of 65/65
A tradição cabalista, relembrada oralmente a Moisés pelo próprio Deus no monte Sinai, encerra os segredos do universo, transmitidos ao longo do tempo somente aos iniciados. Neste livro, Samuel Gabirol nos permite conhecer os fundamentos e a prática da hermética doutrina mística do judaísmo, desvendando, através da Cabala, os textos sagrados da história da humanidade e demonstrando a íntima relação das principais vertentes do esoterismo com a doutrina cabalística. Temas como Guematría, rituais mágicos, Geomancia, Taro, Alquimia e Astrologia são abordados nesta obra profunda, mas extremamente acessível, capaz de iluminar e conduzir o leitor através dos mistérios da Cabala A CABALA Ao princípio mágico e filosófico da Cabala está relacionado o aspecto divino das letras do alfabeto hebreu. A língua sagrada que os iniciados passam de geração a geração tem um segredo. Desvendá-lo é conhecer também os segredos do universo, pois cada letra é uma mensagem divina, uma informação mística, uma condensação de energia, um fragmento do cosmo. Neste livro, Samuel Gabirol permite ao leitor conhecer a hermética doutrina mística e esotérica do judaísmo, contemplando, à luz da Cabala, os principais textos sagrados da história da humanidade. O autor faz uma explanação teórica a respeito dos múltiplos aspectos da tradição cabalística e aborda a prática e a magia da doutrina, fornecendo as primeiras noções da Cabala prática; demonstrando a forma de combinar números e idéias; examinando, uma a uma, as letras do alfabeto hebreu e abordando o taro, a alquimia, a astrologia e os quatro elementos sob uma perspectiva cabalística. Temas como Guematria, rituais mágicos, Geomancia e Cartomancia se encontram nesta obra abrangente e imprescindível a todos aqueles que desejam se iniciar na misteriosa sabedoria da Cabala.

SAMUEL GABIROL - Psicologia do Espírito · Temas como Guematría, rituais mágicos, Geomancia, Taro, Alquimia e Astrologia são abordados nesta obra profunda, mas extremamente acessível,

  • View
    223

  • Download
    1

Embed Size (px)

Text of SAMUEL GABIROL - Psicologia do Espírito · Temas como Guematría, rituais mágicos, Geomancia,...

  • A tradio cabalista, relembrada oralmente a Moiss pelo prprio Deus no monte Sinai, encerra os segredos do universo, transmitidos ao longo do tempo somente aos iniciados. Neste livro, Samuel Gabirol nos permite conhecer os fundamentos e a prtica da hermtica doutrina mstica do judasmo, desvendando, atravs da Cabala, os textos sagrados da histria da humanidade e demonstrando a ntima relao das principais vertentes do esoterismo com a doutrina cabalstica. Temas como Guematra, rituais mgicos, Geomancia, Taro, Alquimia e Astrologia so abordados nesta obra profunda, mas extremamente acessvel, capaz de iluminar e conduzir o leitor atravs dos mistrios da Cabala

    A CABALAAo princpio mgico e filosfico da Cabala est relacionado o aspecto divino das letras do alfabeto hebreu. A lngua sagrada que os iniciados passam de gerao a gerao tem um segredo. Desvend-lo conhecer tambm os segredos do universo, pois cada letra uma mensagem divina, uma informao mstica, uma condensao de energia, um fragmento do cosmo. Neste livro, Samuel Gabirol permite ao leitor conhecer a hermtica doutrina mstica e esotrica do judasmo, contemplando, luz da Cabala, os principais textos sagrados da histria da humanidade.O autor faz uma explanao terica a respeito dos mltiplos aspectos da tradio cabalstica e aborda a prtica e a magia da doutrina, fornecendo as primeiras noes da Cabala prtica; demonstrando a forma de combinar nmeros e idias; examinando, uma a uma, as letras do alfabeto hebreu e abordando o taro, a alquimia, a astrologia e os quatro elementos sob uma perspectiva cabalstica. Temas como Guematria, rituais mgicos, Geomancia e Cartomancia se encontram nesta obra abrangente e imprescindvel a todos aqueles que desejam se iniciar na misteriosa sabedoria da Cabala.

  • SAMUEL GABIROL

    A CABALATraduo de OCTAVIO ALVES VELHO

    EDITORA RECORD

    ADVERTNCIA

    Os leitores interessados na Cabala ou em certas cincias ocultas podero espantar-se com as diferenas de transcrio dos termos hebraicos nas bibliografias das obras consultadas: conforme as escolas de traduo, podero encontrar, por exemplo, Sephirot e Sefirot, Sepher Yetsirah, Sefer letzirah e Sefer Jesir...Para simplificar a leitura do nefito, adotamos a forma aportuguesada dos nomes prprios, quando j existentes, como Judas por lechudo, Isaac por Yitshaq, Simo por Shim'on...

    SUMRIO

    A ANTIGIDADE DA TRADIO CABALSTICA ........................................................................... 3 QUEM SONDA OS MISTRIOS DA CABALA O FAZ POR SUA CONTA E RISCO ..................... 7 O apelo do rabino Simo bar Iochai ............................................................................................... 10 DESABROCHAR; LTIMOS FOGOS; NOVA OCULTAO DA CABALA .................................. 15 PRIMEIRAS NOES DE CABALA PRTICA ............................................................................. 19 AS MARAVILHAS DA CABALA ..................................................................................................... 25 A FILOSOFIA (MSTICA) DA CABALA .......................................................................................... 31 AS TRS PRIMEIRAS LETRAS MISTERIOSAS .......................................................................... 35 OS SEGREDOS DAS OUTRAS LETRAS HEBRAICAS ............................................................... 39 A CABALA, O TARO, A ALQUIMIA E A ASTROLOGIA ................................................................ 46 A MENSAGEM DE ABRAO ABULFIA ...................................................................................... 50 OS RITUAIS MGICOS EXTRADOS DA CABALA ...................................................................... 53 O ZOHAR (O LIVRO DO ESPLENDOR) ....................................................................................... 56 DE ARTE CABALISTICA ............................................................................................................... 61

    2

  • PRIMEIRA PARTE

    OS MULTIPLOS ASPECTOS DA TRADIO

    CABALISTICA

    A ANTIGIDADE DA TRADIO CABALSTICAA sucesso das diferentes raas: no comeo do mundo

    Todos os grandes reformadores religiosos, sejam eles Moiss, Buda, Cristo, Maom, Zoroastro ou outros, todos os criadores de grande espiritualidade dividiram sua doutrina em duas partes:

    a primeira, ou exoterismo, sendo a parte obscura destinada ao uso da maioria;a segunda, ou esoterismo, sendo a parte onde o segredo revelado era endereado apenas aos iniciados capazes de compreend-lo.

    Sem que nos detenhamos nos orientais (Buda, Confcio, Zoroastro), pois tal no nosso tema, tanto a histria invisvel, isto , contada pelos iniciados em seus cenculos secretos, quanto a visvel, quer dizer, cientfica, mostram-nos Orfeu revelando o esoterismo aos iniciados por meio da criao de mistrios, de cerimnias mgicas que sero conservadas atravs dos sculos em sociedades secretas.Da mesma forma, a histria mostra-nos Moiss escolhendo uma tribo de sacerdotes, ou iniciados a tribo de Levi , dentre a qual tomou parte aqueles a quem podia confiar a tradio.Cada continente viu nascer progressivamente, h milnios, uma flora e uma fauna de que a raa humana foi o coroamento. Esses continentes apareceram um aps outro. Cada um emergiu no momento exato em que a raa humana nele abrigada se preparava para tomar o lugar de outra, em plena expanso num continente que deveria desaparecer. O Grande Arquiteto ps em ao um plano que, embora escape ao nosso entendimento, possui coerncia no nvel csmico, onde nada deixado ao acaso. Continuamente, a terra dominada por uma raa humana; no final dos tempos, todas as raas se reuniro para formar um nico e mesmo organismo.Diversas grandes civilizaes, diz a tradio, sucederam-se dessa forma em nosso planeta.

    3

  • A lendria civilizao da Atlntida, evocada por Plato, conhecia numerosos segredos cientficos e espirituais.Tal civilizao, muito evoluda, expandia-se no lugar do atual oceano Atlntico, tendo sido criada pela raa vermelha, e foi destruda por uma catstrofe csmica.Na ocasio em que a raa vermelha se encontrava em pleno progresso, apareceu um novo continente. Os movimentos da crosta terrestre so tais que, quando um continente surge, outro se prepara para submergir, para soobrar nas profundezas do oceano. O continente africano foi destinado raa negra.

    O cataclismo que tragou a Atlntida e os atlantes relatado por todas as religies, todos os mitos, todas as correntes espirituais. A Bblia e a epopia de Gilgamesh o livro sagrado dos sumrios denominam-no Dilvio. A civilizao passou ento s mos da raa negra. Houve alguns sobreviventes da raa vermelha, e estes transmitiram o seu saber. Os peles-vermelhas da Amrica no sero os descendentes dessa antiga raa vermelha que governou a Atlntida? Certamente, mas os peles-vermelhas so sobreviventes que perderam o segredo inicitico, ou melhor, so os descendentes dos que no haviam conhecido seno a sabedoria exotrica das doutrinas da Atlntida.

    Enfim, quando os prprios negros atingiram seu apogeu, surgiu um novo continente: o eurasiano, com a raa branca.

    A antiga tradio esotrica afirma que viveremos uma poca, uma poca muito longa, onde nenhuma raa exercer sua supremacia sobre outra, e certos ocultistas dizem que sinais prenunciadores desse perodo so desde j perceptveis, apesar das desordens e das crises de toda sorte que estamos atravessando.

    Orfeu, Moiss, Jesus e os outros grandes iniciados

    A transmisso esotrica da tradio primordial torna-se indiscutvel por volta do ano 550 antes de nossa era, iniciada nas mesmas fontes que Orfeu e Moiss, isto , nos santurios mais remotos do antigo Egito. Pitgoras tinha um ensinamento que reservava para os discpulos diletos, e os fragmentos que chegaram at ns, em particular os Versos Dourados, indicam sua identidade absoluta com a Cabala, de que, em ltima anlise, no parecem ser mais do que uma traduo e uma adaptao ao esprito grego. Reencontramos de novo essa tradio em Scrates, Plato, Aristteles e igualmente em Plutarco, um dos grandes entre os Antigos. Plutarco dizia que um juramento lhe cerrava os lbios, sendo-lhe impossvel falar. Assinalemos, enfim, a existncia dessa tradio secreta no cristianismo, quando Jesus revelou apenas a seus discpulos o sentido verdadeiro (oculto) do Sermo da Montanha e, sobretudo, no momento em que confiou seus ensinamentos mais profundos a Joo, o discpulo bem-amado. O Apocalipse de Joo , alis, inteiramente cabalstico. Ele representa o verdadeiro esoterismo cristo. A tradio primordial , repitamos, de uma Antigidade venervel. um iniciado do sculo XIX, Fabre d'Olivet, um iniciado que, seja dito entre parnteses, escreveu a msica da sagrao de Napoleo, quem nos d a melhor definio da Cabala. Essa definio aceita hoje por todos os ocultistas."Parece, na opinio dos mais famosos rabinos", escreveu Fabre d'Olivet, "que o prprio Moiss, prevendo a sorte de seu livro e as falsas interpretaes que lhe deveriam dar atravs dos tempos, recorreu a uma lei oral, que passou de viva voz a homens comprovadamente confiveis, encarregando-os de transmiti-la, no sigilo do santurio, a outros homens que, transmitindo-a por sua vez atravs dos tempos, fizessem-na chegar mais remota posteridade. Essa lei oral, que os judeus modernos se gabam de ainda possuir, chama-se Cabala, de uma palavra hebraica que significa o que recebido, o que vem de outro lugar, o que passado de mo em mo."

    4

  • Cabala = o que recebido. Isso identifica a Cabala, a tradio, com o Graal celta. O Graal a taa que recebe. Contudo, o que recebido? O orvalho do cu, dizem os alquimistas em sua linguagem metafrica. O orvalho do cu, ou o Verbo de Deus, ou ainda o segredo do Universo.

