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Cabare Valentin -Karl Valentin

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Cabare Valentin -Karl Valentin

Text of Cabare Valentin -Karl Valentin

  • CABAR VALENTIN

    KARL VALENTIN

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  • Seleo de sketches cmicos

    Traduo e Adaptao: Buza Ferraz e Caique Botkay

    RESPEITO DE KARL VALENTIN

    Bertold Brecht, outubro de 1922

    Assim que Karl Valentin, na algazarra de qualquer cervejaria, seaproximava com seu ar mortalmente srio, entre os barulhos de canecas dechope, de cantorias do pblico, a gente tinha imediatamente a sensao profundaque, esse homem no vinha ali fazer graa. Ele prprio era uma piada ambulante.

    Uma graa to complicada, com a qual a gente no consegue brincar. Ele um cmico inteiramente seco, interiorizado, em cujo espetculo a gente podecontinuar a beber e fumar e que nos sacode o tempo todo com um riso interiorque no tem nada de pacfico.

    Quando esse homem, uma das figuras intelectuais mais penetrantes destapoca, nos apresenta a simplicidade em carne e osso, juntamente comtranqilidade, besteiras e prazer de viver, a velha besta que dorme dentro de nsacorda e nos faz rir no mais profundo de ns mesmos.

    Brecht era ainda um jovem quando a I Guerra Mundial acabou. Eleestudava nessa poca medicina no Sul da Alemanha e foi a que ele recebeu ainfluncia de dois poetas e de um cmico popular. O poeta Buchner, com umaobra escrita em 1830, foi representado pela primeira vez nessa poca; a pea eraWoyzeck (que marcara profundamente o seu Baal). O outro poeta, Wedekind,produzia suas obras segundo um estilo que ele desenvolveu nos cabars.Wedekind foi cantor ambulante e cantava baladas no seu violo. Mas foi docmico Valentin, que se apresentava numa cervejaria, de quem ele aprendeumais. Em rpidos esboos, Valentin representava empregados teimosos, msicosde orquestras ou fotgrafos que detestavam seus patres e os tornavam ridculos.O patro era representado por sua assistente Liesl Kanlstadt, uma cmicapopular, que botava uma barriga postia e falava com voz grave. Quando Brechtmontou sua primeira pea, onde havia uma batalha que durava quase meia hora,ele perguntou a Valentin como deviam se comportar os soldados: como so ossoldados numa batalha? Valentin respondeu sem refletir: eles esto brancos,eles tm medo.

    A FORA CMICA DE KARL VALENTIN

    As diferentes formas de intervenes cnicas, justapostas, intercaladas, deKarl Valentin, geram o clima de cabar que fizeram a celebridade do grande

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  • cmico de Munique. Monlogos, pequenos e grandes sketches se encaixam ou sedesenvolvem como fragmentos de um todo; o que passou sempre retomadonum incansvel trabalho artesanal de montar e desmontar. A mobilidade dessematerial no gratuita: ela permite aos espetculos de Karl Valentin os mosaicosmais diversos o que permite cada espetculo uma composio segundo ahora e o lugar com essa cincia de improvisao sem a qual no h nem teatropblico nem arte popular.

    Nesses sketches ele costura as palavras e as situaes com a raiva, a malciae a angstia de quem procura. Conseqentemente, o cotidiano distorcido, e onaturalismo levado abstrao. Nunca definitivamente, verdade, poisnenhuma regra definitiva em Karl Valentin, mesmo a falta de regras. Valentinno penetra diretamente em um assunto, ele contorna, se prendendo a detalhes,pois um virtuoso da complicao; nos seus sketches tudo se confunde efinalmente se desfaz. Como num labirinto ele volta aos mesmos obstculos,avanando sem avanar, recuando ao mesmo ponto de partida, subvertendo oprocesso natural de evoluo do cotidiano.

    I - PORQUE OS TEATROS ESTO VAZIOS

    Por que todos estes teatros vazios? Simplesmente, porque o pblico novem. Culpa de quem? Unicamente do Estado. Se cada um de ns se visseobrigado ir ao teatro, as coisas mudariam completamente. Por que no instituiro teatro obrigatrio? Por que institumos a escola obrigatria? Porque nenhumestudante iria a escola se no fosse obrigado. verdade que seria mais difcilinstituir o teatro obrigatrio, mas ns no podemos ter tudo se tivermos boavontade e o senso do dever?

    Alm disso: o teatro no uma escola? ento... O teatro obrigatrio poderiacomear na infncia com um repertrio de contos prprios para crianas como:O grande ano malvado ou O lobo e as setes Brancas de Neve.

    Numa grande metrpole temos umas cem escolas e mil crianas por escolacada dia, o que faz cem mil crianas dirias. Essas cem mil crianas iro demanh escola e, de tarde, ao teatro obrigatrio. Preo de ingresso porespectador-criana: cinqenta pfennig, s custas do Estado, certamente, isso nosd cem teatros, cada um com mil lugares ocupados: 500 marcos por teatro,50.000 marcos os cem teatros na cidade.

    Quantos atores teriam empregos? Instituindo Estado por Estado o teatroobrigatrio, ns transformaramos completamente a vida econmica. Porque no absolutamente a mesma coisa se perguntar: Ser que eu vou ao teatro hoje?ou dizer: Eu tenho que ir ao teatro. O teatro obrigatrio levaria o cidado renunciar voluntariamente todas as outras distraes estpidas como, porexemplo o jogo de peteca, de cartas, as discusses polticas de botequim,encontros amorosos e todos esses jogos sociais que tomam e devoram nossotempo.

