Exposi§£o "Mem³rias de um Jo£o Semana"

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Agosto 2006

Text of Exposi§£o "Mem³rias de um Jo£o Semana"

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    A presente exposio tem por objectivo recordar uma das personalidades mais marcantesna vida do Concelho de Arruda dos Vinhos, desde o final do sculo XIX e durante asprimeiras dcadas do sculo XX.

    Tito de Bourbon e Noronha nasceu no Porto em 1861 e morreu em Lisboa,em Novembrode 1946,estando sepultado em jazigo de famlia no cemitrio deArruda dosVinhos.Era filhode Tito Augusto Duarte de Noronha (1834-1896), natural de Lisboa e autor de vastabibliografia. Entre os cerca de vinte ttulos publicados, foi co-autor, em conjunto com oVisconde de Azevedo, de uma segunda edio da Grammatica de Linguagem Portugueza, doSculo XVI.

    Tito de Bourbon e Noronha entrou para o curso de Medicina, na Escola Mdica do Portoem 1880,tendo concludo o mesmo em 1885,quando tinha vinte e trs anos.Concludos osestudos, concorreu como mdico municipal para o concelho deAlcoutim,noAlgarve,ondepermaneceu apenas um ms. Em Setembro desse mesmo ano, veio paraArruda dosVinhos,tambm como mdico municipal,profisso que viria a exercer aqui durante cerca de 60 anos.Desde esse ano de 1885 e at sua aposentao, foi ainda director do Hospital daMisericrdia e Delegado de Sade. Cidado activo durante a sua longa permanncia emArruda, ocupou ainda os cargos de: Presidente dos BombeirosVoluntrios e Presidente daDireco da Sopa dos Pobres Joo Luiz de Moura, instituio que ajudou a fundar; foimembro da Comisso Concelhia da Unio Nacional de Arruda dos Vinhos at Maro de1936 e integrou a Junta de Melhoramentos e de Defesa de Arruda dosVinhos. Fez tambmparte de uma Comisso Organizadora das Festas em Honra de Nossa Senhora da Salvao.

    Homem interessado pela cultura, publicou vriosestudos histricos e arqueolgicos sobre o concelho,em jornais, revistas e boletins oficiais. Os seusinteresses passavam tambm pela msica e pelo teatro,tendo sido, inclusivamente, autor de uma pea emverso,levada cena emVila Franca de Xira.

    A presente exposio tem por base uma recolhaefectuada no jornal regional Vida Ribatejana de VilaFranca de Xira, cuja publicao se verificousemanalmente na segunda metade dos anos trinta, dosculo XX.

    Aproveitamos a presente oportunidade para desejaruma excelente viagem pela Histria e por tantasestrias que esta nossa Terra tem para nos contar.Apreend-las e vivific-las s nos tornar maisenriquecidos enquanto cidados e mais orgulhososenquantoArrudenses.

    MemriasJoo Semana

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    Agradecimentos:

    Maria Leonor Ostra de Sousa NoronhaAntnio de Sousa NoronhaJorge Nunes de Souusa NoronhaBisnetos de Tito de Bourbon e Noronha

    Mrio Gonzaga RibeiroNeto, por afinidade, de Tito de Bourbon e Noronha

    Jornal Vida Ribatejana

    Ficha Tcnica

    Exposio Memrias de um Joo Semana - Tito de Bourbon e Noronha

    Propriedade: Municpio de Arruda dos Vinhos

    Concepo: Paula Ferreira e Paulo Cmara (CMAV)

    Design: Cludia Jaleco (CMAV)

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    Desabafo47 anos!Sabem, por acaso, o que so 47 anos, mais do que a mdia da

    vida de um homem, passados no duro exercicio de clinica rural em um concelho sertanjo?

    No, no sabem! No podem, mesmo, supr o que seja o cumprimento dste mximo de pena, o dbro da pena maior a que um tribunal condena qualquer grande criminoso. (...)

    Vida, vida, que fizeste das minhas iluses?Sonhos das mil e uma noites da minha to distante

    mocidade, movimentados de fantasiosas quimeras, policromadas aves do parazo, que enchiam de canticos cr da aurora as horas fugdias de antanho, que feito de vocs? (...)

    Recordar o passado tornar a viver! Lufada alegre de mocidade vitaminada e tpida, galvanizando as entorpecidas clulas gastas e diluindo os floculados que a ferrugem da vida precipitara no lmpido coloide humoral, que deve ser um organismo mo e so.

    Ora vamos l correr a fita. (...)

    Comecei a engatinhar pelos escabrosos caminhos de Esculapio em meados de Outubro de 1880, transpondo pela vez primeira os humbraes da porta da velha Escola Medica do Porto; e ao trepar o pequeno lano de escadas exteriores, sobraando vaidosamente o volumoso e recheiado tratado de anatomia de Bouchard com as suas 1075 pginas, julgava-me pelo menos igual a um ministro presidente, com a sua pasta pejada de 1075 decretos, e a haver diferena, seria por certo a meu favor, porque levava a alma a

    transbordar de iluses e o cerebro a formigar de minhocas.(...)