    O homem que se considerava o Messias

    Abrao Abulfia, um dos mais clebres cabalistas conhecidos, que vivia na Espanha ao tempo em que a Ordem catara prosperava no sul da Frana, deu explicaes muito interessantes sobre o assunto. Deus, dizia ele, criou o mundo com as letras do alfabeto hebraico. Esse alfabeto, como o alfabeto snscrito, sagrado: cada uma de suas letras encerra um mistrio. No um som vazio. E, mais precisamente, Deus criou o mundo escrevendo-o. O Arquiteto um artista, um sbio e um poeta. Abulfia dizia que a materialidade das letras sua inscrio fsica constitui a substncia do universo, que a inspirao que habita as palavras divinas penetra nos homens enquanto estes sonham. Saber decifrar tais sonhos , portanto, assenhorear-se de um poder extraordinrio. O Messias o senhor do poder dos sonhos da humanidade. Ele vir certamente no final dos tempos, mas os homens devem preparar-lhe o caminho, divulgando ao mundo as luzes que receberam ao estudar a Cabala.Abrao Abulfia, que deu Cabala sua fisionomia proftica, pensava e o provou que cada letra do alfabeto hebraico, lngua sagrada por excelncia, constitua um poder, era a morada de um determinado anjo (hoje diramos de uma fora, ou de uma energia). Mas ateno, esclarecia ele, pois a inspirao divina atravessa todas as coisas, deixando nelas sua marca.Isso quer dizer duas coisas:

    O indivduo que decifra seus sonhos, aquele que sabe ler os textos sagrados e compreende as mensagens divinas, esse homem dotado do dom da profecia. Ele se torna seu prprio messias, ou, antes, um adepto do Messias que, no final dos tempos, deve vir reconciliar todos os homens, estabelecer a paz na terra e revelar os segredos mais ocultos. Em suma, aquele que aparecer quando a humanidade alcanar a idade adulta. Segundo a tradio, com efeito, os homens e as mulheres ainda no alcanaram a maturidade. E basta abrir os olhos, ver as guerras e a misria que nos acometem, para lhe dar razo.

    Quando a inspirao penetra nas coisas e nos seres para lev-los vida e, num segundo tempo, abandona-os para ascender novamente ao Pai, ela deixa, mesmo assim, um trao, ou diversos traos. Estes so, na verdade, assinaturas que permitem conhecer a intimidade do ser ou da coisa. E o conhecimento dessas assinaturas se encontra na origem de cincias muito interessantes como a fisiognomonia (arte de ler o carter nos traos fisionmicos), a quiromancia (arte de ler o destino de uma pessoa nas linhas de sua mo) e vrias outras disciplinas esotricas.

    Abrao Abulfia foi, pois, um cabalista importantssimo. Ele era muito dotado; infelizmente, no escapou ao defeito que provocou a queda do anjo de luz (Lcifer): a presuno. Estava convencido o que depe a seu favor da unidade oculta de todas as religies e de que so vs as rivalidades: pensava ter como misso desvendar essa verdade para o mundo. Fez, portanto, a viagem a Roma na inteno de encontrar o papa e incit-lo a propagar essa boa-nova. E o que aconteceu, ento? O prprio papa ignorava essas verdades esotricas de que o cristianismo, como todas as outras religies, est secretamente impregnado? Foi simplesmente anti-semita? Ou, pensava que o momento para falar de tais coisas ainda no chegara? Seja l como for, mandou prender Abulfia, e este, que devia ser condenado morte, no teve a vida salva seno pela morte do papa.

    Os manuscritos do mar Morto

    5

  • Para retornar Antigidade venervel e multissecular da tradio cabalista, relembrada oralmente a Moiss pelo prprio Deus no monte Sinai, indiquemos alguns dados que a atestam de maneira insofismvel. Em primeiro lugar, o descobrimento dos manuscritos do mar Morto, aqueles famosos manuscritos encontrados h algumas dezenas de anos nas grutas de Qumran, em Israel, perto do mar Morto e da fortaleza de Massada. Descoberta sensacional, devida ao acaso, que desconcertou mais de um ctico.A seita dos essnios, que se refugiara no deserto, naqueas grutas, constitua uma ordem inicitica da qual a tradio afirma ter sido Jesus membro, ou mesmo chefe oculto. Estranhamente, os essnios lembram os ctaros: o mesmo sistema de comunho de bens, a mesma rejeio do mundo, a caridade e espantosas semelhanas em seus rituais.Foi notvel a surpresa dos arquelogos e historiadores, quando os seguintes textos lhes chegaram s mos:

    textos ditos apocalpticos, tais como o Testamento de Levi. Apocalpticos, no sentido de que evocam, a exemplo do Apocalipse de So Joo, o fim do mundo e a ressurreio;textos esotricos como um Livro dos Mistrios, que continua enigmtico para ns em vrios aspectos;textos que pessoa alguma ousa separar da Cabala.

    Os mais cticos historiadores no podem deixar de reconhecer que esse material testemunha a existncia da tradio cabalstica j naquela poca. Voltamos a encontrar neles a mesma hierarquia celeste, os mesmos anjos, os mesmos nomes secretos de Deus que no Zohar o magnfico livro da Cabala. O fragmento mais impressionante desse texto pe em cena querubins abenoando o trono de Deus.Scholem, o melhor especialista atual da mstica judaica, admite ser obrigado a escrever: "Esses fragmentos suprimem toda dvida no tocante a uma relao entre os mais antigos textos da Merkabah (ou Merkavah) preservados em Qumran e a evoluo posterior do misticismo." A Merkabah o cerne mstico da especulao cabalstica. o carro divino, ou o trono celeste, que a meditao das letras do alfabeto sagrado acaba por fazer entrever ao iniciado e que lhe revela admirveis segredos, como veremos ao longo desta obra.

    "Ele os pendurou na constelao do Drago"

    A segunda demonstrao que testemunha a antigidade da Cabala a de que ela se apia na astronomia. No captulo VI de um livro cabalstico, o Sefer letzirah (o Livro da Criao), l-se: "As testemunhas fiis so: o mundo, o ano, a pessoa, e a lei : 12, 7, 3. Ele os pendurou na constelao do Drago, na esfera e no corao." O pronome Ele designa evidentemente o Grande Arquiteto do Universo, o criador de todos os mundos, a fora que nos excede. "Ele os pendurou na constelao do Drago." O autor entende que o Drago para o universo o que a esfera para o ano, o que o corao para a pessoa, isto , o poder impulsionador de tudo, o centro csmico.No pode haver dvida, pensa o ocultista contemporneo Papus, de que o rei em seu trono, o Arquiteto, o centro em torno do qual gravita toda a corte das estrelas a estrela polar. Ainda em nossos dias, apesar de sabermos cientificamente que isso no exato, continuamos a tomar a estrela polar como centro do universo sideral. A estrela polar tornou-se um smbolo mstico, mas representou outrora uma realidade notvel do sistema sideral. Se o autor do Sefer Ietzirah indicou o Drago como o centro, porque, em sua poca a estrela polar fazia parte dessa constelao. Com efeito, se seguirmos em uma carta celeste o crculo descrilo pelo plo em um perodo de 25 mil anos, veremos que esse plo, hoje na proximidade da estrela Alfa da Ursa Menor, gravitou, no decurso de toda a poca que se estende do ano 2000 a.C. at cerca do ano 1000 de nossa era, num espao quase desprovido de estrelas brilhantes. Cerca de mil anos antes da era crist, aquela estrela marcou aproximadamente o plo, que

    6

  • dela se afastou de modo progressivo para chegar, por volta do ano 850, vizinhana que ocupa em nossos dias.Se prosseguirmos, porm, no raciocnio, veremos que no h nisso seno um interesse extremamente relativo. Remontando poca mais recuada, de 3500 a 2000 a.C., constatamos que o plo no coincidia ento com a constelao da Ursa Menor, na qual hoje se encontra, mas ocupava obliquamente a do Drago. Foi por volta do ano 2800 a.C. que o plo mais se aproximou da brilhante estrela Alfa do Drago. Durante os quinze sculos que separam o ano 3500 do ano 2000 a.C., era essa estrela que indicava o plo. E, naquele momento, o Drago era o centro de todo o universo. O Sefer letzirah data, pois, necessariamente, dessa poca.

    A Cabala j existia no tempo do patriarca Abrao

    Melhor ainda. A tradio faz do patriarca Abrao o autor do Sefer letzirah. Abrao, reza a tradio, foi iniciado nos mistrios por Melquisedeque, a quem encontrou no deserto e a quem prestou homenagem, conforme registra a Bblia. Papus, estudioso do assunto, escreveu a respeito coisas definitivas, que merecem ser citadas: "Se abrirmos a Histria Antiga dos Povos do Oriente, de Maspero um nome que certamente no suspeito para a cincia contempornea , a leremos: O fragmento de uma velha crnica inserida no livro sagrado dos hebreus fala, com eloqncia, de um outro elamita que guerreou pessoalmente quase na fronteira do Egito. o Kuturlagamar, que apoiou Rimsin contra Hamurabi1 e no conseguiu sustar-lhe a queda. Reinava havia treze anos no Oriente, quando algumas cidades do mar Morto, Sodoma, Gomorra etc. se revoltaram contra ele. Convocou os senhores seus vassalos e partiu em sua companhia para os confins do prprio domnio... Entrementes, os reis de cinco cidades haviam reunido suas tropas e o aguardavam a p firme. Foram vencidos; uma parte dos fugitivos engolfou-se nos poos de betume furados no cho e a pereceu, enquanto o resto escapou a duras penas para as montanhas. Kuturlagamar saqueou Sodoma e Gomorra e restabeleceu por toda parte sua hegemonia, regressando depois carregado de despojes de guerra. A tradio hebraica acrescenta que ele foi surpreendido perto das cabeceiras do rio Jordo pelo patriarca Abrao.' "As coisas esclarecem-se. Abrao foi contemporneo e adversrio de Kuturlagamar, o Codorlaomor que aparece na Bblia apoiando sem sucesso seu vassalo Rimsin contra Hamurabi. Ora, Hamurabi comeou a reinar na Caldia perto do final do sculo XXV antes de nossa era. Ele reinou exatamente de 2287 a 2232 a.C. Por outro lado, a Bblia diz-nos que Abrao tinha 86 anos quando nasceu Ismael, o rival de Israel, fato ocorrido provavelmente alguns anos aps a expedio que fez contra Kuturlagamar. Abrao, tendo, pois, cerca de oitenta anos no momento da guerra de Rinsin contra Hamurabi, deve ter vivido entre 2300 e 2200 antes da nossa era. E nada se ope, seja do ponto de vista histrico ou do astronmico, a que seja ele o autor do Sefer letzirah. (Moiss no seria, portanto, o primeiro a haver transmitido a palavra cabalstica; ele apenas a teria feito ressurgir, "renovando-lhe a fora e o vigor", como dizem os iniciados.)

    QUEM SONDA OS MISTRIOS DA CABALA O FAZ POR SUA CONTA E RISCO

    1 Acrescentamos que Hamurabi dispunha de um Cdigo semelhante s Tbuas da Lei, que seriam posteriormente entregues por Deus a Moiss.

