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Nº 5 ǀ janeiro-junho de 2016 - Revista Acesso Livre ... · conceito de crise na disciplina histórica ... ressaltando a importância da elaboração de políticas públicas voltadas

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  • N 5 janeiro-junho de 2016

    ISSN 2319-0698

    Editora Responsvel

    Renata dos Santos Ferreira

    Editor Assistente

    Thiago Cavaliere Mourelle

    Reviso e Diagramao

    Renata dos Santos Ferreira

    Capa

    Adriana Cox Holls

    Renata dos Santos Ferreira

    Conselho Editorial

    Adriana Cox Holls

    Carlos Frederico Coelho da Silva Bittencourt

    Leonardo Augusto Silva Fontes

    Luiz Salgado Neto

    Renata dos Santos Ferreira (Presidente)

    Rodrigo Aldeia Duarte

    Thiago Cavaliere Mourelle

    Conselho Consultivo

    Alex Alexandre Molinaro (Fiocruz)

    Aluf Alba Vilar Elias (UFRJ)

    Brenda Couto de Brito Rocco (Arquivo

    Nacional)

    Biancca Scarpeline de Castro (UFRRJ)

    Cndida Fernanda Antunes Ribeiro (Univ. do

    Porto)

    Carlos Fico da Silva Jnior (UFRJ)

    Ceclia Maria Bouas Coimbra (GTNM-RJ)

    Cibele Vasconcelos Dziekaniak (FURG)

    Ciro Marcondes Filho (USP)

    Daniel Flores (UFSM)

    Dnis Roberto Villas Boas de Moraes (UFF)

    Diego Barbosa da Silva (Arquivo Nacional)

    Fbio Koifman (UFRRJ)

    Francisca Deusa Sena da Costa (TRT 11 Regio)

    Helosa Esser dos Reis (UFG)

    Izabel Cristina Gomes da Costa (UCAM)

    Jane Felipe Beltro (UFPA)

    Jos Maria Jardim (UNIRIO)

    Juliana Fiza Cislaghi (UERJ)

    Karla Guilherme Carloni (UFF)

    Ktia Maria Ribeiro Motta (Pedro II)

    Leandro Jos Luz Riodades de Mendona (UFF)

    Lia Ramos Jordo (Biblioteca Nacional)

    Lvio Sansone (UFBA)

    Lcia de Ftima Guerra Ferreira (UFPB)

    Luciana Quillet Heymann (FGV-RJ)

    Luclia Maria Sousa Romo (USP)

    Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros (UERJ)

    Mara Torres Corra (IPHAN)

    Marcelo Badar Mattos (UFF)

    Mira Lini Marconsin Caetano (UFF)

    Orlando de Barros (UERJ)

    Paulo Cavalcante de Oliveira Jnior (UNIRIO)

    Paulo Victor Leite Lopes (UFRJ)

    Rafael Simone Nharreluga (Arquivo Histrico de

    Moambique)

    Rosanara Pacheco Urbanetto (UFSM)

    Sylvia Debossan Moretzsohn (UFF)

    Vera Lcia Boga Borges (UNIRIO)

    Victria Lavnia Grabois Olmpio (GTNM-RJ)

    Vinicius Mitto Navarro (SEDUC-RS)

    Viviane Gouva (Arquivo Nacional)

    ACESSO LIVRE uma publicao eletrnica

    semestral da Associao dos Servidores do

    Arquivo Nacional ASSAN.

    Diretoria binio 2015-2016

    Presidente: Eduardo de Oliveira Lima

    Vice-presidente: Ana Carolina Reyes

    Secretria: Helba Maria da Silva Mattos Porto

    de Oliveira

    Tesoureiro: Leandro Hunstock Neves

    Suplentes: Carlos Frederico Coelho da Silva

    Bittencourt e Bruno Duarte dos Santos

    Praa da Repblica, 173, bloco E, trreo

    Centro Rio de Janeiro RJ CEP 20211-350 Tel.: (55-21) 3203-5885

    https://revistaacessolivre.wordpress.com

    [email protected]

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    2 Sumrio

    Apresentao .............................................................................................................................. 3

    Luiz Salgado Neto

    Dossi Crises no Brasil e no Mundo Contemporneo

    1. Crise do trabalho hoje: desenvolvimento tecnolgico, instabilidade do emprego

    e crise do capitalismo ................................................................................................................. 6

    Maurilio Lima Botelho

    2. Interdependncia temporal e sintomas crsicos: Uma anlise da ideia de crise no

    pensamento histrico contemporneo ...................................................................................... 25

    Gabriel Fernandes Barbosa Sanchez

    3. O fenmeno da crise na Zona do Euro (2008-2010) ................................................................ 39

    Maria de Ftima Silva do Carmo Previdelli

    4. Crise econmica: fatos em uma histria de valores-notcia no jornalismo brasileiro .............. 73

    Maria Lcia de Paiva Jacobini

    5. A outra face da crise: a importncia do setor do saneamento no contexto

    da escassez hdrica .................................................................................................................... 88

    Renata de Souza Leo, Mariana Gutierres Arteiro da Paz e Juliana Cassano Cibim

    6. Migrao haitiana para o Brasil: problemtica e perspectivas .............................................. 106

    Viviane Mozine Rodrigues e Vinicius Francisco Marchese

    7. Experincia de liberdade e tentativas de normatizao no Rio de Janeiro recentemente

    emancipado da escravido e republicano ................................................................................ 125

    Alline Torres Dias da Cruz

    8. A educao ambiental na crise ecolgica contempornea .................................................... 146

    Antonio Soler e Eugnia Antunes Dias

    Artigos Livres

    9. Contribuio integrada entre gesto documental e inteligncia competitiva

    nas organizaes ..................................................................................................................... 165

    Las Pereira de Oliveira

    10. Acessando o passado e redescobrindo a Marinha Imperial: o projeto descrio

    dos documentos da Secretaria de Estado e Negcios da Marinha no sculo XIX ....................... 187

    Wagner Luiz Bueno dos Santos

    11. O serto brasileiro e o conceito de civilizao e barbrie no imaginrio

    social do sculo XIX ................................................................................................................. 200

    Cesar Augusto Neves Souza

    12. Jos Honrio Rodrigues: uma historiografia para o tempo presente ................................... 214

    Luiz Antonio Albertti

    Resenha

    13. Por uma nova experincia do tempo moderno ................................................................... 237

    Giselle Pereira Nicolau

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    3 Apresentao

    com grande prazer que apresentamos mais uma edio da Revista Acesso

    Livre. Dando continuidade ao nosso propsito de refletir de forma crtica sobre o Brasil

    e o mundo, trazemos ao nosso pblico leitor um dossi dedicado a uma pauta que tem

    ocupado as manchetes da grande mdia e dominado anlises acadmicas e debates

    polticos neste momento: crise.

    No h quem no seja atingido pela torrente de reportagens na imprensa e por

    uma profuso de anlises sobre a crise econmica no Brasil. Em geral, analistas e

    jornalistas sugerem que a crise vivida pelos brasileiros uma das mais graves pelas

    quais o pas j passou. Tendo essa percepo em mente, apresentam tendncias e as

    mais variadas sugestes de como poderamos sair dessa condio indesejvel. No

    entanto, por mais diversificadas que sejam, a maioria das anlises carece de

    profundidade e no se sustenta diante de uma reflexo crtica.

    Por outro lado, a noo de que o Brasil e o mundo vivem em constante estado de

    crise tem mostrado que os campos a que o termo se aplica ultrapassam em muito os

    limites de uma crise puramente econmica. So apontadas crises em variados mbitos:

    crise poltica, crise de representatividade, crise de confiana...

    Alm disso, saindo do mundo poltico e econmico e adentrando a esfera

    acadmica, muitos analistas avaliam que vivemos em um tempo de crise em certos

    campos de conhecimento. Tais crises ocorrem em disciplinas h muito estabelecidas que

    devem, em um momento de questionamentos sobre seus fundamentos, dar respostas e

    demonstrar sua efetividade em interpretar e explicar uma esfera da realidade humana.

    Nesse sentido, diante da disseminao da noo de crise, o propsito dessa

    edio ampliar o olhar e ultrapassar as barreiras temporais, geogrficas e temticas.

    Isto , apresentar crises que ocorreram na poca contempornea desde fins do sculo

    XVIII e no apenas no nosso presente mais imediato; no mundo e no apenas no

    Brasil; e nas mais variadas esferas no apenas na economia.

    Ao propormos anlises, discusses e reflexes sobre as Crises no Brasil e no

    mundo contemporneo, desejamos levantar um debate sobre variados processos de

    crise e sobre como somos levados a enxergar crises especficas. O objetivo pensar

    sobre outras crises para que no aceitemos sem questionar no que divulgado na grande

    mdia ou nas anlises de especialistas.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    4 Com isso, o presente dossi caracterizado por um olhar plural e abrangente,

    que retira o foco excessivo que tem sido dado crise econmica no Brasil, nos levando

    a enxergar que as crises so parte do mundo contemporneo. Assim, esse dossi conta

    com contribuies valiosssimas, que contemplam um campo amplo de temas.

    Em uma dessas contribuies, podemos contar com uma anlise apurada sobre a

    crise do trabalho. Em seu artigo, Maurilio Lima Botelho busca articular sua discusso

    ao debate mais profundo sobre a crise da prpria sociedade do trabalho. J Maria de

    Ftima Silva do Carmo Previdelli discute a crise na Zona do Euro e como as propostas

    de soluo calcadas em medidas austeras se encaminham ao desmonte das estruturas de

    proteo ao trabalhador nos pases mais frgeis da Zona do Euro. O dossi conta

    tambm com uma contribuio de relevo para o debate sobre o prprio conceito de

    crise, no artigo de Gabriel Fernandes Barbosa Sanchez, em que o autor analisa o

    conceito de crise na disciplina histrica tal como difundida na segunda metade do

    sculo XX.

    Por outro lado, to importante quanto analisar crises em si a discusso a

    respeito de como uma crise noticiada. Esse debate est presente no artigo de Maria

    Lcia de Paiva Jacobini, em que a autora analisa como o jornalismo brasileiro percebeu

    a crise econmica mundial. Para compor sua anlise, a autora se vale de reflexes

    tericas sobre como fatos se tornam notcias e sobre a presena da economia no

    jornalismo, alm de dialogar com pensadores que refletiram criticamente sobre o

    contexto de crise.

