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(ditos & feitos de Alberto Hoisel) Antônio Lopes Editora da UESC

Solo de trombone: ditos e feitos de Alberto Hoisel

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  • (ditos & feitos de Alberto Hoisel)

    Antnio Lopes

    Editora da UESC

  • SOLO DE TROMBONE(ditos & feitos

    de Alberto Hoisel)

  • Do autor: BueraremaFalando Para o Mundo(crnicas)

    Letra Impressa/1999

  • Antnio Lopes

    SOLO DE TROMBONE(ditos & feitos

    de Alberto Hoisel)

    Agora Editoria Grfica Ltda.

  • Lopes, Antnio (1941 - )

    Solo de Trombone(ditos & feitos de Alberto Hoisel)

    Antnio Lopes - Itabuna:Agora Editoria Grfica Ltda, 2000202 pginas===========================================

    Projeto grfico:Arnold CoelhoCapa: Arnold Coelho (tratamento digital de foto no Bar de Barral, pertencente ao acervo de Raymundo Pacheco S Barretto)

    Reviso:Sandra Sberveglieri/Beto Hoisel============================================

    A reproduo em livro ou qualquer outro meio depende de autorizao expressa do autor.Copirraite de Antnio Lopes

    [email protected] T, 149 - Loteamento Vitria Loup Soares

    45600-000/Itabuna,BA.

  • Para

    Cyro de MattosHlio PlvoraJorge de Souza Araujo eMarcos Santarrita,mestres de prosa e verso que levam mais longe e mais alto o nome destas terras do cacau que so todas, no final das contas, terras de Ilhus.

  • Alberto Hoisel, em foto de estdio distribuda aos eleitores, quando candidato a vereador, em 1958

  • NDICEApresentao 9

    Prlogo 15I - Rimas 17

    Indefesos coraes 19Faculdade de... deveres 23

    Personagem de si mesmo (I) 29Analfabeto trilnge 31

    Um bar chamado Barral 37Hoisel por Hoisel 39

    Personagem de si mesmo (II) 48De fruta-de-conde a vassoura-de-bruxa

    50Inimigo da monotonia 55

    Rejeio na Cooperativa 59Um homem de direita 62

    Ananias, nanias, nanias... 64Nervos de ao 70

    Pronta resposta 72Hora da vingana 76

    Filho da... Catalunha! 79A Justia lavada 85

    Pai que dorme no mar de lama 87Roberto foi-se sem martelo 93

    Nostalgia do crime 99Um Dorea naufragou 101

    Homem do asfalto 105Vaca deleitada 108

    Anatomia do rdio 112Batalha de Itarar 114

    Vida de vira-latas 119Panorama visto da ponte (e do porto)

    121Amigos, amigos... 125

    Metros de... amizade 127O primeiro foca 135

    Caso de polcia 137Os anos de chumbo 143

    Ilhus no corao 147II - Canto 151Confisso 153

    Mugiquiaba 154Teus olhos 155

    A uma noiva 156Romance 157

    Post-Mortem 158Soneto 159

    Reconciliao 160Nostalgia 161Lamento 162

    Recompensa 163Predestinao 164

    Meus versos 165Fatalidade 166

    Meu poema de amor 167III - Casos 173

    Histria de caa em que entra pesca 175Dourado Lino Cardoso 176

    Tatu no anzol Alciato de Carvalho 176O homem do muro 178

    Piaava irrigada 180Produto da ditadura 180

    Doar melhor do que vender 182Dinheiro emprestado 183

    O boi comunista 184O homem que no bebia gua 186

    Gotas de fanatismo 188De como no virar bruxa 189

    IV - Orao 191Eplogo 193

    Agradecimentos 196Obras consultadas 197Crditos das fotos 198ndice onomstico 199

    Sobre o autor 201

  • Os Hoisel em 1960 (acima) e 1997. Na mesma posio, a partir da esquerda, de p: Gustavo, Tnia, Dinah, Solange, Maria Lcia, Gracinha e Fernando; sentados: Alberto Jr., D. Ivany, Alberto Hoisel e Conceio (na primeira foto, aparecem, na parede, os smbolos do Integralismo)

  • A voz da resistncia

    Margarida Cordeiro Fahel*

    Antnio Lopes, este jornalista nascido nas terras nordestinas do Paje de Flores, Pernambuco, foi, entretanto, crescido e plasmado nas terras de Macuco, a Buerarema de hoje, e fortificado pelas histrias de Ilhus, onde fez o antigo curso cientfico, depois concludo no famoso Colgio Estadual da Bahia. De Pernambuco para a Bahia, o jornalista, graas a Deus, vai de Buerarema Falando Para o Mundo. Agora, empresta a sua pena/dgito para a voz de Alberto Hoisel, carioca de nascimento e ilheense por circunstncia, como escreve em seu captulo inicial de Solo de Trombone (ditos & feitos de Alberto Hoisel). A imagem retida no ttulo de Antnio Lopes semanticamente perfeita. Hoisel, o epigramista (*) que se faz tema do livro de Lopes, a voz de trombone (bota a boca no trombone, j diz a expresso popularmente conhecida).

    O jornalista Antnio Lopes, sabem todos que o lem e, especialmente, os que recentemente leram Buerarema Falando Para o Mundo, profundamente ligado a essas terras do cacau, s suas gentes, s suas histrias. Com esprito crtico por ndole e por dever de ofcio, terras, gentes e fatos curiosos tornam-se matria para suas anlises e consideraes, em que o discurso jornalstico recheado de nuances de humor, que o aproximam, por vezes, da pardia e da stira. Talvez essa tendncia palavra cortante, s vezes ambgua (saudavelmente ambgua, como a palavra em literatura), justifique o exaustivo trabalho que agora toma corpo em Solo de Trombone. Assim, debruando-se sobre pesquisas por meses a fio, consegue trazer publicao muitas das trovas e sovas de Alberto Hoisel, publicadas e ditas, por muitos anos, no tradicional Dirio da Tarde, nas rodas de bar e esquinas de Ilhus.

    Antnio Lopes estrutura Solo de Trombone em captulos intitulados, mas no numerados,

    (*) Conquanto os dicionrios mais usados da lngua portuguesa (Caudas-Aulette, Aurlio, Michaelis) registrem o verbete epigramatista como pessoa que faz epigramas, utilizamos ao longo deste livro a forma epigramista, no dicionarizada. Optamos por um termo de uso corrente, largamente empregado pelos bons autores (a exemplo da signatria deste artigo), embora, ao que parece, no reconhecido pelos dicionaristas. Mais do que mero prazer na transgresso, a escolha pretende deixar clara nossa preferncia entre dois extremos da linguagem: a esttica e a dinmica.

  • que se distinguem por um intrito, graficamente diferenciado do que aqui chamamos de corpo do captulo. Nesses intritos, o jornalista, misto de cronista do cotidiano, vai, sem qualquer compromisso cronolgico (o que lhe confere dinamismo e agradvel subjetividade ao texto), traando o perfil do epigramista e contextualizando-o no cenrio scio-poltico e cultural de Ilhus e da Bahia.

    Nesse momento, o jornalista/cronista deixa entrever laivos do memorialista que parece investir e que j se antev em Buerarema Falando Para o Mundo. No corpo dos captulos, tambm sempre intitulados, Antnio Lopes vai apreciando os epigramas, buscando interpret-los e explicar-lhes a origem, as causas, os desdobramentos, as circunstncias.

    Ento, o seu trabalho se faz especialmente interessante, pois, para tais interpretaes, fatos, pessoas e situaes de Ilhus, da Regio e do Estado so retomadas. E, a, o trabalho ganha duplo flego: voz ferina de Z... ferino ou de Bolinete (pseudnimos de Hoisel), juntam-se fontes documentais do autor deste Solo de Trombone, conferindo ao texto nova dimenso. Ao sabor acre da palavra do epigramista alia-se o comentrio crtico do jornalista, s vezes tambm sutilmente mordaz, mas objetivo em termos de vivncia de contextualizao de uma sociologia local, de fatos histricos determinados.

    A leitura de Solo de Trombone configura, a partir da, duas possibilidades de deleite, de fruio do texto: uma primeira leitura, principalmente para os filhos e moradores dessas terras, despertar para a reviso de figuras e momentos regionais, de indiscutvel importncia, ou de saborosa memria; uma segunda, implcita especialmente nos epigramas transcritos, estimular o interessado pelo gnero, quer do ponto de vista da tcnica literria, quanto do ponto de vista de todos aqueles que enxergam o fenmeno potico em sua contemporaneidade e

  • desejam entender o sentido do humor na poesia. O epigramista Alberto Hoisel insere-se numa vertente da poesia humorstica. Isso provoca polmica sob todos os ngulos que se queira considerar. Em primeiro lugar, considera-se que o lugar de onde se move a stira , claramente, um topos negativo, como diz Alfredo Bosi no seu O Ser e o Tempo na Poesia. Ela demolidora e, como tal, significa uma recusa aos costumes, linguagem e aos modos de pensar correntes. Satirizar significa ter uma conscincia alerta; preciso ser revolucionrio, sem deixar de ser saudosista, e preciso no ter pena das mazelas do presente. O satrico, assim como o parodista, precisa estar mergulhado na prpria cultura para ser autntico. Fala dela e para ela. Precisa, portanto, o poeta satrico, saber dos riscos em que incorre. Sua stira, assim como sua pardia, diz claramente do seu partido, dos seus amigos, dos seus inimigos, e diz, tambm, de suas prprias fragilidades. A stira aparece sempre em momentos em que a vida do homem civilizado parece apequenar-se e quando toda uma formao moral ou literria entra em crise. Eis o lugar e o momento da stira.

    A histria da poesia tem marcantes momentos e nomes expoentes da stira. Hoje, entretanto, mais que isso, a opo por esse gnero, assim como a pardia, constitui uma alternncia de resistncia da poesia. Nesse atribulado mundo capitalista, nessa incessante corrida da tecnologia, pergunta-se se haver espao para a poesia. Ela, a doadora de sentidos, corre riscos nesses sculos de revolues industriais e tecnolgicas. Alguns falariam at na morte da fala potica. Ento, os poetas retomam o mito, o epos revolucionrio, a stira, a pardia, a utopia, a prpria metalinguagem como estratgias de resistncia. Resistem e insistem na misso maior da fala potica: um trabalho que se faz no tempo do corpo (som e imagem) e no tempo da conscincia, enquanto produz sentido e valor. E, assim, ergue-se o espao novo da stira aliada

  • prxis. indiscutvel que tambm as angstias e as dores da prxis geram poesia. Preferindo o ataque defesa, a stira abre espaos para as decises particulares e para a independncia.

    Dessa forma, abrindo seus prprios caminhos, a poesia vai negando e demolindo para reconstruir. E, ento, a negatividade da stira se torna a boa negatividade.

    Por certo, esta conscincia do papel da stira tenha seduzido o jornalista Antnio Lopes e o tenha movido discusso da obra do epigramista Hoisel. Nesses tempos em que no h mais lugar para o heri clssico ou para as canes de gesta, o heri satrico tem sua vez. A voz do heri de hoje, anti-heri, funciona como cido depurador. E, em assim sendo, a palavra do heri satrico, o prprio poeta, tornar-se-a uma literatura antiliterria. Mas essa antiliteratura literria, se quisermos aprofundar o jogo conceitual, que mostrar o avesso dos sistemas, das pessoas, das instituies. a palavra no oficial. Hegel, falando do humor, diz que essa atividade dissocia e decompe, por meio de achados espirituosos e de expresses inesperadas, tudo o que procura objetivar-se e revestir uma forma concreta e estvel. Assim, tira-se ao contedo objetivo toda a sua independncia, e consegue-se ao mesmo tempo abolir a estvel coerncia de forma adequada prpria coisa; a representao passa a ser um jogo com os objetos, uma deformao dos sujeitos, um vaivm e cruzamento de idias e atitudes nas quais o artista exprime o menosprezo que tem pelo objeto e por si mesmo.

