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GIRARDI, Gisele. Cartografia e Geografia: breve histórico. Vitória, 2014. p.1-39. Texto produzido para apoio às disciplinas e grupo de pesquisa. Disponível em www.poesionline.wordpress.com 1 CARTOGRAFIA E GEOGRAFIA: BREVE HISTÓRICO Gisele Girardi Universidade Federal do Espírito Santo Para situar as práticas de produção de imagens cartográficas nos fazeres geográficos contemporâneos vamos recorrer a uma sistematização histórica. Como em toda sistematização, o risco da generalização é grande. O que interessa aqui é dar visibilidade aos modos como a produção de imagens cartográficas ora se imbricou, ora se autonomizou da Geografia como campo científico, de modo a compor elementos que permitam delinear as questões atuais da Cartografia Geográfica, em especial a brasileira. Iniciaremos a exploração na constituição do pensamento geográfico moderno e o papel que os mapas tiveram neste processo. Para tanto tomamos como marco o momento em que a imaginação do mundo se modificou radicalmente, ou, melhor dizendo, o momento em que se constituiu um projeto de imaginação hegemônica do mundo colada com o desenvolvimento do capitalismo. A emergência do capitalismo mercantil vem pari passu com a emergência do Estado moderno e a obra humana que se convencionou chamar “mapa”, uma imagem que se distinguirá das demais por certas especificidades, tomou corpo neste momento. De acordo com o Online Ethymology Dictionary a palavra “mapa” surge em 1520, como abreviação de “mappa mundi”, tanto na tradição inglesa (mapemounde) como francesa (mapemonde), sendo que “mappa” deriva de “napkin” (inglês) ou “nappe” (francês), em ambos os casos significando pano ou toalha de mesa em que registros de deslocamentos, em especial os marítimos, eram desenhados. As navegações como um movimento de concretização dos Estados modernos e do capitalismo mercantil tiveram mapas como seus tributários, registros de um conhecimento do mundo que se ampliava e que demanda novas técnicas. Mapas foram se constituindo no artifício pelo qual o mundo (a ideia de mundo) foi apresentado à sociedade. Desde então, a palavra “mundo” nos ativa algum rudimento de imagem cartográfica (um globo, um planisfério). A vinculação que os mapas têm ao poder sobre o território, pelo Estado e pelo mercado tem, seguramente, suas origens aí. O aprendizado da cartografia na Geografia (acadêmica e escolar) ainda é bastante vinculado a esta razão funcional. É o Estado (o território político-administrativo) que está, antes de qualquer outra coisa, significado em grande parte das imagens cartográficas escolares (Oliveira Jr., 2011; Wood, 2010), o que, em certa medida, fragiliza as possibilidades da produção do conhecimento em Geografia com mapas. Para entender melhor este processo, serão brevemente contextualizadas a emergência das técnicas cartográficas e sua relação com a constituição do pensamento geográfico. Ainda que a linearidade do tempo seja tomada como referência, não se pretende considerar a história da produção cartográfica como caminho progressivo e evolutivo, mas como formulações e reformulações que respondem à velocidade e ao

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GIRARDI, Gisele. Cartografia e Geografia: breve histórico. Vitória, 2014. p.1-39. Texto produzido para apoio às disciplinas e grupo de pesquisa. Disponível em www.poesionline.wordpress.com

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CARTOGRAFIA E GEOGRAFIA: BREVE HISTÓRICO

Gisele Girardi Universidade Federal do Espírito Santo

Para situar as práticas de produção de imagens cartográficas nos fazeres geográficos contemporâneos vamos recorrer a uma sistematização histórica. Como em toda sistematização, o risco da generalização é grande. O que interessa aqui é dar visibilidade aos modos como a produção de imagens cartográficas ora se imbricou, ora se autonomizou da Geografia como campo científico, de modo a compor elementos que permitam delinear as questões atuais da Cartografia Geográfica, em especial a brasileira.

Iniciaremos a exploração na constituição do pensamento geográfico moderno e o papel que os mapas tiveram neste processo. Para tanto tomamos como marco o momento em que a imaginação do mundo se modificou radicalmente, ou, melhor dizendo, o momento em que se constituiu um projeto de imaginação hegemônica do mundo colada com o desenvolvimento do capitalismo.

A emergência do capitalismo mercantil vem pari passu com a emergência do Estado moderno e a obra humana que se convencionou chamar “mapa”, uma imagem que se distinguirá das demais por certas especificidades, tomou corpo neste momento. De acordo com o Online Ethymology Dictionary a palavra “mapa” surge em 1520, como abreviação de “mappa mundi”, tanto na tradição inglesa (mapemounde) como francesa (mapemonde), sendo que “mappa” deriva de “napkin” (inglês) ou “nappe” (francês), em ambos os casos significando pano ou toalha de mesa em que registros de deslocamentos, em especial os marítimos, eram desenhados.

As navegações como um movimento de concretização dos Estados modernos e do capitalismo mercantil tiveram mapas como seus tributários, registros de um conhecimento do mundo que se ampliava e que demanda novas técnicas. Mapas foram se constituindo no artifício pelo qual o mundo (a ideia de mundo) foi apresentado à sociedade. Desde então, a palavra “mundo” nos ativa algum rudimento de imagem cartográfica (um globo, um planisfério).

A vinculação que os mapas têm ao poder sobre o território, pelo Estado e pelo mercado tem, seguramente, suas origens aí. O aprendizado da cartografia na Geografia (acadêmica e escolar) ainda é bastante vinculado a esta razão funcional. É o Estado (o território político-administrativo) que está, antes de qualquer outra coisa, significado em grande parte das imagens cartográficas escolares (Oliveira Jr., 2011; Wood, 2010), o que, em certa medida, fragiliza as possibilidades da produção do conhecimento em Geografia com mapas.

Para entender melhor este processo, serão brevemente contextualizadas a emergência das técnicas cartográficas e sua relação com a constituição do pensamento geográfico. Ainda que a linearidade do tempo seja tomada como referência, não se pretende considerar a história da produção cartográfica como caminho progressivo e evolutivo, mas como formulações e reformulações que respondem à velocidade e ao

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movimento do mundo capitalista, especificamente o ocidental, no qual tradições e ideologias geográficas se ancoram.

Na Idade Moderna1 os mapas se transformaram em objeto de interesse por várias razões. Por volta do século XV proliferaram produções gráficas a partir da Geographia de Ptolomeu, que continha milhares de referências a várias partes do mundo antigo, em consonância com o espírito da Renascença2 de retomar obras e ideias da antiguidade clássica. Ainda que nenhum mapa da Geographia tenha sobrevivido, nos volumes da obra há instruções detalhadas sobre como proceder na construção de mapas. Todas as imagens cartográficas conhecidas como “Mapa de Ptolomeu” são, com efeito, reconstruções baseadas nas descrições de latitude, longitude e construção de projeções contidas na Geographia e em outras obras do autor. Processos de elaboração e reprodução destes mapas (como xilografia e gravação em cobre) neste período contribuíram para adensar uma imaginação sobre o mundo, impulsionando novas práticas cartográficas (Figura 1).

Figura 1 – Versão do mapa-múndi de Ptolomeu produzida em 1482 a partir das referências contidas na obra Geographia, no qual constam latitudes e longitudes. Imagem disponível no site da Biblioteca Britânica (http://www.bl.uk).

1 Idade Moderna: período histórico compreendido entre o século XV até o século XVIII (Revolução

francesa). 2 Renascença, Renascimento, ou Renascentismo: período da História da Europa aproximadamente entre

fins do século XIV e meados do século XVI, marcado pela ruptura com os valores da Idade Média e retomada das produções artísticas e filosóficas da Antiguidade Clássica.

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Os portulanos, imagens construídas a partir de rosas-dos-ventos e de rumos delas derivados, eram desenvolvidas para a navegação mediterrânea desde o século XII. Nestas imagens não só as rotas eram desenhadas, mas também referências culturais dos povos que habitavam as Terras que eram articuladas a partir do Mar Mediterrâneo (Figura 2). Os portulanos têm sua construção impulsionada a partir do século XV com o incremento dos conhecimentos ptolomaicos para responder às necessidades das Grandes Navegações, que era a base da formação do capitalismo mercantil. É também deste contexto expansão comercial que emergiu a projeção de Mercator, que marcou uma ruptura significativa com a prática cartográfica de então, pois foi constituída a partir de um raciocínio matemático abstrato e não a partir da experiência direta, como era o caso dos portulanos. A inovação da projeção de Mercator consistia na transformação dos rumos curvos (ortodromas) que derivavam de projeções planas quadriculadas (ou seja, latitudes e longitudes de mesma dimensão) em rumos retos (loxodromas) obtidos pelo sistema de latitudes crescentes, convenientes para a navegação (Figura 3). Este é um exemplo da racionalidade como meio de solução de problemas que se inaugurava naquele contexto de revolução científica3.

Figura 2 – Imagem do Atlas Catalão, datado de 1375, no qual, além das rotas de navegação são registrados aspectos econômicos, políticos e sociais. A imagem mostra um mundo interconectado e diverso, contribuindo para a constituição da ideia de mundo globalizado (Holland, 2010). Imagens disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Majorcan_cartographic_school)

3 Revolução científica: o período iniciado aproximadamente no século XVI, caracterizado pela separação

entre a filosofia e a ciência, que passa a ser entendida como um conjunto de conhecimentos racionais.

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Figura 3. Projeção de Mercator: loxodromas e ortodromas. Imagem da esquerda mostra como se desenvolve, na curvatura, uma navegação que corte os meridianos em ângulos de mesmo valor. Estas linhas são chamadas loxodromas. Para que, no mapa, elas aparecessem como uma linha reta (ortodroma) a projeção de Mercator ajustou meridianos como retas verticais paralelas e equidistantes entre si e os paralelos como retas horizontais paralelas, mas não equidistantes, ampliando seu intervalo a partir da linha do Equador. Deste modo, quanto mais distantes da linha do Equador, maior a distorção nas áreas.

Também foi crucial neste contexto a proposição de Descartes sobre a extensão como fundamento de todas as coisas, portanto o espaço como extensão. Para alcançar o conhecimento da extensão uma linguagem abstrata, a matemática, era o ponto de partida e o raciocínio matemático seria o modelo para todas as ciências. De Descartes e posteriormente de Newton a ciência moderna herdou a ideia de espaço absoluto, ou seja, o espaço em si mesmo, pré-existente, imóvel, disponível para o cálculo (Santos, 2002; Harvey, 2012).

Contemporaneamente às inovações na produção de imagens cartográficas baseadas em abstrações matemáticas, houve modificações profundas nas artes visuais, marcadamente no estabelecimento da perspectiva como regime de visão. Nesta, uma grade quadriculada se interpõem (concreta ou abstratamente) entre o olho do pintor e o objeto a ser pintado (paisagem, pessoas, natureza morta), simulando a profundidade ou a tridimensionalidade da visão humana no plano. Mais ainda, isto construiu a noção de que “qualquer observador colocado naquele ponto veria as relações espaciais entre os objetos exatamente da mesma forma” (Bauman, 1999, p. 34). O realismo buscado pela arte renascentista, que se desdobrava na possibilidade da captura da verdade, também compõe este contexto. O rebatimento disso na cartografia é o regime de visão projecionista, também uma captura para o plano, mas com o “truque o olho de Deus”, ou seja, a visão a partir de um ponto privilegiado que permitisse “a melhor” percepção, a visão ortogonal e onipresente, ubíqua, objetiva e impessoal (Bauman, 1999; Lukinbeal, 2010).

Uma imaginação de mundo, os aportes matemáticos e a instauração de novos modos de ver fundamentavam a prática cartográfica. Os mapas ocidentais de então intercambiavam conhecimentos sobre os lugares que estavam sendo “descobertos”, e as diversas partes da superfície da Terra foram sendo nomeadas, conhecidas e

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descritas. A precisão cartográfica e, mais ainda, a disseminação de um conjunto de regras cartográficas garantiam o conhecimento europeu sobre o mundo a priori, para sua dominação e exploração (Latour, 2000).

A consolidação dos Estados-nação e a propriedade privada da terra fizeram surgir novos tipos de mapa no Ocidente, embrionários do que hoje denominamos mapas cadastrais. A necessidade de aumento de precisão na demarcação dos limites das terras crescia na medida em que estas se valorizavam. A demanda pelo conhecimento dos recursos do território pelo Estado se desdobrou na invenção de cartas topográficas, tributárias da geometria (medições, triangulações, etc.). A carta topográfica é, com efeito, um signo do gênio cartográfico da modernidade, tendo se tornado uma espécie de “medida padrão” para a cartografia. O espaço social ficava assim subordinado ao mapa aprovado e apoiado pelo Estado, “esforço conjugado e apoiado pela desqualificação de todos os outros mapas ou interpretações alternativos do espaço” (Bauman, 1999, p. 35).

O contorno do território, traçado no mapa, transformava-se em traço identitário da população daquele território, imagem importante para os nacionalismos que sustentavam a própria ideia de Estado-nação. O conhecimento por meio de mapas foi então valorizado e por isso se disseminaram pela sociedade, seja com sentidos operativos (navegar, cobrar impostos, controlar a propriedade), seja povoando os gabinetes de curiosidades4 da elite europeia erudita e dominante.

