O segredo íntimo em Hiroshima mon amour de Marguerite ... ?· escrita revelará o mistério da heroína.…

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    24-Jan-2019

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<p> O segredo ntimo em Hiroshima mon amour de Marguerite Duras e Alain </p> <p>Resnais </p> <p>The intimate secrets in Hiroshima mon amour by Marguerite Duras and Alain </p> <p>Resnais </p> <p>Jlia Simone Ferreira1 </p> <p>Resumo: Marguerite Duras uma escritora que designamos de intimista. Intimista quando ela </p> <p>traduz o intraduzvel, em seu textos. No entanto, entre continuidade e descontinuidade do </p> <p>discurso, a autora nos revela uma histria carregada de mistrios e de no-ditos que se faz </p> <p>presente no paradoxo de sua escritura. preciso ento desvendar o acontecimento traumtico </p> <p>latente, que se encontra na cena primitiva. a partir dela que a sua escrita revelar o segredo </p> <p>ntimo da herona do texto-filme. No fundo, Duras no cansar de buscar e analisar em sua </p> <p>escritura o for intrieur do indivduo, o que de natureza ntima e que, em cujo surgimento, nos </p> <p>esclarece a todos. Palavras-chave: ntimo, segredo, cena primitiva, amor e morte </p> <p>Abstract: The artist Marguerite Duras is considered an intimate one. Intimate when she </p> <p>translates untranslatable in their texts. However, between continuity and discontinuity of </p> <p>discourse, the author reveals a story full of mysteries and not-sayings that are present in the </p> <p>paradox of his writing. You must then uncover the traumatic event imaging, which is the primal </p> <p>scene. It is from her that her writing revealed the intimate secrets of the text-film heroine. </p> <p>Basically, Duras not get tired of writing and analysis in your fort intrieur of de individual, what is </p> <p>the intimate nature and in whose emergence in all states. </p> <p>Keywords: intimate, secret, primal scene, love and death </p> <p>Introduo </p> <p>Em Hiroshima mon amour, analisaremos o ntimo segredo da </p> <p>personagem feminina, a Francesa, no nomeada em todo o texto-filme. </p> <p>preciso esclarecer que em Hiroshima mon amour, no qual Duras roteirista e </p> <p>Alain Resnais, o produtor do filme, Duras escreve o roteiro do filme em 1958, </p> <p>mas sua publicao, nas edies Gallimard, acontece somente em 1959. </p> <p>Assim, estudar o filme realizado por Alain Resnais, com o roteiro de Marguerite </p> <p>Duras, abordar um tema que no exclusivamente literrio nem </p> <p> 1 Professora de Lngua e Literatura Francesa na Universidade Federal do Acre. Possui mestrado e doutorado em Lngua e Literatura Francesa em Marguerite Duras. Defendeu o doutorado em Junho de 2006, na Universidade de Nice Sophia-Antipolis, na Frana. E-mail para contato: juliasimonef@yahoo.fr </p> <p>Todas as Musas ISSN 2175-1277 Ano 02 Nmero 02 Jan-Jun 2011 </p> <p>95 </p> <p>exclusivamente textual. Com efeito, o roteiro se direciona a um filme ainda </p> <p>ausente, ou seja, a um filme que vai ser construdo. Em vista disso, a autora </p> <p>declara: Meu papel (...) de traduzir elementos a partir dos quais A. Resnais </p> <p>realizar seu filme2" (DURAS, 1959, p. 20). Em outras palavras, o livro no </p> <p>somente um texto, pois coloca luz as imagens do filme futuro ausente. </p> <p>desta forma que o texto construdo, ou seja, como um todo harmonioso, no </p> <p>qual se percebe a relao de coerncia interna, antes, durante e depois do </p> <p>filme ser realizado. </p> <p>Hiroshima mon amour no conjunto dos textos durassianos </p> <p>Em Hiroshima mon amour, assim como em outras obras da autora </p> <p>dos anos sessenta: Moderato cantabile, Dez e meia na noite de vero e O </p> <p>deslumbramento de Lol V. Stein, h nfase no contraste, na alegria, no </p> <p>sofrimento amoroso e na perda, at no