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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA KARINE COIMBRA SIMÕES HAUCK VIOLÊNCIA ESCOLAR: UM BREVE ESTUDO SOBRE O TEMA

violência escolar: um breve estudo sobre o tema

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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

    KARINE COIMBRA SIMES HAUCK

    VIOLNCIA ESCOLAR: UM BREVE ESTUDO SOBRE O TEMA

  • JUIZ DE FORA2009

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  • KARINE COIMBRA SIMES HAUCK

    VIOLNCIA ESCOLAR: UM BREVE ESTUDO SOBRE O TEMA

    Monografia de Bacharelado apresentada ao Curso de Cincias Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial obteno do grau de Bacharel em Sociologia.

    Orientao: Dra. Beatriz de Basto Teixeira

  • JUIZ DE FORA2009

    2

  • KARINE COIMBRA SIMES HAUCK

    VIOLNCIA ESCOLAR: UM BREVE ESTUDO SOBRE O TEMA

    Monografia de Bacharelado apresentada ao Curso de Cincias Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial obteno do grau de Bacharel em Sociologia, e aprovada pela seguinte Banca Examinadora:

    _______________________________________ Dra. Beatriz de Basto Teixeira (Orientadora)

    Curso de Cincias Sociais

    _______________________________________Dr.

    _______________________________________Dr.

  • Juiz de Fora, de junho de 2009.

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  • RESUMO

    Este trabalho resultou de estudo acerca do tema da violncia escolar em que se analisou o pensamento de diversos autores atravs de reviso bibliogrfica de textos recentes. Foram identificadas diversas correntes defendidas por estes autores, demonstrando as diferenciaes conceituais utilizadas ao trabalharem o tema. Dentre os aspectos apontados como vetores deste tipo de comportamento esto a indisciplina, a incivilidade, a falta de dilogo tanto entre os alunos e membros da comunidade escolar, quanto entre os alunos e suas famlias. Como alternativa de soluo deste fenmeno esto a abertura da escola comunidade , postura menos autoritria dos professores, insero dos alunos em atividades extra-curriculares.

    Palavras-chave: Violncia. Violncia escolar. Indisciplina. Incivilidade. Dilogo.

  • 6

  • SUMRIO

    INTRODUO......................................................................................................... 05CAPTULO 1 DISCUSSO ACERCA DA DEFINIO DE VIOLENCIA...............06 1.1 - O primeiro grupo..............................................................................................071.1.1 - Na linha de Debarbieux.................................................................................08

    1.2 - O segundo grupo............................................................................................111.2.1 - Na linha de Charlot.........................................................................................13

    CAPTULO 2 - A DISCUSSO ACERCA DA DEFINIO DE VIOLNCIA ESCOLAR.................................................................................................................18 2.1 - O primeiro grupo.............................................................................................182.1.1 - Na linha de Debarbieux..................................................................................20

    2.2 - O segundo grupo.............................................................................................252.2.1 - Na linha de Charlot.........................................................................................26

    CONSIDERAES FINAIS.......................................................................................32 REFERNCIAS..........................................................................................................34

  • INTRODUO

    Esta monografia tem por objetivo o estudo da violncia escolar, que vem

    sendo observada de forma sistemtica, h alguns anos, por vrios estudiosos da

    rea.

    Apesar de causar sentimentos como medo, insegurana, revolta, a

    violncia escolar no um fenmeno novo, visto que j fora identificado na Idade

    Mdia, por exemplo.

    Sendo assim, este trabalho visa realizar, atravs da reviso bibliogrfica,

    um breve estudo sobre o tema.

    No primeiro captulo trata-se da discusso sobre a definio do conceito

    violncia, devido ao fato de que no h consenso sobre sua definio.

    No segundo captulo identifica-se as teorias acerca da conceituao e das

    origens do fenmeno.

    Em ltima anlise, com este estudo pretende-se contribuir para uma

    reflexo a respeito do assunto abordado. Ao aprofundarmos o estudo da violncia

    escolar, tornamos possvel uma viso menos superficial e sensacionalista. O que se

    quer demonstrar que o pesquisador do tema, possuidor de instrumentos de

    embasamento terico, tanto melhor poder trabalhar a sua compreenso de maneira

    que tenha impacto em sala de aula ou sobre a proposio de alternativas para tal.

    A anlise da literatura, ou reviso bibliogrfica sobre o tema, constituiu-se

    na metodologia utilizada neste trabalho, j que se trata do incio de uma investigao

    que certamente no se encerrar neste trabalho. Esta reviso compreende textos

    acadmicos, mais precisamente artigos publicados na revista eletrnica Scielo.

