HERCULANO, Alexandre - Opusculos 06

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  • 7/24/2019 HERCULANO, Alexandre - Opusculos 06

    1/308

    opsculos

    POR

    n.

    MERCULAhO

    TOMO

    VI

    CONTROVRSIAS

    E

    ESTUDOS

    HISTRICOS

    TOMO

    III

    QUARTA

    EDIO

    LIVRARIA

    BERTRAXD

    LISBOA

    LIVRARIA

    FRANCISCO

    ALVES

    KIO

    DE

    JANEIRO

    S.

    PAULO

    BELO

    HORIZONTE

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    2/308

    Digitized

    by

    the Internet

    Archive

    in 2010

    with

    funding

    from

    University

    of Toronto

    http://www.archive.org/details/opusculos06herc

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    OPU5CUL05

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    sculos

    POR

    A.

    hERCULAhO

    TOMO

    VI

    CONTROVRSIAS

    E

    ESTUDOS

    HISTRICOS

    TOMO

    III

    QUARTA

    EDIO

    LIVRARIA

    BERTR

    AND

    73,

    Rua

    Garrett,

    75

    LISBOA

    LIVRARIA

    FRANCISCO

    ALVES

    RIO DE

    JANEIRO

    S.

    PAULO

    BELO

    HORIZONTE

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    Composto

    e impresso

    na

    Impeeksa

    PoRIUGAL-BBSiL

    Rua

    da

    Alegria,

    30

    Lisboa

  • 7/24/2019 HERCULANO, Alexandre - Opusculos 06

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    UMA

    VILLA-NOVA

    ANTIGA

    1843

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    Se

    passardes

    pelos

    olhos

    uma

    carta

    topogra-

    phica

    de

    Portugal,

    em

    cada

    provncia,

    em

    cada

    comarca,

    talvez

    em

    cada

    pequeno

    districto,

    achareis

    escripto,

    ao

    lado

    de

    alguns desses

    si-

    gnaes que

    marcam

    as povoaes,

    a

    palavra

    Vil-

    la-nova

    :

    Villa-nova

    de

    Rei,

    de

    S.

    Cruz,

    de

    Ga3'a, de

    Cerveira;...

    que

    sei

    eu?

    Villas-no-

    vas

    de todos

    os

    sobrenomes,

    e at

    villas-novas

    de ningum

    e

    de nada

    ;

    villas-novas esprias.

    Villa-nova

    o

    dom municipal,

    o dom

    villo

    ;

    porque, por extravagante

    antiphrase,

    villa-

    nova

    quasi

    sempre

    indica

    um

    antigo

    burgo

    com

    suas

    rugas de velhice, com

    seu

    castello

    desmoronado,

    com seus

    vestigios

    de

    templo

    ou

    de

    palcio da

    meia-edade.

    Villa-nova

    moder-

    na,

    sem

    pedras amarellas,

    tombadas,

    ogivaes,

    cousa

    descommunal,

    milagrosa,

    e

    ao

    rz

    do

    impossvel.

    que

    o

    passado,

    remoto,

    remo-

    tssimo,

    como

    o

    imaginardes,

    j

    foi

    presente,

    e

    ento a

    villa

    que

    se

    alevantava

    ou

    no des-

    vio,

    at

    ahi inculto

    e

    intractavel, ou sobre

    os

    vestigios de

    povoao

    deshabitada

    e

    destruda,

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    8

    UMA

    VILLA-NOVA

    ANTitA

    era

    realmente

    nova;

    mas

    os

    seus

    edificadores

    esqueciam-se,

    ao

    dar

    o

    nome

    obra

    das

    pr-

    prias mos,

    que

    elles

    passariam

    bem

    depressa

    e

    com elles

    a

    mocidade

    da

    sua

    filha

    querida

    esqueciam-se

    de que

    o

    correr

    dos

    annos bre-

    vemente havia de converter

    em

    palavra

    sem

    sentido

    essa

    denominao

    que

    lhes

    parecera

    to

    clara

    e

    precisa. Aos

    primeiros

    respiros

    de

    paz

    e

    segurana,

    depois

    das

    guerras

    bar-

    baras

    de

    religio

    e

    de

    raa

    que

    devastaram

    outrora

    este solo

    portugus,

    o

    espirito

    muni-

    cipal ia

    semeando

    os

    concelhos

    ao

    passo

    que

    debaixo

    dos

    marcos

    das

    fronteiras christs

    se

    embebia

    o

    territrio

    mussulmano,

    e

    ento

    acontecia

    que

    o

    burgo, recentemente

    plantado

    em

    terra

    at ahi erma

    e

    safara,

    ou

    sobre as

    ruinas

    carcomidas do municpio

    romano ou

    godo,

    sentindo-se

    cheio

    de

    vida

    e

    de

    esperan-

    as,

    folgava

    de

    contar ao

    mundo

    no

    prprio

    nome a

    juventude,

    e

    tomava para

    si o

    titulo

    to

    querido,

    to

    popular,

    to

    casquilho

    de

    Villa-nova.

