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Períodos do Espaço

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  • CHRISTIAN GRATALOUP* Universidade de Paris W

    No incio de qualquer Atlas, uma determinada prancha localiza todas as demais pranchas do volume. Trata-se de uma ferramenta tcnica, uma espcie de sumrio cartografado, ao qual, em geral, s se atribui uma ateno prtica. Entretanto, ela revela de forma crua uma srie de coisas: quais so os espaos retidos -e, portanto, por negao, quais so as partes do mundo negligenciadas, quais so os enquadramentos considerados pertinentes dos territrios colocados em cena - e assim, portanto, em funo do formato da obra, quais so as escalas consideradas pertinentes para a informao e a reflexo. Na continuidade da superficie terrestre so feitos cortes, recortam-se as unidades espaciais que se julga mais adequadas para analisar os territrios que interessam ao leitor do Atlas. De modo simktrico, aparentemente poderamos dizer que o sumrio de uma obra diacrnica prope uma periodizao mais ou menos explcita. Em todo caso, trata-se de um esforo intelectual, uma operao de transferncia do continuo espacial ou temporal para um conjunto de unidades discretas, descontnuas. Passar do homogneo ao heterogneo, do contnuo ao discreto, apresenta-se pois como uma coero necessria inteligibilidade-mas uma obrigao sobre a qual posteriormente no deixaremos de retomar, valorizando as ultrapassagens de limites assim traados, as continuidades. As linhas de descontinuidade, as fronteiras lineares tambm se tornam margens dotadas de uma certa espessura que, por sua vez, podem ser consideradas como espaos ou perodos dignos de considerao.

    Observemos que a prancha-sumrio de um Atlas raramente prope um quebra- cabeas de unidades conjuntas de mesma escala grfica, lado a lado, mas que

    - diversas das pranchas propostas se recortam elou se encaixam. O mesmo ocorre

    '. Christian Grataloup gegrafo, professor da Universidade Paris VI1-Denis Diderot e pesquisador na UMR 8504 Gtographie Citts. Artigo publicado sob o ttulo LLLes priodes de I'espace" na revista EspacesTemps n. 82-83,2003, p. 80-86. Gentilmente traduzido porTeresa Leon, com reviso tcnica de Rogtrio Haesbaert.

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  • CiEOgrafia-AnoV111-N. 16-2006 Christian Cirataloup

    com as periodizaes, que raramente se limitam a pavimentar o tempo sem imbricao, sem soluo de continuidade nem incluso. Em todos esses casos, passa-se; no sem que haja relao entre ambas, da escala no sentido cartogrfico, a expresso de uma mtrica, s inter-relaes entre nveis sociais.

    Em 1992eu havia escrito um texto intitulado "As regies do tempo". Tratava-se de contribuir, como gegrafo, para uma reflexo histrica sobre a periodizao (GRATALOUP, 199l), transpondo a reflexo da minha disciplina sobre a noo da regio para a reflexo sobre a noo de perodo. No se trata verdadeiramente, ou no se trata apenas, de tentar aqui a operao inversa, mas de esboar uma refle- xo sobre a descontinuidade geogrfica do tempo social e, desta forma, mostrar a interdependncia destes dois recortes.

    Os perodos so regies

    O que a Antiguidade? A priori um perodo, uma noo imaginada no Renascimento para designar o momento de referncia anterior aos tempos obscuros, idade logo qualificada como "mdia". Este modelo ciclico (civilizao, barbrie, retorno civilizao) uma perspectiva sempre eficaz num combate para modificar o presente.' Este artigo no tem como ambio retomar a crtica deste modelo aplicado histria europia; o obscurantismo medieval h muito tempo foi "iluminado". Tambm no se trata de discutir os limites temporais da Antigidade: aceitemo-los, ao menos provisoriamente, na sua acepo mais clssica, a do surgimento da escrita na queda do Imprio Romano do Ocidente (476, deposio do ltimo Imperador, Rmulo Augusto, por Odoacro). Qual ento a rea geogrfica antiga? AAntigiiidade dita "clssica", Roma e Grcia, no traz maiores problemas, pois continuamos s margens do Mure nostrum. A questo torna-se mais delicada quando nos indagamos se as civilizaes do Oriente Prximo esto includas na Antigidade. Geralmente a resposta afirmativa no mbito de um encadeamento gentico da Mesopotmia ao Egito, passando pelos Hebreus, da Fencia Grcia... Observemos que se trata igualmente de um deslocamento espacial, tambm monolinear, que parte do Crescente frtil para chegar at ns. A evidente subjetividade civilizacional contextualiza o fluxo dos limites: da aurora da Civilizao, processo nico, gnese do Ocidente, o fio condutor est traado. O itinerrio o de uma difuso, mas segundo um caminho nico, aquele que foi cartografado por uma viso evolucionista que s pode ser nica (GRATALOUP, 2000).

    Um bom exemplo nos tdado pela desconstruo/reconstru~oda histria italiana, operada pela Lega de1 Norte, onde o modelo se toma uma alternancia entre o bem (= o suposto federalismo, dos Celtas, das cidades-estado medievais) e o mal (= o centralismo, do imprio romano, de Napoleao e, sobretudo, do Ressurgimento) (AVANZA, 2003).