    Os versos satricos de Hoisel a esto, portanto, expostos por Antnio Lopes. O jornalista tentou e conseguiu emoldur-los: a Ilhus de ontem, de hoje; a Bahia de ontem e de agora: nossas instituies, nossas autoridades, nossos erros e acertos. Por vezes, muitas, o epigramista foi at proftico (outra grande funo da poesia); em outras, atravs de saborosos jogos verbais e nuances semnticas primorosas, eivadas de intertextualizaes, inscreve e

  • registra o cotidiano nem sempre herico da provncia.Figuras, fatos, lugares, em alto e baixo relevo,

    misturam-se concepo grfica e o cenrio se completa com recortes de jornais e fotos da poca. O jornalista/cronista no se isenta. Deixa clara a sua simpatia pelo epigramista, compactua com sua irreverncia, com seu esprito livre, sua nsia por justia, por honradez. Perdoa-lhe os equvocos e louva-lhe os mritos, os princpios definidos. Ou seja, mostra o epigramista em sua grandeza e em sua pequenez humanas, mas, acima de tudo, louva-lhe a verve, o verso ora azedo, ora grosseiro, mas sempre lcido e destemido: Quando eu nasci minha sorte Lanada estava; sortudo, Eu nunca temi a morte... O que temo ficar mudo!

    foroso lembrar, ento, os versos do mais famoso poeta satrico baiano, Gregrio de Mattos Guerra, tambm ele irreverente e destinado:

    Se souberas falar, tambm falaras Tambm satirizaras, se souberas, E se foras Poeta, poetizaras.

    A ignorncia dos homens destas eras Sisudos faz ser uns, outros prudentes, Que a mudez canoniza bestas feras.

    Alberto Hoisel, o epigramista de Ilhus, tem sua voz aqui perpetuada em Solo de Trombone, de Antnio Lopes. E em sua voz, figuras, fatos, histrias. a funo da poesia, doadora de sentidos.

    * Professora titular de Literatura Brasileira do Departamento de Letras e Artes da

    Universidade Estadualde Santa Cruz (Uesc).

  • PRLOGO

    Era o Restaurante Sambur em 20 de setembro de 1960, noite...

    De repente, o recinto fica mais iluminado, com a entrada de um senhor de pele clara, mais gordo do que recomendava sua estatura, um tanto apressa-do, procurando algum que l no estava. Antes de sair to rapidamente quanto entrara, ainda teve tempo de recriminar, com ar bonacho, um pequeno grupo de funcionrios do Banco do Brasil, numa mesa prxima que eu me encontrava:

    - Vocs continuam os mesmos: saem do banco, vm pra banca...

    Uns bebedores ruidosos que falavam de poesia, com um deles tentando recitar um soneto, foram logo apelidados de esponjas flutuantes.

    E quando algum se referiu crise do cacau que j pairava sobre todos ns, ele, j porta da rua, aproveitou-se do novo mote:

    - O mal dessa regio que as pessoas no pensam, todo mundo age: Roberto Hage, Carlos Hage, Jorge Hage... - dito o que Alberto Weyll Hoisel (pois no era outro, seno ele) desapare-ceu dentro da noite ilheense, com uma risada...

    Sem que eu soubesse, este livro nasceu naquele momento.

    (A.L.)

  • 16 - Solo de Trombone

    Aquele grande crculo de matria plstica, colocado na cintura, gira, gira e torna a girar, bastando para tanto um bom gingado, o que as ilheenses bem sabem fazer. D gosto ver-se nas praias, nas avenidas, nas ruas e praas da cidade uma ilheense bamboleando (Dirio da Tarde , 4.mar.59)

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 17

    Crer sempre em tudo que digo tolice rematada:Sou dos que perdem o amigoMas no perdem uma piada!

    LivroRimas

    I

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 19

    INDEFESOSCORAES

    Quando 1960 nasceu, Ilhus era uma pacata cidade de 40 mil habitantes (em 1963, todo o municpio tinha 104.429, segundo o IBGE), com o comrcio dominado por grandes lojas (A Gacha, as Pernambucanas, as Arnaldo), empresrios pequenos e mdios, muitos srio-libaneses, as padarias Luso-Brasileira (esta, dos espanhis Albino Alvarez Pereira-Daniel Ventim) e Minerva fazendo o papel dos futuros supermercados ainda inexistentes. A Livraria Nacional era passagem obrigatria de dez entre dez interessados nos ltimos lanamentos, fosse literatura de verdade, fosse a ltima aventura do Pato Donald ou de

    Mandrake, o mgico. O centro da cidade (Marqus de Paranagu-

    -Pedro II-Rodolfo Vieira-Almirante Barroso) era territrio ocupado tambm pelo jornaleiro (s vezes poeta, filsofo, poltico e desenhista) Leo-ndio Sapa Veiga, que gostava de fazer discursos, e por Periquitinho (engraxate suave e pederasta agressivo) que cultivava o desagradvel hbito de atacar os rapazes incautos que lhe caam ao alcance dos braos fortes.

    O ensino formal contava com o Instituto Mu-nicipal de Educao (IME) e seus professores con-cursados; o Nossa Senhora da Piedade, dirigido por freiras ursulinas de descendncia francesa, reunia as meninas da classe mdia alta; o Centro de Educao lvaro Melo Vieira (Ceamev) for-mava os contadores, sendo o grupo fechado pela Escola Afonso de Carvalho e o Ginsio Diocesano D. Eduardo.

    A coqueluche era ir praia da Soares Lopes, olhar as pernas que emergiam dos mais, incen-

  • 20 - Solo de Trombone

    diando imaginaes com o recheio discretamente sugerido (ento, mais se sugeria do que se mos-trava), sorvete no Ponto Chic, e, noite alta, cu risonho, a OK Night Club, os muitos bares, as moas da ecolgica Rua do Dend (mais tarde, Arajo Pinho), da potica Rua do Sapo (atualmente com o estranho nome de Visconde de Ouro Preto), Praa Cairu, Carneiro da Rocha, Plnio Eloy e adjacncias, em oferta de tempos pr-aidticos. Mas havia, principalmente nos fins de semana, outras opes: tirar umas linhas (ou bater uma caixa) no porto, aquele vaivm na calada da Soares Lopes, a trocar olhares que mais eram doces flechadas em indefesos coraes adolescentes. Isso quando no se ia soire do Cine Ilhus, do Social ou do Vitria Palace, talvez danar de rosto colado no Clube Social da Cidade Nova ou nos Bancrios, mas isso j era programa reservado a poucos. mdia, restava o sereno, o olho comprido e ciu-mento a anotar quem danava com quem...

    O bar Maron, ainda sem a fama criada por Jorge Amado, que lhe recuperaria a marca Vesvio, era ponto obrigatrio, com sua cerveja gelada e seus quibes quentes, to famosos quanto caros.

    Andava-se em nibus da Cia. Viao Sul Bahiano S/A. (sic), s vezes de automvel importado. Gente de dinheiro fcil (ainda havia gente de dinheiro fcil) tinha direito Europa, saindo avionado pela Cruzeiro ou embarcado no Comandante Capela. A essas pessoas, o banho de civilizao parecia mais fcil do que um banho de mar na praia da frente, Pontal, onde s se chegava de lancha ou besouro, com srios inconvenientes. Dali, a p ou de carona em algum caminho ocasional, podia-se esticar at Olivena, visitar o Buraco do Padre, banhar-se no Vu da Noiva, namorar as caboclas, beber cachaa com guaran, dormir sob os coquei-ros e acordar beijado pelo sol e as ondas, tudo de

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 21

    graa, sem turistas para perguntar bobagens ou empresas pblicas para organizaro passeio. Mas este era programa reservado aos que, mesmo sem dinheiro, portavam imaginao e alguma poesia.

    A economia cacaueira, para variar, ia mal das pernas, sem que o velho Instituto de Cacau da Bahia, a jovem Ceplac ou a polmica Cooperativa Central fizessem seus gritos chegar aos ouvidos do governo. Apesar disso, comparando com os anos noventa, os produtores, mesmo com o Banco do Brasil nos cal-canhares, estavam no paraso e no sabiam.

    *Esse ambiente abriga um dos maiores epi-

    gramistas da Bahia, carioca de nascimento e ilheense por circunstncia, que se assina por extenso Alberto Weyll Hoisel, um que domina como poucos a difcil e antiga arte do verso cr-tico, maldizente, rimado com vidro modo. Sua produo aqui apresentada (muito pequena, se levarmos em conta o que se perdeu) foi recolhida de fontes orais e, quando em papel e letra de for-ma, do saudoso Dirio da Tarde, o mais longevo e importante peridico destas terras do cacau.

    No DT, a atividade de crtica, sarcasmo, hu-mor ou ironia de Alberto Hoisel se exerceu sob os pseudnimos de Z...ferino ou Bolinete (incidental-mente, Z... feliz e Z... ferro) nas sees Flashes & Flechas..., Trovas & Sovas, Bolas e... Balas, Das teras s... cestas!, Ridendo... e Trs Por Vez, em perodos diferentes. Mas no se pense que o pseu-dnimo escondia responsabilidade: alm de todos saberem de quem se tratava, a maior parte dos registros assinada mesmo por Alberto Hoisel, em carne, osso, voz e gesticulao, nos bares e nas ruas de Ilhus(*).

    FACULDADEDE... DEVERES

    (*) O autor recolheu epigramas no DT a partir de 1950, mas encontrou longos intervalos sem publicao, alm do que coleo (entregue Universidade Estadual de Santa Cruz - Uesc) faltam, pelo menos, oito anos.De toda forma, o jornal nunca foi seu principal interesse. A mesa do bar, sim, era seu palco; os amigos, seu auditrio.

  • 22 - Solo de Trombone

    Alberto Hoisel em rara visita a uma de suas propriedades agrcolas

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 23

    Autodidata de amplas e variadas leituras, Alberto Hoisel jamais se convenceu da neces-sidade de uma Faculdade de Direito em Ilhus, preferindo que se investisse na educao bsi-ca. Em 12 de fevereiro de 1960, quando a FDI ainda era um projeto acalentado pelo seu primo Henrique Cardoso, prefeito do municpio, ele escreveu: Melhor que, ao invs de patrocinar a fundao de uma Faculdade de Direito, essa dinmica e empreendedora administrao mu-nicipal realizasse a obra fascinante e magnfica da erradicao do analfabetismo em Ilhus.

    E atingiu fundo o Pas dos bacharis:

    Muito pouco proveitosoGastar-se tinta e papelNa indstria do bacharel,Que um produto gravoso. (*)

    No dia seguinte, voltou carga, repetindo a dose, em piada com o seu personagem:

    E ao fim da obra, ao prefeitoQuem no teceria um hino?A mim bastava um direito:Matricular Z...ferino!

    Instalada a FDI, embrio da Federao das Escolas Superiores de Ilhus e Itabuna (Fespi) e da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) em maro de 1961, o crtico, diante do fato consumado, no se deu por vencido.

    E exercita este interessante jogo de palavras:

    Faculdades de DireitoNs as temos vontade;

    (*) Diz-se que um produto gravoso quando tem custo de produo mais elevado do que seu preo de venda no mercado, ficando sujeito a medidas protecionistas do governo.

  • 24 - Solo de Trombone

    Por falta da de DeveresPerde o mundo as faculdades.

    Quando se formaram os treze bacharis de 1969 da FDI, ele fez uma brincadeira com o professor de Direito Wilson Rosa, mas o tipgrafo cochilou e onde estava escrito Wilson saiu Nelson (seo Ridendo..., em 17 de dezembro):

    O Nelson, triste, dizia:No coisa que se faa... Lanar-se num nico diaTreze colegas na praa!...

    A nossa reviso fez anteontem uma operao histrica: transformou um nosso advogado num almirante que se celebrizou menos pelas suas vitrias que pelas suas conquistas, escre-veu ele no dia 19:

    Foi o Nelson ou W.R.?Ao revisor eu no digo...Mas, por mais que W erreNo merece esse castigo...

