O Batismo de Crianças e a Doutrina Bíblica do Batismo

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O Batismo de Criancas e a Doutrina Biblica do Batismo

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  • O Batismo de Crianas e a Doutrina Bblica do Batismo

    por

    Oscar Cullmann

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    Em que medida Jesus instituiu o batismo cristo? No basta para responder a esta pergunta, remeter a Mt. 28.19, pois esta frase do ressuscitado no faz mais que dar a ordem de batizar, sem explicar qual o vnculo interior entre o batismo, a pessoa e a obra de Cristo. Por outro lado, o judasmo no ignorava a prtica do batismo, j que submetia os proslitos pagos a ele. Joo Batista, pondo os judeus na mesma altura dos proslitos, chamava-os ao batismo de arrependimento, por causa da vinda iminente do messias. O prprio ato de batizar no foi, pois, institudo por Jesus. Sob este aspecto, o batismo se distingue do outro sacramento cristo, a eucaristia, cuja forma particular se remonta a Cristo. Porm o vnculo entre Cristo e o batismo parece mais tnue, todavia, se se leva em conta que Jesus no batizou, pelo menos durante seu ministrio pblico[1]. A situao a seguinte: Joo Batista batizou, relacionando seu batismo com o dos proslitos; Jesus no batizou, porm depois de sua morte, a Igreja primitiva reconheceu a prtica do batismo. Foi simplesmente uma volta ao batismo de Joo? Ou antes, no se deve distinguir o batismo conferido pelos apstolos em nome de Jesus, do batismo de Joo, que, todavia, foi celebrado j com vistas ao perdo dos pecados? Se isto certo, que h ento de novo no batismo da Igreja nascente, e em que medida se remonta este a Jesus, que todavia no o praticou nem o "instituiu" sob sua forma exterior?

    1. O fundamento do batismo: a morte e ressurreio de Jesus Cristo. Joo Batista, em sua pregao, teve o cuidado em definir a diferena entre seu prprio batismo e o de Cristo: "Eu vos batizo com gua para a converso... porm Ele vos batizar com o Esprito Santo e com fogo" (Mt. 3.11; Lc. 3.16). O fogo faz sem dvida aluso ao juzo final, o batismo que vem com Cristo no somente um batismo de preparao, provisrio, mas antes definitivo, e far o batizado entrar diretamente no reino de Deus. Porm no intervalo no qual o cristianismo primitivo tem conscincia de encontrar-se, entre a ressurreio de Cristo e seu retomo, o que h de essencial no batismo conferido pelo Messias o dom do Esprito Santo, ddiva escatolgica que se realiza a partir de agora (aparcnjjj, arrsabwjn). Isso explica porque Marcos pode limitar-se a mencionar o batismo do Esprito (1.8).Segundo a pregao de Joo Batista, o dom do Esprito Santo constitui ento o elemento novo no batismo cristo; com efeito, nem o batismo judeu dos proslitos, nem seu prprio batismo conferiam o Esprito. Este dom est ligado pessoa e a obra de Cristo. Pois bem, como a efuso do Esprito Santo sobre "toda carne" (At. 2.17) pressupe, no desenrolar da histria da salvao, a morte e a ressurreio de Cristo, e como esta efuso teve lugar no pentecostes, o batismo cristo

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  • no possvel seno depois deste acontecimento, que fez da Igreja o lugar do Esprito Santo. Por esta razo o livro de Atos menciona os primeiros batismos cristos somente depois da histria de pentecostes. Igualmente Pedro, depois de ter explicado o milagre da efuso do Esprito, termina seu discurso com esta exortao: "Convertei-vos e cada um de vs seja batizado em nome de Jesus" (2.38). Isto , que, o que foi passado de maneira coletiva no dia de pentecostes, vai repetir-se no que se sucede individualmente no sacramento do dom do Esprito.Porm, por que este dom do Esprito se apresenta ento na Igreja sob a forma de um batismo? Por que fica ligado ao banho de imerso "para o arrependimento", que os judeus praticavam com os proslitos e que Joo Batista havia reconhecido? Que relao h entre o Esprito Santo e a gua, a abluo pela gua ou a imerso na gua? Compreende-se, com efeito, que o batismo dos proslitos ou o de Joo se apresentam como um ato de abluo, posto que o efeito deste sacramento o perdo dos pecados. Como a gua comumente purifica fisicamente o corpo, assim a gua do batismo deve tirar os pecados da alma. Surpreende-nos que a realizao plena do batismo de Joo no batismo do Esprito do Messias, deva, todavia, tomar a forma de um banho por imerso. Seria de esperar antes que o sacramento cristo revestisse uma forma exterior diferente. Porm necessrio perguntar-se se o batismo de Joo, com sua significao precisa (Lc. 3.3: bajptsma metanoiaijav eiv ajfesin ajmartiwn), foi considerado como verdadeiramente prescrito depois da apario do novo sacramento cristo que confere o Esprito Santo. necessrio perguntarmos se o Esprito Santo no teria nada a ver com o perdo dos pecados. Pois bem, no livro de Atos se diz: "Que cada um de vs seja batizado em nome de Jesus, para obter a remisso dos pecados e recebereis o dom do Esprito Santo" (2.38). Os cristos tm todavia necessidade, tambm na Igreja, do perdo dos pecados; no suficiente que o dom do Esprito lhes seja concedido. O batismo para a remisso dos pecados no por tanto abolido. Seria inconcebvel, por demais para os cristos, s o dom do Esprito Santo sem a remisso dos pecados. Por isso o sacramento cristo, preparado e anunciado pelo batismo de Joo, se estabeleceu em um batismo, um banho por imerso, ainda que o dom sacramental do Esprito Santo no tenha, primeira vista, nenhuma relao com a forma deste ato. Todavia, o vnculo que, no batismo cristo une o perdo dos pecados e o dom do Esprito real. No se pode dizer que imerso para o perdo vem ajuntar-se simplesmente um elemento novo: o dom do Esprito. O elemento novo, em relao ao batismo judeu, no diz respeito somente ao dom do Esprito, seno tambm, em relao estreita com este dom, ao perdo dos pecados. Segundo o livro de Atos, a Igreja sentiu, num determinado momento, a necessidade de ajuntar ao ato exterior da imerso, um ato especial correspondente transmisso do Esprito Santo: a imposio das mos. Pois parecia normal que s duas significaes do batismo correspondessem igualmente dois atos exteriores: o banho por imerso para o perdo dos pecados e a imposio das mos paro o dom do Esprito. Sem dvida, isto faria o batismo correr o perigo de perder sua unidade e de cindir-se em dois sacramentos distintos. Se a Igreja pde finalmente evitar esta ciso, porque a ligao entre os efeitos do batismo cristo era fortemente sentida. A narrao que Atos faz de certos batismos prova, no obstante, que tal ciso foi quase estabelecida no uso da Igreja. Releia-se a narrao de Felipe em Samaria! Quando os samaritanos "creram na pregao de Felipe que lhes anunciava o reino de

