Notas métricas a Aristófanes. Compostos em trítmetros iâmbicos

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Text of Notas métricas a Aristófanes. Compostos em trítmetros iâmbicos

  • NOTAS MTRICAS A ARISTFANES

    COMPOSTOS EM TRMETROS IMBICOS

    I

    No estudo que fiz dos compostos aristofnicos (1), tive ocasio de observar que a posio, no verso, destas criaes vocabulares, natu-ralmente expressivas, no era geralmente uma qualquer. Com efeito, os compostos apareciam em posio bem definida em relao s cesu-ras do trmetro, ou s suas dirses, e poucas eram as excepes, em confronto com a grande maioria dos casos estudados. E o que se diz do trmetro imbico do dilogo, diz-se dos tetrmctros da parte declamada.

    Quero aqui alargar as minhas observaes, partindo da simples colocao para a prpria estrutura mtrica dos compostos aristof-nicos em trmetros imbicos. Como palavras longas, to longas que uma s pode constituir um verso inteiro, o problema da sua compo-sio morfolgica e semntica no pode dissociar-se da estrutura rt-mica que lhes permite figurar no verso.

    Comecemos pela colocao dos compostos em relao cesura pentemmere. Pode dizer-se que esta cesura divide mtricamente o verso em duas metades, embora a segunda seja mais extensa: 5 meios--ps // 7 meios-ps.

    Assim, a primeira parte dum trmetro imbico apresentar, quando perfeitamente regular, a forma seguinte a que podemos chamar cannica :

    (1) AIIIAA ONOMATA no estilo de/Aristfanes, Coimbra, 1952. As palavras de que no presente artigo me ocupo, so nomes compostos de temas homi-mais e de temas verbais, que, na sua quase totalidade, s aparecem em Aristfanes. Outros compostos so tomados em considerao apenas ocasionalmente.

  • 20 AMRICO DA COSTA RAMALHO

    Mas preciso no esquecer as substituies (1) admitidas pelo

    iambo nos ps mpares, e as admitidas nos ps pares, com excepo

    do sexto: mpares Pares

    Deste modo, a primeira parte do verso pode apresentar, para

    o mtron inteiro que a constitui, uma variedade grande de combinaes

    dos 2 ps iniciais; e o quinto meio-p pode ser constitudo por uma breve

    uma longa ou duas breves. Todavia, nos trs casos por mim regis-

    tados, em que um composto aristofnico ocupa toda a primeira parte

    do verso at a ces. pentem., o esquema muito simples, regular, e

    quase uniforme:

    0dfjXiaaT^i; onv & ovsi v^Q (V. 88)

    nr}haar.

    Zieetat y tom' AE (AV. 110) V V V \J

    no(}ofafAao t>v QTIXOV yyvero. (P. 678)

    de notar que a palavra cuirjhaar, em Av. 110, responde, cora

    a mesma colocao, pergunta Mv r\Xiaax; ( ^ ) do verso

    anterior.

    (1) Cf. J. W. White, The verse of Greek Comedy, pg. 38: 99. The distribution of the various forms of the foot that are found in the

    trimeters of Aristophanes is as follows:

    Iambs Tribrachs Spondees Dactyls Anapaests

    l

    2205 * 208

    4804 459

    1158

    U

    6667 960

    1208

    in

    2243 308

    5174 849 261

    IV

    6865 1107

    863

    V

    3090 71

    5162 162 350

    VI

    8833 0 0 0 2

    8834 8835 8835 8835 8835 8835

    * The first metre in Pax 663 is a choriambic iambic dipody.

  • NOTAS MTRICAS A ARISTFANES 2!

