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Tarzan, O Invencivel - Tarzan - - Edgar Rice Burroughs

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Tarzan, seu macaco Nkima e Chefe Muviro com seus fiéis guerreiros Waziris, evitam que comunistas soviéticos de saqueiem a cidade perdida de Opar.

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    "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutandopor dinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo

    nvel."

  • Edgar Rice Burroughs

    TarzanO Invencvel

    Traduo de Paulo de FreitasDigitalizao de Digital Source

    Formatao de LeYtor

  • Traduo dePAULO DE FREITAS "CODIL" COMPANHIA DISTRIBUIDORA DE LIVROSSAO PAULO Do original norte-americano:TARZAN THE INVINCIBLE 1959Direitos para a lngua portuguesa adquiridos pelaCOMPANHIA EDITORA NACIONALRua dos Gusmes, 639 So Pauloque se reserva a propriedade desta traduo,cedidos especialmente para a"CODIL"COMPANHIA DISTRIBUIDORA DE LIVROS.Impresso nos Estados Unidos do Brasil Printed in the United States of Brazil

  • CAPTULO 1O pequeno Nkima No sou historiador, nem cronista de fatos. Alm disso, estou plenamente

    convencido de que h certos temas que os novelistas devem deixar de parte. Entre eles,os assuntos polticos e religiosos. Contudo, no me parece contrrio tica de quandoem quando a gente lanar mo de uma ou outra idia de qualquer desses temas, contantoque ao desenvolv-lo ressalte inconfundvel impresso de novela.

    Se a histria que vou contar aparecesse nos jornais de duas certas potnciaseuropias, era bem possvel que se desencadeasse uma outra e inda mais terrvel guerramundial. Nesse ponto no estou particularmente interessado. O assunto interessa-mepor tratar-se de uma boa novela que de perto se adapta s minhas exigncias, uma vezque Tarzan dos Macacos intimamente se acha ligado a muitos dos seus maisemocionantes episdios.

    No vou enfad-lo, leitor, com a inspida histria poltica, de sorte que no inutilmente que lhe vou impor, ao esprito, a tentativa de decifrar os nomes fantsticosde que me utilizarei para descrever certos povos e certos lugares, uns e outros, a meuver, para maior garantia da paz e do desarmamento, devem permanecer incgnitos.

    Acolha a novela simplesmente, como j acolheu outras histrias de Tarzan, onde, de esperar-se, encontrar entretenimento e repouso. E se achar alimento para reflexes,tanto melhor.

    Sem dvida, poucos dos meus leitores viram, e muito menos ainda se lembram deter visto um despacho noticioso, h algum tempo inconspicuamente impresso nosjornais, registrando o boato de que as tropas coloniais francesas, estacionadas emSomaliland, na costa nordeste da frica, haviam invadido a colnia italiana na frica.Atrs dessa reportagem acha-se a histria de conspirao, intriga, aventura e amor, umahistria cheia de patifes e de loucos, de homens valentes e de lindas mulheres, umahistria de animais da floresta e da jngal.

    Se uns poucos dos meus leitores leram a notcia dos jornais, sobre a invaso daSomaliland italiana, na costa nordeste da frica, igualmente fato que ningum assistiuao terrvel incidente que se verificou no interior africano, pouco antes daquelaocorrncia. Que este fato possivelmente no pudesse ter nenhuma ligao, no que querque fosse, com a intriga europia internacional, ou com o destino das naes, coisa quenem mesmo parece remotamente possvel. Isto porque se trata simplesmente de ummacaquinho, fugindo atravs das frondes de rvores e gritando de terror. Era opequeno Nkima, perseguido por um enorme macaco selvagem, muitssimo maior queele.

    Felizmente para a paz da Europa e do mundo, a velocidade do perseguidor de formaalguma era proporcional sua desagradvel disposio de nimo, de sorte que Nkimalogrou escapar. No obstante, embora j h tempo que o enorme macaco haviaabandonado a perseguio, o macaquinho continuou a fugir pelas frondes das rvores,gritando com sua vozita sibilante, pois o terror e a fuga eram as duas maiores atividadesdo pequeno Nkima.

  • Talvez fosse o cansao, mas muito provavelmente uma lagarta ou ninho depassarinho que eventualmente puseram termo fuga de Nkima e o tornaram resmungoe palrador, num oscilante ramo, muito acima do solo da jngal.

    O mundo em que o pequeno Nkima nascera, parecia-lhe verdadeiramente ummundo terrvel, e ele passava grande parte de seu tempo resmungando contra isso. Opequeno Nkima tinha a impresso de que o mundo era povoado de criaturas ferozes ecolossais, que gostavam de carne de macaco. Havia Numa, o leo, Sheeta, a pantera, eHistah, a serpente um triunvirato que lhe tornava inteiramente inseguro seu mundo,desde a mais elevada copa de rvore at ao solo. E ainda havia os grandes macacos, osmacacos de menor porte, os baboons e inumerveis espcies de outros macacos, que Deusfizera maiores do que o pequeno Nkima e do que quantos pareciam alimentar mvontade contra ele.

    Tome-se, por exemplo, a selvagem criatura que inda h pouco o perseguia. Que lhefizera, o pequeno Nkima? Simplesmente lhe atirara um pedao de pau quando ela estavadormindo numa forquilha de rvore, e precisamente por esse motivo perseguiu opequeno Nkima, sem sombra de dvida com intenes homicidas. A expresso pormim usada sem o propsito de emprestar qualquer reflexo a Nkima. Jamais ocorreu aomacaquinho, como parece nunca ter ocorrido a certo povo, que, tal qual a beleza, osentimento de humor por vezes pode ser fatal.

    Meditando sobre as injustias da vida, o pequeno Nkima estava muito triste. Masuma outra e mais pungente causa havia para confranger-lhe o coraozinho. H muitas,muitas luas passadas o seu amo desaparecera e deixara-o. Verdade que o deixara numalinda e confortvel casa onde era alimentado por gente bondosa, mas o pequeno Nkimaextraviou-se do grande Tarmangani, cujo ombro nu era o nico e protetor refgio deonde podia, com perfeita impunidade, atirar insultos ao mundo. Desde ento, por muitotempo o pequeno Nkima desafiava os perigos da floresta e da jngal, em procura de seubem-amado Tarzan.

    Medidos, como so, os coraes pelo que contm de amor e lealdade, e no pordimetros em polegadas, o coraozinho do pequeno Nkima era muito grande. Togrande que o ser humano comum podia nele esconder o seu prprio corao, bem comoa prpria pessoa, e por muito tempo o macaquinho sentiria uma grande dor em seudiminuto peito. Contudo, para felicidade do pequeno Manu, o seu esprito estava de talmodo disposto, que facilmente se distraa, mesmo de uma grande tristeza. Umaborboleta ou saborosa larva podiam subitamente prender-lhe a ateno, imersa emprofundas reflexes, o que era um bem. Caso contrrio, seria capaz de morrer detristeza.

    Agora, como lhe voltassem os melanclicos pensamentos ao contemplar a sua perda,a direo destes subitamente se desviou ao perpassar de uma brisa da jngal, que lhetrouxe aos afinados ouvidos um som, o qual no era prprio da jngal, pois que ossons da jngal constituam parte de seus instintos hereditrios. Era uma discordncia. Eo que seria aquilo que trazia discordncia dentro da jngal, bem como no quer que fosseem que se intrometesse? O homem. Vozes de homens que Nkima ouvira.

    Silenciosamente o macaquinho deslizou atravs das rvores, em direo ao lugar deonde vinham os sons. Presentemente, como os sons se tornassem mais fortes,

  • evidenciou-se tambm a definida e final prova de identidade dos seus autores naquiloem que Nkima ou outro qualquer habitante da jngal estivesse interessado o faro dapresa.

    O leitor j viu um co, talvez o seu prprio co, reconhecer o amo pela vista.Entretanto, acaso esse animal se sentia plenamente satisfeito enquanto a evidncia de seusolhos no fosse posta prova e o fato provado pelas sensitivas narinas?

    Foi o que sucedeu com Nkima. Os ouvidos lhe sugeriram a presena de homens, eagora as narinas definitivamente lhe asseguravam que os homens estavam perto. Em suamente, Nkima no os tinha como homens, mas como grandes macacos: entre eles haviaGomangani, grandes macacos pretos e homens negros. Foi isso que lhe disse o nariz. Ehavia tambm Tarmangani. Estes, que para Nkima eram grandes macacos brancos, eramhomens brancos.

    Avidamente suas narinas farejaram o familiar cheiro do seu querido Tarzan, mas alino o encontrou, mesmo antes de ter sob as vistas os estrangeiros.

    O acampamento para onde, no momento, Nkima olhava do cimo de uma rvorevizinha, estava admiravelmente disposto. Evidentemente ali j se achava armado h dias,e possivelmente ali continuaria por mais tempo. No era fruto de trabalho noite. Haviaas tendas dos homens brancos e as tendas dos rabes, primorosamente levantadas quaseque com preciso militar, e atrs as cabanas dos negros, levemente construdas demateriais de que a natureza dotara o lugar.

    Na parte fronteira e aberta de uma tenda achavam-se sentados vrios bournoosedbedunos, bebendo seu indefectvel caf; sombra de uma grande rvore, defronte umaoutra tenda, quatro homens brancos empenhavam-se em jogo de cartas; entre as cabanasnativas um grupo de valentes guerreiros de Galla divertia-se com a minkala. Havia,tambm, negros de outras tribos, homens do este africano e da frica Central, com umqu dos negros da costa oeste.

    Causaria pasmo, ao experimentado viajante da frica ou ao caador, catalogar estavariada reunio de raas e cores. Excessivamente grande o nmero de pretos parajustificar a crena de que todos eram carregadores, porquanto arrumadas todas asbagagens do acampamento, pronto para ser removido, caberia uma pequena frao decarga para cada um deles. Isto sem falar dos askaris, que no carregavam nenhum pesoalm do seu rifle e munio.

    Alm disso, havia mais carabinas do que o necessrio para proteger, mesmo umgrande bando. Mas esses eram detalhes menores que no causaram a mnima impressoem Nkima. O que sobremodo o impressionava era o fato de ali, nos domnios de seuamo, se acharem muitos estranhos Tarmangani e Gomangani. E, estrangeiros todos,todos inimigos. Nkima estava perturbado. Agora, mais do que nunca, desejavaencontrar Tarzan.

    Um indiano do este, trigueiro e com turbante, sentou-se com as pernas cruzadas nocho, defronte de uma tenda aparentemente imerso em meditao. Pudesse algum ver-lhe os olhos escuros e sensuais, e descobriria que a luz que os alumiava, estava longe deser introspectiva, pois constantemente se voltavam para uma outra tenda, situada umbocadinho separada das demais. Quando uma rapariga surgiu dessa tenda, Raghunath

  • Jafar levantou-se e dela se aproximou. Ele sorria um sorriso oleoso enquanto lhe falava,mas a rapariga no sorria ao responder-lhe. Cortesmente ela lhe atendeu s perguntas,mas no parou um instante: continuou o seu caminho na direo dos quatro homens quejogavam baralho.

    Ao aproximar-se da mesa em que jogavam, os quatro ergueram os olhos. Nosemblante de cada um se refletia certa agradvel emoo. Mas se fosse idntica, asmscaras que ns chamamos de rosto, treinadas para ocultar os nossos verdadeirospensamentos, no denunciavam a identidade. O que sim e no padecia dvida, era que amoa gozava de popularidade.

    Hello, Zora! exclamou um rapaz de rosto largo e franco. Com que ento, estevetirando um cortinho de sono?

    Sim, camarada, respondeu a moa. Mas estou cansada de tanto dormir. Estainatividade est-me atacando os nervos.

