QUASE ACASO

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Depois de tentar a vida na cidade grande, Reinaldo, de origem simples, volta para o interior e resolve cursar uma faculdade. Lá, apaixona-se por Vânia, uma garota misteriosa que arrebata por completo o coração do rapaz. Mas entre os segredos da garota está o fato de ela já ter um namorado. Desiludido, Reinaldo resolve desistir desse amor. Com o passar dos anos, torna-se um renomado Doutor em Educação, dedicando-se a ministrar palestras pelo mundo. Porém, o tempo e as transformações não foram suficientes para que se esquecesse de Vânia. O destino, no entanto, pode mudar a seu favor com a presença do mafioso Giuseppe Fiorentini, que possui um inusitado plano para ajudar o amigo. Quase Acaso é uma narrativa imprevisível e apresenta reflexões sobre como as escolhas, as surpresas e a sorte são determinantes para a trajetória de cada um.

Text of QUASE ACASO

  • QUASE ACASO

  • Andr Tressoldi

    S o P a u l o 2012

    COLEO NOVOS TALENTOS DA LITERATURA BRASILEIRA

    QUASE ACASO

  • 9PARTE I

    Reinaldo Fiorentini tinha vinte anos de idade e resolveu sair de casa. Cansou de ter a vida de sempre. Seus pais pobres e de pouca instruo nunca o incentivaram aos estudos. Para eles, bastava que Reinaldo trabalhasse e fosse honesto. O resto resto, diziam. Porm Reinaldo, jovem sonhador, esperava sair daquela vida de algum jeito. Em razo do histrico de pouco estudo da famlia, nunca se influenciou por qualquer curso superior e tentou da maneira mais difcil: trabalhando honestamente.

    Precisava sair dali. Era-lhe penoso permanecer em um lugar com poucas oportunidades e sem incentivo moral. Ser que se daria bem na cidade grande? Queria provar a todos que podia alguma coisa. Imaginava-se voltando anos mais tarde montado num baita conversvel vermelho. Queria ver a cara embasbacada do pessoalmodopasmado.

    Ento partiu para a cidade grande e l comeou a trabalhar como garom. No tinha nenhuma qualificao. A garons de restaurantes meia-boca no se exigia experincia. Morava com uma tia aposentada, no apartamento dela e de favor. Porm, a situao gradualmente comeou a lhe irritar. O servio exte-nuante, os clientes, as piadinhas e a correria da cidade grande fizeram Reinaldo pensar em voltar para sua pequena cidade. O principal motivo de pensar em voltar era o holerite. Ah, hole-rite miservel... Pouco mais de um salrio mnimo. O coitado economizava, nem saa e procurava fugir das garotas para no

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    gastar. Ademais, Reinaldo, orgulhoso, achava uma vergonha um homem no ter dinheiro para se divertir com uma garota e, por isso, tempos atrs decidido no namorar ningum. s vezes sentia necessidade de sexo, mas sua razo era mais forte, se virava sozinho.

    Reinaldo comeou a entender que trabalhar de empre-gado, a no ser por poucas excees, era uma furada, no levava a nada. Se economizasse a vida inteira, talvez pudesse comprar uma casa e um carro, isso depois de estar quase aposentado. Ainda pode-se dizer que Reinaldo era pavio curto e no gostava de receber ordens porque achava que ordens so para crianas. Adultos no precisam de ordens, pois j sabem o que fazer, dizia ele.

    Apesar de suas parcas instrues, tinha uma inteligncia razoavelmente admirvel, seu raciocnio era rpido e possua um vis filosfico. Era por demais questionador do sistema, isso lhe era nato, talvez por essa razo fosse to difcil aceitar a mediocridade. Para ele, isso no tinha sentido. Imagine, viver dentro de um sistema que no havia sido projetado por ele e ainda por cima em situao de pobreza. Nunca iria se con-formar, era o fim para ele. Porassim lutava com muito afinco; pensava que no mundo capitalista s pode ser livre quem tem capital, como de fato .

    Ficou dois anos na cidade grande. Nesse tempo, comeou a ler cartazes de propostas de emprego, notou que para quem possusse pouco estudo s sobravam ocupaes de baixa remu-nerao. Ele at no se incomodava com servios braais, o que o incomodava eram os salrios baixos.

    Um colega de servio sempre comentava que deveriam estudar, pois era o jeito de sair daquela merda de vida.

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    No aguento mais trabalhar aqui e no sobrar nada. Acho que vou voltar pro interior disse Reinaldo enquanto limpava o restaurante aps o trmino do perodo de almoo. O moo passava um pano molhado com lcool nas mesas enquanto seu colega varria o cho e as cozinheiras lavavam os pratos que emi-tiam um som misturado de gua e plac plac sem cessar. Essa cena havia se tornado um eterno dj-vu durante dois anos j.

    Semana que vem vou me matricular em um curso tc-nico de eletricista, dentro de dois anos saio daqui disse Diego.

    Mas isso tem futuro? O Z Peteca, morador l da vila, tira mais de cinco

    salrios s com biquinhos, e olha que o servio dele no to bom assim.

    Esse dilogo fez a cabea de Reinaldo girar em pensamen-tos: Puxa! Cinco salrios mnimos! Isso sim seria um salrio digno. Acho que t na hora de mudar o disco. Vou comear pesquisar sobre os estudos.

    Assim, o moo pesquisou todos os tipos de estudo que podia, perguntou para pessoas, frequentou bibliotecas... Sem alternativa, descobriu que precisava enfrentar um tal de ves-tibular. At tentou o vestibular para Direito, mas nem passou perto, ficou deveras decepcionado com o resultado. Foi quando pensou em fazer cursinho.