    O dossi conta tambm com uma anlise importantssima sobre a crise hdrica

    que tem acometido partes do estado de So Paulo nos ltimos anos. Ampliando as

    discusses sobre a escassez hdrica, Renata de Souza Leo, Mariana Gutierres Arteiro

    da Paz e Juliana Cassano Cibim discutem o assunto pela perspectiva do saneamento,

    ressaltando a importncia da elaborao de polticas pblicas voltadas a garantir o uso

    sustentvel da gua.

    J o artigo de Viviane Mozine Rodrigues debate um tema de grande importncia

    humanitria e que requer um posicionamento decidido por parte de autoridades e da

    sociedade civil brasileira. A autora discute a migrao haitiana para o Brasil em um

    contexto de crise generalizada no Haiti poltica, econmica, ambiental e humanitria

    e a integrao problemtica dos haitianos recm-chegados ao Brasil.

    Por sua vez, o artigo de Alline Torres Dias da Cruz aborda os problemas

    habitacionais que acometiam a populao mais pobre do Rio de Janeiro no incio do

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    5 sculo XX, no que se constitua em uma grave crise social e sanitria na cidade. A

    autora analisa as diversas formas de construir e modos de morar no Rio de Janeiro logo

    aps o fim da escravido e instituio da Repblica, abrindo uma discusso sobre as

    ideias e prticas de saneamento da capital do pas.

    J o Antonio Soler e Eugnia Antunes Dias chamam a ateno para a crise

    ecolgica enquanto consequncia de uma percepo arraigada sobre a necessidade de

    um crescimento econmico ilimitado. Os autores apresentam uma discusso relevante

    sobre como o mercado capitalista dialoga com uma situao de crise para expandir-se,

    por meio de variados mecanismos de adaptao.

    Por fim, alm do dossi que contempla um vasto repertrio de anlises e

    abordagens, essa edio de Acesso Livre conta tambm com artigos livres

    interessantssimos, que debatem questes de diferentes reas do conhecimento.

    Boa leitura a todos!

    Luiz Salgado Neto

    Membro do Conselho Editorial da Revista Acesso Livre.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    6

    Resumo: O artigo procura retomar o tema da crise do trabalho discutindo trs

    dimenses: o papel do desenvolvimento tecnolgico na eliminao de postos de

    trabalho; a constante transformao nos processos produtivos que cria instabilidade no

    emprego e a improdutividade progressiva da fora de trabalho mundial. Essas reflexes

    so a base para uma discusso mais ampla sobre a crise da sociedade do trabalho, isto ,

    a contradio estrutural que enfrentamos hoje de uma sociedade que tornou o trabalho

    como mecanismo bsico de socializao, mas mobiliza todos os meios para elimin-lo.

    Palavras-chave: Crise da sociedade do trabalho; desemprego; trabalho improdutivo.

    Labor crisis today: technological development, employment instability and crisis of capitalism

    Abstract: The article takes up the theme of crisis of work discussing three dimensions:

    the role of technological development in the elimination of jobs; the constant change in

    the productive processes that creates instability in employment and the

    unproductiveness progressive of the global workforce. These reflections are the basis

    for a discussion on the crisis of the work society, that is, the structural contradiction we

    face today a society that put the work as a basic mechanism of socialization but

    mobilize all means to eliminate it.

    Keywords: Crisis of the work society; unemployment; unproductive labor.

    mais de uma dcada, a discusso sobre a crise da sociedade do trabalho

    foi relegada, no Brasil, ao quarto de despejo da teoria social. A profunda

    crtica dirigida ao papel central ocupado pelo trabalho tanto na filosofia e

    cincia burguesas (liberalismo, protestantismo e economia poltica) quanto na teoria

    socialista (marxismo) foi descartada como erro de interpretao. A ideia de crise do

    H

    Maurilio Lima Botelho Doutor em Cincias Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e

    Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Professor

    adjunto no Departamento de Geocincias da UFRRJ.

    Crise do trabalho hoje: desenvolvimento

    tecnolgico, instabilidade do emprego e

    crise do capitalismo

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    7 trabalho seria uma impossibilidade objetiva, j que o trabalho seria a prpria relao

    eterna homem e natureza. A ontologia serviu como fundamento irrefutvel para a

    renncia a uma crtica radical da sociedade burguesa. Mas a rejeio no se restringia ao

    plano terico, pois as agruras de um mercado de trabalho cada vez mais reduzido,

    restrito e seletivo eram tachadas como impresso equivocada: a instabilidade do

    mercado de trabalho seria uma constante na histria capitalista. Com isso, as prprias

    singularidades de nossa poca passaram a ser ignoradas.

    Agora se chega ao fundo histrico de toda essa rejeio: os anos de espetculo

    de crescimento serviram de iluso queles que ainda confiavam no pas do futuro e

    no desenvolvimento nacional at mesmo intelectuais crticos da economia de

    mercado se renderam s fantasias do curto ciclo de ascenso fictcia, acreditando que os

    ndices manipulados do mercado de trabalho teriam liquidado essa discusso. No resto

    do mundo, a linha interpretativa no seria diferente: os ciclos cada vez mais acelerados

    de ficcionalizao da riqueza tornaram secundria a discusso sobre a crise do trabalho.

    Relatrios anuais das organizaes internacionais, informes de sindicatos e institutos de

    pesquisa continuariam apresentando os ndices assustadores de destruio dos postos de

    trabalho, mas a euforia especulativa deixava essas informaes cobertas pelos ganhos

    imediatos nos mercados e pelas possibilidades abertas prpria administrao

    financeira do oramento pblico.

    A crise da economia mundial, retomada com fora aps o estouro da bolha

    imobiliria americana e seguida de uma desvalorizao acelerada das commodities,

    trouxe de volta a realidade incontestvel da crise do trabalho. Os ndices de desemprego

    saltaram novamente em todo o mundo e empregos temporrios inflados pelas finanas

    foram rapidamente descartados. No Brasil, enxergamos agora o esgotamento do modelo

    de direo financeirizada de um pretenso desenvolvimentismo nacional: em apenas um

    ano, o desemprego cresceu 41,5 %,1 chegando a 10,9 % e ultrapassando 11 milhes de

    indivduos procurando emprego.2 Mesmo mudanas na metodologia de aferio de

    desempregado ou a reduo da taxa de participao na fora de trabalho estimulada por

    polticas governamentais no foram capazes de segurar por muito tempo os ndices

    reduzidos de desemprego. Como o feitio de Dorian Gray, rapidamente a jovialidade e

    juventude desapareceram e o velho problema social da excluso voltou ordem do dia.

    1 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. 2 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    8 evidente que o rpido desmanche da economia brasileira com o esgotamento

    do projeto petista no governo central no deve ser visto como a vitria da sociedade de

    mercado. O malogro desse ciclo a demonstrao de que os limites do desenvolvimento

    capitalista no podem ser mobilizados voluntariamente por governos bem intencionados

    e, mais importante ainda, que a prpria estrutura social mantida intacta nesses anos deve

    ser encarada de modo crtico. Isso uma exigncia de qualquer teoria que no se rende

    positividade do mundo, mais ainda nesse momento em que a priso categorial ao

    horizonte estreito de administrao da crise deixou um quadro de devastao na teoria

    social. A rejeio a uma radical crtica da sociedade do trabalho foi levada frente

    inclusive por aqueles que, limitados por uma compreenso superficial da sociedade

    burguesa, se enraizavam nos mesmos marcos desta.

    A insistncia numa normalidade da sociedade do trabalho diante do quadro de

    decomposio acelerada s pode ser encarada como o sintoma desse autismo terico

    que nos prendeu a um apertado escaninho onde as polarizaes ideolgicas se anulam.

    A necessidade de superar esse reducionismo terico deve comear pela crtica da

    ideologia bsica de nossa sociedade, a ideologia do trabalho. Apenas a partir de uma

    reconstruo crtica do histrico de afirmao do trabalho como valor e pressuposto da

    vida social inclusive como elemento ontolgico de nossa sociedade, tal como

    prescreve uma certa linha marxista que os fundamentos dessa sociedade podem ser

    questionados. Infelizmente, no podemos fazer isso devido aos limites de nossa

    reflexo.

    Por isso nos limitaremos aqui a trs aspectos que consideramos importantes para

    demonstrar as razes da crise do trabalho: a progressiva substituio da fora de

    trabalho humano por mecanismos automticos de produo; a reorganizao dos

    processos produtivos que impe uma dinmica incessante de extino de postos de

    trabalho e a improdutividade crescente da fora de trabalho remanescente. Embora com

    um foco histrico-emprico, as discusses sero mediadas conceitualmente pela teoria

    do valor para que seus significados sociais mais profundos sejam ressaltados.

    A progressiva inutilidade da fora de trabalho

    H algum tempo que as informaes sobre a substituio da fora de trabalho

    humana por mquinas cada vez mais sofisticadas e robs ganham os noticirios

    econmicos. Entretanto, h ainda grande resistncia ideia de que isso implique em

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    9 impacto significativo sobre a disponibilidade de emprego, dado que o argumento mais

    utilizado que enfrentamos periodicamente apenas a substituio de tarefas com a

    incorporao de mquinas e robs no processo produtivo. A transferncia da fora de

    trabalho do processo produtivo para a manuteno dos operadores automticos ou para

    outros setores criados por essa mesma tecnologia seriam os caminhos mais comuns,

    tudo passando de mero deslocamento dos trabalhadores, no a sua eliminao.

