Pre Abate e Abate Bovino

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    02-Jul-2015

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1 ESTUDO SOBRE OS PROCESSOS DE PR-ABATE DE BOVINOS EM MATADOURO - FRIGORFICO DE UBERLNDIA-MG, VISANDO O BEM ESTAR ANIMAL. TMARA DUARTE BORGES1 ; LAERTE PEREIRA DE ALMEIDA2 Resumo O conceito de bem-estar animal pode ser aplicado aos animais que sofreram interferncia do homem em suas vidas. Para que se possa desenvolver tal relao, o homem necessita conhecer e respeitar a fisiologia destes animais, levando em conta o conjunto de trs fatores: o orgnico, o emocional e o comportamental. Tendo como premissa as normas de bem-estar animal, realizou-se o acompanhamento do manejo de bovinos durante o perodo de pr-abate, por meio de cinco observaes em um frigorfico de inspeo federal de Uberlndia MG. Neste estudo foi analisado o comportamento do homem e os problemas estruturais que dificultam a permanncia e movimentao destes animais dentro do estabelecimento, confrontando a situao estudada com as normas de bem-estar animal. Constatou-se que os problemas identificados nas atividades de manejo e instalaes podem ser facilmente solucionados com realizao de cursos, treinamento e educao continuada para os funcionrios da rea de pr-abate e adequao do layout das infra -estruturas existentes, de forma que o animal se comporte de maneira natural, ou seja, necessitando o mnimo possvel da interferncia do homem. Palavras-chave: Bem-estar animal, abate de bovinos, sade pblica.

Abstract The conception of animal welfare can be aplicated to animals that had suffered human interference in their lives. To development this relanshionship, the man needs to respect and know the physiology about the animals, observing three factors: the organic, emotional and the behavior. Based on the norms of animals welfare, was realized an attendance about bovines management during a period of pre discount, was used five observations in a federal inspection frigorific, in Uberlndia MG. In this study was analyzed human behavior and all structural problems that difficulties the permanence and the movement about these animals inside this establishment, confronting the studied situations with the rules of animals welfare. Although, was certified that the problems identified in the management activities and in the installations can be resolved realizing some courses, training and an intensive educational program to all servants that works in pre discount area, and adjusting the plant layout, objectifying that animals have a natural behavior, so it means, less human interference. Key-words: Animal welfare, bovine discount, health public,

1-Estudante de Veterinria da Universidade Federal de Uberlndia. Av. Par, 1720 Bloco 2T Campus Umuarama. 38400-902. E-mail: tamaratdb@hotmail.com 2- Docente da Faculdade de Veterinria da Universidade Federal de Uberlndia

2

Introduo

(BROOM, BROOM,

1986, 1990),

apud

FRASER; no

devendo-se,

Atualmente, o bem-estar animal uma rea em expanso que produz e divulga informao animais, sobre a biologia sobre dos suas

entanto, ter em conta o conjunto dos trs conceitos: o orgnico, o emocional e o comportamental (APPLEBY, 1999). Devido s controvrsias existentes sobre o assunto a Royal Society for em questo

notadamente,

capacidades de percepo, aptides mentais, necessidades, preferncias e respostas comportamentais que estes animais formas 1998). O conceito de bem-estar animal est relacionado com a capacidade que o animal tem de ir se ajustando ao meio em que se encontra. Essa definio no tem sido isenta de controvrsias. O temo definido de diferentes maneiras, de acordo com a forma como a questo abordada. H quem considere que o mais importante o funcionamento orgnico, outros acham que o estado emocional e os sentimentos e outros, ainda, que fundamental que o animal possa comportar-se de forma natural. No entanto, quando se aborda, tm de perante tratamento determinadas (MENDEL,

Prevention of Cruelty over Animals (RSPCA, 1994), uma instituio do Reino unido, criou os padres de bemestar que se baseiam em cinco

liberdades que todos os animais domsticos tm direito, e assim devem estar: 1) Livres de Medo e Estresse: Todos indivduos que trabalham com animais devem compreender os

princpios bsicos do comportamento animal, para evitar o estresse destes animais, em particular quando so deslocados, carregados ou

descarregados. Misturar animais de grupos sociais, idades e sexos diferentes pode tambm ser um causa de estresse e at originar ferimentos. 2) Livres de Dor, Ferimentos e Doena: Os animais devem ser protegidos de ferimentos e de elementos que lhes possam causar dor ou doena. O ambiente em que vivem deve ser bem gerido para promover uma boa sade e receber pronta ateno veterinria

exclusivamente, um destes pontos de vista, corre-se o risco de no se fazer uma avaliao completa da situao. Assim, de uma forma geral, o bem-estar animal pode ser compreendido como o estado do animal enquanto tenta

