GOMBRICH - HISTÓRIA DA ARTE

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  • 1. IntroduoSobre Artes e ArtistasUMA COISA QUE realmente no existe aquilo a que se d o nome de Arte. Existem somente artistas.Outrora, eram homens que apanhavam terra colorida e modelavam toscamente as formas de um biso naparede de uma caverna; hoje, alguns compram suas tintas e desenham cartazes para os tapumes; elesfaziam e fazem muitas outras coisas. No prejudica ningum chamar a todas essas atividades arte, desdeque conservemos em mente que tal palavra pode significar coisas muito diferentes, em tempos e lugaresdiferentes, e que Arte com A maisculo no existe. Na verdade, Arte com A maisculo passou a ser algo deum bicho-papo e de um fetiche. Podemos esmagar um artista dizendo-lhe que o que ele acaba de fazerpode ser muito bom no seu gnero, s que no "Arte". E podemos desconcertar qualquer pessoa queesteja contemplando com prazer um quadro, declarando que aquilo de que ela gosta no Arte, masalgo muito diferente.Na realidade, no penso que existam quaisquer razes erradas para se gostar de um quadro ou de umaescultura. Algum pode gostar de uma paisagem porque ela lhe recorda seu bero natal, ou de um retratoporque lhe lembra um amigo. Nada h de errado nisso. Todos ns, quando vemos um quadro, estamosfadados a recordar mil e uma coisas que influenciam o nosso agrado ou desagrado. Na medida em queessas lembranas nos ajudam a fruir do que vemos, no temos por que nos preocupar. Somente quandoalguma recordao irrelevante nos torna parciais e preconceituosos, quando instintivamente voltamos ascostas a um quadro magnfico de uma cena alpina porque no gostamos de praticar o alpinismo, quedevemos perscrutar o nosso ntimo para desvendar as razes da averso que estraga um prazer que deoutro modo poderamos ter. H razes erradas para no se gostar de uma obra de arte.1. (esquerda) RUBENS: Retraio de seu filho Nicholas. Desenhado por volta de 1620. Viena, Albertina.2. (direita) DRER: Retrato de sua me. Desenhado em 1514. Berlim, Kupferstich-Kabinett

2. 3. (esquerda) MURILLO: Meninos rabes. Pintado cerca de 1679. Munique, Alie Pinakothek4. (direita) PIETER DE HOOCH: Interior com mulher descascando mas. Pintado em 1663, Londres, WallaceoollectionMuitas pessoas gostam de ver em quadros o que tambm lhes agradaria ver na realidade. Isso uma preferncia muito natural. Todos gostamos de beleza na natureza e somos gratos aos artistasque a preservaram em suas obras. Nem esses mesmos artistas nos repeliriam pelo nosso gosto. QuandoRubens, o grande pintor flamengo, fez um desenho de seu filho pequeno (fig. 1). Estava certamenteorgulhoso de sua beleza. Tambm queria que admirssemos o menino. Mas essa propenso paraadmirar o tema bonito e atraente passvel de se converter num obstculo se nos levar a rejeitar obrasque representam um tema menos atraente. O grande pintor alemo Albrecht Drer certamentedesenhou sua me (fig. 2) com tanta devoo e amor quanto Rubens sentia por seu rechonchudofilho. Seu estudo verdadeiro da velhice desgastada pelas preocupaes pode causar-nos um choqueque nos faca desviar os olhos dele e, no entanto, se lutarmos contra a nossa repugnncia inicial,poderemos ser generosamente recompensados, pois o desenho de Drer, em sua tremendasinceridade, uma grande obra. De fato, no tardaremos em descobrir que a beleza de um quadrono reside realmente na beleza de seu tema. Ignoro se os pequenos maltrapilhos que o pintor espanholMurillo gostava de pintar (fig. 3) eram rigorosamente belos ou no, mas, como ele os pintou,certamente possuem grande encanto. Por outro lado, muita gente diria que a criana no maravilhosointerior holands de Pieter de Hooch (fig. 4) feia, mas nem por isso deixa de ser uma pintura atraente.O problema com a beleza que gostos e padres do que belo variam imensamente. As figs. 5e 6 foram ambas pintadas no sculo XV, e ambas representam anjos tocando alade. Muitospreferiro a obra italiana de Melozzo da Forli (fig. 5), com sua cativante graciosidade, do seucontemporneo flamengo, Hans Memling (fig. 6). Eu gosto de ambas. possvel que se leve um poucomais de tempo para descobrir a beleza intrnseca do anjo de Memling, mas logo que deixarmos de nosperturbar com sua desmaiada e lnguida deselegncia possvel que o achemos infinitamenteadorvel.O que ocorre com a beleza ocorre tambm com a expresso. De fato, freqentemente a expresso deuma figura na pintura que nos leva a gostar da obra ou detest-la. Algumas pessoas gostam de umaexpresso que possam facilmente entender e que, portanto, as comove profundamente. Quando opintor seiscentista italiano Guido Reni pintou a cabea de Cristo na cruz (fig. 7), pretendia, semdvida, que o espectador encontrasse nesse rosto ioda a agonia e toda a glria da Paixo. Muitaspessoas, ao longo dos sculos subseqentes, hauriram fora e consolo de tal representao doSalvador. O sentimento que a obra expressa to poderoso e to claro que reprodues dela podemser encontradas em capelas de beira de estrada e em remotas casas de fazendas cujos moradoresnada