    O problema que o uso de mquinas cada vez mais avanadas reduz a cada ano

    as exigncias em sua manuteno: as montadoras japonesas, por exemplo, j utilizam

    robs em suas linhas de montagem que passam trinta dias inteiros sem manuteno

    humana, trabalhando a pleno vapor e com intensa capacidade produtiva.3 Esse exemplo,

    embora possa ser considerado um dos mais avanados do ponto de vista da economia

    capitalista, significativo porque h dcadas a indstria automobilstica continua sendo

    a mais importante atividade econmica de nossa sociedade e num momento de crise

    mundial, onde a maior parte das montadoras enfrentam dificuldades econmicas

    gigantescas, salta aos olhos que as montadoras japonesas continuem sendo as nicas que

    operam com lucros.4 Pode-se presumir da que, conforme a teoria do valor tal como

    desenvolvida por Marx, as empresas que menos se utilizam de fora de trabalho

    humana, portanto as que menos adicionam valor reproduo geral do capital, so

    aquelas que mais captam a mais-valia socialmente produzida pelas demais.

    Esse exemplo extremo no significa de modo algum a impossibilidade de sua

    universalizao. Pelo contrrio, a avanada tecnologia tem generalizado a robtica

    como meio de produo: robs industriais avanados, que h poucos anos custavam

    milhares de dlares, so vendidos hoje a 150 mil dlares e utilizados por diversos tipos

    de indstrias. Graas ao barateamento, o volume anual de robs industriais sendo

    negociados saltou: em 2013 foram vendidas 179 mil unidades em todo o mundo, j em

    2014 ocorreu a venda de 225 mil robs.5

    O resultado dessa generalizao raramente avaliado de um ponto de vista

    terico e conceitual, muito menos integrado a uma teoria da reproduo econmica

    capitalista: um rob sendo vendido a pouco mais de 100 mil dlares no mercado 3 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. 4 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. 5 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. Ver tambm: . Acesso em: mai. 2016.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    10 mundial representa um impacto gigantesco sobre a economia do trabalho. Calcula-se

    que para a criao de cada posto de trabalho na indstria, em termos competitivos

    internacionais, seja necessrio um investimento de mais de meio milho de dlares.6

    Portanto, a reduo dos custos de produo de avanados mecanismos de produo

    automatizados apontam no apenas para uma realidade j dada a configurao de

    fbricas inteiras com um mnimo de uso de fora de trabalho humana mas indicam

    uma tendncia a se expandir.

    Esses nmeros se referem, evidentemente, apenas a robs, no tratam de

    computadores avanados, impressoras 3D, ferramentas e equipamentos cada vez mais

    sofisticados. E no tratam, principalmente, das chamadas mquinas ferramentas de

    controle numrico (MFCN), isto , mquinas industriais dotadas de ferramentas que

    possuem crebros eletrnicos acoplados. Esses novos meios de produo, desenvolvidos

    graas microeletrnica, so nada mais do que as antigas mquinas ferramentas

    industriais agora adicionadas de um computador e que podem ser programadas segundo

    as necessidades imediatas da produo, assim como seus braos-ferramentais podem ser

    alterados, removidos e modificados de acordo com o novo objetivo (PALLOIX, p. 81).

    Esse conjunto de elementos mostra a complexidade da estrutura produtiva

    contempornea e poderamos utilizar centenas de exemplos por todo o mundo de

    fbricas com o mnimo de empregados , mas preciso salientar como esse processo

    ultrapassa os marcos da indstria e avana para outros setores da economia. A

    agricultura industrializada tem feito uso de semeadoras e colheitadeiras automticas,

    mas at mesmo a direo desses veculos tem sido guiada por satlite, sem a

    necessidade de operadores humanos. Por outro lado, em lojas comerciais mquinas

    automticas de saque ou pagamento tm sido amplamente utilizadas. Mquinas de caf,

    quiosques eletrnicos para venda de alimentos, livros e gadgets, servio automticos de

    cobrana por meio de cartes bancrios... a lista de exemplos poderia continuar

    6 Segundo Norbert Trenkle (2000), para a criao de um nico emprego nas condies mdias do mercado mundial, na metade da dcada de 1990, seriam necessrios investimentos na ordem de 300 mil a um milho de dlares. Uma dcada depois, o economista Carlos Lessa (2006) calculava que, no patamar tecnolgico de ento, seriam necessrios 250 mil dlares para gerar um posto de trabalho de operrio. Um estudo de 2014, realizado a pedido do governo de Minas Gerais, calculava os investimentos mdios necessrios para a criao de emprego em diversos campos. Na indstria qumica seriam necessrios mais de dois milhes de reais para cada emprego gerado; na siderurgia, o volume de investimento estaria em torno de 200 mil reais. A mdia obtida em vrios setores para uma nica vaga criada seria de cerca de 280 mil reais. Contudo, possvel que o estudo estivesse subdimensionando os investimentos exigidos, j que citava a criao de empregos diretos e indiretos. Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    11 indefinidamente para as atividades comerciais. Entretanto, esse processo est longe de

    estar completo e, devido prpria natureza interna da revoluo tecnolgica no

    capitalismo onde a revoluo nos meios de produo se torna uma coero inevitvel

    devido coero da concorrncia (Marx) a tendncia futura de um

    aprofundamento assustador devido ampliao das aplicaes da robtica.

    A China, ainda considerada como cho de fbrica mundial e pas de

    concentrao do operariado industrial, vem realizando um esforo monumental de

    investimento em tecnologia automtica e robtica. J o mais importante mercado

    mundial de robs industriais e provavelmente ter superado em 2017 todos os pases do

    mundo em sua utilizao absoluta no processo produtivo. Mas a utilizao relativa ainda

    reduzida: existem apenas trinta robs para cada dez mil trabalhadores hoje na China,

    nvel baixo comparado Coreia do Sul, com 437 robs, ou o Japo e Alemanha, onde

    h respectivamente 323 e 282 robs para dez mil empregados.7

    Com a ampliao do uso de robs e o barateamento sistemtico de suas unidades

    robs de servio pessoal como o Baxter j so vendidos nos EUA a menos de 25 mil

    dlares e robs de limpeza domstica so comercializados popularmente na China e

    Japo por poucas centenas de dlares8 , os impactos sobre o emprego sero

    gigantescos. Calcula-se que, na velocidade atual de dispensa de operrios nas unidades

    industriais, os robs devam eliminar sessenta milhes de empregos at 2025, tornando

    ainda mais rara a figura do operrio fabril.9

    A permanente transformao dos postos de trabalho

    A viso do mundo sobre a China ainda aquela fixada nas indstrias que

    empregam uma volumosa fora de trabalho a custo baixssimo e longas jornadas.

    evidente que essa imagem ainda revela uma realidade incontestvel da estrutura

    produtiva chinesa, responsvel, em parte, pela desindustrializao de vrias economias

    ocidentais (em conjunto com a automatizao da produo) e pela inundao do mundo

    7 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. 8 Em 2012, trs milhes de robs de uso domstico e pessoal foram vendidos em todo o mundo. Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. 9 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    12 com mercadorias de todos os tipos e de baixo valor.10 Contudo, essa imagem parcial e,

    tal como a fotografia de um processo, fixa uma realidade em transformao sem dar

    conta do movimento. A China no apenas est no limite mximo de utilizao de sua

    fora de trabalho chegando ao provvel pico de 72% de populao total em idade de

    trabalhar11 como a maior parte est empregada em atividades tercirias, isto , servio,

    comrcio, administrao etc. Assim como a mudana na estrutura produtiva nos pases

    centrais levou transferncia da maior parte da fora de trabalho da indstria para o

    chamado setor tercirio da economia, tambm o desenvolvimento chins segue essa

    trajetria. Mas na China essa velocidade muito maior do que aquela levada a cabo

    pelos pases da Primeira Revoluo Industrial (Inglaterra, Frana) ou mesmo aqueles da

    Segunda Revoluo Industrial (Alemanha). Essa uma dinmica comum a todos os

    pases que passaram pelo processo de industrializao em suas economias, ainda que

    nem sempre seguindo o mesmo caminho os pases de industrializao perifrica,

    como Brasil e Mxico, saltaram de uma estrutura da fora de trabalho baseada na

    agricultura para uma maioria empregada no setor de servios, sem que a indstria

    tivesse ocupado a maior parte dos trabalhadores. Isso configurou uma hipertrofia do

    setor tercirio que culminou no desemprego disfarado e na ampla informalidade da

    economia perifrica.

    Historicamente, o setor tercirio foi visto como o necessrio absorvente social da

    fora de trabalho desempregada pela tecnologia nos demais setores da economia. A

    ortodoxia econmica, seguindo a velha teoria de compensao dos salrios, verso da

    lei de Say no mercado de trabalho, asseverava que o capital economizado com a

    destruio de empregos, devido ao uso de nova tecnologia, deveria ser dirigido a outro

    setor. Ao ser reinvestido teramos a recriao do posto de trabalho at ento

    eliminado.12 Integrante da concepo de um automatismo em que o mercado nunca

    10 Mas questionvel o peso exagerado que se d ao deslocamento de empregos industriais dos pases ocidentais para a China. Segundo alguns estudiosos do impacto da economia chinesa nos EUA, o nmero de empregos diretamente perdidos para a China at o momento pela terceirizao no exterior irrisria (HUTTON, p. 26). Num momento em que j havia a discusso sobre as maquiladoras mexicanas, os Tigres Asiticos estavam por cima e a indstria chinesa comeava a ser notada, os economistas Krugman e Lawrence (p. 47) argumentavam que a destruio de empregos nos EUA por causa da automao estava mais prximo da realidade do que a presumida perda desses empregos devido concorrncia internacional. 11 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. 12 Marx (p. 54-60) foi o primeiro a realizar uma crtica sistemtica da teoria da compensao dos salrios. Pollock (p. 97-120), em seu trabalho clssico sobre a automao, tambm realizou uma crtica dessa tese, mostrando que no ps-guerra a nica compensao que atuava (parcialmente) diante do

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    13 enfrenta de fato o desemprego para a economia neoclssica, como se sabe, s existe

    desemprego como opo pessoal , essa tese do setor tercirio como amortecedor

    compensatrio foi ampliada com a argumentao de que nele a magnitude de capital

    utilizada baixa. A explicao que atividades como comrcio, finanas,

    administrao, educao ou servios pessoais, por exemplo, so normalmente grandes

    empregadoras, mas exigem volume de capital reduzido.

