Assunto Encerrado - Italo Calvino

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Text of Assunto Encerrado - Italo Calvino

  • ITALO CALVINO

    ASSUNTO ENCERRADODiscursos sobre literatura e sociedade

    Traduo:ROBERTA BARNI

  • Obras do autor publicadas pela Companhia das Letras

    Os amores difceisO baro nas rvoresO caminho de San GiovanniO castelo dos destinos cruzadosO cavaleiro inexistenteAs cidades invisveisAs cosmicmicasO dia de um escrutinadorEremita em ParisFbulas italianasUm general na bibliotecaMarcovaldo ou As estaes na cidadeOs nossos antepassadosPalomarPerde quem fica zangado primeiroPor que ler os clssicosSe um viajante numa noite de invernoSeis propostas para o prximo milnio Lies americanasSob o sol-jaguarTodas as cosmicmicasA trilha dos ninhos de aranhaO visconde partido ao meio

    Contos fantsticos do sculo XIX (org.)

  • SUMRIO

    ApresentaoO miolo do leoNatureza e histria no romanceO mar da objetividadeTrs correntes do romance italiano de hojePavese: ser e fazerDilogo de dois escritores em criseA belle poque inesperadaOs beatniks e o sistemaO desafio ao labirintoUma serenidade amargaA anttese operriaNo vou mais botar a boca no tromboneItaliano, uma lngua entre as outras lnguasA antilnguaVittorini: planejamento e literaturaFilosofia e literaturaDefinies de territrios: o cmicoPara quem se escreve? (A prateleira hipottica)Ciberntica e fantasmas (Notas sobre a narrativa como processo combinatrio)A relao com a LuaDuas entrevistas sobre cincia e literaturaPor uma literatura que pea mais (Vittorini e 68)A literatura como projeo do desejo (Para a Anatomia da crtica, de Northrop Frye)A mquina espasmdicaO mundo s avessasDefinies de territrios: o ertico (O sexo e o riso)Definies de territrios: o fantsticoO romance como espetculoPara Fourier 1. A sociedade amorosaPara Fourier 2. O ordenador dos desejosPara Fourier 3. Despedida. A utopia pulviscularO extremismoO olhar do arquelogoOs noivos: o romance das relaes de foraUm projeto de pblicoOs deuses da cidadeUsos polticos certos e errados da literaturaA pena em primeira pessoa (Para os desenhos de Saul Steinberg)

  • O charuto de GrouchoOs palavresNotas sobre a linguagem polticaOs nveis da realidade em literatura

  • APRESENTAO

    Neste volume reuni escritos que contm declaraes de potica, planejamentos de rotas aseguir, balanos crticos, organizaes de conjunto do passado e presente e futuro, assim comoos fui elaborando e guardando nos ltimos 25 anos. O pendor recorrente a formular programasgerais, o qual esses escritos testemunham, sempre teve o contrapeso da tendncia a esquecerlogo, a no voltar mais ao assunto. Portanto, podemos nos perguntar por que motivo euformulava os tais planos operacionais: no para mim, j que em meu trabalho pessoal deescritor quase nunca punha em prtica o que tinha pregado; no para os outros, j que nuncative vocao para mestre, promotor ou agregador. Diria que meu objetivo talvez fosseestabelecer algumas linhas gerais que servissem de pressuposto a meu trabalho e ao dosoutros; postular uma cultura como contexto em que situar as obras ainda a escrever.

    A ambio juvenil de que parti foi a do projeto de construo de uma nova literatura quepor sua vez servisse para a construo de uma nova sociedade. As correes e transformaesque aquelas expectativas sofreram vo aparecer da sucesso dos textos aqui reunidos.Certamente o mundo que hoje est diante de meus olhos no poderia ser mais oposto imagemque aquelas boas intenes construtivas projetavam para o futuro. A sociedade manifesta-secomo colapso, como desmoronamento, como gangrena (ou, em seus aspectos menoscatastrficos, como vida do dia a dia); e a literatura sobrevive dispersa nas fissuras e nasdesconjunes, como conscincia de que nenhuma runa ser to definitiva a ponto de excluiroutras.

    O personagem que toma a palavra neste livro (e que, em parte, se identifica com aquele euprprio representado em outras sries de escritos e de atos, em parte dele se descola) entraem cena nos anos 50, procurando apossar-se de uma caracterizao pessoal no papel quenaquela poca dominava o cenrio: intelectual engajado. Acompanhando seus movimentosno palco, observaremos como nele, visivelmente, embora sem viradas bruscas, a identificaocom o papel comea a falhar aos poucos, com a dissoluo da pretenso de interpretar e guiarum processo histrico. Nem por isso desanima sua aplicao em procurar compreender eindicar e compor, mas aos poucos vai tomando mais relevncia um aspecto que, observando-se bem, estava ali desde o incio: o senso do complicado e do mltiplo e do relativo e dofacetado que determina uma postura de sistemtica perplexidade.

    colocando-se como experincia finalizada que a sequncia destas pginas comea a tomarforma, a tornar-se uma histria que tem seu sentido no desenho de conjunto. Sendo assim,posso agora reunir estes ensaios em volume, ou seja, posso aceitar rel-los e lev-los a serrelidos. Para fix-los em seu lugar no tempo e no espao. Para dar-lhes aquele afastamentonecessrio para que possam ser observados na justa luz e perspectiva. Para reencontrar ali oandamento das transformaes subjetivas e objetivas, e das continuidades. Para compreendero ponto em que estou. Para pr um ponto-final. Para encerrar o assunto.

