As Meninas, De Maitê Proença e Luiz Carlos Góes

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    As Meninas de Mait Proena & Luiz Carlos Ges

    PERSONAGENS RUBI menina de doze LUZIA doze anos; melhor amiga de Rubi CONSUELO a defunta; trinta e cinco anos, me de Rubi BERTA av materna de Rubi DONA NINA me de Berta, bisav de Rubi; cartomante LINDA av paterna de Rubi PERIQUITA cambona de Dona Nina; est na famlia, em funes diversas, h muitos anos TIA OFLIA amiga de Consuelo JANDIRA empregada de Consuelo CENRIO SALA DE VELRIO. UM CAIXO NO FUNDO DO PALCO COM CORBEILLES ESPALHADAS E CADEIRAS ENCOSTADAS NA PAREDE. ENTRA LUZIA, UMA MENINA DE DOZE ANOS, SEGURANDO UM BUQU DE FLORES. OLHA PARA OS LADOS E JOGA DE LONGE O

    BUQU DENTRO DO CAIXO. FICA DE COSTAS PARA ELE.

    LUZIA (FALA BAIXINHO) Onde foi mame? Me deixou sozinha parada aqui perto do caixo! Onde mame v gente conhecida, ela corre e vai falar! S gente grande... Ningum presta ateno em mim! O que que adianta voc ser uma gracinha se ningum presta ateno em voc? Quando eu for atropelada quero ver: vo ficar com muito remorso! (FECHA OS OLHOS) Eu no consigo olhar tia Consuelo!

    E NA MESMA HORA ELA OLHA DETIDAMENTE O CAIXO.

    LUZIA Posso dizer uma coisa, tia Consuelo? Eu pensei que morto ficasse abatido, mas voc est quase bonita. Eu no digo que a senhora est bonita, porque no sei se pecado achar gente morta bonita... Desculpa estar aqui incomodando, mas que no conheo ningum que est aqui! Eu tenho que falar com algum, entende? a minha primeira vez num enterro: eu estou apavorada! Posso perguntar uma coisa? Eu no sou a melhor amiga da sua filha, Rubi? Sou ou no sou? Posso fazer uma ltima pergunta? Depois eu

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    prometo que te deixo descansar em paz como dizem que a gente

    deve fazer com os mortos. Doeu, tia Consuelo? Eu tenho tanto medo da dor!

    DE DENTRO DO CAIXO SURGE CONSUELO. EST SENTADA DENTRO DO CAIXO. EST TRISTE, PORM LINDA. LUZIA ARREGALA OS OLHOS, OLHA AO REDOR E, PERPLEXA, VOLTA A OLHAR PARA CONSUELO.

    CONSUELO Doeu sim. Doeu muito. Por isso que sua me no deixa voc brincar com faca. Ela corta. Fura a gente. Ela vai at o finzinho do corpo. Depois a dor passa. A gente morre.

    LUZIA (PERPLEXA) Eu no sei porque eu no estou gritando, tia Consuelo. Mame diz que tem alguma coisa errada comigo.

    CONSUELO E por que voc gritaria, Luzia?

    LUZIA (PERPLEXA) A senhora j notou que a senhora voltou dos mortos?

    CONSUELO No sei o que me deu! Tive uma vontade imensa de falar contigo. Te achei muito sozinha.

    LUZIA (OLHOS ARREGALADOS) A senhora sabe que as pessoas, quando notarem que a senhora virou morta viva, elas vo gritar, no sabe? Vai ter correria. Talvez matem voc de novo.

    CONSUELO Algo me diz que, tirando voc e minha filha, ningum mais pode me ver.

    LUZIA (COM MEDO) A senhora no vai ficar aparecendo sempre para mim no, vai? Eu sou de gritar. Eu sou de gritar muito... No

    sei porque eu no estou gritando agora!

    CONSUELO Pra mim tambm tudo muito novo. Eu no acredito em nada do que est acontecendo aqui. Eu jamais acreditei em outras vidas. Eu achava que a morte o nada, a escurido.

    LUZIA (NERVOSSSIMA) Eu no agento isso! Eu no agento esse negcio de fantasma, assombrao! Eu no sei se eu me controlo ou se eu grito!

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    CONSUELO Voc no grita no. Vai chamar muita ateno. J me deixei matar de um jeito que causou o maior rebulio. Onde eu vou escndalo! Chega de confuso comigo!

    LUZIA (NERVOSA) A senhora no se ofende se eu perguntar uma coisa ntima? Mas voc no notou que ele ia fazer alguma coisa? Me contaram que seu marido andava pela casa fumando muito.

    CONSUELO Com o olhar no fundo do pensamento...

    LUZIA (NERVOSA) Dizem que ele tinha emagrecido de dar aflio.

    CONSUELO (PENSATIVA) Como eu no notei as ideias que marejavam aqueles olhos de louco? Eu no o via, eu s via a mim.

    LUZIA (TRISTE) Rubi me contou que, s vezes, ela se aproximava do pai s para mostrar que estava ali e que, nesses momentos, os olhos dele ficavam "ternos como um boi depois do pasto".

    CONSUELO Eu via. Ele a abraava at estalarem as costelas da pobre. Ela se largava nos braos dele e nem sentia dor. E ela, com suas mozinhas de menina, apertava-o de volta querendo espremer

    toda tristeza para fora.

    LUZIA (CHOROSA) Por que vocs no se separaram?

    CONSUELO Ns no queramos. Queramos ficar juntos para nos machucar. Queramos ter raiva! Aquilo alimentava a gente!

    LUZIA (CHORA) Me perdoa, t? Eu sei que voc, a senhora melhor chamar de senhora nessas circunstncias que est morta e tudo, e que devo respeito senhora. Mas falam que voc tinha um amante.

    CONSUELO (SONHADORA) Eu tive um amante... Esto falando muito mal de mim?

    LUZIA (SEM GRAA) A senhora sabe como cidade do interior... A lngua dessa cidade enorme! Falam mal de mim, que sou esse encanto de menina! Dizem que eu no tenho bom gosto para me vestir! Logo eu!

    CONSUELO (RI SBIA) Quer dizer que me descascaram?

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    LUZIA Descascaram! Como se a senhora fosse uma laranja!

    CONSUELO (RI) E o que que essa gente faladeira est falando?

    LUZIA Eu vou dizer, mas voc no pode contar para ningum, t? Mas disseram que seu marido era mil vezes mais bonito que outro. Que voc louca! Que sabiam que voc ia terminar assim! Disseram: "amanhece cantando, adormece chorando!" Falam que a senhora era alegre demais! Que isto no certo numa mulher casada e com filhos para criar!

    CONSUELO (SBIA) E eles tm razo. Uma mulher casada no tem a menor razo de ser alegre. Ah, quer saber, j estou morta, no quero ficar irritada. Vou voltar a morrer um pouco.

    CONSUELO DEITA-SE NO CAIXO E MORRE. ENTRA RUBI, A FILHA DE DOZE ANOS DE CONSUELO. LUZIA CORRE E A ABRAA. AS DUAS FICAM ABRAADAS UM TEMPO.

    RUBI Luzia, eu estou com tanta vergonha!

    LUZIA (PREOCUPADA) Vergonha de qu? Vergonha de mim? Por que no tenho cabelo liso?

    RUBI Claro que no, Luzia! que eu sou a nica aqui que a me morreu! Est todo mundo olhando para mim!

    LUZIA No ligue! Eu no ligo! (ACHANDO BOM) Um dia eu tenho certeza, eles olharo para mim tambm!

    RUBI (FECHANDO OS OLHOS) No tenho coragem de olhar o que papai fez com mame.

    LUZIA Foi um pecado.

    RUBI (ANGUSTIADA) Voc sabe o que pecado?

    LUZIA Matar algum.

    RUBI (CHORA) S um minutinho, t, Luzia? Eu vou chorar um pouco l no banheiro.

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    RUBI SAI CORRENDO. CONSUELO SENTA-SE NO CAIXO.

    CONSUELO A madre superiora do colgio de Rubi um dia me chamou em seu gabinete.

    LUZIA Pra falar mal, tenho certeza. Por isso que eu no gosto de madres superioras. Elas se sentem superiores!

    CONSUELO Falou que os uniformes de Rubi eram os mais curtos do colgio. Que era pecado.