desespero. Duras libera toda a emoo </p> <p>por meio de uma escritura caracterstica da poca, em que os textos ilustram </p> <p>uma mesma tendncia para a repetio de certas imagens, do segredo ntimo </p> <p>das heronas. </p> <p>Neste texto-filme, Hiroshima mon amour, traz claro que, pelos </p> <p>meandros da escritura, Duras registra um acontecimento inesquecvel e </p> <p>traumatizante, uma histria carregada de mistrio e de no-ditos que se faz </p> <p>presente no paradoxo de sua escritura. A ttulo de exemplos: o amor e a morte, </p> <p>a memria e o esquecimento, o presente e o passado ou vice-versa. Nessa </p> <p>perspectiva, a escritura durassiana faz sentido quando ela se direciona </p> <p>obscuridade e ao desconhecido, para o mais obscuro e o mais desconhecido </p> <p>ainda3 (BLOT-LABARRRE, 1992, p. 16). Assim, ao escrever no paradoxo e </p> <p>no mistrio, Duras coloca luz o que segredo do ser, o que reside no estado </p> <p>latente. No fundo, ela no cansar de buscar em sua escritura o for intrieur </p> <p>do indivduo, o que de natureza obscura e que, em cujo surgimento, nos </p> <p>esclarece a todos. </p> <p> 2 Mon rle se borne rendre compte des lments partir desquels Resnais a fait son film. Traduo nossa . 3 Vers lobscurit et linconnu, par ce qui est obscur et inconnu encore . </p> <p>Todas as Musas ISSN 2175-1277 Ano 02 Nmero 02 Jan-Jun 2011 </p> <p>96 </p> <p>Na realidade, o segredo ntimo da herona, em Hiroshima mon amour, </p> <p>est relacionado com a falta e com a ausncia e a autora as situa em uma </p> <p>inconsolvel perda. Em outras palavras, nas entrelinhas da escritura, Duras </p> <p>descreve a histria de um deuil noir, luto que se torna inteminvel pela </p> <p>ausncia do ser passionalmente amado. Por essa perspectiva, a escrita </p> <p>durassiana vai de encontro de alguma coisa que se recusa a ser desvendada. </p> <p>(...) O que doloroso, a dor o perigo colocar na obra, em colocar na </p> <p>pgina, a dor de penetrar a sombra negra, para que ela se propague sob o </p> <p>branco do papel, coloc-la fora, o que de natureza interna4 (DURAS, 1977, </p> <p>pp. 123, 124). justamente por meio deste algo que se recusa a ser liberado </p> <p>e pelo no-dito do discurso que a autora vai obstinamente penetrar na sombra </p> <p>interna, e escrever no branco do papel, o vivido traumtico da herona do </p> <p>texto-filme. Com efeito, a partir de a cena primitiva, a escritura durassiana </p> <p>desvendar o segredo ntimo da herona. a partir dela tambm que a sua </p> <p>escrita revelar o mistrio da herona. </p> <p>Anlise do filme Hiroshima mon amour </p> <p>Desde a abertura do filme, o espectador voyeur observa, na tela, uma </p> <p>imagem imprecisa de dois personagens nus que se abraam. Vem-se apenas </p> <p>os ombros e os braos, como se estivessem separados do resto do corpo. Os </p> <p>personagens esto recobertos de cinzas e suor e permanecem longamente </p> <p>abraados. Os corpos parecem estar em pedaos, cortados. Vozes surgem do </p> <p>nada e falam de morte, de destruio e de decomposio da cidade de </p> <p>Hiroshima. Enquanto os espectadores observam rapidamente os corpos dos </p> <p>heris abraados, em gros plan, ouvem-se vozes que no cessam de repetir </p> <p>horrores causados pela guerra: hospital, dores, feridas e pessoas mutiladas. </p> <p>Tudo leva a crer que, olhando as imagens de dois personagens abraados e as </p> <p>de morte, no hospital, que desfilam rapidamente pela tela, em um pano de </p> <p>fundo simblico, os espectadores percebem a existncia de mltiplas </p> <p>comunicaes que traduzem o amor e a morte. Com efeito, tudo acontece </p> <p> 4 quelque chose qui se refuse tre cern. [] Ce qui est douloureux, la douleur le danger cest la mise en uvre, la mise en page, de cette douleur, cest crever [l] ombre noire afin quelle se rpande sur le blanc du papier, mettre en dehors ce qui est de nature intrieure . </p> <p>Todas as Musas ISSN 2175-1277 Ano 02 Nmero 02 Jan-Jun 2011 </p> <p>97 </p> <p>como se o ato de fazer amor entre os personagens evocasse justamente o ato </p> <p>de morte. Assim a herona afirma: </p> <p>Eu vi tudo. Tudo. Tambm o hospital, eu o vi.