adaptar-se a um determinado ambiente

3 sempre que necessrio. Os padres exigem, ainda, que todas as exploraes animais tenham um Plano de sade Veterinria. 3) Livres de Fome e de Sede: A alimentao deve ser suficiente, apropriada e segura. Empurres e competio durante as refeies podem ser minimizados providenciando espao suficiente para cada animal comer e beber. Os animais devem ter acesso permanentemente qualidade. 4) Livres de Desconfortos: Devem ter uma rea de cama limpa, seca, confortvel e muito espao para se movimentarem, coberta para assim se como rea das gua de boa exemplo: as marrs quando gestantes gostam de fazer ninhos para suas crias, por isso devemos deixar camas

disponveis para esses animais. Essa cama tambm ir enriquecer um o

ambiente,

proporcionar

local

adequado para esses animais, explorar, fuar, brincar e deitar. A primeira lei Brasileira, em que se mostrava o cuidado com o bem estar animal, foi criada em 10 de julho de 1934 e estabelecia medida de proteo aos animais e, pela primeira vez, o Estado reconhecia como tutelados todos os animais existentes no Pas (Art. 1). Em seu artigo 3, essa lei considera como maus tratos as seguintes condutas: -Praticar ato de abuso ou crueldade em qualquer animal. -Manter animais em lugares antihiginicos ou que lhes impeam a respirao, o movimento ou descanso, ou os privem de ar ou luz. -Obrigar os animais a trabalhos

protegerem

condies climticas. Os padres da RSPCA estipulam dimenses de espao para assegurar que todos os animais tenham deitarem espao adequado para se se

confortavelmente,

limparem, e se levantar e deitar facilmente. O ambiente em que vivem deve levar em considerao as

excessivos ou superiores as suas foras e a todo o ato que resulte em sofrimento para deles obter esforos que,

necessidades de bem-estar dos animais e ser projetado para proteg-los de desconforto fsico e trmico. 5) Livres para expressar um

razoavelmente, no se lhe possam exigir seno com castigo. -Golpear, ferir ou mutilar

comportamento normal: Deve-lhes ser dado espao suficiente, instalaes limpas e a companhia de animais da sua prpria espcie. Por

voluntariamente, qualquer rgo ou tecido de economia, exceto a castrao, s para animais outras domsticos, praticadas ou em

operaes

4 benefcio exclusivo do animal e as exigidas para defesa do homem, ou no interesse da cincia. -Abandonar animal doente, ferido, idntica que impea a sada de qualquer membro do animal. -Encerrar em curral ou outros lugares, animais em nmero tal que no lhes seja possvel mover-se livremente, ou deixlos sem gua e alimentos mais de 12 horas. -Deixar sem ordenhar, as vacas por mais de 24 horas, quando utilizadas na explorao de leite. -Ter animais encerrados juntamente com outros que os aterrorize ou molestem. -Ter animais destinados venda em locais que no renam as condies de higiene e comodidades relativas. -Expor, nos mercados e outros locais de venda, por mais de 12 horas, aves em gaiolas, sem que se faa nestas a devida limpeza alimentos. - Engordar aves mecanicamente. -Despelar ou depenar animais vivos ou entreg-los vivos a alimentao de outros. -Ministrar ensino a animais com maus tratos fsicos. -Realizar, ou promover lutas entre animais da mesma espcie ou de espcie diferente, tourada e simulacros de touradas, ainda mesmo que em lugar privado. Posteriormente, em 1941, o Decreto-lei n. 3688 refora as medidas de Lei de e renovao de gua e

extenuado ou mutilado, bem como deixar de ministrar-lhes tudo o que humanitariamente se lhe possa prover, inclusive assistncia veterinria. -Dar morte rpida, livre de sofrimentos prolongados, extermnio a seja todo animal cujo para

necessrio

consumo ou no. -Abater para o consumo ou fazer trabalhar os animais em perodo

adiantado de gestao. - Prender animais atrs dos veculos ou atados s caudas de outros -Fazer viajar um animal a p, mais de 10 quilmetros, sem lhe dar descanso, ou trabalharem mais de seis horas contnuas sem lhe dar gua e alimento. -Conservar animais embarcados por mais de 12 horas, sem gua e alimento -Conduzir animais, por qualquer meio de locomoo, colocados de cabea para baixo, de mos ou ps atados, ou de qualquer outro modo que lhes produza sofrimento. -Transportar animais em cestos, gaiolas ou veculos sem as propores

necessrias ao seu tamanho e nmero de cabeas, e sem que o meio de conduo em que esto encerrados esteja

protegido por uma rede metlica ou

5 1934, tratando da omisso de cautela na guarda ou conduo de animais e prevendo pena para a prtica da crueldade animal e estendendo-a para aquele que, embora para fins didticos ou cientficos, realiza, em lugar pblico ou exposto ao pblico, experincia dolorosa ou cruel em animal vivo ( 1 do Art. 64). Somando-se esta preocupao com o bem-estar dos animais, e de uma forma geral, criou-se a Lei n. 5517, de 23 de outubro de 1968, que dispe sobre o exerccio da profisso de mdico propondo uma lei que obrigue os fabricantes de roupas feitas de pele ou de couro a colocarem em suas etiquetas a forma como esses animais foram sacrificados, sendo talvez uma forma desses fabricantes se preocuparem mais com um sacrifcio humanitrio (REINO ANIMAL, 2000). Com relao aos animais de produo tem aumentado a preocupao com o modo pelo qual esses animais foram criados, transportados e abatidos. Tem ocorrido isto com os pases da Unio Europia e Estados Unidos, onde a preocupao com os mtodos de criao e manejo dos animais criados para o consumo exerce uma grande presso sobre os criadores e abatedores de animais, uma vez que estes sero obrigados a seguir as normas de bemestar animal para garantir a venda de seus produtos (FILHO & SILVA, 2004). Por outro lado, a Unio Europia, em normas previstas para a sua

