O desafio do diagnóstico oral em pacientes ?· duros da cavidade bucal, bem como de seus anexos, ...…

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    29-Jul-2018

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<ul><li><p>RFO, v. 14, n. 3, p. 211-215, setembro/dezembro 2009211</p><p>O objetivo do presente trabalho foi avaliar a prevaln-cia de leses estomatolgicas em mucosa bucal dos usurios do Centro de Ateno Psicossocial II (Caps II) de Blumenau - SC. A populao-alvo foi composta por duzentos pacientes psiquitricos sem distino de gnero ou idade. Para a coleta de dados sobre leses estomatolgicas foram realizados exames da cavidade bucal da populao-alvo, observando-se em toda ex-tenso da mucosa bucal a presena de ndulos, ppu-las, vesculas, lceras, placas, pstulas, mculas e tu-mores. Nessas leses foram avaliados o tamanho, a cor, a consistncia, a localizao, a extenso, o formato e a presena de sintomatologia. Tambm foi realizado um exame anamnsico com a finalidade de registrar a doena sistmica dos pacientes, a presena de prteses dentrias removveis e de hbitos como o tabagismo e alcoolismo. Verificaram-se tambm a idade e o tipo de doena psiquitrica por meio da consulta ao pronturio de cada paciente. Dos duzentos pacientes examinados, 57 apresentavam leses em mucosa bucal e 143 en-contravam-se livres de leses Assim, 28,5% dos pacien-tes examinados no Caps II de Blumenau apresentavam leses bucais. Este percentual considerado elevado, comparativamente com a prevalncia de entidades es-tomatolgicas na populao em geral.</p><p>Palavras-chave: Sade bucal. Sade mental. Diagns-tico bucal.</p><p>O desafio do diagnstico oral em pacientes especiais</p><p>The challenge of oral diagnosis in psychiatric patients</p><p>Natacha Alves Tato Haas* Maria Urnia Alves**</p><p>Valria Campanelli Franco da Rocha***</p><p>* Professora do curso de odontologia da Universidade Regional de Blumenau (FURB), aluna do curso de doutorado em Estomatologia da PUCPR, mestra em Odontologia Coletiva pela Universidade Federal Fluminense, especialista em Estomatologia pela UFRJ.</p><p>** Doutora em Odontologia Coletiva pela Universidade Federal Fluminense, professora dos cursos de odontologia da Universidade Severino Sombra e Universidade So Jos - RJ.</p><p>*** Professora do curso de odontologia da Universidade Regional de Blumenau (FURB), mestra em Periodontia pela Unesp.</p><p>IntroduoA estomatologia a especialidade odontolgica </p><p>que diagnostica e trata as leses dos tecidos moles e duros da cavidade bucal, bem como de seus anexos, as glndulas salivares. A estomatologia se envolve com todas as outras especialidades odontolgicas e tambm com algumas reas da medicina, enten-dendo que a sade bucal no apenas a sade dos dentes.</p><p>Um grande grupo de doenas bucais resulta de alteraes orgnicas multifatoriais, sendo direta-mente influenciado por classe social, grau de instru-o, condies financeiras, idade, estado de sade geral e atitudes. Assim, determinados grupos, como os de baixa renda, idosos, pessoas com distrbios f-sicos, dependentes qumicos e com deficincia men-tal, se enquadram numa categoria de risco aumen-tado para desenvolver alteraes bucais1-3.</p><p> Muitos indivduos acometidos por transtornos psquicos apresentam falta de pragmatismo, dficit cognitivo e dificuldade motora para controle do au-tocuidado, descuidando da higiene pessoal e, em es-pecial, da higiene bucal4,5. Alm disso, medicamen-tos que reduzem o fluxo salivar, bem como produtos derivados do tabaco e do lcool, de que muitos des-ses pacientes fazem uso, so fatores predisponentes para o aparecimento de algumas leses estomatol-gicas em mucosa bucal6. </p><p>O cncer de boca apresenta um prognstico posi-tivo se diagnosticado precocemente, ou seja, quando ainda no houve o desenvolvimento de metstases ou quando ainda no comprometeu estruturas ad-jacentes. No estgio inicial, o tratamento de leses malignas de boca pode levar o paciente