Lógica Dialética e O Capital: as formas e o conteúdo nos ...· Para uma ontologia do Ser Social,

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  • Lgica Dialtica e O Capital: as formas e o contedo nos ciclos do

    capital

    Dialectical logic and Das Kapital: the forms and content in the capital

    cycles

    Rodrigo Siqueira Rodriguez1

    Juliana Teixeira Brasileiro2

    Resumo

    A primeira seo do Livro II de O Capital um dos principais momentos em que Marx

    expe de maneira mais sistemtica a dialtica entre forma e contedo do capital, ainda

    em um elevado nvel de abstrao. Essa exposio dialtica consiste em desdobramentos

    da prpria lgica funcional inerente a cada forma assumida e transmutada pelo capital,

    como o dinheiro, a mercadoria e a produo. A constituio lgica das formas assumidas

    pelo capital submetida constituio histrica desses objetos, por isso, as categorias

    que constituem a circulao capitalista podem ser consideradas lgico-histricas. Esse

    artigo tem como objetivo apresentar detalhadamente a exposio dialtica presente na

    primeira seo do Livro II de O Capital e dissertar com base em fragmentos dessa seo

    sobre duas interpretaes da filosofia marxiana: a apresentada por Gyrgy Lukcs em

    Para uma ontologia do Ser Social, que contempla uma interpretao mais abrangente da

    relao entre a lgica e a histria, e a concepo apresentada por Chris Arthur em The

    New Dialectic and Marxs Capital, que secundariza o papel da histria nas categorias.

    Palavras-chave: O Capital, Nova Dialtica, Lukcs, lgica dialtica

    Abstract

    The first section of Capitals second book is one of the main moments in which Marx

    exposes in a more systematic way the dialectic between capitals form and content, still

    at a high level of abstraction. This dialectical exposition consists of unfolding the

    functional logic inherent in each form assumed and transmuted by capital, such as money,

    commodity, and production. The logical constitution of the forms assumed by capital is

    submitted to the historical constitution of these objects, therefore, the categories that

    constitute the capitalist circulation can be considered logic-historical. This article aims

    to show in detail the dialectical exposition present in the first section of Capital's second

    book and discuss, based on fragments from this section, two interpretations of Marxian

    philosophy: the one presented by Gyrgy Lukcs in The Ontology of Social Being, which

    contemplates a more comprehensive (extensive, ample, wide) interpretation of the

    relation between logic and history and a conception presented by Chris Arthur in The New

    Dialectic and Marx's Capital, which the role of history in the categories gets a second

    place (is second, is in the background).

    1 Doutorando em economia no PPGE/UFF.

    2 Mestranda em economia no PPGE/UFF.

  • Keywords: Capital, New Dialetics, Lukcs, dialectical logic

  • 1. Introduo

    A primeira seo do Livro II uma ilustrao singular do movimento contraditrio

    contnuo do prprio objeto, o capital. O porqu de se dedicar ao Livro II sobre o tema, e

    no ao Livro I de O Capital justificado em seu prprio subttulo: o processo de

    circulao do capital. O movimento do capital o tema abordado no Livro II e, para isso,

    Marx faz as abstraes necessrias para compreend-lo3, e pretende elucidar como o

    capital enquanto totalidade assume formas que viabilizam o seu movimento.

    O estudo do capital do Livro I para o estudo das formas do capital no Livro II

    podem indicar que as abstraes necessrias no segundo livro so menos abstratas que

    do primeiro, ou seja, que Marx est se encaminhando para as formas mais concretas do

    livro terceiro. Esta afirmao verdadeira, Marx parte desde a primeira frase de O capital

    da forma mais abstrata (mercadoria) com intuito de desenvolver posteriormente seus

    elementos mais concretos. Entretanto, apesar dos ciclos do capital serem uma etapa

    necessria para avanar posteriormente na elucidao do concreto, o nvel de abstrao

    dos ciclos muito semelhante ao do livro I, com exceo das peculiaridades abstrativas

    necessrias para entender o movimento sucessivo do capital e a interao entre os capitais.

