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VALORIZANDO AS VARIANTES REGIONAIS: DITOS … · VALORIZANDO AS VARIANTES REGIONAIS: DITOS POPULARES RESERVA – PR 2008 Secretaria de Estado da Educação – SEED ... Todos os povos

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  • ROSNGELA MIRANDA DA SILVA

    VALORIZANDO AS VARIANTES REGIONAIS: DITOS POPULARES

    RESERVA PR 2008

    Secretaria de Estado da Educao SEED Superintendncia da Educao - SUED

    Diretoria de Polticas e Programas Educacionais DPPE Programa de Desenvolvimento Educacional PDE

  • VALORIZANDO AS VARIANTES REGIONAIS: DITOS POPULARES1

    Rosngela Miranda da Silva2

    Mirian Martins Sozim3

    RESUMO

    A lngua um processo social, por isso est sujeita a transformaes, pois cada comunidade apreende o universo a seu modo. O ideal na linguagem seria que cada palavra tivesse apenas um sentido, mas como isso no acontece, as palavras se transformam, adquirem novos significados. O objetivo principal deste artigo descrever toda a trajetria de estudo e pesquisa realizada durante o PDE Programa de Desenvolvimento Educacional, nos anos de 2007 e 2008, num trabalho que procurou promover o dilogo entre os diferentes falares, resultando numa pesquisa de expresses tpicas usadas no municpio de Reserva e elaborao de um glossrio contendo os termos pesquisados.Todas as atividades desenvolvidas fortalecem nos alunos e em sua comunidade os seus valores, sua histria, sua diversidade cultural, conduzindo ao respeito e valorizao s diferentes formas de comunicao, contra toda forma de excluso social pela linguagem.

    PALAVRAS-CHAVE: Diversidade lingstica. Variante regional. Grias.

    ABSTRACT

    Language is a social process and therefore it is subject to changes because every community assimilates the universe in is own way. The ideal in language would be that each word had just one meaning, but since it does not happen, the words change themselves acquire new meanings. The main objective of this article is to describe all the studies and researches made during the PDE (Educational Development Program), in the period between 2007 and 2008 in a work that promotes the dialogue among the different sayings, resulting in a research of typical expressions used in the town of Reserva an in the elaboration of a glossary with all the researched terms. All developed activities enhance on students and on their community their values, their story and their cultural diversity leading to respect and valorization of different kinds of communication, against all forms of social exclusion through language.

    1 Artigo Final - Programa de Desenvolvimento Educacional - Secretaria de Estado da Educao do Paran. 2 Professora ps-graduada em Lngua Portuguesa e Literatura Brasileira pela UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa), atualmente participando do Programa de Desenvolvimento Educacional PDE 2007/2008. 3 Professora Orientadora Doutora em Sociolingstica pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), docente na UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa).

  • Key words: Linguistic diversity. Regional differences. Slangs.

    Introduo

    Ai, palavras, ai, palavras,

    que estranha potncia, a vossa!

    Ai, palavras, ai, palavras,

    sois de vento, ides no vento,

    no vento que no retorna,

    e, em to rpida existncia,

    tudo se forma e transforma!

    Ceclia Meireles4

    O presente artigo justifica-se em cumprimento s exigncias do Programa de

    Desenvolvimento Educacional PDE, em sua etapa conclusiva e pretende

    apresentar, de forma sinttica, todas as atividades desenvolvidas ao longo do curso.

    Nessa perspectiva de ao do Programa, abriu-se um espao importante para

    estudo e valorizao da cultura regional, preservando nossa diversidade lingstica

    como forma de identidade cultural.

    Graas ao tamanho do nosso pas e variedade de etnias existentes, a

    lngua nunca usada de modo homogneo por seus falantes. Todos os povos que

    aqui se estabeleceram, trouxeram sua cultura, seus costumes, sua lngua,

    contribuindo para a grande diversidade lingstica.

    A lngua a expresso viva da cultura humana, e sendo um processo social,

    est sujeita a transformaes. Cada variedade resultado das peculiaridades das

    experincias histricas do grupo, como ele se constituiu, como seu trabalho, como

    ele est socialmente organizado. Na sociedade brasileira, por exemplo, um grupo de

    jovens de So Paulo tem uma histria e uma experincia muito diferentes daquelas

    vividas por um grupo de jovens de uma cidadezinha do interior do Paran. Assim

    tambm, um grupo de agricultores tem histrias e experincias muito diversas de um

    4 http://www.vidaslusofonas.pt/cecilia_meireles.htm.

  • grupo de empresrios de uma grande cidade. Essa diferenciao vai resultar em

    falares diferentes. Segundo Soares (1986):

    Cada dialeto e cada registro adequado s necessidades e caractersticas do grupo a que pertence o falante, ou situao em que a fala ocorre: todos eles so, pois, igualmente vlidos como instrumento de comunicao; tambm no h nenhuma evidncia lingstica que permita afirmar que um dialeto mais expressivo, mais correto, mais lgico que qualquer outro: todos eles so sistemas lingsticos igualmente complexos, lgicos, estruturados. (SOARES,1986, p.40)

    Isso quer dizer que qualquer sociedade vai ter suas variaes lingsticas de

    grupo social para grupo social, de poca para poca, de regio para regio, de

    situao para situao. Alm dessas, existem outras formas de variao, como, por

    exemplo, o modo de falar de grupos profissionais, a linguagem usada na internet,

    celulares e a gria, que uma forma de linguagem baseada em um vocabulrio

    especialmente criado por determinados grupos sociais com o objetivo de servir de

    emblema para os seus membros, distinguindo-os dos demais falantes.

    Tradicionalmente, a escola tem agido como se todos falassem da mesma

    forma e como se a escrita fosse a lngua. A oralidade no muito valorizada, o que

    inibe o aluno, s vezes, de falar fazendo uso da variedade de linguagem empregada

    em suas relaes sociais. Conforme as Diretrizes Curriculares de Lngua Portuguesa

    para a Educao Bsica do Estado do Paran (2006), devemos lembrar que a

    criana, quando chega escola, j domina a oralidade, pois cresce ouvindo e

    falando a lngua. [...] O espao escolar, ento, deve propiciar e promover atividades

    que possibilitem ao aluno tornar-se um falante cada vez mais ativo e competente,

    capaz de compreender os diferentes discursos e de organizar os seus de forma

    clara, coesa e coerente. (SEED/PR, 2006, p.24)

    Ento, o que fazer para que a escola garanta a socializao do conhecimento,

    acolhendo e respeitando os alunos independentemente de sua origem quanto

    variao lingstica? Como desenvolver um trabalho que permita ao professor

    reconhecer a lngua em diferentes situaes de uso, adequando-a conforme o

    contexto e interlocutor? De que forma possibilitar aos alunos, de classes sociais

    menos favorecidas, o acesso cultura letrada para que tenham a chance de lutar

    pela cidadania?