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  • Deus e o nome de Jesus Cristo, foram batizados homens e mulheres" (8.12). Nos versculos 14 s., se refere que os apstolos de Jerusalm, tendo recebido esta noticia, enviaram a Samaria Pedro e Joo para que orassem, a fim de que os que tivessem sido batizados com gua recebessem tambm o Esprito, "pois este no havia, todavia, descido sobre nenhum deles. Haviam sido batizados somente em nome do Senhor Jesus. Ento Pedro e Joo lhes impuseram as mos e receberam o Esprito Santo". O batismo com gua para a remisso dos pecados e a imposio das mos para a comunicao do Esprito, esto aqui separados no tempo e administrado por pessoas diferentes.Em Atos 10.44, encontra-se um fato anlogo, com a diferena de que a ordem cronolgica inversa. A Cornlio e aos seus, tendo recebido o Esprito Santo (sem imposio das mos), Pedro os batizou com gua. necessrio mencionar finalmente Atos 19.1-7: Paulo pergunta aos discpulos de feso se tinham recebido o Esprito Santo quando creram. "Estes responderam: nem sequer ouvimos que exista o Esprito Santo. Ele perguntou de novo: que batismo tendes recebido? Responderam: o batismo de Joo". So, ento, batizados com gua em nome do Senhor Jesus, e "depois que Paulo lhes imps as mos, o Esprito Santo desceu sobre eles e se puseram a falar em lnguas e a profetizar". Deste modo se acentuava o perigo de ver, na primeira conseqncia do batismo, somente uma sobrevivncia de tempos passados, sem ligao interna com o dom do Esprito prometido por Cristo. pois, muito possvel que quando Joo recorda que no se nasce s pela gua, seno pela gua e pelo Esprito (3.3-5), quis reagir contra esta ciso do batismo cristo em dois atos diferentes[2]. Ademais, os textos judaico-cristos citados nas Pseudo-Clementinas provam que no comeo do sculo II, existia efetivamente uma seita judaica crist para a qual o batismo havia descido ao nvel de um rito judaico.O problema das relaes entre a gua do batismo e o sacramento do Esprito preocupou, durante muito tempo, Igreja antiga[3]. Tertuliano, por exemplo, em seu tratado sobre o batismo[4], trata de resolver o problema estabelecendo uma relao essencial entre o Esprito e a gua. Remete-nos para isto a Gn 1.1 s., onde se diz que no princpio "o Esprito de Deus se movia sobre a face das guas". Estima que desde sempre o Esprito esteve ligado com a gua e, por conseguinte, o prprio batismo do Esprito no pode prescindir da gua.Esta soluo no pde, todavia, sustentar-se para definir adequadamente a relao entre o perdo dos pecados, o dom do Esprito e o batismo pela gua. A explicao deve ser buscada, como veremos mais abaixo, no prprio batismo de Jesus, interpretado teologicamente por Paulo no captulo 6 de sua Epstola aos Romanos. Veremos tambm, que no se pode considerar o batismo cristo, entendido tambm como batismo para a remisso dos pecados, como uma simples repetio de Joo. , pelo contrrio, seu cumprimento, tomado possvel somente pela obra expiatria de Cristo. Por demais, esta obra une estreitamente os efeitos do batismo. Isso o que evidencia este clebre captulo, no qual Paulo mostra que, por nosso batismo participamos na morte e na ressurreio de Cristo[5]. Cada um participa a desse perdo dos pecados, conquistado por Jesus de uma vez