    Entretanto, desde que a microeletrnica foi desenvolvida e generalizada, os

    setores de servios tm sofrido os efeitos economizadores de fora de trabalho tal como

    os demais. Diferente de grandes mquinas ou equipamentos industriais tradicionais, os

    microcomputadores se tornaram uma realidade em toda a atividade social, inserindo-se

    no apenas nas diversas etapas das finanas (bancos, administrao e contabilidade)

    como servindo diretamente aos usurios-consumidores e com isso reduzindo a

    necessria mediao pessoal. Assim, temos a contabilidade eletrnica cujas notas

    fiscais, lanamentos contbeis e registros so realizados automaticamente nos atos de

    compra e venda, emprstimos ou pagamentos. Tambm presenciamos o uso de

    computadores domsticos onde possvel fazer o acompanhamento pessoal de contas

    ou operaes financeiras. Mas nessa rea presenciamos mais significativamente a

    extino de trabalho com a substituio de bancrios por caixas automticos. Em 2014,

    o setor bancrio no Brasil demitiu cerca de cinco mil funcionrios. No seguinte, 2015,

    foram quase dez mil postos de trabalho fechados13 e isso numa conjuntura em que os

    bancos apresentaram recorde em seus lucros, no sentindo o efeito da crise econmica

    como as demais empresas. Mais ainda: at mesmo os mercados financeiros, at ento

    considerados vencedores diante das hards industries, sofrem hoje os efeitos

    economizadores da microeletrnica, a ponto de os traders das bolsas de valores serem

    desempregados por operadores de alta frequncia, computadores que realizam

    automaticamente operaes financeiras e j dominam mais da metade de todas as

    negociaes em Wall Street.14

    Tambm nas atividades comerciais, como nos demais espectros do tercirio,

    uma infinidade de aplicaes da microeletrnica, dos computadores e da leitura tica

    tem substitudo trabalhadores: seja na extino de caixas nos mercados e redes

    desemprego tecnolgico era a grande absoro de trabalhadores pelos gastos improdutivos do complexo industrial-militar. 13 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. 14 Disponvel em: . Acesso em: abr. 2013.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    14 varejistas, a utilizao de equipamentos automticos que estimulam o autosservio e,

    cada vez mais, a ampliao do comrcio eletrnico. J em 1999 portanto antes da era

    de popularizao da internet no Brasil o DIEESE alertava para os impactos do

    comrcio eletrnico sobre o trabalho no setor comercial:

    As novas tecnologias e as novas formas de organizao e de

    gesto introduzidas no comrcio so destruidoras de postos de

    trabalho e de emprego, em vrias sees e departamentos da

    empresa. E, numa dimenso mais ampla, at no segmento

    atacadista, apesar de estar excludo da integrao varejo-

    fornecedores, a gerao de emprego vem sendo menor diante da

    intensificao do comrcio eletrnico, particularmente do

    intercmbio eletrnico de dados (DIEESE, 1999).

    A ampliao do emprego da informtica em diversas atividades no decorre

    apenas da flexibilidade inerente microeletrnica, capaz de ser inserida em qualquer

    ambiente de produo ou de negcio, mas tambm da reorganizao ampla do processo

    produtivo e burocrtico que a prpria microeletrnica implica. O que se trata, portanto,

    no apenas uma mudana nos meios de produo (hardware) que leva eliminao

    definitiva de muitos empregos, mas tambm uma contnua transformao na

    organizao do prprio processo de produo (software), isto , a reestruturao

    permanente das relaes de trabalho. No acaso que toda a discusso sobre crise do

    trabalho e automao seja acompanhada de reflexes sobre a superao da lgica

    fordista de produo, a ruptura com a organizao taylorista do trabalho e a insero de

    novos modelos de gesto da produo (toyotismo, ohnosmo, volvosmo etc.).

    A flexibilidade inerente nova tecnologia microeletrnica se estendendo em

    novas aplicaes como a impresso em superfcie tridimensional, nanotecnologia e

    tecnologia do conhecimento provoca a reorganizao do processo produtivo devido s

    inovaes frequentes no ciclo dos produtos. Grupos de controle de qualidade,

    departamentos de automao e crculos de tecnologia e inovao tm sido responsveis

    pela progressiva reduo dos tempos-mortos na atividade produtiva ou nos processos

    comerciais e financeiros. O uso generalizado dos microcomputadores em cada etapa e

    incorporando cada vez mais funes se transforma em elemento de constante inovao

    organizacional. No que toca ao processo de produo propriamente dito, essa

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    15 autorreflexo organizacional leva a uma realidade completamente nova na histria da

    economia capitalista. Em virtude das novas tcnicas e novos modelos organizacionais

    em constante transformao, a inovao dos processos produtivos ultrapassa a

    inovao das mercadorias produzidas. Levando ao extremo a lgica apontada por Marx

    da produo pela produo, isto , o fetichismo em que o desenvolvimento da

    produo o objetivo primrio e determinante da organizao social, o capitalismo

    superdesenvolvido microeletrnico criou uma dinmica irrefrevel de revoluo

    organizacional e tecnolgica.

    Os ncleos dos computadores duplicam a capacidade de processamento em

    menos de dois anos; a capacidade de armazenamento tem sido duplicada, num mesmo

    espao fsico, a cada quarenta meses; um simples tablet de hoje tem a mesma

    capacidade de processamento do computador mais moderno existente h trinta anos,

    com um custo infinitamente menor. Isto significa que, no af de ampliar ao mximo as

    capacidades produtivas, maximizar os lucros e reduzir os custos e inconvenientes dos

    meios, o processo de produo alterado mais rapidamente do que os prprios bens

    finais que so por ele criados. Com algumas excees, as mercadorias utilizadas

    cotidianamente por um consumidor mdio so as mesmas h vinte ou trintas anos, mas

    o modo de produzi-las mudou vrias vezes nesse perodo. Enfim, as maneiras de se

    produzir as mercadorias tm sido radicalmente alteradas, provocando impactos

    gigantescos na economia como um todo, mas os bens consumidos so mais ou menos os

    mesmos.

    As implicaes ecolgicas dessa constante transformao so evidentes. Uma

    mercadoria produzida a cada rodada de modo distinto precisa ter sua vida til reduzida

    ou pelo menos deve ser falsamente apresentada como diferente das anteriores para que a

    cadeia produtiva no enfrente uma embolia devido superproduo. Mas esse aspecto

    ambientalmente destrutivo no o nosso tema aqui ainda que a discusso ecolgica

    no possa ser isolada de uma reflexo sobre a crise do trabalho. O que nos interessa

    particularmente que os efeitos dessa dinmica so destrutivos tambm de um ponto de

    vista economicamente abrangente: em termos macroeconmicos, o ritmo de

    racionalizao da produo supera o ritmo de ampliao dos mercados.

    Desde o fim do ciclo expansivo do ps-guerra essa condio tem sido apontada

    por uma srie de importantes intelectuais: os nveis elevados de produtividade obtidos

    com a transformao produtiva e organizacional da microeletrnica so amplamente

    superiores aos ndices do prprio crescimento econmico, cada vez mais rastejante a

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    16 no ser nos anos de bonana baseada na ficcionalizao de ativos financeiros. O

    resultado dessa coliso entre produtividade e crescimento a destruio de postos de

    trabalho sem a devida recomposio pela expanso econmica:

    Em contraste direto com o desenvolvimento nos anos 50 e ainda

    nos anos 60, nos anos 70 as taxas de crescimento da

    produtividade do trabalho esto acima das da produo com a

    consequncia de que a fora de trabalho liberada pelo progresso

    tcnico no mais pode ser absorvida pela expanso da produo

    (OFFE, p. 92).

    Nas dcadas de 1980 e 1990, enxergaramos um aprofundamento desse processo

    em que a racionalizao da produo no seria compensada mesmo quando o

    crescimento econmico fosse discernvel no horizonte. Chamado pelos economistas de

    jobless growth, essa situao foi aprofundada devido ao poder da microeletrnica de se

    inserir em todos os possveis setores da economia, ultrapassando a tecnologia industrial

    tradicional e eliminando o carter absorvente do tercirio:

    Constituindo um paradigma intensamente malevel, a

    microeletrnica ir permitir a automao de uma ampla gama

    de servios de natureza burocrtico-administrativa. Atravs dos

    sistemas informacionais integrados, pesadas estruturas

    administrativas perdem totalmente a razo de ser, e por meio

    dos processos de reengenharia, so literalmente extintas. Desse

    modo, o que antes era um intenso e confuso fluxo de pessoas e

    papis se torna um simples fluxo de eltrons e quanta de luz,

    monitorado por alguns poucos executivos e analistas de

    sistemas. Os ganhos de produtividade dessa mudana so

    obviamente elevados e fazem com o que o setor tercirio-

    burocrtico j no mais contribua para uma baixa taxa mdia de

    crescimento da produtividade da economia (ALBAN, p. 209).15

    15 Antes, quando os postos de trabalho na indstria eram eliminados ou reduzidos, podiam ser substitudos por postos de colarinho branco. Mas hoje, se as posies de colarinho branco desaparecerem, onde sero criados os novos empregos? pergunta o socilogo Wallerstein (2016).

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    17 Embora a primeira dcada do sculo XXI tenha apresentado uma reduo dos

    ndices de desemprego em boa parte do mundo ocidental, a fragilidade dessa reduo foi

    logo demonstrada com a abrupta elevao desses ndices com o estouro das bolhas

    financeiras responsveis pela expanso econmica daquele perodo crise imobiliria e

    queda nos preos das commodities no mercado mundial. Mesmo que pequenos sinais de

    recuperao estejam sendo apresentados pelos governos europeus e norte-americano, os

    economistas oficiais tm apontado para o ressurgimento do fenmeno do crescimento

    sem emprego, agora renomeado como jobless recovery: o desemprego persistente e

    invulgarmente elevado sugere que esta recuperao sem emprego pode ser mais

    dolorosa do que as duas anteriores (KOLESNIKOVA; LIU, p. 18).16

    O que essas anlises indicam que, para a expresso da crise mundial do

    emprego, no conta apenas a eliminao definitiva de postos de trabalho, mas tambm a

    agilidade com que empregos so criados e destrudos em ciclos cada vez mais curtos. O

    relatrio da Organizao Internacional de Trabalho, Tendncias Mundiais de Emprego

    2014, apontou que, em 2013, o nmero de desempregados em todo o mundo chegou

    a 202 milhes de pessoas. Projetando o futuro, a tendncia uma ampliao para 215

    milhes de desempregados em 2018, mesmo com a criao, nesse perodo, de quarenta

    milhes de empregos. A criao de novos postos de trabalho no ser capaz de dar conta

    nem da destruio de empregos nem da entrada de novos trabalhadores no mercado o

    que implica em saldo lquido negativo.17

    Isso cria uma situao de extrema instabilidade na fora de trabalho mundial:

    crise do trabalho no apenas ampliao progressiva do nmero de desempregados em

    todo o mundo, mas tambm uma instabilidade crescente para aqueles que permanecem

    ativos no mercado. E isso se deve no apenas ampliao desse exrcito de reserva

    que pressiona os empregados tanto pela concorrncia que oferecem quanto pela reduo

    dos salrios diante da oferta crescente de mo de obra mas principalmente em virtude

    dos ciclos de reestruturao cada vez mais acelerados dos processos de produo.