    A mim tambm, concordou o homem. Por quanto tempo mais voc inda esperar o americano, camarada Zveri?

    indagou Raghunath Jafar.O colossal homem encolheu os ombros. E' que preciso dele, respondeu-lhe. Facilmente podemos levar a cabo a nossa

    empresa sem o seu auxlio, mas para o efeito moral sobre o mundo, tendo-se umamericano rico bem nascido ativamente integrado no negcio, vale a pena esperar.

    Voc est absolutamente certo desse "gringo", Zveri? perguntou um mootrigueiro, mexicano, que se achava sentado perto do colossal e simptico homem,evidentemente o chefe da expedio.

    Encontrei-o em Nova York e de novo em So Francisco. Foram tomadascuidadosas informaes a seu respeito e ele foi favoravelmente recomendado.

    Estou sempre desconfiado desses camaradas que devem tudo o que possuem aocapitalismo, declarou Romero. Est em seu sangue: de corao eles odeiam oproletariado, justamente como ns os odiamos.

    Esse rapaz diferente, Miguel, insistiu Zveri. Ele foi conquistado tointeiramente que seria capaz de enganar o prprio pai pelo bem da causa. Alis, j esttraindo a sua ptria.

    Leve e involuntrio desprezo, que passou despercebido aos outros, franziu os lbiosde Zora Drinov ao ouvir a descrio do remanescente membro do bando, que ainda nocomparecera ao "rendez-vous".

    Miguel Romero, o mexicano, ainda no se dera por convencido. No tenho necessidade de "gringos" de qualquer espcie.Zveri sacudiu os fortes ombros. Nossas animosidades pessoais no tm o mnimo valor, comparadas aos

    interesses dos trabalhadores do mundo. Quando Colt chegar, devemos acolh-lo comoum dos nossos. Nem devemos esquecer-nos de que, por muito que detestemos a

  • Amrica e os americanos, hoje em dia nada neste mundo se faz sem eles e sem a suaimunda riqueza.

    A riqueza conquista-se fora do sangue e do suor das classes proletrias,resmungou Romero.

    Exatamente, concordou Raghunath Jafar. Mas como tornar-se prprio que essamesma riqueza possa servir para minar e derrotar a Amrica capitalista e fazer com queos operrios eventualmente reivindiquem a sua?

    Precisamente esse o meio de que me estou utilizando, respondeu Zveri. Prefiroantes usar o ouro americano para levar a efeito a causa, do que outro qualquer. Depoisdele, o ouro ingls.

    Mas de que nos servem os insignificantes recursos desse americano? indagouZora. Uma ninharia comparados ao que a Amrica j est extravasando na RssiaSovitica. Que a sua traio comparada traio daqueles outros, que esto fazendomais para precipitar o dia do comunismo mundial do que a prpria TerceiraInternacional? Nada; uma gota no oceano.

    Que quer dizer com isso, Zora? perguntou Miguel. Refiro-me aos banqueiros, industriais e engenheiros americanos, que esto

    vendendo a prpria ptria e o mundo para ns, na esperana de conseguirem mais ouroaos seus recheadssimos cofres. Um dos seus mais piedosos e louvados cidados estconstruindo, para ns, na Rssia, grandes fbricas, onde teremos os nossos tratores e osnossos tanks; seus industriais esto apostando, uns com os outros, para fornecer-nosmotores a milhares e milhares de aeroplanos; seus engenheiros esto-nos vendendo ainteligncia e habilidade na construo de uma grande cidade industrial, destinada aproduzir munies e engenhos de guerra. Esses os traidores, esses os homens que estoapressando o dia em que Moscou ditar a poltica do mundo.

    Voc fala como se lamentasse tudo isso, observou-lhe uma voz seca, a seu lado.A rapariga voltou-se incontinenti. Ah, o senhor, xeque Abu Batn? disse ela, ao reconhecer o trigueiro rabe que se

    afastara do lugar onde preparava 0 seu caf. A nossa boa fortuna no se faz cega perfdia do inimigo, nem me leva a admirar a traio de quem quer que seja, muitoembora dela eu tire proveito.

    Acaso me inclui nesse nmero? indagou Romero, suspeito.Zora riu-se. Bem sabe que no, Miguel. Voc pertence classe dos que trabalham e leal para

    os operrios de seu pas. Mas aqueles fazem parte da classe capitalista: o seu governo um governo capitalista, de tal modo oposto s nossas crenas, que jamais reconheceu onosso governo. Alm disso, em sua avidez, esses porcos esto vendendo a prpria raae, mesmo, a prpria ptria por mais alguns miserveis dlares. Eu os odeio.

    Zveri riu-se. Voc uma esplndida vermelha, Zora. Odeia o inimigo no s quando ele nos

    auxilia, como quando nos embaraa.

  • Mas odiar e falar pouco adianta, retorquiu a rapariga. Eu gostaria quepudssemos fazer alguma coisa. Permanecermos aqui sentados em ociosidade, parece-me to ftil!...

    E que desejaria que fizssemos? indagou Zveri, de bom humor. Pelo menos poderamos tentar o ouro de Opar. Se Kitembo disse a verdade, l

    deve existir o bastante para financiar uma dzia de expedies como a que estoplanejando, e no necessitamos desse americano como que os chamam, comedoresde bolo, no? para auxiliar-nos na empresa.

    J estive pensando muito nisso tudo, adiantou Raghunath Jafar.Zveri franziu o sobrecenho. Talvez alguns mais de vocs gostariam de apressar esta expedio, disse ele

    impertinentemente. Eu sei o que estou fazendo e no discuto os meus planos com quemquer que seja.

    Quando tenho ordens para dar, dou-as. Kitembo j recebeu a que lhe transmiti, eativam-se os preparativos para a expedio a Opar.

    Todos ns estamos to interessados e arriscamos tanto quanto voc, Zveri,retorquiu Romero. Aqui nos achamos para trabalhar juntos e no como senhor eescravos.

    Zveri levantou-se de um salto e sacou do revlver. No instante em que apontavacontra Romero, a rapariga segurou-lhe o brao e se interps entre ambos.

    Est louco, Miguel? Gritou-lhe ela. No interfira, Zora; este negcio me diz particular respeito, e bem posso resolv-

    lo agora e no mais tarde. Aqui sou o chefe, e no admito traidores em meuacampamento. Ponha-se de lado.

    No! Contraveio a rapariga com firmeza. Miguel no tem razo, nem voc. Masderramar sangue, o nosso prprio sangue importaria em arruinar por completoqualquer possibilidade que tenhamos de xito. Seria espalhar a semente do temor e dasuspeita, e isso nos custaria o respeito dos negros, os quais ficariam sabendo daexistncia de dissenses entre ns. Alm disso Miguel no est armado; atir-lo seria umcovarde assassnio, que lhe acarretaria a perda de respeito de cada homem decente daexpedio.

    Tais palavras foram rapidamente pronunciadas em russo, lngua que somente ela eZveri entendiam, entre os presentes. Depois, voltando-se para Miguel, falou-lhe emingls:

    Voc est errado, Miguel. preciso que haja um chefe responsvel, e o camaradaZveri foi escolhido pela sua responsabilidade. Ele sente ter procedido toprecipitadamente. Diga-lhe que voc lamenta pelo que aconteceu, e apertem-se as mos,de sorte que todos ns nos esqueamos deste incidente.

    Romero hesitou por um instante. Depois estendeu a mo a Zveri. Sinto bastante, disse-lhe ele.

  • O russo apertou a mo que lhe era estendida e inclinou-se rigidamente. Esqueamo-nos do que houve, camarada, disse-lhe o mexicano.Entretanto, Zveri continuava de semblante carregado, embora no mais do que o de

    Miguel.O pequeno Nkima bocejou e balanou-se, preso pelo rabo a um galho muito alto.

    Satisfeita lhe estava a curiosidade a respeito desses inimigos. Eles no mais lhe ofereciamqualquer entretenimento, mas sabia que seu senhor precisava ficar a par da sua presena.Esse pensamento, entrando-lhe na cabecinha, reavivou-lhe a tristeza e sua grandeansiedade por Tarzan, reforando-lhe a inflexvel resoluo de continuar sua busca procura do homem-macaco. Talvez em meia hora alguma ocorrncia trivial de novo lhedistrasse a ateno, mas no momento esse era o trabalho em que se achava empenhado.Balouando-se atravs da floresta, o pequeno Nkima levava o destino da Europa em suarosada palma, coisa a que estava absolutamente alheio.

    A tarde declinava. Longe, bramia um leo. Instintivo tremor percorreu a espinha deNkirha, embora, na realidade ele no tivesse muito medo, pois estava certo de quenenhum leo poderia alcan-lo na copa das rvores.

    Um moo, que caminhava prximo do cume de um safari, ergueu a cabea e escutou. No muito distante, Tony, observou ele. No, "sir"; muito perto, respondeu o filipino. Voc precisa acabar com esse sisudo "sir", Tony, antes de nos reunirmos aos

    outros, admoestou-o o primeiroO filipino arreganhou os dentes. Pois no, camarada, assentiu ele. Depois que me acostumo a chamar algum de

    "sir", custa-me mudar de tratamento. Nesse caso, receio que voc no seja bom vermelho. Oh, sim, eu o sou, insistiu o filipino enfaticamente. Por que ento me acharia

    aqui? Acaso pensa que por gosto que venho a este pas esquecido de Deus, cheio delees, formigas, cobras, moscas, mosquitos, unicamente a passeio? No, aqui vim paradar a minha vida pela independncia das Filipinas.

    Isso nobre de sua parte, Tony, observou o outro, gravemente. Mas comoconseguir voc a independncia das Filipinas?

    Antnio Mori, na intimidade Tony, cocou a cabea. No sei, confesso. Mas isso h de causar perturbao Amrica.L no alto, em meio das frondes das rvores, um macaquinho cruzou-lhes o

    caminho. Entreparou, por alguns instantes observou-os, e depois prosseguiu, emdireo oposta.

    Meia hora mais tarde de novo o leo bramiu. De to desconcertantemente perto einesperada se elevou aquela voz de trovo, da jngal, debaixo do pequeno Nkima, quepor pouco que este no despencou l de cima, da rvore por onde passava. Com umgrito de terror, alcanou a maior altura que pde e l no alto, sentado, ps-se a

  • resmungar enraivecido.O leo, magnfico macho em sua esplndida juba, penetrou no claro da floresta e

    em baixo da rvore, em que se achava pendurado o trmulo Nkima. Mais uma vezelevou a poderosa voz, at que o prprio solo tremeu ao formidvel e retumbantevolume de seu desafio. Nkima olhou para baixo e repentinamente cessou de resmungar.Ao invs, saltou excitantemente, cheio de gritinhos e de caretas. Numa, o leo, levantouo olhar; nesse instante, verificou-se fato estranho. O macaquinho cessou os seus gritos eemitiu um som baixo e peculiar. Os olhos do leo, que estavam brilhando funestamente,refletiram uma nova e quase gentil expresso. Arqueando o dorso, esfregou-seluxuriosamente de encontro ao tronco da rvore, e daquelas selvagens mandbulas saiuuma rosnadura suave. Ento, o pequeno Nkima depressa escorregou atravs dafolhagem da rvore, deu um ltimo e ligeiro salto e acomodou-se na espessa juba do reidos animais.

  • CAPTULO 2O hindu AO AMANHECER do dia seguinte, nova atividade reinava no acampamento dos

    conspiradores. Agora, os rabes no mais bebiam o seu caf; o baralho, com que osbrancos jogavam, foi guardado, e os guerreiros de Galla puseram de parte a suadiverso.

    Zveri, sentado atrs de sua tenda j dobrada, dirigia os seus auxiliares e, ajudado deZora e Raghunath Jafar, distribua munio fila de homens armados que marchavam sua frente. Miguel Romero e mais dois homens brancos fiscalizavam .a distribuio decargas aos carregadores. O selvagem negro Kitembo constantemente se movia entre osseus homens, apressando os retardatrios que ainda se encontravam ao redor defogueiras, comendo o seu breakfast, e pondo em ordem de marcha os que j haviamrecebido munio. Abu Batn, o xeque, achava-se acocorado distncia, com os seusguerreiros crestados pelos raios solares. Estes, sempre prontos, contemplavam comdesdm os desordenados preparativos dos outros companheiros.