    O objetivo central desse trabalho foi refletir sobre todas essas questes, numa

    ao comprometida com a transformao social. O estudo teve como base terica

  • autores como Dino Preti, que apresenta uma viso moderna de certos assuntos

    ligados ao binmio lngua/sociedade, pouco tratados na bibliografia especializada

    em lngua portuguesa. Outro autor estudado foi Fernando Tarallo, pesquisador de

    sociolingstica e que discute tpicos gerais da teoria da variao e da mudana

    lingstica, apresentando passos metodolgicos a serem trilhados pelo pesquisador.

    J Magda Soares aponta a importncia da compreenso das relaes entre

    linguagem, escola e sociedade para a fundamentao de uma prtica de ensino da

    lngua materna realmente comprometida com a transformao social. Um outro

    nome importante Marcos Bagno, professor de Lingstica, que faz em seu livro

    um estudo das relaes entre lngua e poder na sociedade brasileira, estabelecendo

    que o preconceito lingstico , na verdade, um profundo preconceito social. A

    educadora Stella Maris Bortoni-Ricardo, um dos nomes mais importantes da

    Lingstica no Brasil, traz em sua obra fundamentos tericos e aplicaes prticas

    para a sala de aula, criando oportunidades de reflexo sobre o portugus brasileiro e

    sobre o trabalho do professor com a lngua materna.

    O estudo todo tambm teve como base as Diretrizes Curriculares para a

    Educao Bsica do Estado do Paran, um documento que visa orientar o

    trabalho dos professores e garantir a apropriao do conhecimento pelos estudantes

    da rede pblica, atravs de fundamentos terico-metodolgicos, contedos

    estruturantes de cada disciplina, encaminhamentos metodolgicos e avaliao.

    funo da escola trabalhar com as situaes de variaes lingsticas,

    refletindo sobre as prticas pedaggicas ao que se refere ao multiculturalismo, numa

    tentativa de diminuir a excluso social, principalmente no mbito escolar, que , por

    regra, um ambiente bastante rico em diferenas.

    I PDE, uma proposta inovadora

    O Programa de Desenvolvimento Educacional PDE resultado da parceria

    entre a Secretaria de Estado do Paran com a Secretaria de Estado da Cincia,

    Tecnologia e Ensino Superior e as universidades pblicas do Paran. O programa

    ofereceu 1200 vagas em 2007, proporcionando progresses na carreira do professor

    e melhoria na qualidade da educao das escolas pblicas do Estado.

  • Sob a orientao do Professor Orientador das Instituies de Ensino

    Superior, foi elaborado um Plano de Trabalho do Professor PDE, no qual foram

    registradas todas as atividades realizadas ao longo dos dois anos do Programa, tais

    como: estudos orientados, orientao ao Grupo de Trabalho em Rede no Ambiente

    Virtual de Aprendizagem da Secretaria de Estado da Educao, elaborao de um

    material didtico, implementao da proposta de estudo na escola, encontros de

    orientao, encontros de reas especficas do PDE, Seminrios Temticos, entre

    outras aes.

    Para acompanhamento e orientao a todos os participantes do Programa,

    foram informadas no SACIR (Sistema de Acompanhamento e Integrao da Rede)

    todas as atividades desenvolvidas, tanto no mbito das IES quanto da SEED.

    Num modelo que proporciona a articulao entre o professor da educao

    bsica e o professor universitrio, o Programa uma grande arma para mudanas

    nos agentes da educao, pois proporciona aos professores da rede pblica

    estadual subsdios terico-prticos para suas aes, o aperfeioamento disciplinar e

    pedaggico, produzido na relao entre seus estudos e a prtica escolar.

    Como bem disse o governador Roberto Requio: Uma sociedade que no l,

    que no discute, que no debate, que no questiona, que no pesquisa, produz

    escolas que no se inquietam, que no protestam, que no reagem. Queremos

    escolas vivas, criativas, agitadas. Queremos professores que mobilizem as salas de

    aula, que abram horizontes, que descortinem a vida e as maravilhas do

    conhecimento. 5

    II OAC, aprendendo e ensinando

    No segundo perodo do Programa, o ncleo central das atividades do

    professor PDE foi a elaborao de um material didtico, com o devido

    acompanhamento do Orientador e a participao colaborativa dos alunos dos

    Grupos de Trabalho em Rede.

    5 Discurso do Governador Roberto Requio durante a Aula Inaugural do Programa de Desenvolvimento Educacional, publicado no Jornal Educao dia-a-dia melhor, n 48, ano V, abril, 2007, p.7.

  • O OAC, intitulado Variaes Lingsticas, se apresenta com o poema

    Romance LII ou das Palavras Areas, da poetisa Ceclia Meireles, cujo texto leva a

    uma reflexo sobre as transformaes inevitveis das palavras, que adquirem novos

    significados, dependendo das experincias histricas dos grupos.

    No item Investigao Disciplinar, espera-se que o ensino de lngua materna

    permita ao aluno o conhecimento e apropriao da variedade padro, mas que

    tambm promova o dilogo entre os diferentes falares. Segundo Bagno (2006), uma

    das tarefas do ensino de lngua na escola seria, ento, discutir os valores sociais

    atribudos a cada variante lingstica, enfatizando a carga de discriminao que pesa

    sobre determinados usos da lngua, de modo a conscientizar o aluno de que sua

    produo lingstica, oral ou escrita, estar sempre sujeita a uma avaliao social,

    positiva ou negativa (BAGNO, 2006, p.150).

    Ao realizar um estudo sociolingstico importante termos em mente os

    fatores histricos, polticos e econmicos que conferem o prestgio a certas

    variedades lingsticas. Mediante isto, prope-se no OAC um trabalho interdisciplinar

    envolvendo Geografia, Histria e tambm Literatura, pois ao se falar de variantes

    regionais, o professor deve ter a preocupao em mostrar a regio em questo, visto

    que toda variedade regional um instrumento que confere identidade a um grupo

    social. Para relacionar o ensino de lngua materna s disciplinas de Histria e

    Literatura importante a anlise, leitura de vrios gneros textuais de autores de

    diferentes pocas para que se compare o uso da linguagem com outros tempos,

    percebendo suas transformaes num determinado perodo histrico.