    16 Os autores se referem aos perodos de recuperao econmica posteriores s recesses de 1973-1975 e 1981-1982, comparando-as recuperao atual diante da recesso de 2007-2009. 17 Disponvel em:

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    18 A precarizao da fora de trabalho no decorrente apenas da elevada

    rotatividade a que boa parte dos trabalhadores est submetida hoje no Brasil, 45% dos

    trabalhadores com carteira assinada so demitidos a cada ano.18 O que temos visto

    que, alm da ampliao do desemprego, os postos de trabalho que restam esto sujeitos

    a uma elevada transformao, so destrudos e novos so criados conforme as dinmicas

    da reestruturao produtiva. Da a insistncia de especialistas em apontar que as

    informaes sobre a grave crise que vivemos no pode ser dimensionada apenas pelas

    taxas oficiais de desemprego, pois a necessidade cria presses sociais que levam s mais

    variadas estratgias de sobrevivncia. Conforme apontou o economista indiano Prabhat

    Patnaik (2016), utilizando-se de dados da prpria OIT, 63% da fora de trabalho global

    atual est em situao de desemprego, desencorajada (desistiu de procurar emprego) ou

    se trata de empregados vulnerveis, isto , trabalhadores por conta prpria,

    trabalhadores sem rendimento, membros de cooperativas de produtores etc.

    A improdutividade crescente da fora de trabalho

    Como relatado h pouco, a estrutura da fora de trabalho chinesa passou por

    uma transformao explosiva nas ltimas duas dcadas de uma maioria de

    trabalhadores empregados na agricultura, rapidamente as mudanas nesse pas asitico

    levaram a uma ocupao predominante no setor tercirio. Embora tenha chegado a

    ocupar quase 30% de sua fora de trabalho total, a indstria nunca se tornou o principal

    empregador na sociedade chinesa: os servios ultrapassaram a agricultura como

    principal setor de ocupao da fora de trabalho em 2012, 35,7% dos empregos j

    estavam no setor tercirio da economia.19

    O que essa informao nos revela que mesmo a mais importante estrutura

    produtiva mundial j no capaz mais de empregar grande parte de sua fora de

    trabalho: afetada pela transformao produtiva, os empregos se deslocaram para as reas

    comerciais, financeiras, a administrao pblica e privada e demais atividades de

    servio.

    18 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016. A importante obra de Pochmann (2012, p. 92-97 e 120-121) questionando a nova classe mdia tem uma srie de informaes sobre a ampliao da rotatividade do trabalho no Brasil. 19 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2014.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    19 A princpio isso no indicaria nada alm da prpria vitalidade de uma economia

    que se ajusta constantemente s transformaes ou como acreditam os apologistas de

    uma pretensa sociedade ps-industrial o deslocamento do eixo da produo para

    uma economia criativa baseada no conhecimento e no mais na produo material.

    Essas intepretaes so superficiais e ignoram os traos mais profundos da

    transformao em nossa poca.

    Em primeiro lugar, esse deslocamento est longe de ser um mero ajuste no

    mercado de trabalho ou uma compensao de empregos perdidos embora com ndices

    oficiais de 5% de desempregados, a colossal economia chinesa tambm apresenta

    assustadoras formas de desemprego que no so representados na estatstica

    governamental provvel que um ndice mais amplo, que avaliasse o desemprego nas

    reas rurais, atingiria trs ou quatro vezes as taxas oficiais. Nos momentos de

    dificuldade econmica, quando a taxa de ocupao diminui, as autoridades chinesas

    foram milhes de trabalhadores urbanos a voltarem para suas provncias de origem e

    assim reduzir o impacto sobre o mercado de trabalho isto ocorreu depois da crise de

    2009, quando mais de vinte milhes retornaram s comunidades rurais.20

    A ampliao substancial do setor de servios, portanto, no se deve a nenhuma

    reformulao das atividades econmicas, mas em grande parte a mero ajuste espontneo

    do desempregado situao de expulso dos postos de trabalho tradicionais: a tradio

    perifrica de formao de uma economia subterrnea como estratgia de sobrevivncia

    se tornou uma realidade mundial. Na China isso to significativo quanto em qualquer

    outra parte do mundo: estudo publicado pelo Banco Mundial revelou que nas grandes

    cidades chinesas a informalidade de trabalhadores pode chegar a 37%, dependendo da

    forma como se define estatisticamente a informalidade. Mas os dados so ainda mais

    expressivos para os migrantes, cuja informalidade pode abranger at mesmo 65%

    daqueles que no tem residncia oficial na cidade em que trabalham (PARK; WU e DU,

    2012). A maior economia industrial do mundo segue um fato j atestado h alguns anos

    pela Organizao Internacional do Trabalho:

    no final do sculo XX, a manufatura deixou de ser um setor

    importante de desenvolvimento do emprego, exceto no Leste e

    Sudeste Asitico. Nas economias em desenvolvimento, a queda

    da proporo do emprego agrcola coincidiu, de fato, com um 20 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    20 aumento do emprego no setor de servios, que passou de 28% a

    32,6% no perodo compreendido entre 1995 e 2005. Entre as

    diferentes categorias de servios, o setor no quais o emprego

    est aumentando mais rapidamente o comrcio, que inclui as

    atividades informais do comrcio ambulante que tanto

    predomina entre os povos e cidades dos pases em

    desenvolvimento (OIT, p. 34).

    Com efeito, o economista Patnaik (2016) indica que boa parte da fora de

    trabalho deslocada da agricultura, onde realizavam atividades precrias e em pequenas

    unidades de produo, entraram outra vez no segmento dos empregados vulnerveis

    nas cidades. A economia de servios pode estar relacionada ao avanado

    desenvolvimento tecnolgico, mas isso no significa de modo algum elevada qualidade

    de vida. Tericos que se debruam sobre a realidade das grandes economias urbanas

    integradas ao mercado global apontam que, ao lado da estrutura avanada de servios

    sofisticados e atividades financeiras, prolifera a multido de trabalhadores no

    qualificados de comrcio, limpeza, servios pessoais etc.21 Aliado rotatividade elevada

    de parte crescente da fora de trabalho mundial e sua transferncia para os servios,

    temos uma precarizao evidente das condies em que essas novas formas de ocupao

    se desenvolvem.

    Do ponto de vista de uma compreenso dos mecanismos mais profundos da

    reproduo capitalista preciso ressaltar ainda outra caracterstica dessa terciarizao

    progressiva do trabalho mundial: a improdutividade crescente a implicada.

    Ao tratarmos da improdutividade do trabalho no queremos de modo algum

    julgar a sua importncia, natureza ou finalidade. Produtividade aqui se refere

    unicamente capacidade de determinada atividade de ampliar a magnitude de valor

    presente no circuito econmico capitalista. O que se trata, portanto, o contedo formal

    da atividade de trabalho e no o resultado material em si desta atividade. A capacidade

    de ampliao substancial do circuito global capitalista o que define a contribuio

    formal de uma atividade trabalho produtivo aquele capaz de perfazer a valorizao

    do valor. Sem entrar no complexo universo conceitual sobre a natureza produtiva ou

    improdutiva do trabalho, possvel definir, por derivao e excluso, um trabalho

    produtivo se for realizado no mbito de um capital produtivo e, portanto, contribuindo

    21 Veja por exemplo, Sassen (1993).

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    21 para a produo e ampliao da massa de valor presente no processo global da

    circulao capitalista. Todo o trabalho circunscrito ao capital monetrio (atividades

    financeiras e da mediao do dinheiro em geral) ou ao capital do comrcio de

    mercadorias (atividades comerciais) improdutivo, pois no acrescenta valor algum ao

    circuito global capitalista. Obviamente, trabalho produtivo unicamente aquele

    relacionado ao capital produtivo, capital produtor de mais-valia, enquanto as demais

    formas de trabalho realizam a mera circulao de mercadorias e dinheiro, nada

    adicionam em termos substanciais estrutura reprodutiva do capital.22

    A vertiginosa ampliao das atividades tercirias no mundo contemporneo pode

    ser vista como o resultado de uma informalizao crescente da fora de trabalho, que

    sobrevive em meio a uma economia de misria e num nvel muito prximo ao da

    subsistncia. O relatrio j citado da OIT, sobre as tendncias do emprego, informa que,

    em 2013, um total de 839 milhes de trabalhadores sobrevivia com suas famlias com

    menos de dois dlares dirios.23 A automatizao dos setores produtivos e a

    transferncia de parte da fora de trabalho para as atividades comerciais, administrativas

    ou financeiras (quando no lanadas de vez na excluso social) um processo crescente

    de improdutividade do trabalho. Isso significa que, mesmo com a ampliao da

    populao economicamente ativa mundial, parte considervel desse universo, se no foi

    excludo integralmente da sociedade do trabalho graas aos efeitos da transformao

    tecnolgica, no contribui mais para a reproduo ampliada de capital, ainda que

    execute tarefas muito necessrias economia de mercado.