    LUZIA Mas que Rubi tem as pernas lindas! Da querer mostrar! Eu tambm mostro as minhas!

    CONSUELO Ela falou que o pior que as amiguinhas estavam querendo adotar o estilo de Rubi.

    LUZIA Eu tenho certeza que um dia Rubi vai ser uma estilista famosa!

    CONSUELO Foi o que eu pensei. A madre disse que minha filha no se moldava aos padres disciplinares "da instituio".

    LUZIA Eu e Rubi temos o esprito livre, tia Consuelo!

    CONSUELO Foi o que eu falei para a madre. Ela disse que o esprito livre at ser preso! Falou que minha filhinha, em vez de se relacionar com meninas de sua idade, se relacionava melhor com uma turma de moleques cafajestes!

    LUZIA Todos lindos! O que que a gente pode fazer?

    CONSUELO exatamente o que aconteceu comigo. Eu achava o meu amante lindo! O que que eu poderia fazer? Vou morrer de novo. Rubi est vindo. No quero assustar minha filhinha.

    CONSUELO MORRE DE NOVO. RUBI CHEGA ENXUGANDO OS OLHOS.

    RUBI (CHOROSA) Eu nunca mataria algum.

    LUZIA E quando voc anda na rua? Esmaga as formiguinhas com os ps.

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    RUBI (REVOLTADA) Elas que se enfiam embaixo dos meus ps! Eu no vou a casa delas para pis-las.

    LUZIA E os mosquitos? E as abelhas? E os marimbondos? Voc os mata com um tapa! Vai ter que se confessar pra no se queimar pra sempre no inferno das crianas ms!

    RUBI (AFLITA) Mas os insetos me atacam, no sou eu que os ataco! Como eu posso fazer para no matar nada?

    LUZIA (PENSATIVA) Foi isso que eu pensei. Acho que s morrendo.

    RUBI TAPA O ROSTO COM AS MOS. CONSUELO SENTA-SE NO CAIXO.

    CONSUELO (SUSSURRANDO) Pra de implicar com a Rubi, Luzia! Os seres humanos morrem de ataque cardaco. Formigas morrem de piso ou pisada e os insetos morrem de tapa!

    CONSUELO VOLTA A MORRER. LUZIA FICA PASSADA.

    LUZIA (PARA SI) Mesmo morta, se mete comigo!

    RUBI (TIRA AS MOS DO ROSTO) Repara como todo mundo no tira o olho de mim!

    LUZIA mesmo. Ningum olhou para mim quando eu cheguei! E at mame est olhando pra voc e chorando! Quero ver se, de repente, eu quebro um brao! Quero ver s!

    RUBI L vem v Berta. Coitada, no consegue nem andar.

    LUZIA Tambm, olha a altura do salto! Nossa, como ela est pintada!

    ENTRA UMA SENHORA EVIDENTEMENTE LOURA ARTIFICIAL, MUITO PINTADA, SE APOIANDO NUMA BENGALA. APESAR DE PRETO, SEU LUTO DE CERTO MAU GOSTO.

    BERTA (PARA LUZIA) Eu ouvi o que voc disse de mim, ouviu, gentinha? Me pintei porque no quero que ningum veja as marcas

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    que o sofrimento provocou no meu rosto! Algum aqui nesse

    velrio sabe a dor que perder a nica filha? Se sabem, no tem a menor importncia! Meu sofrimento maior do que qualquer sofrimento aqui dentro!

    RUBI Quer que eu te ajude, vov?

    BERTA (FRIA) Tenho minha bengala. E tenho amigas.

    ENTRA UMA MULHER (JANDIRA) QUE A AJUDA A SENTAR NUMA CADEIRA.

    BERTA (SENTANDO-SE) Infelizmente no tenho trocado para lhe dar uma cervejinha.

    JANDIRA (MAGOADA) Eu lhe ajudei por uma gentileza, Dona Berta. No estava espera de uma cervejinha! Como se eu bebesse!

    BERTA Todos querem alguma coisa de mim.

    LUZIA Voc ouviu o que Dona Berta falou praquela moa que a amparou at a cadeira?

    RUBI to difcil ser neta da av Berta.

    BERTA (CHORANDO ALTO. MULHER FOI EMBORA, APONTA PARA RUBI) Essa ingrata no queria vir se despedir da me! Disse que no queria ver a me morta! Francamente...

    RUBI (CHORA) Eu no sou ingrata! Eu amo minha me! S que eu combinei com a Irene, que praticamente minha tia, de no vir! Eu queria me lembrar da mame viva!

    LUZIA (ABRAA RUBI QUE SOLUA DE CHORAR) S entre ns, Rubi, mas tia Consuelo no est to morta como esto dizendo.

    RUBI (PARANDO DE CHORAR) O que que voc quer dizer com isso?

    LUZIA (MISTERIOSA) Os mortos voltam. Cala-te boca! No quero dizer mais nada.

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    BERTA (GRITA) Filha nica! Sabe o que filha nica, desnaturada? Estou sofrendo mais do que qualquer criatura pode suportar! Essa discusso com voc aumentou meu martrio! LUZIA (REVOLTADA) Ela sua av ou a madrasta da Gata Borralheira?

    RUBI (TRGICA) No existe Gata Borralheira. Nem Papai Noel. Eu no acredito mais em Papai Noel h muito tempo.

    LUZIA (NERVOSA) Quer parar com isso? Acredita sim. Depois ele ouve voc dizendo essas coisas e quem acaba no ganhando

    presente sou eu!

    RUBI Mas voc explica a ele que quem no acredita sou eu!

    LUZIA (NERVOSA) Voc rf e eu no sou! Papai Noel acaba perdoando voc e me usando como exemplo!

    RUBI (OLHANDO PARA BERTA, QUE EST SENTADA E SOLUANDO ALTO) Foi Jandira que levou vov Berta at a cadeira. Ela nossa diarista. Tava l na hora em que tudo aconteceu.

    (PAUSA) Disse que vov est "inconsolvel"!

    BERTA (GRITA) Eu quero dizer a todos neste velrio que eu estou inconsolvel!

    RUBI Viu? (PAUSA) O que mesmo "inconsolvel"?

    LUZIA uma pessoa a quem no adianta consolar.

    BERTA (TRGICA) melhor nem tentar! Sabe quando no adianta? assim: no adianta!

    LUZIA Voc consola, consola, bate na pessoa para ver se consegue consolar, mas no adianta: a pessoa continua "inconsolvel".

    RUBI Ah! Igual a capa de chuva: chove, chove e ela continua "inconsolvel".

    LUZIA N, n! Capa de chuva "impermevel", no inconsolvel!

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    RUBI (IRRITADA) Foi isso que eu disse!

    LUZIA (REVOLTADA) No foi no!

    RUBI (TRGICA) Minha me morreu, t?

    LUZIA (CULPADA) Desculpa, Rubi! Eu prometo que eu no fao mais: quer ir lanchonete tomar um refrigerante? Eu pago.

    RUBI (AFLITA) Querer eu quero. Mas ser que uma menina que acabou e perder a me assim, matada, pode beber refrigerante? No vai parecer que ela est alegre?

    LUZIA E o gs que deixa os olhos cheios d'gua, menina? A gente vai ficar mais triste ainda! Sempre que eu bebo refrigerante, minha me diz: "voc t to tristinha, o que houve?"

    RUBI Voc jura?

    LUZIA Juro pela minha me mortinha.

    RUBI (DECIDIDA) Vamos.

    AS DUAS SAEM. NO VELRIO FICAM BERTA E O CAIXO.

    BERTA (TEM UM ARREPIO) Tem algo muito estranho nesse velrio. No h Deus aqui.

    CONSUELO SENTA-SE NO CAIXO. BERTA SE BENZE VRIAS VEZES.

    CONSUELO No seja boba, mame! Se Deus existir, Ele estar em todos os lugares!

    BERTA (COM MEDO) Eu sabia que com voc ia ser diferente. Voc no est a! No seja transviada! Volte para a morte!

    CONSUELO S faltava... Nunca ouvi voc em vida, no vou ouvir na morte!

    BERTA (FURIOSA) E olha onde voc est, Consuelo! Num caixo! Morta! Derrubada pelo homem que voc amou tanto!

