EFEITOS DA QUIMIOTERAPIA NA CAVIDADE BUCAL1 ...

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  • Disciplinarum Scientia, Srie: Cincias da Sade, Santa Maria, v. 4, n. 1, p. 109-119, 2004. 109

    EFEITOS DA QUIMIOTERAPIA NA CAVIDADEBUCAL1

    CHEMOTHERAPY EFFECTS IN THE BUCCAL CAVITY

    Cauan Indart Paiva2, Fabricio Batistin Zanatta3 , Daniel Meyne Flores4, Silvia Ataide Pithan4, Gustavo Nogara Dotto4 e

    Ana Maria Chagas4

    RESUMO

    Palavras-chaves:bucal.

    ABSTRACT

    their complexity can determine the interruption of the cancer treatment. Due to

    Key words:

    1 Trabalho de Iniciao Cientca.2 Acadmico do Curso de Odontologia - UNIFRA.3 Orientador - UNIFRA.4 Colaboradores - UNIFRA.

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    INTRODUO

    A quimioterapia um mtodo que utiliza compostos qumicos, chamados quimioterpicos, no tratamento de doenas causadas por agentes biolgicos. Quando aplicada ao cncer, chamada de quimioterapia antineoplsica ou antiblstica (TRAVAGLINI, 2003).

    A quimioterapia pode ser diretamente txica e pode afetar a mucosa bucal atravs da circulao sistmica. Alm disso, muitas vezes, ocorre a secreo de alguma droga na saliva, o que resulta na exposio tpica do medicamento ao ambiente bucal. Outros mecanismos potenciais incluem a reduo do volume de saliva. O conhecimento dos efeitos txicos de agentes quimioterpicos, no ambiente bucal, fundamental para prevenir,

    al., 2002).A imunodepresso advinda do uso de drogas quimioterpicas

    complicar a evoluo do caso no tratamento oncolgico (ANTUNES et al., 2004).

    O crescimento dos recursos teraputicos para o tratamento do cncer, cada vez mais empregando a associao entre as modalidades de tratamento, fortalece dia a dia os conceitos de abordagem multidisciplinar e qualidade de vida dos pacientes (ANTUNES et al., 2004).

    A quimioterapia uma modalidade importante usada no tratamento de cncer. A citotoxidade dessas terapias no limitada a clulas neoplsicas,

    paciente para um melhor tratamento e recuperao.

    REVISO DA LITERATURA

    -

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    TAMENTO QUIMIOTERPICO

    A quimioterapia uma modalidade de tratamento que produz efeitos orgnicos gerais, principalmente no trato gastrointestinal, alm de poder

    A quimioterapia causa toxicidade aos tecidos normais vizinhos a

    agudos e tardios, de acordo com o perodo em que ocorrem. Os efeitos adversos agudos ocorrem durante a quimioterapia e acometem tecidos com alta taxa de renovao celular, como a mucosa bucal. Os efeitos adversos e tardios podem apresentar-se meses ou anos aps o tratamento, alm disso,

    desenvolvimento e crescimento, quando o tratamento for realizado durante a infncia (NEVILLE et al., 2004).

    Em idosos freqente a realizao de quimioterapia, determinando

    (SEGELMAN, 1989).Belazi et al. (2004), em um estudo randomizado, realizado em 39

    pacientes com cncer de cabea e pescoo, submetidos a quimioterapia, demonstrou que, aps duas a trs semanas de tratamento, os pacientes

    acentuam-se de acordo com a idade do paciente. De maneira geral, 40% dos pacientes submetidos ao tratamento de quimioterapia desenvolvem

    crianas com menos de 12 anos. Embora os pacientes dessa faixa etria

    bucais, tambm parece provvel que o elevado ndice mittico das clulas

    doenas malignas do sangue, como leucemia e linfoma, tambm podem

    como os neoplasmas do trato gastrointestinal (TRAVAGLINI, 2003).

    Para que a avaliao inicial ocorra da melhor forma possvel,

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    importante que o cirurgio-dentista conhea a doena-base que vai ser tratada pelo mdico oncologista, sua localizao, o tipo de tratamento que

    ideal e execut-lo o mais rpido possvel (ANTUNES et al., 2004).

    quimioterpicos. Dentre elas, destacam-se as mucosites, xerostomia, candidase bucal, herpes e neurotoxicidade.

