[Julio Medaglia] Música Impopular(BookZZ.org)

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  • Jlio MedagliaMSICA IMPOPULAR

    1 edio digital

    So Paulo

    2012

  • Quand jtais jeune on me disait:Vous verez quand vous aurez cinquante ans!Jai cinquante ans.Jnai rien vu

    Erik Satie

    Some have written a book for money;I have not.Some for fame;I have not.Some for love;I have not.Some for kindling;I have not.In fact, I have not written a book at all.I have merely cleaned house.All that is left is out on the clothes line

    Charles Ives

  • Orquestra e cmaras da rdio e televiso de Baden-Baden descobrindo Villa-Lobos, sob a regncia de Jlio Medaglia.

    Jlio Battaglia MedagliaDcio Pignatari

    Num momento como este, quando a resposta esterilizante No vale a pena parecesubstituir a pergunta criativa E agora, que fazer? , bom de ver-se um maestro queescreve (e sabe escrever) batalhar pela cultura brasileira, a partir do nosso pobre horizontemusical.

    Jlio Medaglia sempre soube que o terceiro-mundismo uma realidade mas sempresoube que preciso resgat-lo da garra fisiolgica dos nacionaloides, que sempredefenderam a necessidade de uma subcultura para o subdesenvolvimento (alguns dessespregadores de ontem so, hoje, endinheirados assessores do poder). Jlio Medaglia sempresoube, tambm, que a luta, nestes pases, tem de ir junto com o ensino mas no o ensinobaseado em pretensas autenticidades nacionais (os nossos valores), mas sim em padres erepertrios internacionais.

    O universo no uma variedade ou modalidade brasileira: o Brasil que uma modalidadedo universo. Primeiro, somos humanos; depois, brasileiros.

    A elevao do repertrio deixa os nacionaloides, tanto os sinistrofrnicos quanto osdestrofrnicos, sem falar naquela maioria mediana que adora sentir-se encravada na geleiageral nacional, possessos. A elevao do repertrio, em qualquer campo ou setor, desmascaraa incompetncia ideolgica dos nacionaloides. Sim, porque eles costumam escudar-se atrsde uma suposta competncia ou verdade ideolgica para encobrir sua nulidade artstica (quesempre acaba por confluir com um lumpesinato artstico de natureza populista e varguista,mesmo quando sindicalizado... por desconto em folha!).

    Os nossos sociologoides e professoroides ainda no engoliram sequer a chamada artemoderna. O mximo que conseguem alcanar Portinari, um certo Villa-Lobos, um certoDrummond, um certo Joo Cabral. Imagine falar-se de uma sensibilidade ps-moderna aeles, que jamais ouviram uma pea de Boulez, Cage, Stockhausen ou Gilberto Mendes!

    Pois aqui est o Jlio Medaglia batalhando e ensinando... modernidade ( preciso irdevagar, para no provocar traumas). O que temos aqui uma mini-histria crtica da msicamoderna, naquilo que ela teve de tecnologia de ponta de Debussy ao rock. Este rock que,hoje, no Brasil, exerce o papel de bolero dos anos 50, do qual s a Bossa Nova nos livrou aelitista, alienada e aliengena Bossa Nova!

    um percurso de dcadas, terico e prtico. Medaglia regeu conjuntos e orquestras pequenas, mdias, grandes em feiras, mercados, teatros municipais e auditrios de TV. Feztrilhas sonoras para filmes, peas de teatro e sries televisuais. E arranjos para os tropicalistasdos anos 60, sem falar nos primeiros arranjos para oralizaes da poesia concreta. Formou-semaestro na Alemanha. Foi discpulo de Sir John Barbirolli.Vem tentando, durante todo essetempo, extrair o melhor da simbiose entre baixos, mdios e altos repertrios.

    A msica de alto repertrio a mais sofrida das artes, neste pas, onde qualquer roqueiro

    FernandoHighlight

  • plvico ou cantora gatanhuda ganha mais e tem mais tempo e espao nas mdias do que umobosta, que precisa estudar oito anos para ser minimamente competente. Para que sobreviva,muita orquestra obrigada a tocar arranjos sinfnicos de Mame eu quero em inauguraesoficiais!

    E como pobre a nossa bibliografia musical! Com esta sua Msica impopular, o maestroJlio Medaglia est ajudando a torn-la menos carente. Muitos sonhos murcharam nosdesejos, nestes anos de luta. Mas o tom de Jlio Medaglia no de desalento. Quanta msicamaravilhosa ainda no foi ouvida no Brasil!

  • Prefcio segunda edioCatorze anos aps a publicao deste Msica impopular, surge agora uma nova edio,

    revista e ampliada. Revista, pois alguns trabalhos estavam por demais ligados aacontecimentos momentneos e por isso foram retirados, e ampliada, pois nesse perodosurgiram informaes e acontecimentos no universo da msica que no poderiam deixar deaqui constar. De qualquer forma, permanece a maioria dos artigos, frutos de publicaes emjornais (Folha de S.Paulo, Estado, Pasquim e outros), entrevistas, palestras e algunsespecialmente escritos, todos retrabalhados, para fornecer uma viso crtica abrangente doque foram os tortuosos labirintos da inveno sonora em diversos repertrios no revolucionriosculo que recm-findou.