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    CONSUELO A gente quando est vivo muito bobo.

    BERTA (SE BENZE) Deus me perdoe! Mas a alma dela igual a ela! No aprende! Nunca gostei do Carlos.

    CONSUELO E ele nunca gostou de voc! Te achava exibida! Falastrona!

    BERTA (DIO) Preconceito porque eu sou desquitada!

    CONSUELO (RINDO) Dizia que voc tinha "formas abundantes".

    BERTA (DIO) Ele me achava gorda que eu sei! CONSUELO Ele sempre disse que quem come demais fica com todo sangue concentrado no estmago. No sobra pra irrigar a cabea. BERTA - Diz que eu uso excesso de batom! Que sai fora do contorno da boca! Tenho lbios finos, ora! Tenho que aument-los.

    CONSUELO E a cor do seu cabelo desde o incio assustou Carlos. BERTA Espalhou por toda cidade que meu cabelo oxigenado! E ! Mas algum precisa saber? Parece natural!

    CONSUELO (TRISTE) Ns somos um insulto para o Carlos. BERTA S faltava voc agora defender esse homem que te matou. Isso tudo um castigo! Eu errei muito. Abandonei seu pai cheio de enfisema, larguei voc num colgio interno pra ter amantes... E tive muitos amantes! Agora, tem uma coisa, nunca tra!

    CONSUELO Mas eu tra mame. Tra, no pude fazer diferente.

    BERTA (SE BENZE) Voc est morta. Tudo isso est se passando na minha cabea! Eu tenho que aceitar que voc morreu! A morte no tem volta! Preciso de caf.

    BERTA SE LEVANTA E SAI. CONSUELO, TRISTE, SUSPIRA E VOLTA A MORRER. DE DENTRO DO CAIXO, SAI UMA MULHER VESTIDA DE CARTOMANTE, QUE TRAZ UMA CADEIRA E UMA MESA.

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    COLOCA A MESA E A CADEIRA NO CHO, SENTA-SE NA CADEIRA,

    TIRA DO DECOTE UM BARALHO E ABRE EM CIMA DA MESA. V NINA (TIRA O NAIPE E MOSTRA PRA PLATIA) Espadas: representa ao. A espada corta e separa, indica rompimento, traio. regida pelo sol. (TIRA OUTRA CARTA) Copas: dedicada ao amor, aos grandes encontros. regida pela lua. (NOVA CARTA) Paus: parceria ameaada, adversrios, concorrentes invejosos. Regido pelo fogo. (OUTRA CARTA) Ouros: Abundncia, multiplicao, realizao material, criatividade. Regido pela terra. Estas so as cartas (FAZ UM GESTO INDICANDO O MUNDO SUA VOLTA) e aqui est o jogo!

    SAI DE DENTRO DO CAIXO OUTRA MULHER, ESBAFORIDA. VEM VESTIDA DE CAMBONA DE CENTRO ESPRITA E BATE UM TAMBOR.

    V NINA Sempre atrasada, no , Periquita! PERIQUITA Mas, tambm, l onde eu tive que ir pra buscar o tambor... V NINA No precisa de tambor, Periquita! Somos entidades de mesa. No somos de terreiro!

    PERIQUITA Uma cambona que se respeita bate tambor, Dona Nina! E depois, fica to misterioso!

    V NINA Toda cidade est nesse velrio, Periquita. Se eu estivesse viva, eu ia ficar rica! Poria cartas para todo mundo!

    PERIQUITA A senhora foi a maior cartomante desse pas, Dona Nina! Ningum via o passado e o futuro como a senhora.

    V NINA Mas nunca soube enxergar o presente.

    PERIQUITA O que houve entre Sr. Carlos e sua neta Consuelo no foi culpa sua!

    V NINA Ele e minha filha Berta no se bicavam, mas eu gostava dele com se fosse do meu sangue. Um homem to distinto... Amava tanto minha neta! Amava ou no amava, Periquita?

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    PERIQUITA Quem ama no mata, D. Nina. Apesar da senhora ser parente prxima, a senhora no pode se envolver! Estamos mortas.

    V NINA L vem voc! Sempre me atirando na cara que eu morri. Eu no me sinto morta, me sinto de frias.

    PERIQUITA (OLHANDO O ALM) Vamos ter que ir embora. O senhor Carlos no est aqui pra senhora se entender com ele. Est sendo caado pelo Brasil. A senhora sabe que no podemos ficar muito tempo fora.

    V NINA (TRISTE) Sempre soube o que ia acontecer. Antes de morrer eu vi nas cartas. Eu vi o Carlos golpeando minha neta.

    PERIQUITA Mas a senhora tentou avis-la.

    V NINA Incorporei num centro esprita onde que ela foi levada pelo amante. Desacordei-a e tudo. Mostrei que havia perigo de morte. Ningum entendeu o meu aviso. A fiquei na minha.

    PERIQUITA (BATENDO O TAMBOR) Karma.

    V NINA (ABRE O BARALHO NA MESA E VATICINA) Para sobreviver, minha bisneta vai ter que aprender a sofrer por partes.

    PERIQUITA No d pra uma menina de doze anos sofrer tudo de uma vez. E do jeito que as coisas andavam naquela casa, Rubi j vem sofrendo faz tempo, Dona Nina. Ali um dos dois ia morrer. Podia ter sido o contrrio, podia ter sido ele.

    V NINA Um duelo. Quem era o melhor matador, matou.

    PERIQUITA Se a Rubi tivesse que escolher um dos dois pra ficar vivo, ela escolhia a me. Ela gostava mais da me. V NINA (CHORA) E foi Consuelo que morreu. (ASSUSTADA) As cartas esto dizendo que Carlos vai morrer logo em seguida. Videntes no deviam ter famlia. E, se tivessem, deviam ser cegas!

    PERIQUITA (BATE TAMBOR) Chega, vamos embora, Dona Nina. Se Rubi precisar, a gente volta.

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    PERIQUITA PEGA A MESA. NINA COLOCA O BARALHO NO

    BOLSO, PEGA A CADEIRA, AS DUAS ENTRAM NO CAIXO E SOMEM. CHEGAM RUBI E LUZIA DE MOS DADAS.

    LUZIA Viu? No foi triste tomar refrigerante?

    RUBI No sei. Acho que a bebida para uma criana que perdeu a me uma laranjada aguada, bem fraquinha.

    BERTA (GRITA OFF) Eu vou me matar! Minha filha vai levar a me com ela!

    RUBI Se vov se matar hoje ns nunca mais vamos poder fazer as pazes.

    LUZIA (CONFORMADA) Minha me diz que tudo faz parte da vida.

    BERTA (ENTRA GRITANDO) Todos os dias eu vou tentar me matar!

    RUBI Vov gosta de sofrer em voz alta!

    BERTA (GRITA) Demnia! Vou me matar agora!

    RUBI (CHORA) No faz isso no, vov! Deixa a gente esquecer a morte da mame primeiro!

    BERTA T bom! Vou esperar at voc esquecer. Depois desse dia, eu me atiro num poo!

    LUZIA Acho que a D. Berta no vai parar de sofrer nunca.

    BERTA (GRITA) No agento esperar! Vou me matar agora! Vou cortar minha vida pelos pulsos! (TIRA DA BOLSA UMA GILETE) Estou com uma gilete em minhas mos! Vou me cortar, vou me cortar!

    LUZIA (FASCINADA) Duas mortas... Me e filha no mesmo velrio. Nossa, como eu vou ter assunto na escola! Vou me tornar a lder da turma!

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    RUBI (TAPA OS OUVIDOS) Ningum me respeita! Eu sou criana! Eu tenho medo da morte! Eu quero minha me! No vou ouvir mais nada!

    BERTA (GRITA) Pois vai! Voc no filha dele? Pois se acostuma com sangue, malvada! Primeiro vou me cortar inteira! Depois que eu estiver coberta de sangue, vou esmagar meu crnio batendo-o contra a parede! Meu crebro vai se espalhar pelo cho!

    RUBI E LUZIA GRITAM DE HORROR.

    BERTA (GRITANDO) Meus olhos vo saltar das rbitas! Meus dentes vo ficar espalhados pelo cho desse velrio!

    LUZIA Depois quero ver quem vai limpar. Eu no limpo!