As revoluções industriais, a partir do século XVIII, significaram o encontro do desenvolvimento científico, da consolidação das estruturas sociais capitalistas e sua demanda por expansão, e do fortalecimento do Estado. O reconhecimento e localização – portanto, mapeamento – dos recursos e dos mercados subsidiava todo este processo. Do mesmo modo, a tecnologia que se desenvolvia implicava em atualizações tecnológicas do mapeamento. Invenção de novos equipamentos de levantamento e registro, aperfeiçoamentos dos meios técnicos de impressão, disponibilização de informações (como censos, por exemplo), ampliavam o caráter científico e utilitário do fazer cartográfico, fazendo com que os mapas se entranhassem cada vez mais nos âmbitos econômico e político-administrativo.

A ampliação do conhecimento do mundo, não mais do contorno das grandes massas terrestres somente, mas das especificidades locais, reverbera no aperfeiçoamento de técnicas cartográficas. Os laços entre as burguesias europeias, os interesses coloniais dos impérios europeus e as Sociedades Geográficas eram muito estreitos. O mapa, assim, foi o dispositivo mais potente do projeto imperial europeu. Promovido e executado pelas Sociedades Geográficas, o mapeamento das zonas costeiras e subsequentemente o levantamento da topografia terrestre das Américas, da África e da Ásia e das ilhas do Oceano Pacífico (o “desconhecido” para a Europa) era

4 Gabinetes de curiosidades ou Gabinetes de maravilhas eram locais de exposição de objetos (poderia

ser um cômodo ou um móvel) nas residências das elites europeias. Nestes gabinetes constavam objetos exóticos (vindo de locais que estavam “sendo descobertos”) ou coleções de objetos. Os mapas, dada sua raridade naquele momento, em especial os mapas dos “lugares desconhecidos” eram considerados objetos colecionáveis. Considera-se os gabinetes de curiosidades os antecessores dos museus da atualidade.

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a um só tempo uma atividade científica e um ato político de apropriação, com utilidade estratégica óbvia.

Os relatórios de viagens consistiam de descrições minuciosas do que se poderia considerar “temário geográfico”. Ainda que não estivessem sob o manto de um ramo científico reconhecido (a Geografia), os resultados das explorações disseminavam-se nos círculos científicos e foram importantes em formulações significativas da ciência no século XVIII. A atualização de mapas, mais especificamente o “preenchimento das áreas em branco” nos mapas, era a medida do sucesso dos empreendimentos dos exploradores e este “fazer” (explorar – conhecer – descrever – sistematizar – disseminar) foi consolidando uma “ideia de Geografia”.

A sistematização da Geografia como ramo de conhecimento científico autônomo e específico só ocorreu no início do século XIX, pois somente neste momento, no marco da constituição do modo de produção capitalista, que passaram a existir três grandes conjuntos de condições materiais: 1) a constituição de um espaço mundial como condição para realização da expansão capitalista europeia; 2) a formação de uma base empírica que fundamentasse comparações entre as diferentes partes do mundo e subsidiasse uma reflexão geográfica, o que foi obtido por meio do conhecimento e domínio dos territórios coloniais e que marcou a formação de instituições que levantavam e sistematizavam este conhecimento, como é o caso das Sociedades Geográficas; e 3) o aprimoramento das técnicas cartográficas (Moraes, 1997).

Além destes pressupostos materiais houve, no plano do pensamento filosófico, uma valorização do temário geográfico vinculada às formulações acerca do espaço, do Estado e da natureza. Em linhas gerais, toda a Geografia Clássica já herdara uma noção de espaço absoluto como “receptáculo, e, portanto, condição a priori do fenomênico” (Santos, 2002, p. 188), que se articulava com a “razão cartográfica” em seus atributos de extensão, homogeneidade, continuidade e isotropia (Farinelli, 2007).

Assim, quando da institucionalização da Geografia na Alemanha e logo após na França, a cartografia já estava posta como linguagem, como modo de ver e de registrar conforme um conjunto de normas, e ia ganhando atualizações e aperfeiçoamentos conforme se ampliavam seus empregos específicos.

Mapas na Geografia Clássica

Ainda que o conjunto de técnicas e normas de elaboração de mapeamentos já existisse antes do reconhecimento da Geografia como campo científico, a Geografia Clássica5 contribuiu com inovações na elaboração de mapas, bem como com aportes críticos a esta modalidade imagética. Em outras palavras, se a técnica cartográfica ocupou um lugar importante na produção do conhecimento geográfico naquele momento, o próprio aperfeiçoamento do conhecimento dos fenômenos que compunham o temário geográfico implicava em tensionamentos nas práticas cartográficas. Humboldt, Ritter, Reclus, Vidal de La Blache, entre outros, produziram

5 Geografia Clássica: período compreendido entre sua institucionalização, na Alemanha, no século XIX, e

o movimento de renovação, em meados do século XX.

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mapas, criaram e aperfeiçoaram técnicas cartográficas e, alguns deles, discutiram as limitações desta linguagem no âmbito da Geografia.

Alexander Von Humbold criava e se utilizava de técnicas cartográficas para sistematizar as descobertas feitas em suas viagens. A localização e análise da distribuição dos fenômenos tinha papel central nas suas formulações sobre o funcionamento da natureza. As viagens e os mapas, ou seja, a observação e a grafia dos resultados destas observações na linguagem dos mapas, eram o coração do que Humboldt entendia por Geografia. Humboldt “em várias oportunidades escreve frases que mostram claramente que para ele a Geografia era a determinação de posições no globo e a produção cartográfica, e não o estudo da geologia e da física” (Capel, 2008, p. 27).

Mapas de inferência, bem como mapas com isolinhas, e perfis topográficos produzidos por Humbold visavam à construção de imagens que informassem sobre a distribuição, a particularidade e, ao mesmo tempo, a conexão e regularidade entre os elementos da natureza. Era um modo de dar existência imagética a uma observação racional da natureza, o que um quadro da paisagem, no sentido estético clássico, não daria a ver. Tratava-se de criar recursos imagéticos como metodologias próprias da Geografia.

A utilização que Carl Ritter fez da linguagem cartográfica foi bastante distinta da de Humboldt. Isto porque a preocupação central de Ritter era pedagógica. Isto se deve à sua própria formação (teve sua instrução voltada para ser preceptor de uma família aristocrática), e também ao fato de ter tomado parte no grande projeto educacional articulado com a unificação alemã, no qual os conhecimentos geográficos foram considerados importantes. A formação de docentes no ensino básico para este contexto demandava elaboração metodológica, de modo a converter a Geografia em uma disciplina passível de ser ensinada com clareza e ordem. Esta tarefa foi assumida por Ritter, que entendia ser necessário superar a ideia de ensino como descrições e acúmulo de informações que ninguém poderia assimilar (Capel, 2008).

Ritter considerava a Geografia um entendimento histórico-crítico da Terra e se opunha ao que denominava “ditadura cartográfica”, ou seja, a utilização de um modelo único assentado no modo cartesiano de representação de uma natureza matematizável e escrita em caracteres geométricos, que para ser analisada deveria ser fracionada. Para Ritter o aprisionamento a este modelo afetaria o status ontológico da própria Terra, implicando na limitação da cartografia ao método geográfico, que para ele consistia na busca pelas relações espaciais.

Ainda que a Terra como planeta seja muito diferente das representações em escala reduzida que conhecemos dela, e que somente nos dão uma visão simbólica de seu modelado, temos que recorrer a essas miniaturizações artificiais do globo terrestre para criar uma linguagem abstrata que nos permita falar dele como um Todo. E assim, de fato, não nos inspirando diretamente na realidade terrestre, é que pudemos elaborar a terminologia das relações espaciais. No entanto, como a rede matemática projetada sobre a Terra a partir da abóbada celeste se converteu no elemento determinante, esta

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terminologia permaneceu até agora incompleta e não permite hoje uma aproximação científica a um conjunto estruturado, considerado em suas extensões horizontais e verticais ou em suas funções (Ritter, 1974, p. 166 apud Capel, 2008, p. 62).

No contexto de Ritter a elaboração cartográfica era extremamente especializada e a Alemanha se consolidou como um importante centro produtor de mapas e atlas. A geração de geógrafos que sucede a Humboldt e Ritter teve à disposição técnicas e produtos cartográficos que foram empregados em seus trabalhos no âmbito das disciplinas específicas com que lidavam, como é o caso de Penk (na Geomorfologia), Köppen (na Climatologia), Ratzel (na Geografia Política). Para estes, contudo, o modelo cartográfico matemático não se impunha como um problema, mas, ao contrário, como um aporte seguro que permitia mensurações mais precisas.

No caso da França, outro centro importante da Geografia Clássica, a produção cartográfica já havia se especializado, particularmente na vertente topográfica, desde o trabalho dos Cassini6, que haviam realizado, no século XVIII, o levantamento topográfico sistemático do território francês na escala de 1:86.400. A Geografia francesa, de início, se sustentou mais em razão da expansão escolar promovida pela Terceira República (como reação à derrota na guerra franco-prussiana) do que pela formulação científica propriamente. A didática oficial da geografia escolar enfatizava a utilização de mapas, seja para o preparo de trabalhos de campo (“excursões topográficas”), seja na elaboração de croquis de observação, seja, ainda, no uso de mapas mudos. Isto provocou uma intensa produção cartográfica voltada para o público escolar (Capel, 2008).

A demanda por docentes dos níveis elementares de ensino estimulou a expansão dos cursos universitários que passaram a se configurar como centros produtores de pesquisas, nos quais a Geografia foi se definindo como uma ciência “integradora de fenômenos de diferentes tipos, e pondo cada vez mais a ênfase na síntese e na combinação regional” (Capel, 2008, p. 103). A “região” se tornou, assim, o conceito central da Geografia francesa, uma unidade espacial e uma escala de análise, mas também um fato empírico, cabendo aos geógrafos a sua observação, delimitação, descrição e explicação.

Os estudos de Geografia Regional seguiam, em geral, um modelo de exposição que consistia em: 1) localização da área estudada, com uso de projeções cartográficas nacional e continental e um enquadramento zonal pelas coordenadas; 2) descrição das características de cada um dos elementos naturais presentes (relevo, clima, vegetação, etc.); 3) caracterização do povoamento ou das fases de ocupação, abordando a formação histórica; 4) descrição e análise das características agrárias, incluindo a população rural, a estrutura fundiária, o tipo de produção, as relações de trabalho, a tecnologia empregada no cultivo e na criação; 5) descrição e análise da rede de cidades, da população urbana, dos equipamentos e das funções urbanas, da hierarquia das cidades; descrição e análise, se existente, da estrutura industrial, incluindo o

6 Sob o reino de Luis XV, o território da França foi o primeiro a ser mapeado, no século XVIII, com base

em triangulações geodésicas. Os Cassini eram vinculados ao Observatório Astronômico de Paris e quatro gerações desta família se envolveu na produção da cobertura topográfica do território francês.

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quantitativo dos estabelecimentos e do pessoal ocupado, a origem das matérias-primas e a tecnologia empregada, a destinação da produção, etc. A conclusão destes estudos era, e geral, constituída por um conjunto de cartas, cada uma referente a um aspecto abordado, que, sobrepostas, dariam as relações entre os elementos da vida regional (Moraes, 1997).

A produção cartográfica, deste modo, dava visibilidade à região. Para Vidal de La Blache o mapa temático compunha o fundamento da explicação geográfica, pois dava a ver as localizações e as distribuições e permitia correlações sucessivas, embasando o conhecimento da ciência geográfica: “Onde acharíamos um meio de expressão tão capaz de concentrar as relações que [o mapa] apresenta, todas de uma vez, ao espírito?” (Vidal de La Blache, 1894 apud Torricelli, 1990, p. 92). O mapa era, assim, elemento metodológico para esta abordagem geográfica. A utilização de mapas de base, com o maior nível possível de precisão, e a mobilização da terceira dimensão do mapa para o tema em análise, em escalas compatíveis que permitissem a sobreposição não só evidenciava a região como significou um efetivo modo de se entender a cartografia na Geografia, derivando nos procedimentos de análise, correlação e síntese.

Um destaque deve ser feito a Elisée Reclus que, de origem francesa, não participou da institucionalização da Geografia naquele país. Ao contrário, Reclus, ainda que reconhecido por Sociedades Geográficas europeias por suas obras, tinha vinculação ao movimento anarquista e, portanto, no oposto da sustentação do estado nacional e do imperialismo a que a Geografia universitária da época se alinhava. Reclus havia sido aluno de Ritter e é “o exemplo de como a ‘lição’ de um mestre é sempre interpretada pelo discípulo graças a um trabalho de filtro colocado em ação por uma mente diversa, por uma experiência de vida diversa” (Eva, 2005, p. 51). Esta experiência refere-se ao engajamento de Reclus num projeto de sociedade distinto daquele no qual a geração de geógrafos que sucede Humboldt e Ritter se empenhou: a de sustentação do Estado.

Reclus foi um entusiasta e crítico da cartografia. É o primeiro geógrafo francês que se utiliza de métodos de cartografia estatística, como cartas de densidades e cartas de fluxo. Reclus aboliu as fronteiras estatais de todos os mapas na sua obra mais densa e conhecida, a Nova Geografia Universal. Assim como Ritter, Reclus era crítico aos mapas planos, que inevitavelmente traduziam noções como centro, ocidente e outras que iam conformando o discurso do imperialismo. Por esta razão, projetou para a Exposição Universal de Paris de 1900 um globo na escala 1:100.000 (que teria 127,5 metros de diâmetro, mas que nunca foi construído) (Figura 4), no intuito que este desse às pessoas o entendimento que sendo o mundo esférico, não haveria UM centro (Alavoine-Muller, 2003; Ferretti, 2012).

