ento capital de Minas Gerais. Aos quinze anos, segundo a verso dos futurosacusadores, Getlio se revelara um delinquente juvenil, um assassino precoce.

    O lusco-fusco tpico do anoitecer ajudara a conferir ainda maissombras a uma histria j nebulosa. Os lampies da iluminao pblica noestavam de todo acesos e o sol j comeava a desaparecer por trs dasmontanhas quando os dois grupos de estudantes rivais se esbarraram na sinuosarua So Jos, prxima ao centro de Ouro Preto cidade reconhecida, a essetempo, no s pela riqueza histrica de sua arquitetura, mas pelosestabelecimentos de ensino que atraam jovens de todo o pas e faziam dela apretensa Atenas mineira. De um lado, a passo acelerado diante da fachada doscasares coloniais, descendo o calamento de paraleleppedos a caminho dolargo do Rosrio, ia o grupo de rapazes rio-grandenses. No sentido oposto, subindoa caminho do teatro municipal, seguiam os moos paulistas.1

    A polcia apostou na tese da premeditao. Tratara-se de umadesforra, opinou o delegado ao assinar o relatrio do inqurito policial de duzentaspginas posteriormente enviado Justia.2 Dois dias antes do episdio, em 5 dejunho de 1897, um domingo, Viriato Vargas, o irmo mais velho de Getlio,trocara sopapos com um estudante paulista, Carlos de Almeida Prado, o Cato,recm-chegado cidade para cursar a Faculdade de Direito de Ouro Preto.Presunosos por trs dos respectivos bigodes juvenis, Viriato e Cato cultivavam aimagem de valentes entre os colegas. O motivo daquela primeira briga foraftil. Uma arenga corriqueira de estudantes descambara para a violncia.Viriato, 23 anos, aluno da Faculdade de Farmcia em Ouro Preto, no gostara dever Cato, de apenas dezenove anos, assobiando, desdenhoso, bem porta do cafe bilhar High Life, frequentado pela comunidade estudantil.

    Assobiar na rua coisa de moleque!, censurou o empertigado

  • Viriato.O jovem paulista revidou com novo assobio. Seguiu-se um dilogo

    rpido, com desaforos de parte a parte:Voc diz isso porque no sabe com quem est falando, pavoneou-se

    Cato.Sei. Estou falando com um moleque!, insistiu Viriato.Ora, v puta que o pariu, rebateu Cato.3Viriato enfureceu-se. Ningum iria ofender daquele modo o nome e a

    honra de sua me, dona Candoca, e permanecer impune. Lanou-se ento sobreo oponente, brandindo o rabo de tatu, o chicote de couro tranado, que sempretrazia dependurado, pela argola, no antebrao direito. Carlos de Almeida Pradono se intimidou. No era homem de correr de briga, testemunhariam os amigoscom quem dividia o quarto no Hotel Martinelli, transformado em repblica deestudantes paulistas em Ouro Preto. Cato devolveu as chicotadas de Viriato comuma srie de golpes desferidos com o casto da bengala que carregava consigo.Enquanto os dois estudantes duelavam, os demais faziam apostas, entreprovocaes, gritos e gracejos, para ver quem sairia vencedor do embate.

    Aps minutos de peleja e algazarra, Cato levou a melhor. DeixouViriato estendido no cho, cuspindo sangue, a cabea lacerada pelas bengaladas.Outro rio-grandense, Balthazar do Bem, que sara em defesa do amigo, tambmlevara sua cota de hematomas na pancadaria. Enquanto os paulistas davam vivasao colega vitorioso, o derrotado Viriato jurou vingana, mastigando palavras dedio entre grunhidos. Ainda iria ensinar a Cato como se aparam os cornos de umtouro bravo. Daria o troco. Para patentear a todos que tinha mesmo inteno dehonrar a promessa, Viriato passara a andar armado. S saa de casa prevenido,com faco e revlver cinta.4

    Segundo a polcia, naquele comecinho de noite de tera-feira, na ruaSo Jos, um Viriato de cabea enfaixada encontrara a oportunidade perfeitapara a revanche. Alguns populares, intimados mais tarde a prestar declaraesna delegacia de Ouro Preto, disseram ter visto os dois grupos de estudantescaminhando um em direo ao outro poucos instantes antes do conflito. Mas,como era junho, o sapateiro Francisco Querelle, dono de uma oficina decalados ali perto, julgou que os primeiros disparos no passassem de inocentesbombinhas de so-joo. A mesma impresso teve o dr. Diogo de Vasconcelos,ex-deputado e historiador mineiro, que passeava pela rua So Jos naquelemomento, em companhia do filho. Contudo, quando ambos perceberam otumulto, seguido de corre-corre, no tiveram mais dvidas. Era tiro.5

    Muitos tiros. Ouviram-se de dez a quinze estampidos, um seguido dooutro, segundo os depoimentos convergentes de Diogo de Vasconcelos e deFrancisco Querelle na delegacia. Sinal de que, na verdade, haveria mais armasde fogo no confronto, calculou a polcia. No era apenas Viriato que estaria

  • preparado para resolver a diferena bala. Os rio-grandenses teriam seorganizado para promover uma chacina contra a colnia estudantil paulista,concluiu o delegado. Por sorte, outros no foram atingidos. Os gachos seriambons em atrevimento, mas ruins de pontaria. Em meio saraivada de tiros, Catofoi o nico a sair baleado. Com a mo apertando o peito, cambaleou algunspassos, subiu a calada do lado oposto da rua e, com algum custo, conseguiuagarrar-se ao poste de luz.

