TEATRO DE RUA, RECEP‡ƒO E IDENTIDADES: OIGAL, TCH

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  • TEATRO DE RUA, RECEPO E IDENTIDADES: OIGAL, TCH!

    Tas Ferreira*

    Universidade Federal de Pelotas UFPel taisferreirars@yahoo.com.br

    RESUMO: Este artigo trata de questes relativas recepo do teatro de rua a partir de experincias da Cooperativa de Artistas Teatrais Oigal (RS). Para tanto, discutem-se tcnicas e estratgias de encenao voltadas recepo desenvolvidas nos espetculos de teatro de rua do grupo. O debate volta-se ressignificao efetuada pela Oigal na criao de seus personagens gaudrios, construndo uma nova recepo da identidade gacha. PALAVRAS-CHAVE: Teatro de rua Recepo Identidade ABSTRACT: This paper focuses in the street theaters reception at the performances of Cooperativa de Artistas Teatrais Oigal (RS). Discuss techniques and performing strategies for the audience developed in theirs street theater plays, and the ressignification made by Oigal in their gaudrios characters building a re-construction of the gaucho identity. KEYWORDS: Street theater Reception Identity

    * Mestre em Educao pela UFRGS. Professora do curso de Licenciatura em Teatro da UFPel.

  • Fnix Revista de Histria e Estudos Culturais Setembro/ Outubro/ Novembro/ Dezembro de 2010 Vol. 7 Ano VII n 3

    ISSN: 1807-6971 Disponvel em: www.revistafenix.pro.br

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    Oigal-tch, eh-cu!

    Se aprochegue pra escutar Oigal-tch, eh-cu!

    Mais um causo eu vou contar...

    (Refro da msica Causo Farrapo, do CD Ramilonga, 1997, de Vitor Ramil)

    Os versos escolhidos para dar abertura a estes escritos encerram em si algumas

    das temticas que sero aqui debatidas: o convite ao espectador/ouvinte feito por um

    ator/narrador, ou seja, a recepo de artefatos artsticos, e, obviamente, a exclamao

    vocativa que d nome ao grupo que ser objeto e sujeito do estudo aqui apresentado.

    Portanto, julgo pertinente explanar o significado do termo oigal, a partir de versos de

    uma das canes mais conhecidas do repertrio da msica popular brasileira

    contempornea concebida no estado do Rio Grande do Sul. Pois, ainda que o cantor,

    compositor e escritor Vitor Ramil postule sua Esttica do Frio como um ethos prprio

    do artista gacho, assistimos com os espetculos da Cooperativa de Artistas Teatrais

    Oigal (re)configurao de uma outra identidade gacha, esta muito menos bravia e

    refinada, muito mais ligada explorao dos esteretipos do tipo gacho, que forneceria

    construo de uma linguagem de teatro de rua elementos cmicos e empticos para

    com as platias.

    Gostaria de esclarecer que no aprofundarei neste artigo temas to em voga

    como o gauchismo e o movimento tradicionalista gacho (MTG). Estes j esto sendo

    devidamente esmiuados e estudados por importantes historiadores e tericos da

    cultura. Assim, cumpre notar que aqui farei referncia ao uso que o grupo de teatro do

    qual estou tratando faz desta possvel identidade gaudria, tratada como um recurso

    da linguagem de teatro de rua e as conseqncias disto na construo da recepo destes

    artefatos teatrais.

    Assim, voltando explicao/traduo necessria do termo oigal, pode-se

    definir que oigal um modo de evocar algum tpico dos pampas gachos/gauchos

    (fronteirios entre Brasil, Uruguai e Argentina), cumprimentar e chamar para si a

    ateno, algo prximo de: Escute-me! Oua o que vou contar!. E este o convite que

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    faz o grupo teatral Oigal ao ocupar ruas, praas, avenidas e espaos pblicos com seus

    espetculos teatrais. O mesmo convite que o velho gacho contador de causos faz ao

    ouvinte nos versos de Ramil, que no por acaso intitula a cano de Causo Farrapo.

    Neste ano de 2009 a Oigal Cooperativa de Artistas Teatrais completa 10 anos

    de existncia. Parece lugar comum introduzir um artigo com esta afirmao, mas nela

    esto contidos alguns dos motivos que aqui devem ser expostos a fim de justificar a

    escolha deste grupo e, conseqentemente, de seus trabalhos e da relao destes com o

    pblico, como objeto deste estudo.

    O grupo, fundado por seis artistas gachos no ano de 1999, nasceu da vontade

    de construo de um coletivo que desenvolvesse pesquisa, produo e disseminao da

    arte teatral, mais especificamente, do teatro de rua. Segundo Hamilton Leite, em

    entrevista concedida a mim, pareceu ao coletivo que o teatro de rua seria a forma mais

    vivel, econmica e politicamente, de colocar na roda seu trabalho.

