Hemêneutica - Dialética

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Text of Hemêneutica - Dialética

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    HERMENUTICA-DIALTICA COMO CAMINHO DO PENSAMENTO SOCIAL

    Maria Ceclia de Souza Minayo

    Neste texto busco aprofundar um tema sobre o qual trabalhei no livro O desafio do Conhecimento (1993) e, a respeito do qual considero haver ficado devendo ao leitor um maior aprofundamento: a hermenutica-dialtica como mtodo de anlise qualitativa, ou melhor de anlise das cincias humanas e sociais. Por causa disso retomo o assunto, investindo nas razes dessa discusso, no do ponto de vista apenas do como fazer e sim, tambm, do como pensar, no sentido proposto neste livro. Na verdade, a abordagem desse assunto junta duas questes fundamentais: a subjetivao do objeto e a objetivao do sujeito, temas cruciais da sociologia do conhecimento, que do ponto de vista metodolgico, costumam ser reduzidas aos problemas das relaes entre quantitativo e qualitativo na prxis cientfica.

    Comeo, portanto, problematizando os dois conceitos centrais nos quais o texto se sustenta, a hermenutica e a dialtica. Para a seguir, articul-los como caminho de possibilidades de construo terico-metodolgica de base emprica e documental. O conceito de sade ser tratado apenas como um caso de aplicao dessa abordagem, na medida em que, seguindo a tradio da medicina social e da sade coletiva, o processo sade-doena assume um sentido ampliado de hbrido biolgico-social, embora, neste texto, s ser tratado o componente social desse hbrido (Latour, 1994;Minayo,1993).

    De incio, mostrarei como cada um dos dois conceitos-chaves se apoia num campo histrico-semntico. A hermenutica se move entre os seguintes termos: compreenso como a categoria metodolgica mais potente no movimento e na atitude de investigao; liberdade, necessidade, fora, conscincia histrica, todo e partes, como categorias filosficas fundantes; e, significado, smbolo, intencionalidade e empatia como balizas do pensamento. A dialtica, por sua vez, desenvolvida por meio de termos que articulam as idias de crtica, de negao, de oposio, de mudana, de processo, de contradio, de movimento e de transformao da natureza e da realidade social.

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    2. A hermenutica como a arte da compreenso

    A vida pensa e o pensamento vive (Gadamer, 1999,326).

    A hermenutica considerada a disciplina bsica que se ocupa da arte de compreender textos. O termo texto est sendo usado num sentido bastante amplo: biografia, narrativa, entrevista, documento, livro, artigo, dentre outros. gnese da conscincia histrica, ou seja, capacidade de colocar-se a si mesmo no lugar do outro, (que o outro ou o tu do passado, ou o diferente de mim no presente, mas com o qual eu formo a humanidade), que a hermenutica deve sua funo central. Sua unidade temporal o presente onde se marca o encontro entre o passado e o futuro, ou entre o diferente e a diversidade dentro da vida atual, mediada pela linguagem. No entanto, na lgica hermenutica, nem sempre a linguagem considerada transparente em si mesma, pois tanto possvel chegar a um entendimento (nunca completo e nunca total) como a um no-entendimento. Por isso, a idia de alteridade e a noo de mal-entendido so possibilidades universais tanto no campo cientfico como no mundo da vida.

    O enunciado bsico do pensamento hermenutico de que as cincias humanas e sociais, nominadas por Gadamer, em Verdade e Mtodo como cincias do esprito, (1999,15) administram uma herana humanista que as distingue da prxis da chamada cincia moderna. No centro de sua elaborao est a noo de compreender. Gadamer vai mais alm na tese que defende no livro citado quando diz:

    a presente investigao coloca uma questo filosfica, o compreender. E no a coloca unicamente s assim chamadas cincias do esprito; e sobremodo no a coloca somente cincia e a suas formas de experincia essa investigao coloca a questo hermenutica ao todo da experincia humana de mundo e da prxis da vida (1999,16).

    Ou seja, o conceito de hermenutica, que se funda na compreenso tratado por esse filsofo considerado um dos maiores estudiosos do assunto, como um movimento abrangente e universal do pensamento humano. Inclui toda a experincia cientfica sem fazer dicotomias entre as cincias da natureza e as humanas e sociais. E visto de forma mais ampla do que a que abrange a experincia cientfica. Origina-se de todo o processo de intersubjetividade e de objetivao humana. Para Gadamer, compreender jamais

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    apenas um comportamento subjetivo frente ao objeto dado, esse movimento pertence ao ser daquilo que compreendido. (1999,19): compreenso em princpio, entendimento e compreender significa entender-se uns com os outros. Assim, uma das idias centrais que fundamenta a hermenutica de que os seres humanos, na maioria das vezes se entendem ou fazem um movimento interior e relacional para se porem de acordo. A compreenso s se transforma numa tarefa quando h algum transtorno no entendimento, um estranhamento que se concretiza numa pergunta. A necessidade de uma hermenutica aparece, pois, com o desaparecimento do compreender-por-si-mesmo (Gadamer, 1999,287).