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  • Sabendo que tem de ir ao teatro, o cidado no teria mais que escolher seuespetculo, ele se perguntaria se iria ver essa noite Tnistan ou outra coisa? no!ele ter que ir ver Tnistan e outras coisas, pois ser obrigado: ele ter que ir,gostando ou no gostando, 365 vezes por ano, ao teatro. O estudante, porexemplo, tambm no gosta de ir escola, mas vai assim mesmo, porque aescola obrigatria. Obrigatria. Por lei. somente por lei que podemos obrigarnosso pblico a ir ao teatro. Ns tentamos anos fio convenc-los com boasmaneiras, e eis o resultado. Golpes publicitrios para atrair a multido, como:Ar refrigerado perfeito, ou ento: permitido fumar durante o intervalo, ouainda: Estudantes e militares, do general ao raso pagam meia. Com todos essestruques no conseguimos encher salas, vejam vocs.

    E tudo que iramos gastar para fazer publicidade ser economizado, pois oteatro ser obrigatrio. Quem precisa de publicidade para mandar as crianaspara a escola?

    No haver mais problemas com o preo dos ingressos. Ele no dependermais da condio social, mas das debilidades e doenas do pblico.

    Da primeira quinta fila, teremos os surdos e os mopes.Da sexta dcima fila, os hipocondracos e os neurastnicos.Da dcima dcima quinta fila, os doentes de pele e os doentes da alma.E as frisas, camarotes e galerias seriam reservadas aos reumticos e

    asmticos.A nossa experincia nos ensina que no seria nada bom se os bombeiros

    fossem somente voluntrios, e por isso constitumos um corpo de bombeiros. Porque o que bom para o corpo de bombeiros no bom para o teatro? H umarelao ntima entre os bombeiros e o teatro.

    Eu que estou nos bastidores desse meti h tantos anos, nunca vi uma peasem que houvesse um bombeiro na platia.

    O teatro obrigatrio universal, a que nos propomos, o T.O.U., levar aoteatro, numa grande cidade, cerca de dois milhes de espectadores. Sernecessrio, ento, que haja nessa cidade vinte teatros de 100.000 lugares; ou 40salas de 50.000 lugares; ou 160 salas de 12.500 lugares; ou 320 salas de 6.250lugares; ou 640 salas de 3.125 lugares; ou dois milhes de teatros de 1 s lugar.

    preciso ser ator para se dar conta da fora que isso pode ter quando somostomados pela presena, numa sala monumental, de um pblico de, digamos,50.000 pessoas.

    Eis o verdadeiro modo de ajudar os teatros que esto beira da falncia.No se trata de distribuir filipetas, cartazes e convites. No. preciso impor oteatro obrigatrio... E quem pode impor seno o Estado?

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  • II A IDA AO TEATRO

    Marido, na mesa, l o jornal; mulher entra precipitadamente.

    MULHER Adivinha s meu velho, quando eu tava subindo as escadas,eis que a nossa senhoria deu de cara comigo e me ofereceu uma coisa. Adivinhao que ela me ofereceu?

    MARIDO Deixe de bancar a criana. Diz logo.

    MULHER Toma, olha. Dois ingressos de teatro para o Fausto. Que quevoc me diz?

    MARIDO Muito obrigado, mas por que no vai ela mesma, essa velhacoruja?

    MULHER Ah, sem dvida ela no tem tempo.

    MARIDO Ah, ah. Ela no tem tempo e, ns temos de ter tempo.

    MULHER No seja to mal-agradecido.

    MARIDO Voc sabe muito bem que essa mulher tem uma pinimba coma gente, seno ela no teria oferecido os ingressos justamente para ns.

    MULHER Mas ela s queria nos fazer uma gentileza.

    MARIDO Ela? Para ns? E por acaso ns j lhe fizemos algumagentileza? Nunca.

    MULHER Ento, voc vai comigo? Sim ou no?

    MARIDO E quando que isso comea?

    MULHER Eu no sei. Vou descer e perguntar pra ela.

    MARIDO T bom, comea s sete e meia.

    MULHER J so quinze pras sete. A gente no vai estar pronto na horanunca. Mas, geralmente os teatros s comeam mais tarde, s oito horas.

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  • MARIDO Comeam entre sete e meia e oito horas.

    MULHER Antes das oito horas, certamente no. Os teatros comeamsempre mais tarde.

    MARIDO Bom, ento que que a gente faz?

    MULHER No fica pensando muito, vamos.MARIDO E depois, ns ainda no jantamos.

    MULHER O jantar est pronto.

    MARIDO Eu me apronto rpido. s o tempo de me pentear.

    MULHER Voc pode fazer isso depois, primeiro vamos comer.

    Ela sai, o marido pega um espelho e o pe mesa; o espelho cai sempre. Amulher chega com pratos e talheres.

    MULHER Bom, agora no vamos mais perder tempo. Ah, mais essa!Pe ele direito.

    O espelho fica em p, mas ao contrrio.

    MARIDO Mas eu no posso olhar nele assim.

    MULHER Pois bem, vire ele.

    O marido vira o espelho mas ele continua caindo. A mulher conserta, omarido se penteia, barba e cabelo.

    MULHER Eu gostaria de saber o que voc tem pra pentear? Voc

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