    J no cursinho, ficou conhecendo um pouco melhor a vida de acadmico. Fez um teste vocacional e constatou que sua vocao era trabalhar com Letras e Literatura. Sentia-se atrado por romances e gostava de estudar as regras da lngua portu-guesa. A aula de portugus sempre era a de que mais gostava. No sabia ao certo o motivo, talvez fosse o som das palavras; o certo que gostava das letras.

  • 12

    Durante o cursinho, analisava qual seria o melhor local para prestar o vestibular. Avaliando sua situao, concluiu que uma instituio no interior seria a melhor opo, pois havia uma Universidade Estadual a cerca de cinquenta quilmetros de sua cidade. Se eu passar no vestibular na capital, terei que ficar aqui e na casa da tia por, no mnimo, mais quatro anos. Isso no legal. Por outro lado, se eu for embora, posso ficar na casa dos meus pais. S vou ter de pagar o nibus; moradia e comida terei. J estou cansado mesmo da correria deste lugar.

    No final do segundo semestre do ano, Reinaldo contou me:

    Me, vou voltar. Graas a Deus, meu filho, voc nem deveria ter ido

    embora disse dona Gema. Mas agora vai ser diferente me. Eu vou pra estu-

    dar. Vou fazer o vestibular no final do ano. Vestibular de Letras-Literatura.

    Para dona Gema no importava se Reinaldo iria estudar ou no; o que importava que estaria perto de novo. A notcia foi recebida com alegria por seu Darci, o pai de Reinaldo, afinal no era fcil viver longe do nico filho. Darci era pedreiro e sempre teve a ajuda de Reinaldo at o dia em que ele resol-veu ir embora. Agora poderia voltar vida de sempre. S que Reinaldo no estava pensando em trabalhar com o pai.

    O qu? Voc no vai mais me ajudar? perguntou seu Darci. Com minhas economias, vou ficar estudando at passar

    no vestibular e, depois que passar, vou fazer estgio em alguma escola. Assim d pra ganhar um troquinho at que me forme.

    T bom, filho, j que quer assim... respondeu seu Darci resignado. No era bem o que ele queria, mas estava contente

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    de ter o filho de volta. Os benefcios do estudo no eram claros na opinio de seu Darci. Afinal de contas, ele tinha conseguido tudo com as prprias mos. Eram pobres, mas tinham casa pr-pria e ele nunca deixava faltar nada. O mais importante, nunca pediu nada a ningum, motivo de grande orgulho na concep-o de Darci.

    Eles moravam no meio de uma quadra, em uma casa azul com umbrais de janela brancos. Havia uma varanda e um pequeno quintal com algumas flores. A decorao da casa era bem retr, mas bem cuidada e de bom gosto: mveis antigos bem lustrados, cortinas e vrios quadros. O quarto de Reinaldo era mdio. Havia uma cama, um guarda-roupa, uma cmoda, alguns enfeites e, agora, uma escrivaninha e os livros de estudo.

    Quando ele voltou, faltava um ms para o vestibular de dezembro. Reinaldo se trancava dentro de casa, passava o dia todo estudando e parava s para comer. Quando estava muito cansado, saa para dar uma voltinha na quadra, ou assistia a um filme, e logo retornava aos estudos. Conforme verificou, o vestibular de Letras-Literatura estava com uma concorrncia de dez pessoas para cada vaga.

    Finalmente chegou o domingo do vestibular, Reinaldo acordou cedo e foi para o local onde faria os exames. Mentalizava o seguinte: Vou ficar calmo, vou ficar calmo. Estudei bastante. Comeo a fazer as questes mais fceis; as difceis deixo por ltimo. No posso gastar mais de trs minutos por questo.

    S que, ao chegar ao local, a calma de Reinaldo foi embora, dando lugar ansiedade ou medo disfarado. Ele olhava as pes-soas ao redor e as imaginava to inteligentes, alis, mais inteli-gentes do que ele. Era impossvel no fazer essas comparaes, pareciam ser instintivas. Os seus pensamentos tambm o levaram

  • 14

    a questionar: Por que vestibular? E as pessoas que no passam vo ter de se resignar somente porque no alcanaram nota nessas provas que no provam nada?. Por fim, adentrou no local de realizao das provas e aguardou o momento determinado para o incio do teste. O vestibular durou parte da manh e da tarde. Ao final, estava com a impresso de ter ido muito mal. O resultado saiu trinta dias depois. Ficou contente ao ver seu nome na lista dos aprovados, mas no comemorou porque pensava naqueles que no passaram. Em sua opinio, o vestibular era injusto, um sistema de catracas, no qual algum sempre fica de fora.

    As aulas comeariam depois do Carnaval, ento ele foi pro-videnciar o que precisava, inclusive o transporte. Iria se locomo-ver at a faculdade todas as noites com o nibus da Associao dos Estudantes, que era mantido pela mensalidade dos alunos. Era um nibus velho, que vrias vezes apresentava problemas.

    Todas as noites, Reinaldo empenhava-se nas aulas. Ele no era muito de conversa, estava levando a faculdade a srio mesmo, ao contrrio de alguns alunos e professores. Nos inter-valos entre as aulas, sempre ia biblioteca, ficava analisando os ttulos e pegava alguns romances para ler.

    Quase no se misturava com os outros alunos, seu negcio era estudar, no entrou na faculdade por brincadeira. Logo na pri-meira semana de aula, elaborou alguns currculos e os entregou a vrias escolas de sua cidade. Foi na Escola Nascente do Sol que ele conseguiu o estgio; tinha levado o currculo para a diretora Cssia.

    Tudo bem, diretora? Meu nome Reinaldo. Estou cur-sando Letras-Literatura, e gostaria de fazer estgio aqui na escola. Se a senhora puder me ajudar, ficaria muito grato.