Vocação III - Lavelle

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    03-Jan-2016

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<p>Eleio de cada ser</p> <p>Captulo VIII - do livro: O Erro de Narciso - Louis Lavelle. A Vocao e o Destino</p> <p> I</p> <p> Diferena entre os espritos.</p> <p> difcil fazer concordar a extenso com a profundidade. Alguns s tm olhar para o espetculo do mundo. Eles tm necessidade que ele se renove indefinidamente sob seus olhos. Eles o admiram sem se cansar da variedade e da novidade. Mas eles s tm com ele um contacto superficial: basta que ele mantenha sua curiosidade desperta e povoe de imagens o seu esprito que busca sempre escapar da solido.</p> <p>Outros permanecem sempre no mesmo lugar. Eles retornam sem cessar aos mesmos pensamentos; cavam indefinidamente o solo sobre o qual nasceram e ao qual permanecem atados. Eles se desviam das plancies que o sol ilumina e que a chuva rega, e buscam, no lugar onde esto, uma fonte subterrnea na qual possam beber. Quo difcil e quo desejvel seria poder unir a extenso e a profundidade, de seguir todos os caminhos onde a vida nos engaja sem nos afastar jamais do ponto de onde ela jorra!</p> <p>Alguns homens so eles prprios como fontes de onde se escoam novas riquezas; mas a maior parte como canais que levam de um lugar ao outro as riquezas que eles mesmos no produziram. E tambm se pode ver espritos nmades e outros, ainda, que so cultivadores de seu prprio solo.</p> <p>Ora, h uma diversidade de graas, mas o mesmo Esprito, uma diversidade de ministrios, mas o mesmo Senhor. H tambm uma diversidade de operaes, mas o mesmo Deus que opera em todos.</p> <p>Todos os seres recebem a mesma luz: mas todos a acolhem diferentemente. Uns so parecidos com superfcies brancas e a reenviam toda em torno deles: so aqueles que tm mais inocncia. Outros se parecem com superfcies negras e mergulham em suas prprias trevas: sua alma um cofre trancado. H os que a dividem, que captam certos raios e refletem outros, como essas superfcies diversamente coloridas, mas que mudam de brilho e de nuances de acordo com a hora do dia: so as almas mais sensveis. H, ainda, aqueles que so semelhantes a superfcies transparentes e deixam passar atravs deles toda a luz sem nada reter dela: so os mais prximos de Deus. Alguns podem ser comparados a espelhos nos quais, a natureza inteira e o espectador que os contempla, no deixam de se refletir e de se ver: so os mais prximos de ns, e sua simples presena suficiente para nos julgar. Outros, enfim, fazem pensar em prismas, nos quais a luz branca se irradia em um arco-ris miraculoso: e so aqueles que cantam a glria da natureza pela arte e pela poesia.</p> <p> 2 O gnio prprio.</p> <p>Todos os homens tm gnio se eles forem capazes de descobrir seu gnio prprio. Mas neste ponto que reside o mais difcil: porque no fazemos mais do que invejar outro, imit-lo, buscando ultrapass-lo ao invs de explorar nosso prprio fundo. E no se pode desconhecer que, cada vez que somos fiis a ns mesmos, experimentamos um ardor lcido que supera todos os outros prazeres, lhes substrai todo o sabor e os torna , doravante, inteis. Mas como descobrir o gnio pessoal que nos escapa quando o buscamos, do qual a maioria dos seres no pode mais do que duvidar, quando eles vem suas vidas escoar na misria, no tdio ou nos divertimentos, que atravessa, s vezes, num lampejo de esperana, a conscincia mais medocre, mas que se evanesce a partir do instante em que ela busca se apoderar dele, quando as nossas ocupaes mais constantes contradizem e rechaam e que no jamais nem uma idia que se possa definir, nem um lan interior que se possa conduzir?</p> <p>O simples pensamento de nosso gnio prprio abala sempre nosso amor- prprio, ele lhe causa um tipo de ansiedade e j a satisfao mais forte e a mais sutil. No entanto, nosso gnio est em oposio ao nosso amor-prprio, que uma preocupao conosco mesmos, que coloca a opinio acima da realidade, que, ao invs de secundar nosso gnio, se mostra no momento em que, renunciando de repente a todos os movimentos do amor-prprio que no cessam de nos perturbar e de nos divertir, ns ganhamos acesso a um mundo espiritual cuja descoberta o efeito do desinteresse puro, que nos d o que ns no saberamos dar a ns mesmos, e do qual nos tornamos os testemunhos e os intrpretes, ao invs de faz-lo servir a nossos prprios fins. </p> <p>, ento, o abandono de todo o amor-prprio que nos revela nosso verdadeiro gnio. Mas no instante em que ele se relaxa, o amor- prprio se dirige a ele e, assim como se atribui vitrias, o acusa dos defeitos mesmos que o gnio lhe faz suportar.</p> <p>Parece que a conscincia nos foi dada menos para escolher o que queremos ser do que para descobrir o que somos. S somos verdadeiramente livres quando nos dada a revelao de nossa prpria necessidade. At esse momento, no nos sentimos livres : mas somos os marionetes de nossos caprichos: nada fazemos alm de errar de aventura em aventura, de tentativa em tentativa, de fracasso em fracasso, sempre insatisfeitos e exteriores a ns mesmos.