Os filmes de animação de Hayao Miyazaki e o com a terra... Sentimentos estranhos a nós acompanham…

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    11-Nov-2018

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    Os filmes de animao de Hayao Miyazaki e o conceito de imaginao em C.G.Jung

    Lorena Kim Richter* Maddi Damiao Junior **

    Disse minha equipe de computao grfica

    que no tenha rigor, que no seja realista

    O que fazemos aqui da ordem do mistrio

    por isso: faam-no tornar-se misterioso

    Hayao Miyazaki

    Resumo

    O artigo analisa o conceito de imaginao de C.G. Jung atravs dos filmes de animao japoneses

    do cineasta Hayao Miyazaki. Sero abordados diversos escritos de Jung que evidenciam,

    claramente, o seu interesse pela concepo de mundo oriental, que est intimamente associada

    forma como compreende e estrutura a idia de imaginao em sua teoria. Esta anlise envolve

    igualmente uma investigao sobre como Jung concebe a relao entre conscincia e inconsciente,

    mundo cotidiano e mundo imaginrio.A partir dos filmes de Miyazaki, os enredos e personagens

    criados por ele, amplificamos e ilustramos os conceitos tericos de Jung e possibilitamos um

    entendimento criativo destes.

    Palavras Chave: Imaginao. Jung. Miyazaki. Mundo oriental. Mundo ocidental

    Abstract

    This essay pretends to analyze the idea of imagination of C.G. Jung by considering the japanese

    animation-films of Hayao Miyazaki. Several papers which prove Jungs interest for the oriental

    world view, which is intimately associated to the way the author comprehends and constructs the

    idea of imagination in his theory, will be examined . This also includes the investigation about the

    way Jung conceives the relation between consciousness and unconscious, everyday world and

    imaginary world. Due the films of Miyazaki, the plots and characters created by him, we amplify

    and illustrate Jungs concepts and try to comprehend them in a creative way.

    Key words: Imagination. Jung. Miyazaki. Eastern world. Western world.

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    ___________________________________________ * Mestre em psicologia clinica pela PUC-RJ; professora convidada da ps-graduao Teoria e Pratica Jungiana, Universidade Veiga de Almeida-RJ. ** Doutor em psicologia pela UFRJ; professor adjunto da UFJF Plo Universitrio de Rio das Ostras, Rio de Janeiro.

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    1 Introduo

    O interesse pelo oriente constitui um dos pilares da obra de C.G. Jung. Clarke (1993, p. 109)

    aponta que Jung se interessou desde a infncia pelo universo oriental. Aos seis anos, j era

    fascinado por histrias que envolviam religies indianas. Em suas obras Smbolos da

    Transformao (1952) e Tipos Psicolgicos (1921), fez estudos comparativos profundos e

    minuciosos de idias vdicas, taostas e budistas. Em seu livro Psicologia e Religio Ocidental e

    Oriental (1992), h diversos escritos seus dedicados, especificamente, a temticas orientais como,

    por exemplo, nos artigos a diferena entre o pensamento ocidental e oriental (1954),

    consideraes em torno da psicologia da meditao oriental (1943) e o ioga e o ocidente

    (1936).

    O encontro com dois estudiosos das tradies orientais, Hermann Keyserling e Richard

    Wilhelm, foi decisivo nesse sentido. Segundo) Clark, Keyserling, filsofo social alemo, publicou

    vrios trabalhos sobre diversas culturas, especialmente sobre a cultura oriental. Alm disso, fundou

    uma instituio que nomeou de Escola da Sabedoria, nos anos 1920, cujo objetivo era

    reaproximar o pensamento oriental e ocidental. Jung se interessou muito pelas obras de Keyserling.