    Para sugerir os Stios, houve uma preocupao em atender ao professor

    interessado sobre as discusses relacionadas ao ensino da lngua materna. O

    primeiro, intitulado Marcos Bagno6, um portal importante para quem quer

    conhecer o trabalho do escritor lingista, professor da Universidade de Braslia e

    autor de mais de trinta livros. No stio so encontrados textos e artigos escritos por

    ele, comentrios de seus livros, sugestes de leitura e vrios links relacionados

    diversidade lingstica, preconceito lingstico e pluralidade cultural. Outro stio

    importante o Museu da Lngua Portuguesa7, que alm de nos dar a oportunidade

    de fazer uma visita virtual ao Museu, ainda traz informaes sobre Lngua e

    Literatura, Lngua Falada, Lngua Escrita, Bibliografias, disponibilizando amostras

    6Fonte: http://www.marcosbagno.com.br 7 Fonte: http://www.museudalinguaportuguesa.org.br

  • dos nove sculos de Lngua Portuguesa e vrios links relacionados ao assunto. O

    stio Linguagem Cultura e Transformao8 traz vrias reportagens de diversos

    autores sobre linguagem, lnguas crioulas, poemas, entre outros assuntos

    relacionados. Como ltima sugesto, aparece o stio Al Escola. Recursos

    Educativos para estudantes e professores9, um programa que aborda vrias

    questes relacionadas ao preconceito lingstico, mostrando as dificuldades do uso

    da lngua no cotidiano, com exemplos de uso das variantes lingsticas empregadas

    em situaes informais.

    J no item Sons e Vdeos foi sugerida a msica Ningum = Ningum,

    interpretada pelos Engenheiros do Hawaii, cuja letra retrata a riqueza da diversidade

    cultural de um pas constitudo por vrios grupos tnicos, com histrias, culturas,

    lnguas prprias e indivduos que vo adquirindo sua identidade e sua maneira

    particular de ver e sentir o mundo. Na categoria Vdeos, a primeira sugesto foi o

    filme Tapete Vermelho, dirigido por Luiz Alberto Pereira. O filme resgata, de uma

    forma muito bem humorada e sensvel, a cultura popular, valorizando o cinema, a

    msica e a dana regional, o folclore, a linguagem do caipira. Numa aventura pelas

    cidades do interior paulista nos deparamos com muitas peculiaridades regionais,

    como benzimentos, tradies e ditos populares, crendices, moda de viola, simpatias,

    danas folclricas, enfim, com uma enorme diversidade cultural e lingstica. A

    segunda sugesto, o filme Narradores de Jav, dirigido por Eliane Caff, um

    material muito rico para se trabalhar com a diversidade lingstica, j que no cenrio

    de contadores de causos, no faltam interessantssimas expresses populares. A

    verdade popular, que est na boca do povo, o elemento-chave do filme.

    A Imagem10, extrada do Banco de Imagens do Portal Dia-a-dia Educao,

    mostra uma foto de dois pees a cavalo trafegando numa rua asfaltada ao lado de

    veculos modernos, evidenciando os fortes contrastes existentes na nossa

    sociedade causados por diferenas culturais e at socioeconmicas. Num pas to

    grande como o nosso, com tantas paisagens geogrficas e pessoas to distintas,

    necessrio que haja um reconhecimento adequado do multiculturalismo existente

    aqui.

    8Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/linguagem/ling08.htm 9Fonte:http://tvcultura.com.br/aloescola/linguaportuguesa/varianteslinguisticas/regionalismos-sarto.htm 10Fonte: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/bancoimagem/frm_buscarImagens3.php

  • Na Proposta de Atividades foram sugeridas quatro atividades prticas que

    permitem ao professor reconhecer os fenmenos lingsticos que ocorrem no

    ambiente escolar e identificar o perfil sociolingstico de seus alunos para, junto com

    eles, construir uma educao que leve em conta os conhecimentos prvios de cada

    um. Na primeira, uma dramatizao em grupo, a sugesto foi de uma montagem

    pelos alunos de uma pequena pea teatral sobre um tema previamente trabalhado,

    em que ficassem bem claras as diferenas de linguagem observadas no interior da

    famlia e relacionadas aos papis sociais de cada indivduo. A segunda atividade,

    usando o mtodo de entrevista, pesquisa e leitura de textos previamente escolhidos

    pelo professor, sugeriu que se formassem equipes de alunos para entrevistarem

    pelo menos cinco pessoas vindas de outros estados e uma da prpria cidade

    pedindo a elas que fornecessem uma lista de expresses tpicas de suas regies. As

    equipes devem complementar sua entrevista fazendo uma pesquisa sobre a cultura

    representativa das regies em questo e montar um painel com fotos, as expresses

    coletadas na entrevista, mapas, gravuras, artesanatos, postais e o que mais for

    encontrado para apresentao e troca de experincias sobre as diversas regies. A

    terceira atividade teve como objetivo principal despertar nos alunos a conscincia da

    diversidade lingstica usando as histrias em quadrinhos como principal recurso.

    Feito um levantamento dos aspectos visuais e textuais, inicia-se uma discusso para

    saber a origem do personagem e adequao ou inadequao da linguagem utilizada

    nos dilogos. No final da discusso, o professor pode propor ao aluno que escreva

    um texto, que pode ser um bilhete, uma carta, um e-mail, mas que tenha claro o seu

    interlocutor, direcionado pelo professor. Na quarta atividade foi sugerida uma

    pesquisa de expresses tpicas de cada regio, envolvendo toda a comunidade

    escolar. Depois de um levantamento, inicia-se a elaborao de um glossrio

    contendo todas as expresses com seus possveis significados. O material deve ser

    divulgado, ficando disposio da comunidade para qualquer consulta. O objetivo

    da proposta fazer com que o aluno consiga entender e respeitar as diferenas,

    valorizando a espontaneidade da lngua como forma de expresso natural e

    transmisso da cultura local.

    Para que o professor possa compreender as relaes entre linguagem, escola

    e sociedade, no item Sugestes de Leitura, aparece o livro A norma oculta: lngua

    e poder na sociedade brasileira, de Marcos Bagno, que aprofunda o estudo das

    relaes entre lngua e poder no Brasil e estabelece que o preconceito lingstico na

  • sociedade brasileira nada mais que um profundo preconceito social. Em sua obra,

    o autor revela o jogo ideolgico existente por trs da defesa do uso das regras

    lingsticas padronizadas que disfaram uma discriminao que , em tudo, social.