    Quantos aqui ficaro, para guardar o acampamento? indagou Zora. Voc e o camarada Jafar aqui ficaro de guarda. Os seus homens e dez askaris

    tambm aqui permanecero para tomar conta do acampamento, respondeu Zveri. E' muita gente, retorquiu a rapariga. No h perigo. Da fato, no h, concordou o chefe. Agora no h, mas se Tarzan aqui estivesse,

    seria diferente. Dei-me ao trabalho de eu mesmo verificar-lhe a ausncia, antes deescolher esta regio para o nosso acampamento-base, e soube que h muito tempo ele seacha fora daqui, como chefe de uma louca expedio de que ningum soube notcias. E'quase certo que tenha perecido.

    Quando o derradeiro negro recebeu sua parte de munio, Kitembo reuniu os seushomens a pequena distncia dos demais e falou-lhes em voz baixa. Eles eram Basembos,e Kitembo, seu chefe, falou-lhes no dialeto natal.

    Kitembo odiava todos os brancos. A Inglaterra havia ocupado a terra que foramoradia de sua gente, desde tempos imemoriais, e como Kitembo, chefe hereditrio, nose acurvasse ao domnio dos invasores, depuseram-no e substituram-no por umbonifrates.

    Para Kitembo, o chefe, selvagem, cruel e traioeiro, todos os brancos eram unsexcomungados, mas ele via, em sua ligao com Zveri, excelente oportunidade paravingar-se dos britnicos. Esse o motivo por que reuniu em torno de si muitos dos seusguerreiros e alistou-se na expedio de Zveri, que lhe prometeu expulsar para sempre osingleses e oferecer a Kitembo maiores poderes e glrias do que outrora cabiam aoschefes Basembos.

    No obstante, nem sempre era fcil a Kitembo conservar a sua gente interessadanessa empresa. Os ingleses haviam diminudo sobremaneira o seu poder e influncia, demodo que os guerreiros, outrora subservientes ao seu desejo como escravos, agoraousavam abertamente questionar-lhe a autoridade. At ento os guerreiros negros no

  • levantaram dvidas, mesmo porque a expedio no lhes acarretara trabalhos fatigantes,uma vez que curtas lhe foram as marchas, atravs de agradveis regies, comalimentao farta, por entre as negras costas do oeste, e membros de outras tribos,menos guerreiros do que os Basembos, eram incumbidos das cargas, levavam pesos efaziam toda sorte de trabalhos pesados. Mas agora, com a perspectiva de combates,alguns dos seus homens queriam saber ao certo qual o propsito em vista.Aparentemente, no estavam l com grande vontade de arriscar a pele, para a satisfaodas ambies ou dios do branco Zveri ou do preto Kitembo.

    Com o propsito de conquistar tais descontentes que Kitembo arengava aos seusguerreiros, prometendo-lhes de um lado as pilhagens e de outro severos castigos, escolha, para os que lhe obedecessem ou se amotinassem. Algumas das recompensas,que lhes foram acenadas imaginao, teriam causado a Zveri e a outros membros dobando considerveis perturbaes, se pudessem entender o dialeto de Basembo.Todavia, talvez o maior argumento para que os seus comandados lhe obedecessem,fosse o genuno temor que a maioria dos seus sequazes ainda tinham ao desumanochefe.

    Entre os outros negros da expedio, havia membros de outras tribos, fora da lei, econsidervel nmero de carregadores assalariados do modo comum, como quandodestinados a acompanhar uma expedio cientfica.

    Abu Batn e seus guerreiros estavam animados a momentaneamente prestarobedincia a Zveri, por dois motivos a perspectiva de pilhagem e o entranhado dioa todos os Nasrny, em virtude da influncia britnica no Egito e no deserto,considerado seu hereditrio domnio.

    Os representantes de outras raas que acompanhavam Zveri, eram levados pormotivos nobres, aspiraes humanitrias. Verdade que o seu chefe por vrias vezesfalara mais na aquisio de riquezas pessoais e poder, do que no aumento dafraternidade ou nos direitos do proletariado.

    Essa era a expedio que, fracamente unida, mas formidvel, levantava acampamentonesta linda manh, em demanda dos sacos de ouro que se encontravam nas cavernas damisteriosa Opar.

    Enquanto Zora Drinov contemplava a partilha, os seus formosos e. imperscrutveisolhos permaneciam fixos na pessoa de Pedro Zveri, at que ele desapareceu de vista aolongo da cauda de um rio, que se entranhava pela sombria floresta.

    Acaso tratava-se de uma rapariga, emocionada no instante em que seu amor partiapara misso cheia de perigos, ou...

    Talvez ele no mais regresse, sussurrou-lhe oleosa voz, a seu lado.A moa voltou a cabea para olhar nos semicerrados olhos de Raghunath Jafar. Ele regressar, companheiro. Pedro Zveri voltar para mim. Voc est muito confiada nele, disse o homem, olhando-a de soslaio. Est escrito, retorquiu a rapariga dispondo-se a voltar para a sua tenda. Espere, disse-lhe Jafar. Zora parou e voltou-se.

  • Que deseja? Voc, respondeu Jafar. O que voc v naquele grosseiro porco, Zora? Que sabe

    ele a respeito do amor ou da beleza? Eu posso apreci-la, linda flor da manh. Comigo,voc poder atingir a transcendente felicidade do perfeito amor, pois sou um adeptodesse culto. Uma besta, como Zveri, somente a degradar.

    O profundo desgosto que a moa sentira, ela o escondeu dos olhos do homem, poislembrou-se de que a expedio poderia durar dias e dias e durante esse tempo os doispraticamente se achariam a ss, a no ser a companhia de um punhado de guerreirosnegros e selvagens, cuja atitude a respeito de assunto dessa natureza, entre mulheresestrangeiras e um homem estrangeiro, no lhe era dado prever. No obstante, Zora noestava menos resolvida a pr fim s arremetidas do audacioso.

    Voc est brincando com a morte, Jafar, disse-lhe ela tranqilamente. No estouaqui em misso de amor. e se Zveri souber o que voc me disse, ele o matar. No mefale mais em tais coisas.

    - No ser necessrio, respondeu-lhe o hindu, enigmaticamente.Os seus semicerrados olhos estavam firmemente fixos nos da rapariga. Por talvez

    menos de meio minuto ambos assim permaneceram, enquanto pelo organismo de ZoraDrinov perpassava um sentimento de crescente fraqueza, a certeza de prximacapitulao. Ela combateu esse sentimento, antepondo o seu ao desejo do homem. Derepente, desviou os olhos do hindu. Sara vencedora, mas a vitria deixara-a fraca etrmula, como acontece com algum que justamente acaba de sujeitar-se, obstinadamente,a contestada disputa fsica. Voltando-se rapidamente, depressa se encaminhou para a suatenda, sem que ousasse olhar atrs, com receio de encontrar de novo aqueles doistanques gmeos, cheios de vcios e de poder maligno que eram os olhos de RaghunathJafar. Por isso no pde ver o oleoso sorriso de satisfao que retorcia os lbiossensuais do hindu, nem o ouviu repetir em voz baixa:

    No ser necessrio.

    * * * De passo que a expedio se entranhava ao longo do caminho que conduzia ao p do

    estril despenhadeiro, o qual cerca a parte fronteira do rido planalto, alm do qual seelevam as antigas runas de Opar, Wayne Colt no distante oeste, se apressava em direodo acampamento-base dos conspiradores. Para o sul um macaquinho caminhavaencarapitado no dorso de enorme leo, atirando sibilantes insultos, com perfeitaimpunidade, a cada criatura da jngal que cruzava em seu caminho, enquanto que, comigual desprezo para todos os menores seres, o poderoso carnvoro andava altivamente afavor do vento, absolutamente seguro de seu inquestionvel poder. Um rebanho deantlopes pastando em seu caminho, sentiu o irritante cheiro do animal e nervosamentese ps em debandada. Mas quando ^ leo ficou ao alcance de vista, os antlopes selimitaram a afastar-se a uma curta distncia, de lado, e abreviaram sua pastagem, poisNuma, o leo, estava bem alimentado, coisa que os herbvoros sabiam, que foge

  • estpida sensibilidade do homem, e os antlopes mostraram no mais recear a Numa debarriga cheia.

    Para outras criaturas, ainda mais distanciadas, chegou o faro do leo. Tambm estasnervosamente se movimentaram, embora o seu medo fosse menor do que o que aprincpio sentiram os antlopes. Tais criaturas eram os grandes macacos da tribo de To-yat, cujos poderosos machos tinham pouco de que temer mesmo do prprio Numa,embora as fmeas e os filhotes ficassem trmulos.

    medida que o leo se aproximava, o Mangani tornou-se mais inquieto e irritado.To-yat, o rei dos macacos, bateu em seu peito e ostentou as grandes e combatentesgarras. Ga-yat, com o poderoso dorso abaixado, encaminhou-se para o lado em que seachava o rebanho, aproximando-se do perigo iminente. Zu-tho bateu, com os calososps, ameaadora advertncia. As fmeas chamaram os filhotes ao seu redor, e muitastreparam nos mais altos galhos de enormes rvores ou buscaram proteo numaarborizada avenida de fuga.

    Justamente nesse instante um homem branco, quase nu, emergiu de densa folhagemde uma rvore, em meio do grupo. Nervos tensos e pacincias esvaram-se. Rugindo erosnando, o bando atirou-se sobre o intrpido e odiado homem. O macaco-rei ia frente.

    To-yat tem a memria curta, disse o homem na linguagem do Mangani.Por um instante o macaco entreparou, talvez surpreso de ouvir a lngua de sua raa

    falada pelos lbios de um ser humano. Eu sou To-yat! grunhiu ele. E eu mato. Eu sou Tarzan, retorquiu o homem, poderoso caador, poderoso combatente.

    Venho em paz. Matar! matar! Rugia To-yat, e os outros grandes machos avanavam, ostentando

    as garras, ameaadoramente. Zu-tho! Ga-yat! Interrompeu-os o homem. Sou eu, Tarzan dos Macacos.Por um instante o macaco entreparou, talvez surpreso de ouvir a lngua de sua raa

    falada pelos lbios de um ser humano.Entretanto, os macacos estavam nervosos e agora apavorados, porque o cheiro de

    Numa lhes penetrava fortemente nas narinas, e o repentino aparecimento de Tarzan lhesprovocara pnico.

    Matar! Matar! Berravam eles, embora at ento no atacassem. Adiantando-sevagarosamente, cada vez mais lhes aumentava a fria e tanto que aquilo havia determinar em repentina e enfurecida exploso que nenhuma criatura vivente poderiaenfrentar, a qual no deixaria mais do que pedaos e ensangentados fragmentos doobjeto de sua fria.

    Foi quando sibilante grito escapou dos lbios de uma grande e encanecida fmea,que trazia nas costas um filhotinho. "Numa!" gritou ela e, voltando-se, em rpida fugaalcanou a folhagem de vizinha rvore.

    Imediatamente, as fmeas e filhotes que permaneciam no cho saltaram nas rvores.

  • Os machos por um instante voltaram a sua ateno do homem para a nova ameaa. Oque lhes foi dado ver transtornou o pouco de serenidade que ainda lhes restava.Avanando diretamente ao seu encontro, com os olhos redondos e amarelos abrasadosde ferocidade, vinha um

  • poderoso leo amarelado. Sobre o dorso, trazia encarapitado um macaquinho,

    guinchando insultos ao bando de macacos. Estes deram-se por satisfeitos com a simplesvista de Numa, e To-yat, o macaco-rei, foi o primeiro a fugir. Com um rugido, cujaferocidade poderia salvar sua prpria considerao, ele galgou a primeira rvore.Incontinenti, os outros lhe seguiram o exemplo, deixando o gigante branco enfrentarsozinho a fria do leo.