    Atravs dele, conheceu o sinlogo Richard Wilhelm, autor que exerceu grande influncia no seu

    trabalho. Jung afirma que a obra de vida de Wilhelm foi de grande importncia para ele, pois

    esclareceu e confirmou muito do que eu estivera buscando, esforando-me para descobrir e se

    sentira to enriquecido por ele que me parece que dele recebi mais do que de qualquer outro

    homem (JUNG apud CLARKE, op.cit. p. 110). Em 1929, Jung e Wilhelm publicam o livro O

    Segredo da Flor de Ouro, que continha a traduo do antigo texto chins homnimo e um

    comentrio de Jung. Em 1949 Jung elabora um prefcio ao I Ching, o livro das mutaes a pedido

    de Cary F.Baynes para a edio da traduo inglesa. Essa obra foi traduzida pela primeira vez do

    chins para o alemo por Richard Wilhelm.

    Pretende-se discutir neste artigo o conceito junguiano da imaginao a partir dos filmes do

    diretor japons de animao e fundador do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki. Esse estudo envolver

    tambm uma reflexo sobre como Jung concebe a relao entre conscincia e inconsciente em sua

    teoria. Fazer a anlise desse material, fruto do imaginrio japons, torna-se possvel, pois o prprio

    Jung remete filosofia, religio e mitologia oriental ao longo de sua obra, fato que se encontra

    intimamente relacionado ao seu mtodo de amplificao, que Clarke (1993, p. 35) comparou ao

    mtodo hermenutico. Desse modo, a metodologia para a elaborao deste trabalho caracteriza-se

    por ser um mtodo qualitativo.

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    Em seus escritos, Jung costuma tomar uma idia nuclear e amplific-la no sentido de ela se

    desenvolver medida que agrega novas imagens atravs de analogias mticas, histricas e culturais.

    A interpretao, ou a atitude hermenutica, caracteriza-se por ser um processo de construo a partir

    da experincia, ou da imagem, dada. Assim parte-se da imagem e retorna-se a ela, para, nesse

    movimento circular, permitir que o sentido emerja. A hermenutica no se resume a uma busca de

    explicao, ou a uma atitude redutiva e restritiva, pois toda atitude hermenutica, como espao de

    emergncia de sentido, sempre criativa.

    2 O universo de Hayao Miyazaki e a idia de imaginao em C.G. Jung

    O filme A viagem de Chihiro (2001), premiado com o Oscar na categoria de melhor filme

    de animao de longa metragem, foi um dos primeiros filmes de Hayao Miyazaki a entrar de modo

    mais significativo no circuito dos cinemas mundiais. O diretor j havia produzido diversos filmes

    antes disso. Ele iniciou a sua carreira de animador em 1963, mas at ento no havia sido muito

    notado pelo Ocidente. Esse primeiro contato com o universo de Miyazaki possibilitou um encontro

    com uma viso de mundo bastante peculiar. No h em seus filmes uma polarizao clara ou at

    maniquesta entre bem e mal, nem uma separao muito ntida entre mundo onrico e real. Essas

    qualidades, essas dimenses parecem constantemente permear-se em seus trabalhos. Outros filmes

    seus como Meu vizinho Totoro (1988), Princesa Mononoke (1997) e O castelo animado

    (2004) tornam o seu estilo cada vez mais marcante e favorecem uma aproximao entre a viso de

    mundo apresentada em suas animaes e as observaes de Jung a respeito do mundo oriental. O

    livro do junguiano japons Hayao Kawai A psique japonesa grandes temas dos contos de fadas

    japoneses (2007) contribui para a fundamentao dessa aproximao.

    Conforme mencionado, Miyazaki se torna conhecido no Ocidente atravs de seu filme A

    viagem de Chihiro. Nessa animao, Chihiro, uma menina de dez anos se muda com os seus pais

    para um bairro novo no Japo. Nos arredores h um parque de diverses abandonado. Os seus pais

    so transformados em porcos e Chihiro comea a viver em um mundo encantado repleto de seres

    que para, os ocidentais, talvez paream exticos e por vezes bizarros, mas certamente igualmente

    fascinantes em funo de sua delicadeza e sutileza. H, por exemplo, um rio poludo que aparece na

    forma de um deus terrivelmente fedorento. Durante um banho de ervas ao qual ele se submete na

    casa de banhos - o novo lar da protagonista - ele comea a vomitar todo tipo de lixo. Ou um

    personagem chamado de Sem Rosto que persegue Chihiro como uma sombra e que em

    determinado momento se torna extremamente voraz, transformando-se em uma enorme boca

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    devoradora. Quando, porm, Sem Rosto encontra o seu lugar ao lado de uma feiticeira, torna-se

    uma figura amvel que se ocupa com delicados trabalhos manuais.