    Nas comemoraes de aniversrio, em 1960, o Dirio da Tarde ganhou do seu cro-nista mais temido este simptico registro, em 5 de fevereiro, quando diz que O Dirio da Tarde completa seus 32 anos bem vividos e... sofridos, mostrando uma viso muito clara do compromisso social da Imprensa:

    Tanto tempo percorridoNum duro que s Deus sabe...Ao fim somente lhe cabe

    Cante com Walter Levita:

    ndio Quer Apito (Haroldo Lobo-Mlton de Oliveira)

    , , , , ndio quer apitoSe no der, pau vai comer(bis)

    L no bananal mulher de brancoLevou pra ndio colar esquisitondio viu presente mais bonito:Eu no quer colar, ndio quer apito.

    , , , , ndio quer apitoSe no der, pau vai comer(bis)

    (Carnaval de 1961)

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 25

    A paz do dever cumprido...

    Cauteloso, o velho DT s vezes retardava as publicaes, alegando evitar o sensacionalismo de outros jornais, o que certamente no agra-dava ao esprito bulioso, irrequieto e vibrante de Z... ferino.

    Em 23 de janeiro de 1969 ele publica um epigrama que nos deixa em dvida: ou havia democracia no DT ou a censura estava cochi-lando naquele dia. Para no dizerem que no falamos de... ns era o texto explicativo, uma citao de Geraldo Vandr:

    Com vocao vitalciaPara a imprensa sem alarde,At a prpria notciaNosso Dirio d... tarde! (1)

    A fundao da Academia de Letras de Ilhus cercada de informaes contraditrias, no que se refere aos participantes da primeira reunio. O que se sabe que tal encontro se deu na casa de Abel Pereira, principal incentivador da idia, e que aconteceu num sbado, 14 de maro de 1959. Fontes orais do conta de que a reunio teria sido feita na casa do professor Nelson Schaun, com a presena, dentre outros, de Cla-rncio Baracho, Nilo Cardoso Pinto e Francolino Neto, o que no confere com notcia publicada na tera-feira, dia 17 (2).

    Em 8 de janeiro de 1960, ele fez a primeira de uma srie de pilhrias com a instituio, tendo como alvo o livro Colheita, coletnea com cerca de 250 haicais do recm-eleito primeiro presi-dente da instituio, Abel Pereira:

    Com um s livro publicadoDe primorosa poesia...Melhor se a houvessem chamadoSimplesmente, aicai... demia.

    (1) O mesmo jornal ainda seria motivo de um chiste no publicado, mas muito conhecido em Ilhus nos anos sessenta: o de que aquele seria o Dirio dA Tarde, numa clara aluso s notcias giletadas do famoso matutino baiano.

    (2) Saiu no Dirio da Tarde de 17.3.59: s 17 horas de sbado ltimo, na residn-cia do Sr. Abel Pereira, o festejado poeta de Colhei-ta, foi fundada a Academia de Letras de Ilhus. sesso de instalao da nova entidade, que vai reunir em famlia os intelec-tuais da regio, compare-ceram os senhores bispo dom Caetano de Lima San-tos (sic), Wilde Lima, Halil Medauar, Nlson Schaun, Abel Perei ra, Oswaldo Ramos, Jos Cndido de Carvalho Filho, Leopoldo Monteiro, Sadala Maron e Plnio de Almeida (...).

  • 26 - Solo de Trombone

    As datas magnas da ALI so 14 de maro (fundao, aniversrio de Castro Alves, incio do ano acadmico) e 5 de novembro (aniversrio de Ruy Barbosa e encerramento das atividades anuais). Isto quer dizer que durante cerca de quatro meses a instituio no se manifesta de forma alguma.

    O que era visto como normal por muita gente, era motivo de impiedosa crtica de Z... ferino, que parecia prescrever para a Casa de Abel um regime de trabalho braal. Em de-zembro de 1968, ele vergastou os acadmicos com mais um Das teras... s cestas, publicado no dia 20, o Natal porta, quando dizia, em indisfarvel tom irnico, que A Academia de Letras de Ilhus, depois de um largo perodo de brilhantes realizaes, entrou em profundo... recesso:

    Se Academus fosse vivoE visse essa academia,Por um motivo emotivoAcademus morreria.

    Numa quadra publicada em 28 de janeiro de 1969, volta a reclamar dessa inatividade, para ele injustificvel, considerando que muitos dos integrantes do soligeu moravam no municpio e estavam disponveis para projetos culturais:

    Sem que se saiba os motivosO impossvel aconteceu:Os imortais esto vivosE a Academia... morreu!

    Nestes versos sem data, ele usa uma gria da moda para, outra vez, fustigar a ALI:

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    Sem fardes nem hierarquiaDe talhe (mas no de corte):Nessa nossa academiaOs imortais so... de morte!

    O aparelho da justia, secularmente acu-sado de no atender aos interesses da maioria da populao, no escapou ao veneno de Z... ferino.

    Neste torpedo publicado a 23 de maro de 1960, ele se mostra indignado com a impuni-dade permitida a Ronaldo Guilherme de Castro, o mais famoso playboy da poca, acusado da morte de Ada Cri, no Rio de Janeiro.

    O crtico comenta um editorial do Dirio da Tarde, deplorando as facilidades que a jus-tia, essa senhora de olhos vendados, com uma espada e uma balana nas mos, dera ao acusado:

    Sua balana um sucesso:Dois pesos, duas medidas...Pondo venda s escondidas,Sentenas a qualquer preo...

    PERSONAGEMDE SI MESMO (I)

  • 28 - Solo de Trombone

    A partir da esquerda, ladeando D. Maria rsula e seu Geraldo, Maria Luza, Iracy, Ivone, Ncia, Jacy, Ione e Ivany, as sete moas bonitas. Ao lado, duas vtimas de Alberto Hoisel: o poeta Abel Pereira (D) e o poltico Herval Soledade, tendo entre eles Jos Loureno e Jorge Calmon

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 29

    Talvez o humorista, satrico, bebedor de cerveja, sarcstico, crtico, poeta romntico, jornalista, cantor de peras em chuveiro e, acima de tudo, epigramista Alberto Hoisel no passe de uma in-veno do negociante, proprietrio rural, exporta-dor e poltico Alberto Hoisel. Ou o contrrio. Sem dar informaes precisas sobre suas origens, ele se diverte brincando de construir uma biografia cheia de variantes. Contada num dia, pode ser modificada no outro, sem nenhuma inteno de explicar, e muita de confundir.

    No se sabe, por exemplo, a data certa do seu nascimento. Ele a deu como sendo 8 de fevereiro de 1912, mas depois disse que sua idade fora diminuda no registro, para escapar ao servio militar. De outra feita, informou que teria sido aumentada, para conseguir trabalho. Descende de suos, de austracos, de um holands fugitivo, de judeus perseguidos? verdade que seu pai veio da Europa para o Rio de Janeiro, depois de ter-se diplomado em engenharia ferroviria em Nova York - como disse sua irm Ida - fixando residncia no Rio de Janeiro? Ento, como explicar que dos seus seis ou sete irmos somente ele fosse carioca? E por que estava a famlia inteira em Salvador, em 1914? E uma av que residiria em Ilhus em 1917, seria outra pista falsa? Sobre Alberto Hoisel, personagem de si mesmo, h muito mais perguntas do que respostas.

    Est provado que em 1800 chegou a Salvador, fugindo da Holanda, acusado de traio ptria, por ser partidrio de Napoleo, um certo Piet Weyll, arquiteto neoclssico (*). Mais tarde, conseguiu uma sesmaria nas margens do rio Almada, onde construiu um grande engenho de acar, vendido em 1810 a Pedro Cerqueira Lima.

    O pai de Alberto era o engenheiro ferrovirio austraco Ludwig Hoisel, que, morando no Rio de

    (*) O arquiteto Piet Weyll, ascendente direto de Alberto Hoisel, foi o introdutor da arquitetura neoclssica na Bahia - e talvez no Brasil - mas s uma de suas obras ainda permanece de p em Salvador. o pavilho antigo do Hospital Santa Isabel, construdo em 1829, que ainda pode ser admirado no Jardim de Nazar.

  • 30 - Solo de Trombone

    Janeiro, foi contratado para lanar na Bahia os trilhos pioneiros da ferrovia que mais tarde seria a Leste Brasileiro. Morreu quando Alberto tinha apenas seis anos de idade, e o pouco que se sabe sobre ele est no campo da curiosidade: era um notvel comedor de lingias, salsichas e salames (de cuja fabricao ele mesmo se encarregava), alm de tocar vrios instrumentos musicais. Ida contava que, menina, ouvia o pai tocando ctara ou piano. E s. Dele no restou nenhuma foto, nenhum documento.

    Ainda menino, Alberto veio residir com a me, D. Ins, a irm Ida e outros irmos, numa chcara do Cabula, em Salvador, no lugar onde depois foi construda a sede da Telebahia. Em novembro de 1999, ele ainda se lembrava - mais de 80 anos depois - da recepo na noite da chegada, mesa enorme, famlia reunida, os amigos presentes. Enfrentaram um prato tipicamente baiano, um vatap, que ele olhou com desconfiana, at ouvir da me do seu futuro grande amigo e parceiro de cervejadas Lino Cardoso um pode comer, Alber-tinho, no tem pimenta... Foi quando aquele projeto de crtico mostrou as unhas, ainda aos dois anos de idade:

    - No tem pimenta, mas tem borrada - re-trucou, recusando-se a jantar.

    Muitos anos depois, j estabelecido em Ilhus, muita pimenta e muita borrada tiveram de ser en-golidas, mas pelas vtimas de sua stira ferina, em que se tornou mestre...

    ANALFABETOTRILNGE

    Poucos anos antes de o governo Castelo Branco decretar o fim da Estrada de Ferro Ilhus-

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 31

    -Conquista (18 de fevereiro de 1960) saa na Trovas & Sovas que a ex-S.B.S.W.R. [The State of Bahia South Western Limited] ex-Estrada de Ferro de Ilhus, e quase ex-Estrada de Ferro, vai ter o seu nome mudado para Estrada de Ferro do Cacau (que os caminhes transportam...).

    Z... ferino denunciava o alto custo do trans-porte ferrovirio na regio e o estado terminal em que se encontrava a EFI:

    Sobre seus trilhos se arrastaNum progresso singular:J no pode transportarNem o dinheiro que gasta... (*)

    O venerando ICB, que seria morto e en-terrado por ACM, foi alvo de crticas, em dia incerto de 1969. A imprensa noticiou que o ex-presidente Elsio Nunes (que dirigira o rgo no governo Antnio Balbino), chamado pelas colunas sociais de o maior dos presidentes daquela autarquia, faria longa viagem de es-tudos pela Europa, sia e frica.

    Homem de parcos recursos intelectuais, o ex-presidente foi um bom incentivo pena do crtico:

    Aps to longo trajeto,O maior dos presidentesVai voltar analfabetoEm trs lnguas diferentes.

    Alberto Hoisel sempre se mostrou niilista quanto ao das chamadas instituies de defesa do cacau. Em 2 de fevereiro de 1960, numa alfinetada provavelmente na Cooperativa Central, dirigida pelo poderoso Ananias Drea, ele registra que associados de algumas organi-zaes de crdito regional queixam-se do fato

    (*) Na pgina 163, a histria do boi comunista, que ajudou a fechar a EFI, quando deu uma carreira num ministro da ditadura de 64.

  • 32 - Solo de Trombone

    destas distriburem apenas o dividendo mnimo permitido por lei:

    que no esto entendendoEsta sbia operao:Subtrai-se o dividendoPra som-lo ... diviso!

    Comeo de 1960, no faltavam entidades para defender a cacauicultura, algumas delas sem qualquer finalidade real ou importncia prtica. Z... Ferino, no DT de 11 de fevereiro daquele ano, no perdoa o ICB, pai de tais entidades. E festeja o fim de uma delas, dizendo que certas associaes de classe (das classes ditas conversadoras)(*) vivem em completo abstracionismo e que uma delas mantida pelo Instituto (a maior dessas abstraes), que lhe paga os aluguis e... os telegramas:

    Laborando em tanto erro,Afinal j se finou:De classe s teve o enterroQue o Instituto pagou...