    Com olhos chispantes o rei dos animais encaminhou-se para o lado do homem, coma cabea baixa e achatada, a cauda estendida e a juba oscilante. O homem pronunciouuma simples palavra, em voz baixa, ouvida apenas a algumas jardas. Instantaneamente oleo levantou a cabea, o horrvel chispar dos seus olhos amortecido e, no mesmoinstante, o macaquinho, soltando sibilante grito de reconhecimento e prazer, saltou porsobre a cauda de Numa e, em trs prodigiosos saltos, acomodou-se no ombro dohomem, com os bracinhos envolvendo-lhe o bronzeado pescoo.

    Pequeno Nkima! murmurou Tarzan, com o delicado queixo do macaquinhoapertado de encontro ao seu.

    O leo adiantou-se majestosamente. Fungando nas pernas nuas do homem, esfregoua cabea no corpo de Tarzan e deitou-se aos seus ps.

    Jad-bal-ja! saudou-o o homem-macaco.Os grandes macacos da tribo de To-yat espiavam de seu refgio nas rvores. O

    pnico e a raiva que deles se apossaram haviam desaparecido. Tarzan, disse Zu-tho. Sim, Tarzan, concordou Ga-yat.To-yat resmungou. Ele no simpatizava com Tarzan, mas temia-o. E agora, com esta

    nova evidncia do poder do grande Tarmangani, mais do que nunca To-yat o temia.Por algum tempo Tarzan escutou a loquacidade do pequeno Nkima. Soube do

    aparecimento do estranho Tarmangani e de muitos. Gomangani guerreiros, que haviaminvadido o domnio do rei da jngal.

    Os grandes macacos mexiam-se, desassossegados, nas rvores desejosos de descer.Entretanto, receavam a Numa, e os grandes machos eram demasiado pesados paracaminhar com segurana atravs das altas e oscilantes folhas, por onde os leves macacosandavam descuidadamente. De sorte que no podiam partir enquanto Numa no tivesseido embora.

    Vo embora! gritou To-yat, o rei. Vo embora, e deixe em paz o Mangani. Vamos embora, replicou o homem-macaco, mas voc no precisa ter medo a

    Tarzan ou ao 'Leo de Ouro. Ns somos seus amigos. Eu disse a Jad-bal-ja para nuncafazer-lhe mal. Voc pode descer.

    Ficamos nas rvores at que ele se v, disse To-yat. Numa pode esquecer. Voc est com medo, observou Tarzan com desdm. Zu-tho ou Ga-yat por certo

    no tero medo.

  • Zu-tho no tem medo de nada, vangloriou-se o grande macho.Sem uma palavra, Ga-yat resolutamente se dependurou na rvore em que se

    escondera e, se no com evidente entusiasmo, pelo menos com leve hesitao, adiantou-se na direo de Tarzan e de Jad-bal-ja, o Leo de Ouro. Os companheiros observavam-no atentamente, a cada momento esperando v-lo atacado e despedaado pelosdestruidores olhos amarelos que estavam aos ps de Tarzan, seguindo cada movimentodo peludo macaco. O rei da jngal por sua vez observava o grande Numa pois ningummais do que ele sabia que um leo, a despeito de acostumado a obedecer seu senhor,sempre um leo. Os anos que assinalavam a amizade dos dois, a partir do tempo emque Jad-bal-ja no passava de um animalzinho redondo, manchado e coberto depenugens, jamais lhe deram motivo para duvidar da lealdade do carnvoro, emboraocasies houvesse em que ele achara no s difcil, como perigoso, contrariar algunsdos mais ferozes instintos da fera.

    Ga-yat aproximava-se, enquanto o pequeno Nkima resmungava e pairava do alto doombro protetor de seu amo. O leo, negligentemente piscando os olhos, por fimdesviou algures. O perigo, se tivesse havido algum, estava passado, porquanto o olharfixo e intencional do leo no evidncia de maldade.

    Tarzan adiantou-se e amistosamente deitou a mo no ombro do macaco. Este Ga-yat, amigo de Tarzan, disse ele, dirigindo-se a Jad-bal-ja. No lhe

    cause nenhum mal.Tarzan no lhe falou em qualquer linguagem humana. Talvez o meio comunicado de

    que se utilizava, propriamente no se possa chamar de lngua. Entretanto, o leo, ogrande macaco e o pequeno Manu compreenderam-no perfeitamente.

    Diga ao Mangani que Tarzan amigo do pequeno Nkima, chilrou omacaquinho. Ele no deve fazer mal ao pequeno Nkima.

    Estou de acordo com o que Nkima disse, aquiesceu o homem-macaco, voltando-se para Ga-yat.

    Os amigos de Tarzan so amigos de Ga-yat, retorquiu o grande macaco. Muito bem, rematou Tarzan. Agora, vou-me indo. Conte a To-yat e aos outros o

    que ns dissemos e diga-lhes tambm, que uns homens estranhos se acham nesta regioque pertence a Tarzan. Que vigiem tais homens, mas no se deixem ver, porque talvezesses homens sejam maus. Eles carregam paus que trovejam e causam a morte atravs dafumaa, do fogo e de um grande barulho. Tarzan agora vai ver porque esses homensaqui esto, em seus domnios.

    * * *

    Zora Drinov evitara Jafar, desde a partida da expedio para Opar. Poucas vezes

    deixara a sua tenda, fingindo dor de cabea como desculpa; de seu lado, o hindu no feznenhuma tentativa de invadir-lhe a tenda. Assim passou o primeiro dia. Na manh dosegundo, Jafar chamou o chefe dos askaris, incumbido de guard-los e procurar-lhes

  • alimentao. Hoje, disse-lhe Raghunath Jafar, o dia est excelente para a caa. Os sinais so

    propcios. V, com todos os seus homens, entre na floresta, e no volte enquanto o solno estiver baixo, no ocidente. Se voc for, dar-lhe-ei muitos presentes, alm de toda acarne que poder comer das carcaas de sua caa. Compreende?

    Sim, bwana, respondeu o negro. Leve tambm o criadinho da mulher. No necessito dele aqui. Meu rapazinho

    cozinhar para ns. Talvez ele no v, duvidou o negro. Vocs so muitos, e ele um s. Mas no deixe a mulher perceber que vocs o

    levaram fora. Quais so os presentes? indagou o chefe dos askaris. Dois pedaos de pano e cartuchos. E a recurvada espada que o senhor trazia quando para aqui viemos? No, respondeu Jafar. O dia no est bom para a caa, desconversou o negro, voltando-se. Dois pedaos de pano e cinqenta cartuchos, ofereceu Jafar. E a recurvada espada, acrescentou o negro. Depois de muita discusso,

    concluram o ajuste.O chefe reuniu os askaris e ordenou-lhes que se preparassem para a caada, dizendo-

    lhes que o trigueiro bwana assim ordenara, mas silenciando a respeito dos presentes.Quando estavam prontos para partir, o chefe em pessoa foi buscar o criadinho darapariga.

    Voc vai acompanhar-nos caa, disse-lhe Kahiya, o chefe dos askaris. Quem ordenou isso? perguntou Wamala. O trigueiro bwana. Wamala riu-se. Recebo ordens somente de minha patroa e no do trigueiro bwana.Kahiya saltou sobre Wamala e tapou-lhe a boca com sua grosseira palma, enquanto

    dois de seus homens o seguravam por ambos os lados. Voc cumpre as ordens de Kahiya, disse-lhe o negro, de passo que algumas

    pontas de lanas, usadas na caa, comprimiam o corpo trmulo do rapazinho. Vai ou no vai caar conosco? insistiu Kahiya. Vou. Eu estava simplesmente brincando. Enquanto Zveri conduzia a sua

    expedio a Opar,Wayne Colt, impaciente para reunir-se aos conspiradores, ordenava a seus homens

    que se dessem pressa em ach-los no acampamento. Os principais conspiradores haviamentrado na frica por diferentes pontos, a fim de que no chamassem muita ateno poruma quantidade. De acordo com este plano, Colt desembarcara na costa ocidental e

  • viajara por trem num pequeno percurso at alcanar a etapa inicial de onde seguira a pem longa e penosa jornada. De sorte que agora, com seu destino quase vista, estavaansioso por conseguir uma pausa a esta parte de sua aventura. Alm disso, sentia-securioso de encontrar-se com outros elementos principais da arriscada empresa. PedroZveri era o nico a quem conhecia.

    O jovem americano no estava alheio aos grandes riscos que corria, filiando-se auma expedio que visava a paz da Europa e o fundamental controle de uma vasta regiodo nordeste da frica, arrostando a desafeio, pela propaganda, de numerosas e nativastribos guerreiras, especialmente, porque muitas de suas operaes deveriam serrealizadas dentro do territrio britnico, onde o poder da Inglaterra era muito maisconsidervel do que um simples gesto. Contudo, moo novo e entusiasta, emboradesmiolado, tais contingncias no lhe pesavam demasiado no esprito, o qual, longe desentir-se desanimado, ao contrrio achava-se ansioso e inquieto para agir.

    O tdio da jornada, quando Colt deixou a costa, no se desfez pela prazerosa ouadequada companhia, desde que a infantil mentalidade de Tony no ia alm de umaestpida concepo da independncia da Filipina e da considerao das finas roupas queiria comprar quando, merc de um vago e sonhado processo econmico, conseguisseseu quinho nas fortunas de Ford e Rockefeller.

    Entretanto, a despeito das curtas idias de Tony, Colt gostava imenso- do rapaz.Entre a companhia do filipino e de Zveri ele teria escolhido a do primeiro. Durante oseu breve contacto com o russo, em Nova York e em So Francisco, convencera-se deque, como camarada, Zveri deixava muito a desejar, e no tinha motivos para anteciparque, em meio dos conspiradores, no iria encontrar associados da mesma ndole.

    Continuando laboriosa e rudemente em seu caminho, Colt vagamente se inteirava docenrio e dos sons da jngal, agora familiares, os quais por esse tempo, por certo,consideravelmente o desanimavam. Mesmo que tivesse prestado particular ateno aesses sons, era fora de dvida que seus destreinados ouvidos no podiam apanhar opersistente chiado de um macaquinho que os seguia por cima das rvores, nem mesmotal fato particularmente o impressionaria a menos que lhe fosse possvel saber que essemacaquinho caminhava no ombro de um bronzeado Apoio da floresta, silenciosamenteavanando em sua estrada area.

    Tarzan suspeitara que talvez este homem branco, cuja pista alcanarainesperadamente, dirigia os seus passos para o acampamento principal dos invasores, emcuja procura se achava o rei da jngal. Assim, com a persistncia e pacincia dasselvagens sombras da jngal, ele seguia Wayne Colt, enquanto o pequeno Nkima,encarapitado em seu ombro, suplicava ao amo que no destrusse imediatamente oTarmangani e seus companheiros, pois o pequeno Nkima era uma sanguinria almaquando estava prestes a verificar-se grande derramamento de sangue provocado poralgum.

    De passo que Colt impacientemente ordenava a seus homens para se apressarem,seguido por Tarzan e injuriado por Nkima, Raghunath Jafar se aproxima da tenda deZora Drinov. No instante em que a sua figura obscurecia a entrada, projetando umasombra sobre o livro que a moa lia, esta levantou o olhar de sobre a tarimba em que seachava deitada.