</p> <p>Pode se dizer que no h pior escravido do que nos encontrarmos assim encerrados em nossa prpria essncia? Mas o eu que se queixa dela prova suficientemente que ele no encontrou. Por mais admirvel que seja essa essncia, s depende de ns encontr-la, aprofund-la e lhe ser fiel; sem o qu, ela no nada, assim como uma potncia que permaneceria sem emprego.</p> <p>Em um sentido, se pode dizer que o prprio da loucura de querer escapar sua prpria lei, que a de no projetar suficiente luz, nem suficiente amor sobre esse ser que trazemos em ns e que depende de ns, no conhec-lo, mas realiz-lo. 3</p> <p> Do carter vocao.</p> <p>O indivduo o carter, no sentido mais simples da palavra, mas tambm no sentido mais forte e mais nobre. A vontade est sempre em luta com ele: mas sempre o carter que se encontra, seja quando a vontade se curva seja quando ela triunfa.</p> <p>No carter, o eu um s com sua prpria manifestao. Ele exprime sua disposio interior mais constante e a mais profunda, aquela que escapa a todo artifcio. dele que depende minha felicidade mais ntima e a daqueles que me rodeiam. Mas se pode dizer, s vezes, que ele eu e que no eu; ele eu mais radicalmente do que minha prpria vontade, j que precede sua ao e que ele lhe segue, e ele no eu j que eu no o quis e j que minha vontade se desvencilha dele, age sobre ele, busca reprimi-lo e se esfora para obrig-lo a servi-la.</p> <p>No entanto quando falamos de ns mesmos, no em nosso carter que pensamos, mas nesse ser puramente possvel, nessa liberdade pura, ainda indeterminada, e que ainda no se engajou, e que para ns a coisa mais preciosa que h no mundo, aquela cuja descoberta nos d mais emoo. E, no momento de dispor dela, sentimos imediatamente que nenhum ser nada a no ser pela verdade ou pelo erro, o bem e o mal do qual ele , de alguma maneira, o portador. isto que cada um, v, busca ou foge em si mesmo e no sua natureza individual, que no nada a no ser um obstculo ou um veculo, que no tem sentido a no ser pelo valor que ela pode assumir e do qual ela capaz de nos fazer participar.</p> <p>Ento somente permitido falar de vocao; mas se v que toda vocao sempre espiritual: ela a descoberta de nossa verdadeira essncia que uma s com o ato mesmo pelo qual ela se realiza. Com ela, se pode dizer de cada ser que ele obtm "um novo nome que ningum conhece exceto aquele que o recebe". Cada ser ascende, assim, a uma grandeza que lhe prpria, e se compreende porque esta grandeza deve ser ao mesmo tempo dada e conquistada. 4</p> <p> Vocao de cada indivduo e de cada povo.</p> <p>Os povos, como os indivduos, no podem ter outra vocao que no seja espiritual. E no se trata de conquistar os bens da terra nem de sujeitar os outros a si. Trata-se de libert-los, de devolv-los a si mesmos, de lhes permitir descobrir e preencher a vocao que lhes pertence. Aqui, como em todo lugar, se encontra este paradoxo admirvel que nenhum ser pode se realizar a no ser cooperando com a realizao de todos os outros.</p> <p> que s h um esprito do qual cada indivduo, e mesmo cada povo, participa atravs de um ato pessoal segundo os dons que receberam. Depende de cada um tomar conscincia destes dons e de realiz-los atravs de uma criao ininterrupta. No h para um ser, idia mais benfazeja do que aquela de um papel que ele tem que assumir na formao da conscincia humana, que ningum pode assumir em seu lugar e sem o qual todas as possibilidades que esto nele no conseguiriam ver a luz do dia.</p> <p>No entanto, no se aceitar sem nuances esta viso demasiado simples que a conscincia humana como um ser imenso e annimo no qual cada indivduo ou cada povo exerceria uma funo predestinada. No h seno a conscincia individual que uma morada de luz prpria, um centro original de responsabilidade. O gnio de cada povo porta em si, sem dvida, o gnio de todos os seres que o formam, que padecem as mesmas foras e compem nele, suas iniciativas particulares. Mas os maiores inventam, quando os outros s padecem: so sempre estrangeiros no meio de seu povo; eles se parecem com homens vindos de muito longe e que nos trazem alguma revelao extraordinria. 5</p> <p> Discernimento da vocao</p> <p>H em ns um fluxo que nos leva, mas que tal, no entanto, que s temos a impresso segura de segui-lo se somos ns mesmos que o fazemos brotar. Assim a vocao uma resposta a um apelo mais ntimo do meu ser, sem eu nada o substitui, venha de prpria vontade ou das solicitaes que recebo do exterior. Ela no inicialmente mais do que uma potncia que me oferecida; o carter original de minha vida espiritual, o de consentir faz-la minha. Ela se torna, ento, minha verdadeira essncia.