Uma Casa Azul na Colina Zenilda Ferreira Rezende

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  • Uma Casa Azul na Colina

    Zenilda Ferreira Rezende

  • Romance

    Uma histria envolvente e apaixonante do incio ao fim. Uma Casa Azul na Colina, de Zenilda Ferreira Rezende, apresenta uma narrativa que oscila entre a realidade e o sonho, marcada por um tnue fio divisrio. medida que os fatos se desenrolam, imprevisveis e surpreendentes, o invisvel e a materialidade se interpenetram e revelam um mundo insuspeitado. Sobressai em Uma Casa Azul na Colina o sentido de atualidade da famlia, uma instituio a ser preservada a partir dos pequenos eventos do dia-a-dia, nas atitudes de cada integrante na relao com o prximo e nas palavras ditas muitas vezes de forma impensada. Zenilda Ferreira Rezende nos proporciona, em que pese a simplicidade com que desvela a histria, uma profunda e inesquecvel lio de vida.

    ***

    A vida se desenrola para cada um de ns, dia aps dia, maneira de um riacho, procurando caminhos, contornando obstculos, rumo a um destino ignorado. Paralelamente aos acontecimentos, aparentemente triviais e inconsequentes, subjaz a realidade espiritual, que to poucos ainda conseguem perceber. Para esses, muitas vezes, tudo no passa de mera realidade onrica. Uma Casa Azul na Colina, de Zenilda Ferreira Rezende, transforma o simples ato da leitura, ao longo de uma narrativa que se desenvolve com palavras simples e frases diretas, num mergulho gradativo em um universo aparentemente sombrio. Aos poucos, os cenrios se definem e as personagens desempenham seus papis em dilogos intrigantes. Os mistrios da vida esclarecem-se em segredos transparentes percepo daqueles que ultrapassam o vu que se interpe no limiar dos mundos invisvel e material; ento, de uma forma natural, as coisas comeam a fazer sentido e se descobre o quanto necessrio saber viver e conviver com o prximo.

    ***

    " Quer dizer que o problema mais doloroso que voc j enfrentou vai ficar em segundo plano? Esta uma das maravilhas desta colina. No consigo me fixar e nem me desesperar pela situao de minha filha desde que aqui cheguei. Parece que estou anestesiada contra tragdias existenciais. Isto me abre a mente e me faz perceber melhor o resto do mundo minha volta. Desconfio que isto tem algo a ver com o ch que a dona desta casa nos serve. No vou mais beb-lo. Percebo que minha sensibilidade est comeando a querer funcionar novamente, principalmente quando estou aqui. J sinto irritabilidade e tenho que me controlar para que a ansiedade no se aposse de mim. Gostaria de ouvir logo as suas explicaes porque no sei por quanto tempo poderei permanecer neste lugar, independentemente da volta do Emanuel com meu marido." (Trecho da Obra)

  • Uma Casa Azul na Colina

    A estrada seguia rio acima. Era tardinha, quase noite e meu marido dirigia a mais de 100 Km por hora. Fosse algum tempo atrs eu certamente estaria aflita, reclamando e pedindo para que ele diminusse a velocidade, embora naquele momento a estrada estivesse quase deserta. Porm, ultimamente eu no estava me importando mesmo com nada. Ia sentada ao lado dele, mas na verdade estava bem longe dali. Eu pensava em Vnia. Ela era ainda to pequenina! Apenas trs anos de vida e precisava ficar sozinha naquele hospital grande e triste, doente e longe de mim. Quando Srgio se virava para mim, tinha tanta tristeza em seu olhar, que disfarava em direo janela, ficando a observar aquela paisagem to igual, que parecia um cenrio se deslocando de l para c, de c para l. At trs anos antes nossa vida tinha sido to diferente! Uma famlia ativa, alegre, muito feliz. Isto graas ao respeito e ao carinho que nos unia, aliados alegria sempre presente em Valria e Elisabeth, nossas filhas mais velhas, j com oito e nove anos na poca em que Vnia nasceu. Eu no estava muito animada com a ideia de ter um novo beb, mas o Srgio desejava tanto ser pai de um menino, que resolvemos fazer uma ltima tentativa. E se vier uma outra garotinha? perguntei-lhe um dia enquanto fazamos planos para o novo membro na famlia que estava prestes a chegar. Tudo bem, disse ele. Afinal ns temos condies de nos permitir o luxo de cuidar de mais de uma criana. Alm de qu, sempre existe a possibilidade de nascer um garoto. Se isto acontecer, pode estar certa de que irei festejar durante um ms inteirinho. Quer dizer que se for outra menina, nada de comemorao? perguntei fingindo estar muito zangada. No nada disso, Helena. Voc sabe muito bem que eu no tenho nada contra mulheres. Muito pelo contrrio, adoro as trs que tenho em casa, e se por acaso chegar mais uma, vejo apenas um problema: o trabalho que terei em manter em seus devidos lugares os gavies da vida. Mas, pela diferena de idade entre ela e as irms, quando chegar a hora, estarei bem preparado para lidar com os espertinhos. Mas vai am-la tambm. Promete? Infelizmente para voc e as meninas, tero mesmo que me dividir. Eu j amo este beb independentemente de ser menino ou menina. A maioria das mes imagina que s elas tm o privilgio de poder amar um filho antes dele nascer. Isto no verdade. Amei antes de conhecer a Valria e a Elisabeth, e tambm me sinto apaixonado por este ou esta que est para chegar. Este dilogo que tivemos pouco antes de eu dar luz me deixou imensamente feliz. Mesmo assim, eu estava torcendo muito por um menino. J estava no oitavo ms de gravidez e as duas mais velhas sentiam-se eufricas e preocupadas, s que a opinio das duas era bem diversa da minha.