    RUBI (EXPLODE) Vov, por que voc no se mata mesmo? Tenha coragem! Se mata aqui na frente de todo mundo! Voc nunca teve tempo de notar que tem netos, mas eu estou aqui. Se mata na minha frente, eu quero, quero ver mais sangue!

    LUZIA (ABRAA RUBI) Cuidado com a presso, Rubi.

    RUBI (AINDA CHORANDO) Que presso? Sobre o que que voc est falando?

    LUZIA o que a mame sempre diz quando papai berra com ela: "cuidado com a presso, criatura!"

    BERTA (SE LEVANTA FURIOSA) Nunca mais quero lhe ver. Nunca mais fale comigo. Nunca mais vou me pintar! Nunca mais vou ser feliz!

    BERTA SAI MANCANDO, APOIADA NA BENGALA.

    RUBI (ENXUGANDO AS LGRIMAS) Quando a me da gente morre, tudo di.

    LUZIA Ih, tem uma mulher puxando sua av de volta.

    BERTA E UMA MULHER ENTRAM SE PUXANDO.

    RUBI (OLHA) a tia Oflia!

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    OFLIA (FALA DE LONGE) No sou eu que est puxando Dona Berta! ela que est me puxando! No quer que eu fale com voc!

    BERTA A LARGA E SENTA-SE DE VOLTA. SOLUA ALTO.

    RUBI Luzia, tia Oflia ..., quero dizer, era a melhor amiga da minha me.

    LUZIA Como voc minha! A senhora no diretora do conservatrio onde Rubi tem aulas de piano?

    OFLIA Sou. Tambm ensino declamao.

    RUBI Tia Oflia est me transformando em declamadora! (DECLAMA)

    Vou-me embora pra Pasrgada L sou amigo do rei L tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasrgada

    Vou-me embora pra Pasrgada Aqui eu no sou feliz L a existncia uma aventura De tal modo inconseqente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que eu nunca tive

    E como farei ginstica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio

    Mando chamar a me-dgua Pra me contar as histrias Que no tempo de eu menino

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    Rosa vinha me contar

    Vou-me embora pra Pasrgada

    Em Pasrgada tem tudo outra civilizao Tem um processo seguro De impedir a concepo Tem telefone automtico Tem alcalide vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar

    E quando eu estiver mais triste Mas triste de no ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar L sou amigo do rei Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Pasrgada.

    OFLIA (MUITO EMOCIONADA) Manuel Bandeira... Mas essa no fui eu que te ensinei.

    RUBI No. Essa foi mame. Ela adorava!

    OFLIA (PASSA A MO NO CABELO DE RUBI) Como est voc, minha querida?

    RUBI (ABRAADA) Eu queria aprender a ser alegre de novo. Queria correr, dar risada, ser levinha... Agora parece que eu sou feita de cimento, tia Oflia.

    OFLIA A ABRAA MAIS APERTADO AINDA.

    LUZIA Quando eu via a senhora de longe, eu achava a senhora meio antiptica. Muito sria.

    OFLIA (AFAGA LUZIA) E de perto, o que voc achou de mim?

    LUZIA Achei a senhora triste.

    RUBI Tia Oflia como eu: tem vergonha.

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    LUZIA (OLHANDO PARA SUAS ROUPAS, CABREIRA) Vergonha de qu? De mim? Das minhas roupas?

    RUBI (SORRI, TRISTE) No, boba, de ficar triste.

    BERTA (BALANA O CORPO SOFRENDO) Tenho propriedades. Alm de uma belssima casa de dois, dois andares, eu tenho um amplo apartamento na So Luiz! Tenho prdios inteiros na praia de Santos. E tenho que ser mais respeitada!

    OFLIA No agento ficar aqui. Berta me oprime. Preciso respirar. Vou ficar sozinha. Eu e as lembranas de sua me.

    OFLIA BEIJA AS DUAS. ABRAA-AS COM FORA. VAI AT O CAIXO E OLHA UM TEMPO PARA CONSUELO. PASSA POR BERTA SEM LHE DIRIGIR PALAVRA E VAI EMBORA.

    LUZIA (ABRAA RUBI) Ah, Rubi, no fica com vergonha no. to lindo ficar triste.

    CONSUELO SAI DO CAIXO E SENTA-SE NUMA CADEIRA DO VELRIO. RUBI A V E FICA BOQUIABERTA. CUTUCA LUZIA QUE

    D ADEUSINHO CONSUELO.

    RUBI (PERPLEXA) Mame! O que que voc est fazendo viva?

    CONSUELO No, meu amor, eu estou morta. S que eu estou cheia de ficar l no caixo.

    RUBI (SEM ACREDITAR) Isso est acontecendo, Luzia?

    LUZIA (VITORIOSA) No falei que tia Consuelo no estava to morta, no falei? Ta ela para comprovar.

    RUBI Voc vai matar de susto todos que esto nesse velrio. Vov Berta j te viu?

    CONSUELO No sei se me viu. Me sentiu. Tanto que discutiu comigo.

    LUZIA S ns duas podemos ver tia Consuelo.

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    CONSUELO Estou com saudades de falar!

    BERTA Me deu um arrepio to esquisito! Este velrio est endemoniado.

    BERTA SE LEVANTA E SAI.

    CONSUELO Ningum fala comigo! Me olham, me olham, refletem, rezam, pensam em mim enquanto viva, me comparam enquanto morta, mas conversar, me explicar o que est acontecendo, ningum faz!

    RUBI (SE AGARRA A ELA) Mame, mame, mame, mame, mame! Como eu te amo, como eu te amo, como eu te amo!

    AS TRS CHORAM ABRAADAS.

    CONSUELO (SE RECUPERANDO) Sua me foi uma mulher extraordinria, no foi? Eu era muito amvel, no era?

    RUBI (CHORANDO) Era. Era.

    LUZIA (CHORANDO) Era sim. Era sim.

    CONSUELO Eu era sorridente, genuna, eu dispensava ateno a todos igualmente. Sem ser melosa ou piegas como as outras mulheres. E eu era encantada com a vida, por isso que eu encantava meus amigos.

    RUBI Era impossvel no te adorar, mame. S no sei se fica bem voc se autoelogiar desse jeito.

    LUZIA Deixa ela, Rubi.

    CONSUELO Ah, eu tenho saudades de mim. Eu era vibrante, gostava de crianas, de danar e de falar. Eu era muito inteligente!

    CONSUELO D A MO S DUAS. CANTA "A VIUVA ALEGRE" ("A viva alegre, a viva alegre, a viva alegre, era alegre alegre, a viva alegre era muito alegre...") E AS TRS SAEM DANANDO E CANTANDO.

  • 19

    RUBI (RINDO, MAS PARANDO DE VERGONHA) Devem achar que eu e Luzia estamos loucas.

    LUZIA (PARANDO) No conheo uma pessoa que tenha te conhecido, tia Consuelo, e que no se recorde de voc com muito entusiasmo.

    CONSUELO (ABRAA LUZIA E FALA ORGULHOSA) Eu sou professora de filosofia.

    RUBI (TRISTE) Era, me.

    CONSUELO (ABRAA RUBI) que eu me esqueo. Se lembra de como os meus alunos gostavam de mim? E como eu gostava deles?

    RUBI Voc era a nica professora que os alunos queriam por perto, mesmo depois das aulas.

    CONSUELO Eles iam para a nossa casa e no queriam mais sair de l.

    LUZIA Minha me diz que voc era chique, que voc era o que havia de mais moderno!

    CONSUELO Isso ningum pode negar: eu era modernssima!

    RUBI Se esqueceu, Luzia, de que mame foi secretria de cultura da nossa cidade e de todo interior do estado?

    LUZIA (CULPADA) No adianta querer me crucificar! Sou uma menina fraca, me esqueo das coisas.

    CONSUELO (FELIZ) Minha casa virou palco para ensaios de pera da Orquestra Municipal e para toda manifestao artstica que precisasse de palco!

    RUBI A casa parecia uma espcie de depsito de obras de arte. Tudo espalhado pela casa.

    CONSUELO Se lembra do galo? Que galo feio! Que galo querido! Que saudades do galo!

    RUBI Aquele galo de ferro que ciscava comida pela nossa cozinha.