    A Unio Europeia j apresenta 72% do total de sua fora de trabalho no setor

    tercirio da economia. Os EUA e Canad possuem 79% nesse setor. No Brasil, 71% dos

    trabalhadores j esto ocupados com atividades tercirias. Transferindo grande parte da

    22 Marx distingue entre o trabalho empregado pelo capital produtivo ou, mais exatamente, pelo capital na fase de produo, e o trabalho empregado pelo capital-mercadoria ou capital-dinheiro, mais precisamente, o capital na fase de circulao. Somente o primeiro tipo de trabalho produtivo, no porque produza bens materiais, mas porque empregado pelo capital produtivo, isto , capital na fase de produo (...). O carter produtivo do trabalho uma expresso do carter produtivo do capital (RUBIN, p. 287). A determinao aqui proposta de trabalho produtivo nos permite aproximar da reflexo sobre as atividades improdutivas do setor tercirio da economia, mas ela ainda limitada pela esfera particular dos capitais, sem considerar a circulao global, isto , a reproduo: Uma definio do trabalho produtivo, referida ao processo de mediao da reproduo capitalista no seu todo, s pode ser avanada em ltima instncia em termos de teoria da circulao. Quer dizer: em termos da teoria da circulao, s produtivo de capital aquele trabalho cujos produtos (e tambm cujos custos de reproduo) refluem no processo de acumulao do capital; ou seja, aquele cujo consumo recuperado de novo na reproduo ampliada. S este consumo um consumo produtivo, no apenas imediatamente, mas tambm em referncia reproduo (KURZ). 23 Disponvel em: . Acesso em: mai. 2016.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    22 fora de trabalho para as atividades improdutivas do tercirio, o capitalismo cava um

    fosso cada vez mais profundo em sua capacidade de reproduo ampliada como se o

    gasto de energia necessrio para colocar um gerador em movimento fosse

    progressivamente se ampliando diante da energia resultante dessa mesma engrenagem.

    Como atestou Marx (p. 92 e 93), os agentes da circulao precisam ser pagos pelos

    agentes da produo. (...). Em vrios negcios, compradores e vendedores so pagos por

    meio de uma porcentagem do lucro. Enfim, os custos de manuteno da economia

    capitalista, de sua administrao, de sua operao financeira e comercial crescem

    proporcionalmente diante dos lucros obtidos na sua unidade de produo qualquer

    empresa capitalista individual seguindo uma trajetria dessas estaria fadada falncia.

    disso que se trata a dinmica econmica atual no um acaso que, h quatro

    dcadas, os noticirios econmicos de toda parte apontem para uma trajetria

    descendente das taxas de crescimento mundiais. Crescimento rastejante, recesso

    crnica, estagnao secular e crise estrutural so termos distintos, de procedncias

    tericas diversas, que tentam dar conta desse arrefecimento visvel da economia

    mundial.

    A crise da sociedade do trabalho no de modo algum o horizonte feliz de

    sociedade do cio, sociedade ps-industrial ou era do conhecimento. Crise da

    sociedade do trabalho o resultado da autocontradio interna do capitalismo que

    tornou o trabalho a nica atividade capaz de realizar a mediao social e, no entanto,

    move-se diuturnamente para eliminar o mximo possvel de trabalho disponvel. A

    sociedade do trabalho tornou essa atividade o nico padro de referncia para a vida

    social, mas a torna progressivamente improdutiva para sua lgica econmica. Crise do

    trabalho a face autodestrutiva da sociedade capitalista em sua manifestao mais

    avanada. A nica maneira de escapar a essa dinmica de destruio seria fundar uma

    nova sociedade sobre outra lgica.

    Referncias bibliogrficas

    ALBAN, Marcus. Crescimento sem emprego: o desenvolvimento capitalista e sua crise

    contempornea luz das revolues tecnolgicas. Salvador: Casa da Qualidade, 1999.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

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    25

    Resumo: Esse artigo procura analisar a ideia de crise na disciplina histrica difundida

    na segunda metade do sculo XX. Para isso, procuramos abordar a percepo de crise

    enquanto conceito processual inerente lgica das transformaes paradigmticas.

    Palavras-chave: Crise; temporalidade; paradigma.

    Temporal interdependency and crisical symptoms: an analysis of the idea

    of crisis in contemporary historical thinking

    Abstract: This article intent to analyze the idea of crisis in the historical discipline in

    the second half of the twentieth century. For this, we approach the perception of crisis

    as a inherent procedural concept to the logic of the paradigmatic transformations.

    Keywords: Crisis; temporality; paradigm.

    . K. Chesterton (1874-1936) desenvolveu, paralelamente carreira de

    ficcionista, uma vasta obra ensastica. Em 1906, publicou um importante

    volume intitulado Ortodoxia, cuja temtica procurava discutir os caminhos

    que o cristianismo havia tomado desde o advento da Reforma, defendendo de forma

    provocativa a ortodoxia primitiva da doutrina crist. No captulo O suicdio do

    pensamento, Chesterton desenvolve um argumento em que tenta rebater o gradativo

    estabelecimento de uma tendncia intelectual de dvida exacerbada em relao razo.

    Todo o mundo moderno est em guerra contra a razo; a torre j oscila

    (CHESTERTON, 2009, p. 55). Para ele, a autoridade religiosa de seu tempo havia se

    voltado para uma posio de intolerncia e, paradoxalmente, o materialismo caminhava

    para se tornar um duplo dessa manifestao, uma vez que ambos possuiriam a mesma

    G

    Gabriel Fernandes Barbosa Sanchez

    Mestre em Histria pela Universidade Federal de Gois.

    Interdependncia temporal e sintomas

    crsicos: uma anlise da ideia de crise no

    pensamento histrico contemporneo

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    26 natureza primria e autoritria. Segundo o autor, essas constataes fazem parte de um

    sintoma da modernidade tardia em que o pensamento perde sua capacidade de fazer

    conexes devido a um bloqueio causado pela individualidade de um tempo que, ao

    procurar romper com as geraes anteriores, se v inseguro ao ter que lidar com

    transformaes. O progresso possui como condio intrnseca a mudana, porm, para

    Chesterton, uma alterao fundamental em padres histricos torna invivel refletir

    sobre o passado, ou mesmo sobre o futuro. Portanto, lidar com a mudana em um

    determinado padro, ou ortodoxia, exige que a realidade contingente da

    contemporaneidade de quem analisa seja interpretada como uma unidade com

    circunstncias pretritas e ulteriores.

    Qualquer tendncia que se sobressaia como um cisma dentro de um padro

    preexistente tende a ser analisada como definitiva e com maior autoridade em relao ao

    j existente. H nesses casos um risco em relegar s geraes futuras um conhecimento

    distorcido do passado, dificultando a expanso do pensamento dos partcipes desse

    tempo por permitir o entendimento de que o pensamento humano que no compactua

    com a tendncia em voga, no possui validade (Ibidem, 2009, p. 56). Aquele que

    entende a mudana como fator decisivo do progresso (aqui visto como melhoria, e no

    como teleologia) deveria, segundo o autor, desafiar seu tempo fugindo daquilo que ele

    chama de ideal de monotonia (Ibidem, p. 60) na inteno de exercer em sua plenitude

    sua capacidade de leitura de mundo e, consequentemente, criar condies de lidar com a

    mudana de forma serena e responsvel.

    O exemplo didtico. Criou-se na tradio recente da teoria da histria um

    campo de investigao fundamentalmente semelhante ao de Chesterton, em que h uma

    interpretao dos debates realizados a partir da dcada de 1960 como um perodo de

    crise para a disciplina. No ncleo desse argumento, h uma srie de direes para

    tentar situar a histria em um local seguro passvel de legitimao, justificao e

    validao: crise de paradigmas, crise de sentido, fim da histria, predomnio do

    discurso, representao, ps-modernidade etc. Discute-se um deslocamento fundamental

    do referencial na pesquisa histrica. O modelo estabelecido na modernidade baseado em

    uma perspectiva cientificista inspirada nas metanarrativas de cunho teleolgico seria

    contraposto s novas matrizes paradigmticas, onde h um questionamento exacerbado

    sobre a possibilidade de estudo do passado devido primazia dada ao discurso em

    detrimento do mtodo que estabeleceria uma conexo confivel entre a historiografia e

    o real. Nesse cenrio, os principais tericos da histria colocam como problema a

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    27 capacidade da histria de produzir significado atravs do confronto com as fontes e sua

    organizao em um discurso dotado de sentido, uma vez que, segundo a perspectiva

    adotada pela modernidade, o contedo do texto seria um reflexo do passado em si, j

    que sua urdidura estaria amparada pelo acesso e anlise de documentos. Nesse sentido,

    a teoria da histria contempornea passa a ser a disciplina que expe as fragilidades de

    um conhecimento que foi tido como seguro durante mais de um sculo de

    institucionalizao acadmica.

    Mas, partindo dessas informaes, surge o questionamento que guia este artigo:

    por que crise? Talvez o principal vetor argumentativo que orienta essa ideia de crise se

    refira a uma dvida em relao ao estatuto cientfico da histria enquanto disciplina que

    investiga e significa o passado. A aproximao da histria com a literatura, por

    exemplo, enxerga na narrativa histrica o principal problema para o estabelecimento

    epistemolgico da disciplina. Hayden White, um dos principais autores responsveis por

    esse giro, alertava, em um texto clssico de 1974,1 que as narrativas histricas seriam

    fices verbais cujos contedos so tanto inventados quanto descobertos e cujas

    formas tm mais em comum com seus equivalentes na literatura do que com seus

    correspondentes nas cincias (WHITE, 2001, p. 98, grifos do autor). Essa mudana de

    nfase de fato abala o sustentculo estabelecido durante o sculo XIX, em que a histria

    poderia fazer frente ao avano dos modelos oriundos das cincias naturais atravs de um

    mtodo imparcial e passvel de regulao e comprovao de fenmenos. Ocorre que nas

    dcadas seguintes, no contexto que nos propomos analisar, os peridicos destinados

    divulgao das pesquisas no campo da teoria da histria se tornaram campos de

    discusses que, em nosso entendimento, trouxeram avanos significativos para o

    fortalecimento crtico e analtico da disciplina, porm, em contrapartida, desvirtuaram o

    que de mais importante a histria pode oferecer, sua capacidade de gerar sentido e de

    promover a tolerncia em uma sociedade ainda profundamente idiossincrtica e incapaz

    de promover a convivncia pacfica com a diferena. Roger Chartier chamou essas

    discusses de falsos debates, uma vez que tinham como ponto de partida a ideia de

    irredutibilidade de um cisma (partilha) entre a objetividade das anlises estruturais e a

    subjetividade das representaes (CHARTIER, 1990, p. 19-20). Utilizando o exemplo

    de Chesterton, o radicalismo encontrado em algumas vertentes da teoria da histria em

    1 WHITE, Hayden. O texto histrico como artefato literrio. In: ______. Trpicos do discurso. So Paulo: Edusp, 2001.

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    28 seu perodo de crise no sculo XX contribuiu para uma perda da capacidade de

    estabelecimento de conexes com uma tradio que, mesmo nos momentos mais agudos

    de cisma, manteve sua relevncia na elaborao dos construtos mentais acerca do

    passado. Nesse sentido, acreditamos que um dos problemas centrais est em um

    deslocamento da noo de temporalidade na pesquisa histrica.