    As coisas passam-se com um pouco mais de variedade, quando o composto termina na cesura pentemmere, mas no ocupa todo o primeiro x&Xov. Podemos dividir os esquemas mtricos, apenas por comodidade de exposio, em duas partes:

    a) O segundo p um iambo:

    xv ftoonoiv olo, &v dqaavvExai. (R. 846)

    ( - )

    HT. rQ XaXXOJlQOMXE. "

    0E narre TioXXo rol QOI. (JV. 1330)

    xal 7iTCoxo7ioi " xal qaxioavQQcmxri; (R. 842)

    ( - )

    WC evxo7il7]8i) " tjv ev rjxxXrjala- (Ecc. 387)

    "O xi; xavvorcQxxov " xov 'Jova Xysi (Ach. 106)

    I 1 w \J \J IJ

    xal nxBQOvqxa' " ov M xlioiV dou x%a. (Av. 1390)

    b) O segundo p apresenta resoluo do iambo:

    1. tr brao:

    I v I -, i v v

    fivQOOTioxpXayv, " VTIOTIZOWV XV SeajzrrjV (Eq. 47)

    I ) i \ \j \j

    xal yvojfioxvmx '' xal oa

  • 22 AMRICO DA COSTA RAMALHO

    Na srie a) o esquema mtrico dos compostos trocaieo, e a slaba ou slabas precedentes servem de uma espcie de anacruse que trans-forma o ritmo de trocaieo em imbico. Na srie bl) os,compostos facilmente podiam integrar-se num mtron imbico. Se o poeta os fez preceder de uma slaba de anacruse, poder concluir-se que a sua preo-cupao se relacionou com a constituio a dar ao primeiro hemist-quio e com o desejo de fazer coincidir o fim do composto com a ces. pentemmere. Quanto aos compostos de esquema - - (o final dum hexmetro dactlicoV dificilmente podiam aparecer na constituio dum mtron isolado, porque o espondeu no admitido nos ps pares. Da a indispensvel slaba de anacruse que transformava o ritmo de dactlico em imbico e levava a final do composto coincidncia com a cesura pentemmere.

    O segundo hemistquio, dspois da ces. pentem., tem a forma can-nica seguinte, que pode apresentar variantes de acordo com as subs-tituies j referidas:

    O composto aristofnico, colocado logo em seguida ces. pentem., pode ocupar todo o segundo hemistquio:

    a) com excepo do meio-p final, no cas^ seguinte:

    V v ^ v l I

    "Ahfie, ovxo; " XQOVvoxvxqo^qaloQ et {Eq. 89)

    b) com excepo do iambo final:

    yvsO' vriaTon " ipva.TQaq>vo nXa {Eq, 630)

    r fioixoTQnov, r " vQeQaGTQa HaXiv {Th. 392)

    Xevxfj VOJ'EI ' fteAavoovQftaw Xsq>. {Th. 857)

    Neste ltimo verso, o composto aristofnico substitui %ivo vyQalvet ( ^ v ) d verso 3 da Helena de Euripides, do qual par-dia (1). curioso notar que a substituio cmica se deu no segundo

    (1) Cf. A, Costa Ramalho, livro citado, pg. 104-5.

  • NOTAS MTRICAS A ARISTFANES 23

    hemisiquio (como era natural, querendo fazer avultar a inteno parodstica), logo em seguida cesura pentemmere.

    c) sem excepo:

    Tov juv yq ei " KQQfifivovQsyiria (P, 529)

    arjv E%M rfjv " TiQwxTOTievTETrjQLa. (T. 876)

    'I atgrev^a " TtoXefioXafiaxaixv. (Ach. 1080)

    ^ V V V V *- w -

    'vvijdrjv, " ipafifiaxoaioyagyaQa. (Ach. 3)

    JJwQv r% ipei ' arQeipotxojiavovQyav. (Av. 1468)

    jKgtAAjTov, " xofiTioq^axeXoQQrjiuova. (R. 839) (1)

    ov rj 'fi %avx, ai GTCDfjivXioavXXexrrj (R. 841)

    at fikfov 8i xv 'Hgaxhiotjavdiav (R. 499)

    O esquema, como acaba ver-sc, de um composto colocado nestas condies, surpreendentemente regular. Nos exemplos observados, o lectio correspondente segunda parte do trmetro imbico, em seguida ces. pentem., apresenta-se com mais frequncia curioso obser-v-lo! com o esquema rtmico da frase Xrjxviov jiXeaev de Ran. 1208 e segs. (**"" ) que, como se sabe, deu o nome a este clon.