    Outra sugesto de leitura, a obra Educao em lngua materna: a sociolingstica

    na sala de aula, de Stella Maris Bortoni-Ricardo, cria vrias oportunidades para que

    os professores reflitam sobre o trabalho com a lngua materna na escola,

    apresentando fundamentos tericos e aplicaes prticas que promovem o uso das

    variaes lingsticas em sala de aula. Por ltimo, o livro Linguagem e Escola

    Uma perspectiva social, de Magda Soares, explica o fracasso escolar na

    aprendizagem da lngua materna quando faz uma anlise das relaes entre

    linguagem, escola e sociedade. O texto contribui para essa compreenso e discute o

    problema sob uma perspectiva social das teorias da Sociolingstica e da Sociologia

    da Linguagem.

    O OAC traz como Destaque a Revista Patrimnio Revista eletrnica do

    IPHAN (Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional)11, que alm de

    divulgar o patrimnio artstico e cultural brasileiro, faz uma reflexo e debate sobre a

    importncia da histria e da memria para a identidade nacional. Outro destaque

    uma sugesto de pesquisa realizada pela autora do presente artigo, intitulada

    Expresses populares da cidade de Reserva Paran, uma dica importante de um

    trabalho realizado com o envolvimento de toda a comunidade escolar de forma

    prazerosa e ao mesmo tempo mostrando que a linguagem popular pode ser tratada

    de maneira menos preconceituosa e entendida como um instrumento de

    comunicao e transmisso da cultura local.

    Em Notcias, o texto Carta ao Professor: A lngua sem erros12, de Marcos

    Bagno, faz uma reflexo sobre a existncia das mais diferentes formas de

    comunicao do indivduo e ressalta a urgncia em existir na escola o

    reconhecimento de todas essas diversidades como formas vlidas de expresso. J

    o texto Quantas lnguas so faladas no Brasil?13, do autor Ivy Farias, faz um relato

    sobre todos os idiomas falados pelas comunidades indgenas existentes no Brasil.

    Enfim, so inmeras as possibilidades que existem para a realizao de um

    trabalho eficiente em relao ao ensino de lngua materna. Cabe a ns, professores,

    11 Fonte: http://www.revista.iphan.gov.br 12 BAGNO, Marcos. A lngua sem erros. Carta na escola . So Paulo, junho/julho, 2007. p. 66. 13 FARIAS, Ivy. Quantas lnguas so faladas no Brasil? Superinteressante. So Paulo, agosto, 2007. p. 42-43.

  • a tarefa da pesquisa, do estudo para podermos proporcionar aos alunos o uso, com

    segurana, dos recursos comunicativos necessrios para um bom desempenho nos

    contextos sociais.

    III Plano de Implementao na Escola

    A vinda da lngua portuguesa para o Brasil no se deu em um s momento.

    Aconteceu durante todo o perodo de colonizao, entrando em relao constante

    com outras lnguas. Com o tempo, o portugus, como qualquer lngua viva do

    mundo, foi sofrendo alteraes e estas variaes foram se instalando em lugares

    diferentes do Brasil, com caractersticas prprias, devido s novas condies em

    que passaram a funcionar, como refora Bagno (2006):

    A mudana lingstica inevitvel como a prpria mudana de tudo o que existe no universo. Como j dizia o filsofo grego Herclito, quinhentos anos antes de Cristo, panta rhei14 tudo flui, tudo muda, e a lngua no tem como (nem por qu) escapar dessa inevitabilidade. Gostando ou no, tudo o que se pode fazer reconhecer esse carter inevitvel da mudana lingstica. (BAGNO, 2006, p.128)

    Levando em conta a lngua escrita, existe uma maior proximidade entre o

    portugus do Brasil com o portugus de Portugal, j que est mais sujeita a uma

    normatizao. Mas ao se falar da lngua oral o processo de incorporao de

    caractersticas especficas se faz de modo muito rpido. A cada situao de fala em

    que o indivduo participa e est inserido, nota-se que a lngua falada , a um s

    tempo, heterognea e diversificada. Do ponto de vista sociolingstico essas

    variedades no so consideradas superiores ou inferiores, melhores ou piores.

    A lngua e o comportamento lingstico esto estreitamente ligados cultura

    de seus falantes e so adequados s necessidades e caractersticas do grupo a que

    pertence o falante, ou situao em que a fala ocorre.

    Soares (1986) ressalta que, embora um grupo de pessoas utilize a mesma

    lngua, a diferenciao geogrfica e social resultar em um correspondente processo

    14 Expresso muito usada pelo filsofo grego Herclito que costumava dizer que tudo flui (panta rhei), tudo est envolto por um constante devir. Nada , mas tudo est vindo a ser. As coisas no cessam de acontecer... http//www.catequisar.com.br/txt/colunas/adriano/04.htm

  • de diferenciao lingstica, que pode acontecer nos nveis fonolgico, lxico e

    gramatical.

    O afastamento no espao geogrfico leva a variedades regionais. Essas

    marcas lingsticas participam ativamente dos processos de construo de nossa

    identidade. O modo como se fala a lngua aproxima os conterrneos e, ao mesmo

    tempo, diferencia as pessoas de outras regies.

    Com a diferenciao social, em funo das caractersticas do grupo a que

    pertence o falante, ou das circunstncias em que se d a comunicao, ocorrem as

    variedades sociais, causadas pelas diferenas de idade, sexo, raa, classe social,

    escolaridade, profisso, entre outras.

    Conforme a situao em que est inserido, o falante pode usar a linguagem

    mais formal (mais cuidada, mais tensa, mais policiada, usada em situaes de

    formalidade) ou informal (mais distensa, menos policiada, usada em situaes de

    informalidade). A variedade mais cuidada do portugus geralmente se aproxima da

    chamada variedade padro, que recebe vrias denominaes, como lngua padro,

    norma padro, norma culta. Quando ligada escrita, tender a mudar menos, pois a

    linguagem torna-se mais reflexiva, mais bem organizada, pressupondo um rascunho,

    uma reelaborao.

    No entanto, a variedade padro no pode se transformar num instrumento de

    autoritarismo e discriminao social. Soares (1986) afirma que avaliaes em

    termos de certo ou errado, melhor ou pior, em relao a usos da lngua,

    refletem preconceitos que estigmatizam o uso que dela fazem os grupos de baixo

    prestgio social. Falantes de um dialeto no-padro so considerados

    lingisticamente deficientes e, conseqentemente, tambm cognitivamente

    deficientes. A lngua padro , portanto, uma construo cultural em que se

    privilegia certos modos de dizer como sendo mais adequados em certas situaes

    de fala e escrita.