    Estou ferido, gritou para os companheiros, pedindo ajuda.6Cato foi alvejado queima-roupa, duas vezes. Um tiro lhe trespassara

    o p, altura do tornozelo. O outro lhe varara o trax, centmetros abaixo domamilo esquerdo.7 Os rio-grandenses, ao notarem o sangue borbulhar na bocado estudante paulista, debandaram, cada um para seu lado. Desapareceram porbecos e ladeiras, aproveitando a escurido da noite que comeava a chegar.8 Orapaz agonizante foi acolhido na casa do sapateiro Querelle e, de l, transportadopara a vizinha Pharmacia Cato.9 Apesar do socorro rpido, no resistiria aosegundo ferimento, que lhe perfurou o pulmo. Morreria trs dias depois.10

    Quando se soube que Cato estava morto, a cidade se revoltou contraos moos do Rio Grande do Sul. Muitos moradores j haviam previsto que, maisdia, menos dia, aquilo no acabaria bem. A imagem de aguerridos que os rio-grandenses faziam questo de cultivar em Ouro Preto era encarada como umacatstrofe anunciada. Especialmente porque se sabia que Cato no era moo derelevar qualquer desaforo que lhe fosse atirado cara. Dizia-se que havia sidotransferido da Faculdade de Direito de So Paulo por causa dos banzs queaprontara antes. Com pouco tempo em Ouro Preto, j se metera em novosburburinhos e, sempre que encontrara os rio-grandenses pela frente, sarafasca.11

    A polcia partiu em diligncias, com patrulhas espalhadas por toda aOuro Preto. A imprensa mineira, escandalizada, exigiu justia. Em matria deprimeira pgina, o jornal O Estado de Minas apresentou suas condolncias aosparentes da vtima e cobrou providncias para se identificar os responsveis pelosdisparos contra o jovem paulista.12

    Cato era oriundo de famlia influente. O pai do estudante morto eraningum menos que Carlos Vasconcellos de Almeida Prado, lder do PartidoRepublicano de So Paulo, em cuja casa se dera a clebre Conveno de Itu, aprimeira conveno republicana do pas, realizada em 1873.13 Um consternadoAlmeida Prado tomou um trem especial e desembarcou em Ouro Preto naquelesdias, clamando pela imediata priso dos envolvidos na morte do filho.14

    O velrio do rapaz se converteu em acontecimento poltico. O prpriopresidente mineiro, Bias Fortes, se fez presente. As famlias mais proeminentesda cidade tambm foram homenagear o morto.

    Tudo quanto o Ouro Preto tem de seleto nas letras, nas artes, no

  • comrcio e na indstria compareceu, porfia, casa morturia, noticiou oEstado de Minas. Raras vezes tem esta capital presenciado homenagem tocomovente e to sincera, relatou o jornal.15

    Enquanto isso, O Commercio de So Paulo, peridico paulista ligado famlia enlutada, informava que os demais estudantes de Ouro Preto estavam emestado de guerra contra a colnia rio-grandense.16 Os colegas de Cato,indignados, haviam partido em apoio caada policial. Juntos, soldados e alunosreviravam a cidade pelo avesso. Casas foram vistoriadas, quintais devassados,repblicas estudantis invadidas. Com base no mais frgil indcio, todo e qualqueraluno do Rio Grande do Sul passou a ser considerado suspeito, um facnora empotencial, denunciado imediatamente polcia.

    O garoto Getlio chegara a Ouro Preto no carnaval de 1897, em plenoentrudo, com as ruas da cidade tomadas por mascarados e pelas tradicionaisbatalhas de confetes e serpentinas.17 No viera de to longe para cair na farra.Dali por diante, teria que se concentrar nos estudos. Os irmos Viriato e Protsio,enviados antes pela famlia capital mineira para cursar, respectivamente,Farmcia e Engenharia, j haviam providenciado a papelada para que o manorequeresse matrcula no Ginsio Mineiro.18 Getlio deveria frequentar o cursosecundrio, a fim de prestar, dali a alguns anos, os exames necessrios paraingressar tambm numa instituio de ensino superior. At ento, o menino sconhecia os bancos escolares de So Borja, quando esteve sob os cuidadospedaggicos do mestre-escola Fabriciano Jlio Braga, um tipo excntrico deintelectual de provncia, negro retinto de carapinha e cavanhaque grisalhos,sempre vestido com o mesmo colete de listras verticais destoando da calaxadrez em preto e branco da qual os alunos diziam em tom de gracejo que, deto desbotada e suja, os quadradinhos pretos haviam se tornado brancos e osbrancos, pretos.19