    7

  • A vertigem da origem

    Interroguemo-nos ainda acerca da origem da tradio da Cabala, pois esse problema das origens guarda um grande mistrio cuja soluo, se que existe, esclarecer sem qualquer dvida os mistrios da Cabala propriamente ditos. Resolver esse problema mostrar-se capaz de penetrar no universo fascinante da iniciao e da magia.Falamos acerca de Moiss. Um autor que parece ter sido um iniciado, um eclesistico chamado dom Augustin Calmet, escreveu, alguns anos antes da Revoluo Francesa (que alguns afirmam ter sido prevista, e at mesmo 'programada', pela tradio ligada Cabala e alquimia2): "Deus deu a Moiss no Monte Sinai no somente a lei, mas tambm a explicao da lei. Quando ele desceu e entrou em sua tenda, Aaro foi a seu encontro, e Moiss transmitiu-lhe as leis que recebera de Deus. Aps isso, Aaro colocou-se direita de Moiss; Eleazar e Itamar, filhos de Aaro, entraram, e Moiss repetiu-lhes o que acabara de dizer a Aaro. Depois de se terem estes colocado, um direita e o outro esquerda de Moiss, entraram os setenta Ancios de Israel que compunham o sindrio. Moiss exps-lhes de novo as mesmas leis... enfim, fizeram entrar todas as pessoas do povo que assim o desejavam... de sorte que Aaro escutou quatro vezes o que Moiss ouvira de Deus na montanha, Eleazar e Itamar ouviram trs vezes, os setenta ancios e o povo, uma vez." E "Moiss escreveu, em seguida, as leis que recebera, mas no a explicao dessas leis. Ele se contentou em confi-la memria deles. Chama-se a esta explicao a lei oral para distingui-la das leis escritas". Lei oral, porque no pode ser transmitida seno no decorrer de uma iniciao em que o Esprito desce sobre o discpulo.Moiss, no obstante sua grandeza, no foi o primeiro a receber a tradio cabalstica. Antes dele, vimos no captulo anterior, Abrao a recebeu, visto ter sido o autor de uma parte da Cabala escrita, o Sefer letzirah. O prprio Abrao a recebeu do misterioso Melquisedeque. E este ltimo? No h razo para nos determos a. Este pensamento provoca vertigem e revela um mistrio que ultrapassa a compreenso humana.

    Advertncia

    Uma passagem da Cabala adverte contra o perigo que existe de nos perdermos nessa vertigem: Tu explicars desde o dia em que Deus criou Ado na terra, mas no explicars o que existe em cima, o que existe embaixo, o que foi e o que ser. Esse texto parece enigmtico, mas muito simples. O que existe em cima e o que existe embaixo referem-se ao mistrio das origens do mundo. Ora, o mistrio das origens do mundo o prprio mistrio da Cabala, uma vez que esta contm o Verbo de Deus, o Verbo com o qual Deus criou o universo.As letras com as quais escrita a Cabala so as mesmas com que Deus criou o mundo. o que ensinou Abrao Abulfa, o cabalista j citado por ns. A Cabala, a Palavra de Deus, a tradio primordial, encontrava-se desde a origem junto do Arquiteto, e este a fez descer para ensejar o nascimento de todas as coisas. Os ctaros diziam que Deus enviara seu Filho com o fim de restaurar a criao que estava perecendo ante o ataque das foras do mal. Afirmavam igualmente que Jesus era simbolizado por uma letra ultra-secreta do alfabeto sagrado.O mistrio das origens nos ultrapassa as da Cabala como as do mundo e no fcil ter acesso a ele. Antes de comear a abord-lo, a Cabala adverte o investigador, assim como ns prprios o fazemos. A Cabala conta duas histrias simblicas que ilustram essa advertncia.

    A experincia inicitica pode levar morte ou loucura

    Duas pginas so das mais chocantes.

    2 Infelizmente este no o lugar para expor e discutir essa teoria que seduziu certos meios tradicionalistas, no sentido inicitico do termo. Embora ela possa parecer estranha, notemos simplesmente que numerosos indcios favorecem esta assero.

    8

  • "Simo Ben Zoma", conta a Cabala, "estava vagando pelo mundo. Rabino Josu passou e saudou-o duas vezes, mas ele no respondeu. Disse-lhe ento o rabino Josu: 'Que h afinal contigo, Ben Zoma, de onde teus ps te trouxeram?' E ele respondeu: 'Eu estava meditando.' O rabino Josu exclamou: 'Tomo os cus e a terra por testemunhas de que no sairei daqui antes que me tenhas dito donde vens.' O outro respondeu: 'Contemplei a origem. E compreendi que o Esprito de Deus no pairava sobre as guas primordiais como se conta, mas que planava como um pssaro.' O rabino Josu voltou-se ento para seus discpulos e lhes disse: 'Ben Zoma j se foi.' Pouco tempo depois, como o anunciara, Ben Zoma morreu." A intromisso nos domnios interditos freqentemente, como neste exemplo, um pressgio de morte. Quando algum sonha que penetra em um mundo desconhecido e inacessvel, ou quando contempla o mistrio das origens, est sendo chamado pelo Alm."Quatro rabinos, quatro sbios, entraram no Pardes. (O Pardes o Paraso, a origem da luz e da beatitude.) Eram eles Ben Azzai, Ben Zomah, Aher e o rabino Aquiba. Um contemplou-o e morreu. O outro viu-o e extraviou-se, no mais foi encontrado. O terceiro contemplou-o e devastou as plantaes (enlouqueceu, destruindo tudo por onde passava). Apenas um subiu em paz e desceu em paz (recebeu a iluminao e pde ingressar no Pardes). Entre quatro sbios, s um foi bem-sucedido. A experincia inicitica pode levar morte, loucura ou heresia, se no for bem conduzida, se no se conformar ao Verbo e ao ritual, se negligenciar as advertncias que o Livro d. Trata-se de bem mais que um alerta simblico: os males descritos nesse texto so bem reais, como o demonstra a medicina psicossomtica que cuida do fsico, do corporal, a partir do psquico. Um choque psicolgico para o qual no estamos preparados pode conduzir loucura, sabem-no todos os psiquiatras.

    Metempsicose, caminho inicitico e Pardes

    O texto esclarece: "Ben Azzai contemplou-o e morreu." a propsito dele que dito: "preciosa a morte de seus fies aos olhos do Senhor". Que significa isto? Rejubilar-se-ia Deus com a morte de seus fiis? Sim. A razo simples: a Cabala acredita na reencarnao, ou metempsicose. Para ela, como para toda a tradio, o ser humano retorna a terra sob forma humana, seja sob forma animal3, para se purificar. E de existncia em existncia, de encarnao em encarnao, ele encontra a luz e aproxima-se do estado ednico. A iniciao a situao daqueles que atingiram tal estado. por isso que ela reservada a alguns a isso chamados. Seja como for, os iniciados, aqueles que a Cabala denomina os fiis, vivem sua ltima passagem pela terra. Aps a morte, alcanaro o nirvana dos hindus, ou o cu dos judeus, dos muulmanos e dos cristos. por isso que Deus se rejubila com a morte de seus fiis."Ben Zomah viu-o e extraviou-se, no mais foi encontrado." Acerca dele disse a Escritura: "Encontraste o mel? Come o bastante; se te empanturrares, tu o vomitars." Ben Zomah comeu o mel e quis mais. No sabia ele que o ser humano apenas pode contemplar uma pequena frao da luz? Querer mais luz, mais do que se poderia suportar, pecar por presuno, como Lcifer, que, no entanto, era o anjo favorito de Deus. Um indivduo assim devolvido ao nada (isto , o que significa "No mais foi encontrado"). Ele obrigado a recomear o ciclo inteiro de reencarnaes a partir do incio."Elias contemplou-o e devastou as plantaes." Sobre ele dito: "Que tua boca no se dedique a fazer tua carne pecar." Isso tem relao com a loucura, conforme dissemos. "O rabino Aquiba subiu em paz e desceu em paz." E sobre ele que est escrito: "Leva-me contigo, corramos, o rei me fez entrar em seus aposentos." O rabino Aquiba um superior desconhecido, quer dizer, um anjo que desceu terra. Ele assumiu a forma humana, vem terra quando quer (quase sempre para cumprir uma misso) e volta ao cu a seu bel-prazer.

    3 Segundo seu carma, ou destino csmico, o homem de m conduta reencarna sob forma animal. A Cabala muito explcita quanto a isto.

    9

  • As ltimas frases (Leva-me contigo, corramos [...]) so uma citao do Cntico dos Cnticos, poema central da Bblia e um dos mais belos poemas de amor da humanidade. Ele descreve simbolicamente o amor da alma por seu criador (o rei). esse amor de que a alma jamais se separa que lhe d todos os poderes: descer terra para revelar a certos homens a palavra secreta e voltar a subir "aos aposentos do rei". Com que se parece, entretanto, o mundo l de cima? Com que se parece o Pardes onde pde entrar o rabino Aquiba e que permaneceu vedado aos outros trs companheiros? "Com que se parece a coisa? Com o pomar do rei acima do qual foi construda uma balaustrada. O que prescrito ao homem? Que ele olhe, contanto que no se farte com os olhos." Que no se satisfaa com os olhos para no cometer o mesmo erro de Ben Zomah. A Cabala compe-se de vrios livros citamos apenas o Sefer letzirah e o Zohar, mas h outros e de milhares de pginas de que ainda no foi extrada toda a sabedoria, e sobre as quais todos os iniciados do mundo, em Israel tanto quanto alhures, se debruam com ardor. Contudo, digamos novamente: antes de se dedicar ao estudo da Cabala, cumpre tomar precaues, tais como o demonstram as poucas histrias relatadas. Quem quiser conhecer a Cabala, suas prticas mgicas, seus mistrios profundos, o far por sua conta e risco. No h necessidade de homens armados para defender os segredos espirituais da tradio: eles se defendem bem por si mesmos.

    O apelo do rabino Simo bar IochaiPor mais que a Cabala possua venervel antigidade, por mais que remonte noite dos tempos, no perduram menos alguns momentos histricos de fato notveis. Vimos que esses momentos so a iniciao de Abrao, antes de tudo, e em seguida a de Moiss. Outro momento o do Grande Snodo (o Idra Zut) tal como a prpria Cabala registra (seo dita do Comentrio do Sifra Dzeniuta pelo rabino Simo bar lochai).Jerusalm acabava de ser destruda pelo romanos, conta o escriba que retranscreveu o texto. Era ento proibido aos judeus voltar para chorar nas runas de sua ptria, e isso sob pena de morte. A nao inteira fora dispersada no exlio e, pior ainda, as santas tradies estavam perdidas. Resultado: esquecera-se a verdadeira Cabala, substituda por supersties. Feiticeiros e farsantes ocupavam o lugar dos iniciados e uma obscuridade abateu-se sobre o mundo, pois a ocultao da tradio a maior desgraa que pode ocorrer.Foi ento que um rabino bastante estimado, Simo bar lochai, congregou em torno de si os ltimos iniciados na cincia primordial. Decidiu explicar-lhes o Livro dos Mistrios. Todos eles sabiam o texto de cor, mas somente bar lochai conhecia-lhe o sentido profundo que at ento era transmitido de boca em boca e de memria em memria, sem jamais o explicar, nem mesmo escrev-lo.Eis aqui as palavras que ele lhes dirigiu com o objetivo de reuni-los:"Por que, nestes dias de tormento, permaneceremos semelhantes a uma casa que se apia em uma nica coluna ou a um homem que se sustenta numa s perna? hora de agir, pois os homens perderam a pequena luz que os fazia viver."Congregai-vos nesse campo onde existe uma rea hoje abandonada4. Vinde, como para um combate, armados de conselhos, de sabedoria, de inteligncia, de cincia e de ateno. Reconhecei como nico mestre aquele que dispe dos vivos e dos mortos, o Grande Arquiteto de todos os mundos. Profiramos juntos palavras de verdade que as entidades superiores gostam de escutar e todo o mundo vir reunir-se em torno de ns para escutar-nos."

    A conjurao dos iniciados4 o lugar onde se erguia o templo de Salomo, aquele pelo qual todos os iniciados do mundo guardam luto.