    Todos os artistas do grupo vinham de experincias passadas com a linguagem

    do teatro de rua, tanto no Brasil como no exterior, e julgaram que dar continuidade a

    estas vivncias, tendo em vista um formato de produo coletivo e cooperativado

    poderia ser profcuo tanto ao desenvolvimento dos artistas, como construo de

    mecanismos de subsistncia atravs do teatro, j que se tratavam todos de profissionais

    da rea, com formao superior (todos freqentaram o Departamento de Arte Dramtica

    da UFRGS) e alguns anos de carreira profissional.

    A estria aconteceu com o espetculo Deus e o Diabo na Terra de Misria,

    adaptao do tradicional conto platino O Ferreiro e o Diabo, em que elementos como a

    msica ao vivo, o uso de recursos como pernas de pau e a transposio do universo

    gacho para a comicidade direta prpria do teatro popular j estavam presentes. Tive a

    oportunidade de assistir estria deste espetculo e a proximidade do personagem

    Misria, que viria a fazer parte de outro espetculo da Oigal, com os zanni da

    commedia dellarte j estava posta.

    Nestes 10 anos de existncia, a Oigal constituiu-se como um dos principais

    grupos do estado do RS, tanto pela importncia e qualidade dos artefatos que cria como

    pelo sistema de produo cultural que empreende de forma efetiva, atravs da criao e

    venda de espetculos, da circulao destes por praticamente todo territrio nacional, da

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    pesquisa desenvolvida acerca de uma linguagem prpria do teatro de rua e,

    principalmente, aquilo que caracteriza o grupo e tornou-o muito conhecido, e

    reconhecido: sua investigao acerca dos referenciais da cultura gaudria. A trupe j

    participou das principais mostras e festivais de teatro do pas, bem como j atuou em

    todas as regies do Brasil1.

    As montagens de cinco espetculos de teatro de rua e trs para sala

    aconteceram graas ao recebimento de prmios e incentivos financeiros de mecanismos

    como Prmio Miriam Muniz, Caravana Funarte, FUMPROARTE (Fundo de Cultura do

    Municpio de Porto Alegre) e leis de incentivo fiscal estadual e federal (estas ltimas

    somente para espetculos de sala). No entanto, deve-se mencionar que, alm da

    eficincia demonstrada em aprovar projetos de montagem, produo e circulao,

    comercialmente a Oigal uma empresa cultural promissora, que mantm atualmente

    em seu elenco doze profissionais do teatro, alm de j ter realizado parcerias criativas

    com grande parte dos principais diretores, cengrafos, figurinistas, compositores,

    musicistas, bonequeiros, dramaturgos e atores que atuam no campo teatral porto-

    alegrense.

    Esta breve explanao sobre o histrico do grupo serve para introduzir as duas

    questes que nortearo o debate a ser desenvolvido a seguir: a recepo do teatro de rua

    e a identidade gacha apresentada pela Oigal em seus espetculos. Por si s, cada um

    destes assuntos j suscitaria longas discusses, no entanto, ao analisar tanto a produo,

    como as falas dos integrantes do grupo e ao acompanhar apresentaes em observao

    participante junto aos espectadores, percebi que estas duas questes, ou temticas de

    debate, esto intrinsecamente ligadas no caso da Oigal. A produo, a circulao e a

    recepo (consumo) dos espetculos de teatro de rua da Oigal esto diretamente

    relacionadas apresentao, pardia, satirizao e uso de elementos do que aqui

    denomino cultura gaudria, ou seja, os elementos e traos referenciais da figura tpica

    do estado do RS, o gacho, homem livre que vive nos pampas, que tem no cavalo seu

    melhor amigo, que historicamente apresenta carter brutalizado por seu passado de

    lutas, guerras e batalhas, mas que em linhas de fuga determinadas apresenta-se nobre,

    valoroso e at sentimental.

    1 Para dados mais detalhados sobre o grupo, sua trajetria, os espetculos e os atores, consultar:

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    A RECEPO NO TEATRO DE RUA: ESPECTADORES NMADES E SEM-

    TETO

    Se pensarmos em nossa herana teatral, podemos citar inmeros momentos em

    que o espectador de teatro foi espectador em espaos abertos, nas ruas, feiras e praas.

    Se a hiptese de que o teatro ocidental deriva dos rituais gregos em homenagem ao deus

    Dionsio pertinente, temos a rua como palco. Se as bacantes seguidoras de Dionsio

    sobem aos montes e realizam seus rituais em bosques, os coreutas ditirmbicos efetuam

    seus cantos, danas e evolues pelas ruas da plis ateniense, assistidos pelos

    transeuntes. Assim, se h espectadores, e estes esto nas ruas, acompanham a passagem

    sem lugar pr-defini