José Luiz Zanella

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  • CONSIDERAES SOBRE A FILOSOFIA DA EDUCAO DE PAULO FREIRE E O

    MARXISMO

    Jos Luiz Zanella1

    Resumo: A finalidade do texto consiste em mostrar que a filosofia da educao de Paulo Freire tem por referncia bsica o mtodo fenomenolgico. A reflexo feita com base no mtodo do materialismo histrico, buscando explicitar os pressupostos antropolgicos, ontolgicos e epistemolgicos da pedagogia de Paulo Freire. Ao final, apresenta-se um quadro comparativo destacando as diferenas entre a filosofia de Paulo Freire e o marxismo com suas respectivas pedagogias.

    1. Introduo

    O presente estudo nasceu como resposta duas necessidades da nossa atuao como

    professor da disciplina de filosofia da educao no curso de Pedagogia da Universidade

    Estadual do Oeste do Paran Campus de Francisco Beltro-PR. A primeira, refere-se a nossa

    opo em estudar a filosofia da educao a partir das diferentes pedagogias. A prtica

    pedaggica sempre tributria de determinada teoria que, por sua vez, pressupe determinada

    concepo filosfica (Saviani, 1990, p. 8). Por exemplo, quando nos referimos Pedagogia

    Histrico-Crtica sabemos que sua filosofia o marxismo ou o materialismo histrico. No

    entanto, quando nos referimos a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, temos dificuldade em

    identificar qual a filosofia deste educador, uma vez que o mesmo dialoga com muitos autores de

    filosofias diferentes. A segunda, refere-se a nossa atuao junto aos Movimentos Sociais do

    Campo que lutam por uma educao do campo. No curso de graduao em Pedagogia para

    Educadores do Campo, da mesma universidade, temos travado intensos debates sobre os

    possveis limites da pedagogia de Paulo Freire e suas divergncias com a filosofia marxista.

    Verificamos que h uma confuso e, por conseqncia, uma enorme dificuldade dos educandos e

    dirigentes dos movimentos sociais em entender esta problemtica que, de certo modo, tambm

    nossa.

    At o momento, no temos conhecimento de bibliografias que identifiquem, na filosofia

    de Paulo Freire, seus pressupostos antropolgicos, ontolgicos e epistemolgicos, fazendo o

    contraponto com a filosofia marxista, e demarcando as diferenas que estes pressupostos

  • ocasionam na prtica pedaggica. Em muitos textos, os conceitos so apresentados de forma

    genrica. Gadotti (1993), por exemplo, na obra Histria das idias pedaggicas, ao apresentar a

    Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, afirma:

    Toda a sua obra voltada para uma teoria do conhecimento aplicada educao, sustentada por uma concepo dialtica em que o educador e o educando aprendam juntos numa relao dinmica na qual a prtica, orientada pela teoria, reorienta essa teoria, num processo de constante aperfeioamento. (...) Sua contribuio teoria dialtica do conhecimento, para a qual a melhor maneira de refletir pensar a prtica e retornar a ela para transform-la. Portanto, pensar o concreto, a realidade, e no pensar pensamentos (Gadotti, 1993, pp. 253 e 254, grifos meus). Mas, qual teoria do conhecimento (epistemologia)? Qual concepo dialtica? De qual realidade

    se est falando (ontologia)? O que o pensar concreto para Paulo Freire? Ser que o pensar sobre o

    pensamento, enquanto fenmeno, no pensar o concreto para Paulo Freire?

    A problemtica apresenta-se da seguinte forma: as diversas inspiraes filosficas de

    Paulo Freire caracterizam uma filosofia especfica? Ou, at que ponto Freire seria, por exemplo,

    marxista? No seria sua pedagogia do oprimido uma luta pela superao do modo de produo

    capitalista, atravs da prxis coletiva dos oprimidos, enquanto sujeitos? Sendo assim, a prxis

    proposta por Paulo Freire no seria idntica a prxis marxista? Por que to importante delimitar

    o campo filosfico/pedaggico de um determinado autor em seus pressupostos terico-

    metodolgicos?

    Aparentemente - principalmente ao senso comum - pode parecer estranho afirmar-se que

    h filosofias diferentes e, que estas diferenas, em ltima instncia, podem determinar prticas

    muito diferentes umas das outras. Esta estranheza manifesta-se da seguinte forma: por que seria

    coerente e necessrio explicitar qual a filosofia de um determinado autor? necessrio que

    faamos a opo2 por uma3 filosofia? Ou, ao contrrio, no seria procedente conhecer e refletir

    sobre os problemas que a prtica social coloca e utilizar os diferentes autores/filosofias conforme