    Em outubro de 1961, dia 3, percebe-se a indignao do colunista contra as taxas abu-sivas sobre os produtores de cacau, dizendo que alm de pleitear a taxa absurda de 3% ad valorem sobre o cacau exportado, pretende o ICB abocanhar o saldo dos gios resultantes da diferena do dlar-cacau:

    Se no gio passa a moE no age o fazendeiroEste Instituto matreiroVai-lhe ao ltimo tosto.

    (*) O trocadilho com conservadoras intencional.

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 33

    O mesmo ICB seria notcia no Das teras s... cestas em 10 de janeiro de 1969.

    Desenvolve-se nos bastidores polticos a disputa pela presidncia do Instituto, dizia Z... ferino:

    Ainda que maltrapilho,Se arrastando nas muletas, cobia de um corrilhoDos eternos picaretas...

    Brao do ICB, a Sulba, ao anunciar um pro-grama de reformas, ganha, em 28 de novembro de 1968, estes versinhos:

    Nessa luta que sustenta,A Sulba tudo remove:Diz que far com SetentaUm grande sessenta e nove. (*)

    O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi visitado por Hoisel em 1950, fato inusitado, considerando que ele jamais se preocupara em entender a chamada pintura moderna, revo-lucionria, abstrata, psicodlica ou qualquer outro nome que se d ao no-clssico.

    Resolveu deixar no livro de visitas a sua im-presso pessoal (e muito pessoal!) sobre aquele empreendimento, num epigrama incomum (de-casslabos, com rimas proparoxtonas, versos esdrxulos):

    Por museu darte quem quiser que tome-o ...Eu, no, que ao v-lo afirmo sem malcia:Se no fosse um perfeito manicmio,Certo, seria um caso de polcia...(*)

    Foi nuna dessas viagens que ele fez o Rio na companhia do jornalista e escritor Fernan-

    (*) Referncia ao empresrio itabunense Washington Setenta, epoca, superintendente da Sulba (mais tarde, presidente do ICB).

  • 34 - Solo de Trombone

    do Leite Mendes (Os Olhos Azuis de D. Alina e Algumas Crnicas).

    Certa noite, na boate Night and Day, endereo obrigatrio no 1o. andar do Hotel Serrador, dedicou ao amigo esta bela quadra, anotada no cardpio da casa:

    Lei! Tu sempre foste errada,Por isso ningum te entende...E sem que faa piada,Eu te digo: Lei, te emendes!...

    Naquela noite (27 de julho de 1950), nosso vate tinha o gnio borbulhante. S isso expli-caria estes versos, que ele escreveu no mesmo cardpio, e que Fernando Leite Mendes, entu-siasmado, assinou:

    O esprito uma peaQue onde chega sempre abafa:Ou venha numa cabeaOu venha numa garrafa.

    Num bar em Nova Iorque, diante dos sorrisos fceis dos garons, ele anotou estes versos, bem descritivos da sociedade de consumo americana:

    Verdadeiro parasoQue a todos deixa encantados...Mas trocam cada sorrisoPelos dlares deixados.

    O secretrio da Educao Wilson Lins, jor-nalista, escritor e tambm epigramista, em telegrama, puxou as orelhas do professor Nestor Passos, por ter autorizado uma festa em benefcio da Escola Tcnica de Comrcio de Itabuna na sede da Escola Lcia Oliveira. Ocorre que o prdio em questo no era propriedade

    (*) O Correio da Manh, o jornal mais importante da poca, publicou na sua seo de arte uma nota em que dizia ter Alberto Hoisel deixado no livro um pouco de sua ignorncia, desrespeito, estupidez, desconhecimento da arte etc. etc. Ao saber (um amigo lhe mandou o jornal) que seus versos criaram tamanho ranger de dentes, o autor deu grandes gargalhadas...

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 35

    do Estado, mas da Prefeitura, que paga toda a folha, sem qualquer apoio do Estado, con-forme nota do Dirio da Tarde, em 4 de outubro de 1961 (Uma questo sem graa: o Estado quer mandar numa escola que propriedade do municpio).

    Palavra de Z... ferino, no dia 6: No assim to sem graaSe ter de graa uma escola...Pra o Estado sim desgraaReceber graas de esmola. (*) Em 16 de novembro de 1955, Itabuna fora

    alvo de outra brincadeira. Criada h pouco, a FIAR (Frente Itabunense de Ao Renovadora) era uma espcie de ONG destinada a encami-nhar problemas da comunidade, tendo frente o empresrio Mlton Veloso.

    Ao saber de gestes da FIAR junto ao Insti-tuto de Cacau da Bahia, para instalar telefones automticos, Bolinete produziu este texto:

    Vale a pena observarSe promessa esto faltando: bom no facilitar,ConFIAR... desconfiando...

    A FIAR conseguiu que a regio tivesse tele-fones automticos, mas as coisas demoraram a funcionar a contento.

    Seis anos depois, a Companhia Telefnica Sul Baiano ainda deixava muito a desejar, confor-me Z...ferro (irmo de Z... ferino - v. pg. 39) em 19 de outubro de 1961, reclamando da mudana de prazo para o fornecimento de novos servios:

    (*) No seu Musa Vingadora - Crnicas do Epigrama na Bahia (Salvador - Editora da Ufba/1999), o professor Wilson Lins recolheu versos satricos desde meados do sc. XVIII, de Gregrio de Mattos, a Lafayete Spnola, morto em 1975, ltimo epigramista baiano de nosso sculo. De Alberto Hoisel ele sequer toma conhecimento.

  • 36 - Solo de Trombone

    Novo prazo foi marcadoNo obstante o clamor:No se foge ao enjoadoUm momento, por favor...

    UM BARCHAMADO BARRAL

    Em plena febre do cacau, enquanto todo mundo procurava terras boas, Alberto Hoisel adquiria terras desvalorizadas, piarrentas, em reas no apropriadas para a cacauicultura, como Canabra-

    Alberto Hoisel (D) com Fernando Leite Mendes no Night and Day, em 1950: Lei, te emendes!

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 37

    va e Olivena, terras baratas, onde no se podia cultivar quase nada, alm de piaava. Ele pouco ligava para o cacau. O depoimento do empre-srio Raimundo Kruschewsky, o lendrio Baro de Popoff, uma espcie de embaixador de Ilhus.

    Alberto Hoisel comprou muita terra, teve lu-cro fabuloso, entrou para o negcio de piaava, transformou-se em grande vendedor dessa fibra para o mercado domstico e tambm para o inter-nacional. A empresa dele, a Alberto Weyll Hoisel, tinha uma marca forte, era bem conceituada, zela-va pela palavra empenhada, negcio fechado com Alberto estava fechado mesmo, aplaude Popoff. Em negcio de piaava - quando muitos acertos so feitos sem assinatura de documento - concei-to fundamental, e isso no faltava a Alberto, confirma o ex-prefeito Antnio Olmpio. Outro ex--prefeito (e primo de Alberto pelo lado Weyll), Henrique Weyll Cardoso e Sil-va, o Henriquinho, lembra que seu pai garantiu a aquisi-o da primeira fa-zenda desse primo, muito inteligente, famoso pela sua ca-pacidade de improvisar versos sobre o quotidiano sua volta, um verdadeiro repentista.

    Era um homem cheio de alegria de viver. Bebia, cantava, danava, declamava e era um danarino de primeira, surpreende-nos o Baro de Popoff, para quem o amigo esteve prximo da perfeio, em matria de vida mundana: Viveu bem, comeu bem, bebeu bem, foi bom marido, bom pai de famlia, encaminhou todos os filhos social e economica-mente. Sobre sua bebida, Hoisel produziu famoso

  • 38 - Solo de Trombone

    trocadilho, para dizer que no bebia sempre, mas quando bebia era pra valer:

    - No bebo todo dia, mas posso beber o dia todo...

    Bar Ilhus, Sambur, Cantina da Lua, Mar Mansa, Garangau,Vesvio, Jangadeiro, ou bares no famosos, de nomes no guardados pela me-mria, estavam sempre no seu roteiro. Quando os filhos iam busc-lo, ele os subornava com bombons e mimos de pai, expediente que deixou de funcionar em certa poca, pois Gracinha (a quem ele chamava A Polcia), j bem crescida, no se deixava tapear. A soluo era variar de bar, aboletar-se no dia seguinte num novo local, at quando A Polcia o pilhasse a fazer versos, contar piadas e beber cerveja. Na prxima, j no o encontrava nesse bar, a cerveja e a conversa cum-prida com os amigos teriam mudado de endereo.

    Mesmo assim manteve-se fiel, o mais que pde, ao Bar de Barral (*), na Marqus de Paranagu, de fcil acesso para quem, como ele, ia ou vinha do trabalho e tinha aquela tentao bem ali, a alguns passos, logo ele que nunca foi muito de fazer exer-ccios (a no ser levantar copos e latas de cerveja, no que, justia se lhe faa, era exmio atleta).

    HOISELPOR HOISEL

    Alberto Hoisel, vez por outra, falou dele mesmo. Em geral, eram respostas a alfineta-das que recebia, contestaes de seus versos, que lhe chegavam de oitiva e que, na rua, no bar ou pelo Dirio da Tarde, recebiam pronta resposta. Um leitor no identificado reclamou de um epigrama laudatrio, que era uma ga-

    (*) Era o Bar Atlntico, chamado de Barral por pertencer ao espanhol Manuel Barral Fernandez, que o adquiriu nos anos trinta a Siznio Barros (av do futuro prefeito Nerival Rosa Barros). Seu Barral morreu em maro de 1956 (aos 76 anos) e o bar foi assumido por seus filhos Manoel Arthur e Delmiro (Barral Blanco). Segundo Raymundo Pacheco S Barretto, o Atlntico, mais antigo bar de Ilhus, j se chamou Colibri, quando tinha at msica ao vivo. No local, funciona hoje uma loja de calados.

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 39

    rapa, na opinio do exigente crtico de quem a histria no guardou o nome.

    A resposta saiu em 1o. de fevereiro de 1960:

    No serei quem, nesta etapa,Os prprios feitos consagre...Daqui, quando sai garapa,Sai garapa de... vinagre!

    Em 28 de abril de 1978, como se meditasse sobre sua justificada fama de grande bebedor, ele se permitiu fazer um mea culpa, onde admite a existncia de certo descompasso entre duas de suas paixes maiores, a famlia e o bar:

    Se na vida conjugalNunca fui primeiro prmio,H um culpado, afinal:Meu corao de bomio!

    Para D. Ivany foi canalizada grande parte de sua produo romntica. Alm de sonetos, muitas e muitas quadras foram feitas (e perdi-das), algumas como tentativas de reconciliao (imediatamente aceitas por ela).

    o caso destes versos, inspirados na novela Lua Cheia de Amor, da Globo, com que ele foi receb-la no aeroporto, vinda de Salvador, um tanto embirrada:

    Na nossa vida flutuaEm todo seu esplendorNo apenas uma luaMas um cu cheio de amor.

    Certas referncias elogiosas, se no vinham de fonte respeitvel, eram recebidas com des-confiana. Assim aconteceu com o colunista social que se escondia sob o pseudnimo de Nacib & Gabriela, que chamou Hoisel de um

  • 40 - Solo de Trombone

    dos maiores trocadilhistas do Pas. O poeta mandou de volta este torpedo, con-

    tendo uma declarao de princpios:

    Se a exceo foge regra,Nacib que tenha em vista:Este um que a lista integra,Mas nunca troca de lista...

    Na mesma linha de inspirao, ele produziu esta outra quadra, uma receita de bom humor bem ao estilo Alberto Hoisel:

    um conceito profundoQue tenho sempre presente:Ou a gente ri do mundoOu o mundo ri da gente.

