Literatura, cinema e história em Hiroshima Mon Amour ?· gerar repercussões no público-receptor no…

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  • 97 Anu. Lit., Florianpolis, v.18, n. 1, p. 97-112, 2013. ISSNe 2175-7917

    http://dx.doi.org/10.5007/2175-7917.2013v18n1p97

    LITERATURA, CINEMA E HISTRIA EM HIROSHIMA MON AMOUR

    Lydia Christina Ferreira Rezende de Medeiros* Nismria Alves David** Universidade Estadual de Gois

    Resumo: Este artigo analisa as obras homnimas Hiroshima Mon Amour, longa-metragem

    realizado por Alain Resnais (1959) e cin-roman de Marguerite Duras (1960). Considerando a

    perspectiva terica de Jeanne-Marie Clerc (2004), entende-se que a literatura e o cinema so

    meios de expresso que no estabelecem relaes de subordinao ou de concorrncia, mas

    sim de complementaridade, realizando trocas mtuas fundamentais para suas renovaes.

    Mais que um documentrio sobre a tragdia atmica de Hiroshima, ao conjugar fatos

    histricos, narrativa literria e tcnicas cinematogrficas, tanto o cin-roman quanto o filme

    expem uma postura revolucionria da forma artstica para expressar uma viso crtica sobre

    o mundo conturbado pela guerra, visto que criada uma histria de amor e de perda,

    colocando a angstia do indivduo no cerne do enredo. Por meio do retorno ao passado e com

    o emprego de uma linguagem lrica, revelam os dramas da protagonista e, consequentemente,

    da humanidade, levando o receptor reflexo de sua prpria condio.

    Palavras-chave: Cinema. Literatura. Histria. Duras. Resnais.

    Introduo

    Desenvolvido a partir do final do sculo XIX, graas aos avanos tecnolgicos de

    fotografia e projeo, o cinema constitui-se como meio de expresso artstica que se serve,

    por exemplo, de representao teatral e de narrativas. Trata-se de uma fonte de entretenimento

    que contribui para a difuso de manifestaes culturais e, em especial, da arte literria, recria

    o espao e as relaes entre os seres, conta fatos histricos e fictcios por meio de imagens,

    Esta obra est licenciada sob uma Licena Creative Commons.

    * Mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Gois (2004), graduao em Letras Portugus Francs

    pela Universidade Federal de Gois (1993). Tem experincia na rea de Letras, com nfase em Francs, atuando

    principalmente nos seguintes temas: filosofia da linguagem e interdisciplinaridade. **

    Doutora em Letras e Lingustica pela Universidade Federal de Gois (2010) e professora no Curso de

    Graduao em Letras da Universidade Estadual de Gois, Unidade Universitria de Pires do Rio, desde 2004,

    com atuao na rea de Estudos Literrios.

    http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/

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    empregando elementos audiovisuais e efeitos tcnicos, como ressalta Martin (2003):

    movimentos de cmera (travellings), som interno subjetivo, voz em off, msica, silncio,

    entre outros.

    Ao mesmo tempo em que o cinema entretm, pode colaborar na informao e na

    formao do sujeito, pois expressa determinado modo de percepo da realidade. O acesso a

    produes cinematogrficas de boa qualidade, por serem produtos culturais e representativos

    de certas pocas, leva o receptor a desenvolver uma postura crtica, convidando-o a refletir

    sobre arte e realidade, sobre processo de criao e objeto artstico.

    Considerando esses apontamentos, este texto analisa Hiroshima Mon Amour,

    primeiro longa-metragem realizado por Alain Resnais, divulgado em 1959, e cin-roman

    (primeiro roteiro e dilogos) de Marguerite Duras, publicado em 1960. Para tanto,

    fundamenta-se no mtodo de Literatura Comparada apresentado por Jeanne-Marie Clerc em

    seu texto A literatura comparada face s imagens modernas: cinema, fotografia, televiso

    (2004). Segundo a autora, a Literatura Comparada consiste em um mtodo interdisciplinar por

    permitir o estudo de diferentes formas de expresso artstica como o caso de literatura e

    cinema.

