Mosteiro de Santa Maria das Jnias - Universidade Nova de ... 3. A IGREJA De todo o conjunto monstico,

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Medievalista online ano 4 nmero 4 2008 IEM - Instituto de Estudos Medievais 1 www.fcsh.unl.pt/iem/medievalista

Mosteiro de Santa Maria das Jnias

Delmira Espada IEM

1. O MOSTEIRO NA PAISAGEM

O Mosteiro de Santa Maria das Jnias encontra-se localizado, num vale que

fica a dois quilmetros a Sul da aldeia de Pites das Jnias, na provncia de Trs-os-

Montes. Pertence ao distrito de Vila Real, concelho de Montalegre, freguesia de Pites

das Jnias e localiza-se num vale estreito, de difcil acesso, isolado numa regio

fronteiria.

Pites das Jnias, situada na zona intermdia do Gers e do Barroso, uma

pequena aldeia comunitria onde se sente que o tempo corre mais devagar. As suas

gentes vivem em harmonia com a natureza, tirando dela todo o seu sustento. Com as

suas casas sempre abertas para quem chega, aceitam de bom grado o bom e o mau

que a natureza lhes oferece. Das terras bem tratadas retiram o centeio, da pastorcia o

restante. O forno comunitrio coze para toda a aldeia as grandes broas do centeio

extrado das terras circundantes. As casas de granito desenvolveram-se de forma

orgnica, adaptando-se s condies naturais do terreno1. As ruas, estreitas e

sinuosas, esto marcadas pelo vai e vem dirio do gado bovino.

O acesso ao mosteiro feito de carro at determinada altura fazendo-se o

resto do percurso a p, por um caminho irregular de lajes de pedra que nos conduz at

ao vale da Serra da Mourela, entre os penedos do Ceres e de Larouco.

O caminho que d acesso ao vale.

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Revista

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A chegados, deparamo-nos com o muro do cemitrio que isola toda a fachada

Norte da Igreja. Para se desfrutar de uma vista geral do mosteiro necessrio subir as

encostas das serras que ficam de um lado e do outro da ribeira Campesinho. Subindo

a encosta da serra a nascente, v-se a fachada posterior da igreja, com o muro do

cemitrio direita e, esquerda, a ala dos monges, que se desenvolve ao longo da

ribeira. Ao subir a encosta poente tem-se uma vista panormica que permite ver a

fachada principal da igreja, a fachada Sul, o claustro e todo o complexo monstico.

O mosteiro visto de nascente

O mosteiro visto de poente O mosteiro visto de Sudoeste 2. CONTEXTO HISTRICO

Segundo um documento existente no cartrio bracarense, o mosteiro de Santa

Maria das Jnias, remonta aos finais do sculo IX, tendo sido inicialmente apenas um

pequeno ermitrio2. So vrios os autores que subscrevem esta afirmao, tendo por

base as afirmaes de Fr. Leo de So Toms, na Benedictina Lusitana onde

referido o documento que testemunha a existncia de Jnias desde 889. Mrio

Barroca refora o facto deste documento apenas ter sido visto por Fr. Leo Toms,

acrescentando ainda: ..no h qualquer testemunho seguro documental ou

arquitectnico que permita fazer recuar as origens de Santa Maria das Jnias at

uma poca to antiga. Pelo contrrio, todos os elementos disponveis, apesar de

relativamente escassos, apontam para uma fundao dos finais da primeira metade do

sculo XII, em torno do ano de 1147.3 Considero no entanto, que apesar da ausncia

comprovada de documentos escritos, possamos estar em condies de equacionar

uma existncia mais remota do edifcio, com base na sua mtrica e na evidncia de

uma presena romana no local, indiciada pela existncia de uma ara em granito com

inscries, proveniente de Pites das Jnias4. Para alm disso, e de acordo com

informaes da Direco-Geral dos Edifcios e Monumentos Nacionais existe no

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Tombo do Mosteiro de Celanova (Galiza) um documento datado de 953, que regista a

doao de propriedades em Travassos e outro documento datado de 1100 que regista

doaes feitas ao mosteiro.

Na fachada Norte da Igreja est gravada a data 1147, que unanimemente

apontada pelos vrios autores5 como a data da fundao ou da sagrao da igreja. De

acordo com o Guia de Portugal da Gulbenkian, 1147 tambm a data em que o bispo

do Porto, Pedro Pites (ou Pedro de Pites) recebeu os cruzados nrdicos e os

convenceu a lutar ao lado de D. Afonso Henriques na conquista da cidade de Lisboa.