    Quais so as trilhas do compreender? Gamader (1999) comea por um exerccio de negao: esclarece que no buscando a inteno do autor, pois as palavras e discursos dizem muito mais do que quem o escreveu quis dizer. E num raciocnio dialtico, comenta que, embora muitos tenham pretenso de dizer mais do que realmente dizem, importante ter em conta que cada individualidade uma manifestao do viver total e, portanto, a compreenso se refere, ao mesmo tempo, ao que comum, por comparao; e ao que especfico, como contribuio peculiar de cada autor. Ainda no exerccio de negao diz que compreender no contemplar, pois a auto-alienao na contemplao no aproxima o investigador da realidade histrica. Da mesma forma, acrescenta que, compreender no um mero captar da vontade ou dos planos que as pessoas fazem, pois nem o sujeito se esgota na conjuntura em que vive, nem o que ele chegou a ser, foi apenas fruto de sua vontade, inteligncia e personalidade.

    Schleiermarcher (2000), um dos autores seminais, consultados por Gadamer, assinala que o trao essencial do compreender o fato de que o sentido do peculiar sempre resultante do contexto e, em ltima anlise, do todo. Ou seja, do ponto de vista lgico, aqui se aplica um raciocnio circular, que Gadamer assim expressa, a partir de Schleiermarcher:

    j que o todo, a partir do qual se deve compreender o individual, no pode ser dado antes do individual(...) o compreender sempre mover-se nesse crculo, e portanto essencial o constante retorno do todo s partes e vice-versa. A isso se acrescente que este crculo est sempre se ampliando, j que o conceito do todo relativo, e a integrao em contextos cada vez maiores afeta sempre tambm a compreenso do individual (1999,297).

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    Gadamer e Schleiermacher aplicam, hermenutica, uma descrio dialtica polar, com a qual descrevem a provisoriedade interna e as mltiplas possibilidades de interpretao e compreenso de um autor ou de um texto. Evidenciam ento, que a compreenso no um procedimento mecnico e tecnicamente fechado: nada do que se interpreta pode ser entendido de uma vez s e de uma vez por todas. Dentro dessa lgica Gadamer conclui que o investigador deve buscar entender um autor melhor do que ele prprio teria se compreendido ou se compreende, tentando desvendar o que ficou inconsciente para ele. Essa imerso no texto de um autor pode ser considerada melhor quando criadora de relevncias (Schutz, 1964) e acrescenta conhecimento novo, pois, diz Gadamer, a hermenutica no deveria se esquecer de que ningum interprete vocacionado de sua obra. (...) No momento em que se converte em intrprete, o autor converte-se em seu prprio leitor (1999,300).

    A leitura de qualquer realidade constitui um exerccio reflexivo sobre a liberdade humana, no sentido de que os acontecimentos se seguem e se condicionam uns aos outros, mediados por um impulso original: a cada momento pode comear algo novo. Ou seja, no existe determinao total dos acontecimentos e nada e ningum esto a por causa do outro ou se esgotam totalmente na sua realidade. Os acontecimentos histricos ou da vida cotidiana so governados por uma profunda conjuno interna da qual ningum completamente independente, na medida em que penetrado por ela de todos os lados.

    Mas, junto liberdade est sempre a necessidade. Ela se encontra a no que j se formou, que no pode ser desfeito, que ser base para toda atividade emergente. O que veio a ser constitui o nexo com o que advm. Mas esse nexo no deve ser tomado arbitrariamente, porque ele se constituiu de uma maneira determinada e no de outra, a partir de um conjunto de mltiplas possibilidades. A esse elo que amalgama o presente com o passado e com o futuro os antroplogos denominam a cultura de um povo, de uma nao, de uma classe, de uma poca. So as determinaes que os marxistas reconhecem como pano de fundo da realidade social e da histria; a que filsofos como Ortega Y Gazet denominam as circunstncias da biografia; e que Sartre chama de possvel social, condicionante da liberdade.

    Dilthey (1956) adiciona o conceito de fora ao de liberdade, para falar de um impulso que move ou de uma projeo do sentido na ao. Para esse autor, a noo de fora ocupa

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    um lugar central na explicao das cincias do esprito. Diz que na fora se acham unidas interioridade e exterioridade, numa unidade tensa. Toda fora s existe na sua exteriorizao, mas mais que a exteriorizao, na medida em que significa uma disponibilidade interior da infinitude de vida. Atravs da experincia do limite, da presso e da resistncia o indivduo se d conta da prpria fora. Porm, o que experimenta no so as duras paredes da facticidade. Como ser histrico, experimenta tambm realidades histricas, e essas so sempre, ao mesmo tempo, algo que o sustenta, e espao onde d expresso a si mesmo (1956,281). Em outras palavras: a o sujeito rea