    A categorizao deu-se por meio da tcnica de anlise de contedo,

    numa perspectiva qualitativa. Ou seja, importa saber como os autores apresentam

    cada uma dessas categorias, mais que a freqncia com que os termos aparecem.

    Claro deve estar que, realizada a identificao dos significados atribudos a cada

    categoria, nada impede a verificao do peso com que cada uma aparece na

    bibliografia consultada.

  • CAPTULO 1 A DISCUSSO ACERCA DA DEFINIO DE VIOLNCIA

    Ao estudar o tema violncia, mais precisamente, ao se agrupar de forma

    sistemtica, os autores que dele tratam, sua diferenciao se torna um tanto quanto

    sutil: as conceituaes so basicamente as mesmas, sendo que a distino se

    encontra no enfoque relacionado rea de estudo (antropologia, sociologia,

    psicanlise) ou referente nfase que empregada a determinado tipo de violncia

    j que, em regra, todos consideram que a violncia se subdivide em vrios

    segmentos (fsico, simblico, institucional, infrao penal). Vale salientar que no

    apresentam valor de oposio entre si. Esta diviso tem a finalidade somente de

    melhor esquematizar o estudo e o entendimento do assunto.

    Neste primeiro captulo discutiu-se o conceito de violncia adotado pelos

    estudiosos do assunto, ficando para o segundo captulo o estudo da violncia

    escolar, tema sobre o qual este trabalho trata. Dividindo este estudo, foi possvel

    distribuir os autores em dois grandes grupos que servem como orientao para os

    demais, e subgrupos que, como j exposto, enfatizam algum elemento previamente

    conceituado por aqueles.

    No primeiro grupo encontram-se os autores que consideram violncia

    como sendo um conceito que abrange tanto a violncia simblica, quanto a violncia

    institucional e fsica. Incluem-se nesta classificao o relato das vtimas, ou seja, o

    que as pessoas, no caso as crianas e os adolescentes, consideram, ao viverem ou

    presenciarem algum tipo de violncia. Dentre eles esto Eric Debarbieux, Mirian

    Abramovay, Maria do Rosrio Silveira Porto e Maria Ceclia Sanches Teixeira, Aurea

    Maria Guimares, Jos Vicente Tavares dos Santos, Claudemir Belintane.

    No segundo grupo encontram-se aqueles que subdividem a violncia

    considerada a infrao lei - transgresso (que vai de encontro s normas do

    estabelecimento), incivilidade (que contraria as regras de boa convivncia) e por fim,

    agressividade e agresso. Foram assim agrupados, por enfatizar alguma das

    definies acima descritas. Aqui se encontram Bernad Charlot, lvaro Crispino,

    Luiza Mitiko Yshiguro Camacho, Jlio Jacobo Waiselfisz, Carla Arajo, lvaro

    Crispino, Alice Itani, Sueli Barbosa Thomaz, Eliana Cndido, Jlio Groppa Aquino.

  • 1.1 - O primeiro grupo

    Utilizado como base os trabalhos realizados pelos autores alocados no

    primeiro grupo1, Debarbieux 2 defende que a violncia deve ser estudada em seu

    sentido amplo. Sua afirmativa fundamenta-se primeiro na crtica feita a autores que

    apiam a restrio do conceito de violncia, que causa um inchao epistemolgico

    no mesmo, tornando-o impensvel, devido confuso, tanto lxica quanto

    semntica. Cabe aqui alocar a considerao feita pelo autor de que ater-se apenas

    ao cdigo penal, como afirmam aqueles, seria to relativo como o prprio cdigo,

    por este ser elaborado de acordo com os dogmas e costumes de uma determinada

    poca e, por isso, estar em constante mutao. Um segundo motivo seria o fato de

    que restrio do conceito de violncia de cunho mais factual do que

    fenomenolgico.

    Debarbieux (2002 ver anotaes nas referncias) tambm justifica sua

    posio atravs da afirmao de que definir um conceito, seja de violncia ou de

    outro tema qualquer, no implica, necessariamente, a aproximao da verdade

    absoluta e a-histrica sobre esse conceito, mas sim demonstra como socialmente

    construdo tanto o conceito, como os fatos a serem estudados sendo que

    a verdade no pode existir independentemente da mente humana, uma vez que as sentenas no existiriam, no estariam a, nossa frente. O mundo est do lado de fora, mas no as descries que dele fazemos. Apenas elas podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo, em si, no poderia ser sem a interveno das descries feitas por seres humanos (DEBARBIEUX, apud RORTY, 2002, p 64 ver anotaes nas referncias).