    Tarallo (1986) explica:

    Em geral, a variante considerada padro , ao mesmo tempo, conservadora e aquela que goza do prestgio sociolingstico na comunidade. As variantes inovadoras, por outro lado, so quase sempre no-padro e estigmatizadas pelos membros da comunidade. (TARALLO, 1986, p.12)

  • Se existe na escola a valorizao apenas da chamada norma padro da

    linguagem, em detrimento das outras formas de falar e escrever, certamente haver

    um prejuzo na aprendizagem reforado pela distncia e a hierarquia entre

    educadores e alunos.

    O uso da linguagem tem sido muito marcado por preconceito, e o que mais

    grave ainda, o preconceito lingstico muito mais camuflado do que as outras

    formas de intolerncia. As variantes utilizadas por falantes das classes sociais pouco

    favorecidas ou da zona rural so excludas da escola; variantes regionais sem

    prestgio, como a caipira ou a nordestina, so segregadas, no devem ser

    misturadas, como afirma Bagno (2006):

    A estigmatizao se torna um problema social ainda mais grave quando o rtulo de erro passa a ser automaticamente aplicado a todas as demais caractersticas fsicas e psicolgicas bem como a todos os outros comportamentos sociais do falante que se serve da forma lingstica desprestigiada. De fato, o suposto erro lingstico parece desencadear uma srie de avaliaes negativas lanadas sobre o indivduo, numa cadeia de causas e conseqncias que, por ser essencialmente ideolgica, s pode ser falsa: algum fala errado porque pensa errado, porque age errado, porque errado... (BAGNO, 2006, p.149)

    Conforme as Leis de Diretrizes e Bases, compete escola tomar como ponto

    de partida os conhecimentos lingsticos dos alunos, promover situaes que os

    incentivem a falar, ainda que do seu jeito, ou seja, fazer uso da variedade de

    linguagem que eles empregam em suas relaes sociais. (SEED/PR, 2006, p. 24)

    importante que o professor reconhea os fenmenos lingsticos que

    ocorrem no ambiente escolar para poder construir uma educao que leve em conta

    os conhecimentos prvios que cada aprendiz traz consigo. Soares (1986) afirma que

    a escola fracassa no papel de ensinar a linguagem legtima (aquela das classes

    dominantes, a variedade padro), pois alunos pertencentes s camadas populares

    conhecem outra linguagem, no-legtima (no valorizada socialmente); por isso

    eles no dominam a linguagem da escola, nem para compreender, nem para se

    expressar.

    Ainda nas palavras de Soares (1986):

    ...a escola leva os alunos pertencentes s camadas populares a reconhecer que existe uma maneira de falar e escrever considerada legtima, diferente daquela que dominam, mas no os levam a conhecer essa maneira de falar e escrever, isto , a saber produzi-la e consumi-la.

  • (...) Assim agindo, ela est, na verdade, cumprindo a sua funo de manter e perpetuar a estrutura social, a discriminao entre as classes, as desigualdades e a marginalizao. (SOARES,1986, p.63)

    O professor exerce a dominao lingstica, apoiando-se em

    critrios de autoridade dos escritores, dos gramticos, entre outros. Dessa maneira

    nega todas as outras formas de falar no-prestigiadas socialmente. Na verdade, no

    a fala dessas pessoas que est em discusso, mas o grupo social a que

    pertencem os falantes que sofrem de discriminao quanto a sua linguagem.

    Quem no domina a variante padro marginalizado, ridicularizado, com a

    idia de que quem fala errado est vinculado a grupos de desprestgio social e

    quem fala correto pertence a uma elite que detm o poder econmico e poltico.

    Assim, nas relaes entre lngua e poder o que realmente pesa o prestgio ou a

    falta de prestgio social do falante, e esse critrio muitas vezes prepondera sobre os

    elementos estritamente lingsticos presentes em seu modo de falar. (BAGNO,

    2006, p.70)

    O principal objetivo da escola ensinar a norma padro, pois o nico lugar

    que possibilita grande maioria dos alunos a apropriao desse conhecimento. No

    entanto, deve tambm promover o dilogo entre os diferentes falares, fazendo do

    ensino de portugus uma forma do aluno compreender melhor a sociedade em que

    vivemos, o que ela espera de cada um lingisticamente e de que forma podemos

    usar essa ou aquela variedade do portugus.

    Assim nos dizem as Diretrizes Curriculares de Lngua Portuguesa para a

    Educao Bsica (2006):

    O professor deve planejar e desenvolver um trabalho com a oralidade que, gradativamente, permita ao aluno conhecer, usar tambm a variedade lingstica padro e entender a necessidade desse uso em determinados contextos sociais. (SEED/PR, 2006, p.25)

    A proposta de interveno na Escola ocorreu no 1 Semestre do ano de 2008

    no Colgio Estadual Manoel Antonio Gomes Ensino Fundamental, Mdio e

    Normal, do municpio de Reserva, com as turmas do Ensino Fundamental e Mdio

    dos perodos matutino e vespertino e 1 Srie do Magistrio.

  • Aps o trabalho e reflexo sobre os contedos de Comunicao, como

    Lngua, Linguagem Formal e Informal, Variedade Regional, Variedade Estilstica,

    Variedade Padro, Variedade Popular, Grias, os alunos entraram em contato com

    as variedades lingsticas atravs de diferentes gneros de textos, msicas e filmes

    que exploraram a fala em diversas regies e/ou situaes. Tambm tiveram a

    oportunidade de produzir seus textos utilizando essas variantes comunicativas.

    Props-se, dessa forma, o dilogo entre os diferentes falares, como forma de

    despertar nos alunos a conscincia da diversidade sociolingstica, fazendo-os

    perceber que o contexto que torna o uso da lngua adequado ou inadequado em

    determinadas situaes.

    Num segundo momento foi realizada uma pesquisa de expresses tpicas

    utilizadas pelos falantes do municpio de Reserva. Aps a explicao dos objetivos e

    importncia do trabalho, foi pedido para que as pessoas indicassem as palavras e

    expresses prprias dos falantes da regio, com seus provveis significados. A

    pesquisa envolveu toda a comunidade escolar que fez a coleta de dados atravs de

    observaes, conversas e visitas a vrios setores da comunidade onde existe um

    grande nmero de pessoas e, conseqentemente, uma grande variao de

    linguagem. O objetivo foi colher o maior nmero possvel dessas expresses

    populares de forma a enfatizar sua importncia dentro da comunidade como

    instrumento importante na transmisso da cultura da regio e valorizar a

    espontaneidade da lngua como forma de expresso natural e eficiente.

    Feito o levantamento, teve incio a elaborao de um glossrio contendo

    todas as expresses com seus significados trazidos pelos alunos. Os termos foram

    selecionados e organizados em ordem alfabtica no glossrio intitulado Grias e

    Expresses usadas no Municpio de Reserva.