    Est claro que as teses na teoria da histria da segunda metade do sculo XX

    fazem parte de uma mudana da disciplina em termos de fundamentao crtica, que

    pressupe uma ampliao de possibilidades terico-metodolgicas. Segundo Edgar

    Morin (2007), qualquer evoluo, seja no campo biolgico, poltico ou cientfico, no se

    manifesta de forma regular e frontal. Nesse sentido, o estabelecimento de um novo

    paradigma, por exemplo, comearia a ser gestado de forma marginal e, atravs de uma

    srie de rupturas transgressoras, se desenvolveria at se tornar maduro. Esse

    mecanismo, de acordo com Morin, obedeceria a seguinte ordem: 1) inovao; 2)

    transgresso; 3) tendncia; 4) nova norma ou ortodoxia (MORIN, 2007, p. 16). Segundo

    esse modelo, possvel constatar uma imprescindvel dinmica temporal entre passado,

    presente e expectativa projetada de um futuro, onde a ideia de crise esvazia-se, ainda

    que permanea semanticamente vlida.

    No caso da crise do pensamento histrico que discutimos, no cabe questionar

    que seus fundamentos residem em uma problemtica dialgica com os modelos

    estabelecidos na modernidade, especialmente na historiografia do sculo XIX, pois esse

    seu preceito bsico. Nesse contexto especfico, houve uma redefinio incisiva na

    concepo norteadora da pesquisa histrica no que se refere relao do indivduo que

    estuda o passado e a orientao temporal de sua abordagem. A ruptura com o modelo

    teleolgico amplamente utilizado no sculo XIX d lugar a uma realidade fragmentria,

    cujos discursos acerca do passado aparecem de forma refratria, no obedecendo

    premissa terico-metodolgica de causalidade subsumida a um determinado objetivo,

    uma realidade idealizada de um fim. Nesse caso, o problema reside no confronto com as

    propostas estabelecidas pelo projeto moderno. Em nossa abordagem, esse confronto

    deve ser analisado atravs do deslocamento das formas de discurso acerca do passado

    que perpassam por uma perspectiva ctica em relao capacidade da histria de

    estabelecer sentido e coerncia experincia temporal humana atravs do resultado de

    sua pesquisa. Conforme nos orienta Jrn Rsen (2001), a disciplina histrica tambm

    obedece contingncia que permeia seu objeto. Nesse sentido, assim como os

    fenmenos humanos estudados em contextos espao-temporais, a cincia histrica

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    29 tambm passa por revisionismos, reavaliaes e alteraes. Portanto, a pergunta

    permanece: por que crise?

    Edgar Morin, ao analisar o sculo XX em um texto escrito em 1981 intitulado

    Para onde vai o mundo? (2007), estabelece a dcada de 1970 como o perodo central no

    estabelecimento de um cenrio de incertezas. Essa assertiva seria constatada pela

    falncia da ideia de um continuum progressivo, em que a premissa de um

    desenvolvimento linear das condies civilizatrias (tecnologia, cincia, economia,

    industrializao, consumo, moral) estaria comprometida pela percepo de que, embora

    a humanidade tenha experimentado um significativo avano no bem-estar

    proporcionado pelos avanos tecnolgicos, a linearidade evolutiva no se sustentaria,

    por conta da tensa coexistncia entre melhoria tecnolgica e barbrie. O autor menciona

    o termo foras da morte para exemplificar a institucionalizao do aniquilamento de

    outrem em funo de interesses de ordem poltico-ideolgica que impossibilitam a

    manuteno da ideia de uma sociedade em marcha evolutiva intermitente (MORIN,

    2007, p. 21). Certamente os eventos crticos do sculo XX que possibilitaram essa

    (re)avaliao de um modelo at ento seguro no poderiam ser previstos e, devido a

    esse carter eventual do inesperado na histria humana, chegamos a um momento em

    que o termo crise se estabelece como tnica das sociedades contemporneas em suas

    mais diferentes manifestaes. Morin analisa esse contexto de incertezas como sintomas

    crsicos ao definir sua ideia de crise:

    () digamos inicialmente que o emprego multiplicado pelo

    termo crise (crise do progresso, crise das civilizaes, crise da

    adolescncia, crise do casal etc.) vem da prpria multiplicao

    dos sintomas crsicos... Tentemos definir o termo. Numa

    primeira abordagem, a crise se manifesta no somente como

    uma fratura no interior de um continuum, perturbao num

    sistema at ento aparentemente estvel, mas tambm com o

    crescimento das eventualidades, isto , das incertezas. Ela se

    manifesta pela transformao das complementaridades em

    antagonismos, pelo aumento rpido das transgresses em

    tendncias, pela acelerao do processo

    desestruturante/desintegrante (feedback positivo), pela ruptura

    das regulaes, pela deflagrao de processos incontrolados

    tendendo a autoamplificar-se por si mesmos ou chocar-se

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    30 violentamente com outros processos igualmente antagnicos e

    incontrolados (MORIN, 2007, p. 23).

    De acordo com essa definio, a crise inseparvel do desenvolvimento. O

    antagonismo entre modelos distintos se torna motor para o avano. O carter crsico

    da realidade social humana , portanto, a condio transformadora que engloba

    desorganizao e reorganizao. Nesse sentido, a causalidade teleolgica da

    modernidade deve ser substituda por uma causalidade complexa (multicausalidade)

    sustentada na interdependncia temporal entre futuro, passado e presente. Se a evoluo

    de uma sociedade ou disciplina no obedece a leis deterministas, seu desenvolvimento e

    mudanas em contextos eventuais so influenciados por uma multicausalidade baseada

    em inter-retro-aes que se combinam e se desafiam em um movimento perptuo. A

    ideia de que o presente serve de base para a indagao do passado e que, por isso,

    possui sustentculos que permitem garantir um conhecimento seguro tanto de si como

    do pretrito se esvazia nessa concepo de multicausalidade. O passado construdo

    pelo presente atravs de um movimento duplo de retrospectiva (escolhe-se aquilo que se

    quer estudar) e prospeco (estabelecem-se os resultados que o objeto escolhido

    produziu no futuro do passado, seja ele o contexto do historiador ou uma realidade

    anterior a do historiador, mas posterior ao objeto em anlise). Segundo Morin, esse

    duplo movimento que cria a iluso de que eventos pretritos justificam os ulteriores

    como se a trama desses eventos fosse preestabelecida e previamente conhecida, o que

    acaba por transformar o imprevisto em algo provvel e, consequentemente, relegar o

    que no aconteceu como algo inevitvel, uma vez que j foi estabelecido a relao

    causal entre passado e futuro do passado. O conhecimento do presente requer o

    conhecimento do passado que, por sua vez, requer o conhecimento do presente

    (MORIN, 2007, p. 13).

    Ilya Priogine afirma, citando Karl Popper, que o senso comum pressupe que

    todo evento tem como causa outro evento predecessor, dessa forma, qualquer evento

    estaria passvel de ser explicado ou mesmo predito (PRIGOGINE, 1996, p. 9). Segundo

    Rsen, essa caracterstica ilusria, que Edgar Morin menciona, seria fruto do processo

    de racionalizao que o pensamento histrico sofreu a partir do Iluminismo, cujo

    aperfeioamento se deu no historicismo do sculo XIX, que estabeleceu a crtica das

    fontes e a interpretao como formas de transformar fatos em fatos histricos,

    contribuindo, dessa forma, para a sedimentao da ideia da histria como uma ligao

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    31 temporal entre o passado, o presente e o futuro, dotada de sentido (RSEN, 1997, p.

    87). Prigogine resume o problema apresentando as questes que se colocam nesse

    determinismo temporal:

    Esta tenso no interior do senso comum traduz-se no

    pensamento ocidental por um problema maior, que William

    James chamou de dilema do determinismo. Esse dilema tem

    como desafio nossa relao com o mundo e particularmente

    com o tempo. O futuro dado ou est em perptua construo?

    uma iluso a crena em nossa liberdade? uma verdade que

    nos separa do mundo? A questo do tempo est na encruzilhada

    do problema da existncia e do conhecimento. O tempo a

    dimenso fundamental de nossa existncia. () em termos da

    descrio fundamental da natureza, no h flecha do tempo

    (PRIGOGINE, 1996, p. 9-10, grifos do autor).

    Nesse ponto, temos a base do modelo proposto por Morin, em que novas

    ortodoxias (em nosso caso, as teses do perodo crsico da teoria da histria na segunda

    metade do sculo XX) surgem atravs de uma dinmica contnua que reavalia

    constantemente os postulados terico-metodolgicos ento vigentes para que as

    demandas do contexto contemporneo exeram as transformaes no interior da

    disciplina. Inicialmente essas transformaes so tidas como inovaes, posteriormente

    como transgresses e, por fim, como uma tendncia. O carter crsico permeia toda a

    atividade historiogrfica e a interdependncia temporal que estabelece um fluxo

    constante de questionamento e de reavaliao no permite a viso difundida por muitos

    tericos de cisma ou alterao paradigmtica definitiva. Trata-se de um movimento

    natural e necessrio para a manuteno da relevncia da cincia histrica.