    Com relao ao contexto, afirma ainda que

    O contexto no exterior ao texto, como demonstrou a psicologia histrica (VERNANT, 1972), o contexto homlogo ao prprio texto

    1 Salientando que ao buscar similaridades para fins deste estudo , busquei elementos que aproximassem os autores a serem estudados. Os conceitos defendidos por Debarbieux foi um destes elementos, ou seja, os autores selecionados para este estudo se basearam em vrios outros autores alm deste.

    2 Professor de Cincias da Educao da Universidade de Bordus na Frana e presidente do Observatrio Internacional da Violncia Escolar.

    10

  • a que ele se refere, um universo mental no qual as palavras so uma ferramenta verbal, uma categoria de pensamento, um sistema de representao, uma forma de sensibilidade: as palavras criam o contexto tanto quanto so criadas por ele (DEBARBIEUX, apud RORTY, 2002, p. 64 ver anotaes nas referncias).

    Ao defender o papel da sociologia, o autor alega que o trabalho do

    socilogo consiste em interrogar as categorizaes propostas, as condies sociais,

    econmicas e polticas da emergncia desse problema social e entre outras

    coisas, que papel ns, os especialistas e pesquisadores, desempenhamos em tal

    emergncia, reiterando a sua posio (DEBARBIEUX, 2001 p. 164).

    Por fim, Debarbieux afirma que no devemos restringir o estudo da

    violncia, evitando assim, que o relato das vtimas seja excludo. Segundo o autor,

    uma definio excessivamente limitada pode excluir a experincia de algumas das

    vtimas, ignorando o fato de que a pior violncia deriva da micro violncia (2002, p.

    60). No h, portanto, necessidade de estabelecer uma definio objetiva, contraposta a uma subjetiva. A sociologia de Max Weber tem grande valor aqui, no sentido de que ela nunca erigiu oposio entre as regularidades estatsticas objetivas, que so a verdade das coisas, e a interpretao dos fatos pelos prprios sujeitos (ou antes, a elaborao dos fenmenos como fatos). A verdade de um fenmeno social tambm resulta do significado que os sujeitos na posio de sujeitos sociais do aos eventos e aos atos (POURTOIS et al., 1992). A pior situao e a mais violenta, que um cientista ou qualquer pessoa pode provocar para uma vtima negar que ela seja uma vtima, releg-la ao reino do subjetivismo (DEBARBIEUX, 2002, p. 67 ver anotaes nas referncias).

    1.1.1 - Na linha de Debarbieux

    O primeiro autor a ser trabalhado Abramovay et al, que como vrios

    autores pesquisadores, afirma que definir o conceito de violncia difcil. Em

    conformidade com Debarbieux, defende e utiliza em suas pesquisas a definio de

    violncia em seu sentido amplo, afirmando que violncia um conceito relativo,

    histrico e mutvel. Enquanto categoria, nomeia prticas que se inscrevem entre as

    diferentes formas de sociabilidade em um dado contexto scio cultural e por isso,

    est sujeita a deslocamentos de sentidos (ABRAMOVAY, 2006, p. 54). Deve levar

    em considerao o relato dos que se declaram vtimas de tais atos, sendo que

    11

  • a noo de violncia , por princpio, ambgua. No existe uma nica percepo do que seja violncia, mas multiplicidade de atos violentos, cujas significaes devem ser analisadas a partir das normas, das condies e dos contextos sociais, variando de um perodo histrico a outro (ABRAMOVAY, 2002, p.17).

    Para fins de metodologia de trabalho, a autora divide o estudo da

    violncia em violncia direta, indireta e simblica, sendo que a direta seria a

    violncia fsica, que acarretam prejuzo a integridade da vida humana. A indireta

    seria aquela ligada a aes coercitivas que impliquem em danos integridade

    psicolgica ou emocional. Por fim, a violncia simblica definida pela autora como

    sendo o conjunto das relaes que restringiriam o indivduo nas suas aes,

    pensamento ou conscincia .

    Sobre o sentimento de insegurana, Abramovay et al (2006) afirma que

    este uma forma de se exemplificar o uso do conceito de violncia em seu sentido

    amplo, j que por se tratar de sentimento humano, d-se em nvel abstrato. Por fim,

    Em cada poca e em cada sociedade as representaes e os sentimentos em relao violncia variam. quando saberes, construdos em vivncias, habitus (Bourdieu, 2001) e convivncias diversas, divergem sobre marcos conceituais em relao ao tema. Violncia um conceito que transita entre o metafrico, o simblico, bem como entre definies legais que pedem exames de corpo de delito e provas materiais para configurar o que se entende por violncia passvel de punio (ABRAMOVAY et al, 2006, p. 55).