Um exemplo da postura crítica de Reclus acerca da cartografia é encontrado numa carta escrita em 1894 a Charles Perron, que desenhou a maior parte dos mapas das obras do autor:

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Figura 4 – Projeto do Globo idealizado por Elisée Reculs para a Exposição de Paris, de 1900, desenhado pelo arquiteto Louis. Imagem disponível em http://www.cairn.info.

Quanto mais eu trabalho mais eu percebo que está errado, absolutamente errado, fazer falsas representações por cartas planas sobre as quais se adiciona o desenho do relevo por diversos processos mais ou menos engenhosos, mais ou menos fantasiosos. Nós que nos ocupamos mais ou menos da geografia, somos sempre enganados pelas falsas

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representações gráficas, embora saibamos, em teoria, a verdadeira forma da curvatura e do relevo. A mais forte razão é que aqueles que ainda não sabem e aprendem com confiança são expostos a construir as idéias mais falsas da geografia. Eles nunca tem em mente que as proporções são incorretas. Ah! Destruam aquelas cartas, inclusive as minhas! (Reclus, 1925, 162 - carta datada de 17 de abril, 1894, apud Palsky, 2005, p. 6).

Estas breves passagens situando a prática cartográfica na Geografia evidenciam que o aprofundamento técnico, a apropriação da linguagem dos mapas como elemento de método e considerações críticas aos mapas acompanharam a relação da Cartografia com a Geografia desde os primórdios da sua institucionalização. A Geografia Clássica, em seus primórdios, teve a cartografia como um precioso aporte e desde aquele momento, apareciam posturas críticas a respeito da “ditadura cartográfica” como forma da geografia pensar o espaço, e usos da linguagem gráfica para falar de temas da Geografia (cartografia “temática” sobre um levantamento preciso) como procedimento metodológico que sustentava a própria formulação teórica e sintetizava a “realidade” geográfica que era a região. Esta segunda forma de relação da Geografia com a cartografia transformou-se no padrão hegemônico de entender os mapas na Geografia até, pelo menos, a Segunda Guerra Mundial e muito do que se considera a prática cartográfica em Geografia na atualidade é tributária de formulações deste período.

A estruturação da linguagem cartográfica e sua valorização estratégica antecederam a institucionalização da Geografia. O mapa fez parte da fase do desenvolvimento tecnológico vivida pelas elites europeias até o século XIX, assegurando-lhe visibilidade e controle dos recursos naturais, servindo-lhe de suporte e argumento para afirmação da propriedade privada e dos domínios nacionais, subsidiando fluxos, entre outras tantas funções. Junto com estas funções práticas, a construção de certa noção de espaço foi também sendo, a um só tempo, absorvida e reiterada nos mapas de modo que a “representação plana de parte da superfície terrestre” transformou-se no modo hegemônico do pensamento sobre os mapas.

A Geografia Clássica foi amplamente vinculada ao Estado, seja nas suas funções de reconhecimento e controle de territórios, seja na inculcação de identidades nacionais. Ao mesmo tempo, o fundamento positivista que lhe dava unidade implicava na valorização do empírico e sua observação, ou seja, a realidade tem existência em si mesma, cabendo ao pesquisador observá-la, entendê-la, etc. Há, portanto, uma noção de espacialidade imbricada nesta fundamentação, que é a mesma a partir da qual a cartografia havia se constituído na Idade Moderna: o espaço absoluto. Se atentarmos para os princípios da Geografia Clássica, que eram os de unidade da superfície terrestre, de individualidade local, de atividade ou dinâmica, de conexão, de comparação, de extensão e de localização, vemos que a maior parte deles tem com o espaço absoluto e com o pensamento cartesiano uma correspondência direta. Por esta razão, a Geografia Clássica ao passo que teve a produção cartográfica como uma das condições objetivas para sua organização, reiterou em seus fazeres o modo cartográfico de ver como a verdade sobre o espaço.

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Os mapas na Geografia no período entre-Guerras

O período que antecede aos conflitos mundiais, especificamente no marco da primeira revolução industrial, é um momento singular para se pensar a produção das imagens cartográficas. Os mapas até então vinham como co-partícipes da constituição da noção do espaço absoluto. Esta concepção fornece uma imagem ideal para controle do mundo, captura-o na sua totalidade extensiva, estabilizando-o em redes de coordenadas e em um modo específico de “ver”. Contudo, após a Primavera dos Povos7, o projeto iluminista de racionalização do espaço e do tempo entrou em colapso, desdobrando-se em formulações acerca do espaço relativo e na inauguração de outras formas de ver que marcam, no caso das artes, o movimento modernista (Harvey, 1996). Esta onda não parece ter impactado significativamente a noção espacial na produção de mapas, ainda que tenha havido vozes discordantes. Isto se explica por um enraizamento e entranhamento extremos do mapa nas estruturas de controle territorial (dos estados e das corporações), numa estabilidade do espacial (Massey, 2008).

Ao mesmo tempo em que mapas operavam com esta noção de espacialidade absoluta, intensificava-se seu detalhamento (aumento de precisão), velocidade de produção (necessidade de atualização) e diversificação (atendendo a demandas específicas de áreas de conhecimento e aplicação). Mais e mais os conhecimentos das ciências exatas foram sendo incorporados aos processos de mapeamento. Mais e mais a cartografia vai se configurando como uma linguagem para falar dos conhecimentos espaciais que vão se especializando. No início do século XX os grandes avanços em pesquisas científicas sobre mapas deveram-se, sobretudo, aos geógrafos alemães (Kanakubo, 1990), mas no restante do mundo a ênfase era mais na aplicação prática (militar, particularmente). A geografia e seus mapas foram se transformando no que Lacoste (1988) chamou de “Geografia dos Professores”, ou seja, a produção de informações sobre os diversos lugares do mundo sob o manto da neutralidade científica (do positivismo) que instruia a nada neutra “Geografia dos Estados Maiores”.

No fim do século XIX e início do século XX os Estados se consolidavam, tradições eram inventadas (Hobsbawn, 2008) para garantir traços identitários dos nacionalismos, a industrialização se desenvolvia e, com, ela, as relações capitalistas se consolidavam e as burguesias locais se fortaleciam. Os espaços “em branco” no mapa do mundo diminuíam rapidamente, limitando o movimento de expansionismo dos impérios europeus. A matriz energética do capitalismo industrial se modificava e os Estados Unidos e a Alemanha foram as economias que estiveram na vanguarda dessa transição. Mas enquanto os Estados Unidos já haviam se estabelecido como um Estado em escala continental a Alemanha estava cercada por potências em relativo declínio e pelo antigo sistema de alianças europeias do século XIX (Heffernan, 2008). O movimento expansionista da Alemanha explicava-se pelo fato de que ela não dispunha de territórios para colonização ao mesmo tempo em que se transformava em potência capitalista. Reagindo a este movimento foi organizado o sistema de alianças para cercá-la e bloqueá-la: a Tríplice Entente, formada por Grã-Bretanha, França e Rússia. Por seu turno, a Alemanha compôs com a Áustria-Hungria e com a Itália a Tríplice

7 Conjunto de revoluções de caráter liberal, democrático e nacionalista ocorrido na Europa em 1848.

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Aliança. É no interior destas alianças que se gestaram os motivos que fizeram eclodir a Primeira Guerra Mundial.

Não há dúvida que mapas foram instrumentos valiosos no contexto das Guerras Mundiais. O que nos interessa mais especificamente é como este contexto marcou profundas alterações na relação entre a Geografia e a cartografia, desdobrando-se na autonomização científica da última, ou mais especificamente numa separação corporativa que contribuiu com a ruptura entre a forma (cartográfica) e o conteúdo do mapa, que implicou em submissão do último ao primeiro e, por fim, num relativo abandono da forma cartográfica pela Geografia.

Na Primeira Guerra assistiu-se à utilização dos inventos, marcadamente os da Belle Époque8, nos conflitos bélicos. Avanços em telecomunicações, em meios de transportes (tecnologias náuticas e aeronáuticas) viraram aparatos de guerra. Houve um aumento, portanto, nos aportes para elaboração de mapas. Aerofotos eram recentes em sua criação e foram grandemente utilizadas no reconhecimento dos campos de batalha. Se a prática cartográfica acompanhou a história da formulação de uma ideia de mundo desde a Renascença, a ciência cartográfica, por seu turno, tem neste contexto a sua consolidação.

No período entre-Guerras várias Sociedades Cartográficas foram se organizando pelo mundo, atendendo a demandas práticas (de organização e defesa do território) e científicas, amplamente voltadas para a topografia, a geodésia e a produção de cartas de base. No pós-Primeira Guerra Mundial se expandiram pelo mundo as técnicas de levantamento topográfico dos territórios. Fora da Europa este processo foi contemporâneo à inserção dos Estados na nova ordem mundial e, juntamente com isto, foram sendo estabelecidas as estruturas universitárias locais e, com elas, os cursos de Geografia. As alianças entre os Antigos (europeus) e Novos Estados Nacionais transformavam os primeiros em modelos para os últimos, pela via dos intercâmbios econômicos, mas também acadêmicos. Este fato explica a disseminação internacional do uso da cartografia na Geografia, em especial aquele originário da academia francesa, vinculado ao método regional. Foi um momento de difusão mais do que de criação.

Havia, assim, uma cartografia que se aperfeiçoava nas técnicas de levantamento e produção de mapas de precisão dos territórios nacionais (e, na mesma esteira, de estatísticas nacionais sistemáticas) e uma estrutura universitária de Geografia que se valia deste esmiuçamento cartográfico que bem se articulava com o método regional. A condição de “descoberta” geográfica não gerava a necessidade de criações. O empírico a ser deslindado, por si só, já justificaria a prática.

No que diz respeito especificamente à cartografia, no período entre-Guerras pode-se identificar alguns grandes eixos de desenvolvimento que se vinculavam ao

8 Período compreendido entre os últimos anos do século XIX e a Primeira Guerra. Foi o período de

ascensão de invenções tecnológicas (avião, telefone, medicamentos) e de movimentos artísticos, gerando um ideal de progresso científico e seguro. A Exposição Universal de Paris (1914) foi um evento destinado à visibilização destes avanços.

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próprio movimento de institucionalização da Geografia. Nos países de língua germânica (Alemanha, Áustria, Suíça) o desenvolvimento teórico da cartografia deu-se na estreita relação com a Geografia que lá se estruturava. A obra de Max Eckert “Die Kartenwissenschaft”, publicada na década de 1920 pode ser considerado o mais completo sistema cartográfico de então. Eckert considerava a cartografia uma ciência irmã da Geografia, um auxílio indispensável a esta e considerava os mapas “a pedra filosofal e os olhos da Geografia” (Ostrowski, 2008, p. 268). Para Eckert o método cartográfico compreendia a observação (sendo a descrição topográfica a melhor escola para a observação), os levantamentos (e o mapa como resultado de inúmeros levantamentos) e o uso da lógica, especialmente a indução (objetos particulares se unem na imagem do mapa), a dedução (das idéias gerais aos objetos individuais) e a ficção (artifícios para dar concretude às abstrações, como por exemplo, sombreamento em mapas de relevo ou o desenho de isotermas).

A conexão com os princípios da Geografia Clássica são evidentes. A obra de Eckert inaugurou uma tendência geral no tratamento da ciência cartográfica que influenciou muitos outros autores que configuraram o início da organização científica da cartografia no período entre-Guerras como Erwin Raisz, dos Estados Unidos e Konstantin A. Salichtchev da então União Soviética (Ostrowski, 2008).

O período entre-Guerras foi marcado por um avanço tecnológico sem precedentes na história da humanidade, incentivado e patrocinado pelo Estado, especialmente nos setores de defesa, e pela indústria como forma de criar novos produtos e ampliar mercados. Esta expansão industrial demandava uma organização internacional do trabalho para a qual os recursos disponíveis e potenciais nos territórios precisavam ser conhecidos em detalhe. A produção cartográfica assim se caracterizava em nível internacional neste período: um instrumento para levantamento das potencialidades dos territórios nacionais com vistas à sua inserção no arranjo político mundial, seja pela especialidade, cada vez mais tecnicamente aperfeiçoada, dos levantamentos topográficos e de recursos naturais (e todo aparato tecnológico deles advindos), seja pela produção dos temas sobre o território nas academias e instituições de pesquisa, seja, ainda, na utilização dos mapas no âmbito escolar como meio de “conhecer” o mundo e também como instrumento de reafirmação das nacionalidades. A espacialidade era aquela herdada do iluminismo, mais especificamente a regra do espaço absoluto, o espaço do Estado-nação cada vez mais naturalizado.

A ligação da Geografia com o Estado “se torna tão forte que o destino deste se torna seu próprio destino” (Moreira, 2012). As teorias das localizações são revigoradas neste momento para atender às demandas da indústria projetada em escala nacional, para o que o geógrafo se estabelece como profissional dedicado a demarcar espaços diferenciados com uso da teoria da região e da cartografia, com forte engajamento nas atividades de planejamento. A colagem espaço-mapa se transformou no traço identitário daquela Geografia e do seu profissional, imagem de “uma relação indissociável que ainda mais se reforça com as necessidades de grandes arrumações territoriais advindas da revolução industrial em todos os Estados e governos” (Moreira, 2012, p. 16).