  • 20

    LUZIA E o que que um galo de ferro come?

    RUBI Milhos de ouro.

    CONSUELO (BEIJA RUBI) A gente respira arte, s arte! Voc uma artista, minha filha. Luzia, voc sabe que Rubi comeou a pintar?

    RUBI (SRIA) Pintei, pintei, pintei, no conseguia parar! Quase fiquei louca! CONSUELO (ACARICIANDO-A) Foram os quadros mais bonitos que eu j vi na vida.

    RUBI (RI) Ah, mame, s voc mesmo.

    CONSUELO Tinha o piano. (COMEA A TOCAR UM PIANO IMAGINRIO) Haendel (ENTRA UM TRECHO), Bach (ENTRA UM TRECHO), Mozart (ENTRA UM TRECHO), Chopin (ENTRA UM TRECHO), Debussy (TODA ESSA CENA ELA TOCA IMAGINARIAMENTE UM PIANO)... Sinto tanta falta do meu piano!

    RUBI (AFAGA O ROSTO DA ME) Lembro-me de cada detalhe. De suas mos quando voc tocava. Das veias saltadas, das unhas bem cortadas, dos ns fortes dos dedos (OLHANDO-OS), que so longos e belos como os de mais ningum!

    CONSUELO (EMOCIONADA) Nada se compara a um filho, Rubi.

    LUZIA (CHORA) Se mame tivesse as mos iguais s suas! Nem sei se mame tem mos. Ela no mostra!

    RUBI (EMOCIONADA) J gostei de algumas pessoas s por terem as mos parecidas com as suas, mame.

    CONSUELO (TRISTE) Uma semana antes de minha morte, para comear a me machucar, que era o que ele queria, seu pai cortou as cordas do piano com uma tesoura de jardim. Comecei a morrer ali.

    CONSUELO SE LEVANTA. BEIJA AS DUAS, ENTRA NO CAIXO E VOLTA A MORRER.

  • 21

    RUBI (OLHA EMOCIONADA A ME ENTRAR) Voc acha mesmo lindo ficar triste, Luzia?

    LUZIA Triste a gente fica muito mais interessante.

    RUBI Acho que vou ficar triste para o resto da vida. Eu estou de luto, vov falou. Voc acha que eu sei ficar de luto?

    LUZIA (BOA, VERDADEIRA) Parece que voc aprendeu desde pequenininha. Voc est at mais bonita que eu! E olha que todo mundo me acha uma boneca!

    RUBI por causa da tristeza. Gozado, sempre que tia Oflia ia l em casa, ela olhava muito para mim. s vezes, parecia que ela ia chorar.

    LUZIA Preocupao.

    RUBI Como que voc sabe?

    LUZIA Eu j tenho doze anos. Aprendi com a vida, como minha me fala! Por exemplo: sua tia Oflia est com uma tristeza que se

    chama "profunda".

    RUBI (REPETE) Uma "tristeza profunda". Que di l no fundo.

    LUZIA Voc est dormindo aonde agora?

    RUBI Essa noite eu passei numa casa onde eu no conhecia ningum. Num quarto, rodeada de gente desconhecida. Eu fiquei deitada na cama e eles ficavam me olhando em silncio.

    LUZIA Estavam esperando a hora que voc ia dar um escndalo. Todo mundo gosta de escndalo. No maldade.

    RUBI Eu sei. curiosidade. Se eles pudessem, eles me ajudavam. (OLHANDO O CAIXO, MO NO CORAO) Mas que a presena dela aqui me entope. Eu no consigo chorar.

    LUZIA Finge.

  • 22

    RUBI Eu fingi. Aquela gente calada me esperando chorar. Eu solucei bem alto. Senti que eles ficaram meio aliviados. Mas sabe no que eu estava pensando de verdade? Na cama em que eu estava deitada!

    LUZIA Como era a cama? Igual aos dos faquires, de pregos?

    RUBI No era de pregos. Era de molas! Eu nunca tinha dormido numa cama de molas! Minha cama dura!

    LUZIA O que voc pensou quando soube o que tinha acontecido?

    RUBI Como estaria mame. Se tinha muito sangue nela. E o que acontecer ao papai. Se vai preso, se vai se matar tambm...

    LUZIA tanta coisa! Tanto problema! Ns somos muito novinhas para sofrermos tanto, Senhor!

    RUBI Uma hora eu no aguentei! Levantei e sai andando daquele quarto, daquela gente. Queria voltar para a minha casa.

    LUZIA Voltou? Voc voltou mesmo sabendo que sua me tinha sido morta l?

    RUBI No deu. Toda a minha rua estava parada em frente. Me deu vontade de gritar: "essa a minha casa! Vo embora para a casa de vocs!"

    LUZIA que os vizinhos gostam de bisbilhotar. Saber como a casa dos outros por dentro. RUBI No queria que ningum visse o corpo da minha me daquele jeito...

    LUZIA Minha me disse que, quando algum morre assassinado, o corpo deixa de pertencer famlia e passa a pertencer aos jornalistas.

    RUBI Sa andando pela rua e de repente eu senti que algum tinha se colocado do meu lado. Era o Tato.

    LUZIA Aquele aluno mais velho da sua me que te adora?

  • 23

    RUBI Sempre me pega pra gente passear. Eu me senti to segura com ele que quase desmaiei. Ele me levou para a casa da tia Irene.

    LUZIA Sei! A vizinha que amiga de sua me. Onde voc vai toda tarde brincar com a cachorra.

    RUBI Toda tarde eu vou l comer pipoca e conversar com tia Irene. Ela conversa com criana com o mesmo respeito que ela conversa com adulto. Eu adoro a casa dela.

    LUZIA Minha av acha lindo quando eu fico com olheiras. porque a me dela morreu tuberculosa, com bolsas pretas debaixo

    dos olhos.

    RUBI Porque voc est falando isso?

    LUZIA Para te dizer que eu tambm tenho olheiras, que eu tambm no durmo de noite.

    RUBI (TRGICA) Ns somos duas desgraadas.

    LUZIA Rubi... Posso te perguntar uma coisa?

    RUBI (CONFORMADA) Voc vai perguntar mesmo se eu disser que no pode, no vai?

    LUZIA Rubi, eu mudei tanto. Aprendi. No sou mais aquela bobinha de onze anos!

    RUBI N n: uma bobinha de doze. T, t, pergunta!

    LUZIA Voc sabia que isso ia acontecer?

    RUBI (TRGICA) Sabia.

    CONSUELO SENTA-SE NO CAIXO.

    CONSUELO Eu sabia. Todas as mulheres do mundo sabiam. As mulheres sabem, mas deixam a vida correr e no fazem nada. (VOLTA A MORRER)

    LUZIA Sabia como?

  • 24

    RUBI Jura que voc no vai contar para ningum?

    LUZIA E no juro? Juro pela minha me mortinha!

    RUBI Eu vi.

    TUDO SE APAGA. LUZ NO CAIXO QUE VIROU UMA CAMA. CONSUELO DORME. DO SEU LADO TEM UM VOLUME DEBAIXO DA COBERTA COMO SE FOSSE UM CORPO. RUBI VAI AT A CAMA E PRA OLHANDO.

    RUBI Meu irmo mais velho me chamou para ver uma coisa. Isso. Mame dormindo na cama do papai com o amante. Os dois nem viram a gente entrar. Dormiam profundamente. Eu sacudi mame. Eu falei que papai ia chegar. Mas nem ela e nem o amante acordaram. Fui para o meu quarto, me tranquei e comecei a chorar.

    TUDO VOLTA AO NORMAL. CAMA VOLTA A SER CAIXO NO VELRIO.

    LUZIA Ser que voc vai virar santa depois de morrer? Voc sofreu tanto!

    RUBI (CHORA) E no s isso. Todo dia vou pra escola levando segredos na lancheira.

    LUZIA Que segredos? Chocolate? Cigarro? Voc est fumando?

    RUBI (CHORA) Meu corpo est mudando. Estou com dois caroos no lugar onde ficam meus peitos. No posso dormir de barriga para baixo. Eles doem.

    LUZIA (NERVOSA) Tenho uma amiga que tambm est assim. Acho que ou uma praga ou uma epidemia.

    RUBI (IRRITADA) E voc, papagaia, que no para de falar e no diz nada!