    Hayao Miyazaki nasceu no Japo em 1941. At o atual momento, trabalha prioritariamente

    com filmes 2D. Segundo o livro Animation Now! (2004), organizado pelos idealizadores do Anima

    Mundi (festival de animao brasileiro), Miyazaki lana mo da tcnica 3 D somente quando a

    expresso e o estilo de uma determinada cena no podem ser alcanados de outra forma. Em alguns

    de seus filmes, como Princesa Mononoke e a Viagem de Chihiro, a animao em si e o pano de

    fundo foram basicamente desenhados a mo. Dessa forma o diretor procura manter a impresso de

    desenhos manuais, o que estaria de acordo com a filosofia do estdio: Produzir filmes de animao

    de alta qualidade que tocam o esprito humano na medida em que ilustram a alegria e o sofrimento

    da vida tal como ela (WIEDEMANN, 2004, p. 291). Quando questionado sobre o futuro da

    animao desenhada mo responde:

    Atualmente no me preocupo tanto assim. No desistiria da mesma por completo. Volta e meia encontramos pessoas estranhas e ricas que gostam de investir em coisas curiosas. Sempre haver pessoas alegrando-se em desenhar cartoons nos recantos de suas garagens. E me interesso mais por essas pessoas do que pelo big business. (MIYAZAKI , 2008)

    Vrios de seus filmes giram fundamentalmente em torno da questo da natureza, do afastamento

    do homem do mundo natural, da destruio e do resgate dele. Essa viso de mundo, talvez

    romntica, manifesta-se tambm no modo como Miyazaki executa o seu trabalho:

    Quando penso na forma como o computador tem dominado e eliminado certas experincias de vida, isso me entristece... Quando estvamos animando o fogo alguns membros de minha equipe disseram que jamais viram madeira queimando. Disse a eles Vocs precisam ver! No acredito que algum possa se tornar animador se no passa por nenhuma experincia. (MIYAZAKI, 1994)

    Alm disso, afirma: a vida moderna to frgil, rasa e pouco genuna. Espero que o

    desenvolvimento v a bancarrota, que o Japo empobrea e que a grama selvagem tome conta do

    pas (MIYAZAKI, 1994). Considera-se importante mencionar o ponto de vista do diretor e as

    caractersticas de seus filmes, pois de certo modo isso o aproxima da viso de mundo do prprio

    Jung, que era um homem influenciado pelo pensamento romntico1 e como tal lamentava

    profundamente o quanto o homem moderno havia se distanciado da natureza e do valor simblico

    desta em funo da grande importncia atribuda razo: Como diferente a relao do primitivo

    1 Cf. por ex. Romnticos e Idealistas in CLARK, J. J. Em Busca de Jung. S.A: Ediouro, 1993

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    com a terra... Sentimentos estranhos a ns acompanham o primitivo passo a passo. O que lhe o diz o

    grito do pssaro! O que significa a velha rvore para ele! Este mundo repleto de sentimentos no

    est ao nosso alcance [...] (JUNG, 1995b, p. 44).

    No podemos negar a influncia que Miyazaki sofreu do ocidente. Bastante afeioado Gr

    Bretanha, em particular ao pas de Gales e Itlia, passa longos perodos nesses pases no intuito de

    se inspirar em suas paisagens para a construo dos cenrios de seus filmes. Um bom exemplo a

    sua animao Porco Rosso (1992), situada inteiramente na Itlia, em que um jovem aviador metade

    porco metade homem caa piratas areos sobre o mar Adritico. O cineasta tambm se inspira na

    literatura ocidental para as suas animaes, como no livro infantil da escritora britnica Diana