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O período da Segunda Guerra Mundial representou um importante marco para a autonomização da cartografia, pois o contexto colocou problemas novos e conhecimentos geográficos e cartográficos, naquele momento correntes, foram colocados em xeque. O entendimento do contexto de estruturação de uma inteligência cartográfica voltada ao conflito bélico nos Estados Unidos (a Divisão de Mapas do Setor de Pesquisas e Análises/R&A - Research and Analysis Branch do Escritório de Serviços Estratégicos/OSS - Office of Strategic Services, antecessor da CIA – Central Intelligence Agency) é significativo para a compreensão da prática cartográfica na contemporaneidade.

A Divisão de Mapas do R&A/OSS foi criada com os objetivos de adquirir e manter uma coleção abrangente de mapas estrangeiros ou os registros de sua disponibilidade, de elaborar estudos de mapas visando seu uso no campo da inteligência bélica e preparar mapas necessários ao cumprimento das funções de inteligência (Barnes, 2006; Crampton, 2011). Foi presidida por Arthur Robinson e contava com 38 geógrafos.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo grupo era compilar e gerar mapas de modo rápido e suficientemente claros para instruir tomadas de decisão naquele contexto. O modo com que os geógrafos de então trabalhavam com a cartografia no âmbito da Geografia era aquela herdada dos estudos regionais, acrescida dos aparatos e produtos que os desenvolvimentos tecnológicos disponibilizavam. Não havia, portanto, expertise por parte dos geógrafos para este tipo de mapa. Não era um problema de fonte de informação, mas de modo de apresentação (Barnes, 2006). O produto cartográfico central do trabalho da Divisão de Mapas eram os mapas em escala pequena para propósitos especiais, ou simplesmente mapas temáticos. O que pode parecer um produto óbvio nos dias atuais (qualquer livro didático de Geografia é povoado destes tipos de mapas) significou naquele momento um grande desafio.

Houve um desdobramento das atividades do R&A/OSS que diz respeito ao pensamento geográfico da época que também traz elementos para entender a tensão entre a cartografia e a geografia naquele período. O grupo de acadêmicos que formou o R&A/OSS era chefiado por Richard Hartshorne e composto por pesquisadores das ciências sociais das principais universidades americanas, sendo majoritariamente economistas, historiadores e geógrafos, e posteriormente foram agregados pesquisadores alemães emigrados, muitos deles da área de Teoria Crítica da Escola de Frankfurt9. Os geógrafos lá que trabalharam tinham sua formação pautada na Geografia Regional. A organização das divisões do R&A/OSS, inicialmente foram estruturados em conformidade com as áreas acadêmicas (por exemplo, Divisão de Geografia), mas sofreram rapidamente uma reorganização, passando a ter como foco a área geográfica e como equipe grupos interdisciplinares.

9 Escola de Frankfurt: denominação dada ao grupo de intelectuais alemães vinculados ao Instituto para

Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, que discutiam criticamente a apropriação geopolítica das obras de Marx, visando ao desenvolvimento de estudos e teorias críticas ao capitalismo visando a mudanças sociais. Destacam-se neste grupo Max Horkheimer, Theoror Adorno, Herbert Marcuse, entre outros. Sob o nazismo, muitos destes intelectuais foram perseguidos e emigraram para os Estados Unidos.

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As dificuldades de aplicação do método regional nos temas de estratégia eram muito grandes. Na discussão com outros cientistas sociais raramente os geógrafos conseguiam defender a especificidade de seus métodos e suas técnicas como centrais para a abordagem de questões demandadas pelo OSS. Desta maneira, na discussão com outros cientistas sociais, os limites da Geografia regional foram sendo colocados à prova e o que viria a surgir mais tarde em torno da revolução quantitativa a partir de meados dos anos 1950, e mais amplamente uma abordagem sistemática para o estudo geográfico, pode ser interpretada em parte como o culminar dessas frustrações iniciais da Geografia no envolvimento com outras ciências sociais (Barnes, 2006).

Se este intercâmbio com as ciências sociais em vista da produção de um conhecimento que pudesse ter aplicabilidade colocou em questão a base da ciência geográfica americana de então, fazendo-a perceber suas limitações e impondo necessidades da mudança, o mesmo não ocorreu com os geógrafos engajados na cartografia, pois “o papel dos mapas e das práticas de cartografia estavam bem estabelecidos, assim como a sua centralidade em executar e ganhar guerras. Eles não tinham que provar-se” (Barnes, 2006, p. 162).

A demanda por mapas no contexto da Segunda Guerra Mundial – e as soluções buscadas para resolvê-las – inaugurou, após o término do conflito, o campo de pesquisa denominado “Design de mapas”, conduzido a partir de então com o uso de experiências do campo da psicologia comportamental, do design, das artes gráficas, entre outras. Em 1952 Robinson publicou o livro The Look of Maps, que se transformou em referência internacional para a cartografia. Este livro apresentava e discutia os problemas enfrentados pelos geógrafos da Divisão de Mapas na produção cartográfica específica para aquele contexto e os expandia como possibilidades para todos os tipos de mapa, em outras escalas.

Geografia e Cartografia no pós-Segunda Guerra Mundial

O pós-Segunda Guerra revelou que a Geografia era, antes de qualquer coisa, um instrumento do Estado burguês. Por um lado, um conhecimento estratégico, por outro, um conhecimento alienado, conforme Lacoste (1988). O paradigma positivista, que sustentou a Geografia Clássica, produzia uma Geografia que precisava ser superada, o que se desdobrou no movimento de renovação. A base desta renovação foi a crise da Geografia Clássica no que se refere ao seu engajamento na explicação do mundo que se complexificava na esteira do desenvolvimento do capitalismo, da nova ordem mundial e da reconfiguração do papel do Estado no planejamento. Foi também a crítica ao conhecimento pretensamente neutro derivado do método positivista que predominava na Geografia.

A superação veio por dois caminhos e ambos trouxeram implicações ao uso dos mapas. Por um lado, o incremento tecnológico e pela formalização matemática, considerada a linguagem científica por excelência, constituíram os referenciais neopositivistas para a Geografia. Por outro, houve o embate teórico a partir dos referenciais dialético-materialistas e fenomenológicos. Moraes (1997) identificou estes dois caminhos como a Geografia Pragmática e a Geografia Crítica. Ainda que este autor, em prefácio de edições mais atuais do livro Geografia, pequena história crítica,

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tenha afirmado que esta classificação seja genérica e insuficiente para dar conta da complexidade daquele momento, ela nos auxilia a pensar em como, no âmbito de cada desdobramento do movimento de renovação, os mapas foram avaliados, discutidos e criticados.

Num primeiro momento o movimento de renovação implicou em um declínio do uso dos mapas na Geografia, exceção feita aos genericamente considerados estudos de Geografia Física, uma vez que não havia divergências entre a espacialidade absoluta da cartografia e a base metodológica da Geografia física, na qual, em linha geral, a localização e a extensão compõem um elemento de entendimento dos fenômenos estudados.

No conjunto de práticas e perspectivas que caracterizam a Geografia Pragmática ou New Geography, há a crítica ao caráter pouco aplicado da produção da Geografia Clássica, marcadamente a regional. A síntese que originava a região retratava uma situação resultante de configurações relativamente estáticas (atributos naturais) e pretéritas (ocupação humana) não permitindo a projeção futura por meio de simulações e previsões que eram demandas efetivas dos Estados nacionais, seja os destruídos pela guerra, como o Japão e países europeus, seja os emergentes, tal como os Estados Unidos que se estruturava como potência geopolítica e geoeconômica mundial.

Na busca por uma tecnologia da Geografia para informar a atividade de planejamento, valorizou-se uma linguagem objetiva, a matemática, em contraponto com a linguagem subjetiva (leia-se pouco precisa) dos mapas desenvolvidos nos moldes da Geografia Regional. Essa preocupação já havia sido manifestada por Hartshorne, por meio da proposição da Geografia Idiográfica e da Geografia Nomotética. A Geografia Idiográfica é aquela que se destina à análise de um só lugar, buscando um conhecimento aprofundado deste a partir de vários elementos. A Geografia Nomotética opera com poucos elementos inter-relacionados, mas com quantidade de lugares, comparando-os e gerando conhecimento geral. Essas duas modalidades de produção geográfica pautavam-se numa perspectiva metodológica que considerava a área não como uma entidade autônoma, externa ao sujeito (que era a perspectiva da região vidalina), mas como o resultado da seleção de fenômenos pelo pesquisador.

Essa mudança de perspectiva trouxe também a mudança no emprego de mapas. A grande quantidade de inter-relações de conjuntos temáticos do procedimento idiográfico ou a comparação de áreas do procedimento nomotético não eram convenientemente tratadas por meio dos mapas, mas sim por tratamentos matemáticos (matrizes, estatísticas, etc.). Assim, os mapas perderam potência na formulação desta perspectiva de renovação, que posteriormente foram revalorizados com os Sistemas de Informações Geográficas - SIGs. No entanto, o desenvolvimento de modelos como estuturas simplificadas da realidade que apresentariam características ou relações sob formas generalizadas (Chorley e Haggett, 1975), ganhou força para a explicação dos fatos do mundo, e se aperfeiçoam como tecnologia geográfica.

Para a linha que propunha modelos em Geografia não se colocava como necessidade a visão das localizações reais dos objetos. A essência do fenômeno geral é

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que estava em questão. Deste modo, os mapas topográficos e de inventário não instruíam, nesta abordagem, a análise geográfica, ou seja, não se configuravam como um elemento do método. Mas alguns tipos de imagens cartográficas, especialmente aquelas que resultavam de tratamentos estatísticos dos dados, foram incorporadas na medida em que se aproximavam da ideia de modelos espaciais.

Os geógrafos dos Estados Unidos foram particularmente engajados nesta via de renovação que se originou, como visto, do seu envolvimento na inteligência durante a Segunda Guerra Mundial, e se desdobrou na aplicação ao planejamento, que era uma nova função posta para as ciências, em especial para as humanas e sociais aplicadas.

O movimento de renovação crítica tinha por elemento aglutinador a crítica política à Geografia Clássica, suas vinculações ao Estado e à burguesia, seu engajamento na manutenção da ordem vigente e seu afastamento das questões que estavam sendo postas pelas ciências sociais, especialmente às formulações com base no materialismo histórico e dialético. O livro de Yves Lacoste La géographie, ça sert, d'abord, à faire la guerre, de 1976, considerado uma obra de referência ao movimento de renovação crítica da Geografia, é impregnado de passagens em que analisa os mapas na vida cotidiana e na Geografia, colocando-o como conhecimento estratégico e reputando o afastamento dos mapas como afastamento do entendimento espacial por parte de setores da sociedade.

Lacoste considerava o mapa como uma base procedimental na formulação de estudos geográficos, pois é o instrumento que permitiria a identificação de conjuntos espaciais. A identificação do geográfico ao cartografável, ou seja, o espaço geográfico como o que pode ser inscrito num mapa, delimitado com precisão e definido em termos de uma escala cartográfica, foi um aspecto bastante controverso da obra de Lacoste. Por outro lado, a ênfase que este autor deu aos mapas vinculava-se diretamente à valorização que dava à geopolítica, cuja análise dependia de condições de localização e extensão, que não foram centrais na maioria das produções no âmbito do movimento de renovação crítica.

Fundamentalmente há nos desdobramentos desta corrente de pensamento uma reformulação no conceito de espaço que se desamarra da perspectiva cartesiana, ou pelo menos não a considera como única possível. Daí os mapas não servirem mais como linguagem) e não ocorreram movimentos substanciais para fazer com que houvesse também uma renovação da linguagem cartográfica no âmbito da Geografia (Moreira 2012. A cartografia não colaborou com a renovação da geografia e a renovação da geografia ignorou a Cartografia e não envidou esforços para esta lhe servisse (Fonseca, 2007).

A efervescência do debate teórico-metodológico do movimento de renovação da Geografia concomitantemente à autononomização da cartografia, reverberaram no âmbito da pesquisa e da educação em Geografia. Para melhor entendimento de seus caminhos as perspectivas atuais, uma mirada na cartografia contemporânea torna-se relevante.

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Cartografia contemporânea

O rápido progresso da cartografia no pós-Guerra fez com que esta deixasse de ser meramente um dos componentes da Geografia. Do mesmo modo, as discussões sobre mapas passaram a aparecer cada vez menos nas estruturas científicas da Geografia, ainda que significativas contribuições à Cartografia teórica tenham sido dadas por geógrafos (Kanakubo, 1990). O aumento da produção prática e teórica sobre mapas promoveu o aparecimento de diversas associações cartográficas de caráter científico nos anos 1950 e 1960 e a congregação destas associações resultou na fundação da Associação Cartográfica Internacional em 1959. A partir deste momento se constituiu um fórum internacional para a consolidação da ciência cartográfica, acompanhando o movimento geral de retomada do desenvolvimento científico e tecnológico sob o marco da Guerra Fria.

Até o final dos anos 1970 os congressos das principais instituições internacionais de Geografia e de Cartografia – a União Geográfica Internacional (UGI) e a Associação Cartográfica Internacional (ACI) – eram realizados na mesma data e local, o que denota expressiva existência de profissionais ligados a ambas as áreas. Há, neste momento, o aparecimento de algumas tendências da cartografia, originadas no cerne da relação da Cartografia com a Geografia e outras campos de conhecimento científico, algumas apontando para sua separação, outras insistindo em sua integração.