    10

  • No dia marcado, os rabinos iniciados reuniram-se em um espao circular cercado por uma muralha, chegando em silncio, e o rabino Simo sentou-se no meio deles. Vendo-os todos reunidos, ele chorou."Desgraado de mim se revelo os grandes mistrios! Desgraado de mim, entretanto, se os deixo cair no esquecimento. Que devo fazer?"Os iniciados permaneceram em silncio.Enfim, um deles, chamado rabino Abba, levantou-se e tomou a palavra: "Posso dizer algumas palavras com a permisso do mestre. No est escrito que os segredos pertencem aos que os temem? E ns, que estamos reunidos neste momento, no tememos ao Grande Arquiteto? No fomos l iniciados nos segredos do templo?"Todos os presentes, a fim de se comprometerem ao segredo, colocaram a mo na do rabino Simo e ergueram com ele um dedo para o cu. E aps pronunciar uma prece, o rabino Simo chamou seu filho (seu discpulo) Eleazar e o fez sentar-se diante de si. E colocou Abba do outro lado. E disse: "Formamos o tringulo, que o tipo primordial de tudo o que existe. Representamos a porta do templo e suas duas colunas." (...)O rabino Simo no falou mais e seus discpulos respeitaram-lhe o silncio. Escutou-se, ento, uma voz confusa que era como a de uma grande assemblia. Eram os espritos do cu que haviam descido para escutar. Os discpulos estremeceram, mas seu mestre disse-lhes: "Nada temei. Deus reinou sobre os homens de outrora pelo medo, mas no presente ele nos governa pelo amor." No foi dito "Amars teu Deus?" E no disse Ele mesmo: "Eu vos amei?" Depois, acrescentou: "A doutrina secreta para as almas meditativas. As que so agitadas e desprovidas de equilbrio psicolgico no a podem compreender. possvel cravar um prego num muro que se move, prestes a se esboroar ao menor choque? O mundo inteiro est fundamentado no mistrio; mas o mistrio ltimo, o da iniciao, no revelado nem mesmo a todos os anjos. O cu inclina-se para nos escutar mas no falarei sem vu. A terra emudece para nos ouvir, por isso expressar-me-ei apenas por meio de smbolos. Somos, neste momento, as colunas do templo e a porta do universo.

    E o homem revoltado diz a Deus: "Submete-te tu mesmo a essa lei"

    Tringulo, que o tipo primordial de tudo o que existe, tanto em cima como embaixo, de tudo: os anjos, os homens, a natureza; e templo, reconstrudo espiritualmente, posto que so os iniciados, se juntando em torno do rabino Simo, que reconstituem simbolicamente o templo de Salomo destrudo pelos romanos, o mestre advertiu a quem o soube escutar que iria revelar os maiores mistrios. Aquela reunio histrica, aquele snodo que ocorreu outrora na Palestina, iria ter importncia essencial para a manuteno da tradio cabalstica. Alm de seu interesse histrico que se mostra considervel, ele desvendou certos segredos que habitualmente permanecem ocultos.E o rabino Simo prosseguiu: "Deus", disse ele, "quando quis fazer surgir a criao, lanou um vu sobre sua glria e, nas dobras desse vu, projetou sua sombra. Dessa sombra desprenderam-se os gigantes que disseram 'Ns somos reis' quando no passavam de fantasmas. Eles apareceram, pois, porque Deus se ocultara fazendo a noite no caos. Desapareceram a seguir, no momento em que se voltou para o oriente a cabea luminosa, o sol regulador de nossas aspiraes e de nossos pensamentos. Os deuses so miragens da sombra e Deus a sntese dos esplendores. Os usurpadores caem quando o rei sobe a seu trono; e quando Deus se mostra, os deuses partem." Depois de ter permitido noite existir a fim de deixar aparecerem as estrelas, Deus voltou-se para a sombra que havia feito e considerou-a para lhe dar uma figura. Imprimiu uma imagem sobre o vu com que havia coberto sua glria e essa imagem lhe sorriu. Quis Deus que essa imagem fosse a sua, a fim de criar o homem semelhana dela.Ele experimentou de algum modo a priso que deseja dar aos espritos criados. Encarava aquela figura que deveria ser um dia a do homem e enternecia-se, pois lhe parecia j escutar

    11

  • as queixas de sua criatura. "Tu, que queres submeter-me lei", dizia ela, "prova-me que essa lei justa, submetendo-te tu mesmo a ela." E Deus, ento, se fazia homem para ser amado e ser compreendido pelos homens.Essas ltimas palavras so notveis e tornam bastante perceptvel a profundidade da filosofia subentendida na Cabala:

    O homem um esprito revestido pela priso mais forte que existe. Os anjos so prisioneiros de seu corpo sutil que certamente os impede de identificarem-se com Deus, mas os homens so prisioneiros de um corpo de matria. Os ctaros falam de andrajos de carne;em seu infinito sofrimento, quando chega ao fundo da infelicidade, o homem se interroga sobre o porqu, sobre a razo de ser, do mal. Ele no entende a lei divina.

    Por que Deus que to poderoso permite a Satans levar a cabo sua obra nefasta? Por que tanto desespero? O homem revolta-se, ento, contra Deus. Ele lhe diz: "Prova-me que esta lei justa, submetendo-te tu mesmo a ela." E Deus se faz homem para ser amado e compreendido pelos homens. Quer dizer que Ele cria o homem sua imagem, que Ele cria uma imagem reduzida de si mesmo, que o homem.

    O Velho que no tem idade

    "Ora", prosseguiu o rabino Simo, "ns, na terra, apenas conhecemos de Deus, do Arquiteto de todos os mundos, essa imagem impressa no vu que oculta seu esplendor. Essa imagem a nossa e ele quis que para ns ela fosse a dele."Dessa forma, ns o conhecemos sem, no entanto, conhec-lo. Ele nos aparece (quando nos aparece) como sendo uma forma sem contorno. Dizemos simbolicamente que ele um velho que no tem idade. Est sentado em um trono maravilhoso. Desse trono desprendem-se eternamente milhes de centelhas e ele lhes diz para se converterem em mundos."Sua cabeleira cintila e deixa cair estrelas. Os universos gravitam ao redor de sua cabea. Os sis vm banhar-se em sua luz infinita."Deus um "velho sem idade" e sua palavra, recolhida na tradio primordial, tampouco tem idade. Por mais que se remonte no curso da histria, ela vem de mais longe ainda. Deus disse s centelhas para se converterem em mundos. A Cabala j sabia, como o sabia, alis, a astrologia dos magos babilnios, que o universo composto de uma infinidade de galxias que explodem, surgem, congelam-se a seguir para morrer e isso por uma durao de tempo que se avizinha dos bilhes de anos. Esses universos so como centelhas comparados com a chama celeste que se mostrou a Moiss sob a forma duma sara ardente.

    O orvalho celeste

    E prosseguiu o rabino Simo: "A imagem divina dupla. Ela tem a cabea de luz e a cabea de sombra, o branco e o negro, o superior e o inferior. Uma o sonho do homem Deus, a outra, a do Deus-homem. Uma representa o Deus do sbio, a outra, o Deus do vulgo."Toda luz pressupe uma sombra e no se torna claridade seno em oposio a essa sombra.A cabea luminosa verte sobre a cabea negra um orvalho5 de esplendor. "Abre-me, minha bem amada", diz Deus inteligncia. Minha cabea est cheia de orvalho pelos anis de meu cabelo rolam as lgrimas da noite. A tradio poesia. O orvalho o man de que se nutrem os sbios. Os iniciados tm fome dele e recolhem-no a mancheias nos campos celestiais."

    5 Os alquimistas sabiam recolher esse orvalho celeste. Nicolau Flamel e Basile de Valentin aludiram a isso.12

  • Esse texto de beleza total. A melhor introduo que se possa dar da Cabala incitar o leitor a impregnar-se dele. A experincia psquica que ele provoca indescritvel, cada um s pode viv-la sua maneira. Viv-la, e no teorizar ou discutir a respeito dela. Por outro lado, a sombra e a luz andam juntas; a lei dos contrastes encontrada em toda parte da natureza e do esprito. A luz necessita da sombra para aparecer, para sobressair. O tabuleiro de damas a imagem disso, seu smbolo.

    Microcosmo, macrocosmo, signo-de-salomo

    Depois, o rabino Simo evocou a experincia mstica."A imagem divina possui treze raios: quatro de cada lado do tringulo primordial e um dentre eles, o ltimo, situado na ponta do tringulo."Isso, essa contemplao, permitir fabricar talisms e pentculos mgicos. Abordaremos este assunto um pouco adiante. Por enquanto, o rabino Simo leva mais longe ainda a busca mstica. E em tal busca, em tal contemplao, que o iniciado cabalista se recarrega com energia csmica. a tambm que ele encontra seu guia espiritual conhecido pelo nome de anjo Metatron."Desenhai no cu, em pensamento, essa imagem de que acabo de falar-vos. Traai-lhe as linhas indo duma estrela para outra; ela encerrar trezentas e sessenta mirades de mundos. Pois o Velho Superior se chama macrocosmo, enquanto afigura de sombra se denomina microcosmo. A cabea de luz expande seu esplendor sobre todas as cabeas pensantes quando elas se submetem lei e razo."O rabino Simo acabava de rememorar para seus discpulos a lei fundamental de todo o esoterismo que Hermes Trismegisto, o grande sbio do Egito antigo, assim formulara: "Tudo que est em cima o macrocosmo e tudo que est embaixo o microcosmo." O em cima e o embaixo correspondem-se quando o influxo do Grande Arquiteto atravessa os mundos e assim que se consuma a Grande Obra.O xtase cabalstico torna o cabalista semelhante a Deus. Ou melhor, para ser mais preciso, ele lhe permite realizar em seu pequeno mundo maravilhas iguais s realizadas por Deus no universo inteiro. Para isso, o iniciado deve a princpio harmonizar-se com o csmico. Deve identificar-se com ele. E isso que permite a contemplao da imagem que o rabino Simo pediu aos discpulos para traarem em seu pensamento. Destaquemos, de passagem, a significao do smbolo universal do signo-de-salomo que vemos a seguir:

    Quando os dois tringulos primordiais se encontram em equilbrio, a Grande Obra est realizada. O signo-de-salomo significa o equilbrio do macrocosmo e do microcosmo, da sombra e da luz. Ele o emblema dos sbios e dota de poderes fabulosos certos magos brancos (quer dizer, dedicados ao Bem) que dele sabem se servir. Teremos ocasio de retornar a isto.A ltima viso do cabalista

    13

    Tringulo superior (macrocosmo, luz)

    Tringulo inferior (microcosmo, sombra)

  • E o rabino Simo chegou ao ltimo momento da viso. "A cabea do Velho Supremo um receptculo fechado, e a sabedoria infinita a se deposita como um vinho delicioso. Essa sabedoria impenetrvel, ela se possui em silncio. Ela se rejubila por sua eternidade inacessvel s vicissitudes do tempo."O Arquiteto revelado o deus velado. Essa sombra humana de Deus como o misterioso den de onde saa uma fonte que se dividia em quatro rios."Nada sai do prprio Deus. Sua substncia permanece imvel. Tudo o que passa, que comea, que se divide, corre, tudo isso desliza sobre sua sombra. Ele imutvel em sua luminosidade. Permanece calmo como um velho vinho que, sem jamais se agitar, repousa sobre sua borra."Mistrio dos mistrios: o homem um fragmento da sombra de Deus. Este preceito deu origem a mltiplas especulaes.Enfim, o rabino Simo bar Iochai disse: "No procurem penetrar nos pensamentos da cabea misteriosa." Se os seus pensamentos externos e criativos se irradiam como cabeleiras, certamente os seus pensamentos ntimos so ocultos."Cada cabelo um fio de luz que se prende a milhes de mundos. Seus cabelos dividem-se sobre sua testa e descem dos dois lados, mas cada lado o lado direito." Cada lado o lado direito, afirmativa enigmtica que o prosseguimento do discurso vai nos fazer entender. "Pois", explicou o rabino Simo, "na cabea divina que forma a cabea branca no existe o lado esquerdo. O lado esquerdo da cabea branca a cabea negra. No esqueais que, no simbolismo tradicional, o embaixo equivale esquerda e a esquerda se assemelha ao embaixo.Ora, entre o em cima e o embaixo da imagem de Deus no h mais antagonismos ou oposio do que entre a mo esquerda e a direita do homem, posto que a harmonia decorre da analogia dos contrrios."(...)Israel no deserto se desencorajou e disse: "Mas Deus est ou no do nosso lado?" Assim fazendo, Israel separava a cabea negra da branca e o deus da sombra tornava-se desse modo um fantasma exterminador. Ele os castigava por duvidado.