</p> <p>Pode-se falhar em sua vocao por falta de ateno para descobri-la ou de coragem para realiz-la. Mas no se a descobre se se esquece que cada um tem a sua e que lhe cabe tambm encontr-la. E no se a realiza se no se sacrifica a ela todos os objetos habituais do interesse ou do desejo. Acontece que s se sente a presena dela quando se lhe infiel.</p> <p>H o perigo mais grave de imaginar que esta vocao longnqua e excepcional, enquanto que ela sempre prxima e familiar, e est envolta nas circunstncias mais simples em que a vida nos colocou. Trata-se, para cada um de ns, de discerni-la nas tarefas mesmas que nos so propostas, em vez de lhes desdenhar e procurar um destino misterioso que no encontraremos jamais.</p> <p>A vocao no se distingue por nenhuma marca extraordinria que seja o sinal de nossa eleio: e ela permanece invisvel, se bem que ela transfigure os mais humildes miserveis da vida cotidiana.</p> <p>E porque ela o sentimento de um acordo entre o que temos que fazer e os dons que recebemos, que ela para ns, uma luz e um suporte. Com ela, cada um nasce para a vida espiritual, cada um cessa de se sentir isolado e intil. Assim, ela no nos dispensa, como se poderia pens-lo, de querer e de agir: ao contrrio, ela carrega nossos ombros com um imenso fardo; ela deve nos tornar sempre prontos para aceitar qualquer nova obrigao, sempre prontos em nos comprometer sem jamais esperar. </p> <p> 6 A escolha inevitvel.</p> <p>Cada um de ns tem a ambio de abarcar pelo pensamento a totalidade do universo. Mas no podemos faz-lo a no ser numa perspectiva que nos prpria. um engano querer que busquemos abolir esta perspectiva para atingir as coisas tais como elas so. Porque ento as coisas nos escapam e deixam de estar em relao com a nossa vida: elas prprias se tornam esvaziadas de vida. No nos desligando do real onde estamos colocados que podemos esperar melhor capt-lo. penetrando nele com todas as potncias e todos os recursos que nos pertencem. A presena do ser universal coincide para ns com a realizao de nosso ser individual, em vez de ultrapass-lo e exclu-lo.</p> <p>O homem sempre teme se comprometer muito rpido. Vemos o mais prudente assim como o mais ambicioso, reservarem-se e esperarem. Eles ento deixam passar o momento porque cobiam um destino mais elevado, ou porque toda escolha que os solicita lhe fecha o horizonte e os separa deste Todo que eles esto vidos por estreitar. Mas o ser particular que eu sou, a ocasio que me oferecida, e uma certa proporo que sempre se estabelece entre minha liberdade e o acontecimento, me obrigam sem cessar a escolher; e a escolha mesma que fao, longe de me limitar, me fortifica, me obrigando a introduzir uma ordem entre minhas tendncias. Ela as unifica em vez de dividi-las. Ela me d uma via de acesso e um progresso no Todo que valem infinitamente mais do que essa posse ideal que eu imaginava, mas que eu me recusava a realizar, sob pretexto de guard-la inteiramente pura.</p> <p>Ningum pode esperar ter descoberto sua vocao antes de comear a agir: h um momento onde o indivduo deve apostar nela e correr o risco desta aposta. E talvez mesmo seja preciso que esta expectativa, esta descoberta e esta aposta, em vez de se suceder no tempo, se produzem em conjunto a cada instante. Est a o drama mesmo do instante. 7</p> <p> Fidelidade.</p> <p> mais difcil do que se cr permanecer fiel a si mesmo. A preguia nos desvia desta fidelidade, nos deixando entregues s causas exteriores, e tambm o amor-prprio pelo qual, para nos elevar acima do que somos, nos tornar estranhos a ns mesmos. A verdadeira coragem consiste em reconhecer nossa vocao, que nica no mundo, e permanecer-lhe fiel em meio a todos os obstculos que encontramos, sem nos permitir jamais ceder diante deles. Porque so estes obstculos que a fazem se revelar e que nos obrigam a cumpri-la. E as prprias tentaes no so seno provas que, no entanto, nos julgam.</p> <p>A fidelidade no pode estar separada do tempo. Ela me obriga a guardar a memria do passado, enquanto que minha vida recomea a cada instante. Mas se preciso que ela recomece a cada instante, para romper com o passado e perseguir sempre um novo objeto negando todos aqueles em contato com os quais ela se formou? Ou bem, para ultrapassar e promover tudo o que ela j fez, remontando sem cessar at a fonte intemporal de todos os atos possveis e, em vez de se conformar muito rigorosamente com a pura letra das promessas, deve reform-las, fazer um melhor uso delas, aumentar-lhes o fruto, mesmo se para isso for preciso, s vezes, perder a lembrana ou transformar esta lembrana em uma vontade que no cessa de renascer e de ratificar?</p> <p>A fidelidade me obriga a perseguir na ao, o cumprimento da inteno, sem me deixar esquecer, no entanto, que a ao aparece em um outro tempo e que ela possui muita espessura para que alguma inteno possa, de antemo, cont-la. A fidelidade no esta retido aparente p...</p>

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