    Fabriciano, que acumulava as funes de professor, ator de teatro epromotor pblico em So Borja, teria sido o primeiro a detectar no pequenoGetlio um certo pendor para a leitura, o que o distinguiria dos demais colegas deturma, mais preocupados em laar gado nas estncias da fronteira.20 SegundoFabriciano, o menino sempre era visto com um livro ao colo, esquisito, imune straquinagens dos demais colegas entre eles, Vicente Goulart, que bem maistarde viria a ser o pai do futuro presidente da Repblica Joo Goulart, o Jango.21A pequena So Borja, situada entre o pampa e a mata, a um s tempo rude ecom pretenses aristocrticas nas sedes de suas grandes estncias, ainda notinha escolas secundrias e, portanto, a primeira alternativa disposio dafamlia Vargas era a de despachar o filho para alguma cidade mais desenvolvida

  • como Pelotas ou mesmo a capital Porto Alegre, onde havia boas instituies deensino.

    No deixarei dinheiro para meus filhos, mas em troca lhes dareiinstruo. O dinheiro se perde, mas a instruo, nunca este era o mantra doestancieiro Manuel Vargas.22

    A escolha acabou recaindo sobre a ento capital mineira, destinocomum de toda uma gerao de estudantes rio-grandenses. A conceituadaEscola de Minas de Ouro Preto, fundada vinte anos antes, revolucionara o ensinodas cincias no Brasil e se tornara responsvel pela formao de uma nova eliteprofissional, a dos engenheiros.23 Contudo, o exame de admisso Escola deMinas era rigoroso, exigindo dos pretendentes vaga conhecimentos emagrimensura, geometria analtica e descritiva, alm de matemtica, qumica,fsica, botnica e zoologia, o que eliminava as chances da maioria dos candidatosoriundos das escolas secundrias tradicionais e demandara a criao de um cursoanexo, introdutrio, em que Protsio, o segundo filho de Manuel Vargas, seesforava para acompanhar o extenuante currculo. Getlio, tudo indicava,deveria seguir-lhe o exemplo, to logo conclusse o secundrio no Ginsio.

    Como segunda escolha de uma futura carreira, o garoto poderia optarpela Escola de Farmcia de Ouro Preto, igualmente prestigiada, onde Viriatoacabara de concluir o primeiro ano letivo. De um modo ou de outro, Getlioficaria sob a devida proteo dos irmos mais velhos. Eles j estavam adaptados cidade e haviam constitudo uma repblica estudantil, no chamado Campo doRaimundo, bairro da gua Limpa, situado no alto de uma das mais ngremesladeiras de Ouro Preto, afastado do burburinho do centro da cidade. Na casa, decujas janelas se avistavam ao longe as torres da Igreja do Rosrio, s moravamrio-grandenses. Viriato, que vez por outra fazia questo de envergar a farda dealferes com que coadjuvara o pai durante a Revoluo Federalista no Rio Grandedo Sul, tornara-se o lder natural da confraria, batizada pomposamente deRepblica da Bastilha.24

    De So Borja a Ouro Preto, porm, fora uma longa viagem. Como oinexperiente Getlio nunca havia deixado a cidade em que nascera sem acompanhia de algum adulto da famlia, Manuel Vargas aproveitou a ida de umcontraparente ao Rio de Janeiro para que este servisse de companhia ao filho, aomenos at a metade do caminho. No se tratava de um acompanhante qualquer.Cunhado de dona Candoca, o deputado Aparcio Mariense da Silva, recm-eleitopelo Partido Republicano do Rio Grande do Sul para a Cmara Federal, estava deviagem capital da Repblica para assumir a cadeira parlamentar pela segundavez.

    Na data marcada, os dois pegaram um barco em So Borja at omunicpio de Itaqui e, de l, tomaram um trem at a cidade de Uruguaiana.Embarcaram depois em outro vapor at o porto argentino de Monte Caseros,

  • pegaram nova embarcao at Buenos Aires para, enfim, subirem a bordo deum navio com destino ao Rio de Janeiro. Sem dvida, aquilo importava em umacanseira sem fim. Mas Aparcio Mariense, com sua cabeleira grisalha penteadapara trs e o bigodo caprichosamente cofiado, tinha boas histrias para entretero garoto ao longo de todo o caminho.

    Alm de ter secretariado a reunio secreta em Monte Caseros na qualfora traado o plano para reconduzir Jlio de Castilhos ao poder no Rio Gra