  • O hindu sorriu aquele seu sorriso oleoso e conquistador. Aqui vim para saber se melhorou a dor de cabea. Obrigada, ainda no, respondeu-lhe friamente a moa. Talvez com este

    sossegado descanso logo eu melhore.Ignorando a sugesto, Jafar entrou na tenda e sentou-se numa cadeira de

    acampamento. Estou sentindo tudo solitrio, disse ele, depois que os outros partiram. No acha,

    tambm? No, respondeu Zora. Sinto-me contente, por estar sozinha e descansando. A sua dor de cabea aumentou muito depressa. H pouco tempo, parecia sentir-se

    to bem e animada.A moa no respondeu. Estava dando tratos imaginao para saber o que era feito

    do rapazinho, Wamala, e por que desrespeitara suas explcitas instrues de nopermitir, a quem quer que fosse, incomod-la. Talvez Raghunath Jafar lhe lesse ospensamentos, pois aos ndios do este muitas vezes so atribudos misteriosos poderesembora pouca gente nisso acredite. Pudesse ou no tal fato acontecer, as seguintespalavras do hindu evidenciavam tal possibilidade.

    Wamala foi caar com os askaris. No lhe dei permisso, disse Zora. Tomei a liberdade de dar-lhe, contraveio-lhe Tafar. O senhor no tinha direito para fazer isso, replicou raivosamente a moa,

    sentando-se beira da tarimba. O senhor est-se excedendo, camarada Jafar. Espere um instante, minha querida, murmurou o hindu docemente. No

    discutamos. Como sabe, eu a amo e o amor no encontra confirmao em multides.Talvez eu me tenha excedido, mas isso foi to somente para dar-me a oportunidade depleitear a minha causa sem ser incomodado. Nessas condies, como bem sabe, tudo lindo no amor e na guerra.

    Nesse caso, podemos considerar isto como guerra, retorquiu Zora, porquecertamente no h amor, quer de seu lado, quer do meu. H uma outra palavra paradescrever isso que o anima, camarada Jafar, e o que me anima o dio. Eu no osuportaria se o senhor fosse o derradeiro homem na terra, e quando Zveri voltar,prometo-lhe que sero ajustadas as contas.

    Muito antes de Zveri voltar eu a terei ensinado a amar-me, disse-lhe o hindupassionalmente.

    E, levantando-se, encaminhou-se na direo da moa. Esta se ps de p,incontinenti, circunvagando o olhar em busca de uma arma de defesa. O seu revlver ecartucheira estavam pendurados na cadeira onde Jafar se sentara, e o rifle no lado opostoda tenda.

    A senhorita est completamente desarmada, observou-lhe o hindu. Prestei bemateno nisso quando entrei na tenda. Ademais, de nada lhe adiantaria gritar por socorro,

  • pois no h mais ningum no acampamento, a no ser a senhorita, eu e o meu rapazinho.Este bem sabe, se que tem amor vida, que aqui no deve vir, a menos que eu ochame.

    O senhor um animal, disse-lhe a rapariga. Por que no razovel, Zora? No lhe causar nenhum mal tornar-se gentil

    comigo, e isso lhe tornar as coisas bem mais fceis. Zveri de nada precisa ficarsabendo, e logo que retornarmos civilizao, se achar que no deve permanecer emminha companhia, no mais tentarei conserv-la comigo. Entretanto, estou certo de quea ensinarei a amar-me e que juntos seremos felizes.

    Saia daqui! ordenou a moa.Em sua voz no se notava o menor receio. Era muito calma, natural e controlada. A

    um homem, no totalmente cego pela paixo, talvez desse algum resultado, talvezsignificasse a inflexvel determinao de lutar at morte. Mas Raghunath Jafar somentevia a mulher de seus desejos, e, adiantando-se rapidamente, segurou-a.

    Zora Drinov era jovem, esbelta e forte, mas no estava em condies de medir-secom o corpulento hindu, cujas oleosas banhas do corpo escondiam grande fora fsica.No obstante, tentou libertar-se de seus braos e fugir da tenda, mas Jafar dominou-a eatirou-a na tarimba. Voltando-se contra o sedutor, em fria, bateu-lhe repetidas vezes nacara, e isso serviu para que ele a abraasse mais apertadamente e de novo a atirasse natarimba.

  • CAPTULO 3Fora do tmulo O GUIA de Wayne Colt, que estava poucos passos sua frente, parou subitamente e

    voltou-se com um largo sorriso. O acampamento, bwana! exclamou ele triunfalmente, apontando-o. Graas a Deus! Disse o americano, num suspiro de alvio. Est deserto, reparou o guia. Pelos menos assim parece naquele lugar, no? concordou Colt. Vamos dar uma

    vista d'olhos em redor, acrescentou.E, seguido de seus homens, meteu-se por entre as tendas ali levantadas. Os cansados

    carregadores desceram as cargas e, juntamente com os askaris, espicharam-se em toda asua extenso sombra das rvores, enquanto Colt, acompanhado de Tony, se ps ainvestigar o acampamento.

    Quase imediatamente a ateno do jovem americano foi atrada pelo sacudir violentode uma das tendas.

    H algum ou alguma coisa ali dentro, murmurou ele a Tony, enquantorapidamente se encaminhava para a sua entrada.

    O espetculo que lhe foi dado contemplar arrancou-lhe violenta exclamao doslbios um homem e uma mulher rolavam pelo cho, lutando, ele apertando o pescooda vtima, e a mulher batendo-lhe fracamente no rosto com os punhos fechados.

    To absorto estava Jafar em sua malograda tentativa de subjugar a moa, que nodeu pela presena de Colt, at que pesada mo lhe caiu sobre os ombros e ele foiviolentamente atirado de lado.

    Obcecado pela sua fria manaca, o hindu ps-se de p e atirou-se de encontro aoamericano, unicamente para receber poderoso soco, que o fez cambalear para trs. Denovo atacou e novamente foi castigado na cara. Desta feita, caiu redondamente no choe, como vacilasse sobre seus ps,_Colt segurou-o, f-lo girar e atirou-o atravs da portada tenda, precipitando-lhe a partida com um oportuno pontap.

    Se ele tentar voltar, Tony, atire-o, disse Colt ao filipino, e voltou para ajudar amoa a levantar-se. Meio carregando-a, colocou-a na tarimba e depois encontrando guanum balde, banhou-lhe a fronte, o pescoo e os pulsos.

    Fora da tenda, Raghunath Jafar viu os carregadores e askaris deitados sombra deuma rvore. Viu, tambm, a Antnio Mori resolutamente carrancudo e com um revlverna mo e, numa enraivecida praga, voltou-se e dirigiu-se para a sua prpria tenda, comas faces lvidas de raiva e o corao cheio de propsitos homicidas.

    Pouco depois_ Zora Drinov abriu os olhos e ergueu o olhar para o solcito rosto deWayne Colt, inclinado sobre ela.

    De enfolhado retiro de uma rvore, acima do acampamento, Tarzan dos Macacosobservava a cena que se desenrolava embaixo. Uma simples e segredada slaba pusera

  • termo tagarelice de Nkima. Tarzan havia notado o violento tremer da tenda, o qualatrara a ateno de Colt, e vira a precipitada sada do hindu, do seu interior, e aameaadora atitude do filipino, prevenindo a volta de Jafar.

    Tais ocorrncias eram de pouco interesse ao homem-macaco. As brigas e fugasdessa gente no lhe despertavam nem mesmo a curiosidade. O que ele desejava saber eraa razo de se acharem ali, e com o propsito de obter esta informao, formulara doisplanos. Um o de conserv-los sob constante vigilncia, at que seus atos divulgassem oque ele desejava saber. O outro consistia em fixar definitivamente o chefe da expedio eento entrar no acampamento e pedir a informao que queria. Entretanto, isto no lheera dado fazer enquanto no estivesse suficientemente informado, para lograr algumasvantagens. Quanto ao que se estava passando na tenda, achava-se completamente alheio,nem cuidava de saber.

    Durante segundos, depois de ter aberto os olhos, Zora Drinov fixou-osintencionalmente nos do homem, inclinado sobre ela.

    O senhor deve ser o americano, disse a rapariga por fim. Eu sou Wayne Colt, respondeu ele, e pelo que vejo, uma vez que a senhorita

    adivinhou a minha identidade, este o acampamento do camarada Zveri.Zora disse que sim, com a cabea. O senhor chegou justamente a tempo, camarada Colt. Graas a Deus por isso, respondeu ele. No h Deus, lembrou-lhe a rapariga. Colt corou. Ns somos criaturas de hereditariedade e hbitos, explicou o americano.Zora Drinov sorriu. Isto verdade. Mas de nosso dever quebrar muitos hbitos maus, no somente

    para ns mesmos, e sim para o mundo inteiro.Desde que a deitara na tarimba, tranqilamente Colt estivera apreciando a moa.

    Ignorava que houvesse uma mulher branca no acampamento de Zveri, mas sesuspeitasse disso, jamais poderia conceber ali encontrasse uma rapariga como esta. Seriacapaz de imaginar uma agitadora matrona, pronta para acompanhar um bando dehomens ao corao da frica, tal qual uma grosseira e desgrenhada camponesa da IdadeMdia. Mas esta moa, desde a cabea, coberta de ondulantes e esplndidos cabelos, atos bem talhados pezinhos, sugeria a anttese de origem campnia e, longe de serdesgrenhada, era asseada e elegante como era possvel a uma mulher em taiscircunstncias e, alm disso, jovem e bonita.

    O camarada Zveri est ausente do acampamento? indagou ele. Sim, est algures, numa breve expedio. E no h ningum para apresentar-nos um ao outro? acrescentou Colt, num

    sorriso. Oh, perdoe-me. Eu sou Zora Drinov. Jamais me passou pela idia to agradvel surpresa, continuou Colt. Confesso

  • que esperava no encontrar aqui seno homens desinteressantes, como eu mesmo. Quemera aquele rapaz que aqui se achava?

    Raghunath Jafar, um hindu. dos nossos? indagou Colt. Sim, mas no por muito tempo... no depois do regresso de Pedro Zveri. Quer dizer...? Quero dizer que Pedro o matar. Colt sacudiu os ombros. o que ele merece. Talvez a mim me cumprisse fazer isso. No. Deixe-o a Pedro. A senhorita aqui foi deixada sozinha, neste acampamento, sem nenhuma

    proteo? perguntou Colt. No. Pedro deixou meu criadinho e dez askaris, mas Jafar conseguiu afast-los

    do acampamento. Agora, estar em segurana. Cuidarei de proteg-la, at que o camarada Zveri

    volte. Vou tratar de erguer minha tenda, e mandarei dois dos meus askaris para montarguarda defronte sua.

    Muito obrigada, camarada Colt, mas acho isso desnecessrio, uma vez que osenhor est aqui.

    Como quer que seja, eu os mandarei. S assim fico tranqilo. E depois de erguer a sua tenda, vir cear comigo? Mas... oh, esquecia-me que

    Jafar mandou caa o meu criado tambm. De sorte que no tenho quem cozinhe paramim.

    Nesse caso, a senhorita que vir jantar comigo. Meu rapazinho um magnficocozinheiro.

    Terei muito prazer, camarada Colt, respondeu-lhe Zora.Enquanto o americano deixava a sua tenda, Zora Drinov deitou-se de costas na

    tarimba, com os olhos semi-cerrados. Como era diferente do que esperava o homemamericano. Recordando as suas feies e especialmente os seus olhos, achava difcilacreditar que tal homem pudesse ser um traidor ao seu pai ou ao seu pas. Lembrou-se,ento, que muitos homens se voltavam contra a prpria ptria, por um princpio. Com oseu povo, a coisa era diferente. At ento, nunca lhe foi dada uma oportunidade. Semprea sua gente estava no cho, sob os calcanhares de um ou outro tirano. O que elesestavam fazendo acreditavam implicitamente ser em benefcio prprio e no de sua ptria.Entre os que ali se achavam, impulsionados por honesta convico, no se poderiasuspeitar de qualquer traidor, e, embora russa como ela era para todos os do bando, nose continha que no olhasse com desprezo para os cidados de outros pases, que sevoltavam contra os seus governos para auxiliar as ambies de um poder estrangeiro.Podemos estar dispostos a tirar proveito dos atos de mercenrios estrangeiros, masnunca admir-los.