    Belintane3 (1998) analisa a violncia com enfoque psicanaltico, de

    maneira ampla e de acordo com a proposta feita por Debarbieux (2002, ver

    anotaes nas referncias. Ao analisar uma situao real, utiliza tanto a idia de

    violncia simblica quanto a fsica, a violncia contra o patrimnio e a institucional,

    percebendo o problema como um todo, e observando o contexto em que est

    inserido o objeto de sua pesquisa.

    Teixeira e Porto4 (1998), com enfoque antropolgico, analisam o problema

    da violncia de acordo com um contexto previamente desenhado, em que a

    3 Doutor em educao pela USP4 Professora associada da Faculdade de Educao da USP e professora titular da Unip, Professora doutora da

    Faculdade de Educao da USP

    12

  • violncia seria o somatrio de foras tanto internas quanto externas, o que neste

    caso seria negativo, pois

    nesse contexto, a violncia entendida como um saldo negativo e anacrnico de uma ordem brbara que precisa ser controlada a qualquer preo ou como resposta a uma sociedade geradora de rejeies,de excluses, expresso de xenofobia e de recusa do Outro (BALANDIER, 1997, p. 212 apud SANCHES et al,1998, p. 53).

    A violncia tambm seria conseqncia do movimento de auto-afirmao

    da identidade, enquanto indivduo

    para afirmar sua identidade, uma sociedade ou instituio cria a imagem do Outro. No caso da sociedade moderna, a razo ocidental desprende dela mesma partes irracionais para compor, no mesmo movimento, essa imagem do Outro e da sua prpria identidade, essencialidade, normalidade.

    Sendo assim, quando no se enquadram neste esteretipo, estes

    indivduos ficam alijados da sociedade.

    Guimares5 (1990) ao estudar o tema sob uma perspectiva filosfica,

    trabalha a questo da violncia utilizando o conceito de violncia contra o

    patrimnio. Utiliza-se dos conceitos defendidos por Mafessoli (1987), que a partir de

    uma anlise fenomenolgica-compreensiva, trata do tema da violncia de forma a

    possibilitar o estudo da depredao do patrimnio, objeto de estudo da autora, de

    forma ampla, de acordo com o proposto por Debarbieux (2002). Por conseguinte, se

    a violncia fonte da vida e se manifesta de vrias maneiras, ento no possvel

    analis-la de um nico modo. A prpria pluralidade da violncia indica a polissemia

    do fato social (GUIMARES, 1990, p. 9).

    Enfim, a autora defende que a violncia deve ser estudada em sua

    pluralidade, em que esta seria o resultado da ao recproca entre os indivduos e

    por isto, no s adquire diferentes modulaes em diferentes momentos histricos,

    como tambm estabelece regularidades que apontam para a constncia de sua

    manifestao.

    Arajo (2008), em seu trabalho acerca da formao da identidade de

    jovens da periferia, adota o conceito de violncia abordado por Debarbieux (2002), 5 Doutorado em Filosofia e Histria da Educao

    13

  • de que o fenmeno observado como um todo, ou seja, so considerados tanto

    motivos extrnsecos quanto intrnsecos.

    A violncia neste estudo, portanto, realizada num movimento de auto-afirmao

    perante o seu grupo e para tornar estas aes eficazes, os jovens necessitam de

    justificar suas atitudes. Sendo assim, por no conseguirem expressar-se no nvel da

    linguagem, fazem-no atravs de atos violentos.

    1.2 O segundo grupo

    Bernard Charlot6 (2002), ao tratar do tema, realiza-o de forma a

    estabelecer vrias categorizaes, sendo elas a violncia, a incivilidade, a

    transgresso, a agresso e a agressividade. Defende esta diferenciao para tornar

    o conceito possvel de ser utilizado, apesar de estar em conformidade com

    Debarbieux (2002 ver anotaes nas referncias), afirmando que este fenmeno

    deve ser estudado de maneira ampla. Podemos perceber que a diferena entre os

    dois autores muito sutil: Charlot defende uma diferenciao para o estudo do

    fenmeno enquanto Debarbieux, analisa o problema em sua amplitude, levando em

    considerao o contexto, o relato e classificao das vtimas.

    Com relao ao acima afirmado, Charlot defende que

    no h vida humana sem frustrao e l onde h frustrao h tambm agressividade, pois uma gera outra. E l onde h agressividade, h conflito. Portanto, em sntese, no h vida humana sem frustrao, sem agressividade, sem conflito. Se se considerar que h violncia cada vez que se encontra uma situao que causa mal-estar, que incomoda, frustra, machuca, ter-se- de admitir que a vida toda uma violncia. Essa uma postura filosfica, possvel de ser adotada (prxima a essa a filosofia de Schopenhauer, por exemplo). Nesse caso, porm, o conceito de violncia passa a ser inutilizvel, por ser diludo: quando tudo uma violncia, (2006? ver anotaes nas referncias, p. 18).