    LUZIA (CHORA) Tem pena de mim que eu no sou rf como voc, sou uma menina nervosa, vivo jogada! Ningum se importa comigo! Sou uma criana muito sozinha!

  • 25

    RUBI Meu sonho ter uma gruta como a do Zorro para eu me esconder do Tempo.

    LUZIA Mame diz que, do Tempo, ningum se esconde.

    RUBI Ningum, eu sei.

    LUZIA (CHORA) Eu tambm estou com uns caroos que parecem duas mas.

    RUBI (ESPANTADA) Voc?

    LUZIA Ns somos "meninas mutantes"!

    AS DUAS RIEM. DEPOIS FICAM SRIAS.

    RUBI Depois que eu vi mame com o amante, eu fiquei com medo de tudo. At quando papai cortava o peru de Natal eu ficava com medo da faca.

    LUZIA Nunca presto ateno na faca. S nos tamanhos das fatias que minha me corta. Finssimas pra mim! E grossas pro meu irmo, aquele grosso!

    RUBI No parece que eu tenho doze anos.

    LUZIA como eu. Tenho doze, mas parecem quarenta.

    RUBI RI. LUZIA NO AGENTA E RI TAMBM. FICAM SRIAS DE NOVO.

    RUBI Eu tenho que ser paciente, tenho que ser compreensiva, tenho que ser companheira... s vezes, me sinto como se fosse

    uma adulta.

    LUZIA porque voc perdeu a me. Todo mundo pensa que, quando a gente fica rf, fica tambm boazinha.

    RUBI (REVOLTADA) Mas meu irmo no tem que ser nada! S tem que ser triste como se fosse um beb!

    LUZIA (PE A MO NOS OMBROS DE RUBI) Acontece que ns duas viemos da barriga de nossas mes. No somos iguais aos

  • 26

    nossos irmos, que vieram trazidos pela cegonha! Umas cegonhas

    pretas.

    ENTRA BERTA COMPLETAMENTE TRESLOUCADA.

    BERTA (GRITA) Meu lugar no caixo ao lado da minha filha! (CORRE E ENTRA NO CAIXO E SOME)

    LUZIA (GRITA) Viu, Rubi? Sua av entrou no caixo! Que maravilha de velrio, gente!

    RUBI (GRITA) Sai j de dentro do caixo da mame, vov!

    LUZIA (GRITA FAZENDO GESTO DE GORDA COM AS MOS) O caixo estreito! No vai caber vocs duas, Dona Berta!

    BERTA COLOCA A CABEA PARA FORA.

    BERTA (GRITA) Esquisita! Gentinha! Cabelo ruim.

    BERTA VOLTA A DEITAR NO CAIXO.

    LUZIA (CHORANDO) Viu, Rubi? Me chamou de esquisita, gentinha e falou que o meu cabelo ruim! Logo o meu cabelo, Rubi! Para ofender!

    RUBI (GRITA) No chama Luzia de esquisita, gentinha e cabelo ruim no, t? Ela minha melhor amiga!

    BERTA COLOCA DE NOVO A CABEA FORA DO CAIXO.

    BERTA (GRITA) Amiga de gentinha esquisita e do cabelo ruim, gentinha esquisita e do cabelo ruim !

    BERTA VOLTA A DEITAR NO CAIXO

    RUBI (FURIOSA) Sai j do caixo da minha me!

    BERTA COLOCA A CABEA PARA FORA.

    BERTA (GRITA) Quem pagou esse caixo fui eu! Com o dinheiro que eu recebo do aluguel de minhas propriedades!

  • 27

    LUZIA (GRITA) Sai j do caixo da me da outra! No foi a senhora que morreu, foi tia Consuelo!

    RUBI (FURIOSA) Ou sai por bem, ou sai por mal! Eu vou chamar o papai!

    LUZIA (CANTA) Ih, o tio Carlos vem a! O tio Carlos vem a! Vai peg-la de jeito, vai peg-la de jeito!

    RUBI (GRITA) Ih, t vendo uma fumacinha l longe! papai, vem correndo segurando uma faca!

    BERTA SAI DO CAIXO GRITANDO. CONSUELO COLOCA A CABEA PARA FORA.

    CONSUELO Corre mame! Corre! Ele est quase te pegando!

    CONSUELO VOLTA A MORRER. BERTA SOME. LUZIA E RUBI MORREM DE RIR. DEPOIS FICAM SRIAS.

    LUZIA Tio Carlos virou o Bicho Papo!

    RUBI Agora vai ser assim: implicou comigo, eu chamo o papai! LUZIA J acharam o tio Carlos?

    RUBI No. Papai est desaparecido. Estou to preocupada com ele...

    LUZIA (TEM UM INSIGHT) Ele tem que ficar preso numa cadeia perto da sua casa para ele poder tomar conta de voc e do seu irmo!

    RUBI Acho que tem um lugar na cabea da gente em que o futuro fica guardado.

    LUZIA (SBIA) Num cofre.

    RUBI Num quartinho, com algum ali olhando a vida da gente e escrevendo o que vai ser no dia seguinte.

    LUZIA (EXPLICANDO) Deus.

  • 28

    RUBI E, s vezes, algumas pessoas visitam esse quartinho e ficam sabendo das coisas que vo acontecer. LUZIA (FASCINADA) Nossa! A gente fala to difcil quando a me da gente morre! Tudo o que voc fala lindo! RUBI (TRISTE) Tia Oflia me disse que eu j sabia o que ia acontecer e que eu no podia fazer nada porque que eu s tenho doze anos. LUZIA (VAI AT RUBI E A ABRAA)

    DO CAIXO SAI V NINA

    RUBI (BOQUIABERTA) Meu Deus! Minha bisav! Nina!

    LUZIA (RECLAMANDO) T todo mundo usando o caixo de tia, Consuelo!

    NINA Fugi.

    RUBI De onde, V Nina?

    NINA L do lugar onde estou.

    LUZIA Por acaso quente o lugar que a senhora est?

    NINA No seja abusada! No estou no inferno!

    RUBI Por que a senhora est aqui?

    NINA Para te dizer: seja corajosa porque voc vai ter Mariana.

    RUBI Mariana?

    NINA Sua filha. Eu voltei para te mostrar o futuro.

    TUDO SE APAGA. SURGE UM TELO. UMA MULHER DEITADA NUMA CAMA ESTENDE OS BRAOS PARA UMA ENFERMEIRA DE MSCARA, GORRO E LUVAS QUE SEGURA UM BEB. ELA ENTREGA O BEB MULHER. CLOSE NOS DOIS. MULHER SORRINDO SEGURANDO UM BEB, COM LGRIMAS DESCENDO DE EMOO.

  • 29

    NINA Voc.

    RUBI Quem?

    NINA Voc a me. O beb Mariana, sua filha.

    LUZIA (BOQUIABERTA) O futuro...

    NINA Estou tranqilizando Rubi.

    LUZIA E eu? E o meu futuro?

    NINA Sou bisav da Rubi, t? A me dela morreu, t? O pai sumiu. Ela precisa saber que nada acabou. O futuro vai se chamar Mariana.

    LUZIA (CHOROSA) Eu no estou no futuro de Rubi?

    NINA (IMPACIENTE) Est. S que voc foi ao supermercado comprar porcarias! Por isso que voc no apareceu no nascimento de Mariana.

    LUZIA Ah, bom. Fui comprar que porcarias? Quem me deu dinheiro? meu? O dinheiro meu? Vou estar rica?

    RUBI Se controla, Luzia! V Nina est morta! Est cansada! Mais respeito!

    NINA Rubi, quando voc se deparar pelo caminho com umas mulheres querendo te ajudar mundo afora, pode confiar nelas, porque elas sero eu.

    VOZ OFF DE PERIQUITA D. Nina! Volta, D. Nina! No abusa!

    NINA (GRITA) Estou indo, Periquita! (NORMAL PARA AS DUAS) Perdoa sua av Berta, Rubi. minha filha e, como todas ns: uma menina! (SAINDO) Estou achando o velrio meio cado. Est faltando um sambinha.

    V NINA ENTRA PELO CAIXO E SOME. DE DENTRO DO CAIXO, SURGEM LUZES COLORIDAS. DALI SAI CONSUELO VESTIDA DE "CROONER" NUM VESTIDO VERMELHO E CHAMATIVO. DESCE DO CAIXO E FAZ UM NMERO.