    No instante em que Colt deixava a tenda de Zora, em demanda do lugar onde se

  • achavam os seus homens, a fim de dar-lhes as necessrias instrues para armar o seuacampamento, Raghunath Jafar observava-o do interior de sua prpria tenda. Malignasombra cobria a fisionomia do hindu, e odiosa chama crepitou-lhe nos olhos.

    Tarzan, que via tudo l de cima, notou o jovem americano dando instrues a seushomens. A pessoa deste jovem estrangeiro havia impressionado favoravelmente aTarzan. Apreciava-o tanto quanto poderia apreciar um estrangeiro, pois profundamentearraigada na fibra do homem-macaco estava a selvagem suspeita de todos osestrangeiros, especialmente de todos os estrangeiros brancos. Enquanto o observava,nada poderia escapar-lhe dentro do seu campo visual. Assim foi que viu RaghunathJafar emergir de sua tenda, armado de um rifle. Somente Tarzan e o pequeno Nkimaviram isso, e somente Tarzan vislumbrou sinistra inteno em seu gesto.

    Raghunath encaminhou-se diretamente para a jngal, onde entrou. Balanando-sesilenciosamente atravs das rvores, Tarzan dos Macacos seguia-o. Jafar perfez um meiocrculo do acampamento, at alcanar um esconderijo de verdura da jngal, onde parou.Do lugar onde se achava, todo o campo lhe estava inteiramente visvel, mas a sua pessoaescondida pela folhagem.

    Colt estava estudando o arranjo de suas cargas e a inclinao da prpria tenda. Oshomens que o acompanharam estavam ocupados com as diversas obrigaesdistribudas entre eles, pelo chefe de todos. Sentiam-se cansados e conversavam pouco.A maior parte trabalhava em silncio e desusada tranqilidade invadira a cena. Essatranqilidade foi sbita e inesperadamente quebrada por um grito angustioso e oestampido de um rifle, ouvidos to perto um de outro, que no se poderia dizer qual oque tivera precedncia. Uma bala passou assobiando pela cabea de Colt e picou o lbuloda orelha de um dos seus homens, que se achava atrs dele. Instantaneamente, asatividades pacficas do acampamento se transformaram num pandemnio. Por algunsinstantes, discutiu-se quanto direo de onde saram o tiro e o grito, e ento Colt notoupequena fita de fumaa levantando-se da jngal, precisamente alm das bordas doacampamento.

    Foi dali, disse ele, dirigindo-se quele ponto. O chefe dos askaris f-lo parar. No v, bwana. Talvez seja um inimigo. Espere que primeiro faamos fogo

    contra a jngal. No, respondeu Colt. Precisamos primeiro investigar. Leve alguns dos seus

    homens para a direita, que eu levarei o resto para a esquerda. Inspecionaremos devagarem redor da jngal, at que nos encontremos.

    Sim, bwana, concordou o chefe. E, chamando os seus homens, deu-lhes asnecessrias instrues.

    Nenhum rudo de fuga ou qualquer sugesto de presena vivente aguardou os doisbandos, no instante em que entravam na jngal, nem eles descobriram quaisquer sinaisde algum saqueador quando, momentos depois, entraram em contacto uns com osoutros. Estavam agora formados em semicrculo; assim se entranharam pela jngal e, auma ordem de Colt, avanaram de volta ao acampamento.

    Foi Colt quem encontrou Raghunath Jafar morto beira do acampamento. A suamo direita apertava um rifle. Projetando-se de seu corao, achava-se uma seta de

  • poderoso arco.Os negros reuniram-se em torno do cadver, olhando uns aos outros em forma

    interrogativa, depois olhando para trs e s rvores. Um deles examinou a seta. No igual a qualquer seta que at hoje vi, disse ele. E no foi feita por mo de

    homem.Imediatamente os negros ficaram presos de supersticioso temor. O tiro foi destinado ao bwana, disse um deles. Portanto, o demnio que atirou a

    seta amigo do bwana. No precisamos ter medo.Esta explicao satisfez os negros, mas no contentou a Wayne Colt. Estava perplexo

    ante o que sucedera, quando de volta ao acampamento e ao depois de ter ordenado queenterrassem o hindu.

    Zora Drinov achava-se entrada de sua tenda. Assim que viu o americano, foi aoseu encontro.

    Que aconteceu? Que aconteceu? O camarada Zveri no matar Raghunath, respondeu-lhe Colt. Por qu? Porque Raghunath Jafar j est morto. Quem teria atirado a seta? indagou ela, depois que soube do modo por que o

    hindu fora morto. No tenho a mais remota idia. E um absoluto mistrio, mas significa que o

    acampamento est vigiado e que devemos ter cuidado e no andar sozinhos pela jngal.Os homens acreditam que a seta foi disparada para salvar-me de uma bala assassina.Como bem possvel que Jafar tenha tido a teno de matar-me, acredito que se eutivesse entrado sozinho na jngal, em seu lugar eu que estaria morto. Acaso, desde queaqui ergueram o seu acampamento, no foram aborrecidos pelos nativos, ou j tiveramalguma desagradvel experincia com eles?

    Ainda no vimos um nativo desde que aqui acampamos. Muitas vezescomentamos o fato de que a regio parece inteiramente deserta e desabitada, malgradocheia de caa.

    Isso vem provar que, de fato, est desabitada ou talvez aparentemente desabitada,concordou Colt. No foi, talvez, sem inteno que invadimos as terras de alguma triboferoz, que recebeu os estrangeiros como persona ingrata.

    O senhor disse que um dos nossos homens est ferido, no? indagou Zora. O ferimento leve. Perfurou-lhe um bocadinho a orelha. Esse homem estava perto do senhor? Estava justamente a meu lado direito, respondeu Colt. Creio que no h dvida que Jafar quis mat-lo! Talvez, concordou Colt, mas no o conseguiu. Nem mesmo logrou matar o meu

    apetite. E, se eu puder acalmar a excitao de meu rapaz, precisamos cuidar j de nossa

  • ceia.

  • A uma certa distncia Tarzan e Nkima assistiam ao enterro de Raghunath Jafar.

    Minutos depois, notaram o regresso de Kahiya e seus askaris, bem como de Wamala, ocriadinho de Zora, tambm mandado caa por Jafar.

    Onde esto todos aqueles Tarmangani e Gomangani que voc me disse queestavam no acampamento? perguntou Tarzan a Nkima.

    Eles pegaram nos paus trovejantes e saram, respondeu o pequeno Manu. Foramcaar para Nkima.

    Tarzan dos Macacos sorriu um dos seus raros sorrisos. Precisamos alcan-los e saber o que esto fazendo, Nkima. Mas logo a escurido cair na jngal, suplicou Nkima, e ento Sabor, Sheeta,

    Numa e Histat estaro passeando e procuraro, tambm, o pequeno Nkima.Caram as trevas antes que o rapazinho de Colt anunciasse a ceia. Entretanto, Tarzan,

    mudando seus planos, voltou para as rvores, acima do acampamento. Estavaconvencido de que havia algo de anormal nos fins da expedio, cuja base descobrira.Sabia que, pelo tamanho do acampamento, deveria conter muitos homens. Para ondeeles foram e qual o seu propsito, eram coisas que lhe cumpria averiguar. Imaginandoque esta expedio, qualquer que fosse o seu intento, naturalmente trataria do principalassunto no acampamento, procurou um ponto vantajoso na rvore de onde poderiaouvir as conversas que se travassem entre dois ou trs membros do bando, em baixo. Eassim foi que Zora Drinov e Wayne Colt se sentaram mesa, para cear, de modo queTarzan dos Macacos se acomodou em meio da folhagem de uma grande rvore,precisamente em cima deles.

    A senhorita hoje passou por terrvel prova, disse-lhe Colt, mas no pareciamerec-la. Tenho a impresso de que os seus nervos esto relaxados.

    Tenho passado por inmeras provas em minha vida, camarada Colt, para queainda possua nervos capazes de relaxamento.

    De fato, concordou Colt. Deve ter sofrido durante a revoluo russa. Por esse tempo eu era menina, mas lembro-me perfeitamente de tudo.,Colt olhou-a de cheio, intencionalmente. Pela sua aparncia, quero crer que no tenha nascido na classe proletria. Meu pai era trabalhador. Morreu no exlio sob o regime tzarista. Essa a razo

    por que aprendi a odiar todo monarquista e capitalista. Quando me surgiu estaoportunidade de reunir-me ao camarada Zveri, vi outro campo onde encerrar a minhavingana, ao mesmo tempo que propugnava pelos interesses de minha classe atravs domundo.

    Quando pela ltima vez me encontrei com Zveri, nos Estados Unidos, disseColt, evidentemente ele no havia formulado os planos que agora est pondo emexecuo porquanto nunca mencionou qualquer expedio desta espcie. Ao receberordens para a ele reunir-me, aqui, nenhum detalhe me foi dado. De sorte que estoucompletamente s escuras quanto ao seu propsito.

  • Cumpre aos bons soldados obedecerem, lembrou a rapariga. Sim, bem sei, mas mesmo em se tratando de um pobre soldado, s vezes poder

    agir mais inteligentemente, se conhecer o objetivo em vista. O plano geral no constitui segredo para qualquer de ns, aqui, informou Zora,

    e no o denuncio expondo-lhe. Refere-se a um largo plano de enredar os poderescapitalistas em guerra e revolues, de tal alcance que jamais eles podero unir-se denovo contra ns.

    Os nossos emissrios por longo tempo trabalharam a fim de que culminasse arevoluo da ndia, de modo a distrair a ateno e as foras armadas da Gr-Bretanha.No logramos muito xito no Mxico, como planejamos, mas ainda alimentamosesperanas, ao passo que' os nossos negcios nas Filipinas caminham maravilhosamente.As condies da China, o senhor as conhece bem. Ela est completamente desamparada,e esperamos que, com o nosso auxlio, eventualmente constituir real ameaa ao Japo. AItlia um perigosssimo inimigo, e com o propsito de atir-la em guerra com aFrana que aqui nos achamos.

    Mas como pode isso acontecer aqui, na frica? indagou Colt. O camarada Zveri acredita que isso seja simples. A suspeita e os cimes que

    existem entre a Frana e a Itlia so bastante conhecidos. A sua luta pela supremacianaval quase que chega a ser um escndalo. Ao primeiro entre-choque entre uma e outra,facilmente resultar a guerra, e uma guerra entre a Itlia e a Frana arrastar toda aEuropa.

    Mas como Zveri, operando nas selvas africanas, conseguir provocar umaguerra entre a Itlia e a Frana? Insistiu o americano.

    Encontra-se agora, em Roma, uma delegao de franceses e italianos vermelhos,ocupados nesse assunto. Os pobres homens apenas conhecem uma parte do plano e,desgraadamente para eles, ser necessrio sacrific-los para a consumao do nossoplano mundial. Foram-lhes fornecidos documentos onde est traado o plano dainvaso da Itlia Somaliland por tropas francesas. Na ocasio oportuna, um dos agentessecretos do camarada Zveri, em Roma, revelar o "complot" ao governo fascista, e quasesimultaneamente um considervel nmero dos nossos negros, disfarados comuniformes das tropas francesas, constitudas de nativos, conduzidos pelos homensbrancos de nossa expedio, uniformizados como oficiais franceses, invadiro a ItliaSomaliland. Entretempo, os nossos agentes agiro no Egito e na Abissnia e entre astribos nativas do norte africano, e temos certeza absoluta, distrada a ateno da Frana eda Itlia na guerra entre ambas, e a da Gr-Bretanha embaraada por uma revoluo nandia, os nativos da frica-Norte se levantaro numa quase que sagrada guerra, paraaniquilar o jugo do domnio estrangeiro. E o estabelecimento de estados soviticosautnomos se far em toda a sua extenso.