    Como sair deste conflito? Como aplicar este conceito sem restringi-lo

    demais ou super ampli-lo? Para tentar sair desse problema o autor aponta a

    diferenciao em nveis de gravidade de um determinado fenmeno, em que formas

    mais ou menos graves de violncia, ou seja,

    6 Doutor em educao pela Universit de Paris , Nanterre, Frana e professor da Universidade Federal de Sergipe

    14

  • quando se trata dos plos do conceito, no difcil dizer o que mais grave e o que menos; por exemplo, inegvel que o homicdio seja mais grave que um silncio de desdm. Mas logo que se afasta dos extremos, faz-se difcil encontrar um consenso acerca do critrio da gravidade. O que pior, receber um murro ou sofrer um insulto racista? A resposta no evidente e varia conforme as pessoas interrogadas (CHARLOT, 2006? ver anotaes nas referncias, p.19).

    Outra sada apontada por Charlot (2002), seria a definio feita pelas

    vtimas, assim como prope Debarbieux (2002) (sendo possvel a mensurao do

    ambiente e de como esto vivendo estas vtimas) mas com algumas ressalvas. A

    primeira seria a de que

    essa abordagem no permite definir medidas sociais e polticas de combate s violncias, pois tais medidas requerem um mnimo de consenso sobre o que uma violncia. Quem quer prestar uma queixa na delegacia ou obter uma proteo da diretora da escola deve alegar um motivo mais objetivo que o olhar ameaador do vizinho ou a falta de respeito do colega (CHARLOT, 2006? ver anotaes nas referncias, p.19).

    Sendo assim, o autor defende a posio de que deve haver uma pr-

    determinao conceitual das categorias que compem a idia de violncia, para

    torn-las passveis de mensurao e para que elas possam ser utilizadas na

    elaborao de possveis solues para tal problema.

    Outra ressalva colocada por Charlot (2006? ver anotaes nas

    referncias) seria a de restringir as dimenses ao perceber o fenmeno: consider-lo

    em suas vrias dimenses e nveis, seja macro ou micro. Como j explicitado acima,

    Charlot faz o uso de diferenciaes conceituais. So elas a agresso, a

    agressividade, a incivilidade, a violncia instrumental e a agresso como uma forma

    de violncia que foi denominada de sintomtica.

    A agressividade estaria relacionada a uma reao biopsquica, em que

    numa situao de frustrao, por exemplo, desencadearia um processo de angustia

    que, por conseguinte, levaria a uma reao de agressividade, inerente ao ser

    humano, no sendo possvel evit-la. A agresso estaria relacionada ao ato que

    implica uma brutalidade fsica ou verbal (agredire aproximar-se, abordar algum,

    atac-lo) (CHARLOT, 2006? ver anotaes nas referncias, p. 21 ). A violncia,

    15

  • ento, seria uma faceta deste tipo de reao, uma caracterstica deste ato, por

    enfatizar o uso seja da fora fsica, do poder ou da dominao.

    Outra distino feita pelo autor seria entre a violncia, que so atos

    praticados em desacordo com a lei; a transgresso, que estaria ligada infrao das

    normas de um determinado estabelecimento no caso do presente trabalho a

    escola, sob forma, por exemplo, do absentesmo e a incivilidade, aquela que fere

    as normas de boa convivncia entre os indivduos.

    Esta distino

    particularmente til, no s porque admite no misturar tudo em uma nica categoria, mas tambm porque designa diferentemente lugares e formas de tratamento dos fenmenos. Assim, um trfico de drogas no depende de um conselho de disciplina do estabelecimento, mas de polcia e da justia; inversamente, um insulto ao ensino deve ser tratado pelas instancias do estabelecimento e no justifica que se chame a polcia. Quanto incivilidade, ela depende fundamentalmente de um tratamento educativo (CHARLOT, 2002, p. 436).

    Reitera que tais definies no so absolutas, pois se assim fossem

    tratadas, tornariam o trabalho impossvel. Contudo afirma que sem as mesmas, o

    trabalho se tornaria um tanto quanto dificultoso.

    1.2.1 - Na linha de Charlot

    Waiselfisz (2006) que h vrios anos desenvolve pesquisas na rea de violncia mais precisamente a violncia sofrida/cometida por jovens. Em seus

    trabalhos intitulados Mapas da violncia lana dados, estatsticas sendo assim

    possvel tal mensurao. Afirma que o tema vem sofrendo, ao longo dos sculos,

    mudanas fundamentais e que o seu progressivo incremento tornou-se um problema

    para a atual organizao das sociedades, especialmente as dos grandes centros

    urbanos, por tomarem propores macro estruturais e por este motivo, serem

    considerados grandes concentradores das questes desta sociedade. Ao citar

    Dubet, confirma que o espao urbano aparece como sintoma, smbolo e

    representao da civilizao e da barbrie modernas (p.14).