entendem de "Arte". Mas ainda que essa intensa expresso de sentimento nos cative, no devemos, 3. por essa razo, voltar as costas a obras cuja expresso talvez seja menos fcil de entender. O pintoritaliano da Idade Mdia que pintou o crucifixo (fig. 8) certamente alimentava sentimentos tosinceros acerca da Paixo quanto Reni. mas temos que aprender primeiro a conhecer seus mtodosde desenho para compreender seus sentimentos. Depois de adquirirmos a compreenso dessasdiferentes linguagens, poderemos at preferir obras de arte cuja expresso menos bvia do que a deReni. Assim como alguns preferem pessoas que usam poucas palavras e gestos, deixando algo paraser adivinhado, tambm h os que gostam de pinturas ou esculturas que deixem alguma coisa sobreque se possa conjeturar e meditar. Nos perodos mais "primitivos", quando os artistas no eram tohabilidosos quanto hoje na representao de rostos e gestos humanos, tanto mais comovente, comfreqncia, ver como eles tentaram, no obstante, expressar os sentimentos que queriamtransmitir.5. (esquerda) MELOZZO DA FORLI: Anjo. Detalhe de um afresco. Pintado cerca de 1480. Vaticano, Pinacoteca6. (direita )MEMLING: Anjos. Detalhe de um altar. Pintado cerca de 1490. Anturpia, MuseuMas, neste ponto, os principiantes defrontam-se amide com outra dificuldade. Querem admirar apercia do artista em representar as coisas que eles vem. Gostam mais de pinturas que "parecemreais". No nego, nem por um instante, que isso uma importante considerao. A pacincia e ahabilidade que contribuem para a reproduo fiel do mundo visvel so, por certo, dignas deadmirao. Grandes artistas do passado dedicaram muito labor a obras em que todos os pormenores,ainda que minsculos, esto cuidadosamente registrados. O estudo de uma lebre na aquarela deDrer (fig. 9) constitui um dos mais famosos exemplos dessa extremosa pacincia. Mas quem ousariadizer que o desenho de Rembrandt de um elefante (fig. 10) necessariamente menos bom porquemostra menos detalhes? Na verdade, Rembrandt era dotado de tal poder de magia que nos transmite asensao, com alguns traos de seu giz, da pele rugosa e espessa do elefante.Mas no o esquematismo grfico que aborrece principalmente as pessoas que gostam que seusquadros paream "reais". Elas so ainda mais repelidas por obras que consideram incorretamentedesenhadas, sobretudo quando pertencem a um perodo mais moderno em que o artista "tinha aobrigao de no fazer semelhantes tolices". De fato, no h mistrio algum a respeito dessas distoresda natureza, sobre as quais ainda ouvimos queixas e protestos em discusses acerca da arte moderna.Quem j viu um filme de Disney ou um cartoon sabe tudo a esse respeito. Sabe que, por vezes, estcerto desenhar coisas de um modo diferente do que elas se apresentam aos nossos olhos, modific-lasou distorc-las de uma forma ou de outra. O camundongo Mickey no se parece muito com um ratoverdadeiro; no entanto, as pessoas no escrevem cartas indignadas aos jornais sobre o 4. 7. (esquerda) GUIDO RENI: Cabea de Cristo. Detalhe de uma pintura, cerca de 1640. Paris. Louvre8. (direita) MESTRE TOSCANO; Cabea de Cristo. Detalhe de um crucifixo. Pintado cerca de 1270. Florena,Uffizi9. DRER: Uma lebre. Aquarela. Pintada em 1502, Viena, Albertina. 5. 10. REMBRANDT: Um elefante. Desenhado em 1637. Viena, Albertina.comprimento do apndice caudal de Mickey. Os que penetram no mundo encantado de Disney noesto preocupados com a Arte com A maisculo. No vo para seus espetculos armados dosmesmos preconceitos com que visitam uma exposio de pintura moderna. Mas se um artistamoderno desenha alguma coisa sua maneira, est sujeito a que o considerem um trapalho,incapaz de fazer melhor do que isso. Ora, seja o que for que pensemos sobre artistas modernos,podemos seguramente credit-los com suficientes conhecimentos para desenharem "corretamente".Se no o fazem, suas razes devem ser muito semelhantes s de Walt Disney. A fig. 11 mostra umaestampa de uma Histria Natural ilustrada pelo famoso pioneiro do movimento modernista. Picasso.Por certo ningum poder encontrar defeitos nessa encantadora representao de uma galinha comseus fofos pintinhos. Mas, ao desenhar um frango (fig. 12). Picasso no se contentou em fazer amera reproduo da aparncia fsica da ave. Quis expressar a sua agressividade, sua insolncia eestupidez. Por outras palavras, recorreu caricatura. Mas que caricatura convincente ele criou!Existem duas coisas, portanto, que nos devemos perguntar sempre se acharmos falhas naexatido de um quadro. Uma se o artista no teria suas razes para mudar a aparncia daquilo queviu. Voltaremos a tratar dessas razes a medida que se desenrolar a histria da arte. A outra quenunca deveramos condenar uma obra por estar incorretamente desenhada, a menos que tenhamos aprofunda convico de estarmos certos e o pintor errado. Somos todos propensos ao veredictoprecipitado de que "as coisas no se parecem com isso". Temos o curioso hbito de pensar que anatureza deve parecer-se sempre com as imagens a que estamos acostumados. fcil ilustrarisso por