    estas necessidades? Por exemplo, os defensores da Pedagogia do Movimento Sem Terra buscam 1 Professor de Filosofia da Educao da Universidade Estadual do Oeste do Paran - Campus de Francisco Beltro-Pr. Membro do Grupo de Pesquisa Sociedade, Trabalho e Educao. 2 Sobre as filosofias e a opo por uma delas assim se refere Gramsci: com efeito, no existe filosofia em geral: existem diversas filosofias ou concepes de mundo, e sempre se faz uma escolha entre elas. Como ocorre esta escolha? esta escolha um fato puramente intelectual, ou um fato mais complexo? E no ocorre freqentemente que entre o fato intelectual e a norma de conduta exista uma contradio? Qual ser, ento, a verdadeira concepo de mundo: a que logicamente afirmada como fato intelectual, ou a que resulta da atividade real de cada um, que est implcita em sua ao? E, j que a ao sempre uma ao poltica, no se pode dizer que a verdadeira filosofia de cada um se acha inteiramente contida na sua poltica? (Gramsci, 1999, pp. 96 e 97).

  • combinar diversas matrizes pedaggicas atravs de uma mistura que transforma estas matrizes

    numa sntese pedaggica que tem no movimento, enquanto prtica social, seu sentido de

    referncia (Caldart, 2000). Assim se expressa Caldart:

    (...) O MST costuma ter dificuldade com uma pergunta muito cara a alguns intelectuais: que pedagogia o Movimento segue? O MST na verdade no segue uma pedagogia; ele se constitui como sujeito pedaggico atravs de muitas pedagogias. E interessante como esta novidade incomoda aos prprios educadores sem-terra. Nos cursos fatalmente vem esta pergunta: afinal, a gente segue Paulo Freire? (ou Makarenko, ou Vigotsky ...) (2000, p. 208, grifos nossos). Entendemos que a explicitao das diferentes filosofias, no um exerccio de um mero

    academicismo de tipo metafsico como um capricho de intelectuais que no tem o que fazer.

    Exemplificando, quando se utiliza a expresso segue, o que isto quer dizer? D a entender que

    um determinado intelectual elaborou uma determinada teoria uma espcie de doutrina - que

    deve ser colocada em prtica pelos seus seguidores. No seria esta uma concepo filosfica

    sobre a relao teoria e prtica? Qual seria a concepo filosfica? Tudo indica que esta uma

    concepo metafsica que tem na lgica formal sua base gnosiolgica.

    Tendo por base o mtodo do materialismo histrico, discordamos dessa posio e

    afirmamos que h diferentes filosofias, com pressupostos ontolgicos, epistemolgicos e

    antropolgicos que constituem a dmarches4 de seus campos de atuao. Entendemos que as

    questes ontolgicas antecedem e determinam as questes epistemolgicas. Entendemos que o

    mais importante no o debate sobre a ortodoxia das doutrinas, mas o conhecimento dos

    diferentes mtodos. a ortodoxia do mtodo, e sua aplicao, que nos interessam. nesta

    perspectiva que buscaremos situar a filosofia da educao de Paulo Freire frente a filosofia

    marxista. Trata-se de identificar os pressupostos filosficos destas duas filosofias mostrando as

    implicaes prticas dos mesmos na educao.

    3 Sobre a diversidade de filosofias, afirma Hegel: Por conseguinte, quem tiver estudado e compreendido uma filosofia, contanto que seja filosofia, por isso mesmo compreendeu a filosofia (1999, p. 394). 4 Dmarche utilizada aqui no sentido de mtodo que diferencia as diferentes concepes terico-metodolgicas (ver Michael Lwy, As Aventuras de Karl Marx contra o Baro de Mnchhausen. So Paulo, Cortez, 1994).

  • 2. A filosofia de Paulo Freire5

    Definir qual a filosofia da educao de Paulo Freire tarefa complexa. Freire dialoga

    com muitas filosofias, e autores diversos. Contudo, no um ecltico. Segundo Gadotti (1989),

    seu pensamento humanista inspirou-se no personalismo de Emmanuel Mounier, bem como no

    existencialismo, na fenomenologia e no marxismo (p. 115). Com maior preciso, Saviani

    (1987) assim se refere a filosofia de Freire: ntida a inspirao da concepo humanista

    moderna de filosofia da educao, atravs da corrente personalista (existencialismo cristo).

    Na fase de constituio e implantao de sua pedagogia no Brasil (1959-1964), suas fontes de

    referncia so principalmente Mounier, G. Marcel, Jaspers (p.71). Ainda, segundo Saviani

    (1987), a filosofia dialtica de Freire idealista, uma espcie de dialtica de conscincias,

    que, com base no mtodo fenomenolgico existencial, sinnimo de dilogo.

    O debate acerca de qual seria a filosofia de Paulo Freire polmico e complexo. Talvez

    esta dificuldade tenha origem no prprio Paulo Freire. Num artigo denominado O plantador do

    futuro, afirma Gadotti: conversei vrias vezes com ele sobre isso. Ele sempre se esquivava.

    Dizia que isso no era importante. De fato, ele no se interessava muito em saber quais eram os

    autores ou as correntes filosficas que o influenciaram. No fcil inseri-lo dentro de alguma

    corrente pe