cura sem </p></li><li><p>RFO, v. 14, n. 3, p. 211-215, setembro/dezembro 2009212</p><p>que venha a desenvolver qualquer sequela decor-rente dessa interveno7-10. </p><p>Diante do exposto, percebe-se que muitos pa-cientes psiquitricos esto mais vulnerveis que indivduos sem alteraes mentais a desenvolver certas leses estomatolgicas. Dentre essas altera-es podem-se destacar a leucoplasia, a eritoplasia, a leucoplasia verrucosa proliferativa, o carcinoma espinocelular e a sndrome da ardncia bucal. As quatro primeiras apresentam os piores prognsti-cos, comparativamente com as dezenas de leses possveis de se diagnosticar na cavidade bucal. </p><p>Vale tambm lembrar que muitos usurios do Centro de Ateno Psicossocial II (Caps II) de Blu-menau so portadores de prteses dentrias remo-vveis, o que os torna, assim, portadores de mais de um fator predisponente para o desenvolvimento de leses estomatolgicas de candidase11.</p><p> tambm consenso entre especialistas em sa-de mental que grande parte dos indivduos porta-dores de distrbios mentais que vm s consultas mdicas apresentam um nmero importante de au-sncias dentrias, pobre condio bucal e halitose. </p><p>Atualmente, no Vale do Itaja no existem dados qualitativos ou quantitativos sobre a prevalncia de leses estomatolgicas em pacientes portadores de doena mental. Tambm no existe qualquer tipo de ateno odontolgica especfica para este grupo, nem no nvel educativo, nem no nvel cirrgico-res-taurador. </p><p>Dessa forma, o presente trabalho, ao estudar a prevalncia das entidades estomatolgicas presen-tes nos pacientes com transtornos mentais do Caps II de Blumenau, pode contribuir para melhorar a qualidade de vida dos mesmos. </p><p>Sujeitos e mtodoO presente trabalho foi aprovado pelo Comit de </p><p>tica em Pesquisa da Furb (prot. n 161/06).A populao analisada foi composta por duzen-</p><p>tos usurios em atendimento ambulatorial no Caps II de Blumenau - SC, sem distino de gnero ou idade. Os participantes do trabalho fizeram parte de uma amostra probabilstica simples ao acaso. O tamanho da amostra corresponde a 80% dos pacien-tes vinculados ao Caps II em 2008. Pacientes vin-culados so aqueles que frequentam o servio com regularidade, seja para acompanhamento mdico, seja para participar de oficinas de terapia ocupacio-nal ou atividades de apoio psicoterpico.</p><p>A metodologia deste trabalho teve como critrio de excluso pacientes que so considerados mdica ou legalmente incapazes, temporria ou permanen-temente. </p><p>O Caps II, conforme as portarias MS-336 e SAS-189 de 2002, tipo de unidade 37 e tipo de servio 14 (servio de ateno psicossocial), sendo um servio comunitrio que toma para si a responsabilidade de </p><p>cuidar de pessoas que sofrem com transtornos men-tais, em especial os transtornos severos e persisten-tes, no seu territrio de abrangncia. A ateno sade mental inclui aes dirigidas aos familiares, procurando construir trabalhos de insero social, respeitando as possibilidades individuais e princ-pios de cidadania que minimizem o estigma, pro-movendo melhoria da qualidade de vida e incluso social dentro das possibilidades de cada usurio.</p><p>Os usurios do Caps II envolvidos neste tra-balho so pacientes portadores de transtornos ps-quicos categorizados no quinto captulo da CID 10, pertinente s doenas mentais entre F 00 e F 69. Entre as desordens mentais mais frequentemente tratadas nos ambulatrios de psiquiatria, podem-se citar a depresso, o pnico, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), a doena bipolar, a disritmia, a bulimia, a esquizofrenia, a mania, a dependncia qumica e o autismo1,11,12 .</p><p>Primeiramente, a populao-alvo foi convidada a participar do trabalho em reunies de acolhimen-to, com, no mximo, 15 pessoas por grupo, que fo-ram conduzidas pela professora do curso de Odon-tologia e orientadora deste trabalho, bem como pelo seu aluno orientado, utilizando a tcnica de grupos focais13,14, na qual os pacientes eram informados so-bre o trabalho, sua importncia e seus benefcios. Neste momento os pacientes recebiam o termo de consentimento livre e esclarecido para tomarem ci-ncia e assinarem o formulrio.