    Para compreendermos melhor esse argumento, tomemos como eixo a discusso

    empreendida por Thomas Kuhn no que se refere ao carter mvel das cincias. Em texto

    intitulado A tenso essencial: tradio e inovao na pesquisa cientfica (KUHN,

    2011), Kuhn faz um alerta importante para a anlise de perodos de transformaes no

    interior das cincias. Para ele, a tarefa mais importante em momentos de crise evitar a

    observao das diferentes propostas em jogo e tentar o produzir o mximo com as

    ferramentas que j esto disponveis. Essa assertiva traz uma implicao que se

    assemelha s inter-retro-aes de Morin, no sentido de observar que na conduo da

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    32 prtica cientfica a convergncia to importante como a divergncia. Afirmar algo

    desse tom estabelece que qualquer eventual situao vista como definitivamente crtica

    equivocada, devendo prevalecer sempre um dilogo entre tradio e inovao. Nessa

    condio dialgica, Kuhn observa que a dinmica de transformao das cincias no

    passvel de predio, sendo a maioria delas ocorridas de forma quase acidental, graas,

    no caso da histria, a um novo conceito, uma nova releitura do passado ou algum

    resultado inesperado que algum tipo de fonte desconhecida ou pouco estudada

    proporciona. A partir da constatao de uma mudana fundamental em uma certa ordem,

    o cientista (nesse caso, o historiador) precisa rearranjar os postulados que at ento

    guiavam sua prtica enquanto pesquisador.

    Essa tenso entre modelos preestabelecidos (tradio ou ortodoxia) e a inovao

    (transgresso ou heterodoxia) estaria localizada na prpria natureza do conhecimento.

    Entretanto, esse ponto de vista foge maioria dos pesquisadores, e na histria essa fuga

    ainda mais acentuada. Isso se deve especialmente a dois fatores: 1) um pesquisador

    geralmente um resolvedor de enigmas dentro de padres preestabelecidos, e no um

    inovador ou criador (KUHN, 2011, p. 250); 2) a emergncia de novos pontos de vista

    sobre um determinado problema dificilmente denota consenso entre os membros da

    comunidade cientfica em um primeiro momento (Ibidem, p. 248). A ausncia desse

    fator consensual faz com que, em certos momentos, coexistam em uma determinada

    prtica cientfica diferentes correntes disputando a predominncia entre seus partcipes.

    Essa disputa entre modelos ortodoxos e novas propostas tangenciando a prtica

    considerada segura e consensual gera uma situao de crise. Utilizando o argumento de

    Edgar Morin, esse momento estaria localizado entre as etapas um (inovao) e dois

    (transgresso) da construo de novos padres da produo do conhecimento.

    Se considerarmos o imaginrio acerca de uma crise para a disciplina histrica a

    partir da relao dialgica entre tradio e inovao, necessrio que levemos em

    considerao a mecnica do estabelecimento de padres inseridos na conduo da

    prtica cientfica. Kuhn, enquanto historiador da cincia e observador do funcionamento

    interno de suas manifestaes, desenvolveu suas ideias iniciais contidas em A tenso

    essencial a partir da noo geral de paradigma. Em A estrutura das revolues

    cientficas (2011), o autor aprimora sua ideia de tenso, elaborando um eficiente aparato

    interpretativo para o funcionamento das prticas cientficas. Embora Kuhn refira-se

    cincia de uma forma geral, enfatizando especialmente as cincias naturais por meio dos

    exemplos selecionados para sustentar sua teoria, podemos deslocar seus conceitos para a

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    33 histria sem perder a densidade e aplicabilidade de suas propostas.

    Segundo o autor, a conduo de pesquisas cientficas s possvel mediante a

    existncia de determinadas regras, conceitos e mtodos amplamente aceitos pela

    comunidade especfica de pesquisadores. O conjunto desses elementos foi construdo ao

    longo do tempo por indivduos que precedem a prtica contempornea de determinada

    disciplina, fornecendo, dessa forma, os fundamentos no qual os trabalhos desse

    segmento se basearo. Quando esse conjunto de normas recebe o reconhecimento e gera

    um certo consenso, estabelece-se um paradigma (Ibidem, p. 29-30). Na histria, o

    modelo fundador da disciplina elaborado nos sculos XVIII e XIX rene uma srie de

    procedimentos, prticas e conceitos comumente identificados como paradigma

    moderno. medida que determinado paradigma ganha adeptos e passa a ser executado

    sem maiores questionamentos, ele se torna, segundo Morin, uma norma ou ortodoxia. A

    partir disso, tal prtica paradigmtica passa a incorporar o que comumente se identifica

    como tradio. Nesse ponto temos o problema responsvel pelo surgimento de

    momentos crticos, identificados aqui como crises.

    Levando em considerao a j mencionada existncia de dois tipos fundamentais

    de pesquisadores (aquele que apenas resolve enigmas e aquele que cria), partimos do

    pressuposto de que aquele pesquisador que realiza suas atividades levando em

    considerao apenas o corpus inserido em um determinado paradigma exercer a funo

    bsica de preencher pginas de roteiros e manuais. J aquele que orienta sua atividade

    pensando sua disciplina no intuito de inov-la partir sempre dos limites do paradigma

    vigente para ampliar seus horizontes e aprimor-lo por meio de novas perspectivas at

    ento desconsideradas. Nessa abordagem, de acordo com Kuhn, surgem os perodos de

    redefinio dos postulados de determinada cincia, que tanto oprimem aqueles apegados

    ordem estabelecida por paradigmas consolidados.

    Quando um cientista pode considerar um paradigma como

    certo, no tem mais necessidade, nos seus trabalhos mais

    importantes, de tentar construir seu campo de estudos

    comeando pelos primeiros princpios e justificando o uso de

    cada conceito introduzido. Isso pode ser deixado para os autores

    de manuais. Mas, dado o manual, o cientista criador pode

    comear suas pesquisas onde o manual a interrompe e desse

    modo concentrar-se exclusivamente nos aspectos mais sutis e

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    34 esotricos dos fenmenos naturais que preocupam o grupo. Na

    medida em que fizer isso, seus relatrios de pesquisa comearo

    a mudar, seguindo tipos de evoluo que tm sido muito pouco

    estudados, mas cujos resultados finais modernos so bvios

    para todos e opressivos para muitos (KUHN, 2011, p. 40).

    O trecho supracitado elucida um problema de ordem terica que tanto foi

    abordado por Jrn Rsen nas ltimas dcadas. Em defesa de uma maior difuso da

    teoria da histria, Rsen (2001) argumenta em sua Razo Histrica que a vasta maioria

    dos historiadores no pensa as categorias bsicas de seu ofcio, tomando como

    pressupostos implcitos determinados postulados normativos da operao

    historiogrfica. Isso se deve, de acordo com o que expomos da obra de Kuhn, ao

    problema da ausncia de reflexo e inquirio dos mecanismos internos (sutis) da

    prpria disciplina, onde a fundamentao de determinados paradigmas eximem o

    pesquisador de considerar problemas bsicos.2 No caso da histria, raros so os

    historiadores que consideram questes sobre a natureza da disciplina, como a real

    possibilidade de apreenso do passado, a forma como o discurso histrico apresentado

    e os limites da comprovao documental. Nesse sentido, no cenrio de crise que

    abordamos, Hayden White, por exemplo, seria uma espcie de modelo de pesquisador

    criador nos termos colocados por Kuhn, j que ele parte dos limites impostos pelo

    paradigma moderno para repensar pressupostos bsicos da pesquisa histrica para ento

    fundamentar uma nova forma de enxergar o fazer historiogrfico.

    Com efeito, o exemplo de White esclarecedor para compreendermos a

    dinmica do trnsito paradigmtico. De acordo com Kuhn, pesquisadores de ndole

    criativa tendem a refutar postulados estabelecidos para investigar determinados

    2 No texto A histria da cincia, inserido na coletnea A tenso inicial, Thomas Kuhn desenvolve esse problema ao comentar a resistncia de novos pesquisadores de consultarem obras fundadoras, como a Fsica de Aristteles, por exemplo. Isso ocorre, segundo o autor, devido tendncia da cincia moderna de tomar esses tipos de obras como obsoletas pelo simples fato de teorias posteriores j terem provado que os postulados contidos nelas estavam errados. Para Kuhn, isso reflete a importncia do consenso de comunidades de pesquisadores em relao a determinados paradigmas, responsvel por inibir a atividade criativa do jovem cientista. Citando a Bertrand Russell, ele afirma que, ao estudar um determinado autor, no se deve procurar onde ele errou, e sim partir de uma simpatia hipottica para tentar compreender como esse autor chegou s concluses que sua obra demonstra, ao ponto de podermos compreend-lo e at mesmo acreditar naquilo que ele props. Autores como Alexandre Koyr, Anneliese Maier e E. J. Dijksterhuis seriam pioneiros por combaterem esse tipo de perspectiva dentro da filosofia da cincia (KUHN, 2011, p. 130-131).

  • Acesso Livre n. 5 jan.-jun. 2016

    35 problemas sob novas perspectivas. No caso de White, a emergncia de sua teoria no

    mbito da histria coloca em discusso determinadas certezas construdas durante a fase

    da historiografia moderna, problematizando, por exemplo, o ideal de cientificidade da

    disciplina subsumida a uma relao ordenada entre fonte e o real. Ao realizar essa

    problematizao, obras como Metahistory oferecem uma nova matriz de abordagens

    para a pesquisa histrica, invertendo a lgica interna da disciplina ao aproxim-la da

    literatura e das anlises do discurso. No obstante a narratividade e o discurso histrico

    serem hoje parte do corpus de objetos amplamente pesquisados por historiadores das

    mais diversas tendncias, a inverso causada por autores como White foi responsvel

    por um perodo de incerteza e insegurana para a comunidade de pesquisadores. Esse

    perodo de trnsito entre a emergncia de um novo paradigma e sua absoro por parte

    dos pesquisadores identificado como um cenrio, tambm transitrio, de crise.

    Segundo Kuhn:

    A emergncia de novas teorias geralmente precedida por um

    perodo de insegurana profissional pronunciada, pois exige a