(...) Como puderia evitar de v-lo (...) Quatro vezes no museu em Hiroshima. Eu olhei as pessoas. Eu olhei eu mesma, pensativa, o ferro. O ferro queimado. O ferro quebrado, o ferro tornou-se vulnervel como a carne. (...) Peles humanas flutuantes, sobreviventes, ainda no frescor de seus sofrimentos. Pedras. Pedras queimadas. Pedras destrudas. Cabelos annimos que as mulheres de Hiroshima encontravam inteiramente cados pela manh, ao acordar5. (DURAS, 1959, p. 22-24) </p> <p>As imagens de destruio, vistas no museu em Hiroshima, traduzem o </p> <p>imaginrio da herona. Elas se transformam na mise en scne do fantasma. </p> <p>Na verdade, a herona olha as imagens que reanimam a morte. Ela as </p> <p>compara a fatos ntimos vividos e opera a justaposio entre fantasma </p> <p>individual e fantasma coletivo. Com efeito, olhando as imagens do hospital e </p> <p>do museu, acontecimentos ntimos ressurgem do mais profundo da alma. </p> <p>Tudo acontece como se a protagonista visse, nela mesma, a essncia e </p> <p>existncia, imaginrio e real, visvel e invisvel, (as imagens) mesclam todas as </p> <p>nossas categorias mostrando o universo onrico de essncias corporais, de </p> <p>similitudes eficientes, de significaes silenciosas6 (MERLEAU-PONTY, 2003, </p> <p>p. 35). Na verdade, o olhar da protagonista se torna ento uma introspeco, </p> <p>j que o ato de reconhecimento se coloca sob o mesmo plano de </p> <p>acontecimentos, o interior e o exterior. Em outras palavras, pelas imagens </p> <p>vistas que ocorre o reconhecimento subjetivo, em que existe a relao ntima </p> <p>entre o mundo exterior e o mundo interior. Assim, as reminiscncias </p> <p>ressurgem de tal forma que as palavras se tornam incapazes de traduzi-las: </p> <p>As pessoas ficam al, pensativas. E sem nenhuma ironia, pode-se dizer que </p> <p>as ocasies de tornar as pessoas pensativas so sempre excelentes. E que 5 Jai tout vu. Tout. Ainsi lhpital, je lai vu () Comment aurais-je pu viter de le voir ? () Quatre fois au muse Hiroshima. Jai regard les gens. Jai regard moi-mme pensivement, le fer. Le fer brl. Le fer bris, le fer devenu vulnrable comme la chair. () Des peaux humaines flottantes, survivantes, encore dans la fracheur de leurs souffrances. Des pierres. Des pierres brles. Des pierres clates. Des chevelures anonymes que les femmes de Hiroshima retrouvaient tout entires tombes le matin, au rveil . 6 essence et existence, imaginaire et rel, visible et invisible, (les images) brouille(nt) toutes nos catgories en dployant leur univers onirique dessences charnelles, de ressemblances efficaces de significations muettes . </p> <p>Todas as Musas ISSN 2175-1277 Ano 02 Nmero 02 Jan-Jun 2011 </p> <p>98 </p> <p>nos monumentos, nos quais algumas vezes se sorri so, portanto, os </p> <p>melhores pretextos para essas ocasies 7 (DURAS, 1959, p. 26). </p> <p>As palavras da herona no so realmente aprofundadas, tudo leva a </p> <p>crer que as imagens vistas no presente traduzem fatos vividos no passado. A </p> <p>ttulo de exemplo, os cabelos cados das mulheres annimas de Hiroshima </p> <p>refletem os cabelos tosquiados da protagonista em Nevers, cidade na qual </p> <p>morava na adolscencia. Existe, ento, uma relao recproca entre o </p> <p>presente e o passado, entre o passado e o presente, e por razes similares, o </p> <p>passado interpretado pela matria (e) imaginado pelo esprito8 (BERGSON, </p> <p>1939, p. 251). Isso acontece com as heronas dos textos durassianos: como </p> <p>Anne Desbaresdes de Moderato cantabile; Maria, em Dez e