    No foram poucos os amigos brindados com o vidro modo de Alberto Hoisel, pessoas de quem ele possa ter arrancado um sorriso descorado em determinado momento. E impressiona que os amigos continuaram amigos do poeta.

    Apesar desta profisso de f (Dirio da Tarde, 4 de fevereiro de 1969), o vidro modo com que brindava as pessoas provocou muitos sorrisos amarelos, mas nunca inimizades verdadeiras:

    Crer sempre em tudo que digo tolice rematada:Sou dos que perdem o amigoMas no perdem uma piada!

    Outras reflexes hoiseanas, todas anotadas em mesa de bar, a maioria no Bar de Barral, aos sbados:

    s circunstncias me entregoE fico a conjeturar:

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 41

    Se o mundo inteiro est cegoPor que no devo ficar?

    Mais uma sobre a cerveja nossa de cada dia:

    Quem bebe tem na bebidaUma vida paralela:Se esquece da prpria vidaPra sonhar outra mais bela.

    Provavelmente com um olhar de compaixo a muitas pessoas que andam por a pensando que ainda esto vivas:

    Neste mundo h muita genteQue s merece piedade:Envelhece tristementeSem ter do que ter saudade.

    Aqui, uma lio de tolerncia e respeito pelos semelhantes:

    Tenho por certa a doutrinaQue aceito, afirmo e creio:O meu direito terminaOnde comea o alheio.

    Agora, um surpreendente ponto de vista agnstico, mas com o mesmo sentido de tole-rncia pelo direito dos outros, no caso, o direito religio e no religio:

    Fujo por todos os modosA este antema:Ateu!Respeito os deuses de todosSempre procura do meu.

    E mais uma produo metafsica:

  • 42 - Solo de Trombone

    A vida, este meu tropeo,Pode definir-se assim:Na verdade um comeo,Mas o comeo do fim.

    Sobre a morte, um tema que tem inquietado muitos poetas, o mesmo toque pessoal bem--humorado:

    Quando eu nasci minha sorteLanada estava; sortudo,Eu nunca temi a morte...O que temo ficar mudo!

    E esta quadrinha, absolutamente pessoal, com a mesma carga de bom humor que carac-teriza o satrico, foi feita num momento em que D. Ivany estava viajando e ele se encontrava sozinho em casa, em plena fossa:

    To s, eu fico a pensar:Neste momento, sequer,Nem mesmo para brigarEu tenho minha mulher

    Tendo passado algum tempo sem enviar sua colaborao, o epigramista retorna em 29 de se-tembro de 1961, com um resumo bem-humorado da balbrdia institucional do Pas na poca:

    Enfim, depois da sada de Juscelino, da en-trada de Jnio, da sada de Jnio e da entrada de Mazzili, da sada de Mazzili e da entrada de Jango, Z...ferino voltou:

    Voltei com minhas pilhriasTendo uma dvida em mente:

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 43

    Se fui eu quem tomou frias,Se o couro de muita gente...

    No dia seguinte, ele surpreendeu seu pblico ao anunciar que vai haver nesta seo uma espcie de baio de dois:

    Aos meus leitores previno:

    No vim s, trouxe um irmo...Quem no topar Z... ferinoVai se ver com Z...ferro.

    Em seguida, no dia 2 de outubro, ele volta ao assunto, procurando atenuar o impacto causado pela dupla:

    Aos meus amigos ensinoUm dos passos do baio: Escape do Z... ferinoSem medo do Z... ferro.

    O tema da volta das frias, tratado no texto anterior, seria retomado oito anos depois, no Dirio da Tarde de 11 de fevereiro de 1969:

    Z... ferino se ausentouUma semana somente...Nesses dias descansouO couro de muita gente...

    Em 14 de fevereiro de 1969, uma rpida celebrao ao seu trabalho semanal no DT:

    Afirmemos sem vaidade:Num mundo em que tudo breve,Nestas colunas se escreveO preo da liberdade

    Branco, tido como germanfilo, ele foi mais de uma vez acusado de racismo, ao que no dava ouvidos. At o dia em que resolveu, usando sua

  • 44 - Solo de Trombone

    Em Israel, Alberto Hoisel num programa comum aos turistas

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 45

    veia de epigramista, responder provocao.A quadrinha, se publicada hoje, faria com

    que as entidades anti-racistas levassem o autor a acertar contas com a Lei Afonso Arinos:

    Sou racista, mas discreto,No me afasto desta linha:No tenho amores por preto...Mas adoro uma escurinha.

    Sem maior interesse em publicar seus epi-gramas (que fazia para divertir-se e divertir os amigos) ou os sonetos (para deleite prprio e de D. Ivany), teve alguns deles estampados no Dirio da Tarde devido a aes pessoais do hoje advogado e poca redator do jornal, Joo Hy-gino Filho. A modstia, que o fez reagir negati-vamente s tentativas de lev-lo Academia de Letras de Ilhus, tambm o fez escrever sobre si mesmo coisas que lhe traam um perfil injusto para suas qualificaes intelectuais:

    Tal qual o pano de bocaDe um teatro sem atoresA minha musa tem coresQue ocultam o que tem de oca.

    Ou estes versos, na mesma linha:

    Minha autocrtica pago-aSem qualquer hesitao:Prefiro ser gota dguaA ser bolha de sabo.

    A paixo pela cerveja foi festejada a partir de uma provocao feita no Dirio da Tarde, quando seu amigo Ruy Rhem (que se assinou Ferino Z) publicou esta gracinha com Z... ferino:

    Fazer stira o seu forte

  • 46 - Solo de Trombone

    S isso o que deseja...Mas ficar sem ter norteBebendo tanta cerveja! ...

    O superbissexto Ruy Rhem representou uma oportunidade para o poeta que, em pronta resposta, at com uma inveno gramatical, elevou sua bebida preferida a nveis divinos, em duas quadras:

    Beber cerveja pecado! Erra quem isso afirmou...Ela o po liquificadoQue Jesus multiplicou...

    Eu tenho tanta certezaQue afirmo onde quer que esteja:ELE s ps vinho mesaPor no existir cerveja!

    E encerrou as duas quadras com uma brin-cadeira, onde se refere s ofensas maldosas do velho amigo, a quem manda... flores:

    s ofensas mais maldosasJamais pensei em pr cobro...Antes, transformo-as em rosasPra devolv-las em dobro.

    Depois, num floreio de mestre, arrematou tudo com estes decasslabos:

    Todo homem, mas homem que homem seja,E cujas veias sangue quente agitaEntre copos gelados de cervejaSente o calor de uma mulher bonita.

    Convidado a integrar a Academia de Letras de Ilhus, objeto de muitas de suas brincadeiras, Hoisel recusou a honraria, exercitando seu estilo:

    Dessas letras, a poesia

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 47

    ALBERTO APELA - 23.06.64Tomando conhecimento deciso esse Ministrio

    suspender trabalho construo ponte Ilhus-Pontal, diretrio municipal Partido de Representao Popular resolveu apelar reconhecido esprito patritico vossncia, a f im sustar medida vem golpear profundamente desenvolvimento econmico uma das mais pujantes regies deste Pas, contrariando destarte objetivos revoluo, no sentido rpida recuperao econmica nossa Ptria (...). Saudaes, Waldemar Oliveira Garcia, presidente, e Alberto Hoisel, secretrio. 23.6,64

    No me atrai; pra ser sincero, Os bancos da Academia No so os bancos que eu quero...

    PERSONAGEMDE SI MESMO II

    Mudou-se para o Sul do Estado, veio morar na fazenda Minerva, do tio Trajano Weyll (local onde hoje passa a estrada Ilhus-Uruuca) s margens do rio Itariri, ou Tiriri, conhecido popu-larmente como Carrega Calo, ali estudou com a irm mais velha, Ida, que seria professora tambm do futuro prefeito Henrique Cardoso. Nessa escola improvisada, foi colega do primo Durval Cardoso,

    Convidado para secretriodo Sul do Estado (4.5.64)

    Um telefonema recebido ontem pelo Sr. Walter Goes, do deputado Wilde Lima, lder do governo na Assemblia Legislativa, informava que o Sr. Alberto Weyll Hoisel fora convidado para Secretrio do Governo para os Assuntos do Sul do Estado.O Sr. Alberto Hoisel declinou do convite, alegando seus afazeres particulares (4.5.64).

    GENERAL NA CEPLAC- 21.07.64

    O governador Lomanto Jr. assinou decreto designando o general Joo de Almeida Freitas, secretrio do Sul do Estado, para representar o governo do Estado no Conselho da Ceplac. 2

  • 48 - Solo de Trombone

    irmo de Henriquinho. Aos cinco anos j sabia ler e escrever. Segundo ele, vindo cidade, recebeu da av um exemplar do jornal A Tarde, do qual leu o caderno de classificados.

    Sua infncia foi gasta na zona rural, em fazen-das dos tios. Mas tudo muito vago. Informa que aos dez anos morou na fazenda Pedra Redonda, do tio Aristarco Weyll, na zona de Banco Central, um lugar tambm conhecido como Tringulo dos Macacos (cuja existncia no conseguimos con-firmar), vindo morar em Ilhus, provavelmente em 1922.

    Em Victorino & Cia., empresa de representaes de Manoel Vitorino Jr., teve seu primeiro emprego, passando-se mais tarde para o escritrio de Atade & Barreto, pertencente a Telmaco Athayde e Clineu Barreto, na Marqus de Paranagu. Teve como colega um rapazola que at ento vendera doces porta-a-porta, o futuro grande fazendeiro Mrio Reis, sem formao poltica, que mais tarde se diria assediado por seus dois superiores: Alberto Hoisel (integralista) e Nemsio Nobre (comunista), sem que viesse a militar em nenhuma das duas doutrinas (*).

    A essa poca, morador no Pontal, freqenta o Chal dos Pinto, uma ampla casa na Rua da Frente, onde conhece a menina Ivany, integrante de um grupo de barulhentas parentas da famlia Pinto, moradoras na fazenda Feliz Vivenda (ou Viven-da Feliz), que os rapazes dourados chamavam, por motivos mais claros do que o sol, Fazenda das Sete Moas Bonitas. Ivany, que sonhava ser artista de circo, de preferncia trapezista, era a terceira das sete moas bonitas, e uma das mais bonitas (as outras eram, por ordem de idade, Ione, Ivone, Iracy, Maria Lusa, Jacy e Ncia).

    Foi um longo tempo de observao, tentativas

    (*) Depoimento de Mrio Reis ao autor, em 12 de novembro de 1999. Ele morreria em seguida (10 de dezembro). aps ser assaltado por dois marginais menores de idade.

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 49

    tmidas e negativas no muito convincentes, at que a ex-futura trapezista do Circo Nerino completou 15 anos e o futuro grande sarcstico de Ilhus deixou a paixo que j no se continha explodir de vez num poema de sabor clssico, como se v neste trecho com versos de cinco slabas:

    Amei-te o sorriso/Suave de santa,/Que enleva, que encanta/Qual novo arrebol/Se cantas, teu canto,/Num mgico anseio,/Parece o gorjeio/De algum rouxinol. (*)

    Resistir a tal cantada, quem haveria-de? A

    filha de seu Geraldo Miguel-Dona Maria rsula e o galante poeta casaram-se no Chal dos Pinto, em 23 de maro de 1939. Tiveram nove filhos (pela ordem: Alberto, Tnia, Dinah, Solange, Maria L-cia, Gustavo, Gracinha, Fernando e Conceio) e - como se dizia nos jornais de antigamente - at o momento em que fechvamos esta edio, trinta e quatro netos e vinte bisnetos.

    DE FRUTA-DE-CONDE A VASSOURA-DE-BRUXA

    Mesmo no sendo prioridade nos negcios, o cacau teve em Alberto Hoisel um grande canal de crticas e reivindicaes, desde os anos cin-qenta. J em 22 de novembro de 1955, ele registra uma idia do ICB que seria retomada anos depois pela Ceplac, sob a desconfiana de muitos produtores: a expanso do plantio de cacau (chegando a So Francisco do Conde).