    Ao comparar semioses literria e flmica, Clerc (2004) traz uma nova concepo dos

    estudos comparados que justifica a intertextualidade entre literatura e cinema, visto que

    ambos so produtos culturais e no apresentam hierarquia de uma linguagem sobre a outra,

    mas sim estabelecem uma relao de complementaridade. Em outros termos, sob nenhuma

    circunstncia, no se deve conceber o filme que dialoga com um texto literrio como mera

    adaptao, mas sim como uma criao artstica, um trabalho de construo potica.

    Alm disso, conforme Nunes (1988), tanto a literatura quanto o cinema se servem do

    cdigo narrativo cujo requisito de representao da ao se relaciona ao tempo. Nesse sentido,

    Pellegrini (2003) distingue que as sequncias temporais na literatura se do com palavras e,

    no cinema, com imagens. No entanto, o texto literrio e o filme sofrem uma influncia mtua,

    realizam trocas essenciais para suas renovaes, por isso, a intercorrncia dos procedimentos

    de representao por meio da imagem [...], pouco a pouco, veio acentuando sua influncia na

    forma narrativa literria (PELLEGRINI, 2003, p. 18).

    Isso , sobretudo, observado na literatura francesa da segunda metade do sculo XX

    com o surgimento do cin-roman (cinema-romance ou romance cinematogrfico). Trata-se de

    um fenmeno cultural moderno que exibe o entrecruzamento de vrios sistemas semiticos

    como, por exemplo, romance, teatro e recursos cinematogrficos, dando, por sua vez, o

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    carter de um compsito ao cinema. Acresce-se a isso que no caso do cin-roman Hiroshima

    Mon Amour, um produto da escrita lrica de Marguerite Duras, manifesta-se a poesia como

    feio particular.

    A tessitura do texto literrio em dilogo com o cinema, segundo Pellegrini (2003),

    sofre transformaes no que se refere ao modo de percepo do mundo e traz uma conexo

    entre o texto escrito e a linguagem visual e auditiva. Portanto, a narrativa flmica oferece a

    possibilidade de visualizar a narrativa literria que tambm imagtica e vice-versa. Diferente

    do que ocorre tradicionalmente, a publicao do livro de cin-roman por editora posterior ao

    filme e reflete a complexidade do movimento das palavras imagem e da imagem s

    palavras, conforme afirma Clerc (2004).

    Dessa forma, ao tratar do cin-roman e do filme Hiroshima Mon Amour, constata-se

    que predominam as semelhanas e no as diferenas no que se refere histria contada: nelas

    h a hipertextualidade que , conforme Genette (1982), toda relao que une um texto B

    (nomeado hipertexto) a um texto A (chamado hipotexto). Une-as o fato de que a narrativa

    visual imbrica-se narrativa verbal, similar a uma traduo.

    Fato histrico e Literatura

    Com o propsito de atender encomenda das produtoras Argos Films, Como Films,

    Daiei Motion Picture Company Ltd e Path Oversas Productions de Frana e Japo, em

    princpio, o filme realizado por Resnais deveria ser um documentrio sobre a tragdia da

    cidade de Hiroshima, cenrio de exploso da primeira e mais devastadora bomba atmica, e

    gerar repercusses no pblico-receptor no perodo ps-guerra em que o mundo

    contemporneo vivia: o clima de Guerra Fria provocado pela oposio das duas

    superpotncias que emergiram aps a Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e Unio

    Sovitica, e a sensao de um iminente conflito (MERTEN, 2005; HOBSBAWM, 1995).