    Sendo assim, Waiselfisz (2006) utiliza em suas pesquisas, o conceito defendido e adotado por Charlot (2002) e definido por Michaud em que

    16

  • h violncia quando, em uma situao de interao, um ou vrios atores agem de maneira direta ou indireta, macia ou esparsa, causando danos a uma ou a mais pessoas em graus variveis, seja em sua integridade fsica, seja em sua integridade moral, em suas posses ou em suas participaes simblicas e culturais (MICHAUD, apud WAISELFISZ , 2006, p.14).

    O autor afirma, contudo, que h dificuldades para a definio do tema,

    mas existem elementos em comum nas definies deste, por exemplo, a noo de

    fora ou coero, dano a algum indivduo. Acrescenta que tais mudanas,

    anteriormente apresentadas, devem ser observadas e acrescidas ao conceito de

    violncia, oferecendo ao mesmo possibilidade de mudana.

    Chrispino (ver anotaes nas referncias), prximo autor a ser analisado,

    observa o problema da violncia sob a tica do conflito. Afirma que este inerente

    vida em sociedade e que o o conflito se origina da diferena de interesses, de

    desejos e de aspiraes (2007, p. 16), sendo que estes podem ser intra ou inter

    pessoas e acontecem desde a infncia at fase adulta.

    Os conflitos resultariam da diferena de opinio dos grupos sociais e da

    falta de dilogo. Contudo, afirma que

    O conflito comea a ser visto como uma manifestao mais natural e, por conseguinte, necessria s relaes entre pessoas, grupos sociais, organismos polticos e Estados. O conflito inevitvel e no se deve suprimir seus motivos, at porque ele possui inmeras vantagens ( MICHAUD, apud WAISELFISZ , 2006, p.17).

    Em conformidade com Charlot (2002), Chrispino (2007 ver anotaes nas

    referncias) define classificaes para estes conflitos para melhor estudo do tema,

    utilizando a classificao de outros autores, e as defende reiterando que

    classificar uma forma de dar sentido. A classificao costuma ser hierrquica e permite estabelecer relaes de pertencimento. Ao classificar definimos, e ao defini-lo, tomamos uma deciso a respeito da essncia de algo (CHRISPINO, apud REDORTA, 2007? ver anotaes nas referncias, p. 18).

    Camacho, ao analisar o problema da violncia, ressalta a classificao e

    diferenciao dos fenmenos estudados em violncia, agresso e indisciplina.

    17

  • Considera que a indisciplina se torna instrumento de resistncia dominao,

    submisso, s injustias, s desigualdades e s discriminaes em busca da

    identidade e dos direitos (2001, p. 130).

    Afirma que no possvel estudar o fenmeno da violncia dissociada da

    indisciplina e que cabe primeiramente famlia e depois escola o papel de

    disciplinadores, oferecendo aos indivduos em constante formao, subsdios para o

    convvio na sociedade.

    Thomaz (199- no aparece nas referncias), em uma pesquisa de cunho

    etnogrfico, analisa o problema da violncia sob a tica da violncia fsica, contra o

    patrimnio e a indisciplina. Afirma que esta, nos ltimos anos, vem tomando formas

    diversas, e que isso no um fenmeno novo. Ainda com relao indisciplina e s

    incivilidades, classifica-o como sendo totalitrio e/ou banal.

    A seguir apresenta-se um quadro com a definio de violncia segundo

    os diversos autores consultados:

    AUTOR DEFINIO DE VIOLNCIA

    Eric Debarbieux Defende uma viso geral, ampla do conceito de Violncia incluindo a violncia fsica e a simblica, alm de levar em considerao o relato das vtimas.(ric DEBARBIEUX. A violncia na escola francesa: 30 anos).

    Mirian Abramovay Interveno fsica de um indivduo ou grupo contra a integridade de outro(s) grupo(s)e tambm contra si mesmo abrangendo desde os suicdios, espancamentos de vrios

    18

  • tipos, roubos, assaltos e homicdios at a violncia no trnsito, disfarada sob a denominao de acidentes., alm das diversas formas de violncia verbal, simblica e institucional.

    Maria do Rosrio Silveira Porto, e

    Maria Ceclia Sanches Teixeira

    Consideram violncia em seu sentido amplo, ou seja, tanto as agresses fsicas, assaltos, etc, quanto a violncia simblica e institucional.

    urea Maria GuimaresConsidera violncia em sua pluralidade. Esta seria o resultado da ao recproca entre os indivduos e por isto, no s adquire diferentes modulaes, em diferentes momentos histricos, como tambm estabelece regularidades que apontam para a constncia de sua manifestao.