    B

    s

    vezes as

    villas-novas

    vinham

    encos-

    tar-se aos muros

    carrancudos

    e

    robustos

    das

    cidades

    reaes

    ou

    episcopaes.

    Eram

    como

    uma

    criana

    rosada,

    risonha,

    travessa,

    que

    se

    atira

    ao

    collo

    da

    velha

    rebarbativa,

    e

    se

    lhe

    pen-

    dura

    ao

    pescoo e

    desata

    a

    rir-

    a

    bom

    rir.

    Acontecia tambm que uma

    ou

    outra

    ia

    as-

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    lMA

    VIIXA-NOVA

    ANTIGA

    tj

    sentar-se

    beira

    de

    um

    rio,

    defronte

    de

    povoa-

    o

    orgulhosa, e

    semelhante a

    trasgo

    inquieto

    zumbia-lhe

    insolentemente aos

    ouvidos, e de-

    sangrava-a

    roubando-lhe o

    seu

    commercio

    mettia-se

    at

    em

    bandos

    polticos

    para

    lhe

    fa-

    zer perraria

    ; e

    inimiga

    d'ao

    p

    da

    porta

    no

    havia

    casta

    de

    incommodo

    que

    lhe no cau-

    sasse.

    Que

    outra

    cousa fez

    Villa-nova

    de

    Gaya

    ao

    burgo

    episcopal

    do

    Porto,

    burgo to

    grave,

    to serio, to

    devotadamente

    enroscado

    em

    volta

    da

    sua

    cathedral,

    aos ps

    dos

    seus

    sanctos bispos?

    Quem,

    seno

    Villa-nova de

    Gaya,

    assoprou

    provavelmente

    entre

    os

    hon-

    rados burgueses

    da

    cidade

    do

    Douro

    aquelle

    espirito de

    irmandade

    e

    revolta

    que

    tanto

    veiu

    depois

    a

    incommodar

    os

    successores

    do

    venervel D. Hugo?

    Lisboa

    guerreira

    e

    depois

    mercadora

    tambm teve, no

    uma,

    mas

    duas

    villas-no-

    vas

    abraadas

    sua

    cinta

    de

    muralhas

    :

    a

    pri-

    meira

    ao

    sul,

    a

    segunda ao poente.

    Chamava-

    se

    aquella Villa-nova

    de

    Gibraltar:

    esta

    Villa-nova d'Andrade. A

    segunda,

    nascida

    no

    sculo XV,

    viveu

    dous dias apenas,

    porque

    Lisboa, essa

    villa

    ^

    limitada

    nos

    fins

    do

    s-

    culo

    XII

    a

    15

    :00o habitantes,

    emquanto

    a

    mou-

    '

    vora

    chamada no

    seu

    foral

    cidade; I^isboa

    no

    seu

    villa.

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    10

    UMA VlLJvA-NOVA

    ANTIGA

    risca Silves contava

    25

    :00o,

    cresceu com

    tal

    rapidez

    na epocha

    dos

    descobrimentos

    que,

    rompendo

    ou,

    antes, galgando por cima

    dos

    lanos

    occidentaes dos

    seus

    muros,

    a

    devo-

    rou

    ainda no

    bero, ou para melhor

    dizer

    par-

    tiu-a

    em

    fragmentos, e aos

    seus

    membros des-

    pedaados

    chamou Bairro-alto,

    Chagas,

    San-

    cta

    Catharina.

    Villa-nova d'Andrade foi uma

    cousa

    fugitiva, sem

    gloria,

    sem

    individua-

    lidade.

    Delia poderia

    dizer-se

    o

    que

    o

    psal-

    mista dizia do

    impio

    vi-a

    exaltada como

    o

    cedro

    do

    Libano : passei, e

    no

    existia

    ;

    bus-

    quei-a,

    no

    lhe achei

    rasto.

    Deixemo-la,

    pois,

    na

    paz do

    esquecimento

    e

    do nada.

    No assim

    Villa-nova

    de

    Gibraltar.

    Falae-

    me

    de

    Villa-nova

    de

    Gibraltar

    Esta sim,

    que

    viveu.

    A sua

    origem

    perde-se nas trevas

    dos

    tempos

    chamados

    brbaros,

    entronca-se

    no

    bero

    da

    monarchia. Assentada

    beira

    do

    Tejo, fora

    do

    lano

    de

    sul

    e

    sueste da

    mura-

    lha

    rabe,

    ou

    talvez

    goda

    (quem

    poder

    hoje

    dizei

    -o? ),

    que

    cercava

    Lisb