</p><p>Nessas reunies os pacientes envolvidos tinham espao para relatar suas dvidas, expectativas e opinies sobre o estudo. O trabalho foi apresentado e explicado com linguagem acessvel, compatvel com o grau de cognio e escolaridade dos participantes. Seus objetivos e propostas foram detalhadamente tratados e discutidos e tambm foi dada a palavra a todos, uma vez que a metodologia dos grupos fo-cais prima pela participao dos usurios de forma interativa, os quais devem discutir e ponderar so-bre sua percepo de necessidades acumuladas em sade bucal e vontade de participar do trabalho. Dessa forma, pretendeu-se motivar a participao consciente e engajada no estudo. Durante esta fase do trabalho, foi possvel captar a histria de vida e a percepo sobre sade e preveno de leses de mucosa bucal dos participantes. O instrumento uti-lizado para registrar o grau de conhecimento deste grupo sobre sade bucal foram anotaes de pontos considerados relevantes dos discursos pelos pesqui-sadores durante as reunies do grupo. </p><p>Para a coleta de dados foram realizados exames da cavidade bucal da populao-alvo, observando-se em toda extenso da mucosa bucal a presena de ndulos, ppulas, vesculas, lceras, placas, pstu-las, mculas e tumores, dos quais foram avaliados o tamanho, a cor, a consistncia, a localizao, a ex-tenso, o formato e a presena de sintomatologia. Foi tambm realizado um exame anamnsico com os pacientes a fim de se registrar suas possveis </p></li><li><p>RFO, v. 14, n. 3, p. 211-215, setembro/dezembro 2009213</p><p>doenas sistmicas, a presena de prteses dent-rias removveis e de hbitos como o tabagismo e alcoolismo. O diagnstico estomatolgico observado e os dados da anamnese foram registrados no mo-mento do exame bucal num formulrio odontolgico prprio. </p><p>Os exames foram realizados pelos pesquisado-res nos padres epidemiolgicos aps treinamento prvio feito no prprio Caps II de Blumenau - SC, no ambiente do ambulatrio de psiquiatria, sem causar nenhum desconforto ou transtorno aos pa-cientes, sob luz natural, utilizando-se esptulas de madeira, espelho odontolgico plano no 5 e gaze. Foram seguidos todos os procedimentos de biosse-gurana, como uso de material esterilizado, luvas, esptulas, gaze, mscara e gorro descartveis, alm de culos de proteo.</p><p>A tcnica utilizada foi a documentao direta por meio da pesquisa de campo, e os dados obtidos foram submetidos a anlise estatstica descritiva.</p><p>Todos os pacientes examinados, bem como seus acompanhantes, receberam orientaes sobre sade bucal e sobre como realizar o autoexame preventivo do cncer de boca por meio de palestras de educao em sade bucal. Essas orientaes geraram conhe-cimento para que os indivduos possam prevenir o cncer de boca no futuro e melhorar sua qualidade de vida. Essas pessoas tambm puderam atuar como multiplicadores de informaes a outros portadores de doena mental e seus familiares. Aqueles que apresentavam leses estomatolgicas receberam o diagnstico provvel e foram encaminhados para tratamento odontolgico na rede de atendimento odontolgico da Prefeitura de Blumenau ou no cur-so de odontologia da Furb. </p><p>Resultados Ao todo, foram examinados duzentos pacientes </p><p>portadores de transtornos psiquitricos. Na Figura 1 pode-se verificar que 57 pacientes apresentavam leses estomatolgicas, ao passo que 143 estavam livres de enfermidades bucais. Assim, diagnosticou-se que 28,5% da amostra apresentaram leses em mucosa bucal. </p><p>Figura 1 - Pacientes examinados no Caps II de Blumenau que apresentavam leses bucais</p><p>Entre os 57 pacientes que apresentavam leses bucais, diagnosticou-se uma diversidade de entida-des clnicas. Dentre essas condies, podem-se citar leucoplasia, candidase, ceratose friccional, nevo pigmentado, hiperplasia fibrosa inflamatria, ulce-raes, fstulas, tatuagem por amlgama, mucocele, petquias e estomatite nicotnica. Essas leses es-to representadas em percentuais na Figura 2.