    Ousada e estupenda empresa, exclamou Colt, mas dessas que requerem enormesrecursos de dinheiro e de homens.

    Esse o acariciado plano de Zveri, rematou Zora. Por certo que no conheodetalhes da organizao e execuo. Mas sei, que as operaes iniciais esto bemfinanciadas, e que o resto depende de uma considervel expanso neste pas, para

  • fornecer a maior quantidade de ouro necessrio para prosseguir nas formidveisoperaes, imprescindveis para assegurar o xito final.

    Nesse caso, receio que a empresa esteja destinada a fracasso, pois seguramenteZveri no achar a necessria riqueza, neste pas selvagem, para levar a cabo o seuestupendo plano.

    O camarada Zveri acredita no contrrio, explicou-lhe Zora. De fato, a expedioem que ele partiu tem por fim obter os tesouros que procura.

    Acima deles, na escurido, a silenciosa figura do homem-macaco, estendida,comodamente num grande galho, no perdia palavra do que diziam, enquanto todoencolhido e dormindo em seu bronzeado ombro, estava o pequeno Nkima.absolutamente alheio ao fato de que poderia ter ouvido o plano esboado, para abalar osalicerces dos governos constitudos em todo o mundo.

    Se no for segredo, como que o camarada Zveri espera conseguir tamanhaquantidade de ouro? indagou Colt.

    Nos famosos tesouros ocultos nas cavernas de Opar, respondeu a moa. Comtoda a certeza, o senhor j ouviu falar nisso.

    Sim, mas sempre imaginei que esses tesouros no passassem de uma lenda. Ofolklore do mundo inteiro est repleto dessas cavernas com tesouros.

    Mas Opar no um mito, replicou Zora.Se a assustadora informao que lhe foi divulgada, emocionou Tarzan, ele no

    externou qualquer espanto. Ouvindo num silncio imperturbvel, treinado ao mais altograu de controle prprio, o homem-macaco podia ter sido parte e poro do enormegalho em que se acomodara, ou da sombria folhagem que o escondia de vista.

    Por alguns momentos, Colt, permaneceu silencioso, imaginando as estupendaspossibilidades do plano cujo desenvolvimento ouvira. Parecia-lhe uma espcie de sonhode um homem louco, e ele no acreditava na menor possibilidade de xito. Concluiu queenorme era o risco que corriam os membros da expedio, pois acreditava no escaparnenhum desde que a Gr-Bretanha, a Frana e a Itlia ficassem a par de sua atividade. E,em inconsciente volico, seus temores pareciam centralizar-se no tocante seguranadaquela moa. Bem que conhecia o tipo de gente com quem estava trabalhando e, assim,sabia ser perigoso levantar uma dvida quanto praticabilidade do plano, pois, quaseque sem exceo, os agitadores com que se encontrara naturalmente se dividiriam emduas distintas categorias a dos visionrios tericos, que acreditavam em tudo em queele precisava acreditar, e a dos astutos escravos, impulsionados por motivos de cobias,que esperavam tirar proveito, quer em glria quer em riquezas, merc de qualquermudana que se estabelecesse na ordem das coisas. Parecia horrvel que uma jovem elinda moa se sentisse atrada por situao to desesperada. Ela aparentava ser bastanteinteligente para no ser tida como um simples tigre, e os poucos instantes em que comela privava, tornavam-lhe difcil acreditar que fosse um escrava.

    A empresa certamente est cheia de inominveis perigos, disse Colt por fim, ecomo se tratava em princpio de trabalho para homens, no posso compreender porquepermitiram senhorita enfrentar perigos e penosos trabalhos, que necessariamente sero

  • arrostados em to arriscada campanha. A vida de uma mulher no vale mais do que a de um homem. Alm disso,

    precisavam de mim. Sempre h uma grande quantidade de importantes e confidenciaistrabalhos de secretaria a fazer, os quais o camarada Zveri somente pode confiar emquem deposita implcita confiana. Disso ele me encarrega e, ademais, sou treinadadatilgrafa e estengrafa. Essas razes por si ss bastam para explicar porque me achoaqui. Mas existe uma outra e mais importante: que desse estar sempre ao lado docamarada Zveri.

    Nas palavras da rapariga, Colt imaginou um romance. Entretanto, para a sua menteamericana, esta era a maior razo para que a moa no estivesse naquele meio, porquantono podia conceber que um homem expusesse, a mulher a quem amava, a tais riscos.

    Em cima deles, Tarzan dos Macacos movia-se silenciosamente. Primeiro, sentou-see levantou o pequeno Nkima de seus ombros. Nkima queria objetar contra a mudana,mas imperceptvel murmrio calou-o. O homem-macaco tinha vrios mtodos paratratar com o inimigo, mtodos que aprendera e pusera em prtica muito antes de saberque de fato no era um macaco. Muito antes de encontrar-se com outro homem branco,ele aterrorizara os Gomangani, os homens negros da floresta e da jngal, e aprenderaque o maior passo dado para derrotar um inimigo consistia em abater-lhe o moral.Agora sabia que aqueles homens, no s eram invasores dos seus domnios e, portanto,seus inimigos pessoais, como tambm ameaavam a paz da Gr-Bretanha, que lhe eracara, e a do resto do mundo civilizado, com o qual pelo menos Tarzan no tinhapendncias. Verdade era que ele encarava, geralmente, a civilizao com grande desprezo,mas inda maior era o que votava queles que interferiam nos direitos de outrem ou naordem estabelecida da jngal ou dos pases.

    Enquanto Tarzan deixava a rvore em que se achava escondido, os dois, em baixo,se achavam to alheios sua partida, como estiveram quanto sua presena. Colt estavaimerso em perscrutar, o mistrio do amor. Conhecia Zveri, e parecia-lhe inconcebvelque uma moa do tipo de Zora Drinov sentisse alguma atrao por um homem do tipode Zveri. Por certo que nada tinha que ver com isso, mas sentia-se incomodado porquea moa descia em sua estima. Estava desapontado com o seu recente conhecimento e nogostava de ficar desapontado com gente a quem se sentia atrado.

    O senhor conheceu o camarada Zveri na Amrica, no? perguntou-lhe Zora. Sim. Que pensa dele? Acho-o um verdadeiro carter forte, respondeu-lhe Colt. Acredito que seja um

    homem capaz de levar a termo qualquer coisa que tente. Ningum melhor do que elepara esta misso.

    Se a moa esperava surpreender Colt com expresses de respeito pessoal oudesagrado por Zveri, falhara-lhe o propsito, mas se esse fosse o caso, ela se portaracom demasiada prudncia para no prosseguir no assunto. Zora deduziu que estavatratando com um homem de quem conseguiria poucas informaes que ele no desejassecomunicar-lhe, mas, de outro lado. com um homem que facilmente poderia arrancarinformaes de outrem, pois era desses tipos que parecem convidar a confidencias,

  • sugerindo na atitude, palavras e maneiras um carter de ao, incapaz, absolutamenteincapaz de abusos de confiana. Ela talvez gostasse deste reto moo americano, e tantomais o olhava, quanto menos achava difcil acreditar que ele se tornara traidor a suafamlia, a seus amigos e ao seu pas. Contudo, sabia que muitos homens honradoshaviam sacrificado tudo por uma convico e, talvez, este fosse um deles. Zora esperavaque essa fosse a explicao.

    A palestra de ambos recaiu em vrios assuntos sobre a vida de ambos eexperincias em seus torres natais, at que eles penetraram na frica e, finalmente, nasexperincias do dia. Enquanto palestravam, Tarzan dos Macacos voltou rvore emcima deles, mas desta vez no vinha sozinho.

    Admira-me se algum dia soubermos quem matou Jafar, disse Zora. um mistrio que no degrada, porquanto nenhum dos askaris pde reconhecer

    o tipo de flecha que o matou, embora isso se justifique pelo fato de que eles no sodestes lados.

    Essa morte enervou bastante os homens, e sinceramente espero que fato idnticono mais acontea. Tenho observado que no preciso muita coisa para transtornar estesnativos, e ao passo que muitos deles so bravos diante de perigos conhecidos estoprontos a ficar inteiramente desmoralizados ante o que quer seja que raie pelosobrenatural.

    Creio que se sentiro melhor quando tiverem enterrado o hindu, observou Colt,embora alguns deles no estejam absolutamente certos de que Jafar no possa voltar aomundo, de qualquer maneira.

    A possibilidade disso no l muito grande, contraveio a rapariga rindo-se.Mal acabava de pronunciar tais palavras, quando os ramos em cima se moveram

    estrepitosamente e pesado corpo caiu no meio da mesa, entre eles, fazendo em pedaos ofrgil mvel.

    Os dois saltaram. Colt sacou do revlver e a moa soltou um grito, enquanto seafastava. O americano sentiu que os seus cabelos ficavam em p e um fantasma oapertava, pois entre ele e Zora estava o cadver de Raghunath Jafar, de costas, com osolhos mortos e abertos, olhando dentro da noite.

  • CAPTULO 4Na caverna do leo NKIMA estava com fome. Acabava de acordar de profundo sono, cheio de

    pesadelos, e agora que seu senhor to estupidamente se pusera a caminhar atravs daescurido da noite, o pequeno Nkima resmungava e choramingava de medo, pois emcada sombra ele via Sheeta, a pantera, e enrolada em cada tronco das rvores a figura deHistah, a serpente. Enquanto Tarzan permanecera nas vizinhanas do acampamento, omacaquinho no se sentira particularmente perturbado, e quando ele voltou rvore,com sua carga, o pequeno Manu estava certo de que ali permaneceriam o resto da noite.Ao invs, o amo partira imediatamente e agora se balanava de ramo em ramo, atravs danegra floresta, resolvido prtica de qualquer ato de mau pressgio para os demais, ousegurana para o pobrezinho Nkima, durante o resto da noite.

    De passo que Zveri e seu bando vagarosamente caminhavam ao longo das sinuosastrilhas da jngal, Tarzan seguia quase que pelo mesmo caminho, mas areo, rumo ao seudestino, que era o mesmo de Zveri. Disso resultou que antes que Zveri alcanasse oquase perpendicular despenhadeiro que d origem ltima e maior barreira natural aoproibido vale de Opar, Tarzan e Nkima haviam desaparecido alm do topo dodespenhadeiro e atravessavam o desolado vaie, sobre o longnquo lado do qualapareciam os grandes muros e elevadas espirais e torres da antiga Opar. brilhante luzdo sol africano, domos e minaretes refulgiam em vermelho e ouro acima da cidade.Mais uma vez o homem-macaco experimentou o mesmo sentimento que oimpressionara, h anos passados, quando seus olhos pela primeira vez contemplaram oesplndido panorama de mistrio que se lhes ostentava.

    quela grande distncia, no se notava a menor aparncia de runa. Mais uma vez,em imaginao, Tarzan contemplava uma cidade de magnificente beleza, com suas ruas etemplos cheios de gente. E mais uma vez sua mente se entretinha com o mistrio daorigem da cidade, quando h muitos anos atrs, na obscura perspectiva da antigidade,uma raa de gente rica e poderosa havia concebido e construdo este duradouromonumento a uma civilizao desaparecida. Era possvel conceber-se que Opar podia terexistido quando gloriosa civilizao florescera sobre o grande continente de Atlantis, oqual, afundando-se sob as guas do oceano, deixou esta perdida colnia morte edecadncia.

    Que seus poucos habitantes fossem descendentes diretos dos primitivos e poderososconstrutores, no parecia despropositado, vista dos ritos e cerimnias da antigareligio que eles praticavam. Alis outra hiptese plausvel no havia para justificar aexistncia desse povo, de pele branca, nesta remota e inacessvel profundeza da frica.