    Maro de 1980

  • O MIOLO DO LEO

    Conferncia lida em Florena no dia 17 de fevereirode 1955, para a seo florentina do Pen Club, aconvite de Anna Banti; foi repetida a seguir emdiversas cidades italianas. Publicada na revistaParagone, n 66, junho de 1955.

    1 . Fala-se com certa frequncia de um problema do personagem em nossa literatura dehoje: personagem positivo ou negativo, novo ou velho. uma discusso que, se para algunspode parecer ociosa, sempre ser cara, ao contrrio, aos que no separam seus interessesliterrios de toda a complexa rede de relaes que liga entre si os diversos interesseshumanos. Porque, entre as possibilidades que se abrem para a literatura agir na histria, esta a mais sua, talvez a nica a no ser ilusria: compreender para que tipo de homem ela,histria, com seu labor mltiplo, contraditrio, est preparando o campo de batalha, e ditar-lhe a sensibilidade, o impulso moral, o peso da palavra, a maneira como ele, homem, deverolhar sua volta no mundo; aquelas coisas, enfim, que somente a poesia e no, porexemplo, a filosofia ou a poltica pode ensinar.

    Claro que esse tipo de homem que uma obra ou toda uma poca literria pressupe,subentende, ou melhor, prope, inventa, pode at no ser um daqueles personagens ntegrosque so prerrogativa do romance ou do teatro, mas vivos tambm, ou talvez sobretudo; aquelapresena moral, aquele protagonista no menos identificado que figura nas poesias lricas ounas prosas dos moralistas, aquele verdadeiro protagonista que tambm em tantos romancistas,comeando por Manzoni ou pelo Verga maior, no se identifica com nenhum dos personagens.

    Portanto, antes de nos perguntarmos se haveria personagens caractersticos da literaturaitaliana de hoje e quais seriam eles , temos de comear a nos perguntar se haveria, e qualseria, um protagonista verdadeiro, um tipo de homem que ela, mesmo que implicitamente,pressuponha ou proponha.

    2. A dificuldade para dar uma resposta a essa pergunta a mesma que deparamos toda vezque colocamos, para a literatura italiana de hoje, uma questo geral, um julgamento sobre suasituao, uma previso quanto linha de seu desenvolvimento. Esse perodo literrio a quemuitos apem a marca imprecisa do neorrealismo e que, seja l como for, caracteriza-se poruma retomada de interesses num sentido realista e por um predomnio em termos dequantidade e ressonncia da narrativa sobre os outros meios de expresso, parece recusar-se a deixar-se simbolizar e resumir numa fisionomia moral tpica, num carter humanoespecfico.

    E no verdade que a tendncia a expressar-se em caracterizaes precisas de homens emulheres tenha sido sobretudo do Oitocentos romntico, com a aura do heri ou os altos ebaixos do filho do sculo, na Itlia, aps os ltimos rebentos da estirpe romntica, como o

  • homem dannunziano ou o homem crepuscular, a histria literria recusa-se a deixar-se lernesse sentido. Porque justamente a literatura do passado recentssimo, a hermtica, comopoucas antes to desprovida de pessoas, uma literatura de paisagens, de objetos, de estados denimo sombrios, uma literatura da ausncia, como foi dito, at mesmo ela propunha umaimagem de homem bem caracterizada (ainda que caracterizada negativamente, para nosremetermos a um verso famoso) e ligada (embora negativamente) aos tempos. O homemhermtico, o homem que no se deixa subjugar por outras razes a no ser pelas de seusmnimos sobressaltos previsveis at a medula, que descobre sua verdade sempre margemdo que entulha o cenrio, esse homem sovina de sentimentos e sensaes, mas sem outraconcretude alm deles, esse homem sem pontos por onde possa ser pego, protegido por umacarapaa spera e siliciosa ou escorregadia como uma enguia, esse homem que pareciaconstrudo propositadamente para atravessar tempos infaustos e realidades nocompartilhadas com um mnimo de contaminao e a um s tempo com um mnimo de risco,foi precisamente um caso tpico de proposta da literatura para resolver os problemas dasrelaes do homem com o seu tempo, numa oposio histria que o juzo de hoje nos revelaser mais complexa do que parecia, ambivalente.

    3. Temos de dizer que o homem hermtico o ltimo personagem verdadeiro que aliteratura italiana soube expressar? Claro que no penaremos para descobrir sua presena nocentro das experincias dos mestres da nova narrativa, precisamente nas obras por meio dasquais se deu uma sada do clima hermtico rumo s novas poticas realistas.

    O abstrato furor do Silvestro de Conversa na Siclia [Conversazione in Sicilia] o dohomem que sente a tragdia da histria mas s pode se mover margem dela, participar delaapenas liricamente; e decerto no mais integrado na realidade histrica o Ene Dois de Oshomens e os outros, por mais que maneje bombas e frequente reunies.

    E Pavese, que em polmica anti-hermtica escreve poe