    No processo de formao das grias e expresses vale ressaltar que vrias

    delas fazem parte do cotidiano de outras comunidades lingsticas, j que todos

    sofremos influncias dos meios de comunicao, tais como televiso, cinema,

    internet, rdio, mas muitas foram criadas no prprio municpio. Algumas so usadas

    apenas por determinados grupos, outras, alm de se difundirem muito rapidamente,

    conseguiram se introduzir na linguagem corrente e nela permanecem, enriquecendo

    o lxico comum.

    Uma das caractersticas das expresses populares seu efeito expressivo,

    que busca estabelecer um vnculo entre o nome e o que nomeado, pondo em

  • relevo uma relao afetiva entre ambos, nem sempre presente nos vocbulos da

    lngua comum, como por exemplo: farejando (paquerando), colrio (pessoa bonita),

    fil (bonito), caadora (mulher provocante), ligeiro (esperto), peixo (mulher bonita),

    potncia (mulher bonita), potranca (mulher bonita, atraente), tigro (rapaz bonito),

    Outro aspecto o de purgao da gria, que conduz a um mecanismo

    compensatrio do pequeno grupo em relao grande comunidade, como nos diz

    Preti (1984): Falando diferente, estropiando a linguagem usual, ele agride o

    convencional; ope-se ao uso aceito pela maioria, e deixa marcado seu conflito com

    a sociedade. (PRETI, 1984, p.4). Alguns exemplos com aspecto agressivo: anta de

    patinete (bobo, atrapalhado), boc (bobo, idiota), burdoguinho (mulher feia), cabea

    de bagre (bobo, atrapalhado), canho (mulher feia), carne de pescoo (homem feio),

    derdi (bobo, idiota), dilvio (pessoa feia), goiaba (aquilo que no presta mais),

    herege (feio, ridculo), ngua (ruim no que faz), jacu (bobo, inocente, caipira), juda

    (no sabe se vestir), mala sem ala (inconveniente), lambisgia (idiota), manequim

    de cemitrio (pessoa de pssima aparncia), morcego (enganador), nasceu pelo

    avesso (muito feio), nhengo (bobo), nuve (bobo, atrapalhado), oreia seca (bobo,

    atrapalhado), pintchumbado (maluco), porva (menino malandro), quengo (bobo),

    tribufu (feia, sem graa), uricona (boba, atrapalhada).

    Esse aspecto agressivo da gria e tambm da linguagem obscena pode, no

    entanto, perder-se pelo emprego abusivo. Nesse sentido, certas palavras usadas em

    registro coloquial acabam em determinadas situaes por ganhar colorao afetiva e

    carinhosa.

    Um outro processo na formao das grias a alterao de significados de

    palavras j existentes, sem haver nenhuma relao de sentido entre elas,

    aparentemente: acelerar (sair), gua sonsa (bobo, atrapalhado), alis o bigode (quer

    ser o que no ou enganou algum), alugado (quer ser o que no ), amarrou o

    burro (ficou bravo, quieto), apitou na curva (morreu), ass o zio (deu tudo errado),

    bacon (mulher bonita), balo furado (mentira), bateu as botas (morreu), burro

    amarrado (est namorando), cabea de martelo (bobo, atrapalhado), cabrita

    (motocicleta), empacotou (bateu em algum), encheu a bombacha (ficou com

    medo), espeto (quem fica com a namorada do amigo), fech o repoio (houve briga),

    ferida (ruim no que faz), florzinha (pessoa que gosta de aparecer), foi pra lua (levou

    um sermo), foi pro vinagre (deu tudo errado), fub (menino travesso, malandro),

    juda (no sabe se vestir), lavou o baio (ficou rico), leitoa branca (pessoa que pensa

  • que melhor que os outros), liso (esperto ou sem dinheiro), mala sem ala

    (inconveniente), mo de vaca (no gosta de gastar dinheiro), morcego (enganador),

    navalha (no sabe dirigir), n cego (bobo, atrapalhado), nuve (bobo, atrapalhado),

    macio (foi mal-educado), olho gordo (invejoso), pozinho (pessoa bonita), papo

    (mentira), par de aspas (homem trado), passando um fax (est no banheiro), p de

    anjo (p grande), pegou o bonde (comeo de namoro), peludo (tem sorte com as

    mulheres), penti o cabelo (saiu correndo), pessego (homem bonito), pinga-pinga

    (homem ou mulher que namora muitos), por cima da carne fresca (tranqilo), puleiro

    de pato (pessoa traioeira), quebrado (sem dinheiro), quebr a motoquinha (deu

    tudo errado), queimando campo (mentindo), rei da cocada preta (pessoa que quer

    mandar em tudo), repolhuda (mulher bonita), saiu com cada batata (falou asneiras),

    saiu vazado (fugiu), sapatinho de algodo (parece ser o que no ), secou as

    quireras (morreu), secou o sabugo (morreu), s lav (falou bobagem), t azur

    (embriagado), t co plo (est bem), t frito (sem sada), tomou ch de meia (ficou

    triste), vai dar bolor (briga), vassoura (namorador), verdeada (fez o que no devia),

    vi um poeiro (desconfiei de algo), viu a viola em caco (quase morreu), zio gordo

    (invejoso).

    Em outros casos, vocbulos novos so criados a partir de palavras j

    existentes, apoiando-se no seu significado. o que se verifica nas expresses:

    - cortex (quem interrompe o outro) que se originou de corte (interrupo);

    - deferento (esquisito, desajeitado) que se originou da palavra diferente (que no

    igual, que difere);

    - maluda (passeadeira), do vocbulo mala (espcie de caixa para transporte de

    roupas em viagem);

    - no fumega (no funciona) vem da palavra fumegar (exalar fumaa);

    - piazn (menino) do vocbulo pi (menino);

    - porva, porvinha (menino malandro, incomodativo) que se originou da palavra

    plvora (substncia explosiva usada para carregar armas de fogo);

    - se metidando (exibindo-se) que se originou da expresso metido (intrometido,

    indiscreto);

    - seqela (muito magra) do vocbulo seca (magra);

    - sortercia (perodo em que se est solteiro), originria do vocbulo solteiro

    (homem que ainda no casou).