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    Os Perodos do Espao

    Apartir da, a utilizao do conceito de Antiguidade necessria e insuficiente. Sem outra grade de leitura implcita, para denominar um momento antigo discemido na evoluo longa de uma rea cultural, somos tentados a falar de Antigidade (chinesa, andina, negro-africana, indiana...). Mas isto pressupe uma conceitualizao subjacente do modelo de evoluo que no s no se adapta de forma alguma s diferentes especificidades das dinmicas das sociedades no europias, como tambm s funcionam verdadeiramente se "situarmos" os casos num eixo temporal terico2. correto o que o vocabulrio corrente veiculou durante um longo tempo, atravs de frmulas de avano ou de atraso, sem que o modelo realmente se esgotasse (exceto nos esquemas econmicos macro-temporais como o de Rostow, inaugurando a famosa "arrancada" [take-ofJ13).

    Existe portanto um outro uso da noo de Antigidade, longe do Mediterrneo: simplesmente o sincronismo natural. Por um processo de imanncia cronolgica, trazemos a histria mundial para a histria da gnese da Europa -o que bem mais sedutor, verdade, do que a idia de que teria sido a Europa que iniciou o Mundo, porm ulteriormente. Quando um fato pode ser colocado dentro dos limites do tempo terrestre correspondente aos limites da Antigidade (entre 3000 A.C. e 500 D.C., aproximadamente), mesmo que isso se passe na China ou na Amrica, tratamos de situ-lo dentro desse perodo. A questo do sincronismo frequentemente fascina; assim, Robert Bonnaud realizou no Atlas Historique dirigido por Pierre Vidal Naquet, uma pgina dupla bastante estranha, que se situa numa antiga tradio intelectual: no sculo V A.C.(se aceitarmos como universal tal enquadramento cronolgico), viveram, simultaneamente, Scrates, Buda, Confcio e, alguns anos mais tarde, Zoroastro (VIDAL-NAQUET e BERTIN, 1987:48-49)4. Da a pensar numa "reviravolta" da Histria, h um delicado salto intelectual. Seria necessrio supor a existncia de uma interao ideal entre os locais onde viveram esses personagens histricos; isso no totalmente absurdo, na medida em que o mundo antigo, do Mediterrneo s plancies setentrionais chinesas, era percorrido h milnios, pelas correntes de trocas. Entretanto, isso significa andar um pouco rpido demais em termos de sincronia, no levar em conta as distncias, tanto de comunicao como

    Por exemplo Pierre Chaunu (1969) adiantou que a China teria 2000 anos de atraso em relao ao Ocidente e que, portanto, no sbculo XVI estaria no perodo "helenfstico". 'Os modelos evolucionistas so frequentemente identificados pela expresso "em vias de desenvolvimento", "pas emergente "... (cf. Tiers-Monde:faim de thorie, Espace-Temps no 36, 1987) e subentendem as lgicas de recuperao cujos melhores exemplos nos so dados pelos planos sucessivos do FMI para os pases "em transio", tanto para lev8-10s a endividar-se, nos anos 70, como tarnbbm, posteriormente, para praticar a "estabilizao". 'A idtia de "perodo axial da histria humana" foi lanado por Lewis Munford e Karl Jaspers: ~ o b e r t Bonnaud retoma essa idia aqui e denomina o perlodo compreendido entre o final do stculo VI at o sbculo 111 A.C. como "As Luzes Mundiais".

  • GEOgrafio-AnoV111- N. 16-2006 Christian Grataloup

    de adaptao, de transformao em contextos societrios muito diversos. Mas a fascinao pode ir mais longe, uma vez que Bonnot incluiu outros acontecimentos nessa simultaneidade: tudo bem quanto ao segundo Isaas ou ao cdigo romano das Doze Tbuas, mas parece difcil integrar os Olmecas numa interao qualquer. Assim, s restam dois determinismos possveis: o velho e bom "determinismo geogrfico": as condies do meio natural, terrestre, at mesmo alm, produzem esses acontecimentos sociais -o que ningum se arriscaria a sustentar, nem mesmo , Jared Diamond (DIAMOND, 2000), ou isso estaria inscrito no programa gentico comum, uma vez que a difuso do homo sapiens particularmente na Amrica, suficientemente recente para que mutaes aleatrias no tenham modificado demais o programa. Evidentemente, tudo isso no muito srio5, mas fica implcito em vrias escolhas de colocao em ordem dos tempos antigos.

    Ento, onde est a Antigidade? Permanece sendo prudente restringir o alcance espacial desse recorte temporal ao contorno do Mediterrneo. Poderamos, com muita legitimidade, discutir os limites desse "contorno", mas isso nos levaria longe demais, e s discutiremos portanto os limites temporais habituais dos mapas da Antiguidade. Observemos que a questo constantemente tnincada por todos os tipos de escolhas de enquadrarnento dos mapas dos Atlas histricos: o mundo mediterrnico com uma extenso oriental que ia at os montes Zagros. Eu defenderia de boa vontade a hiptese de que o recorte de uma "Antiguidade" deriva simplesmente da herana do Imprio Romano: constitui uma imanncia temporal da sua durao espacial. Mas, sem chegar a esse ponto, pode-se considerar essa noo tanto como uma regio quanto como um perodo e o prprio nome como um topnimo; esta a razo pela qual tomei cuidado, quando no se tratava de um

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