Hiroshima mon amour - Memória e cinema

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  • Baleia na Rede ISSN 1808 -8473Revista online do Grupo Pesquisa e Estudos em Cinema e Literatura

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    HIROSHIMA MON AMOUR: MEMRIA E CINEMA

    Maria Leandra BIZELLO1

    Resumo: As relaes entre cinema, memria e histria so estudadas em Hiroshima mon amour (Frana, 1959) de Alain Resnais. Essa tripolaridade nos revela a conscincia histrica de um perodo, a presena do passado no presente, coloca o espectador no centro da discusso pela potica da lembrana nos filmes. Os filmes escrevem a histria ao mesmo tempo em que so suportes para a memria: memria expandida segundo Jacques Le Goff, pois o filme uma nova maneira de se guardar a memria e tambm de escrev-la; experincia coletiva, libertria para Walter Benjamin, presente em Hiroshima mon amour quando a memria coletiva se mistura memria individual.

    Palavras-chave: memria; histria; cinema; imagens; esquecimento.

    1 doutora em Multimeios UNICAMP / Docente UNESP/Marlia. leandra23@unesp.marilia.br

    Vol. 1, n 5, Ano V, Nov/2008 161

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    Este artigo faz uma reflexo sobre as relaes entre memria, histria e cinema e

    integra um projeto de pesquisa desenvolvido no Departamento da Cincia da Informao -

    UNESP com o objetivo de estudar como os filmes trabalham o conceito de memria. Em um

    estudo anterior, muito inicial, a Era do Rdio (EUA, 1987), de Wood Allen, e Hiroshima

    Mon Amour (Frana, 1959), de Alain Resnais, foram estudados com o intuito de refletirmos

    sobre como o cinema trata a memria e a histria. O vis terico passa por alguns pensadores

    que se debruaram sobre as fronteiras memria-histria: Jacques Le Goff, Walter Benjamin,

    Paul Ricoeur e Michael Pollack. A partir da algumas questes surgiram tomando como

    princpio norteador que a representao da memria pelo cinema implica quase sempre em

    pensarmos nos filmes histricos e nos documentrios, entretanto, esse princpio no pretende

    ser limitador e esgotar as possibilidades das relaes com as quais estamos lidando, ao

    contrrio, apenas ponta p inicial do projeto, um estmulo ao pensar: o filme

    representao da histria, documento histrico, reminiscncia? O cinema estabelece uma

    srie de relaes com a memria e com a histria. Memria individual ou memria coletiva?

    O filme est na fronteira tnue da histria, como objeto e fonte; da memria, como seu

    suporte, seu guardador.

    Para Paul Ricoeur (1988) h um dilema ao se tratar os conceitos de memria

    individual ou privada e de memria coletiva. A memria individual relaciona-se de maneira

    possessiva com as lembranas: Minhas lembranas no so as suas lembranas; h o que

    ele chama de sentimento de continuidade e as estreitas ligaes privilegiadas com

    esquecimento (RICOEUR apud BAECQUE, 1998, p.18 [traduo minha]). Existe a memria coletiva? Qual o seu objeto? As lembranas referentes a um determinado evento

    histrico partem de uma coletividade ou de um indivduo? Podemos estabelecer fronteiras

    entre essas lembranas?

    Se existe resposta, ou respostas, para cada uma dessas interrogaes comeamos

    por Ricoeur: na hiptese de uma constituio mtua, cruzada, de duas subjetividades,

    privada e coletiva (RICOEUR apud BAECQUE, 1998, p. 20). atravs da linguagem que lembramos, h uma mediao narrativa da memria a mais privada (ibidem), mas teremos

    esse movimento tambm na memria coletiva.

    Podemos nos interrogar de que maneira o cinema, uma linguagem, nos possibilita o

    relembrar. O relembrar em Hiroshima mon amour, de Alain Resnais, nos revela subjetividades cruzadas, e nos faz ver, atravs da representao cinematogrfica, a memria

    privada e a coletiva. Antes de trabalharmos como tal cruzamento se d nesse filme, um outro

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    pensador nos parece primordial para a nossa reflexo, Walter Benjamin, para que pensemos

    um pouco sobre a narrativa, o narrador e a memria.

    Walter Benjamin e a memria libertria

    Memria e experincia so conceitos fundamentais para Walter Benjamin em sua

    reflexo sobre a histria. A memria para Benjamin est ligada ao ato de contar (narrar),

    experincia vivida (Erlebnis) particular, privada e experincia coletiva (Erfahrung).

    no ensaio O narrador consideraes sobre a obra de Nicolai Leskow que encontramos a oposio entre o conto, o romance e a informao jornalstica moderna. A arte

    de narrar histrias, prpria do contista, tem como fonte a experincia coletiva, uma memria

    comum transmitida atravs das histrias contadas de gerao a gerao (BENJAMIN,

    1994, p. 68). Ao contrrio, a experincia vivida (Erlebnis) est associada ao romance,

    caracterizado pelo isolamento do indivduo; aqui a memria refugia-se na vida privada. Para

    Benjamin, ainda, a informao jornalstica tambm est associada a essa experincia vivida,

    pois, em oposio experincia coletiva, procura sempre o excepcional, o totalmente novo,

    aquilo que acabou de acontecer. O narrador ao retransmitir a experincia antiga no tem a

    preocupao de explicar tudo, de encerrar os acontecimentos numa nica verso, como faz a

    informao jornalstica e o romance.