    As leis peculiares da hereditariedade, pelo jeito eficazes em Opar como em nenhumaoutra parte do mundo sugeriam uma origem diferindo materialmente da de outroshomens, porquanto se notava esta peculiaridade: os homens de Opar pareciam muitopouco ou nada com as mulheres de sua raa. Eles eram pequenos, entranados, peludos.na sua aparncia e conformao parecidos com macacos, de passo que as mulheres eramfinas de corpo, de pele delicada e quase sempre bonitas. Certos atributos fsicos ementais desses homens sugeriam a Tarzan a possibilidade de que, em eras passadas, os

  • primitivos habitantes se haviam misturado com os macacos da regio, fosse por escolhaou necessidade, e que, devido escassez de vtimas para o sacrifcio humano, exigidaspela sua religio, era prtica comum entre eles para este fim utilizar-se de homens oumulheres, os quais consideravelmente se desviavam do tipo normal estabelecido paraambos os sexos, com o resultado de que atravs das leis de natural seleo,preponderante maioria dos homens nasciam grotescos e as mulheres normais e bonitas.

    Tais divagaes que enchiam a mente do homem-macaco, enquanto cruzava odesolado vale de Opar, resplandecente brilhante luz do sol, e apenas oculto pelasombra da ocasional rvore frondosa e majestosa. sua frente e direita se achava apequenina colina rochosa, em cujo cume estava situada a entrada exterior para ascavernas de Opar. Interessava-o, agora, essa colina, pois o seu intento era avisar La davinda dos invasores, a fim de que pudesse preparar sua defesa.

    Fazia muito tempo que Tarzan visitara Opar. Mas desde a ltima ocasio, quandorestitura La ao seu leal povo e lhe restabelecera a supremacia, merc da derrota infligidas foras de Cadj, o gro-sacerdote, e a morte do ltimo, sob as mandbulas e garras deJad-bal-ja, pela primeira vez dali partira com a convico da amizade de todo o povo deOpar. J h muitos anos que sabia que La secretamente era uma amiga, mas os seusselvagens e grosseiros sequazes muito antes j o temiam e o odiavam. Essa a razo porque agora se aproximava de Opar, como algum que se aproximava da cidadela de umamigo, sem reservas e absolutamente convicto de que seria recebido com amizade.

    Contudo, Nkima no estava bem certo disso. As sombrias runas aterrorizavam-no.Ele resmungou e suplicou, mas em vo. Por fim, o terror suplantou-lhe a amizade e alealdade ao amo, medida que se aproximavam dos muros externos, os quais apareciammuito acima deles, e o macaquinho saltou do ombro de Tarzan e fugiu das runas queora enfrentavam, pois grande em seu coraozinho era o medo que tinha aos lugaresestranhos e no familiares, e tanto que no pde confess-lo a Tarzan.

    Os espertos olhos de Nkima haviam notado a colina rochosa, por onde h poucotempo passaram, e para o cume dessa colina ele fugiu, como uma espcie de proteoceleste, onde esperaria a volta do amo, de Opar.

    Enquanto Tarzan se aproximava da estreita abertura, a nica estrada atravs dosmuros macios de Opar, ele estava certo, como anos atrs, na ocasio em que pelaprimeira vez entrara na cidade, que invisveis olhos o seguiam. e que a todo o momentoesperava ouvir expresses de regozijo, quando fosse reconhecido.

    Sem hesitao e nem um pouco apreensivo, Tarzan penetrou na estreita abertura edesceu uma srie de degraus de pedra, que levavam para sinuosa passagem atravs doespesso muro exterior. O estreito ptio, alm do qual aparecia o muro interior, estavasilencioso e deserto. O silncio no foi quebrado quando ele cruzava uma outra estreitapassagem, que dava para o seu interior. No fim dessa passagem, chegou a uma largaavenida, em cujo lado oposto se erguiam as fragmentadas runas do grande templo deUpar.

    Silenciosa e solitariamente, o homem-macaco entrou no vetusto portal, franqueadopor uma poro de majestosos pilares, de cujos capitis grotescos pssaros o fitavamcomo sempre fitaram atravs de incontveis idades, desde que esquecidas mos os

  • esculpiram na slida rocha dos monlitos. Atravs do templo e em direo do ptiointerno, onde sabia se exercitarem as atividades da cidade, Tarzan caminhou em silncio.Talvez um outro homem fizesse alarde de sua chegada, externando uma saudao paraavis-lo da prpria presena. Entretanto, Tarzan dos Macacos em muitos respeitos eramenos homem do que animal. Continuou em silncio, como fazem muitos animais, semdesperdiar respirao. No imaginava aproximar-se de Opar furtivamente, e tinha acerteza de que fora notada a sua presena. Mas no sabia porque no o saudavam, a noser que, depois de terem comunicado a La a sua chegada, estivessem esperandoinstrues.

    Pelo corredor principal Tarzan se encaminhou, de novo notando as placas de ourocom seus antigos e longos hierglifos indecifrveis. Passou pela cmara dos sete pilaresdourados e atravessou o soalho de ouro do aposento pegado, ainda em silncio esolitude, embora com vagas sugestes de figuras movendo-se nas galerias que davampara o apartamento, atravs do qual ele passava. Por fim, chegou pesada porta, alm daqual tinha certeza de encontrar sacerdotes ou sacerdotisas deste grande templo doFlamejante Deus. Intrepidamente empurrou-a e abriu-a, e encaminhou-se para a suasoleira. Nesse instante, pesada clava descia violentamente sobre sua cabea e prostrava-osem sentidos.

    Incontinente rodeou-o uma dzia de homenzinhos atarracados e nodosos, cuja barbaforte lhes caa sobre o peito cabeludo, enquanto se movimentavam sobre as curtaspernas de bodoque. Trocavam palavras em voz baixa, com rosnaduras guturais, medida que amarravam os pulsos e tornozelos de sua vtima com seguras cordas.Depois, levantaram-no e conduziram-no atravs de outros corredores e fracionadasglrias de magnficos apartamentos, para um grande aposento coberto de telhas, no fimdo qual uma jovem mulher sentava em macio trono, que descansava sobre um estradoalguns ps acima do soalho.

    De p atrs do trono achava-se um outro homenzinho nodoso e feroz. Nos braos enas pernas ele trazia pulseiras de ouro e inmeros colares ao redor do pescoo. No soa-lho, abaixo do trono, estavam reunidos alguns homens e mulheres os sacerdotes esacerdotisas do Flamejante Deus de Opar.

    Os que aprisionaram Tarzan conduziram-no at o p do trono e atiraram-lhe ocorpo sobre o cho de terra. Quase que simultaneamente o homem-macaco voltou a si c,abrindo, os olhos, olhou em seu redor.

    esse? Perguntou a moa, no trono.Um dos captores de Tarzan notou-o voltando a si e, com o auxlio de outros,

    rudemente o ps de p. esse, Oah, exclamou o homem a seu lado. Expresso de venenoso dio

    convulsionou o semblante da mulher. Deus foi bondoso para sua gr-sacerdotisa, disse ela. Orei bastante para que

    chegasse este dia, como orei pela chegada do outro, e como o outro chegou, assimtambm veio este.

    Tarzan rapidamente olhou para a mulher e para o homem a seu lado.

  • Que vem a ser tudo isso. Dooth? Indagou ele. Onde est La? Onde est sua gr-sacerdotisa?

    A moa ergueu-se furiosa, do trono. Saiba, homem do mundo exterior, que sou a gr-sacerdotisa. Eu, Oah, sou a

    gr-sacerdotisa do Flamejante Deus.Tarzan no a conhecia. Onde est La? Perguntou ele de novo a Dooth. Oah ficou presa de grande raiva. La morreu! Rugiu a moa, adiantando-se at alcanar a beira do estrado, como se

    quisesse saltar sobre Tarzan, com o cabo de sua faca de sacrifcios recoberto de pedraspreciosas e rebrilhante luz do sol, que penetrava atravs de grande abertura desprovidado antigo teto do trono, h muito desabado. Ela est morta! Repetiu a mulher. Mortacomo o senhor estar brevemente, quando venerarmos o Flamejante Deus com o sanguefresco de um homem: La era fraca. Ela o amava, e assim trara seu deus, que o escolherapara ser sacrificado. Mas Oah forte. forte como o dio que alimenta em seu peitodesde que Tarzan e La roubaram o trono de Opar que lhe pertencia. Levem-no! sibilouela aos captores do homem-macaco, e no me deixem v-lo de novo at que eu ocontemple amarrado no altar do ptio de sacrifcio.

    Foram cortadas as ataduras que prendiam os tornozelos de Tarzan, de sorte que elepodia andar. Entretanto, embora os pulsos ainda estivessem amarrados em suas costas,era evidente que os tais lhe tinham grande receio, pois lhe colocaram uma corda nopescoo e lhe amarraram as mos, conduzindo-o como um homem conduz um leo.Para baixo e em meio da familiar escurido dos subterrneos de Opar eles o levavam,alumiando o caminho com tochas. Quando, finalmente, alcanaram o crcere ondeTarzan ficaria preso, custou-lhes algum tempo adquirirem a suficiente coragem paracortar as amarras que lhe envolviam os pulsos. Mesmo assim, s as cortaram depois quede novo lhe ligaram os tornozelos, a fim de que pudessem escapar do aposento e trancara porta antes que o homem-macaco lograsse desvencilhar os ps e persegui-los. quegrandemente as proezas de Tarzan impressionaram aqueles pernas de bodoque de Opar.

    Tarzan j havia estado no crcere de Opar e dali conseguira fugir. De modo queimediatamente se ps a trabalhar, procurando um meio de escapar de sua atual priso,pois sabia que Oah no adiaria o momento por que tanto ansiava, o momento em quemergulharia a refulgente faca de sacrifcio em seu peito. Depressa removendo asligaduras dos tornozelos, Tarzan mediu cuidadosamente a cela ao lado das paredes, atque fez completo circuito em seu redor. Depois, igualmente examinou o soalho.Descobriu que era um aposento retangular, com mais ou menos dez ps decomprimento e oito de largura, e que, pondo-se na ponta dos ps, alcanaria o teto. Anica passagem era a porta por onde entrara, na qual uma abertura protegida por barrasde ferro, servia apenas para ventilar o crcere. Como se abrisse para um corredorescuro, nenhuma luz ali penetrava. Tarzan examinou os ferrolhos e gonzos, mas eleseram, como bem conjecturara, demasiado fortes para serem forados. Nesse instante que notou que um sacerdote estava sentado de guarda, no corredor, pondo assimdefinitivo fim a qualquer pensamento de subreptcia fuga.

    Aconteceu que na ocasio em que Tarzan foi preso, sua faca de mato estava oculta

  • pela cauda da pele de leopardo, que constitua a nica roupa que lhe envolvia os quadris.E, no seu excitamento, os ignorantes e semi-humanos sacerdotes de Opar no repararamnaquilo, quando lhe tomaram outras armas. Sem dvida Tarzan se sentia agradecido porsua boa fortuna, uma vez que, por razes sentimentais, ele tinha em grande estima a facade mato de seu pai h muito morto, a faca que lhe garantira a ascendncia sobre as ferasda jngal, isso h muito tempo, quando mais por acidente, do que propsito,mergulhara a sua lmina no corao de Bolgani, o gorila. Mas por inda mais prticarazo ela era, na verdade, uma ddiva dos deuses, porquanto no lhe oferecia somenteuma arma de defesa, e sim um instrumento com o qual poderia conseguir a fuga.

    Anos atrs Tarzan dos Macacos conseguira escapar das cavernas de Opar, de sorteque conhecia bem suas macias paredes. Blocos de granito de vrios tamanhos, talhadoscom grande perfeio, foram superpostos sem almofariz, de modo que a parede poronde ele passara tinha quinze ps de espessura. A fortuna favorecera-o naquela ocasio,pois encarceraram-no numa cela a qual, desconhecida para os habitantes de Opar, tinhauma entrada secreta, cuja abertura estava simplesmente tapada por uma simples camadade pedras soltas, que o homem-macaco pde remover sem grandes esforos.

    Naturalmente procurou condies idnticas na priso em que agora