  • 30

    com esse que eu vou sambar at cair no cho com esse que eu vou desabafar na multido Se ningum se animar Eu vou quebrar meu tamborim Mas, se a turma gostar, vai ser pra mim (AS TRS CANTAM JUNTAS) Quero ver no ronca ronca da cuca Gente pobre, gente rica, deputado, senador Oi quebra quebra que eu quero ver Uma cabrocha boa No piano da patroa, batucando com esse que eu vou!

    NMERO TERMINA. AS MENINAS APLAUDEM. O PBLICO APLAUDE! CONSUELO AGRADECE E SOME NO CAIXO.

    LUZIA Que velrio divino! Melhor do que o parque de diverses!

    RUBI Mame mil vezes melhor que uma montanha russa!

    LUZIA (BEIJA RUBI) Um milho de vezes!

    AS DUAS VO DE NOVO PARA A BEIRA DO CAIXO E FICAM OLHANDO CONSUELO.

    RUBI Mame t to sria!

    LUZIA Tambm, rir do qu? Ela est morta, Rubi. Morto no ri. Morto fica assim, sonhando.

    RUBI (TRISTE) Se ela estivesse sonhando coisa boa dava um sorriso. Mame tem as mos e os dentes mais bonitos de todo o

    Universo.

    LUZIA Quando chegar ao Cu, ela vai voltar a rir de novo. ENTRA A AV PATERNA DE RUBI. BELSSIMA. PARECE A ME DE GIULIETA DEGLI ESPIRITI, DE FELINI. VAI AT AO CAIXO E ABRAA AS DUAS.

    RUBI Vov, como voc est linda!

  • 31

    LINDA O que que eu posso fazer?

    RUBI Voc a pessoa mais bonita do velrio!

    LINDA Eu sempre sou a pessoa mais bonita dos lugares em que estou.

    RUBI (A ABRAA APERTADO. LINDA SE ENTREGA) , vov, que bom que voc veio!

    LINDA No porque o meu filho matou Consuelo que eu deixei de am-la! Eu sempre fui louca por Consuelo. Era linda, como eu! Ns gostvamos de ficar admirando uma outra. (ACARICIA CONSUELO NO CAIXO) Ah, meu filho, meu filho, meu filho!

    LUZIA (SONHADORA) Vocs se admiravam como se cada uma fosse uma paisagem. Como se fossem janelas!

    LINDA Como se fssemos janelas.

    RUBI Como voc fica bem de luto, vov!

    LINDA o segundo velrio que eu vou em pouco dias. Duas mulheres lindas, trgicas. Uma morre dessa forma e a outra, suicdio.

    RUBI Quem se suicidou, vov?

    LINDA Aquela amiga que era minha vizinha h cinqenta anos. Acho que se cansou de ser minha vizinha e se suicidou. Eu fui a primeira a chegar na cozinha onde estava morta. Rubi, meu amor, se voc um dia pensar em se matar, Deus me livre!, mas, se pensar, faa-o com gs. Ela estava linda, com a cabea cada ao

    lado do forno, toda rosadinha, esticada... Nunca esteve to bem.

    RUBI Pode ficar tranqila, vov, eu no te envergonharei. Se eu me suicidar, vai ser com gs. E meu rosto vai ficar uma beleza!

    LUZIA Ser que tambm vou morrer linda?

    LINDA Cuidado com as esquisitas, Rubi. Elas so ms.

    RUBI Por que, vov?

  • 32

    LINDA So frustradas, amargas, tristes, julgam a ns, pessoas magnficas, com absoluta implacabilidade!

    LUZIA Sou bela? Sou boa? Sou feia? Sou m?

    LINDA (REVOLTADA) muito fcil resistir aos prazeres da vida, ser sbria e recatada, quando as oportunidades para fazer diferente s surgem vez por outra em ano bissexto! Para no cometer desatinos, eu praticamente tenho que viver enjaulada em mim mesma!

    RUBI Mame e papai no me criaram para ser bela como voc vov. como a Madre Superiora me chamou: eu sou uma moleca!

    LUZIA E qual a diferena? Voc uma moleca linda e bem vestida, como eu!

    LINDA (REFLEXIVA) Pela violncia que ela sofreu, at que Consuelo est muito bem. Seu rosto est impecavelmente sereno.

    RUBI Dizem que os mortos descansam.

    LINDA (CHORA) No foi por amor! Foi por orgulho! Foi por orgulho!

    LUZIA Minha me disse: "no firam o orgulho de um homem! O orgulho ferido torna seu marido um animal!"

    LINDA (ACARICIA CONSUELO. BEIJA-A COM TERNURA) Vou-me embora! Preciso sofrer longe desses olhares.

    RUBI Voc gosta de sofrer, vov?

    LINDA Me alivia. E fico bonita chorando. Meus olhos ficam cristalinos e brilhantes, as lgrimas descem como fiozinhos prateados e, com a iluminao certa, chega a ser deslumbrante!

    LUZIA (BOQUIABERTA) A senhora a pessoa mais maravilhosa que eu j conheci! No vai embora no! Fica com a gente! T uma delcia esse velrio!

    RUBI A gente chora, mas tambm ri.

  • 33

    LINDA No quero me encontrar com Berta. No quero me despentear. No quero quebrar minhas unhas! como dizem: "adoea, mas no descuide da aparncia! Fique de cama, mas fique divina!"

    LINDA BEIJA AS DUAS E SAI SOB APLAUSOS DO VELRIO. UMA GRANDE DAMA DE NEGRO.

    RUBI Como ela ama o papai. Seu corao deve estar partido ao meio. (ARRASADA) Onde estar papai?

    LUZIA At agora voc no sabe nada dele?

    RUBI S me disseram que ele tinha feito isso e sumido. Um vizinho viu-o sair ensanguentado, pegar o carro e disparar em alta velocidade. Falou que ele parecia transtornado.

    LUZIA No Cu, tia Consuelo vai virar anjo.

    RUBI (TRISTE) Mame no vai para o Cu. Eu perguntei pra ela se Deus existia e ela disse que era igual Papai Noel, que existe s pra quem acredita nele. E ela sabia que eu j no acreditava...

    LUZIA (INCOMODADA) Minha me disse que o nosso bairro inteiro vai para o Cu! Mame disse que aqui s tem gente boa! Minha me no mente! Se bem que ela s vezes ela mente sim! (CHORA) Eu sou to infeliz!

    RUBI (ENDIREITANDO AS FLORES NO CAIXO) Puseram flores demais na mame.

    LUZIA (MISTERIOSA) para esconder.

    RUBI (SRIA) As marcas da faca.

    CONSUELO SAI MAIS UMA VEZ DO CAIXO. SENTA-SE DO LADO DAS MENINAS.

    CONSUELO Eu conheci Carlos num concerto de piano de um grande pianista. Aquele homem digno, ouvindo o piano sem defesa alguma. Irresistvel. Um homem introspectivo com uns olhos que

  • 34

    pareciam a luz azul: observava com muito interesse meu cabelo

    preto liso, que me corria junto cabea comprida e bem ovalada.

    AS MENINAS RIEM.

    RUBI (RINDO) Mame, voc no muda!

    LUZIA Deixa tia Consuelo lembrar do jeito que ela era!

    CONSUELO Minha pele era limpa. Eu era plida. Estava sem pintura. Meus olhos, que so pretos como o cabelo, olharam apenas fugazmente na direo do Carlos.

    AS TRS RIEM.

    CONSUELO Me lembro como se fosse hoje: eu estava vestida com um casaco de arminho branco.

    RUBI Papai falou que voc foi pra ele, naquele momento, "a prpria imagem da beleza".

    CONSUELO (SORRI MALICIOSA) Carlos me fez sinais para que o seguisse para o salo de espera durante o intervalo.

    LUZIA E voc foi?

    CONSUELO Claro que no! Ignorei-o!

    RUBI Papai me falou que nunca teria tido coragem de te dirigir palavra naquelas circunstncias.

    CONSUELO Na segunda parte do concerto, vagou a cadeira do meu lado. Ele, claro, sentou-se. Convidou os demais espectadores

    da fila a moverem-se tambm naquela direo e o gesto ganhou grande naturalidade e a aprovao de todos que puderam, assim, enxergar melhor.