  • s vezes, as expresses limitam-se apenas mera alterao de significados

    por processos metafricos, como nos exemplos:

    - ardido (aquele que est de mau humor), por associao com aquilo que queima,

    arde);

    - bacon (mulher bonita), por associao ao alimento gostoso;

    - boca de urtiga (bobo, irritante), por associao com a planta cujas folhas, em

    contato com a pele, produzem ardor irritante;

    - cabea seca (bobo, atrapalhado), a palavra seca usada no sentido de vazia, rida,

    estril, como se no existisse nada na cabea;

    - cabo de vassoura (pessoa muito magra), em comparao com a aparncia fina e

    comprida de um cabo de vassoura:

    - cintura de ovo (gordinho), comparando com o formato arredondado do ovo;

    - encoleirado (est namorando), associando a um animal preso por uma coleira,

    como se estivesse preso, no caso, namorada;

    - esperando famia (gravidez), por estar a me espera de mais um membro para

    sua famlia;

    - farejando (paquerando), existindo uma conotao animalesca, pois o homem

    farejando aquele que est buscando sua parceira;

    - ficou s com a capa da gaita (perdeu tudo), s restou a capa, o elemento menos

    importante. A gaita j se foi, isto , perdeu tudo;

    - ficou s com o p do bagao (perdeu tudo), a palavra p usada no sentido de

    que nada mais resta, pois p so partculas insignificantes;

    - fil (pessoa bonita), por associao ao alimento gostoso;

    - foi de vo a paia do borso (foi assustador), expresso usada com tom exagerado,

    pois se at a palha (elemento usado na confeco de cigarros) voou do bolso,

    sinal que algo muito assustador ocorreu;

    - gata (menina bonita), por associao beleza do felino, um animal extico,

    sensual;

    - herege (feio, ridculo), termo usado por associao com a pessoa que professa

    heresia, vai contra a doutrina, portanto feia, ridcula;

    - ligeiro (esperto), associando com a rapidez de pensamento, agilidade;

    - mais perdido que cebola em salada de frutas (desorientado), expresso usada para

    uma pessoa que est perdida, sem rumo, e a comparao feita com uma cebola

    que jamais combinaria numa salada de frutas;

  • - monarca (pessoa ultrapassada), surgiu por haver uma marca de bicicleta monark,

    considerada fora de moda, ultrapassada;

    - n cego (bobo, atrapalhado), sendo que um n cego aquele difcil de ser desfeito,

    portanto, por analogia, a pessoa n cega aquela difcil de se entender,

    atrapalhada;

    - no tempo em que o globo da morte era a cavalo (muito antigo), j que as

    apresentaes no globo da morte seriam feitas com cavalos, deduz-se que no

    existiam motocicletas, portanto uma situao do passado;

    - nuve (bobo, atrapalhado), por associao com a palavra nuvem, que conota a

    idia de algo turvo, opaco, embaando o ambiente, atrapalhando, portanto;

    - ofendido por cobra, aranha... (mordido por cobra, aranha...), a palavra ofender

    usada no sentido de fazer mal, isto , a cobra ou outro bicho qualquer faz o mal;

    - outdoor (testa grande), comparando a testa de uma pessoa com o painel

    publicitrio disposto em locais de grande visibilidade;

    - perna de pau (no sabe jogar), como se a perna no fizesse movimentos normais,

    fosse dura, como pau.

    - pintor de rodap (baixinho), por ficar o rodap prximo ao cho, ficaria mais fcil

    uma pessoa bem baixa para pint-lo;

    - sartei do avio (sa estrategicamente), expresso usada para indicar uma sada

    estratgica do local, inesperada e rpida, como num salto de avio;

    - secou o sabugo (morreu), acabou tudo, pois at o sabugo j secou;

    - serrote (aquele que rouba ou interrompe uma conversa), por associao ao objeto

    que serra, corta, separa, assim como roubar tirar, saquear e interromper algum

    cortar uma conversa;

    - s lav e mand pro Vau (falou bobagem), a expresso surgiu por no haver mais

    vagas no cemitrio local e muitas pessoas so sepultadas no Vau, uma localidade

    prxima;

    - taquara (muito alto e magro), por associao planta que atinge muitos metros de

    altura;

    - tigre (esperto), em comparao ao animal muito esperto que, apesar de seu grande

    tamanho, se aproxima de suas presas em completo silncio;

    - torresmo (mulher gordinha), por associao ao alimento que contm muita gordura;

    - vazando pelas orelhas (embriagado), a pessoa bebeu tanto como se estivesse

    vazando at pelas orelhas;

  • - vi um poeiro (desconfiei de algo), associao com a palavra poeira, substncia

    que se eleva na atmosfera turvando o ambiente, embaando-o. Quem desconfia,

    no sabe bem ao certo o que se passa, portanto, v as coisas de uma forma

    embaada, turva;

    - virado num ninja (bravo, valente), como os guerreiros japoneses muito valentes;

    - virou num cisco (sumiu), j que cisco sujeira quase imperceptvel, portanto,

    existe a analogia entre sumir e virar um cisco.

    Cumpre ressaltar que em muitos termos observou-se tambm um processo

    de alterao fnica de algumas palavras, como por exemplo: ar de graia (expresso

    de pessoa tola, boba), ass o zio (deu tudo errado), baix a gerarda (riu por

    qualquer motivo, falou besteira), bandido vio (esperto), boca de armoo (bobo,

    atrapalhado), cui na marmita alheia (mexendo com a namorada do outro),

    deferento (esquisito, desajeitado), defruo (gripe), deu umas bizu (deu uma

    olhada), pacab (era s o que faltava acontecer), esperando famia (gravidez), fart

    tutano (sem dinheiro), fech o repoio (houve briga), ficou s com o soaio da gaiota

    (perdeu tudo), foi de ca os buti do borso (falou bobagem), foi de vo as paia do

    borso (foi assustador), foi pro moio (deu tudo errado ou morreu), fumo pra tarde

    (aprontaram na escola), minhasarma! (espanto), m di qu? (por qu?), mumo

    (vencemos), no corrige seno pioreia (nem tente melhorar a situao), no se

    envorva (no interfira), nem que vorte o cheque (vamos aproveitar o momento),

    oreia de bat bolo (orelha grande), pavor (teve coragem), pegad (namorador),

    penti o cabelo (saiu correndo), pesti o tatu (deu tudo errado), sartei da charrete

    (sa estrategicamente), se vaz (falou besteira), s sarg e mand pro Vau (no tem

    soluo ou falou bobagem), sou simpro (sou humilde, simples), vamo pra peleia

    (vamos trabalhar), v me amoit (vou ficar quieto), zio de beronha (olhos grandes).