Esta coincidncia temporal pode ser relevante na procura do significado da presena

desta data na fachada Norte da igreja. Nesta data, os monges seguiriam a regra

beneditina. Relativamente sua passagem para a Ordem de Cister, s em 1248 que

se conhecem documentos que o comprovem, atravs de uma bula do papa Inocncio

IV, Benigvolum et Benignum, datada de 2 de Junho onde este declara ao arcebispo de

Braga, D. Joo Egas, no se opor inscrio do mosteiro de Jnias na Ordem de

Cister6. A 21 de Novembro do mesmo ano, no decreto arquiepiscopal de execuo da

Bula papal, D. Joo Egas autoriza a passagem do mosteiro para a regra de Cister,

impondo algumas contrapartidas compensatrias. O Mosteiro entrega o couto de So

Pedro de Vilaa e dois casais em troca da tera das morturias e outros direitos que o

Arcediago de Barroso recebia do mosteiro e da Capela do Gers, e que a partir de

ento deixaria de receber.7 Existe ainda um segundo documento, datado do mesmo

dia, no qual o Abade de Santa Maria das Jnias, D. Joo, declara aceitar as condies

impostas pelo arcebispo, D. Joo Egas. Nas inquiries rgias de D. Afonso III, em

1258, referida uma doao de D. Afonso Henriques ao mosteiro e em 1271 o

mosteiro recebe 100 libras deixadas em testamento por D. Afonso III8

Quanto filiao, o mosteiro esteve ligado, em perodos alternados, ao

mosteiro de Oseira (Galiza) e ao mosteiro de Santa Maria do Bouro. No incio da

Guerra da Restaurao, a populao de Pites da Jnias expulsou o abade do

mosteiro por este ser galego, tendo mesmo recusado a nomeao de outro pelo

mosteiro de Oseira. A situao acabou por se resolver atravs da nomeao de um

abade pelo mosteiro do Bouro.

O mosteiro acabou por entrar em decadncia, nos finais do sculo XV, depois da

morte do abade Dom Gonalo Coelho, tendo sido abandonado por volta de 1520, ano em

que o comendatrio Estvo da Costa, clrigo secular, tomou a seu cargo o governo da

Igreja de Jnias. Dom Gonalo Coelho foi abade de Santa Maria das Jnias entre 1499 e

1501. Natural de Chaves e monge do mosteiro beneditino de Santo Tirso, foi nomeado

abade de Santa Maria das Jnias em 1499. Desempenhava funes em Pites e em

Cela, na Galiza. Percorria cerca de doze quilmetros para se deslocar a Celas. Viria a

falecer numa dessas deslocaes, tendo sido encontrado gelado, ajoelhado em sinal de

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orao, com os olhos virados para o cu e os braos abertos, no dia 2 de Fevereiro de

1501. Foi venerado como santo at finais do sculo XIX.

Nos dias 27 e 28 de Janeiro de 1533 o Mosteiro foi visitado por D. Edme de

Saulieu, abade de Claraval. Segundo os relatos de Bronseval, que o acompanhou,

excepo da igreja, as dependncias monsticas encontravam-se em runas e

despojadas de monges. Em 1566 retomada a vida monstica, passando a ter como

abade regular Dom Valeriano de Villada. durante o sculo XVI que se faz a abertura

da fresta e o alteamento da fachada principal. Por no estar includo nas tbuas da

Congregao de Alcobaa, pensa-se que ter ficado afecta ao mosteiro de Oseira

que, depois de 1567, reclama para si os direitos sobre Santa Maria das Jnias9.

Durante a Guerra da Sucesso espanhola o Mosteiro de Oseira volta a invocar

direitos sobre Santa Maria das Jnias. Apesar de haver documentos que nos informam

sobre as vrias campanhas de reforma entre 1726 e 172810, o mosteiro, segundo nos

informa o visitador de Oseira encontrava-se em grande decadncia, acabando mesmo

por se extinguir em 1834/5, tendo como ltimo monge Frei Benito Gonalves.

3. A IGREJA

De todo o conjunto monstico, a igreja a nica que est conservada. uma

igreja de nave nica longitudinal, com cobertura de madeira e telhado de duas guas.

A capela-mor, adjacente fachada posterior da igreja virada para Este. Tem planta

rectangular11 e coberta por um telhado de uma s gu