</p><p>3%</p><p>71%</p><p>12%</p><p>4%3% 1% 4%2%</p><p>Candidase</p><p>Nevo bucal</p><p>Sem leso</p><p>Outras leses (fstulas, tatuagem por amlgama,mucocele e petquias)</p><p>Hiperplasia Fibrosa Inflamatria</p><p>Ulceraes</p><p>Leucopasia</p><p>Estomatite nicotnica</p><p>Figura 2 - Leses estomatolgicas diagnosticadas nos usurios do Caps II de Blumenau - SC</p><p>Tambm foi alvo da investigao do presente tra-balho o questionamento a respeito da utilizao de tabaco entre os pacientes. Constatou-se que 42,5% da populao-alvo tabagista e que 57,5% no .</p><p>Durante o exame clnico bucal foi tambm ob-servado que 17% dos pacientes (n = 33) do Caps II apresentam edentulismo total e que 83% (167 pa-cientes) so dentados totais ou parciais (Fig. 3).</p><p>Figura 3 - Distribuio do edentulismo total e parcial nos pacientes examinados do Caps II de Blumenau - SC</p><p>Foram tambm avaliados os diversos tipos de doenas psiquitricas diagnosticadas nos pacientes do Caps II de Blumenau - SC que se submeteram ao exame bucal. Os diagnsticos mais frequentes fo-ram de esquizofrenia, transtorno depressivo recor-rente e transtorno afetivo bipolar (Tab. 1).</p></li><li><p>RFO, v. 14, n. 3, p. 211-215, setembro/dezembro 2009214</p><p>Tabela 1 - Enfermidades psiquitricas diagnosticadas nos duzentos pacientes examinados no Caps II de Blumenau - SC</p><p>Percentual de pacientes Enfermidades psiquitricas diagnosticadas CID</p><p>29,5% Esquizofrenia F2027% Transtorno depressivo recorrente F33</p><p>15,5% Transtorno afetivo bipolar F3110,5% Episdios depressivos F32</p><p>5% Psicose no orgnica no especificada F294,5% Outros transtornos ansiosos F413,5% Dependncia qumica F10 a F192,5% Distrbios mentais menos frequentes F06, F09, F22, F28, F30, F34, F43, </p><p>F45 e F602% Transtornos fbico-ansiosos F40</p><p>Discusso Considerando o consumo de produtos derivados </p><p>do tabaco um fator predisponente ao aparecimen-to de algumas leses bucais pr-malignas15,16, ob-servou-se que 1% das leses bucais diagnosticadas era leucoplasias e 2% eram estomatites nicotnicas. Vale lembrar que 42,5% da populao estudada tabagista. </p><p>O edentulismo total ou parcial, seguido do uso de prteses dentrias removveis, fator de risco para aparecimento de leses hiperplsicas e fngi-cas em mucosa bucal. Considerando que 17% dos pacientes do Caps II apresentam edentulismo total e que 83% so dentados totais ou parciais (Fig. 3), muitos fazendo uso de prteses dentrias remov-veis, observou-se que 4% apresentaram quadro de candidase atrfica, 4%, hiperplasia fibrosa infla-matria e 3%, ulceraes.</p><p> Em relao s demais leses diagnosticadas em mucosa bucal (nevo pigmentado, fstulas, tatuagem por amlgama, mucocele e petquias) dos pacientes do Caps II deste trabalho, no se encontrou possvel correlao com a enfermidade psiquitrica de seus portadores.</p><p>Destaca-se ainda, em relao a esses pacientes especiais, a utilizao rotineira de medicamentos psicoativos, que no s provocam reduo do fluxo salivar, mas tambm afetam a coordenao motora, dificultando sobremaneira a higienizao da cavi-dade bucal17 e contribuindo para o aparecimento de xerostomia, entre outras alteraes. Esse quadro foi diagnosticado em apenas um paciente que partici-pou deste trabalho. </p><p>Concluses Diante dos dados coletados, conclui-se que a </p><p>sade dos pacientes psiquitricos deve ser o resul-tado da interveno conjunta da odontologia com os profissionais da psiquiatria, com vistas a assistir esses pacientes de forma bem-sucedida. O cirur-gio-dentista, no manejo dos pacientes psiquitri-cos, deve estar atento prescrio para os quadros </p><p>de hiposalivao, alm de realizar de perto a orien-tao de higiene bucal...</p></li></ul>

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