    "No se compreende Deus, a gente o ama"

    o amor que cria a f, e no o contrrio. Deus se esconde do esprito mas se revela ao corao.Quando o homem diz: "No acredito em Deus", como se dissesse "Eu no amo." E a voz da sombra lhe responder: "Morrers porque teu corao abjura a vida."Palavras que impossvel no classificar como admirveis. Palavras que devem ser meditadas, pois assim, procurando-se psicologicamente, purificando a alma de toda as amarguras, que o cabalista pode dedicar-se ao estudo.E o rabino Simo concluiu: "O microcosmo a grande noite da f. nela que vivem e suspiram todos os justos. Pois falta qualquer coisa aos seres terrestres, mesmo aos mais sbios. Os justos estendem as mos e agarram (em sentido imaginrio) os esplndidos cabelos do Pai. E desses cabelos, gotas de luz caem e vm clarear-lhe a noite."Entre os dois lados da cabeleira suprema se encontra o caminho da alta iniciao, o caminho do meio, a vereda da harmonia dos contrrios."L, tudo se compreende e se concilia. L, o bem triunfa do mal. Essa vereda a do supremo equilbrio (simbolizado pelo signo-de-salomo). E nada pode impedir o Senhor de ouvir o grito do rfo e o queixume do oprimido."

    14

  • DESABROCHAR; LTIMOS FOGOS; NOVA OCULTAO DA CABALA

    O Livro dos Mistrios

    O sentido prprio, a funo da tradio, duplo:

    fazer viver o povo qual ela pertence;vinculando-se filosofia primordial que havia na origem do mundo, permitir ao mundo sobreviver. A espiritualidade cabalstica foi o que fez o povo judeu amalgamar-se ao longo da histria e de suas vicissitudes; o que lhe conferiu profunda unidade, identidade sem falha, fidelidade a toda prova, a despeito de todas as perseguies. A Cabala prende-se tradio primordial, da qual cada povo (os judeus, os celtas, os hindus etc.) recebe fragmentos que, juntos, fazem com que o mundo no volte ao nada. A tradio um verbo: aquele to famoso Verbo pelo qual na Bblia, por exemplo, o Demiurgo cria o mundo e tudo aquilo que nele existe. Um Verbo ou uma palavra mgica de um poder extra-humano.

    A tradio, a palavra sagrada, como a Cabala, , dissemos, o que permite ao mundo, ao universo, no virar poeira, no voltar ao caos. "O estudo da Cabala", dizem os "sustenta o mundo". Se a cincia cabalstica se perdesse definitivamente, o que, em certas ocasies quase aconteceu, toda verdade desaparecia. Ora, matar de todo a verdade conduz a catstrofes, quando mais no fosse porque os prprios homens acabariam por destruir o planeta (eles dispem atualmente dos meios, com as armas nucleares!) Mas quando o cabalista entra em xtase, como ns vimos ser feito no captulo anterior pelo rabino Simo bar lochai, as entidades superiores, isto , os princpios das foras csmicas que guiam o universo, descem terra. Elas so atradas como amantes e, ao chegarem terra, trazem consigo um fluxo benfico.O Sefer ha-Razim (Livro dos Mistrios), tambm ele obra de venervel antigidade, relata que, se no ciclo inaugurado pela Bblia, a iniciao foi transmitida a Abrao em primeiro lugar, j a magia foi revelada a No pelo anjo Raziel no momento em que ele embarcava na Arca que lhe permitiria atravessar o Dilvio sem dificuldades.Tratamos do ciclo da Bblia, quer dizer, do ciclo histrico correspondente ao aparecimento do povo judeu, porque evidentemente, antes desse povo, outros povos estiveram de posse da tradio; a lembrana deles, contudo, est hoje bastante esmaecida.De qualquer maneira, o citado Livro dos Mistrios explica que os anjos que respondem prece, invocao do mago ou do iniciado, so divididos hierarquicamente. Uma vez presentes ao redor de quem os tenha convocado, mister que este saiba a quem se quer dirigir exatamente. Isso depende do que espera: amor, glria, riquezas etc. Cada prtica vale-se de libaes, palavra de passe, combusto de incenso e astrologia. preciso, de fato, escolher bem seu momento.A ascenso mstica do iniciado cabalista

    A Cabala tem estado quase sempre encoberta. Desvendada ou no, ela por certo cheia de segredos que no so revelados a toda gente. Mas queremos salientar que em certos momentos histricos, um grande homem (Abrao, Moiss) ou um grupo de conjurados que se dedicavam iniciao (o rabino Simo e seus discpulos) procederam de modo a faze-la pelo menos emergir da sombra. Os homens nessas ocasies atravessaram uma fase ruim e foi preciso trazer-lhes a luz.A partir do rabino Simo bar lochai, os cabalistas entregaram-se ento a um trabalho intenso de que os profanos no se deram conta. Prepararam a passagem para novos tempos. Esses tempos foram o cerne da Idade Mdia com o surgimento dos ctaros. E quando do

    15

  • aparecimento dos ctaros, com efeito, livros cabalsticos surgiram como por milagre e revelaram seu esplendor. E nesse nterim? Um trabalho intenso foi realizado, um trabalho de que apenas podemos resumir as etapas.Os iniciados judeus fixaram definitivamente o que era recebido das tradies antigas, mas que na ocasio ainda permanecia confuso. Trataram de tornar praticvel "a viagem da alma no mundo celeste", uma tcnica para permitir o esprito deixar o corpo (sim! destacar-se de seu corpo e viajar na quarta dimenso) acessvel a certos iniciados. Essa tcnica de ascenso mstica era precedida por uma fase de preparao importante, de carter asctico, podendo durar quarenta dias. O mstico abstinha-se de comer qualquer planta e preparava o prprio po. Praticava tambm, durante esse perodo, banhos rituais ao cair da noite e recitava frmulas mgicas e hinos (alguns dos quais foram conservados at hoje). Fazia tudo isso com a cabea colocada entre os joelhos, pois essa posio facilitava a passagem para um outro nvel de conscincia. Quanto aos hinos, indispensveis para alcanar o xtase, eram cantados pelos prprios anjos diante do trono divino. Eles expressavam a glorificao do Velho Sublime sentado em seu trono, circundado de majestade, de temor e de tremor.O iniciado realiza uma viagem (uma verdadeira viagem, dizem os ocultistas) atravs de sete palcios situados bem alto, nos cus. Porteiros anglicos acham-se sempre esquerda e direita de cada entrada. preciso apresentar sinais mgicos para franquear a soleira sem perigo; e a cada etapa, mister usar novos sinais e proferir frmulas mgicas cada vez mais complicadas. O perigo atinge seu paroxismo no sexto palcio. " porta do sexto palcio", diz um texto que chegou s nossas mos como que para nos encaminhar corretamente, "aparecem milhares e milhares de ondas que se lanam contra o iniciado; no h, contudo, nenhuma gota d'gua, mas somente o fragor etreo das placas de mrmore que enfeitam o palcio."S aquele cuja iniciao est terminada pode ingressar no stimo palcio, o mais secreto de todos. Qualquer outro que v ultrapassar a lei, que insista, pode pagar com a vida.

    As 32 vias maravilhosas da sabedoria

    Os iniciados de todas as naes mantinham relaes amistosas entre si: por exemplo, por mais que os Templrios tivessem sido fiis cristos, por mais que tivessem combatido gloriosamente os muulmanos e se conduzido com bravura nos campos de batalha das Cruzadas, nem por isso deixaram de manter contato com ordens secretas muulmanas. Da mesma forma, os cabalistas judeus Abulfia por exemplo entraram em contato com a seita muulmana dos sufistas e com os ctaros cristos. Isso no para no unir a eles, mas apenas para se reconhecerem como Irmos.Na Provena catara e na Espanha, onde durante certo tempo, antes da interveno de Isabel a Catlica, rainha repressora, cristos, muulmanos e judeus haviam acabado por chegar a boa convivncia, a Cabala atingiu um de seus auges. O trabalho levado a cabo anteriormente dera seus frutos, s restava colh-los. Assistiu-se a uma florao notvel. Evoquemos antes de tudo o Sefer letzirah (Livro da Criao). Esse livro comea assim: "Pelas 32 vias maravilhosas da sabedoria, o Arquiteto gravou." Ele escreveu seu mundo por meio de trs livros. As 32 vias da sabedoria so:As dez Sefirot (ou nomes primordiais);As 22 letras do alfabeto hebraico.

    As dez Sefirot no so nmeros ordinrios, e sim princpios metafsicos da criao. Um pouco como na numerologia, na qual os nmeros no servem para contar, e sim para adivinhar o carter de um indivduo ou seu destino. Basta conhecer a equivalncia do nome secreto do indivduo e dos algarismos a eles correspondentes. As seis ltimas Sefirot representam as seis direes do espao. So fechados hermeticamente por meio de seis combinaes msticas do nome oculto de Deus que IHVH (ler: Jav). A segunda parte do Sefer letzirah nos ensina como toda a realidade do cu csmico ao menor micrbio, c embaixo - criado pela

    16

  • combinao das 22 letras do alfabeto hebraico. Veremos isso em pormenor posteriormente; observemos, no momento, que tanto o real mais quotidiano como o cosmo mais remoto so compostos de trs nveis: o Mundo (Olam); o Tempo (Shan) e o Homem (Nefesh). Quanto combinao das letras do alfabeto, mais particularmente no que concerne ao mundo, mister para compreender, recorrer noo das 231 Portas, ou seja, das 231 combinaes binrias6 das 22 consoantes7, com a ajuda das quais se efetua a gnese desse mundo.H o risco, talvez, de essas coisas parecerem a alguns especulaes gratuitas, sobretudo aos cticos. No so nada disso; as portas se abrem a quem o deseje e faa o esforo necessrio. V-lo-emos em mincia mais tarde.Mantenhamos em mente ainda que todas essas combinaes procedem de um mesmo nome, de que so por assim dizer declinaes, como se diz em gramtica, de um Verbo nico. "Ocorre diz o Sefer letzirah que toda criatura, humana, animal, vegetal ou mineral, e toda palavra procedem de um nico nome. Esse nome evidentemente o nome secreto do Arquiteto. O conhecimento de tal Nome tornou-se em breve o alvo da busca cabalstica. A posse do Nome oculto d, com efeito, todos os poderes sobre o mundo. Permite a um rabino do gueto de Praga construir um golem. O golem um autmato feito de terra ou argila, que comea a viver quando colocado entre seus lbios e aplicado em sua fronte um papel onde se acha inscrito o nome secreto. Esse golem torna-se ento um escravo bem obediente. Como possui fora herclea e nada teme porque as almas humanas no o podem atingir, o rabino de Praga o construiu serviu-se dele para defender a comunidade judaica contras as agresses, as perseguies e os pogroms.

    A Cabala provenal da Idade Mdia

    Foi, portanto, na Provena, a partir do sculo XIII, que a Cabala conheceu extraordinrio surto. Citemos, de memria:

    O Sefer ha-Bahir (Livro da Claridade) do qual eis aqui um pequeno trecho para dar idia de seu contedo: As potncias de Deus esto dispostas umas acima das outras como ao longo de uma rvore. Da mesma forma que a rvore produz frutos graas gua, assim Deus (o Velho Sublime) acresce por meio da gua as foras da rvore. E o que exatamente a gua de Deus? a sabedoria (Chochm) e os frutos so as almas dos justos que levantam vo da fonte em direo ao grande canal e se prendem rvore. E o que a faz florescer? Os israelitas. Quando eles so bons e justos, a Shechina (a presena divina) habita entre eles e habita as obras deles tornando-os fecundos.O rabino Abrao ben Isaac (morto em 1180), que foi o primeiro presidente do tribunal de Narbonne, escreveu o primeiro texto de Cabala teosfica interrogando-se acerca dos fins ltimos, acerca do sentido da histria universal, sempre em busca do Nome fabuloso.O rabino Abrao ben Davi (dito o Rabed) e Jac ben Saul (dito o Nazareno). Esta dupla de cabalistas pertencia a um grupo de iniciados que mantinha relaes contnuas com os ctaros. De comum acordo com eles, adaptaram ao gosto da poca a crena na tansmigrao das almas (reencarnao), proibida pela Igreja e pela Sinagoga, mas que fazia parte da tradio primordial de todos os povos.