    RUBI Papai muito inteligente!

    CONSUELO Em menos de um momento, j me pedia emprestado o programa do espetculo.

    LUZIA (ROMNTICA) E como foram suas primeiras palavras?

  • 35

    CONSUELO (ROMNTICA) Foram leves e maravilhosas. Ns sorrimos um para o outro e alguma coisa de muito profunda, quente, terna, comeou a tomar corpo entre ns.

    RUBI Voc exerceu sobre o papai "um fascnio sublime", como ele disse.

    LUZIA Fascnio? O que fascnio?

    RUBI O que a mame era como pessoa enfeitiou o papai.

    CONSUELO Seu pai era dez anos mais velho do que eu. Estava na melhor das idades. Era bonito para todos os padres. Tinha o porte atltico. Era alto, e dois olhos azulssimos impressionavam naquele rosto de linhas clssicas.

    LUZIA Viu como ela narrou bem, Rubi? E est morta! Imagina isso viva?

    CONSUELO Mas ele no estava apaixonado. E eu sempre tive uma necessidade imensa de desencadear paixes.

    RUBI Mame, voc inesquecvel!

    CONSUELO (SONHADORA) Ficamos um tempo sem nos ver. Ele quis que eu fosse ao apartamento dele.

    LUZIA Ih... A senhora e ele sozinhos. A mame no deixa isso no!

    CONSUELO Eu no liguei. Sempre fui modernssima. Mas no fui.

    LUZIA E como aconteceu o reencontro?

    CONSUELO Passei no apartamento e coloquei um bilhete na porta de entrada dizendo que estava com saudades dos olhos-mar-do-Caribe. (DIVERTINDO-SE) Tem que se ter coragem pra lanar mo de um clich assim.

    RUBI Quando ele leu o bilhete, na mesma hora nasceu um "amor infinito", como ele me falou.

  • 36

    CONSUELO (SUSPIRA) Quando a gente morre, no d mais pra conversar. Tinha tanta coisa que eu queria esclarecer com ele. Tivemos um amor surpreendente com um final muito triste.

    CONSUELO LEVANTA-SE TRISTE E SOME DENTRO DO CAIXO. AS DUAS VO EMOCIONADAS AT O CAIXO E FICAM OLHANDO.

    LUZIA (EMOCIONADA) Parece que tia Consuelo est dormindo.

    RUBI (TEM UM ACESSO DE CHORO) No parece no! Mame parece morta! Mortssima! Mame era linda quando dormia!

    LUZIA (TAMBM TEM UM ACESSO DE CHORO) Voc no pode falar comigo desse jeito! No porque sua me morreu que voc melhor do que os outros! (CHORA ALTO)

    RUBI (NERVOSA) Para de se exibir, Luzia. No coisa para se chorar to alto assim! Ih, vov voltou!

    BERTA EST PARADA NA PORTA DO VELRIO.

    BERTA (GRITA) Rubi, j aqui!

    RUBI Por que voc no vem at aqui?

    LUZIA A distncia a mesma!

    BERTA (GRITA) No estou me dirigindo a voc, gentinha! Rubi, j aqui! Antes que seu pai chegue!

    RUBI Papai sumiu!

    BERTA No confio. Um homem que tem pacto com o diabo some e aparece quando quiser!

    RUBI VAI AT ELA. BERTA LHE D UMA TESOURA E LHE FALA BAIXO. DISCUTEM BAIXINHO. RUBI VOLTA IRRITADA COM A TESOURA.

    RUBI Vov quer que eu corte um pedacinho da franja da mame!

    LUZIA Sua av acha que a franja est comprida?

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    RUBI Ela quer pra eu guardar de lembrana. Mas eu no quero. Vai que mame d um escndalo?

    LUZIA (PEGA A TESOURA) Deixa que eu corto pra voc.

    AS DUAS VO AT O CAIXO. LUZIA SE DEBRUA.

    LUZIA Com licena, tia Consuelo, mas Dona Berta, sua me, mandou cortar a franja da senhora! (CORTA A FRANJA)

    RUBI (HORRORIZADA) Voc cortou a franja toda!

    LUZIA que eu queria um pedao pra mim tambm.

    RUBI (PEGA DA MO DE LUZIA E SEPARA) S um pedacinho. Estou te dando porque voc minha melhor amiga.

    RUBI D A LUZIA, QUE GUARDA. AS DUAS, DE MOS DADAS, VO AT BERTA E LHE ENTREGAM SUA PARTE. BERTA FICA COM A FRANJA NAS MOS CHORANDO. TIRA UM PENTE DA BOLSA E PENTEIA CARINHOSAMENTE A FRANJA, DOBRA-A COM MUITO CUIDADO E COLOCA DENTRO DA BOLSA. DEPOIS DE UNS SEGUNDOS, VAI SAINDO DEVAGAR.

    RUBI (TRISTE) Vo levar mame. Vo enterr-la no fundo de um buraco, junto com meu av que morreu no ano passado. As pessoas andam morrendo muito. LUZIA As suas pessoas. Das minhas no morreu ningum.

    CONSUELO COLOCA A CABEA FORA DO CAIXO.

    CONSUELO Quero que meu corpo adube vrios ps de bounganville! De todas as cores! Rubi, quando voc olhar para os bouganvilles cobertos de flores, pense: como esto lindas as mames!

    RUBI Ontem eu estava sentada no teu colo vendo televiso! E agora mame, como vai ser?

    CONSUELO (SAI DO CAIXO E COLOCA RUBI NO COLO) Quando voc tiver uma filha, em alguns momentos, ela tambm vai ser sua me. Tambm vai te botar no colo, vai te dar calor. E todas as

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    outras mes vo tomar conta de voc at voc se tornar me

    tambm, e comear a tomar conta de suas prprias meninas. Meu amor, daqui pra frente a Luz. Adeus. Adeus, Luzia.

    CONSUELO ENTRA NO CAIXO. LUZ SOBRE ELE SE APAGA. CAIXO SOME.

    RUBI Levaram mame. Todo mundo foi junto. Se esqueceram de mim.

    LUZIA (CORRE AT A PORTA QUE EST DE FRENTE PARA A PLATIA) J colocaram o caixo no carro.

    RUBI (CORRE TAMBM AT A PORTA,) Aquele carro negro vai levar minha me embora para sempre.

    LUZIA o carro fnebre.

    RUBI (TRISTSSIMA) A chuva escorrendo nos vidros dos carros... Parece os carros esto chorando.

    LUZIA Devem estar. Eu estou.

    RUBI (ESTRANHA, TENTANDO ENTENDER) T acontecendo uma coisa aqui no meu peito. como se aquele carro indo embora tivesse um motor que vai chupando tudo que tem aqui dentro de mim. como se tivesse furado um buraco aqui dentro, e agora eu tou esvaziando. Acho que eu vou ficar oca. LUZIA (NERVOSA) Ser que isso que acontece? Quando a pessoa morre, ela leva um pedao da filha com ela pra no ficar com saudade? RUBI (CHORANDO) Mas e eu? Vou encher esse buraco com o qu? LUZIA Ah sei l... Enche de amigos. SILNCIO. LUZIA Rubi, eu bem que queria que minha me morresse s um pouquinho, pra eu ficar estranha assim como voc. Voc est

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    parecendo algum, assim, que no existe. Voc parece a Bela

    Adormecida. RUBI (TEMPO. RI SUAVE E BATE AMIGAVELMENTE EM LUZIA) Voc muito boba. Por que a Bela Adormecida? LUZIA Porque a vida jogou um feitio ruim pra te amaldioar, mas a gente olha pra voc e v que voc foi feita pra ter o futuro de uma princesa. AS DUAS SAEM CORRENDO JUNTAS.

    RUBI Voc a melhor amiga do mundo. Se eu virar princesa, vou te fazer duquesa! Voc vai ser a minha dama de companhia e vai dividir comigo tudo de BOM que a vida me der. LUZIA E ns vamos ter um castelo, e vestidos rodados, e vamos dar festas com muito brigadeiro, pipoca, cachorro quente... RUBI E vamos namorar prncipes... Que no viram sapos! FADE OUT DO SOM.

    FIM