    A criao dessa linguagem especial pode no apenas atender ao desejo de

    originalidade mas tambm servir a outras finalidades como, por exemplo, ao desejo

    de se fazer entender apenas por elementos do grupo, sem ser entendido pelos

    demais da comunidade. Segundo Preti (1984), A partir do momento em que essa

    linguagem serve ao grupo como elemento de auto-afirmao, de verdadeira

    realizao pessoal, de marca original, ela se transforma em signo de grupo. (PRETI,

    1984, p. 2)

    Seria intil pretender impedir esse complexo mecanismo da linguagem dos

    grupos sociais e tambm qualquer tentativa de nivelamento da lngua pela norma

  • padro. O que se pode pensar, sim, que a educao deve levar os falantes das

    vrias classes conscincia da existncia de vrios nveis de linguagem, adequados

    s mais diversas situaes. Em outras palavras, aceitaramos a gria, mas apenas

    em determinados contextos da linguagem popular e ela poderia at tornar-se o

    vocabulrio ideal para expresso de certos estados afetivos.

    Enfim, por se tratar de uma linguagem descontrada da oralidade, o glossrio

    serve para valorizar a espontaneidade da lngua como forma de expresso natural e

    eficiente no processo comunicativo. As expresses ali apresentadas reconhecem a

    utilidade desses termos e enfatizam a importncia da linguagem popular como

    instrumento de comunicao e transmisso da cultura local.

    Conforme as Leis de Diretrizes e Bases (2006), compete escola tomar

    como ponto de partida os conhecimentos lingsticos dos alunos, promover

    situaes que os incentivem a falar, ainda que do seu jeito, ou seja, fazer uso da

    variedade de linguagem que eles empregam em suas relaes sociais. (SEED/PR,

    2006, p.24)

    Durante a Primeira Mostra Cultural do Colgio houve uma solenidade de

    entrega do glossrio para todas as escolas estaduais do municpio, para a

    Secretaria Municipal de Educao, Biblioteca Municipal e Ncleo Regional de

    Educao. Participaram desse evento a diretora e o diretor auxiliar do Colgio

    Estadual Manoel Antonio Gomes, diretores das escolas estaduais do municpio,

    Secretria Municipal de Educao, Presidente da APMF do Colgio, Documentadora

    Escolar, representantes do corpo docente e discente, representantes do Grmio

    Estudantil e minha famlia. O trabalho foi divulgado em todas as turmas da escola e

    est disposio de toda a comunidade escolar na Biblioteca do Colgio como fonte

    de consulta e valorizao da cultura local.

    Consideraes Finais

    Existem vrios falares brasileiros. A maior dificuldade reconhecer que o

    portugus falado no Brasil caracterizado por imensa diversidade e avaliar essa

    diversidade como um aspecto positivo da linguagem. Cabe ao professor reconhecer

    os fenmenos lingsticos que ocorrem no ambiente escolar, identificar o perfil

  • sociolingstico de seus alunos para, junto com eles, construir uma educao que

    leve em conta os conhecimentos prvios de cada um.

    Segundo Bagno (2006), uma das tarefas do ensino de lngua seria, ento,

    discutir os valores sociais atribudos a cada variante lingstica, enfatizando a carga

    de discriminao que pesa sobre determinados usos da lngua, de modo a

    conscientizar o aluno de que sua produo lingstica, oral ou escrita, estar sempre

    sujeita a uma avaliao social, positiva ou negativa. (BAGNO, 2006, p.150)

    Somente desempenhando um papel crtico em sala de aula que todos os

    professores podem resolver ou pelo menos diminuir os problemas de convvio com a

    diversidade cultural. No se deve nunca esquecer de que todos somos diferentes e

    que conviver com as diferenas requer uma postura firme contra o preconceito e a

    desigualdade social. Se existir na escola a valorizao apenas da chamada norma

    padro da linguagem, em detrimento das outras formas de falar e escrever,

    certamente haver um prejuzo na aprendizagem reforado pela distncia e a

    hierarquia entre educadores e alunos. As Diretrizes Curriculares de Lngua

    Portuguesa para a Educao Bsica (2006) nos deixa bem clara essa questo:

    Engajado com as questes de seu tempo, tal professor respeitar as diferenas e promover uma ao pedaggica de qualidade a todos os alunos, tanto para derrubar mitos que sustentam o pensamento nico, padres preestabelecidos e conceitos tradicionalmente aceitos, como para construir relaes sociais mais generosas e includentes. (SEED/PR, 2006, p.43)

    Todas as atividades desenvolvidas ao longo do PDE - Programa de

    Desenvolvimento Educacional e aqui descritas procuraram discutir, entender e

    respeitar diferenas, valorizando a espontaneidade da lngua como forma de

    expresso natural e eficiente no processo comunicativo. A educao em lngua

    materna deve ter o compromisso com a formao plena do cidado, contra toda

    forma de excluso social pela linguagem e tambm deve possibilitar aos alunos das

    classes sociais desfavorecidas o acesso cultura letrada para que tenham a chance

    de fazer suas prprias escolhas nas situaes de uso da lngua.

  • REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS BAGNO, Marcos. A norma oculta: lngua e poder na sociedade brasileira. 5.ed. So Paulo: Parbola, 2006. _______. Nada na lngua por acaso: cincia e senso comum na educao em lngua materna. Presena Pedaggica. So Paulo, 2006. Disponvel na internet: http://www.marcosbagno.com.br/art_nada-na-lngua-e-poracaso.htm (consulta em 04 de maio de 2007) BORTONI-RICARDO, Stella Maris.Educao em lngua materna: a sociolingstica na sala de aula. 4.ed. So Paulo: Parbola Editorial, 2006. DIRETRIZES CURRICULARES DE LNGUA PORTUGUESA PARA A EDUCAO BSICA. SEED/PR, 2006. FERREIRA, Aurlio Buarque de Holanda. Novo Dicionrio Aurlio da Lngua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. GERALDI, Joo Wanderley. O texto na sala de aula. 3.ed. So Paulo: tica, 2001. HECKLER, Evaldo. Lngua e Fala. So Leopoldo: Grfica Unisinos, 1986. ILARI, Rodolfo. A lingstica e o ensino da lngua portuguesa. So Paulo: Martins Fontes, 1986. POSSENTI, Srio. Gramtica e poltica. Novos Estudos. So Paulo, nov.1983. Disponvel na internet: http://www.cebrap.org.b/imagens/arquivos/gramatica_e_ politica.pdf. (consulta em 06 de maio de 2007) PRETI, Dino. A Gria e Outros Temas. So Paulo: Edusp, 1984. SCHUBSKY, Cssio. Essa gria da hora! Superinteressante. So Paulo, maro, 1996. p.36-40. SOARES, Magda. Linguagem e Escola Uma perspectiva social. So Paulo: tica, 1986. TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolingstica. So Paulo: tica, 1986.