    A colocao dum composto aristofnico entre a ces. pentem. e a dirse seguinte (a do segundo para o terceiro mtron) tambm no rara. A frmula mais regular ter, com as substituies admitidas, a representao seguinte:

    ii w - - I 3.0 mtron

    (1) Notar a constituio do verso, formado s de duas palavras, dois com-postos. O primeiro hemistquio ( -- ) muito regular.

  • 24 AMRICO DA COSTA RAMALHO

    Na anlise dos compostos aristofnicos, encontrei os seguintes esquemas :

    Ov rjipi, XQvaOf " %avvn>(.oKT 'Iaovav (Ach. 104)

    yQoiHo Qyrjv, " xvafioTQOj, xgxQXo (Eq. 41) (1)

    _ w v/ \J

    oaei fiXnova " Bvfi(3(>oq)yov. !Q fiaxQio (Ach. 254)

    rQ ovto ovxo, " TWpeav xai %oiQtiXiip, (V. 1364).

    A importncia d cesura heftemmere na colocao dos compostos aristofnicos, embora quantitativamente menor, que a da pentem-mere, pode tambm observar-se nos dois casos seguintes:

    a) colocao entre a cesura triemmere e a heftemmere. A forma cannica ser: "1- "", isto , um composto com esta conformao mtrica ser um ditroqueu. Encontrei as seguintes variedades :

    AA.

  • NOTAS MTRICAS A ARISTFANES 75

    b) colocao entre a cesura heftemmere e o fim do verso. A forma cannica ser , isto , o clon conhecido por hipodocmqco. Com a regularidade rtmica que caracteriza os compostos aristof-nicos, esse esquema mtrico encontra-se nos casos seguintes:

    OQVIB, anv; TAqa xo/moXaxvdov; (Ach. 589)

    EP. rovrl ri ari r xaxv

    TP. 'l7moxv6(iQo. (P. 181)

    Aoxwv yvvaixiv egya vvxTEQSLOia (Th. 204)

    vQCOTtov yoionoiv, " avQaoxo[iov (R. 837)

    jcao/icai filo ri, " jxXooemnxov. (Ecc. 1153)

    Encontram-se variantes nos casos seguintes:

    XJ VJ w \j -

    veavai 'xxUnxovoi " fieOvoonrrapor (Ach. 525)

    7iQ i, rjfiv eoxiv " fio/Aaariya (R. 756) v#

    emoifi ' v avx fjra xofiipevQUWi; (Eq. 18)

    Estas variantes representam tipos conhecidos de docmaco, mas no provvel que este clon, frequente nos trechos lricos do drama trgico, tivesse qualquer individualidade no esquema do trmetro imbico do dilogo. E o mesmo pode dizer-se do hipodocmaco atrs citado, bem como do colrion ((piAr}faaoTtff cmy\kia.atri,\ frequente em sries de dctilo-eptritos lricos, ou do adnico (ngay^a-Totprj, TIovroTtoaeioov), etc..

    II

    J nos referimos colocao de compostos entre a cesura pen-temmere e a dirse do segundo para o terceiro mtron.

    A dirse, porm, pode constituir uma forma de delimitao duma palavra expressiva no verso, sem o auxlio de qualquer cesura, isto , uma palavra pode ficar colocada simplesmente entre duas dirses.

  • 26 AMRICO DA COSTA RAMALHO

    Tal pode acontecer, naturalmente, quando a palavra constitui um mtron capaz de figurar num trmetro imbico. Nos tetrmetros anaps-ticos, que terminam, como se sabe, por um ionicus a minore ( - ) , o ltimo mtron frequentemente preenchido por uma s palavra.

    Um exemplo tpico, em trmetros imbicos, desta colocao duma palavra de dirse a dirse, o seguinte verso, cuja palavra central provavelmente uma criao aristofnica:

    reQfiove, MaQaQo)vofx%ai, otpevoapvivoi. (Ach. 181)

    O composto MaQadcovoftxat um mtron anapstico per