    O documentrio contaria com o roteiro de Chris Marker. No entanto, este desistiu da

    tarefa e Resnais, ao decidir no mais apresentar um registro documental dos fatos histricos

    por no querer repetir Nuit et Brouillard e depois de pensar nas escritoras Franoise Sagan e

    Simone de Beauvoir, contatou Marguerite Duras. A ideia de Resnais era contrastar uma

    histria individual (centrada no amor) coletiva, advinda do massacre nuclear. Assim,

    Resnais pediu a Duras um roteiro em que o passado fosse evocado atravs de um monlogo

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    lrico memorativo. A partir dessas indicaes, Duras escreveu a sinopse e trabalhou o material

    anteriormente filmado no Japo.

    Levando em considerao a paratextualidade que, de acordo com Genette (1982, p.

    8), o segundo tipo de transtextualidade, o qual se constitui pela relao, geralmente menos

    clara e mais difusa, que o texto propriamente dito mantm com aquilo que se pode apenas

    nomear de seu paratexto (ttulo, subttulo, prefcio), observa-se que Duras, no Prlogo de seu

    livro, esclarece que o roteiro foi resultado das conversaes quase dirias que aconteciam

    entre ela, Alain Resnais e Gerard Jarlot (consultor literrio de Hiroshima Mon Amour) e, se

    fizesse unicamente um documentrio, significaria a restrio da imaginao criadora. Desse

    modo, a escritora justifica a opo por criar uma histria de amor e perda, colocando no cerne

    do enredo a angstia do indivduo. Isso possibilitou Duras a explorao da liberdade criativa

    e a ousadia que, por seu experimentalismo, provoca certo estranhamento no leitor/espectador.

    Ainda, como escreveu Duras no Prlogo, por exemplo, o anexo As evidncias

    noturnas notas sobre Nevers no fazia parte do roteiro inicial e Resnais pediu-lhe para

    fornecer o material sob a forma de comentrios, como se estivesse respondendo a visualizao

    de cenas j filmadas. Posterior montagem da pelcula, alm do anexo mencionado, o roteiro

    e os dilogos de Hiroshima Mon Amour foram publicados como cin-roman pela Editora

    Gallimard, organizados em cinco partes exatamente como a continusta Sylvette Baudrot

    organizou o filme em cinco atos. Dessa maneira, tanto o filme quanto o roteiro resultaram-se

    de um processo intenso de recprocas trocas.

    A histria comea com dois corpos entrelaados. Na cena, ambos esto cobertos por

    cinzas que remetem atrocidade da bomba atmica lanada em Hiroshima. Pouco a pouco,

    tais corpos ganham a forma saudvel e o p atmico convertido no suor dos amantes

    adlteros. Trata-se de uma mulher francesa e de um homem japons que, no quarto de hotel,

    em uma cena de amor, dialogam tanto sobre os horrores da guerra na cidade japonesa quanto

    sobre assuntos frvolos.

    A francesa uma atriz da cidade de Nevers est em Hiroshima para as gravaes

    de um filme sobre a Paz e, na vspera de seu retorno a Paris, estabelece uma relao amorosa

    de uma noite com um japons (cuja famlia havia morrido devido bomba nuclear). Este

    homem arquiteto insiste para que ela no o abandone. Entretanto, negando a paixo do

    presente, a francesa lhe confidencia as lembranas de seu passado, visto que este

    relacionamento a faz lembrar-se de seu primeiro amor ocorrido aos 18 anos de idade o

    Soldado alemo (de 23 anos) morto durante a Segunda Guerra Mundial e do tratamento

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    punitivo imposto a ela pela sociedade que movida pelo sentimento nacionalista consideram-na

    traidora por se envolver com um inimigo da Frana. A jovem foi isolada em um poro por

    determinado tempo, bem como obrigada a deixar Nevers (aos 20 anos de idade) e ir para a

    capital, onde se sensibilizou com as recentes notcias sobre a tragdia nuclear, razo pela qual

    despertou nela o desejo de ver as condies da cidade devastada.