    (*) O longo poema (142 versos) vai publicado na ntegra nas pginas167 a 171.

  • 50 - Solo de Trombone

    Passados mais de quarenta anos, h quem veja nesse projeto o ovo da serpente que ges-tava a vassoura-de-bruxa, pois era o embrio de nossas ligaes com a regio amaznica...

    O projeto no mau,Mas a verdade se esconde:Querem fazer o cacauPassar por fruta-de-conde...

    Trs dias aps (25 do mesmo ms), Bolinete parecia admitir o xito da idia do ICB (ento presidido por Elsio Nunes), s que em outro setor da economia. Ele anotava que o Instituto de Cacau convidou lavradores para uma festa comemorativa do incio do plantio de cacau em So Francisco do Conde.

    A impresso, tantos anos depois, de que a farra com o dinheiro dos produtores era grande e boa:

    Bem age o novo InstitutoMarcando, em seu dinamismo,Um sucesso absolutoComo... agncia de turismo!...

    Z...ferino publicou vrias crticas poltica (ou falta de poltica) do cacau na seo Das teras s... cestas, de janeiro a abril de 1969.

    Nesta, de 28 de maro, ele (depois de lem-brar que, espirituosamente, o saudoso Tosta Filho gostava de comparar a lavoura cacauei-ra a... uma vaca), mostra certa premonio do que iria acontecer vinte anos mais tarde, ao brincar com a expresso bblica tempo de vacas magras:

    A gorda nem lembrada,A magra j est morrendo...E pelo que se est vendo,S restar mesmo a ossada!

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 51

    Aliomar Baleeiro, secretrio da Fazenda no governo Juracy Magalhes, estava empenha-do, conforme o hbito de quem assume aquela pasta, em aumentar a arrecadao do Estado. E entre suas fontes de recursos constava o cacau, a que ele imaginava impor uma nova taxa, com produtores independentes admitindo pedir a interveno da justia.

    Z... ferino, nestes versos publicados em 5 de maro de 1960, diz que a lavoura cacaueira est bastante apreensiva com os novos impos-tos inspirados pela tributocracia do emrito professor de Finanas:

    Da Fazenda o secretrio,Feroz no fazer dinheiro,Revela-se o fazendrioA esfolar o fazendeiro...

    Pouco mais de dez anos depois de criada, a Ceplac ainda dividia os produtores, muitos deles fiis a mtodos de manejo agrcola her-dados de antigos coronis, no disfarando a desconfiana nas tcnicas modernas que che-gavam. E a entidade, dirigida pelo ex-bancrio Carlos Brando, agia como se tentasse ampliar seu leque de antipatias, ao pedir o aumento da taxa de reteno sobre as exportaes de cacau de 15% para 25%. Era 1967, tempo em que o cirurgio sul-africano Christian Barnard co-lhia merecidos louros mundiais, por ter feito o primeiro transplante de corao.

    Z... ferino, em 23 de novembro, diz que se a reteno de 15% j constitui uma sangria, a sua elevao para 25% se constituir num ver-dadeiro transplante do patrimnio da lavoura para a Ceplac:

  • 52 - Solo de Trombone

    A Ceplac do BrandoTanto dinheiro entesouraQue, em breve, para a lavouraNo haver salvao...

    E a macabra cirurgiaDe um Barnard sul-traficante...Tenta, depois da sangria,Um criminoso transplante!

    As lideranas da economia sul-baiana fre-qentemente davam (e do!) declaraes falsas, convenientes, politicamente corretas, com anlises ufanistas, dizendo amm aos pode-rosos, projetando previses distantes da reali-dade. Em 26 de dezembro de 1968, ainda em clima natalino, Z... ferino mostra a falsidade da informao oficial sobre uma lavoura em dificuldades, tratada sem a devida seriedade (naquela semana, fontes da Ceplac declararam a O Globo que a safra alcanaria 3 milhes de sacas, positivamente uma fico):

    Depois da crise cruel, Vo chegar as gordas vacas, Pois s 3 milhes de sacasGanhou de Papai Noel!

    No comeo dos anos oitenta, estourou em Floresta (PE) o chamado escndalo da mandioca, num processo em que espertalhes passaram a mo no dinheiro do Banco do Brasil. A histria toda terminou em morte de um procurador do Estado, priso dos assassinos (o principal deles foi condenado e fugiu da priso), punio de funcionrios do BB.

    Alberto Hoisel viu certa semelhana com as verbas destinadas ao cacau, que nem sempre so utilizadas conforme as regras:

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 53

    Aranhas da mesma teiaL e c ms fadas h:Mandioca deu cadeia...Por que o cacau no d?

    A economia cacaueira tem obscuras regras de mercado, buffer estoque e mecanismos gerais de formao de preos que sempre atuaram em desfavor dos produtores e em benefcio de grandes exportadores e industriais. difcil, por exemplo, entender que durante a safra de 1968 as exportaes tenham sido suspensas por falta do produto, sendo reabertas no comeo do ano seguinte.

    Alberto Hoisel tambm se mostrou aturdido com a notcia: A Comisso do Comrcio do Cacau vai solicitar urgncia para a abertura da exporta-o, suspensa por no haver cacau, ele registrou (e deu a resposta, em 14 de janeiro de 1969):

    O fenmeno se deuMas ningum o explicou...O cacau apareceu...Depois que a safra acabou!

    Em 15 de maio de 1972, com as palavras crise e diversificao na boca dos produto-res, comeou-se a falar tambm na viabilidade econmica da casca do cacau, s que fora da regio produtora.

    Z... ferino denunciou a espoliao da zona cacaueira, de quem o governo estadual tirava muito e dava muito pouco, ao alertar para um projeto de industrializao que ia produzir teobromina e fertilizantes... em Aratu:

    Dessa crise nas borrascas,

  • 54 - Solo de Trombone

    CONCURSO (25.1.58) O concurso para Rainha do Carnaval parece que vai ser animado. Segundo nos informaram,

    o vereador Horcio Faria vai patrocinar uma beldade do bairro da Conquista; Ariston Cardoso, uma formosura do Pontal, e Jos Loureno, um broto do Malhado. Com esses paraninfos, as meninas podero ir longe...

    Que o poder assiste mudo,Levem cacau, levem tudo,Mas deixem ao menos as cascas!

    INIMIGO DAMONOTONIA

    Se no foi o modelo tradicional de pai e marido, Alberto Hoisel foi um homem incomum, que jamais deixou a vida familiar cair na rotina: chegava em casa de madrugada, fazia serenata a capella, provocando - com seus plangentes violes e luas que vinham surgindo cor de prata no alto

    BANHISTAS EMPERIGO (4.1.61)

    H muito anos existe em frente residncia do Sr. Alciato de Carvalho, no Pontal, um casco de alvarenga submerso, que pe em perigo a vida dos banhistas. A referida carcassa, coberta de ostras, quando a mar comea a encher, fica inteiramente submersa, h poucos metros da praia, exatamente num dos pontos mais disputados pelos banhistas. Solicitamos dos poderes pblicos a instalao naquele local de uma seta indicando o perigo, se no for possvel retir-lo.

    DEMISSO NO IME (27.2.61)Estamos informados de que o Prof. Pedro Ferreira Lima pediu demisso do cargo de diretor do Instituto Municipal de Educao, assumindo o exerccio o vice-diretor do estabelecimento, Dr. Washington Landulfo.

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 55

    da montanha verdejante (em verdade, quem vi-nha surgindo era o sol!) - simpticos protestos da famlia Chaou, vizinha do lado, a gritar, seu Alberto, seu Alberto, a gente quer dormir!. Surpreendia tambm o conhecimento que tinha de peras, alm da forma no mnimo razovel como cantava trechos inteiros, em italiano, fazendo a srio o tenor e divertindo-se ao imitar a soprano. Nessas horas mortas, ao cometer tambm valsas e modinhas em geral, portava bombons para os filhos e versos para a mulher.

    Quando viajava, voltava com presentes para todos, alm de pilhas de discos e livros para ele mesmo. Leitor compulsivo, devorava enciclop-dias com a mesma disposio com que enfrentava engradados de cerveja e pratos de rabada com piro. Mas ao tentar, por insistncia de D. Ivany, ajudar os filhos nos deveres escolares, transfor-mava o castigo do estudo numa grande festa, reclamando da linguagem dos livros (inadequada para crianas), fazendo trocadilhos, recriando o texto, arrancando risadas da pequena Maria Lcia e preocupaes de D. Ivany, divertindo-se feito o menino grande que nunca deixou de ser.

    Recm-casado, preocupava-se com a descendn-cia (dizia-se o ltimo Hoisel), achando-se no dever de ter filhos vares, para garantir a sobrevivncia do nome. Da, teve nove, um nmero considerado exorbitante, mesmo para aqueles anos. Seu ami-go Antnio S Pereira dizia que essa quantidade estava bem adequada ao estilo exagerado de Al-berto, que casou duas filhas no mesmo dia (Dinah e Solange) e crismou duas (Dinah e Tnia). Bebia muito, comia muito, trabalhava muito. Embora no comesse nos bares, para no ocupar espao, em casa era um gluto, alimentando seu excesso de peso com pratos pesados, sendo exemplo a rabada, acompanhada com o que ele chamava de piro

  • 56 - Solo de Trombone

    (*) O grande idelogo da extrema-direita, lder do Integralismo (que vigorou legalmente de 1932 a 1937), uma doutrina poltica moldada no fascismo, de exacerbado nacionalismo anti-democrtico. Plnio Salgado, em resumo, era uma estranha mistura de Hitler com Mussolini, vestido de verde-amarelo.A foto acima foi autografada para Alberto Hoisel (v. direita).

    choro (aquele vem esparramando gordura pelas beiradas), o seu preferido. Tambm exagerou ao fazer versos (incontveis) e fortuna (no informada), pois

    sempre soube ganhar e gastar dinheiro. De jovem gerente da firma de repre-

    sentao, passou a empresrio rural, ao comprar uma fazenda do tio Aristarco Weyll, em Ibicara, para o que teria con-tado com o aval de Henrique Cardoso e Silva, pai do futuro prefeito Henrique Cardoso e Silva, e no parou mais de ganhar dinheiro. Descobriu a piaa-va, um produto agrcola tido como de importncia econmica secundria, e ao longo de anos no s foi o grande expor-tador dessa fibra para os EUA e a Europa como tambm seu maior produtor, dono de imensas reas plantadas. Dedicou-se tambm a outros negcios com terras, sendo de sua propriedade reas prximas a Olivena onde foram desenvolvidos nos

    ltimos anos grandes projetos hoteleiros. Militou no PRP (Partido de Representao Po-

    pular), sendo secretrio do diretrio municipal de Ilhus. Plnio Salgado(*) foi padrinho de sua filha Maria das Graas, realizando-se a cerimnia do batismo na Igreja de So Jorge, numa das visitas que o grande chefe Galinha Verde fez a Ilhus, em 1949. Era fiel a seus princpios, mas no misturava poltica e amizade. Com o amigo Nelson Schaun, por exemplo, uma das lideranas do comunismo local, enxugou muitas e muitas garrafas de cer-veja, sem que tivessem qualquer desentendimento, talvez devido a uma regra que se impuseram: falar de qualquer assunto, menos de suas preferncias polticas, a no ser em tom de blague.

    A perseguio promovida pelos nazistas aos judeus (de que teve notcia pelo pai), balizou seu

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 57

    comportamento, no se prestando jamais a uma funo que esteve muito em moda, a partir de 64: a de dedo-duro.

    REJEIONA COOPERATIVA

    No dia 1o. de maro de 1969, o governo anuncia modificaes na rotina de compra e venda de cacau, com imposio de novo tributo aos proprietrios rurais, sugerido pelo presi-dente do Banco Central, Germano Lira, sob a justificativa de que o setor arrecadava pouco, devido sonegao.