    6 Notemos, e isso no sem importncia, que a poca moderna comea a descobrir as possibilidades infinitas do clculo binrio. (O tabuleiro de damas com seus quadrados pretos e brancos simboliza isso.) Nossa poca reencontra a importncia do binrio. A prova? Os computadores so fundamentados no binrio. Seu princpio bsico que em cada ponto deles mesmos, em cada clula eletrnica (chamamos a isso os bits) a corrente passa ou no passa, como a luz passa ou no passa por cima do tabuleiro. A partir desse "sim, isso passa", "no, isso no passa" isto , dum princpio binrio o computador reconstitui, a velocidades vertiginosas, todos os algarismos e todos os clculos. O "sim" igual a 1, o "no" igual a 0 para o computador.7 O alfabeto hebraico compe-se de vinte e duas consoantes e de sinais (pontos ou traos) que simbolizam as vogais. Aqui no se trata seno de consoantes. Contudo, a importncia das vogais est longe de ser desprezvel, como constataremos quando tivermos progredido no conhecimento da Cabala prtica.

    17

  • Isaac o Cego (1165-1235), cognominado rico em luz (como Homero, o autor da Odissia que tambm foi um cego inspirado). Isaac, o Cego descobriu que a divindade se estende sobre trs domnios:

    O En-Sof (em-si), sem fim, inefvel, inapreensvel ao pensamento; o pensamento; a palavra ou Verbo mgico.

    Mas o iniciado, esclareceu Isaac, acaba por reunir-se ao En-Sof. No final de sua ascenso mstica, de sua viagem pela dimenso, ele alcana a adeso, a comunho com Deus. Os discpulos de Isaac, o Cego contam que "Nosso mestre disse: O essencial da meditao reside nisto: a Ele deveis aderir. um grande princpio para o estudo e a prece que quer que se equilibre o pensamento e a f, como se o pensamento aderisse ao No-Alto a fim de ligar o nome a suas letras e de nele abraar as dez Sefirot, da mesma forma que uma chama est em ligao com o carvo. Com a boca ele deve express-lo, mas em seu corao deve lig-lo."Passemos agora Espanha. Evocamos de modo rpido, num captulo anterior, a figura de Abrao Abulfia (1240-1292) que teve a infelicidade de se considerar uma espcie de Messias. Abulfia preparou um mtodo de meditao sobre as letras hebraicas e uma combinao de letras do alfabeto sagrado que permite atingir o xtase e conhecer tudo o que e tudo o que ser. Em outras palavras, Abulfia conseguiu fazer desse texto, compilado pelos iniciados judeus, um instrumento de adivinhao como o so as Centrias astrolgicas de Nostradamus. (Observemos que, embora convertido ao catolicismo, Michel Nostradamus pertencia a uma famlia de judeus cabalistas.)Ainda na Espanha, apareceu o Zohar (Livro do Esplendor): recolhido pelos discpulos do rabino Simo bar lochai, chegou as mos de Moiss ben Leon, um iniciado que, sentindo ser aquele o momento de dar-lhe forma literria para torna-lo acessvel a um pblico mais vasto, redigiu-o num pergaminho, fixando a tradio oral.Depois desse perodo abenoado, os cabalistas ingressaram de novo na sombra. Alguns deles fizeram a viagem Santa e Isaac Luria, um dos mais clebres, criou o centro de Bafed. Esse centro inicitico teve uma importncia cultural e humana que os historiadores profanos talvez subestimem. Em todo caso, ainda hoje h alguns descendentes que prosseguiram secretamente na obra empreendida.Antes de se ocultarem, os cabalistas exerceram influncia no esoterismo cristo. Pico de Ia Mirandola (1463-1494), esprito enciclopdico; Paracelso (1493-1541), mdico e alquimista que realizou maravilhas e de quem hoje se descobre a obra imensa; Robert Fludd, e muitos outros, participaram desse mundo fascinante. Sem eles, sem a transmisso da tradio cabalista qual se consagraram, o ocultismo contemporneo talvez no tivesse existido. Os mestres do sculo anterior: o mago Eliphas Levi, Fabre d'Olivet , Louis Claude de Saint-Martin, chamado o Filsofo Desconhecido, teriam ficado despojados e ns tambm.

    SEGUNDA PARTE

    A PRTICA NA CABALA

    18

  • PRIMEIRAS NOES DE CABALA PRTICATrs letras matrizes, sete letras duplas e doze simples

    Obra filosfica, obra inicitica, obra mstica, a Cabala igualmente uma obra divinatria e mgica. uma obra multidimensional. O melhor comear pelo comeo e seguir a progresso de um discpulo na Cabala. O ponto de partida da Cabala so as letras do alfabeto hebraico, lngua sagrada como o , em outro continente o snscrito. O alfabeto hebraico compreende 22 letras que no so colocadas por acaso umas em seguida s outras . Cada uma delas corresponde a um nmero de acordo com sua ordem, a um hierglifo segundo sua forma e a um smbolo conforme seus relacionamentos com as outras letras.Os cabalistas classificam as letras da seguinte maneira nos trs grupos de letras matrizes, letras duplas ou letras

    Trs letras matrizes O A (Alef) O M (Mem) O SH (Shiri)

    Sete letras duplasEstas letras exprimem, com efeito, dois sons ao mesmo tempo, um positivo forte, o outro negativo brando. Basta a presena ou a ausncia de um ponto acima ou dentro para passar de um som para o outro.O B (Beit)O G (Guimel)O D (Dalef)O CH (Kaf)O PH (Fei)O R (Resh)O T (Tav)

    Doze letras simples

    Combinar nmeros e idias

    Combinar as letras do alfabeto hebraico antes de tudo combinar nmeros e idias. Isso explica, entre parnteses, a correspondncia com os 22 arcanos maiores do taro, cada um equivalente a uma letra.Papus escreveu: "Como cada letra um poder, ligada mais ou menos estreitamente s foras criadoras do universo. Essas foras evoluem em trs mundos, um fsico, um astral e um psquico, e cada letra o ponto de partida e de chegada de uma srie de correspondncias. Combinar palavras hebraicas, por conseguinte, agir sobre o prprio universo, donde a presena das palavras hebraicas nas cerimnias mgicas.Cada letra , pois, um poder energtico e a combinao dessas letras, segundo certas regras esotricas, d origem queles centros ativos de fora suscetveis de atuar concretamente quando postos em ao. As sociedades secretas a franco-maonaria, conhecem bem aquilo que egrgora, quer dizer, o nimo coletivo da loja ou do grupo humano que despertado

    19

  • pelo ritual. E as meditaes dos ctaros em Montsgur tinham certamente por objetivo ativar um centro espiritual de uma intensidade muito forte.Esse mesmo princpio se encontra na base da formulao de dez nomes divinos, quer dizer, como menciona Papus, "dez leis ativas da natureza e dez centros universais de ao". preciso compreender bem, a este respeito, que tudo no universo est ligado, que o universo forma um nico e mesmo organismo, que tudo atravessado por um fluxo: e, como conseqncia, agir sobre um centro espiritual pode pr em movimento um outro centro situado bem distante. Isso explica, particularmente, certas aes das sociedades iniciticas que, atuando (espiritual ou magicamente) em um ponto do planeta, podem alcanar um outro ponto bem afastado. Fala-se de certas fraternidades brancas ou negras que dessa forma influenciam de modo acentuado a marcha do mundo.

    O Tempo, o espao e a matria

    Detenhamo-nos, ento, nos dez nomes divinos que sero apresentados a seguir: 1. nome: ECHISignifica: Fui, sou, serei ou o sempre'. A base deste a letra Iud que exprime o incio e o fim de todas as coisas. Certos ocultistas duplicam o lud, ou triplicam e dispem-no em tringulo8 como se desenvolve uma figura geomtrica. Reunidos, os trs lud representam os principais atributos da divindade:

    o primeiro lud exprime a eternidade que cria o Tempo (o passado, o presente, o futuro);o segundo lud expressa o infinito que cria o Espao (o comprimento, a largura, a profundidade);o terceiro lud expressa a substncia que cria a Matria (slida, lquida, gasosa).

    Um quadro preenchido resume esses elementos:

    1 lud Eternidade Tempo (passado, presente, futuro)

    Nmero

    2 lud Infinito Espao (comprimento, largura, profundidade)

    Medida

    3 lud Substncia Matria (slida, lquida, gasosa)

    Peso

    De maneira dinmica, esse quadro traduz-se como se segue:

    8 Em funo do princpio segundo o qual o tringulo a figura primordial de todas as coisas, segundo disse o rabino Simo bar Inchai.

    20

    ' = ludTrs lud (')inscritos em um crculo

  • O 2 nome: IAH

    Tem influncia sobre os querubins, o cu e as estrelas. Ele cria figuras, motivos, estruturas como se diz em fsica moderna, que pem em ordem o caos original. O agente da divindade neste assunto o anjo Raziel que foi o guia espiritual de Ado, o homem primordial.

    O nome misterioso

    O 3 nome: IHVH OU IEV

    o nome mais misterioso da Bblia. Conforme a tradio judaica, quem sabe pronunci-lo como convm mexe com foras que o tornam senhor de todas as cincias. Essa palavra nunca pronunciada pelos judeus, pois, ainda que quase ningum saiba como se deve dize-la, to sagrada que jamais deve incorrer em uma eventual profanao mesmo devida ao acaso. S o sumo sacerdote de Jerusalm, encerrando-se no Santo dos Santos isto , no recinto mais sagrado do templo de Salomo , proferir tal nome uma vez por ano, a fim de fazer descer a beno divina prometida pela aliana que ligou o povo judeu a seu Deus. Esse nome estava outrora inscrito no portal das catedrais e ainda lido em nossos dias numa das torres da igreja de So Sulpcio, em Paris. a palavra sagrada do mais alto grau da franco-maonaria, o que equivale a dizer do 33 grau.Esse nome", escreveu Fabre d'Olivet, "oferece desde o signo indicador da vida, duplicado, e formando a raiz intrinsecamente viva (EE). Essa raiz nunca empregada como nome e s ela goza desta prerrogativa. Ela no apenas um verbo, mas um verbo nico de que todos os outros no passam de derivado.Nome de luz, raiz de vida e de mistrio, esse nome significa de fato o Verbo. Entretanto, como estamos na Cabala, no se trata dum simples verbo simblico, mas dum Verbo na acepo original do termo, dum Verbo que representa realmente a palavra (divina) que criou o mundo e que a iniciao recolhe para conduzir o adepto rumo ao conhecimento supremo.Esse nome formado de quatro letras: lud, Hei, Vav, Hei (a letra Hei , portanto, repetida). Ora, como cada letra do alfabeto tambm um nmero, ns temos:lud = 10,Hei = 5,Vav = 6 de acordo com as equivalncias ocultas.

    O valor numrico total de IEV , pois, de 10 + 5 + 6 + 5 = 26.Ora, o 10 representa, simboliza, segundo os princpios da numerologia, o Princpio de Tudo, como Pitgoras j o sabia. Com efeito, o 10 composto de 1 (quer dizer, da Unidade) e de 0 (isto , do Nada). Quando a unidade encontra o Nada para fecund-lo, por conseguinte para criar o universo.O 5, por seu lado, a metade de 10; ele simboliza, pois, a dualidade. E Hei, a segunda letra do nome sagrado, que vale 5, um elemento passivo (feminino) em relao ao lud que conquistador. Hei a mulher em relao ao homem, a substncia em relao essncia, a vida em relao alma. O Vav, sexta letra do alfabeto, produzido por 10 (lud) + 5 (Hei), quer dizer, pelas letras que o precederam na formao do nome divino.Com efeito: 10 + 5 = 15 e 15 = 1 + 5; segundo clculos teosficos, portanto, 10 = 6; , pois, a relao entre 10 e 5. Quanto ao segundo Hei, uma repetio que significa uma passagem do mundo metafsico (o do criador) para um mundo fsico (o da criao).