meia na noite de </p> <p>vero ou Lol V. Stein, em O Deslumbramento de Lol V. Stein, ou ainda, com </p> <p>a Francesa, de Hiroshima mon amour. Todas elas encontram, no que </p> <p>exterior, sua identidade e se identificam com ele como forma de projeo </p> <p>interna. </p> <p>O personagem Japons, em Hiroshima meu amor, tem razo de </p> <p>repetir obstinamente palavras, cuja sonoridade evoca um sentido misterioso e </p> <p>profundo: Voc no viu nada em Hiroshima. Nada. Voc no viu nada. Nada9 </p> <p>(DURAS, 1959, p. 22 e 27). Essas palavras no significam que a Francesa no </p> <p>viu nada, mas simplesmente que o que ela viu no se pode medir com o </p> <p>acontecimento em si. Com efeito, nem o hospital, nem os museus e nem </p> <p>mesmo os documentrios podem trazer luz a idia da catstrofe mundial. </p> <p>Assim, a protagonista afirma: </p> <p>Eu vi as atualidades. () Eu as vi. Do primeiro dia. Do segundo dia. Do terceiro dia. Mesmo no amor esta iluso existe, esta iluso de nunca poder esquecer, assim eu tive a iluso diante de Hiroshima que nunca esquecerei. Assim no amor... (...). Escute-me. Como voc, eu conheo o esquecimento. Como voc, eu sou dotada de memria. Eu conheo o esquecimento. Como voc, eu tambm, tentei lutar com todas minhas foras contra o </p> <p> 7 Les gens restent l, pensifs. Et sans ironie aucune, on doit pouvoir dire que les occasions de rendre les gens pensifs sont toujours excellentes. Et que les monuments, dont quelquefois on sourit, sont cependant les meilleurs prtextes ces occasions 8 () pour des raisons semblables, que le pass soit jou par la matire, imagin par lesprit8 . 9 Tu nas rien vu Hiroshima. Rien ; Tu nas rien vu. Rien . </p> <p>Todas as Musas ISSN 2175-1277 Ano 02 Nmero 02 Jan-Jun 2011 </p> <p>99 </p> <p>esquecimento. Como voc, eu esqueci. Como voc, eu desejei possuir uma inconsolvel memria, uma memria de sombras e de pedra. Eu lutei, (...), com todas as minhas foras, a cada dia, contra o horror de no entender o porqu de se lembrar. Como voc, eu esqueci...10. (DURAS, 1959, p. 27-32) </p> <p>Diante das palavras encantatrias e melodiosas da protagonista, tudo </p> <p>volta a acontecer diante de seu olhar ntimo. Na realidade, esta vontade de </p> <p>tudo ver em Hiroshima refora e conduz a protagonista a estabelecer um </p> <p>liame entre a memria e o esquecimento, entre o passado e o presente, entre </p> <p>os lugares de Hiroshima e de Nevers, cidade na qual a herona, em sua </p> <p>adolescncia, vive, durante a segunda guerra mundial, a histria de um amor </p> <p>proibido e prometido de morte: sua paixo por um soldado Alemo, inimigo da </p> <p>Frana. Na realidade, para ela, Hiroshima e Nevers simbolizam o amor e a </p> <p>morte. Para Madeleine Borgomano, (BORGOMANO, 1985, p. 15) as palavras </p> <p>pedra e sombra, que percorrem o universo durassiano, traduzem a </p> <p>ausncia ou a morte do ser amado. </p> <p>Diante das negaes do Japons: No, voc no conhece o </p> <p>esquecimento (...). No, voc no dotada de memria, e a protagonista </p> <p>insiste: Como voc, eu sou dotada de memria. Eu conheo o esquecimento. </p> <p>Assim no amor, () eu tive a iluso diante de Hiroshima que nunca </p> <p>esquecerei11. (DURAS, 1959, p. 28-32). Pelo jogo de afirmaes e negaes </p> <p>dos heris, de um lado, a escritora coloca luz a iluso da memria e a </p> <p>verdade do esquecimento. Duras pe em cena a tomada de conscincia dos </p> <p>acontecimentos causados pela guerra, o engajamento das personagens, mas </p> <p>tambm o dos leitores, com relao Histria. Por outro lado, se existe no </p> <p> 10 Jai vu les actualits. (). Je les ai vues. Du premier jour. Du deuxime jour. Du troisime jour. De mme que dans lamour cette illusion existe, cette illusion de pouvoir ne jamais oublier, de mme jai eu lillusion devant Hiroshima que jamais je noublierais. De mme que...</p>