    O cronista acha que a medida insensata,

    Plnio Salgado, tendo ao colo Gracinha, que acabara de batizar, em 1949

  • 58 - Solo de Trombone

    Alberto Hoisel e seu primognito, o futuro escritor Beto Hoisel.

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 59

    pois faz pagar o justo pelo pecador:

    Seu Germano, por favor, Corrija o que est errado:Que pague por seu pecadoSomente o mau pagador...

    Pouco mais de um ms depois, a 8 de abril, o assunto ainda est pendente, mas o BC anuncia medidas duras para regular a incidncia de tributos sobre as propriedades agrcolas:

    Da fazenda o MinistrioCobrando o imposto de rendaAdotou novo critrio:No taxa... arrenda a fazenda!...

    Depois disso, mais uma frustrao, daquelas a que os produtores de cacau se acostumaram ao longo dos anos. Escreveu Alberto Hoisel, em 18 de dezembro de 1968, que o Sr. Germano Lira, do Banco Central, por ocasio de sua vi-sita a Salvador, no tomou conhecimento das reivindicaes da lavoura cacaueira.

    E acrescentou:

    Embora integre o conjuntoDo qual tanto se esperou,A verdade que, no assunto,Essa Lira no tocou...

    Em 1968, a Cooperativa Central, um em-preendimento que se sustentou na adminis-trao de Ananias Dorea, somou dificuldades de mercado com m administrao e terminou sob interveno da Ceplac.

    Alberto Hoisel, naturalmente, no acreditava que tal mudana resolvesse a crise, como, de

  • 60 - Solo de Trombone

    (*) Em artigo de 1938, Eusnio Lavigne, um ilheense dos mais ilustres, diz que Tosta Filho se firmou custa da capacidade econmica da lavoura cacaueira, isto , custa dos lavradores. E diz mais: como secretrio da Agricultura do governo Arthur Neiva, se mostrava desanimado, pouco dotado de f, coragem e energia moral, alm do que suas aptides prticas de organizador cooperativista conservam-se, ainda, veladas ao conhecimento pblico.

    fato, no resolveu:

    Posta a coisa a justo termoSe chega a uma concluso:Enxerta-se um rgo enfermoNum corpo que no est so.

    Que o sucesso se consagre...Mas na minha opinio,S pode ser um milagreSe no houver rejeio.

    Em 23 de janeiro de 1960, o crtico denuncia a injustia que, a seu ver, se perpetrava contra o ento diretor da Cacex (Carteira de Crdi-to Exterior) do Banco do Brasil, Tosta Filho, colocando a culpa em outro, que nenhuma punio recebia.

    Poderosas foras pretendem derrotar a Bahia e o cacau, tramando a destituio do Dr. Tosta Filho da Cacex, dizia Alberto Hoisel:

    Tal como em tempos atrs,Vemos a bblica cena: Cristo quem cumpre a penaFica solto Barrabs!... (*)

    Em 5 de junho de 1972, pleno governo mi-litar, chegam Regio, para inaugurar o escri-trio regional da Ceplac, os ministros Delfim Netto (Fazenda), Cirne Lima (Agricultura) e Pratini de Morais (Indstria e Comrcio), alm do governador ACM e de todo tipo possvel e imaginvel de autoridade.

    Dos muitos comentrios ufanistas cometi-dos nos jornais e emissoras de rdio, o melhor foi o de Z... ferino, no Dirio da Tarde daquele mesmo dia, quando se referiu a trs magos do governo Medici como a ltima tbua de salvao da lavoura:

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 61

    JORGE AMADO NA ABL (7.4.61)

    Foi e le i to ontem por unan im idade pa ra a A c a d e m i a B r a s i l e i r a de Le t ras o esc r i to r conterrneo Jorge Amado. O autor de Gabr ie la , Cravo e Canela ocupar a cadeira 23, vaga com a morte do senador Otvio Mangabeira.

    Se dessa trinca a alquimiaNo trouxer bom resultado,Do cacau a economiaPassa a coisa do passado.

    UM HOMEMDE DIREITA

    Pode-se dizer que sua pndega se exercia em latitudes diversas e nem sempre em lngua portu-guesa. O Baro de Popoff conta que, em viagem de navio aos EUA, em 1984, Alberto se envolveu com um grupo de msicos do Caribe, rapazes e moas de esfuziante alegria, porm jamais vistos at ento, e com eles mergulhou numa farra que j durava horas, com muito barulho, muita bebida,

    JARDIM ZOOLGICO(22.3.58)

    A populao do bairro do Malhado est se vendo atanazada com a vara de porcos de todas as idades e tamanhos que vivem soltos, fuando as ruas e quintais com se o florescente bairro fosse um chiqueiro. Como os porcos, os ces, os burros e os cavalos e toda a bicharada zombam das posturas municipais.

    O SEU A SEU DONO (25.10.60)

    Esto em nosso poder para serem devolvidos aos respectivos donos: um amarrado de livros escolares e um p de sapato de criana, este ltimo trazido na manh de hoje nossa Redao pelo Sr. Joo Lawinscky.

  • 62 - Solo de Trombone

    muita cantoria. A pedido de D. Ivany, o guia turstico e amigo

    do casal foi retir-lo de l, pois havia outro com-promisso a ser cumprido. Alberto j falava pelos cotovelos, pagava bebida para todos, comandava, bem ao seu estilo, uma verdadeira festa, a prop-sito de nada. Popoff foi recebido com saudaes de alegria, acompanhadas de uma lata de cerveja, sentindo correr o risco de meter-se farra a dentro, tal era a animao reinante, e ver abortada sua misso.

    Com cuidado, para no dar ao amigo a idia de que se tratava de uma patrulha, em vez de ir di-reto ao ponto, preferiu um rodeio: sugeriu passarem pela sala de jogos, um lugar muito interessante, onde podiam jogar um pouco...

    S falou at a. Alberto tirou da boca a lata de cerveja e, em meio balbrdia geral, sai-se com esta, quase aos gritos:

    - Vou jogar no, Popoff! Pode deixar que o navio joga por mim!

    E continuou a beber, cantar e fazer piadas por muitas horas ainda.

    Enquanto isso, embalado pelas ondas, o navio jogava...

    * No ano seguinte, em Paris, ele saiu do hotel

    pela manh e, tardinha, ainda no voltara. Novamente santa Ivany apelou para o guia, pois j havia adquirido entradas para o Follies Bergre noite e havia o risco de perder o espe-tculo. Popoff foi procura, dobrou esquerda na porta do hotel, com tamanha falta de sorte que revistou vrios cafs e... nada de Alberto, que se encontrava no lado oposto. Voltou pela mesma rua algum tempo depois, quando algum do grupo de turistas o avisou que vira o procurado num dos muitos botequins da rea, mas direita da

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 63

    sada do hotel... Foi encontrar sua caa cercada de gente, pagando

    vinho para quem quisesse e cantando A Marselhesa a plenos pulmes, em dueto com a dona do caf, uma elegante senhora francesa, alm de um imenso coral de bebedores ocasionais. Quando terminou a cantata e Popoff conseguiu falar, explicando que o estava procurando em vo no lado esquerdo do hotel, ouviu esta singela explicao:

    - Voc no sabe que eu sou sempre um homem de direita?... (*)

    ANANIAS,NANIAS, NANIAS...

    A marca Dorea (Francisco, Raimundo,

    Ulisses e, principalmente, o chefe do cl, Ana-nias da Silveira Dorea), ligada s principais instituies da Regio, era citada a propsito de tudo, pois Ananias tinha domnio absoluto sobre o Dirio da Tarde (fundado e dirigido pelo seu irmo Francisco, em 1928). Resultado: num dia sim e no outro tambm, ele estava,

    (*) Conta D. Ivany que o esforo de Popof, ao menos quanto a Alberto, foi baldado. Devido ao excesso de vinho, ele cochilou durante todo o espetculo.

    Na Cmara Estadual, houve agitados debates para a composio da mesa...

    A gente v com tristezaDos deputados a lida:Se eles brigam pela mesa,Quanto mais pela... comida!...

    Muitas crticas tm sido feitas ao abrigo construdo para os passageiros que se dirigem ao Pontal, que, se diz, no oferece abrigo...

    Este abrigo, como v-loNo nosso caleidoscpio?No passa de um cogumeloOlhado no microscpio

  • 64 - Solo de Trombone

    por alguma razo ou sem razo nenhuma, na primeira pgina do vespertino....

    Este epigrama, declamado no Bar de Barral sob intensa vibrao dos circunstantes, mostra a viso de Alberto Hoisel sobre o assunto:

    Como um disco j velho e surrado,Na mais lgubre das monotonias,O Dirio repete cansado:Ananias, nanias, nanias...

    Um artigo do Prof. Plnio de Almeida, em que exaltava Ananias Dorea, recebeu este co- mentrio no Dirio da Tarde de 13 de fevereiro de 1969:

    Por Digenes no o tomem:Na sua inocncia eternaConseguiu achar um homemSem precisar de lanterna

    Na Trovas & Sovas de 26 de fevereiro de 1960, Z... ferino foi buscar inspirao num pesquisador que se preocupava com a longevi-dade das pessoas, para mexer novamente com a ALI e seu presidente. O texto de abertura dos versos, encimado pela expresso Com vistas a Abel, dizia que segundo as teorias do Dr. Linus Pauling, se no tivesse certos hbitos, o homem poderia viver eternamente:

    Aprenda e no leve a malA lio que eu no sabia:Mesmo sem academiaQualquer um imortal...

    O esporte a que Alberto Hoisel se dedicou na juventude continuou a merecer, na maturidade,

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 65

    seu olhar crtico. Em 26 de maro 1969, num momento em que o futebol do municpio estava em baixa, principalmente os trs grandes (Vi-tria, Flamengo e Colo-Colo), ele publicou um epigrama, antecedido de comentrio dizendo que o veterano esportista Mrio Reis [ex-presidente do Flamengo] voltar atividade na prxima temporada, para reabilitar o futebol de Ilhus:

    Terminado o calendrio,Na lanterna todos trsVo, por sugesto de Mrio,Formar um terno de... Reis!

    Otvio Moura, cujo nome chegou aos dias de hoje como um profissional de grande com-petncia, era professor, inspetor de ensino e redator-chefe do Dirio da Tarde, uma amiza-de que Alberto Hoisel cultivou at os ltimos instantes de vida do jornalista, j em Salvador. Acontece que corria socapa a fama (no exa-tamente injustificada!) de que Otvio, alm das suas faculdades intelectuais, era chegado a mu-lheres, digamos assim, mais do que o comum dos homens, coisa que ele, bvio, atribua s ms lnguas.

    Tal situao no escapou da flecha certeira do poeta:

    Dizem uns que sua penaDe condor na Redao;Outros, boca pequena,Que pena de gavio...

    A Trovas & Sovas de 15 de fevereiro de 1960 publicou o seguinte mimo, a respeito das obras da nova sede dos correios, na Marqus de Para-nagu: Com as ltimas chuvas, a construo do edifcio dos Correios e Telgrafos, dirigida

    (*) O americano Linus Pauling (1901-1994) um dos nomes mais ilustres da Cincia neste sculo, notabilizando-se por pesquisar a relao entre fatores nutricionais e doenas, particularmente as cardiovasculares. Foi pioneiro em medicina ortomolecular e ganhou dois Nobel: de Qumica (1954) e da Paz (1962).

  • 66 - Solo de Trombone

    pelos engenheiros Barcino e Lago, foi danificada e alagada:

    Ningum sabe que esse estragoDe uma luta se origina:Seu Barcino quis um lago...E seu Lago, uma piscina.

    Pouco mais de um ms depois, a 19 de maro, ele tece candente crtica ao ato de promoo do diretor regional do DCT, Augusto Ramos, ao afirmar que com a subida do referido funcion-rio da Diretoria Regional para a Diretoria Geral daquela repartio, esses servios deixaro de ser uma calamidade regional para ser uma calamidade nacional! ...:

    Tanta f depositamosNo seu esforo e trabalhoQue sem receio afirmamos:Esse Ramos vai dar galho.