Os debates teóricos na Cartografia tiveram como linha mestra a comunicação cartográfica. A separação da forma e do conteúdo do mapa era considerada por alguns autores necessária para afirmar a Cartografia como ciência autônoma e formal, já que o conteúdo seria da competência do especialista. O processo de comunicação cartográfica ou cartologia constituiu o objeto da maior parte da produção teórica da cartografia entre os anos 1960 e 1980. Considerava-se que esta abordagem forneceria o status de uma ciência totalmente independente à cartografia.

Não se pode deslocar esta busca das questões corporativas que as envolveram. No que se refere às questões corporativas, a existência do cartógrafo, para se justificar, dependia do corte entre conteúdo e forma do mapa, sendo esta última a sua especialidade. A comunicação, ou seja o “como” e “para quem” transmitir a informação, atendia ao imperativo da forma.

Ao mesmo tempo, eram desenvolvidas várias teorias sobre a eficiência na transmissão de informações, pois campos em expansão assim o demandavam. Pode-se citar como exemplo a teoria da informação, inicialmente formulada na engenharia elétrica para as telecomunicações que se desenvolviam. Emissor e receptor, codificação, decodificação, meio e ruído são termos deste campo. A semiologia foi inicialmente formulada na linguística estrutural para o entendimento dos signos e das relações intersígnicas, e depois foi expandida para outras áreas das humanidades, compondo o estruturalismo. Sintaxe, semântica, pragmática; signo, significado, significante; língua e fala, código e mensagem são termos advindos desse campo.

Na cartografia, a teoria da informação fundamentou a construção de modelos de comunicação cartográfica que iluminaria a avaliação de perdas e ganhos no processo de produção e leitura de mapas. O modelo de transmissão da informação

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cartográfica de Koláčný (Figura 5) sintetiza o conjunto das preocupações da ciência cartográfica então considerada, buscando incluir todos os aspectos que seriam temas para a pesquisa em cartografia.

Figura 5 - Comunicação da informação cartográfica, cf. Koláčný, 1967 (Koláčný, 1977, p.41; traduzida por Simielli, 1986, p. 45).

O modelo separa duas esferas de interesse, a produção e o uso de mapas, leva em consideração o trajeto da informação que tem como ponto de partida e de chegada a “realidade”, ou mais precisamente, o compartilhamento de ideias parciais acerca da realidade entre dois sujeitos ideais, o cartógrafo (o emissor) e o usuário (o receptor) por intermédio de um mapa (o meio). Observa-se que no modelo há interferências de várias naturezas em todas as etapas da transmissão da informação (fontes de ruídos). A linguagem cartográfica considerada antes e depois do mapa refere-se, respectivamente, à codificação e à decodificação. Nos dois sujeitos ideais considerados há uma série de fatores atuantes, como necessidades, propósito, objetivo, conhecimento, experiência, habilidades, competências, processos psicológicos, condições externas e outros. Todos estes fatores, na perspectiva do modelo, deveriam ser controlados. Observa-se, ainda, que é a intersecção entre os círculos correspondentes à realidade do cartógrafo e à realidade do usuário a medida de eficácia do mapa. Ou seja, quanto mais informações transmitidas pelo cartógrafo puderem ser recebidas pelo usuário, melhor será o mapa. Portanto, conhecer o usuário é uma maneira de adequar o produto, aumentando sua eficiência.

A Semiologia, na cartografia, teve outros desdobramentos. Os fundamentos semiológicos ou semióticos compuseram um significativo campo de estudos desde a década de 1960, particularmente desenvolvido na França, por Jacques Bertin, e na

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então URSS, sendo as obras de pesquisadores desta última menos conhecidas no ocidente em razão de barreiras linguísticas bem como os contextos políticos de então.

A primeira referência sobre o uso da Semiologia na Cartografia é a obra de Jacques Bertin Semiologie Graphique, de 1967. Essa obra apareceu como uma teoria abrangente, uma contribuição inovadora para a formalização da linguagem gráfica, nascida sob influência da semiologia e do estruturalismo que mobilizavam a agitação intelectual daquele período (Palsky, 2011). Para Bertin, ‘la graphique’10 faz parte dos sistemas de signos que o homem construiu para reter, compreender e comunicar as informações que lhe são necessárias. Trata-se de uma linguagem destinada ao olho que se beneficia das propriedades de ubiquidade da percepção visual, constitui-se como sistema monossêmico e como a parte racional do mundo das imagens.

Para tanto, Bertin sistematiza o quadro das variáveis visuais como gramática básica para a elaboração de imagens racionais (ver detalhamento e comentários na Parte II). A partir de três tipos possíveis de relações entre os objetos (ordem, semelhança/diferença ou proporcionalidade) são associadas as variáveis retinianas de imagem (tamanho e valor) e de separação (granulação, cor, orientação e forma). A estas variáveis são agregadas as formas de implantação (ponto, linha, área/zona). A partir desta gramática básica, a produção de mapas se constituiria em uma questão de tradução gráfica (Le Sann, 1983). Na perspectiva da Semiologia Gráfica, a partir do momento em que o que se traduz graficamente são as relações reais entre os objetos, a linguagem torna-se universal. Trata-se, portanto, de um modo de compreender a comunicação por mapas distinto daquele embasado na Teoria da Informação.

Konstantin Salichtchev foi um dos poucos pesquisadores que abordou de forma crítica a comunicação cartográfica. Para ele, ainda que o mapa tivesse prioritariamente a função comunicativa (transmissão de informações por meio de um arranjo de signos gráficos), a “tese ‘mapa como meio de comunicação’ não fornecia base suficientemente sólida para a elaboração de uma teoria cartográfica completa” (Salichtchev, 1983, p. 12). Haveria, segundo o autor, outras duas funções do mapa, a operativa (solução direta de problemas práticos com uso de mapas, como navegação, administração, etc.) e a cognitiva (investigações de fenômenos naturais e sociais e aquisição de novos conhecimentos a partir deles, que muitas vezes dependem de conhecimentos que extrapolam o mapa) e ambas seriam excluídas na perspectiva formalista que embasava grande parte da perspectiva comunicacional.

A Cartografia como ciência formal operaria com métodos próprios de fixação transmissão e difusão da informação espacial. Dessa forma incluiria desde a coleta de informações, passando pela elaboração material da imagem cartográfica até a reprodução, distribuição e avaliação de sua eficácia. O que não se incluía nessa perspectiva era a consideração ou compreensão, por parte do cartógrafo, do conteúdo do mapa. Para os defensores da visão formalista da Cartografia o conteúdo do mapa seria a seara do especialista (geólogo, demógrafo, geógrafo, etc.) e que o não

10

Há divergências na tradução do termo ‘la graphique’ para o português. Marcello Martinelli adota a expressão “representação gráfica”; em uma tradução do livro “La Graphique et le Traitement Graphique de l’Information”, feita por Cecília Maria Westphalen, editado pela UFPR foi utilizado o termo “neográfica”; Fernanda P. Fonseca e Jaime Oliva utilizam o termo “gráfica”.

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envolvimento do cartógrafo com o conteúdo seria a garantia da definição dos limites da ciência cartográfica.

Contrária à visão formalista houve a defesa da Cartografia “que visa à investigação do mundo objetivo e a aquisição de novos conhecimentos” (Salichchthev, 1983, p.12). Para esse autor a mera criação dos modelos de comunicação cartográfica não fundamentaria suficientemente a elaboração teórica da Cartografia. A base da formulação seria a compreensão do processo cartográfico como método científico de cognição, o que superaria a separação forma-conteúdo defendida pelos formalistas. O método científico de investigação da Cartografia seria a modelização cartográfica da realidade, que implicaria em acessar o conteúdo interior do fenômeno. A principal crítica ao conceito de cartografia como ciência cognitiva baseava-se no argumento de que a cartografia não poderia assumir a competência da Geografia, apesar da estreita associação entre elas (Ostrowski, 2008).

O final dos anos 1970 e início dos anos 1980 foi o período em que se destacaram os esforços para a sistematização da cartografia teórica (definição de objeto e método da cartografia) e, ao mesmo tempo, foi o período em que surgiram os novos potenciais para a cartografia frente à introdução da informática nos vários âmbitos do fazer cartográfico (Kanakubo, 1990; Ostrowski, 2008). A literatura científica internacional em cartografia neste período, anos 1980, sofreu uma grande transformação, já que implicava pensar o legado cartográfico numa nova forma de fazer. Iniciara-se a era dos computadores pessoais, mais enxutos, mais potentes, que revolucionaram não só o mercado, não só o setor de informática, mas todos os setores da atividade humana, incluindo o modo como nos relacionamos com o conhecimento e o modo como nos relacionamos com os outros. Fatalmente mudou, também, o modo de relação da sociedade com os mapas.

Disso desdobra uma significativa transformação operada no interior da própria comunidade científica da cartografia, na qual são identificadas duas tendências principais, uma delas pautada na desenvolvimento tecnológico e outra na crítica. Estas tendências, mais contemporaneamente, tem tido suas fronteiras diluídas. Contudo, serão aqui apresentadas separadamente.

No que se refere ao desenvolvimento tecnológico, houve uma tendência inicial de incorporação das práticas cartográficas às tecnologias que emergiam. Implicava em converter o legado da cartografia em linguagem computacional. Os recursos de produção de mapas dos Sistemas de Informações Geográficas são exemplares neste sentido. Técnicas cartométricas (cálculo de áreas, clinografia, exposição de vertentes, densidades, etc) bem como de mapeamento de dados estatísticos (mapas coropléticos, figuras geométricas proporcionais, etc.) compõem módulos básicos de qualquer SIG.

Na medida em que execução técnica do mapa transformou-se em processamento computacional e a aparência do produto final uma escolha em bibliotecas pré-selecionadas de elementos gráficos (formas, cores, tipos, etc.), novas questões de ordem epistemológica se apresentaram, convergindo para o processo de visualização . Visualização é um ramo da computação gráfica interessado na

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exploração do poder analítico e comunicativo da interpretação visual (Taylor, 1991), denominada por muitos autores como VISC – Visualization in Scientific Computation.

A visualização científica é “um método da computação que transforma o simbólico no geométrico, habilitando pesquisadores a observar suas simulações e computações. [...] é uma ferramenta tanto para a interpretação de dados de imagens inseridos num computador como para gerar imagens de conjuntos complexos de dados multidimensionais” (McCormick et al, 1987 apud Jiang, 1996, p. 1).

Observa-se o impacto da visualização científica em inúmeras modalidades da atividade humana. Por exemplo, imagens tridimensionais obtidas a partir de scanner de um organismo permitem interpretar certos tipos de anomalias, diagnosticando com precisão a doença para aplicação do tratamento adequado. Aplicada à cartografia, a visualização cartográfica a partir dos anos 1990 passou a compor uma nova pauta, interessada em como as imagens cartográficas tornam visíveis as relações espaciais (Crampton, 2001).

Alan MacEachren, em 1994 publicou o modelo de visualização cartográfica, conhecido como “cubo cartográfico” (Figura6). Este modelo lida com a visualização como processo de descoberta e com a comunicação como transmissão do já descoberto, o que deslocou o centro das teorias cartográficas, até então pautadas na comunicação por mapas. Por esta razão a visualização passou a ser considerada como um novo paradigma para a cartografia.

Figura 6 – “Cubo cartográfico” de MacEachren: visualização e comunicação. Adaaptado de Dent (1995).

A visualização cartográfica pressupõe uma altíssima interação humano–imagem do mapa. A seleção dos dados, a escolha de bases cartográficas ou fundos de mapa, a opção por metodologias de tratamento, estão no domínio privado, ou seja, é uma atividade de quem está a produzir a imagem. Os recursos tecnológicos, como por exemplo os Sistemas de Informações Geográficas, permitem amplas possibilidades de produção, descarte, modificações nos intervalos de dados... o que caracteriza a interatividade. No processo de visualização as imagens vão sendo geradas

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concomitantemente à sua análise, e na medida em que revelam o desconhecido, produzem novos conhecimentos.

Por seu turno a comunicação situa-se no domínio público, pois pressupõe que se compartilhe o mapa com outros indivíduos. Dessa maneira o usuário tem baixa interação com o mapa, ou seja, já lhe é apresentado um conhecimento previamente descoberto por outrem.

Os produtos cartográficos multimídia estão em um meio-termo entre a comunicação e a visualização, uma vez que a interatividade é limitada por um conjunto de opções dadas pelo produto, assim como os padrões comunicativos são direcionados (por exemplo, pela faixa-etária). É, no entanto, uma área de grande potencialidade de utilização de recursos cartográficos.

Ao lado do desenvolvimento da visualização científica (e cartográfica), assistiu-se à imensa expansão da rede mundial de computadores, o que resulta em infinitas possibilidades de criação de novos conhecimentos, pois há o recurso computacional e há a informação, ambos disponíveis. Este processo foi acompanhado por um imenso desenvolvimento de aparatos tecnológicos cuja disseminação pela vida social se deu muito rapidamente. A possibilidade de consultar mapas e navegar com GPS a partir de um telefone celular é exemplar neste sentido. Evidentemente isto também modificou o significado social da atividade de mapeamento e trouxe questões novas para a cartografia.