    MUCOSITE

    da mucosa bucal, comumente em superfcies no-ceratininazadas, como na

    Podem restringir a alimentao e a fala e, muito freqentemente, servirem

    bactrias da boca. M nutrio, higiene bucal inadequada, dentes em mau

    orgnica. A mucosite geralmente tem incio a partir da segunda semana

    na mucosa bucal, com dor intensa, febre e possibilita o aparecimento

    A prevalncia de mucosite bucal varia com o tipo de tratamento. A quimioterapia induz o aparecimento de estomatite, em 40 a 76% dos pacientes tratados com alta dose. A relao de recentes estudos randomizados que examinam a combinao de radioterapia e quimioterapia mostraram severas ocorrncias de mucosites, em 60% dos pacientes, no estudo convencional e 92% dos pacientes no estudo experimental (PARULEKAR et al., 1998).

    A primeira manifestao o desenvolvimento de uma colorao

    que edematosa, eritematosa e frivel. Subseqentemente, reas de

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    pelos procedimentos de higiene bucal (NEVILLE et al., 2004).O tratamento consiste no emprego de anestsicos, analgsicos,

    antimicrobianos e agentes de revestimento mucoso. Nenhum dos mtodos,

    muitas circunstncias, a limpeza peridica, com uma simples soluo salina,

    A tecnologia a laser foi introduzida recentemente e tem mostrado resultados positivos na preveno e tratamento da mucosite causada pela quimioterapia. Pacientes que foram tratados com a laserterapia tiveram como benefcio o alvio da dor, melhora na reparao tecidual da mucosa bucal (ANTUNES et al., 2004).

    O melhor combater cada fator agressor com um ou mais fatores defensivos, reparativos e estimuladores, baseando-se na cronologia e fases da mucosite, da forma mais precoce e preventiva possvel. conveniente a utilizao de um agente estimulador de resposta epitelial, como o laserde baixa potncia, associado a um antissptico de largo espectro, ou antibiticos locais geralmente acompanhados de um bom antioxidante (ANTUNES et al., 2004).

    XEROSTOMIA

    Os pacientes, com freqncia, desenvolvem secura sintomtica da boca, que afeta suas habilidades de se alimentao confortvel, usar prteses, falar e dormir. Alm disso, h um aumento do ndice de cries

    pregressa do paciente. A crie de localizao, predominantemente, cervical

    A xerostomia um srio e comum efeito bucal causado por mais de 375 medicamentos utilizados no tratamento quimioterpico por possurem

    Freqentemente, as glndulas salivares maiores e menores esto envolvidas nos campos atingidos pela quimioterapia e radioterapia, o que causa, invariavelmente, xerostomia. A severidade ir depender diretamente da dose total da droga, mas, freqentemente, os casos mais

    cervical lateral da cabea e pescoo e na cavidade bucal. Dependendo da intensidade e durao do tratamento, a terapia induz a mudanas graves ou

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    O tratamento baseia-se em evitar todos os agentes que possam diminuir a salivao como o uso de produtos do tabaco e do lcool. Alm

    et al., 2004).

    A candidase uma infeco causada pelo fungo Cndida Albicans, que est presente sempre nas mucosas e se manifesta como doena apenas

    seu crescimento (SILVA

    quimioterapia, a forma pseudomembranosa a mais prevalente (NEVILLE et al., 2004).

    A candidase pseudomembranosa caracterizada pela presena de placas brancas aderentes na mucosa bucal que lembram leite coalhado. As placas brancas so compostas por uma massa de hifas emaranhadas, leveduras, clulas epiteliais descamadas e fragmentos de tecido necrtico.

    pode estar normal ou eritematosa. Se ocorrer sangramento, provavelmente, a mucosa ter sido afetada tambm por um outro processo como o efeito de um quimioterpico para o tratamento de cncer (NEVILLE et al., 2004).

    intensiva, por um perodo de 42 meses. Desses, 17 pacientes apresentaram candidase bucal (BARRETT, 1987).

    HERPES SIMPLES E HERPES ZOSTER

    tratamento quimioterpico (ROBBINS, 2000).O herpes simples uma infeco viral, causada pelo vrus herpes

    simples (HSV) que faz parte da famlia herpetoviredae. Segundo Boraks

    - Tipo I : HSV-1 (associada ao herpes labial). - Tipo II : HSV-2 (associada ao herpes genital).