    Em 24 de maro daquele ano, ele voltaria a criticar a construo do novo prdio do DCT, insinuando que havia muito dinheiro para pouca obra. E dizia ter informaes de que uma nova verba de oito milhes de cruzeiros fora liberada para a difcil construo do edifcio--sede da agncia local do Departamento dos Correios e Telgrafos, a cargo dos engenheiros Barcino Esteve e Francisco Lago:

    Diz-se em tom no muito vago:Com tantos milhes por ano,Quem esteve como lagoPode tornar-se... oceano.

    Andou mesmo a passos de tartaruga a cons-truo do prdio dos Correios. Vamos encontrar

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 67

    no Dirio da Tarde de 4 de outubro de 1961 (pouco mais de um ano depois) nova crtica sobre o atraso das obras:

    De arquitetura bem toscaUm negcio muito feio...At parece de roscaEssa obra do Correio!

    Em maro de 1969, na seo Trs Por Vez.... (nada mais presente do que o nosso passado) - onde rememorava fatos antigos - ele agra-ciou o funcionrio municipal Lus Pacheco, da secretaria da Fazenda, a quem reconheceu ser poeta de rara sensibilidade, com estes versos:

    Na vida te compenetrasPorque a vives sem desdouroEntre o tesouro das letrasE as letras do tesouro...

    A professora Horizontina Conceio (1909-1991) era magrinha, eltrica, durona e altamen-te competente, podendo mostrar, com a rgua ou com o dedo, uma ilha perdida em qualquer lugar do mundo, quase sem olhar o mapa. Magnfica professora tambm de Biologia, con-seguiu, na turma do autor deste livro, no IME, uma autntica proeza: explicou em detalhes a reproduo humana, sem que nenhum daqueles quarenta e quatro adolescentes esboassem o menor sinal de riso.

    Ei-la no trao rpido e profundo de Alberto Hoisel:

    Se o contraste feminino,Ao seu mrito consagroO sbio texto latino:Mens sana in corpore... magro!

  • 68 - Solo de Trombone

    Diretor do IME, inspetor federal de ensino, professor de Portugus e Latim, padre licenciado, diretor da Escola Afonso de Carvalho, secretrio de Educao do Municpio (por mais de uma vez), Osvaldo (Bartolomeu Davino) Ramos era, antes de professor e chefe, um lder. Imitado s escondidas, num gesto de erguer as calas com os antebraos (hbito oriundo do fato de estar sempre com a mo direita ocupada pelo cigarro aceso) era mestre respeitado por todos (*).

    Alberto Hoisel lhe fez justia nesta quadri-nha:

    No mundo em que ns estamosSua modstia assombrosa:Por isso que se diz RamosEssa rvore to frondosa.

    Inteligente professor do IME, o futuro grande gegrafo negro Milton Santos recebeu este elogio:

    Se houve na Histria, falvel,Quem o feito no louvouEle prova indiscutvelDe que a Princesa acertou!

    Lembrado no livro O Que Tinha de Ser, de Marcos Santarrita, Pedro Lima, famoso e mau--humorado professor de Portugus, no foi poupado em sua careca oblonga:

    professor de renomeNo h quem no o conhea:De lima ele tem o nome,De melancia, a cabea...

    (*) Numa tentativa de greve no IME em 1959, pediu aos revoltosos um minuto de ateno, o que lhe foi permitido em respeito e talvez pelo esquecimento de que ele era, dentre outras qualidades, grande orador: subiu dois degraus de escada, fez um comovente discurso e... os alunos voltaram para as salas de aula, desistindo da paralisao.

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 69

    NERVOSDE AO

    Figura de lder, que ele jamais se preocupou em lapidar, era o centro da roda em qualquer bar onde fazia ponto, fosse em Ilhus ou, nas poucas vezes em que abandonou sua cidade, em outros pontos do Brasil ou do exterior. Sua resistncia bebida impressionou Raymundo Pacheco S Barretto, que tambm virava uns copinhos em outros tempos. Dizem que bebida atrapalha negcios, mas no no caso dele, que quanto mais bebia mais melhorava de vida, conta. E lembra que se encontraram no

    Oswaldo Ramos e, acima, esquerda, Horizontina Conceio, dois mestres a quem Z... ferino tratou com carinho e respeito

  • 70 - Solo de Trombone

    Rio e comearam a beber uns chopes nO Amare-linho, um bar famoso do centro da cidade, ainda pela manh. S Barretto saiu para resolver as coisas que o levaram ao Rio e voltou no comeo da noite, para o segundo turno: encontrou Alberto mesma mesa, j em torno de si uma roda ani-mada, bebidos sabe-se l quantos chopes, outros tantos ainda por beber, e a jogar conversa fora.

    J o vi beber doze cervejas antes do almoo, como aperitivo, testemunha Antnio Olmpio. Ariston Cardoso diz ter ouvido dizer que Alberto Hoisel era capaz de enxugar um engradado de cerveja e ir para casa sem dar qualquer sinal de que havia bebido.E no tinha ressaca - complementa santa Ivany, a companheira de mais de sessenta anos de casamento - dizendo que, no importando a extenso da farra, o marido acordava mesma hora, sempre disposto para o trabalho ou pronto a recomear tudo no primeiro bar da esquina... E eram libaes complementadas pelo acurado olhar crtico que derramava sobre a cidade, ao qual nada escapava, como no escapou neste caso:

    Seria, segundo os policiais, atitude suspeita, que, na denominao eufemstica dos religiosos, significa conhecer, ou ainda, em linguagem friamente jurdica, prevaricao? O fato que o dono da Cantina do Cacau (nas imediaes da Associao Comercial) teria encontrado sua mulher certa noite no quintal do bar, o que pouco teria de inusitado, no fosse uma noite fria de agosto, e ela estivesse nua em pelo, nos braos de outro, vizinho gentil e simptico, morador num prdio pertencente a Fernando Barros, dando para os fundos do bar. E, diga-se a bem da verdade his-trica, no era nos braos de um tipo qualquer, como no samba de Lupicnio Rodrigues: os braos em questo eram de um recm-formado advogado e professor, bem falante, bom de bico, de competente

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 71

    cantada e futuro promissor. Descoberto em plena atividade de vamos ver,

    o projeto de causdico, longe de invocar incertos cdigos, pulou esta primeira instncia e recorreu logo s pernas, jovens e fortes, de comprovada eficincia. Com corao, cala e cuecas nas mos, arrepiou desabalada carreira, pois parlamentar com marido mal humorado que chega de repente pura insensatez...

    PRONTARESPOSTA

    O crtico guardara a informao desse tragi-cmico tringulo amoroso e, quando um artigo na imprensa carioca deu uma notcia negativa sobre Ilhus, ele entrou de sola:

    A verrina publicada sob o ttulo Vingana em Ilhus, na edio de 28 de setembro de O Jornal, de autoria ou inspirao de um nosso conhecido campeo de carreiras (ou corridas) noturnas.

    E desancou, a poder de versos bem medidos e bem contados, o advogado ilheense e o rgo lder dos Dirios Associados, do poderoso Assis Chateaubriand:

    Certo leitor fez comentrios por havermos suprimido esta seo [Bolas e Balas ou, simplesmente, bola] em duas das nossas ltimas edies, isso por motivo de fora maior:

    Da bola, caro leitor,Minha impresso aqui vai:Acho que a bola melhorSai... quando a bola no sai!

  • 72 - Solo de Trombone

    Ningum poder dizer-meQual dos dois mais nuseas deu:Se a peonha desse verme,Se o pasquim que a acolheu...

    Correspondente da Tribuna da Imprensa em Ilhus, Alberto Hoisel nem por isso perdoou os coleguinhas, durante a campanha contra a lei de imprensa (campanha que permanece at agora!), em duas quadras fulminantes:

    Pergunta algum com razo:Campanha pr-jornalismoOu contra o analfabetismoDa turma da Redao?

    Da lei de imprensa o perigoFazem combate cerradoTemendo que haja castigoPara quem escreve errado!

    A cidade est muito presente em sua produ-o, s vezes at fora das fronteiras municipais: a coluna Carlos Swann, de O Globo/Rio, publicou que na Bahia se pronunciava gisel o nome de Geisel, um dos generais-presidentes criados pelo golpe de 64. A gracinha teve pronta resposta, publicada no mesmo O Globo de 14 de maro de 1974, com um comentrio de m-vontade, dizendo que o autor ilheense era de maus bo-fes, mas de rima razovel.

    Os versos de rima razovel dirigidos ao redator da coluna, so estes:

    Sendo Vossa SenhoriaEm lnguas um sabicho,Tem um convite BahiaPara ensinar alemo...

    Mas se a injria lhe apraz,

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 73

    Seu campo a bem vasto:Ceve-se em seu prprio pastoE deixe a Bahia em paz...

    Em 1996, o Dirio da Tarde publicou, com Alberto j recolhido, aos 84 anos, um epigrama, comentando uma deciso do presidente da Fun-dao Cultural de Ilhus (Fundaci), Raymundo Pacheco S Barretto: A repercusso negativa causada em todos os segmentos sociais de Ilhus pela terceirizao do nosso teatro, com sua transformao em sala de cinema, fez sair das encolhas o maior epigramista da cidade, que assim se manifesta a respeito da impatritica idia:

    Aos que te querem venderPor polegada ou por metroVive o povo a lhes dizerEm Unssono: vade retro! (*)

    No Flashes & Flechas... de 16 de outubro de 1961, ele protesta, em nome de Ilhus, contra os deputados que tiveram sua eleio assegurada com os votos dos ilheenses e agora querem criar novos municpios, desmembrando-se do j mutilado municpio de Ilhus:

    Vo teu ventre generosoRasgar de novo! demais! o teu tributo onerosoAos neo-czares... fecais!

    Braslia, com toda sua imponncia poltica e arquitetnica, no escapou da lembrana histrica do epigramista, que viu na Novacap um territrio remanescente da antiga Capitania de So Jorge dos Ilhus:

    Nos ouropis da vaidade,

    (*) Para S Barretto, o projeto visava explorar aquele espao com exibio de filmes, quando houvesse vaga na agenda, o que seria bom para o pblico e para o teatro, que iria auferir renda de seu tempo ocioso. Segundo ele, o prefeito Antnio Olmpio, pressionado, revogou a medida, antes que ela fosse posta em prtica.

  • 74 - Solo de Trombone

    Entre as glrias e os trofus,Lembrai que na virgindadeTu pertenceste a Ilhus...

    Como todo bomio que se preza, o grande sarcstico no era insensvel esttica, muito pelo contrrio... Galante, era capaz at mesmo de (acreditem!) deixar abalar suas convices polticas e se mostrar um ocasional simpati-zante da Realeza...

    A Rainha do Cacau, em novembro de 1955, ganhou estes versos, publicados no Dirio da Tarde do dia 21:

    Seu reinado, o da beleza,Sobre os homens tripudia... nele que a naturezaSupera a democracia...

    No Rio, com D. Ivany, fez amizade com um casal num restaurante, vindo a saber que a bela moa se chamava Roma.

    Num guardanapo, escreveu estes versos, a ela dedicados:

    Histria, amor, os tempos no consomem...Palpita, eterno, o Tempo seu sintoma:Ontem um homem que incendeia RomaE hoje Roma que incendeia um homem...

    HORADA VINGANA

    Alberto Hoisel no era apenas simpatizante, mas um militante integralista, chegando mesmo a ser candidato a vereador pelo PRP (Partido de Representao Popular), em 1958. Derrotado, nun-ca mais disputou qualquer eleio, embora tenha apoiado o integralista Pedro Ribeiro, de outra feita

  • ditos & feitos de Alberto Hoisel - 75

    carreado os votos do PRP para Jos Loureno e, mais tarde, para Herval Soledade, um lder popu-lista que, aps o golpe de 64, transformou-se em impedernido homem de direita, duas vezes prefeito de Ilhus (1955-1959 e 1963-1967). Isso sem

    Vista area da Cidade Nova, mostran