O desenvolvimento tecnológico da cartografia a partir dos anos 1990 foi acompanhado pelo desenvolvimento de uma vertente crítica na cartografia. Os aportes teóricos desta vertente são variados, mas convergem para o entendimento do mapa como poder, desdobrando-se em leituras de como a cartografia moderna engajou-se na manutenção do poder (do Estado, das corporações, dos impérios coloniais...) bem como sobre os modos como a disseminação de mapas na sociedade contemporânea pode ser também uma disseminação de poder, em outras palavras, como o mapa empodera.

As obras de John Brian Harley se destacam na consolidação da Cartografia Crítica. Este autor inaugurou uma abordagem que deslocou a compreensão da história da cartografia como história de evolução das técnicas tendo como referência a cartografia europeia. Os escritos deste autor passaram a iluminar uma perspectiva de cartografia que colocava em igualdade de legitimidade as produções ocidentais e toda outra sorte de produção de mapas, rompendo com uma história da cartografia que separava os mapas “primitivos” e “antigos” dos “contemporâneos” (leia-se ocidentais, científicos, ou seja, os confeccionados com base em ciências tais como geodésia, topografia, aerofotogeografia, ou confeccionados com base em estatística e comunicação visual, e portanto “verdadeiros”). Esta classificação revelaria o preconceito em relação aos mapas tanto das sociedades tecnologicamente não avançadas e mesmo quanto aos mapas não científicos, tais como mapas de propaganda, mapas turísticos, mapas mentais, entre outros.

Harley ampliou a definição de mapa para “representação gráfica que facilita a compreensão espacial de objetos, conceitos, condições, processos e fatos do mundo humano” (Harley, 1991, p. 07), considerando que cada sociedade teve ou tem uma

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forma específica de perceber e produzir imagens espaciais. Assim, o mapa apresentaria um determinado recorte espacial com características de um determinado tempo, características estas que incidiriam tanto sobre a técnica quanto sobre a configuração, reafirmando seu caráter histórico e, portanto, cultural. As ideias de Harley constituíram um marco pela relevância da introdução deste modo de entender cartografia e os mapas, mas estão hoje sendo revistas, basicamente em razão da fragilidade teórica de alguma de suas argumentações.

A Cartografia Crítica na contemporaneidade tem se dedicado ao entendimento do mapa no âmbito da vida social, trabalhando com aportes teóricos variados, em especial os advindos das teorias críticas das ciências humanas e sociais, bem como da filosofia. Um dos pontos-chave desta linha é a discussão da representação.

John Harwood Andrews publicou em 1996 um levantamento que realizou de 321 definições da palavra “mapa” em obras como dicionários, glossários, enciclopédias, periódicos e outros, entre 1649 e 1996. A ideia recorrente entre estas definições é “representação plana de todo ou de parte da superfície Terrestre”. Essa ideia ainda é amplamente aceita e aparece com frequência em publicações atuais da área.

Na esteira deste entendimento, a cartografia objetivaria representar tão fielmente quanto possível os arranjos espaciais dos fenômenos na superfície da Terra; seria uma busca acadêmica e científica que consistiria em teorizar sobre como melhor representar e comunicar a verdade sobre o mundo que, então, existiria independentemente do observador. Esta construção conforma a visão representacional do mapa (Kitchin, Perkins e Dodge, 2009).

A representação, ainda que seja um termo que não tenha significado unívoco, é amplamente utilizado na literatura cartográfica no sentido de transcrição, no mapa, daquilo que já está posto na realidade. Neste sentido, se o espaço é representável, ele já estaria dado, seria um “antes” disponível para descobertas. Portanto, a função da linguagem cartográfica seria a de organizar, na superfície de um meio qualquer (papel, tela de computador, etc.) esta realidade com o uso de regras específicas.

Para Wood e Krygier (2009) a definição do mapa como “representação da superfície terrestre”, mesmo sendo quase unânime, tem que ser entendida não como descrição imparcial, mas como uma projeção, por assim dizer, do próprio mapa – o mapa como ele gostaria de ser visto, pois é deste modo que constrói seu poder. Segundo estes autores, ao se adotar uma definição como esta, naturaliza-se o mapa, esconde-se suas origens no surgimento do Estado, e ignora-se o seu papel no estabelecimento e manutenção de relações sociais nas sociedades em que ele existe.

A perspectiva representacional da cartografia implica em um conjunto de pressuposições, tais como: o espaço é concebido como um receptáculo com uma geometria explícita e cabe à cartografia representar esta geometria; os objetivos do cartógrafo seriam a redução dos erros da representação e o aumento da efetividade do mapa por meio de um bom design; o usuário do mapa seria concebido como um receptor apolítico do conhecimento e o cartógrafo como um técnico empenhado em entregar uma representação espacialmente precisa e neutra produzida com base em experimentos cuidadosamente controlados; o mapeamento revelaria a verdade por

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meio de uma abordagem científica confiante nos modos ocidentais de ver e nas tecnologias da visão (Kitchin, Perkins e Dodge, 2009; Cosgrove, 2008).

Para os autores contemporâneos da Cartografia Crítica, o pensamento representacional tem sido um elemento de bloqueio aos avanços teóricos para a própria cartografia. Superar este bloqueio implicaria em desconstruir a ideia de mapa como representação espacial e os argumentos da ciência que a produz. Este seria o desafio de uma cartografia pós-representacional.

Em linhas gerais, uma cartografia pós-representacional assenta-se na ideia de que não há uma realidade já dada, disponível à apreensão, mas que ela é constituída ou formada por meio das inter-relações que criamos com as coisas, inclusive com os mapas. A defesa da existência de um “mundo real” externo a priori não apenas acarreta na negação da imaginação, mas também é incongruente com a capacidade inata da humanidade de estruturar relações recíprocas com seu ambiente (Corner, 1999). Neste sentido, mapa, realidade e conhecimento são co-constituídos, não sendo possível separar o modo como o mapa age no mundo do modo como o mundo é realizado no mapa. Não há verdade, mas possibilidades (Del Cassino Jr. e Hannah, 2006; Turnbull, 2007).

Para a perspectiva pós-representacional, portanto, não existem modos “certos” de se fazer mapas, mas cada produção e uso devem ser entendidos em seus contextos e políticas. Deste modo, a questão central da cartografia na contemporaneidade não está no modo como os objetos são mapeados, mas no entendimento de como os mapas funcionam, de como as práticas cartográficas tem codificado objetos e produzido identidades (Pickles, 2004). Nesta perspectiva, não é a ontologia do mapa que interessa (o que o mapa é), mas como ele, a todo o momento, é originado; sobre como um mapa qualquer, ao ser lido, é atualizado; em outras palavras, como os mapas nos afetam e como agimos no mundo com eles (Crampton e Krygier, 2006; Kitchin, Perkins e Dodge, 2009).

Este é o ponto em que os desenvolvimentos tecnológicos e a crítica podem convergir, e mapas e mapeamentos que emergem em diferentes âmbitos da vida social podem apontar para novos modos de entendimento da cartografia. Neste âmbito, Crampton e Krygier (2006) apontam os artistas, pelas suas ricas e variadas apropriações do mapeamento, desafiando noções de espaço, conhecimento e poder; os mapeamentos correntes, ou seja, mapeamentos performativos, lúdicos, indígenas, afetivos, experimentais e narrativos, que combatem perspectivas globais generalizadas; os mapas como resistência, contra-mapeamentos, mapeamentos participativos e SIGs participativos, que geram mapeamentos alternativos àqueles das agências oficiais do Estado; o hackeamento de mapas, que combinam conhecimentos espacializados utilizando plataformas livres e renovam formas de mapeamento.

Estas potências atuais da cartografia, da refinada modelagem por meio da visualização aos modos disseminados de produção e utilização de mapas para dimensões variadas da vida social caracterizam o universo de possibilidades e expectativas da cartografia na contemporaneidade. E os desdobramentos na Geografia são tão inevitáveis como desejáveis.

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Cartografia na Geografia contemporânea: espacialidades em questão

A Geografia, no pós-Segunda Guerra, assiste a um grande processo de especialização de seus vários ramos. Há um aprofundamento nas análises e formulações sobre o espaço com base nas teorias sociais, marcadamente ancoradas no materialismo histórico e dialético, por um lado, e no neopositivismo por outro. O urbano, o rural e suas conexões ganham novos enfoques. O temário geopolítico no entendimento das reconfigurações do mundo é revalorizado. O ambiental emerge como campo de preocupações e provoca ampla disseminação da abordagem sistêmica. No campo aplicado do planejamento emergem as atividades voltadas aos zoneamentos de várias ordens (urbanos, ecológicos, econômicos). A valorização mundial da diversidade reativa o temário da geografia cultural.

Nesta reconfiguração temática e teórica da ciência geográfica não é possível se falar em postura homogênea em relação aos mapas e à cartografia. Se no início do movimento de renovação era possível identificar uma ruptura com a cartografia que então estava disponível (a tradição cartográfica da geografia regional), no desenrolar dos estudos nos anos 1990 o que se encontram são perspectivas variadas. Campos específicos do conhecimento geográfico foram incorporando as inovações tecnológicas conforme elas ofereciam maiores possibilidades de coleta, tratamento e transformação dos dados em mapas. Outros campos foram, ao contrário, diminuindo a importância da prática cartográfica em seus fazeres. O que está em questão, em um ou no outro caso, é a espacialidade com que se opera, prioritariamente.

O espaço não é absoluto, relativo ou relacional em si mesmo, mas pode se tornar um ou todos ao mesmo tempo, dependendo das circunstâncias (Harvey, 2008), ou seja, é a natureza do fenômeno sob análise que determina a conceituação adequada do espaço. O espaço absoluto é o da extensão e das localizações enquanto posições absolutas em termos de coordenadas. É o espaço fixo, imóvel e por isso é possível mensurá-lo. É o espaço “propriedade privada e outras designações territoriais limitadas, tais como estados, unidades administrativas, planos municipais e redes urbanas” (Harvey, 2012, p. 10). Esta é a espacialidade clássica da cartografia. Assim, na Geografia os campos que lidavam com a noção de espaço absoluto, cujas localizações absolutas eram essenciais na abordagem, tiveram um acoplamento maior com as possibilidades cartográficas posteriormente traduzidas nos SIGs.

Alguns exemplos podem ser elencados. No campo de estudos da geomorfologia e da pedologia, o uso da carta topográfica continuava imprescindível no âmbito da cartometria, juntamente com a fotointerpretação. Quanto mais se pudesse detalhar a escala do mapa, mais fidedignidade haveria na análise. No campo da climatologia o interesse maior era na tecnologia espacial, com os satélites meteorológicos que forneciam informações que puderam fazer avançar em muito este campo de conhecimento. No campo do planejamento e no campo do ambiental (e também na integração destes) os avanços nos SIGs significaram ampliação de possibilidades analíticas pelo seu potencial de integração de dados e de modelagem. A via de revalorização da Cartografia na Geografia, operada no interior do desenvolvimento das tecnologias “espaciais” (leia-se, satélites, sistemas computacionais para geoprocessamento, sistemas de posicionamento global), só respondeu parcialmente

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aos campos e demandas da Geografia, mais especificamente, conforme não conflitassem com a noção de espaço que era articulada nestes variados campos.

O espaço relativo implica na consideração do tempo, bem como na escolha da geometria ou quadro de referência de observação a partir das quais se procedem as mensurações. É o espaço dos mapas temáticos e topológicos construídos a partir de geometrias e topologias não-euclideanas. A “menor distância” entre dois pontos, pode ser medida em termos de tempo, custo e outros e não somente pela distância física (a extensão). A mensuração nesta perspectiva espacial implica regras especiais e pode haver dificuldade em integrar áreas diferentes, mas isso não significa propriamente uma desvantagem, pois o entendimento e a comparação entre diferentes estruturas espaço-temporais podem iluminar problemas de escolha política (Harvey, 2012).

O espaço relacional, segundo Harvey (2012) é extremamente difícil e desafiador para se trabalhar. Ele implica que não exista espaço fora dos processos que o definam, ou seja, os processos não ocorrem no espaço, o espaço é que é interno aos processos. Implica, ainda que as influências externas são internalizadas em processos específicos ou coisas através do tempo. Quando Massey (2008) afirma que o espaço não é uma superfície, mas uma simultaneidade de estórias-até-aqui, um sempre inacabado, está também a pensar na perspectiva relacional.

Se o ponto capital de referência para uma nova Cartografia Geográfica é o próprio conceito de espaço (Moreira, 2012), o apresentado por Massey implica num abandono da tradição de pensamento do espacial como superfície e, por conseguinte, das maneiras convencionais (ocidentais) de mapear. Do mesmo modo que Moreira, Massey admite a importância destes mapas convencionais em vários setores da vida (como mapas rodoviários, por exemplo). Sua intenção, contudo, é chamar a atenção para o tipo de padrão de pensamento do espacial que estes mapas produzem nos geógrafos e que a valorização do espaço passaria por repensar a imagem construída sobre este.

Para que as práticas cartográficas sejam valorizadas como requisito da reflexão geográfica como o foi no passado, precisamos incluir nestas práticas no contemporâneo e na reflexão sobre elas estas três dimensões da espacialidade, é preciso levar em conta as várias dimensões espaciais nas quais e com as quais a Geografia trabalha.