    Cada manh recebemos notcias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em

    histrias surpreendentes. A razo que os fatos j nos chegam acompanhados de

    explicaes. Em outras palavras: quase nada do que acontece est a servio da narrativa, e

    quase tudo est a servio da informao (BENJAMIN, 1994, p. 203).

    Para Benjamin no h liberdade de interpretao da histria do acontecimento -

    mas ao leitor imposto um contexto psicolgico da ao (ibidem, idem). Em Sobre o conceito de histria, a experincia implica num conceito e numa escrita da histria em que

    ela no interpretada de forma definitiva, acabada, mas ao contrrio, h a reafirmao de seu

    sentido aberto, inacabado. Escrever a histria , tambm, articular passado e presente. Nessa

    articulao, no significa que haver um conhecimento do passado tal como ele foi, mas a

    reapropriao de um fragmento desse passado e sua conservao. H nesse pensamento a

    inscrio da retomada da histria dos vencidos, de fazer emergir um passado esquecido, no

    apenas conserv-lo, mas libert-lo, pois cada presente resgata seu prprio passado e esse

    movimento por um futuro diferente. necessrio, ento, ter uma experincia histrica para

    estabelecer tal ligao passado-presente que se encontra para Walter Benjamin, na literatura e

    no papel do narrador e sua relao com a memria.

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    Lembranas, memria em imagens

    Afirmamos no incio desse artigo que o filme pode ser entendido tambm como

    suporte, como guardador de memria. Para entender melhor essa afirmao preciso nos

    reportamos a Jacques Le Goff para quem o conceito de memria est intimamente ligado

    cincia e a histria como tal. Dessa forma estudar a memria tambm delimitar uma

    fronteira muito tnue entre as diversas cincias que se ocupam dela e por outro lado, utilizar

    tais cincias para sua compreenso. Esse conjunto de reas cientficas que se debruam sobre

    o mesmo objeto pode entender a memria da seguinte forma:

    A memria, como propriedade de conservar certas informaes, remete-nos em

    primeiro lugar a um conjunto de funes psquicas, graas s quais o homem pode atualizar

    impresses ou informaes passadas, ou que ele representa como passadas (LE GOFF, 1990,

    p. 423).

    No entanto, para uma compreenso mais ampla da dimenso da memria, Le Goff a

    estuda historicamente. Baseando-se em Leroi-Gourhan aborda essencialmente a memria

    coletiva das sociedades e as relaes que desenvolve com a histria; dividindo a histria da

    memria coletiva em cinco perodos:

    1) a memria tnica nas sociedades sem escrita, ditas selvagens;2) o desenvolvimento da memria, da oralidade escrita, da Pr-histria Antigidade;3) a memria medieval, em equilbrio entre o oral e o escrito;4) os progressos da memria escrita, do sculo XVI aos nossos dias;5) os desenvolvimentos atuais da memria (LE GOFF, 1990, p.427).

    Dessa periodizao interessa-nos o quarto e o quinto perodos. Neles a memria se

    expande em seus suportes. Lentamente, essa expanso acontece com a imprensa, no fim da

    Idade Mdia. At ento, a produo e transmisso da memria era essencialmente oral. A

    memria coletiva das sociedades sem escrita est ligada ao mito e narrao. Nela no h

    preocupao da reproduo palavra por palavra, mas uma reconstruo generativa

    (Ibidem, p. 430), ou seja, a narrao prope uma dimenso mais criativa cada vez que o

    homem-memria evoca um acontecimento que lhe foi transmitido oralmente, ocorrendo a

    diversas verses do mito ou do acontecimento. A escrita transforma profundamente a

    memria coletiva, pois permite duas formas de memria: a comemorao, cujo suporte o

    monumento comemorativo de um acontecimento memorvel (...) [e] o documento escrito

    num suporte especialmente destinado escrita (LE GOFF, 1990, p. 431-32). Le Goff

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    destaca, nesse momento, o carter de monumento do documento. H, nessa passagem da

    memria oral para a memria escrita, um acrescentar. Mas, voltemos aos perodos

    importantes para nosso estudo. A inveno da imprensa possibilitou, ao mesmo tempo, a

    expanso da memria coletiva e uma longa agonia da arte da memria (p. 457) da

    Antiguidade e da Idade Mdia, mergulhadas na transmisso oral. Dicionrios, enciclopdias,

    bibliotecas, museus, moedas, medalhas, selos e uma srie de souvenirs so a partir do sculo

    XVIII suportes da memria coletiva alargada; essa memria torna-se mltipla, e nessa

    multiplicidade apresentada ao indivduo que, no entanto, no consegue fix-la

    integralmente, tal o seu tamanho.