    Levemos mais longe a especulao

    Pode-se levar a especulao mais longe, mas isto, mister dizer, reservado aos estudantes que j tenham atingido certo nvel de conhecimento da Cabala. O leitor profano, que no

    21

  • estaria apto a acompanhar esta demonstrao, poder retornar a ela aps ter lido nossa obra. Estar ento em condies de compreender do que se trata. Na palavra lev (nome sagrado da divindade), isso se apresenta desta forma:

    o lud (10), o encontro do 1 e do 0 (do Ser e do Nada) o princpio ativo por excelncia;o Hei simboliza o princpio passivo;o Vav une-os. Seu valor 6, enquanto Hei tem como valor 5. (Ver nossa demonstrao anterior.)

    Esses trs termos que vimos de citar exprimem o tringulo primordial que estrutura toda coisa, como o dizia o rabino Simo bar lochai (ver captulo precedente desta obra). Os cristos reencontram-no sob a forma do Pai, do Filho e do Esprito Santo, e os filsofos sob a da tese, da anttese e da sntese que decompem as exposies bem aliceradas. Quanto ao segundo Hei, significa a passagem de um mundo para o outro. o que permite, em msica, subir de uma escala a outra. Pitgoras, que inventou nossa escala musical moderna, permitiu o desenvolvimento de toda a msica europia. Sem Pitgoras e sua inveno, no seria exagero dizer que no teramos absolutamente tido Bach, Mozart (que era franco-maom), Beethoven (que quase certo ter sido iniciado) e outros muitos.Pitgoras sempre ele inventou uma equivalncia entre os nmeros e as figuras (1 = 1 ponto; 3 = tringulo etc.). E, conforme essa geometria oculta, lev pode ser representado por tringulo, cruz ou crculo. Por tringulo9

    O segundo Hei , assim, colocado sob o lud. Papus escreveu a esse respeito e isso vale a pena ser citado na ntegra: "Esse segundo Hei, sobre o qual insistimos deliberadamente por tanto tempo, pode ser comparado ao gro de trigo com relao espiga. A espiga, trindade manifestada ou lud Hei Vav, converte toda a sua atividade na produo do gro de trigo do segundo Hei. Mas esse gro de trigo no seno a transio entre a espiga que lhe deu nascimento e a espiga qual ele prprio dar origem na gerao seguinte. a transio entre uma gerao e outra que ele contm em germe, por isso que o segundo Hei um lud em germe." Tudo est em tudo. Tudo se transforma. Nada conserva sua forma, s a vida permanece.

    Por Cruz

    9 'Trata-se aqui do tringulo retngulo a cujo respeito Pitgoras deu-nos seu famoso teorema.22

  • Por circuloUma terceira maneira, enfim, consiste em envolver a trindade do segundo Hei, como se ela desse o tom. Como se ela rodeasse as trs primeiras letras e lhes assinalasse a presena da transcendncia que envolve todas as coisas.

    O estudo do taro consiste na transformao do misterioso nome divino.OS DEZ NOMES CABALSTICOS DE DEUS

    Os 72 gnios

    O nome IEV que estudamos no captulo anterior na verdade inexaurvel. Dele se extrai um nome cabalstico de 72 letras, da seguinte maneira:

    Em francs, escrevemos, como explicamos adiante, de modo invertido. Trata-se do nome divino visto no espelho do universo. Escrevemos nesses trs tringulos o nome sagrado, em francs, portugus e hebraico. Como na terceira lngua existe uma equivalncia numrica, podemos obter: IUD = 10IUD e HEI = 10 + 5 = 15 IUD, HEI, VAV = 10 + 5 + 6 = 21

    23

  • IUD, HEI, VAV e HEI = 10+5 + 6 + 5 = 26 (J vimos essas equivalncias numricas no captulo anterior.)O total de 10+15+21+26 = 72. Na Cabala prtica, utilizam-se os 72 nomes dos Gnios que a Bblia evoca, para quem a sabe ler, pelos seguintes processos: os nomes dos 72 Gnios so constitudos dos trs versculos misteriosos do captulo 14 do xodo, nmeros 19, 20 e 21, versculos esses que, segundo o texto em hebraico, se compem, cada um, de 72 letras. Vejamos como: Escrevamos separadamente esses versculos, disponha-mo-los em trs linhas, cada uma composta de setenta e duas letras. Tomemos a primeira letra do 19 e do 20. versculos, partindo da esquerda10. Tomemos, a seguir, a primeira letra do 20. versculo, que o do meio, partindo sempre da direita. Essas trs primeiras letras formam o gnio, mais exatamente seu nome. Seguindo a mesma ordem at o fim, temos os 72 atributos das virtudes divinas. Se, agora, ajuntarmos a cada um desses nomes um dos dois grandes nomes divinos IAH ou EL, teremos os 72 nomes dos anjos compostos de trs slabas, cada um desses nomes contendo em si o nome de Deus.Esses procedimentos so complexos, citamo-los de memria. mister, para compreend-los e pratic-los bem, conhecer o hebraico.Passemos, de qualquer maneira, seqncia dos nomes divinos de que at aqui demos apenas os dois primeiros (ver captulo anterior).

    Os outros nomes divinos

    O 4 nome: ELSignifica graa, misericrdia, piedade. Influi na ordem das dominaes e de Saturno. Ele forma as efgies dos corpos (sua marca secreta). Governa o anjo de Abrao.

    O 5 nome: ELOHIM a fora, a gravidade, a pureza, o julgamento. o tribunal de Deus, encontrando-se na cinta, no brao esquerdo e na espada de Deus. tambm o temor, influi na ordem dos poderosos e na esfera de Marte. Manda a guerra ou as revolues pelas quais os elementos trocam de lugar. Governa o anjo de Sanso que destruiu o templo dos filisteus e cuja fora residia em seus cabelos, tendo sido vencido em definitivo pela doura de Dalila.

    O 6 nome: ELOSignifica a beleza, o prazer e a glria. Para os cristos, o madeiro de vida do qual foi feita a verdadeira cruz. Influi na ordem do sol, d-lhe a claridade e a vida que cria os metais puros encontrados pelo alquimista de posse da pedra filosofal. Governa o anjo de Jac, de Isaac e de Tobias.

    O 7 nome: ADONAI TSEVAOTSignifica a eternidade e a justia. Influi na ordem dos principados e na esfera de Vnus. Produz os vegetais. Governa o anjo do rei Davi que triunfou de Golias e da fora bruta.

    O 8 nome: ELOHIM TSEVAOT o deus dos exrcitos, mas tambm o da piedade e da concrdia. Seu sentido duplo e contraditrio como o deus romano Jano que um deus de duas faces. Significa louvor e confuso. Influi na ordem dos arcanjos e em Mercrio. Produz os animais. Governa o anjo de Salomo, o sbio construtor do templo.

    O 9 nome: SHADAI (o Todo-Poderoso) ou ELHAI (o Deus vivo)

    10 Lembremos que o hebraico, assim como o rabe, outra lngua semita, escrito da direita para a esquerda.24

  • Significa aliana, bom entendimento, repouso. Influi na ordem dos anjos (querubins) e na Lua que preside vida terrestre de todas as coisas, tanto homens como animais. Governa o anjo de Jos que desceu no Egito para preparar a redeno.

    O 10 nome: MELECH (o Senhor e o Rei)Significa, ao mesmo tempo, templo e porta. (O templo a porta do sagrado.) Influi na ordem das almas bem-aventuradas. Est na origem da profecia. Governa o anjo de Moiss, o pastor do povo de Israel.

    Acabamos de dar rapidamente os dez nomes de Deus, do Arquiteto criador de todos os mundos, ou do Velho Sublime como dizem os cabalistas em sua linguagem um pouco pomposa (como, porm, no ser pomposo no umbral de tais mistrios?) Para prosseguir em sua abordagem Cabala, bastar ao leitor conhecer tais nomes, ou mais exatamente saber o que acabamos de dizer. a partir desses dez nomes que se desenvolve o pensamento cabalstico.

    AS MARAVILHAS DA CABALAOs trs mundos

    Uma lei geral preside Cabala; essa lei a do tringulo primordial de que falou o rabino Simo bar lochai. Os cristos traduzem-na por Santssima Trindade, e os filsofos por tese, anttese e sntese, como j observamos. Esse aspecto ternrio provm da unidade primordial, tal como vamos mostrar.Cada um dos elementos que compem a trindade, ou tringulo primordial, depende da unidade de que possui de fato o poder criador; mas cada um desses elementos depende igualmente de um carter particular que est relacionado ao sexo ou ao plano de ao. H trs planos i ao que correspondem aos trs sexos esotricos: o masculino, o feminino e o andrgino. O andrgino refere-se a um mistrio sexolgico de que a ioga tntrica, ou ioga sexual, fornece a chave. Em todo caso, nesses trs planos que se pode simplesmente exercer qualquer atividade, seja ela qual for. A Cabala denomina esses trs planos de os trs mundos.Uma explicao pelo rabino Mordechai Hagge, um cabalista refugiado em Kairuan, na Tunsia, afirma que cada letra do alfabeto sagrado uma criatura intelectual. Essa criatura contm os trs mundos, como o corpo do homem uma criao fsica que contm os trs mundos, simbolizados pela cabea, o peito e o ventre. Os franco-maons reencontraram essa tradio, posto que exigem do aprendiz que domine as forcas que atravessam seu ventre, do companheiro as do peito e do mestre as da cabea. Os iniciados maons possuem sinais bem definidos que simbolizam tudo isso.Os trs mundos dividem-se em mundo superior, mundo mediano (ou intermedirio) e mundo inferior. No homem, como evidente, o mundo superior corresponde ao Esprito imortal, aquele ao qual tm acesso os humanos que terminaram seu priplo aps a morte; sua base o sistema nervoso consciente ou simptico. O plano mediano corresponde vida, ou ao que os antigos denominavam a alma, e utiliza o sistema nervoso parassimptico. O plano inferior corresponde ao corpo, mas nessa inferioridade no se deve ver nada de pejorativo. Trata-se apenas de uma funo. Pode-se dizer que o operrio executor seja moralmente inferior ao arquiteto que concebe?Cada mundo, contudo, tem no outro mundo o superior em relao a si e o inferior em relao a si, uma representao de si mesmo. Se bem que dirigido pela cabea (o crebro), o sistema

    25

  • nervoso central tem radiaes tanto no peito quanto no ventre. Assim, os cabalistas e os esoteristas adotaram o esquema que vem a seguir.Esse quadro tem dois pontos extremos: o Ser e o Nada (a luz e a obscuridade). E para o homem, ele lido assim:

    no plano superior o Esprito a se acha localizado, a Vida a est refletida tanto quanto o corpo;no plano intermedirio (o peito) a Vida a se localiza, o Esprito a se reflete e igualmente o corpo;no plano inferior o Esprito e a Vida a se refletem e o corpo a se acha localizado.

    O Esprito representa o Princpio criador (Deus), o mediano (a Vida) simboliza o sentimento, e o corpo representa o instinto.