    Jos Vicente Tavares dos Santos

    Violncia considerada tanto a fsica como a institucional e a simblica

    Claudemir Belintane Considera a violncia em seu sentido amplo, abrangendo o simbolismo por traz dos atos violentos, depredao do patrimnio e etc.

    SEGUNDO GRUPO

    Bernard Charlot Diferencia o fenmeno violncia em trs tipos:violncia : est relacionada a infrao da lei; a transgresso : comportamento que vai de encontro norma do estabelecimento; a incivilidade : contraria as regras de boa convivncia.Considera ainda a diferenciao entre agresso e agressividade em que a segunda uma disposio biopsquica reacional: a frustrao leva angustia e agressividade. A agresso um ato que implica uma brutalidade fsica ou verbal. A violncia remete a uma caracterstica desse ato, enfatiza o uso da fora, do poder, da dominao.

    lvaro Chrispino Ao trabalhar a realidade como um todo, considera que na vida quotidiana, a todo tempo, estamos suscetveis a vrios tipos de conflitos, e que atos de violncia decorrem do no controle ou da falta de capacidade em lidar com tais conflitos. Traz em seus estudos uma classificao dos tipos de conflitos.

    Luiza Mitiko Yshiguro Camacho Define violncia baseando-se na teoria de Charlot, como um conjunto de incivilidades. Considera tambm a fsica.

    Carla Arajo Utiliza a definio de Charlot e Debarbieux para conceituar violncia.

    Jlio Jacobo Waiselfisz Admite como violncia (definido por Michaud) quando, em uma situao de interao, um ou vrios atores agem de maneira direta ou indireta, macia ou esparsa, causando danos a uma ou mais pessoas em graus varveis, seja em sua integridade fsica, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participaes simblicas ou culturais.

    Sueli Barbosa Thomaz Violncia totalitria, anmica e/ou banal.

    Quadro 1 - Sntese deste captuloFonte: autoria prpria

    Neste primeiro captulo realizou-se um apanhado sobre as conceituaes

    acerca do conceito de violncia. A definio deste conceito bastante conturbada, j

    que no h consenso entre os autores sobre a sua delimitao.

    19

  • Debarbieux (2002 ver anotaes nas referncias) e os autores que o utilizaram como base em seus trabalhos afirmam que, ao restringir o conceito,

    ocorrem dois problemas: o primeiro excluir deste fenmeno situaes que podem

    ser tratadas como violncia; o segundo problema com relao excluso do relato

    das vtimas sobre a violncia sofrida.

    Charlot (2006? ver anotaes nas referncias), assim como os autores

    que se basearam em sua teoria, afirma que a violncia deve ser estudada atravs

    da subdiviso de seu conceito, tornando-a, possvel de ser estudada.

    Assim, como j foi apresentado antes, a diferena entre os dois autores

    est no fato de Debarbieux defender que devemos ouvir o relato das vtimas,

    observando o contexto em que ocorreu o ato de violncia, e Charlot defender o

    estudo da violncia atravs das categorizaes utilizadas pelo prprio.

    20

  • CAPITULO 2 - VIOLNCIA ESCOLAR

    De acordo com o captulo anterior, no qual foi feita uma analise geral

    sobre o conceito de violncia, abordar-se-h neste captulo o tema violncia escolar

    segundo as teorias de Debarbieux (2002? ver anotaes nas referncias) e Charlot

    (2006? ver anotaes nas referncias).

    Ser utilizada a mesma sistemtica utilizada no captulo anterior, dividindo

    os autores que seguem a linha terica de Debarbieux e os que seguem a linha

    terica de Charlot.

    2.1 - O primeiro grupo

    Debarbieux (2002) em seu estudo acerca da violncia escolar, afirma que

    o processo de democratizao do acesso escola no trouxe consigo a

    democratizao do acesso ao ensino de qualidade, gerando assim certo bloqueio a

    alguns jovens, ou seja, sua excluso, o que seria uma das causas do

    comportamento violento apresentado por eles dentro do ambiente escolar.

    Ao citar Durkheim, Debarbieux afirma que a escola tem participao na

    formao da personalidade social (2001, p. 165) do indivduo, e que este se

    submete s regras da moralidade. A desigualdade estrutural, segundo o autor,

    inerente ao processo educacional moderno, mesmo se

    fosse ela freada por uma fora contrria, poderia de modo comparvel opresso de uma cultura pelos colonizadores tomar a forma de uma violncia colonial, civilizadora, sem a qual nenhuma sociedade moderna poderia se desenvolver (DEBARBIEUX, 2001, p. 165).