    Jacques Le Goff situa no sculo XIX e incio do sculo XX dois fenmenos

    significativos para a memria coletiva: a construo de monumentos aos mortos (LE

    GOFF, 1990, p. 465) e a inveno da fotografia. Esse segundo fenmeno revoluciona a

    memria na medida em que a multiplica e democratiza-a. No sculo XX, principalmente

    aps 1950, a eletrnica revoluciona, mais uma vez, a memria. As mquinas de calcular, a

    fabricao de crebros artificiais, os computadores, so mquinas que ultrapassam o crebro

    humano, mas em relao memria humana so auxiliares, no a substituem. Auxiliam

    como banco de dados - inclusive para a histria - ou como instrumentos para a biologia, a

    medicina dentre outras aplicaes. A memria, para Le Goff, individual ou coletiva, um

    elemento essencial na busca da identidade de indivduos ou de sociedades. tambm

    instrumento e objeto de poder, sempre propcio manipulao. Mas Le Goff entende que os

    profissionais cientficos da memria, antroplogos, historiadores, jornalistas, socilogos

    (LE GOFF, 1990, p. 477) devem lutar pela democratizao da memria social, pois: a

    memria, onde cresce a histria, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para

    servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memria coletiva sirva para

    a libertao e no para a servido dos homens (Ibidem, idem).

    O cinema e o filme, inventos desenvolvidos no final do sculo XIX, so tais como a

    fotografia, guardadores e produtores de memria, so suportes e tambm documentos. O

    filme provoca, por sua vez, outra revoluo na medida em que registra o movimento e o faz

    permanecer contemporneo no futuro. O filme entendido como produtor e guardador de

    memria, produzido pelas sociedades que fazem dele um suporte material para, objetiva e

    subjetivamente, mostrar e visualizar seu imaginrio, representar o mundo. Nele as

    experincias coletivas e individuais esto inscritas numa linguagem de imagens e sons.

    Podemos fazer uma reflexo aqui sobre o conceito de memria para Walter

    Benjamin tendo como referncia o filme, pois nele temos, talvez de maneira indita, as duas

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    experincias, a vivida e a coletiva, uma em face da outra, de maneira mais explcita, ou ainda

    o cruzamento da memria coletiva e privada para Paul Ricoeur. O filme tambm pode ser

    entendido como uma experincia coletiva, na medida em que precisa sempre de um grupo,

    qualquer que seja ele, para ser produzido. No basta apenas o diretor, mas o fotgrafo, o

    roteirista, os editores, os maquiadores, os cinegrafistas, os tcnicos em efeitos especiais, os

    msicos, os atores e atrizes, enfim, uma legio de homens e mulheres que trabalham em

    diversas fases da preparao de um filme. Alm disso, por mais autoral que um filme seja,

    ele sempre aborda um aspecto do imaginrio da sociedade que o v e o produz; no importa

    o gnero, documentrio ou fico, ele sempre est na esfera do imaginrio coletivo que o

    visualiza. No entanto, o filme corre o risco de tentar explicar tudo, de dar ao espectador a

    imagem j digerida, facilmente entendida, sem a liberdade de interpretao, to cara a

    Benjamin. o que acontece na narrativa clssica, ela tudo explica, samos do cinema

    convencidos que o mundo daquele jeito que nos foi mostrado e contado, sua verso

    definitiva no h lugar para a dvida, para o inacabado.

    Evocar lembranas, rememorar, representar o acontecido no cinema narrar atravs

    de imagens e sons, eventos privados ou coletivos que sero compartilhados por uma

    coletividade ou vrias coletividades em diferentes temporalidades. O filme pode narrar uma

    experincia vivida a partir de lembranas e ento reportar-se memria coletiva. De que

    maneira a memria individual relaciona-se com a memria coletiva em um filme? Em

    Hiroshima mon amour a memria individual, constituda por lembranas, no inicia o filme,

    ela , no entanto, o seu fio condutor: Il serait curieux dengluer une histoire damour dans

    un contexte qui tienne compte de laconnaissance du malheur des autres et de construire deux

    personnages pour qui le souvenir est toujours prsent dans laction.2

    A segunda guerra mundial est como pano de fundo do filme, as histrias privadas

    no so histrias de guerra e ligam-se a ela no internamente, mas como se estivessem nas

    bordas, na periferia do conflito e no no centro, e delas que o filme trata. As primeiras

    seqncias de Hiroshima mon amour so documentais, representam o drama coletivo de dimenses traumticas. s imagens documentais e contextualizadoras da catstrofe - filmes

    de reconstruo, restos materiais em um Museu, pessoas em hospitais, imagens de

    cinejor...

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