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    O vrus do herpes simples pode ocorrer tanto no local da inoculao

    gnglio envolvido. A localizao mais comum a borda do vermelho

    e sintomas mais comuns so dor, ardncia, prurido, pontadas, calor localizado ou eritema no epitlio envolvido. Desenvolvem-se mltiplas ppulas pequenas e eritematosas, que formam grupamentos de vesculas preenchidas por lquido. Em dois dias, aproximadamente, essas vesculas rompem-se, formam crostas, ocorrendo aps a cicatrizao de sete a dez dias (NEVILLE et al., 2004).

    bucal, limitando-se quase sempre a mucosa ceratinizada, relacionada ao osso (gengiva inserida e palato duro). Nesses locais, os sintomas so menos intensos e as vesculas se rompem rapidamente, formando grupos de mculas eritematosas que podem coalescer ou aumentar ligeiramente de tamanho. O epitlio afetado perdido e desenvolve-se uma rea amarelada central de ulcerao que pode cicatrizar em, aproximadamente, 10 dias (NEVILLE et al., 2004).

    Na ausncia de uma funo imunolgica, o herpes simples, pode

    infeco pelo vrus varicela-zoster a varicela (catapora). Uma vez infectado, o vrus mantm-se latente nas bainhas dos nervos. Em pacientes imunodeprimidos, ocorre a replicao do vrus com o aparecimento do

    SADE, 1996).

    se individualmente como vesculas branco-opacas, que se rompem para

    VZV (NEVILLE et al., 2004).

    NEUROTOXICIDADE

    Alguns agentes quimioterpicos podem causar neurotoxicidade, alteram nervos da cabea e pescoo, dependendo da dosagem e durao da terapia. Esses efeitos, normalmente, manifestam-se nas extremidades

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    atravs de parestesias parcias intra e/ou extra orais em reas inervadas pelo nervo trigmio. O diagnstico se torna difcil e complicado pelo fato deste aparecer e desaparecer espontaneamente. O tratamento envolve o uso de analgsicos sistmicos e, muitas vezes, tambm uso de narcticos (ROBBINS, 2000).

    Essa alterao de grande relevncia para a Odontologia, embora rara,

    dos nervos bucais pode causar dor odontognica, o que bastante semelhante

    MANEJO DO PACIENTE ANTES E DURANTE A QUIMIOTERAPIA

    O cirurgio-dentista deve fazer um acompanhamento antes mesmo do incio do tratamento quimioterpico, eliminar focos infecciosos, dando

    1990).O ideal que o paciente realize um exame odontolgico de duas

    a quatro semanas antes do tratamento para permitir a cura adequada de qualquer procedimento bucal requerido. Dever ser iniciado um programa de higiene bucal e instruir ao paciente a sua importncia, antes de comear o tratamento oncolgico (PARULEKAR, 1998).

    Aproximadamente, uma semana ou 15 dias aps a sesso de

    nesse perodo, que qualquer foco de infeco odontognica ou periodontal preexistente pode representar um grande risco de o paciente desenvolver

    prtese dentria e utilizar hidratante labial para manter os lbios umedecidos

    importante notar que no se devem usar agentes que produzam sintomas ou lesem a mucosa. Os pacientes podem fazer uso da pasta

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    dental, se puderem toler-la. Os enxagatrios bucais, que contm lcool, no devem ser administrados (ROBBINS, 2000).

    limitao de movimento, porm conscientes, devem ter ao seu alcance o material necessrio para que ele mesmo faa sua higiene. Quando o paciente estiver inconsciente ou confuso, uma outra pessoa deve fazer a limpeza da boca com gaze embebida em uma soluo anti-sptica, como, por exemplo, a cepacana, pelo menos seis vezes ao dia (ANTUNES, 2004).

    realizados, ou at mesmo, por uma compresso na garganta que impede

    atravs de medicamentos ou, se o paciente optar, com a colocao de uma sonda para possibilitar a alimentao. Uma dieta apropriada, orientada pela

    CONCLUSES

    para quem vive a experincia dessa enfermidade, podendo determinar

    tratamento quimioterpico.O tratamento oncolgico dever ser abordado multidisciplinarmen-

    te, para obteno de resultados teraputicos satisfatrios. O setor odon-

    Assim, o atendimento odontolgico prvio ao tratamento quimioterpico no visa a realizar um tratamento odontolgico por

    - gengivais. Ainda, durante o tratamento quimioterpico, pode-se completar o tratamento odontolgico.

    e, com os familiares, propiciar uma melhora na sua qualidade de vida, ao -

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