A Cartografia Geográfica brasileira

A Geografia brasileira tem sua institucionalização na década de 1930, quando foi instituída a disciplina Geografia no ensino básico, foram criados os cursos de Geografia da Universidade de São Paulo (em 1934) e da Universidade do Brasil (atual UFRJ, em 1935) e foram fundadas instituições dedicadas aos estudos e aplicações geográficos, como a Associação dos Geógrafos Brasileiros (em 1934), o Conselho Nacional de Geografia (em 1937) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (em 1939). Evidentemente há uma produção cartográfica anterior, desde o início da colonização portuguesa. Contudo o que aqui interessa é mirar para a cartografia no

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interior da Geografia brasileira para situar o conjunto de problemáticas atinentes à área e que reverberam, muitas delas, na atualidade.

O conjunto de conhecimentos cartográficos organizados sob a forma de uma disciplina universitária no Brasil somente apareceu em 1943 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em 1947 na Universidade de São Paulo. A Geografia brasileira nesse período era muito influenciada pela Geografia regional francesa, matriz importante para a “formação de um pensamento geográfico autônomo, fazendo com que se desenvolvessem estudos regionais e melhor se conhecesse as porções mais dinâmicas do país” (Andrade, 1987, p. 93). Esta matriz tinha os mapas como parte de seu método e os ensinamentos acerca das práticas cartográficas eram transmitidos conjuntamente com outras informações em disciplinas diversas.

Neste período também teve início a elaboração de levantamentos cartográficos sistemáticos de partes do território brasileiro, em escalas médias e grandes, que refletia demandas do Estado para conhecimento e controle. A disponibilização destes produtos cartográficos e sua utilização pela comunidade geográfica criou uma demanda nova, que justificou a criação de disciplina específica de cartografia, a exemplo de universidades europeias e norte-americanas.

Nas décadas de 1940 e 1950 a Geografia brasileira se organizava em dois grandes segmentos de formulação, o acadêmico, representado pelos cursos universitários de Geografia existentes, e o vinculado ao planejamento. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística era a mais importante instituição deste último segmento, atuando como produtor de mapas, dados e análises sobre o território brasileiro e também como elaborador e disseminador de teorias e procedimentos metodológicos da cartografia por meio da promoção de cursos para professores (Andrade, 1987). A preocupação com a disseminação do conhecimento cartográfico tinha como fundo o aperfeiçoamento da análise geográfica regional, dentro do método vigente. Os dois segmentos, acadêmico e de planejamento conectavam-se em razão de suas origens comuns.

Nestas mesmas décadas, respondendo a um movimento nacional-desenvolvimentista, foram criadas várias universidades federais e ocorreram federalizações de instituições de ensino superior isoladas, fato que se verificou em quase todas as capitais dos estados da federação. Nestas novas estruturas universitárias os cursos de Geografia, especialmente voltados para a formação docente, estiveram, de modo geral, entre os primeiros a serem criados. A cartografia compunha o currículo básico da formação em Geografia e aqueles cursos para professores do IBGE, mencionados, protagonizaram um efeito disseminador no modo de tratamento da cartografia na Geografia.

Este quadro vai sendo estruturado lentamente até a Segunda Guerra Mundial. No período pós-Segunda Guerra, marcadamente nos anos JK, houve um grande incremento na produção cartográfica nacional. A despeito dos esforços institucionais brasileiros desde os primórdios do século XX na produção de levantamentos de detalhes, até meados daquele século elas eram descontínuas (pois eram basicamente realizadas pelos estados da federação) e não articuladas, o que só ocorreu a partir de

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1945, com a documentação aerofotogramétrica que foi cedida pelos Estados Unidos após o conflito mundial, cobrindo dois terços do território nacional (Oliveira, 1993).

Neste mesmo período, em virtude do contexto econômico vivido no Brasil, houve crescente demanda por cursos superiores e o Estado assumiu essa responsabilidade por meio da criação de um grande número de Universidades Federais. Nos anos 1950, aproximadamente, com o aumento significativo de cursos de Geografia foi havendo crescente demanda de professores para a área de cartografia. Na grande maioria dos casos não havia disponibilidade de profissionais da Geografia que atuassem com cartografia para ocupar essas vagas criadas e assim foram buscados, em outras áreas, profissionais que, em tese, teriam conhecimento técnico para lecioná-la. Era muito comum que a “cadeira” de cartografia fosse ocupada por engenheiros civis, agrimensores e quadros do exército, assim como era comum que técnicos do planejamento atuassem como docentes no ensino universitário. Assim, nos cursos de Geografia que fundamentalmente formavam professores, ministravam os conteúdos de cartografia profissionais com perfil eminentemente técnico; além disso, a ausência de bibliografia não criava um corpo mínimo de conhecimentos de cartografia que pudesse dar identidade metodológica à disciplina.

Ademais a relação destes profissionais que assumiam a docência em cartografia, oriundos de outras áreas que não Geografia, com mudanças paradigmáticas nessa ciência era, em regra, pequena. Ressalta-se que neste período reverberam nas universidades brasileiras as linhas do movimento de renovação da Geografia que implicou na diminuição do papel do mapa do conjunto metodológico ou linguístico da Geografia. As práticas cartográficas já não convergiam com o pensamento geográfico, como havia acontecido na geografia regional. Uma compreensão pobre do potencial linguístico dos mapas reduziu a cartografia à mera técnica auxiliar. A permanência, contudo, da cartografia nos cursos de Geografia raramente foi posta em discussão, em parte por uma questão de “identidade original”, em parte pela permanência da imagem cartográfica no ensino básico de Geografia.

Produções acadêmicas em Cartografia Geográfica nesse período eram raras. No Boletim Paulista de Geografia, foram publicados artigos apresentando técnicas (A prancheta e sua utilização em trabalhos cartográficos, de 1955; Diagramas geográficos e sua aplicação, de 1955, ambos de Soukup) e, mais tarde, uma reflexão de André Libault (1967) denominada Tendências atuais da Cartografia. Nesse artigo o autor discorreu sobre a história da Cartografia buscando entender a evolução e a construção do conhecimento geográfico por esta via. André Libault pontuou as criações cartográficas no decorrer da evolução da prática geográfica e defendia a Cartografia como elemento avalizador da Geografia:

a maior parte dos trabalhos geográficos atuais são estudos de detalhes, porque alguns geógrafos não atingiram o espírito científico de síntese. [...]. É precisamente por intermédio da cartografia que a conclusão tornar-se-á geral e científica (Libault, 1967: 14).

Os esforços de André Libault eram o de atualizar o fazer cartográfico na Geografia, reconquistando seu caráter metodológico, contemporizando os tratamentos estatísticos com a geografia clássica. Esse pensamento foi sistematizado

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numa publicação do Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo denominada Os quatro níveis da pesquisa geográfica (Libault, 1971). Os níveis da pesquisa são o compilatório, o correlatório, o semântico e o normativo e os resultados deveriam ser expressos em uma carta, mais adequada que as matrizes às interpretações dos geógrafos de formação convencional. As duas principais contribuições de André Libault à Geografia brasileira são a obra metodológica acima citada e o livro Geocartografia, que é a primeira tentativa de estruturar um conjunto de conhecimentos que comporiam a Cartografia Geográfica no Brasil.

A autonomização do campo profissional vinculado à cartografia de base, por meio da criação do campo de Engenharia Cartográfica, dos primeiros desdobramentos do movimento de renovação da geografia na academia e no planejamento (especialmente com a New Geography), a expansão dos cursos de Geografia voltados à formação docente que implicaram na transformação da cartografia numa disciplina sem identidade geográfica, são elementos básicos para se compreender os múltiplos aspectos do contexto de afastamento da Geografia com a cartografia, e, ao mesmo tempo, de valorização técnica da Cartografia, dos anos 1930 aos anos 1970.

A década de 1970 constituiu um novo marco nessa trajetória, pois trouxe dois elementos novos, que foram a reforma do ensino e o movimento de renovação crítica da Geografia brasileira, desdobrando-se na “crise” desta ciência.

A reforma educacional do início dos anos 1970 (Lei n. 5.692/71) impactou a Geografia em vários níveis. O país havia se urbanizado e se industrializado em virtude de sua inclusão na nova ordem internacional, gerando a necessidade de mão de obra qualificada para atender a nova indústria e de formação de mercado consumidor, e a escola “para todos” tornou-se uma necessidade (Pontuschka, 1999).

Para suprir essa demanda era necessário primeiramente ampliar o acesso à escola, processo denominado “universalização do ensino”. A ampliação do número de alunos demandava, obviamente, a ampliação do número de escolas e de professores. No entanto, as universidades públicas brasileiras, predominantes à época, somadas às confessionais (tais como as Pontifícias Universidades Católicas), não formavam contingentes docentes o suficiente. Esse foi o mote para a proliferação do ensino superior privado, que passou, rapidamente, a fornecer a maior parte dos quadros docentes para a rede de ensino, especialmente a pública. A questão “quantos professores?” estava resolvida. Outra questão era “como formar?”, melhor traduzida por outra questão que é “em quanto tempo formar?”. A solução dada pela Lei para este problema foi a criação das licenciaturas curtas, “responsável por uma formação comprovadamente desastrosa do professor” (Seabra, 1981, p. 122).

No caso das humanidades outra questão se fez presente: “no que formar?” A Lei n. 5.692/71 criou como matérias escolares os Estudos Sociais, a Educação Moral e Cívica, a Organização Social e Política do Brasil e os Estudos de Problemas Brasileiros, pensadas como maneira de inculcar valores pátrios (no contexto da Ditadura Militar) nos vários níveis de ensino. Este foi um dos desdobramentos dos acordos MEC-USAID (United States Agency for Development, organismo do governo dos Estados Unidos que, a partir de 1964, passa a dar assessoria ao regime militar, principalmente, na área da educação). Só no início dos anos 1990 que essas disciplinas foram extintas. Essas

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matérias, no ensino básico, substituíam ou retiravam carga horária das disciplinas de humanidades, particularmente Geografia e História (Sociologia e Filosofia foram extintas dos currículos nestes níveis escolares) e criaram a demanda por uma formação diferenciada que foi construída como Licenciatura Plena em Estudos Sociais, que mantinham praticamente a licenciatura curta como “ciclo básico” (dois primeiros anos), complementada com mais dois anos a título de habilitação em História ou em Geografia.

A imensa maioria das escolas privadas de formação docente adotou essa formação, pois o “ciclo básico” além de não implicar na ampliação dos quadros docentes (o que em si já representava vantagem do ponto de vista econômico) servia como marketing, pois ao cabo de dois anos o aluno já dispunha de uma certificação de licenciatura curta, o que parecia compensar o investimento com seu rápido ingresso no mundo do trabalho docente. Criou-se nesse processo a separação oficial entre as modalidades de bacharelado e licenciatura, que trouxe implícita a separação entre produção e reprodução de conhecimentos.

O currículo mínimo obrigatório para os cursos de Licenciatura em Geografia, fixado pelo Conselho Federal de Educação em 1962 (extinto em decorrência da atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação – Lei 9.394/96), destinava uma pequena parcela do tempo ao conteúdo de cartografia. Nos cursos superiores de Licenciatura Plena que não adotavam a dinâmica da licenciatura curta nos dois anos iniciais (em muitos casos conjugados com o bacharelado, sistema usual nas universidades públicas e nas PUCs) a carga horária destinada às disciplinas de cartografia era, em média, 180 horas. No caso dos cursos que adotavam o ciclo básico/licenciatura curta, raramente se destinava mais de 60 horas ao conteúdo cartográfico. Agregue-se a isso o fato de que essas horas eram, muitas vezes, alocadas nos anos finais da formação, indicando que a cartografia não acompanhava a formação.

No ensino de Geografia, a tomar por base os livros didáticos, os conteúdos requeridos sob o rótulo “cartografia” iniciavam com o sistema solar e se desdobravam nas coordenadas geográficas, pontos cardeais, fusos horários. Habilidades em leitura de mapas – além da simples constatação “onde fica” – eram quase inexistentes. A atividade cartográfica nas aulas de Geografia, quando existentes, reduzia-se à cópia de mapas. A transformação dessa problemática, ligada à cartografia e ao ensino de Geografia, em objeto de pesquisa científica só ocorreu no final dos anos 1970 e teve como pioneira a pesquisa de livre-docência da Professora Lívia de Oliveira, da Unesp de Rio Claro, intitulada “Estudo Metodológico e Cognitivo do Mapa”, publicado em 1978.

A crise institucional do ensino – e inserida nessa a do ensino de Geografia – contribuiu, por razões estruturais, com a distorção do ensino da Cartografia, tanto ao nível da formação universitária como no ensino básico. A falta de domínio dos professores do ensino básico originada na formação deficitária dos mesmos contribuiu para a reprodução de gerações de copiadores de mapas (como estratégia mnemônica) e foi essa a situação vigente até os anos 1980-90.

Há outro aspecto a ser levado em consideração que não é estrutural, mas paradigmático, que é o reflexo do movimento de renovação crítica da Geografia no

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ensino dessa disciplina. Destaca-se nesse processo o papel da Associação dos Geógrafos Brasileiros. Os encontros da AGB foram fóruns privilegiados da discussão da Geografia brasileira, desde sua origem. Não foi diferente no movimento de renovação, quando o debate foi dominado pelo pensamento crítico. A partir de 1978 houve, em decorrência deste debate, uma mudança na associação que passa a abrigar estudantes e professores do ensino básico em seus quadros, o que faz com que tenha se ampliado a participação de vários segmentos da comunidade geográfica, provocando um efeito disseminador de novas ideias acerca da Geografia. Isso pontua o caminho pelo qual a renovação crítica da Geografia chega à escola. Nos anos 1980 esse movimento é intensificado, reforçado pelas discussões acerca de propostas curriculares para a Geografia do ensino básico e pelo aparecimento de livros didáticos com essa nova perspectiva.