veterinrio e cria os Conselhos Federal e Regionais de Medicina Veterinria. Nela fica explicita a regulao da profisso e, no Artigo 5, a competncia privativa do mdico veterinrio para a prtica da clnica em todas as suas modalidades e assistncia tcnica e sanitria dos animais sob qualquer forma, dentre outras funes. Enfrentando dificuldades em se fazerem cumprir as leis de bem-estar animal, alguns pases esto sendo obrigados a formularem leis mais radicais, como o caso da Inglaterra que aprovou em 2000 uma lei que proibe expressamente o uso de animais em testes laboratoriais, devendo esses testes serem feitos nos prprios usurios beneficiados. Outros pases, como os Estados Unidos, vm tentando contornar o problema

constituio, relata sobre a criao e o manejo chamados de humanitrios, os quais visam garantir uma melhor

qualidade de vida aos animais desde sua criao ao abate. Com o intuito de facilitar o cumprimento dessas normas o cdigo de recomendaes dessa

entidade enumera fatores como: o conforto ambiental, maneiras de

6 transporte, captura, densidade de -rea de repouso suficiente e nos animais alojados deve proporcionar-se uma cama de material natural -acesso fcil gua corrente e o ao alimento -ambiente sadio que evite efeitos

criao, liberdade de movimentos e abate humanitrios dos animais. Alm de se preocupar tambm com as liberdades previstas para os animais confinados, entre elas, a ausncia de fome ou sede, desconforto, dor, injria, doena, medo e, principalmente, poder expressar o comportamento esperado sob condies naturais. Na atualidade, embora o Brasil seja o maior exportador de carne do mundo, se ele no se adequar s leis dos pases desenvolvidos, poder acabar perdendo esse ranking. Para que isso no ocorra o Brasil tem que comear a se preparar com o que na Unio Europia eles chamam de carne tica, que seria a produo e a obteno do alimento da forma mais tica possvel. A isso estaria relacionada a criao dos animais, lhes proporcionado tudo o que tem direito, o transporte tranqilo ao abatedouro e o abate humanitrio. Segundo Escosteguy (1997), o local onde os animais se encontram deve proporcionar: -espao para o animal movimentar-se livremente -suficiente ar fresco e luz diurna natural -proteo contra excessiva luz solar, as temperaturas extremas e o vento forte.

negativos nos produtos finais -quando se prolonga o dia com

iluminao artificial, a iluminao total no deve ultrapassar s 16h e deve concluir com um perodo de

obscuridade. -as mutilaes devem ser evitadas ao mximo. Alguns casos especficos de castraes permitidos -no permitido corte de dentes, debicagem ou queimas de asas. -a descorna tambm considerada mutilao e deve ser evitada sempre que possvel. O confinamento intensivo, isolamento social, ausncia de substrato, fome, alta densidade, agresses de animais e corte de cauda so

dominantes, monotonia do ambiente, mutilaes, baixa qualidade do ar, so todos fatores estressores que podem levar os animais a redirecionar o seu comportamento natural para vcios, esteretipos ou comportamento

anmalo. (ESCOSTEGUY, 1997). - Em relao alimentao dos animais: A dieta deve ser equilibrada conforme as necessidades dos animais (para um

7 nvel de produo razovel e um crescimento normal) e ser de boa qualidade. Bovinos devem ter pastos verdes a disposio e fazer a rotao de pastagem para que eles tenham pasto de qualidade o ano inteiro condies humanitrias ao longo dos perodos que antecedem sua morte (FILHO; SILVA, 2004). O estresse pr-abate pode influenciar negativamente a qualidade da carne. Estresse aplicado em porcos

(ESCOSTEGUY, 1997). A tecnologia do abate dos animais destinados ao consumo, somente

imediatamente antes do abate pode afetar a caracterstica iniciais da carne, tais como pH, temperatura e rigor mortis, e tambm reduz a capacidade de reter gua s 24 horas ps-morte (VAN DER WAL et al. 1999). O estresse prabate tambm est relacionado com a incidncia de carne DFD (escura, dura e seca) e de carne PSE (plida, mole e exsudativa). Para que fique clara a idia de abate humanitrio dos animais, necessrio que se tenha noo dos processos e etapas que envolvem o abate, tanto nas operaes de pr-abate quanto nas operaes de abate propriamente ditas. O embarque dos animais para o frigorfico incio do processo de prabate dos animais e onde as

assumiu importncia cientfica quando se passou a...