    H experimentalismo porque, segundo Duras no Prlogo, o lugar mais improvvel

    para o desenvolvimento de uma aventura amorosa seria, poca, a cidade de Hiroshima,

    espao para aclamao da Paz Mundial que, inclusive, era a razo de a atriz francesa estar na

    cidade. Na voz da protagonista Ela, um filme produzido em Hiroshima s poderia ser pela

    Paz, crtica implcita a essa recorrente forma de tratar o assunto bomba atmica (DURAS,

    1960, p. 53). Essa atitude irnica de afirmar para negar, conforme explica Mohsen (1998), em

    Hiroshima Mon Amour circunscreve a noo de que a destruio atmica de Hiroshima e as

    consequncias psicolgicas do conflito mundial so impossveis de serem adequadamente

    representadas por um documentrio, mas sim se forem mediadas pela experincia humana de

    amor e morte.

    Duras demonstra a capacidade de urdir uma trama que resulta do reflexo da situao

    de ps-guerra no homem, o qual se torna indeciso, angustiado, envolvido por uma atmosfera

    de dvida quanto s prospectivas e que, incapaz de lidar com sua condio atual, prefere a

    evaso. Como uma ab-reao, a protagonista Ela recorre memria, volta ao seu passado,

    centra-se em sua individualidade, evocando uma realidade que se constri no processo de

    narrao e que dialoga com o presente, pois, conforme Huneman (2004), o filme encena a

    presena do passado no presente. Especialmente, Duras favorece ao gosto pessoal de Resnais

    por criaes com base no trabalho com a memria. De acordo com Merten (2005, p. 167),

    Resnais usava Eisenstein para filtrar Marcel Proust. Sua busca do tempo perdido foi saudada

    como um marco.

    Pensando nos dilogos literrios criados por Duras, convm salientar que as relaes

    entre literatura e fato histrico tm destacado a contribuio de vertentes historiogrficas

    baseadas em estudos da memria, sublinhando a dimenso simblica e subjetiva do homem,

    bem como sua experincia, seja individual ou coletiva. White (2001) evidencia que nos

    escritos do historiador, embora se tenha o objetivo de cientificidade, h o elemento imaginrio

    pelo aproveitamento de recursos estilsticos; o texto literrio, por sua vez, como objeto

    esttico favorece a compreenso do mundo e do homem. Nesse sentido:

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    [...] O romancista pode apresentar a sua noo desta realidade de maneira indireta,

    isto , mediante tcnicas figurativas, em vez de faz-lo diretamente, ou seja,

    registrando uma srie de proposies que supostamente devem corresponder detalhe

    por detalhe a algum domnio extratextual de ocorrncias ou acontecimentos, como o

    historiador afirma fazer. Mas a imagem da realidade assim construda pelo

    romancista pretende corresponder, em seu esquema geral, a algum domnio da

    experincia humana que no menos real do que o referido pelo historiador

    (WHITE, 2001, p. 138).

    Nessa perspectiva, White (2001, p. 142) aponta que poetizar representa um modo de

    prxis que serve de base imediata para toda atividade cultural (sendo esta tanto uma ideia de

    Vico, Hegel e Nietzsche, quanto de Freud e Lvi-Strauss), e at mesmo para a cincia.

    Devido ao ato de poetizar, nota-se que Duras pretende oferecer um diferente modo de ver as

    atrocidades geradas pelo homem contra seu semelhante, apesar de questionar o sentido das

    coisas no mundo e criticar a utilizao dos avanos tcnico-cientficos.

    A escritora reconta a Histria por sublinhar nela suas consequncias na histria de

    Ela, contrapondo o drama coletivo (universal) ao drama individual, delineando o sofrimento

    humano. Prova disso, na primeira parte da obra, mostram-se os corpos mutilados cobertos de

    cinza atmica e, depois, cobertos de suor. Essa cena sugere a dor dos corpos de Hiroshima, em

    oposio ao prazer dos corpos dos amantes, tanto para mostrar a indiferena quanto a aceitao

    do homem de que a vida continua. Dessa maneira, demonstra-se o carter representativo da

    cidade de Hiroshima que o da resistncia e, paradoxalmente, fazer bem e mal. A

    protagonista Ela expe: As mulheres...

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