    As dez Sefirot

    O alfabeto hebraico compe-se, repitamo-lo, de 22 letras (ou hierglifos) cada uma das quais uma criatura intelectual, segundo diz o rabino Hagge. Elas so:trs letras matrizes que representam o mundo superior;sete letras duplas que simbolizam o mundo intermedirio ou mediano;doze letras simples que indicam o mundo inferior

    26

  • Ao se combinar tudo isso, consideraes extremamente complexas levam a esclarecer a teoria das Sefirot ou emanaes divinas que representam o esquema de toda a criao. Mistrio central da Cabala, as dez Sefirot so como o programa do computador celeste, se nos permitem esta comparao. Ele explica de que maneira tudo se estrutura, e em primeiro lugar a estrutura da entidade divina i* criar o mundo. O homem terrestre no pode profanar o mistrio do Ser Supremo, permanecendo este para sempre oculto. Quando o Ser se faz Arquiteto, quando cria o mundo e sua criatura, o homem, este ltimo, por um efeito de espelho, pode perceber como Deus se manifesta. Esta intuio provm da disposio e da significao das Sefirot.

    O que a Cabala ensina sobre Deus

    Muito freqentemente, a Cabala foi malvista pelos meios rabnicos oficiais. Desse ponto de vista, a Sinagoga que rejeita os cabalistas lembra a Igreja que excluiu os ctaros. (Reconheamos, no entanto, que a Sinagoga no queimou os seus herticos.) De qualquer maneira, os cabalistas exalavam um odor de enxofre por quererem desvendar a divindade. O ensino esotrico se contenta em crer, ao passo que a pesquisa esotrica ambiciona mais.O homem feito imagem do Universo, diz a Cabala, mas homem e universo so feitos imagem de Deus. Deus em-si permanece, verdade, incognoscvel, e os cabalistas , ento, de En-Sof, mas h ainda suas manifestaes (as outras Sefirot), que, estas, so suscetveis de compreenso.Na verdade, a manifestao principal o tringulo. Reencontra-se esta lei entre os grupos:Sol, Lua, Terra,Osris, sis, Hrus,Brama, Vishnu, Shiva,Pai, Filho, Esprito Santo...

    27

  • Eles se concretizam sob a forma de trs Sefirot (ver quadro): Chochm, Bina, Keter. Essas trs primeiras Sefirot representam o Esprito de Deus (Esprito incomensurvel e por demais misterioso). Quanto ao Corpo de Deus, o Universo, diz a Cabala. Concepo curiosa: Deus tem um corpo! Isso vai ao encontro do materialismo csmico de um Giordano Bruno, filsofo italiano queimado no Renascimento. Da, no ser a Cabala de todo judaica (o judasmo no admite que Deus tenha um corpo) nem mesmo de todo crist (para o cristianismo, Deus no se revestiu seno de um corpo humano, e no no universo). No se encontra especulaes assim a no ser nas heresias, como o catarismo.Deus , pois, incognoscvel em sua essncia, mas cognoscvel em suas manifestaes. E esse ponto de vista coincide com a tradio primordial e as tradies particulares de numerosos povos. Ele adere, assim, s concepes hindus que, tambm elas, se fundam sobre uma base lembrando as Sefirot. O Dr. Malfati, um esoterista do sculo XIX que escreveu em plena revoluo operria de 1848, observou que "o primeiro ato em si de revelao de Brama foi o da Trimrti'. Ora, a Trimrti o princpio ternrio emanado do ato criador da divindade. Essa Trimrti que representa a criao, a conservao e a destruio, sob os nomes de Brama, Vishnu e Shiva equivale evocao das trs Sefirot: Chochm, Bina, Keter". Disse, ademais, o Dr. Malfati: "Essa primeira Trimrti passa ento a uma revelao exterior revelao das sete potncias pr-criadoras, ou revelao do desenvolvimento sptuplo personalizado por Maia, Oum, Haranguerbehah, Porsh, Parad Pradiapat, Prakrat, Pran." Em suma, temos uma rigorosa equivalncia entre as personificaes do hindusmo e as Sefirot da Cabala. Isso no nos espanta, j que estamos agora familiarizados com a noo de tradio primordial.

    Ensinamento da Cabala acerca do homem

    Como a alquimia e todas as disciplinas ocultas, mas com cincia assaz consumada, a Cabala diz que o homem contm em ponto pequeno todo o universo. Da seu nome do microcosmo. Notemos, de passagem, que quando o esoterismo diz que o homem como o universo, que o em cima como o embaixo, no est aludindo a uma igualdade, mas a uma analogia. O homem e o mundo no so semelhantes e menos ainda iguais: so anlogos. Segundo as cincias ocultas, os objetos que se conformam com a mesma Iei no universo so anlogos aos rgos humanos. A natureza mostra seres de constituies variadas (minerais, vegetais etc.) que se grupam a fim de formar planetas, os quais se agrupam por sua vez para formar sistemas solares. Os planetas e seus satlites do origem vida do universo como o funcionamento dos rgos d nascimento vida humana. Os rgos e os planetas, pois, embora sejam grandezas incomparveis, agem em funo da mesma lei e so anlogos...De acordo com a Cabala, o homem primordial composto de trs elementos essenciais:

    um elemento inferior, Nefashot;um elemento superior, a centelha divina Nesham;um elemento mediano, Ruach.O homem primordial no ainda material no sentido que entendemos. Ele no adquirir seu corpo de matria grosseira seno aps a queda.O elemento superior desse homem primordial chama-se Nesham. Nefashot e Nesham so essncias verdadeiramente diferentes, absolutamente opostas. o Ruach que as pe em acordo, que lhes permite coexistir de forma pacfica.No comeo do mundo, o homem (o Ado Kadmon)11 emana de Deus na condio de esprito puro. Ademais, constitudo como Deus de Chochm e Bin, ao mesmo tempo macho e fmea. Ele forma um nico ser simbolizado pelo Andrgino. Ado e Eva no so ainda seres distintos. A biologia mostra que foi a diferenciao sexual que trouxe a morte. No comeo, a

    11 o misterioso Ado Kadmon. O Zohar denomina-o tambm Ado beloa, Homem supremo".28

  • vida era eterna12, mas ela era incapaz de prazer e de reproduo. A Cabala leva em conta a sexualidade: o maior pecado para um homem, dizem os cabalistas, permanecer sem mulher. A Cabala ter criado, como a ioga tntrica, tcnicas erticas de reteno do esperma e de transformao do instinto sexual em presena da luz? Os textos no so de todo explcitos a esse respeito. Mas haveria boas razes para apostar que a tradio cabalstica no escapa regra de levar em conta o fenmeno sexual.Sob a influncia da queda, o ser nico, original, o Ado Kadmon, divide-se e materializa-se como homem e mulher (Ado e Eva). A psicologia moderna coincide aqui com a noo tradicional: o homem jamais inteiramente homem, nem a mulher totalmente mulher. Cada um deles contm uma parte do sexo oposto: a sensibilidade (feminina) para o homem, a atividade (masculina) para a mulher. a recusa da sensibilidade, o temor da homossexualidade, os preconceitos, a virilidade exacerbada, que so causa de numerosas doenas psquicas, conforme mostram Sigmund Freud e a psicanlise...

    Reencontrar a imortalidade perdida

    Assim revestido de um corpo, de uma tnica de carne como dizem os ctaros, o homem fica submetido s paixes e deve esse mesmo o sentido de sua passagem pela terra reencontrar seu estado primordial ednico. Ele deve recriar sua imortalidade perdida. isso que explica o fato de ele reencarnar tantas vezes quanto for preciso. A Cabala ensina, de fato, a reencarnao. Existem, entretanto, diferenas entre a Cabala e o hindusmo, e eis o que diz sobre o assunto um ocultista contemporneo (F. C. Barlet): "Direi que as doutrinas hindus me parecem mais verdadeiras do ponto de vista metafsico, abstrato; as doutrinas judaico-crists, do ponto de vista moral, sentimental, concreto: o cristianismo e a Cabala deixam mais incerteza (...) Uma fala inteligncia, a outra alma. No se pode, portanto, possuir a doutrina completa da Tradio seno interpretando o simbolismo de uma pela metafsica da segunda. Ento, e somente ento, os dois plos assim animados um pelo outro fazem resplandecer, com os esplendores do mundo divino, a inacreditvel riqueza da linguagem simblica." Cada povo, com efeito, no recolhe mais do que uma migalha, uma parcela, da tradio primordial. E mister juntar tudo, "juntar o que se acha esparso", dizem os iniciados, para comear a compreender alguma coisa. O estudo da Cabala no anula o estudo das filosofias do Oriente. Pelo contrrio! Se bem que oriundas de horizontes distintos, essas concepes se completam. Todo indivduo que progredir na compreenso de uma tradio far progressos em todas as demais.O homem deve, por conseguinte, reconstituir antes de tudo sua androginia primitiva como? a Cabala ensina isso para reencontrar o estado anterior diviso em Ado e Eva. A reconstituio dessa androginia conduz ao santo dos santos, isto , ao corao do mistrio que a cmara mais remota do templo de Salomo simboliza na terra. H sete tabernculos, e no mais perfeito, que o santo dos santos, as almas vo se unir alma suprema. L, tudo retorna unidade e perfeio. Tudo se confunde em um nico pensamento que se estende como uma bno por sobre o universo inteiro. No fundo desse pensamento oculta-se uma luz intensa que pessoa alguma pode apreender. Nesse estado, o indivduo no se distingue mais de seu criador. O homem faz parte de Deus.

    Ensinamento da Cabala sobre a natureza (o universo reencarna-se)

    12 Uma ameba pode viver tempo extremamente longo.29

  • Deus e o Homem acabamos de ver rapidamente qual o ensinamento da Cabala acerca desses dois assuntos. Resta-nos, para completar, compreender-lhe o ensinamento acerca do universo. Para a Cabala, como o sugerimos um pouco atrs neste mesmo captulo, os planetas constituem os rgos do universo; como o fgado, os pulmes, o corao etc. formam os rgos do homem. No ser humano, a vida resulta da corrente sangnea que banha todos os rgos, elimina os resduos, restaura o que disso carece. No universo, da mesma maneira, a vida resulta das ondas de luz que banham todos os planetas. Alm disso, a luz que expulsa os resduos planetrios: os buracos negros recentemente descobertos pelos astrnomos talvez sejam as latas de lixo do cosmo. Einstein mostrou que a matria, as estrelas, o universo so compostos de luz e aderiu assim ao ensinamento mais constante da Cabala e da tradio.No homem, cada glbulo sangneo um ser verdadeiro que constitudo imagem do prprio homem. A biologia mostra que tudo est em tudo e impe-se por si mesma a concluso: o fluido vital contm uma infinidade de seres. Ocorre assim com a luz, que contm uma infinidade de ftons que so grnulos de luz, como disse Einstein. So esses ftons que, amalgamados e postos ao abrigo de qualquer influncia material, produzem os anjos. A Cabala prtica estuda esses seres invisveis, esses receptores-transmissores da luz contida no universo. Ela age sobre eles e conhece-lhes todos os poderes. Da decorrem a astrologia, a demonologia e todas as outras tcnicas da Cabala.A fora vital transmitida pelo sangue no a nica no homem. Acima dela, existe a fora nervosa. O fluido nervoso domina os fenmenos vitais. Ele pode agir pela vontade, por meio do crebro e dos nervos raquidianos, ou organicamente, por intermdio do grande simptico. Este ltimo, o grande simptico, o corpo astral dos ocultistas. Para os ocultistas, com efeito, o homem trplice: corpo de matria (fsico), corpo astral e corpo de luz. Na morte, o indivduo despoja-se dos dois primeiros como se fossem invlucros grosseiros e sucessivos.O fluido nervoso, em todo caso, no conduzido como o a vida, por seres (os glbulos sangneos). Ele parte de algo que a clula nervosa, que conhecemos bem h algumas dezenas de anos, e vai ter em um centro de recepo (um centro nervoso). A Cabala diz que com ele se d o mesmo que no universo: dentro das correntes de luz, encontra-se um fluido misterioso independente da natureza como a fora nervosa independente dos glbulos sangneos. Diretamente emanado de Deus, esse fluido o corpo de Deus. E esse corpo de Deus o esprito do universo.O universo assemelha-se ainda sob outros aspectos ao homem: tambm sujeito a uma evoluo e uma involuo peridicas e deve ser finalmente reintegrado sua origem. Para falar de modo mais simpl