    Quasi a terminar o meu curso medico e precisando assegurar colocao certa depois da defesa da tse, ultima tape desta Estrada de Damasco, comecei folheando as paginas saborosas do Diario do Govrno, mas comeando pelo fim, porque na ultima folha que costumam vir os anncios de partidos mdicos a concurso.(...)

    Anceava pelo ms de Junho, no por causa das fogueiras de S. Joo e S. Pedro, que o Porto com to exuberante entusiasmo festeja, mas para, acabado o curso, fazer as malas.

    Chegou o almejado dia da defeza de tse e o competente jantar de familia e decorrida meia duzia de dias, feitas as despedidas a parentes e amigos, la para as paragens da alfarroba e do figo.

    Pequena demora em Lisboa em casa do av velhinho, toma-se pela manh o vaporzinho do Barreiro e embarca-se para Beja, terminus nessa poca da linha frrea.(...)

    Aguentei-me um ms naquelas inhspitas paragens, deixando, portanto, trinta sudrios em igual nmero de lenoes e, no podendo mais, fui apresentar a minha demisso Excelentissima Cmara, dando como pretxto que a fome negra e no me podia habituar a beber de camaradagem com muares, muito boas pessoas e de grande utilidade, mas babam-se muito quando bebem.(...)

    Tito de Bourbon e Noronha, nasceu no Porto, na freguesia de Santo Ildefonso, em 1861 e faleceu em Lisboa, em 1946. Encontra-se em jazigo da famlia Gonzaga Ribeiro, no cemitrio de Arruda dos Vinhos.

    Seu pai, Tito Augusto Duarte de Noronha, era natural de Benfica, Lisboa. Formou-se em engenharia e foi muito novo para o Porto,residindo na rua de So Brs, at data da sua morte. Engenheiro na Cmara Municipal do Porto, foi co-responsvel pela edificao da Nova Alfndega daquela cidade. Deixou bibliografia publicada, destacando-se uma edio, em parceira com o Visconde de Azevedo, da Grammatica da LinguagemPortugueza, do sculo XVI.

    Tito de Bourbon e Noronha casou em primeiras npcias com Leonor Augusta de Sousa Maia e Noronha.Deste casamento, nasceu Henrique de Bourbon e Noronha, que viria a ser mdico nas colnias, onde faleceu.Teve ainda como netos Antnio Henrique de Sousa Noronhae Tito Augusto Moreira de Bourbon e Noronha. Os descendentes actuais desta famlia so os trs bisnetos:Maria Leonor stra de Sousa Noronha Pais de Azevedo,Antnio de Sousa Noronha e Jorge Nunes de Sousa Noronha.

    Casou em segundas npcias, com Judite Nunes Ferreira, av de Mrio Gonzaga Ribeiro. Deste casamento no houve descendncia.

    Formou-se em medicina na Escola Mdica do Porto,terminando o curso em 1885, com 23 anos.

    Aps terminar o curso, concorreu como mdico municipal para o concelho de Alcoutim, onde permaneceu apenas um ms.

    Em Setembro de 1885, concorreu para o concelho de Arruda dos Vinhos, onde permaneceu at ao fim da sua vida.

    Para alm de mdico municipal,Tito de Bourbon e Noronha participou e interveio activamente na vida do concelho,do ponto de vista cultural e social,deixando alguns estudos publicados na rea da arqueologia e da histria do concelho de Arruda dos Vinhos.

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    NORONHA, Tito de Bourbon, Desabafo, in Memrias de um Joo Semana

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    Arruda dos Vinhos (A Chegada)Depois de uns dias de descano, para contar familia as passadas

    atribulaes, descrio que muitos descrentes tomavam por pura fantasia e, tendo sido nomeado para Arruda, tomei numa radiosa manh de Setembro o comboio para Alhandra, estao mais prxima daquela povoao.

    Era um domingo, dia de tourada em Vila Franca de Xira, e diziam os cartazes que seria honrada com a presena de Sua Magestade El-Rei D. Carlos.

    Tal era o entusiasmo da aficcion que no havia disponivel o mais rudimentar meio de transporte e, esgotadas todas as tentativas, vi-me forado a calcurriar pedibus calcantibus os nove quilmetros de estrada e, para cumulo de ironia da sorte, cruzei pelo caminho com numerosos ranchos de aficcionados que, alegremente, ruidosamente, acorriam aos touros.

    E eu, solitrio e aborrecidissimo da vida, trepava, transpirando, a ingreme ladeira do Repouso, cogitando com os meus botes para que calvrio me levaria a sorte.

    E no sendo Arruda positivamente um paraso, pareceu-me um ceu aberto, tal o contraste da regio com o desolado rmo de onde viera.

    Descana a vila, sede do concelho, no fundo de um alguidar, vale

    extenso cercado de serras pouco elevadas, fechando um circuito irregular que se estende para os lados do Carregado. O vale semeado de casalinhos isolados, berrantes manchas brancas entre vinhas e campos de semeadura, que vo subindo pelas encostas pouco abruptas, roubando, ano a ano, palmo a palmo de arroteias seguidas, o lugar aos matos onde, h pouco, pasciam numerosos rebanhos de ovelhas.

    Serpenteia pelo talweg um rib