    Wynne Jones O castelo animado [Howls Moving Castle]. Em 2004, ele lanou a animao

    homnima. Em 1974, Miyazaki participou da animao da histria Heidi, menina dos Alpes,

    baseado no livro de mesmo nome da escritora sua- alem Johanna Spyri. Trata-se da histria de

    uma pequena menina criada pelo av campons nos Alpes suos. Menciona-se essa passagem

    pelo ocidente de Miyazaki, pois de algum modo os seus filmes retratam tambm o profundo

    choque cultural entre os mundos, ou melhor, as perspectivas ocidental e oriental. O animador

    procura apresentar formas criativas de solucionar tal conflito, porm, sem lanar mo de clichs,

    sem falsos acordos, sem negar nenhum dos lados dessa polaridade e, muitas vezes, sem o final feliz

    to almejado pelo ocidente.2

    Essa reflexo permite abordar o conceito de imaginao, fundamental para teoria junguiana,

    pois o conflito entre a perspectiva ocidental e oriental no representa para Jung um confronto

    passvel de ser localizado em termos geogrficos, e sim, prioritariamente o confronto entre o que

    chama de mundo externo e mundo interno ou em termos estritamente psicolgicos, entre a

    conscincia e o inconsciente.

    Jung (1954, p. 769) afirma que tudo que conhecemos transmitido a partir de imagens

    psquicas: a existncia psquica a nica categoria de existncia da qual temos conhecimento

    imediato, uma vez que nada pode ser conhecido a menos que antes surja como uma imagem

    psquica... Enquanto o mundo no toma forma de uma imagem psquica, ele simplesmente no

    existe Segundo Pieri (2002), isso no significa que sem a imaginao no exista realidade em

    absoluto, mas que a realidade humana, em todas as suas nuances - da mais cotidiana quela

    claramente simblica -, depende da imaginao. Jung no considera a imaginao a expresso de

    um conflito entre o homem e a realidade, e sim, a possibilidade de encontro dessas duas instncias

    que desse modo se tornam inseparveis. A imaginao transpe a ciso entre mundo externo e

    2 Esses pontos sero desenvolvidos mais adiante.

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    interno, consciente e inconsciente, cotidiano e no cotidiano e se encontra intimamente ligada

    idia de totalidade que, por sua vez, encontra-se relacionada teoria dos opostos de Jung. Segundo

    Samuels et. al. (1986, p. 217), quando dois opostos em conflito se unem e se sintetizam, o resultado

    passa a compor uma totalidade, o que, no entanto, no significa a eliminao de um dos dois lados

    do confronto ou uma abolio da tenso existente entre os opostos, idia fundamental para o prprio

    conceito de energia psquica em Jung. Para Avens (1993, p. 36), por exemplo, a imaginao se

    encontra exatamente na lacuna entre dois mundos. Avens (1993, p. 36) alerta que no devemos

    desconsiderar essa lacuna, e sim, depender de modo lcido e consciente da mesma. A imaginao

    seria tal como um arco-ris que se estende sobre dois precipcios e os liga harmoniosamente.

    (BARFIELD, apud AVNS, 1993, p.36). Constitui assim, em termos psicolgicos, o campo

    intermedirio entre mundo consciente e inconsciente.

    Podemos refletir sobre esse campo intermedirio a partir de algumas cenas do filme meu

    vizinho Totoro de Miyazaki. Duas meninas, Mei Kusakabe de quatro e Satsuki de sete anos

    mudam-se para uma velha casa no campo com seu pai. Sua me est internada em um hospital, pois

    adoeceu de tuberculose. O pai, apesar de muito afetuoso, encontra-se bastante absorvido pelos

    estudos universitrios e preocupaes com a esposa.

    A casa abriga habitantes estranhos como os Susuwatari ou black soots, pequenos seres

    pretos e redondos que parecem com fuligem, possuem dois olhos inquisitivos e costumam viver em

    casas abandonadas. Racionalmente so compreendidos como Makkuro Kurosuke ou pitch-black

    blackie, uma iluso tica que se d quando mudamos rapidamente da luz para a escurido...