    O artigo sobre o Barroco Mulato pega uma carona nestas pginas, pois seureconhecimento recente no apenas foi precedido de um injusto esquecimento de quaseduzentos anos, como seu renascimento, acompanhado de perto por mim, esteve envolvido empolmicas, s vezes to complicadoras como as que se depararam os autores quecomparecem ao longo destas pginas.

    Quero agradecer a colaborao de amigos que nos ajudaram em alguns momentos destareelaborao a dra. Leniza Castello Branco, os compositores Rodolfo Coelho de Souza eLino de Almeida assim como o entusiasmo do grande escritor e crtico literrio Leo GilsonRibeiro, que durante todos estes anos circulou com este livro debaixo do brao,supervalorizando meu trabalho como autor, quando, na realidade, este escrivinhador nadamais quis que trazer informaes e provocar debates sobre a dura tarefa de criar msica numapoca to privilegiada como contraditria, caracterizada pelo domnio e fascnio daendemoniada tecnologia, diferente daquela onde este livro se inicia, impulsionada pelascoisas da arte e da cultura apropriadamente chamada de Belle poque.

    Maestro Jlio Medaglia

  • Claude Debussy A BaseExistem certas manifestaes artsticas to arraigadas a seus contextos de origem, que se

    torna, s vezes, difcil apreci-las e, em alguns casos, compreend-las sem se considerar, ounelas identificar, toda uma cultura que as motivou. Wagner to alemo quanto Puccini italiano; Ravi Shankar to hindu quanto Miles Davis americano. Mas, se alguns mestresforam criativos e atingiram a universalidade a partir de um conjunto de valores regionais,parece-nos que a esttica e toda a postura intelectual de Claude Debussy, ao contrrio,possuam essa universalidade a priori. Todos que se ocupavam com msica no fim do sculoXIX perceberam a crise que se instaurou no cdigo da composio ocidental, o chamadosistema tonal. Alguns no tiveram foras para reagir a essa crise, e tentaram reciclar antigastcnicas e concepes artsticas. Outros, como Schnberg, atravs de obras experimentais edialticas, realizaram um paciente e penoso labor que se resumia na substituio de pea porpea daquela mecnica composicional agonizante, edificando, assim, ao longo de vriasdcadas, uma gramtica musical inteiramente nova. Debussy cedo detectou essa crise, masse negou a penetrar em seus congestionados labirintos at encontrar uma sada para a suaconcepo musical. Ao contrrio, distanciou-se dela a fim de no envenenar o seu sensocrtico que iria lhe apontar o caminho da msica do futuro. E dessa posio no hesitou emlanar ouvidos a outros repertrios musicais no ocidentais que iriam arejar ainda mais suaintuio criadora. A participar daquele estado de coisas, Debussy preferiu, s vezes, comoMallarm, o isolamento, a reflexo e a prpria inatividade. Parecem suas as palavras dogrande poeta: A atitude do artista em uma poca como esta, onde ele est em greve perante asociedade, pr de lado todos os meios viciados que se possam oferecer a ele. Tudo o que selhe pode propor inferior sua concepo e ao seu trabalho secreto. E, certa vez, aoparticipar como testemunha da solenidade de casamento de um amigo, ao preencher osdocumentos, onde dizia profisso, Debussy escreveu: jardineiro.

    Apesar de ter iniciado muito cedo o seu contato com a msica quando criana j cantavano coral da igreja de St. Gervais em Paris , apenas aos 32 anos de idade que ele fariadetonar a sua primeira bomba revolucionria, to silenciosa quo devastadora. E, se Debussy,aps o lanamento de seu Laprs-midi dun faune, como Rimbaud, tivesse abandonado avida artstica, os destinos do pensamento musical do sculo XX j teriam sido alteradossubstancialmente.

    Para a melhor compreenso do significado da obra desse mestre, parece interessanteperseguir um pouco a sua biografia, pois ela nos revela dados de uma poca muito especial(os ltimos anos do sculo XIX e os primeiros do XX), onde mudanas radicais seprocessavam na prpria base da arquitetura musical do Ocidente. Se Mozart fosse o objetodeste trabalho, isto no seria necessrio, pois, aos nove anos de idade este Debussy-rococj tinha pronta, amadurecida e executada a sua primeira sinfonia... Aos nove anos, tambm, avida de Claude-Achille ganha novos rumos. Madame de Fleurville, conhecida personalidadeda vida cultural parisiense, sogra de Verlaine e pianista famosa, sobretudo por ter sido alunade Chopin, descobre o talento invulgar do adolescente e convence seus pais a deix-loestudar msica seriamente. E ela no apenas lhe d aulas gratuitamente, mas transfere aoaluno os ensinamentos herdados de seu mestre, cuja tcnica se baseava numa articulaoprecisa e num toucher macio e aveludado. preciso esquecer-se que o piano uminstrumento de martelos, como queria Chopin. E quem conhece a obra de Debussy sabeavaliar a importncia que teve essa conceituao. Dois anos mais tarde Debussy aceito naclasse superior do Conservatoire de Paris. A despeito da faanha que isso representava, porsua pouca idade, inicia-se a um longo calvrio na vida do jovem msico. Sua visoprecocemente crtica do processo composicional vigente e suas primeiras tentativas criadoras

    FernandoHighlight