Os Bichos Madalena

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Apresentação sobre o conto Madalena

Text of Os Bichos Madalena

  • Os Bichos de Miguel Torga

  • Madalena

  • Queimava.Encontramo-la sob intenso calor a arrastar-se por um ngreme carreiro, na Serra Negra, e a dirigir-se a uma aldeia chamada Ordonho.Saiu de manh cedo, sem dar nas vistas de Roalde, a terra onde vive.Leva consigo um segredo: o segredo dela e de Deus! Nem o maroto que lhe fizera o servio desconfiava!

  • O que a ter levado a sair s escondidas da sua aldeia natal?Ah, magusto, magusto do S. Martinho! Caras lhe estavam as quatro castanhas assadas que aceitara na cardenha da Tapada. O malandro at jeropiga tinha ali mo! E ela, a tola, comera, bebera e, por fim, rolara na palhaE tudo por causa das falinhas doces do Armindo, daquelas falinhas mansas, repenicadas que a levaram desgraa!

  • Ele no quis casar.Calada como um testamento, aguardou que o rapaz viesse falar-lhe a srio.Fez-se de desentendido. L casamento, isso no era com ele.Escondeu tudo.- Preferia morrer a ficar nas bocas do mundo.Meteria no segredo a Ludovina, a sua amiga de Ordonho.() Em casa dela teria o filho.

  • Sede na serra secaDebaixo dos ps, o cascalho soltava risadas escarninhas.Estalava de secura () uma sede funda, grossa, que a reduzia inteira a uma fornalha de lume.(A boca)Era um buraco encortiado, por onde o ar passava em labaredas.Na Serra Negra, quem se quiser refrescar, tem de beber o suor.

  • O momento da dorAguilhoado de todos os lados, o corpo comeou a torcer-se, aflito.Dentro dele, atravs dele, um outro corpo estranho queria romper caminho.As dores pareciam cadelas a mord-la.E toda ela era um uivo de bicho crucificado.

  • A tranquilidadeAlheia a tamanha angstia, a serra dormia a sesta, impassvel.Indiferente ao tempo, que parara ou deslizava sem lhe tocar a pele empedernida, fechara-se num egosmo desumano.Nem um som, nem a presena de uma aragem a quebrar a solido que a cercava.

  • A normalidadeA ltima dor morrera h um segundo, ou h horas, ou h semanas?Sabia, sim, que o sofrimento se apagara de vez e a deixaraEntre as pernas estava cado e morto o filho.Enterrou num buraco o filho e o segredo.Eram horas de regressar.Eram horas de voltar aldeia e matar aquela sede sem fim na fonte fresca da Tenaria.