  • Tinham cimes do beb que estava para vir, e desejavam ver nascer uma outra menina. Fiquei sabendo disso ao ouvir, sem querer, um final de conversa entre as duas: Papai pensa que seria bom ter um menino em casa mas isto no verdade, dizia Valria. Eu detesto quando Marquinhos vem aqui. Ele fica o tempo todo rindo das nossas brincadeiras. E como gosta de arreliar! Outro dia ele chegou disfarando e puxou os meus cabelos. At chorei de raiva. sim, continuou Elisabeth. Lembra aquele dia que ele me chamou de boba, s porque eu estava cobrindo a Andria? Ele falou que boneca no sente frio e ficou rindo que nem um bobo. No sabe brincar de faz-de-conta. No vamos ter um irmo. Nosso beb ser uma menina muito linda e boazinha. Consegui conter o riso e me afastei devagarinho antes delas notarem minha presena, para evitar constrangimentos. No dia seguinte, ao comentar este assunto com minha cunhada, ns duas rimos demais. Marquinhos meu sobrinho e realmente adorava atormentar as meninas. Recordando, estas coisas me pareciam to distantes! Fazia muito tempo que eu j no prestava ateno nas meninas. Pensando nisso senti uma pontinha de remorso, que sufoquei imediatamente, indo me fixar novamente em Vnia. Minha pequena e querida filhinha. Era nela que eu precisava pensar sempre, at que um milagre acontecesse e ela voltasse para casa, linda e sadia. Porque ela s tinha a mim para rezar por sua sade. Para am-la tanto, que mesmo distncia ela pudesse sentir a fora deste amor que iria faz-la reagir e lutar por sua vida que na opinio dos mdicos estava por um fio. Por qu, meu Deus? Srgio jamais me deu ouvidos quando eu falei que a criana estava muito lenta em seu desenvolvimento. Talvez se tivssemos comeado um tratamento logo aps seu nascimento, a doena poderia ter sido estacionada e seria possvel conseguir a cura. Os mdicos me garantiam que no. Diziam que ela havia nascido com um grave e irreversvel problema cardaco e de forma alguma teria sobrevivido a uma operao. Nem conseguiam entender como ela pde ter vivido normalmente sem maiores problemas, at completar dois anos. De acordo com a gravidade da doena, era de se esperar que ela tivesse morrido logo nos primeiros meses de vida. No entanto, a doena s comeou a se manifestar seriamente a partir dos dois anos de idade. Agora, j estava h um ano em intenso sofrimento, magrrima e abatida, mas, vivendo ainda. Apesar de sentir todo seu padecer, em minhas preces, jamais tive a coragem de pedir para que este sofrimento fosse suprimido pela morte. Eu queria minha filha. Eu a amava e achava que se nasceu era porque tinha direito vida. Infelizmente tudo o que eu podia fazer era rezar e sofrer com ela. Claro que todos os familiares e amigos sentiam-se compadecidos, mas a dor era apenas minha e de Vnia. Eu tinha o direito de pensar desta maneira, porque nunca poderia esquecer o desapontamento de Srgio ao vir nos visitar logo aps o parto.

  • . Foi mesmo outra menina. Mas tudo bem. Ela muito bonitinha. Parece com voc, disse ele assim que chegou. Desculpe no ter conseguido lhe dar um varo, como era o seu desejo, respondi muito magoada. Mas acho que ele nem notou, porque continuou: Voc operou mesmo, no foi? Operei, respondi irritada. No tnhamos combinado que seria assim? Me perdoe por ser apenas uma mulher ao invs de uma mquina que poderia ser programada sem erros. Sua boba, falou Srgio, corando muito ao notar finalmente o quanto tinha me magoado. Estou muito feliz. Amo vocs e o mais importante que tudo correu muito bem e as duas esto em plena forma. Dois dias depois eu estava tentando amamentar o beb que parecia nunca sentir fome, quando meu marido chegou. Ele ficou nos observando e ao perceber que meu empenho no estava dando nenhum resultado, disse, muito nervoso: Pare de forar, Helena! Afinal este no o nosso primeiro beb e voc sabe muito bem que se no aceita o alimento porque no est precisando dele. O pediatra nos explicou isto muito claramente. Olhei espantada para ele e nada respondi de to ofendida que me senti, pelo seu modo brusco e nada gentil ao me dirigir a palavra. Isto porque eu no via nenhum motivo para tanta exasperao. Vim para lev-las para casa, continuou ele meio sem jeito. Mas o Dr. Afonso aconselhou que fiquem por mais um ou dois dias. Tudo bem? Apenas levantei os ombros, sem nenhuma vontade de responder. Srgio beijou a criana e a mim tambm, e em seguida foi embora. Depois que ele saiu, eu chorei. Ns s tivemos alta do hospital quatro dias depois. Dr. Afonso d