Um movimento dessa grandeza não se fez sem conflitos: o conflito entre a frágil base dos professores formados nas licenciaturas em Estudos Sociais, já mencionada, e a carga teórica das novas propostas; conflito entre uma prática já consolidada (copiar–decorar–responder questionário) e uma necessária mudança de postura pedagógica; conflito entre o domínio de temas fragmentados e a dúvida sobre como articulá-los. E esse ambiente de conflito gerou um bordão da época – “a Geografia que se faz é diferente da Geografia que se ensina” – que refletia ao mesmo tempo a tomada de consciência por parte dos professores do ensino básico em relação à Geografia que ensinavam e o questionamento àqueles que “faziam” a Geografia (pesquisadores, professores universitários) acerca de seu papel na diminuição da distância entre essas duas Geografias.

Em meio a essa situação complexa o temário do ensino de Geografia passou a fazer parte de reflexões teóricas mais amplas. Nestas proposições de superação, no âmbito escolar, dos traços de uma Geografia fragmentária e descolada da análise social, associadas a uma raiz histórica na Geografia como instrumentalizadora de abordagens nacionalistas, os mapas passaram a ser vistos como uma imagem-símbolo dos recortes espaciais endurecidos (nacional, regional) e o ato de copiar mapas, que tem origens muito precisas no pensamento e na prática geográficas, foram tomados como símbolo de uma Geografia que precisava ser banida da escola. Essa postura frente ao mapa, somada à já deteriorada educação cartográfica na formação do professor de Geografia são ingredientes mais que suficientes para se entender o declínio (e às vezes até a eliminação) do uso do mapa no ensino da Geografia crítica que se implantava.

Contemporâneo e articulado com o processo de separação do bacharelado e da licenciatura foi a promulgação da lei que regulamentou a profissão de geógrafo, Lei n. 6.664/79, cujo desdobramento lança ainda outros elementos no entendimento da Cartografia Geográfica brasileira. Os anos 1980 marcaram o início da institucionalização da cisão da prática geográfica, que produziu, no interior da categoria, status profissionais diferenciados. A Lei n. 6.664/79 trouxe uma série de demandas que foram moldando currículos de bacharelado e junto com ela a ilusão de um amplo mercado técnico, particularmente ligado às atividades de planejamento, o que não se configurou na realidade. Soma-se a isso que o discurso técnico-científico e corporativo daquele momento valorizava o profissional especialista e o geógrafo é, por

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natureza, um generalista. O acesso restrito que os profissionais da Geografia tiveram no mercado de trabalho implicou em sua pouca atuação no Sistema CONFEA/CREAs. Em decorrência, muitas atribuições que seriam típicas da área de Geografia (de acordo com a Lei n. 6664/79) formaram áreas de “sombreamento” com outras profissões. Nesse ambiente de disputa por mercado de trabalho, a cartografia e algumas áreas da Geografia Física, particularmente a geomorfologia, constituiam campos de especialização aos geógrafos que nelas se engajaram.

O processo articulado de mudanças no mundo do trabalho, mudanças paradigmáticas, separação de formações tem seus desdobramentos na cartografia no âmbito da formação em Geografia. De início a cartografia, mesmo sendo um campo considerado interno à Geografia, não compartilhava com esta as discussões do movimento de renovação. Ao mesmo tempo começavam a circular com mais efetividade publicações internacionais que traziam o debate sobre a especificidade da recentemente institucionalizada ciência cartográfica, seu objeto e seu método.

No final dos anos 1980 e início dos anos 1990 assistiu-se a uma ampliação na disponibilidade de livros específicos de Cartografia, em língua portuguesa, voltados para cursos de Geografia, em grande parte publicações de materiais utilizados pelos autores em suas próprias aulas, o que lhes confere uma característica de manual, de compilação e sistematização de conhecimentos técnicos, muito fragilmente articulados com a produção do conhecimento em Geografia. Era como se houvesse uma indiscutível vinculação histórica da cartografia com a Geografia, cabendo à cartografia a tarefa de por à disposição os elementos técnicos para os vários ramos da Geografia, e o que se faria com estes conhecimentos era um problema de cada um dos ramos. A separação forma-conteúdo já se consolidava mesmo no interior do próprio ambiente de formação em Geografia e seus organismos institucionais.

É também contemporânea neste processo a introdução dos recursos computacionais específicos, primeiramente para cartografia digital e sensoriamento remoto e posteriormente no grande campo das geotecnologias. Os conteúdos clássicos da cartografia, em suas divisões sistemática (de base, ou topográfica) e temática começaram a ser vistos sob certo anacronismo, para não dizer como conteúdo ultrapassado. De qualquer modo, a entrada das geotecnologias nas práticas geográficas em grande medida significou (e significa ainda) produção de mapas.

No âmbito destas transformações emergiram, a partir dos anos 1990, a cartografia escolar e as geotecnologias como vias principais de revalorização das práticas cartográficas na Geografia. Isto gerou um adensamento de publicações acadêmicas (livros e periódicos, principalmente) e didáticas (livros didáticos e atlas escolares), fez aumentar a produção acadêmica, possibilitou a organização de grupos de pesquisa e fez surgir eventos específicos na área11 e ampliou a visibilidade em eventos gerais nas áreas de Geografia, Cartografia e Educação12.

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Colóquio de Cartografia para Crianças e Escolares, desde 1995 (8ª. Edição em 2013); Simpósio Internacional Caminhos Atuais da Cartografia na Geografia, desde 2006 (2ª. Edição em 2010) 12

Dentre estes, destacam-se: Encontro Nacional de Geógrafos, Congresso Brasileiro de Cartografia, Encontro Nacional de Prática de Ensino de Geografia, Encontro Nacional de Ensino de Geografia – Fala, Professor!, Encontro Nacional da Associação de Pós-Graduação em Geografia.

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A despeito deste crescimento, na atualidade a pesquisa em e com cartografia na geografia brasileira ainda representa um universo singelo se comparado ao universo das pesquisas em Geografia no Brasil, no qual são identificados três grandes campos: o das aplicações geotecnológicas, o das aplicações no ensino de Geografia e o das abordagens teórico-metodológicas (Girardi, 2011). Cada um destes reflete, em alguma medida, aspectos da história recente da Cartografia Geográfica brasileira e apresenta contribuições e problemáticas específicas, além de engajamentos com aspectos teóricos, epistemológicos e metodológicos da Geografia.

No campo das aplicações geotecnológicas há uma aderência muito com os termos (e práticas) de planejamento, análise e gestão territorial, regional, ambiental, da saúde. Desdobram-se em proposições para zoneamento (ambiental, ecológico-econômico, urbano e outros), mapeamento de unidades (de paisagem, geomorfológicas), modelagem, cenarização. Há um engajamento regular dos grupos de pesquisa deste campo com setores da administração pública e do mercado, sob formas de transferência tecnológica, consultorias e atividades afins, sob a justificativa geral da instrumentalização para tomada de decisões.

Subjaz às Cartografias nele produzidas uma noção de espacialidade estável e já posta, disponível para a descoberta, portanto com o espaço absoluto. A maior parte das aplicações geotecnológicas opera com a mesma métrica, a da geometria euclidiana, e o paradigma representacional é hegemônico. Os conceitos e categorias geográficas de escala, território, região e paisagem são recorrentemente abordados nas produções deste campo, em grande medida para fundamentar ou justificar a própria aplicação geotecnológica.

No entanto, mudanças podem ser antevistas neste campo por meio de atividades de mapeamento participativo (negociação do tipo de base, de fonte, de informação e de saída gráfica com os atores envolvidos no espaço considerado) e colaborativo (compartilhamento da produção cartográfica em plataformas virtuais de fontes abertas). Estas perspectivas são, contudo, ainda bem pontuais.

A conformação do campo de aplicações em Ensino de Geografia está amplamente vinculada às mudanças na política educacional brasileira promovida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, particularmente em seus desdobramentos nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino básico. Havia, inicialmente, desenvolvimentos pontuais na pesquisa do uso de mapas no ensino de Geografia (com destaque para as professoras Lívia de Oliveira e Maria Elena Simielli) que apontavam para a superação da sub ou não utilização de mapas em situações de escolarização formal, desdobradas de deficiências formativas e de mudanças paradigmáticas no âmbito do ensino decorrentes do movimento de renovação da Geografia. Os Parâmetros Curriculares Nacionais colocaram a linguagem cartográfica no centro da discussão pedagógica, em grande medida amparada nas teorias da construção da noção de espaço na criança, de Jean Piaget.

A necessidade de capacitação de professores do ensino básico em atendimento às demandas dos PCNs, a produção de material cartográfico para o ensino de Geografia (como os materiais de apoio didático em Cartografia, os atlas escolares e os

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atlas municipais) contribuíram com a valorização da área como campo de pesquisa geográfica. Inclui-se nesta modalidade a produção em cartografia tátil.

A dinamização da área é também revelada pela crescente produção acadêmica no campo. A inclusão de disciplina de Cartografia Escolar nos currículos de licenciatura em Geografia começa a ser proposta (ainda que com pouca efetivação até o momento). O campo conta com visibilidade internacional, especificamente no âmbito da Comissão de Cartografia e Crianças da Associação Cartográfica Internacional, que deu impulso à criação do Colóquio de Cartografia para Crianças e Escolares, em 1995 e a absorção institucional da área na Sociedade Brasileira de Cartografia, especificamente na promoção do Prêmio Lívia de Oliveira de Cartografia para Crianças.

No campo teórico, muito da produção deste campo consiste ainda em adaptações de temas e tópicos da ciência cartográfica para o ensino básico. O paradigma representacional é ainda majoritário no campo, o que pode ser observado na maneira como se constroem metodologicamente as estratégias de elaboração e uso de mapas em situação escolar. A passagem da última etapa de construção da noção de espaço na criança como condição para adentrar no universo da linguagem cartográfica, que são as relações euclidianas, trabalha para estabilizar a geometria euclidiana do mapa como natureza das imagens cartográficas. Somado a isto, as escalas que são valorizadas nas diferentes séries (ou anos) do ensino (local, estadual, regional, nacional, mundial) são acompanhadas de mapas que, antes de tudo, afirmam o político-administrativo como recorte privilegiado da Geografia (Oliveira Jr., 2011).

Mudanças neste campo têm sido constituídas nas interfaces das pesquisas com outras áreas do conhecimento escolar, haja vista a potência interdisciplinar das pesquisas em educação, e com proposições ligadas à centralidade da cultura, que se desdobram no entendimento da Cartografia como uma das linguagens geográficas, compartilhando com outras linguagens potências e problemáticas.

O campo das abordagens teórico-metodológicas não caracteriza, como os outros, um campo temático claramente identificado. Entrecruza, o tempo todo, os outros dois campos, mas particulariza-se por um “olhar para dentro”, por mergulhar na investigação das relações da Geografia com a Cartografia. Os elementos centrais de reconhecimento deste campo são as miradas para a Cartografia Geográfica, tendo ênfase na Comunicação Cartográfica, incluindo a Semiologia Gráfica, na Cartografia na Geografia Contemporânea (aspectos epistemológicos), na Cartografia como Linguagem Geográfica, na Visualização Cartográfica. Destacam-se neste grupo proposições de alterações curriculares na formação do profissional em Geografia, um esforço para inserir as questões epistemológicas da Geografia nas disciplinas de cartografia.

Não há, neste campo, um paradigma claro. Sua característica é justamente a de abrigar produções pautadas em diferentes paradigmas científicos e espaciais. É revelador que um número significativo das teses enquadradas neste âmbito teve como orientadores docentes de variadas áreas do conhecimento, da Geografia Agrária à Climatologia, da Geografia Econômica à Geomorfologia. As justificativas para isto são tanto a inexistência, no momento da proposição do projeto de tese, de linha de pesquisa ou orientador da área de Cartografia, como a dificuldade de desenvolvimento

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de investigações críticas em estruturas hegemônicas de pensamento e práticas cartográficas.

Desdobra disto uma diversidade de amparos, em campos como o da Geografia Cultural, das Ciências Cognitivas, da Psicologia Social, da Filosofia, da Epistemologia Geográfica, das Ciências da Informação, da Educação, da História, da Computação Gráfica, da Arte e tantos outros.

Na análise da conformação destes novos campos da Cartografia na Geografia (“Aplicação Geotecnológica”, “Aplicação em Ensino de Geografia” e “Abordagens Teórico-Metodológicas”) verifica-se que nos campos de “aplicação” há a predominância da valorização da localização de fenômenos na superfície terrestre. Assim, os fenômenos, mesmo os sociais, compõem a “natureza” daquele ponto ou recorte e isto permite que sejam “representados” nos moldes clássicos da Cartografia pautada na geometria euclidiana, por que lhes são impostas sincronias. O paradigma representacional sustenta, assim, o discurso e a prática hegemônica da Cartografia na Geografia na atualidade. No entanto, começam a surgir movimentos da crítica, da criação, de desestabilização do representacional.

Como panorama geral é possível afirmar que o campo de pesquisa da cartografia na Geografia está em expansão, que estão sendo colocadas sob investigação problemáticas atinentes à produção e uso de mapas na Geografia não só voltados ao tema mapeado, mas também aos significados na construção da noção de espaço que estes promovem.

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