    Marx inicia a apresentao do movimento a partir da elucidao de diferentes

    ticas pela qual se pode observ-lo. O capital em movimento, ou dinmico, est limitado

    por suas formas, que so apresentadas sob as categorias capital-dinheiro, capital-

    produtivo e capital-mercadoria. primeira vista, tais formas parecem tratar de uma

    particularizao de diferentes capitais, um tipo de capital especializado em comrcio de

    dinheiro, um em produzir e um em comercializar mercadorias. Essa concepo no condiz

    com o desdobramento categorial de interesse: compreender como no movimento D-M-

    D os respectivos componentes assumem a funo caracterstica de capital. Considera-se

    nesta seo o capital em sua totalidade, abstrado de suas concrees, como as

    identificadas no livro III (o capital bancrio, financeiro e comercial). Sua origem e

    3 Para apreender as formas em sua pureza, mister antes de mais nada abstrair de

    todos os fatores que nada tm a ver essencialmente com a mudana e a produo das

    formas. Suporemos, por isso, que as mercadorias se vendem pelo seu valor e que essas

    vendas se realizam em circunstncias invariveis. Demais, no levaremos em conta as

    variaes de valor que podem ocorrer durante o processo cclico. (MARX, 1984, p.28)

  • relevncia consiste no carter social adquirido, em particular, do dinheiro, da mercadoria

    e da produo na funo de capital total.

    O capital o valor que se valoriza continuamente, seja em sua gerao na

    produo ou em sua realizao na circulao, devendo obrigatoriamente estar em ambos,

    simultaneamente, caracterizando a unidade de contrrios. O contedo, aqui o capital,

    permanece em meio mudana, independente da complexidade da concretude4. As

    formas do capital estudadas nessa seo mistificam o contedo, a partir de sua

    manifestao aparente. Essas formas no necessariamente precisam ser fenomnicas.

    Podem ser formas distorcidas na aparncia. Ao menos no nvel de abstrao em que Marx

    se encontra, a questo no como a forma aparece, mas sim a lgica pertinente de cada

    forma abstrata que o capital deve assumir. As formas cclicas do capital, portanto, no

    so um mero tratamento da aparncia do capital. Essa explanao se torna necessria pois

    no difcil associar forma aparncia e contedo essncia. Se a essncia o valor, as

    formas do capital s podem ser formas essenciais, formas que o capital assume para

    efetivar sua lgica.

    A prpria categorizao das formas por Marx corrobora esse aspecto. Os ciclos

    do capital-dinheiro, capital-mercadoria e capital-produtivo tm em si o capital como

    contedo. Nas formas da aparncia, o capital pode estar lubridiando, aparecendo como

    dinheiro onde capital-dinheiro, aparecendo como mercadoria onde capital-mercadoria,

    aparecendo como produo onde capital-produtivo. As formas aparentes do capital,

    portanto, so o dinheiro, a mercadoria e a produo, que ocultam suas formas essenciais,

    isto , suas formas. Um termo adequado para caracterizar as formas o termo funo. Se

    trata da mercadoria, do dinheiro e da produo funcionando como capital. A qualidade de

    tais categorias exercerem uma funo prpria revela a presena da dialtica entre o

    universal, quando exerce seu carter independente do capital, daquilo em sua natureza, e

    o particular, quando sua funo estranhada pelo capital5.

    4 A substncia, enquanto princpio ontolgico da permanncia na mudana, decerto perdeu seu

    velho sentido de anttese excludente em face do devir, mas obteve uma validade nova e mais profunda, j

    que o persistente entendido como aquilo que continua a se manter, a se explicitar, a se renovar nos

    complexos reais da realidade, na medida em que a continuidade como forma interna do movimento do

    complexo transforma a persistncia abstrato-esttica numa persistncia concreta no interior do devir.

    (LUKCS, 2012, p. 340-341) 5 H um exemplo dessa questo no incio do Livro II, ao tratar do dinheiro: Nessa

    forma encontra-se o capital em situao em que pode realizar as funes de dinheiro como

    as desempenhadas no presente caso, a saber, a de meio geral de compra e a de meio geral

  • A crtica de Arthur (2004) estabelece que desde a primeira sentena de O Capital,

    Marx trata do capital, e no de estgios histricos do desenvolvimento do sistema

    capitalista de produo (ARTHUR, 2004, p.17). Neste aspecto, razovel concordar

    com a afirmao de Arthur (2004, p.18) de que a obra de Marx trata do capital desde o

    comeo, o mesmo objeto, e que se segue um desenvolvimento de formas mais abstratas

    para formas mais concretas ao longo dos trs livros. valido afirmar, para garantir ainda

    mais nfase neste aspecto, que as formas abstratas esto contidas nas formas concretas,

    que as formas simples esto contidas nas formas completas, e que o desenvolvimento6

    categorial a complexificao lgica do objeto, no mera evoluo histrica.

    O correto equvoco da interpretao da obra como uma evoluo histrica no

    significa, por outro lado, estar de acordo com uma interpretao sistemtica da obra, como

    a que Chris Arthur defende em The New Dialectic and Marxs Capital. Essa perspectiva,

    que o argumento central de defesa do movimento conhecido como Nova Dialtica,

    consiste em defender que a concepo do mtodo de Marx como lgico-histrico uma

    confuso interpretativa de Engels, que no conseguiu compreender a distino entre a

    dia