    Debarbieux analisa ainda casos denominados racket (extorso praticada

    por um aluno mais forte (mais velho ou no que o outro) sobre um aluno mais fraco

    (mais novo ou no) com vista obteno de alguma vantagem material

    (DEBARBIEUX, 2001, p. 163) e bulying (que poderia ser determinada como violncia

    continuada tanto contra alunos quanto contra professores), ao se deparar com a

    realidade escolar.

  • A incivilidade um conceito muito utilizado por vrios autores que

    estudam a violncia escolar, sendo que esta , antes de mais nada, resultante da

    pequena delinqncia: passvel de punio e qualificao, embora de difcil

    controle(DEBARBIEUX, 2002? ver anotaes nas referncias, p. 27).

    A utilizao deste conceito nas pesquisas sobre o assunto revelaria o que

    acontece na realidade. Sendo assim, o que grave no um ato de incivilidade,

    mas sua repetio, a sensao de abandono que resulta nas vtimas e o sentimento

    de impunidade que se desenvolve entre os perpetradores (sejam eles jovens ou

    adultos) (DEBARBIEUX, 2002? ver anotaes nas referncias, p. 28).

    Debarbieux ressalta, entretanto, que este conceito pode ser

    extremamente negativo, podendo ser utilizado para estigmatizar uma grande parte

    da populao.

    Sendo assim,

    o uso excessivo do conceito de incivilidade pode levar a uma super qualificao da desordem escolar, o que significaria uma percepo equivocada do que est realmente em questo e, ao mesmo tempo, a tendncia adoo de uma antropologia cultural xenfoba. A incivilidade que ocorre nas escolas no deve ser pensada em termos de uma confrontao entre o brbaro e o civilizado: a incivilidade no falta de civilizao, e tampouco falta de educao. A incivilidade interativa e pode acontecer tanto da parte de adultos quanto de crianas (DEBARBIEUX, 2002? ver anotaes nas referncias, p. 28).

    Devido aos fatos acima elencados, o autor prefere trabalhar com o

    conceito denominado microviolncia, com o qual h a possibilidade de se estudar tal

    fenmeno tanto nos termos da incivilidade quanto da intimidao.

    Salienta que ao estudar o problema da violncia escolar, ao contrrio do

    que afirmam alguns pesquisadores da rea, no se cria o fenmeno falando dele.

    Afirma ainda que este tipo de crtica reducionista e desacredita os trabalhos

    cientficos srios.

    Sendo assim, considera que o trabalho do pesquisador demonstrar, s

    vezes com um cansativo sentimento de repetio, que necessrio, precisamente,

    resistir s tentaes de excesso de segurana, que se alimentam de fatos

    excepcionais que chamam a ateno do pblico e dos polticos (DEBARBIEUX

    apud DOWNING et al, 2002, p. 15? ver anotaes nas referncias).

    22

  • Por fim, o autor critica a posio de alguns meios de comunicao, que de

    forma exagerada, divulgam notcias isoladas transformando-as em verdadeiros

    acontecimentos, criando um sentimento de insegurana exacerbado.

    2.1.1 - Na linha de Debarbieux

    Abramovay et al (2002), em seu estudo acerca da violncia escolar,

    aponta fator novo neste fenmeno forma como vem se apresentando, saindo da

    depredao do patrimnio (no que este no ocorra, mas que, sua ocorrncia, est

    cedendo lugar para outros tipos de violncias) para as agresses fsicas mais

    graves, como homicdio e estupro.

    A autora dota o termo violncias nas escolas, pois

    tem a vantagem de situar o fenmeno no em um sistema institucional, genericamente considerado, mas contemplar a especificidade espacial e temporal de cada uma das suas unidades. Assim, se possvel pensar em mltiplas manifestaes que justificam falar de violncias, tambm admissvel supor que estas tenham lugar em estabelecimentos (escolas), onde poderiam variar em intensidade, magnitude, permanncia e gravidade (ABRAMOVAY, 2002, p. 72).

    A este problema estariam associados outros, como a deteriorao do

    espao escolar, m gesto dos responsveis pela administrao da escola, fazendo

    com que sua estrutura fsica se torne deficitria.

    Outro problema seria a entrada da violncia no ambiente escolar, ou seja,

    a que se origina no exterior desta e a invade, seja atravs do trfico de drogas, seja

    pela prpria excluso a que estes alunos estariam condicionados.

    H ainda o que se levar em considerao as especificidades de cada

    escola, ou seja, o fato de algumas escolas sempre apresentarem casos de violncia

    em seu quotidiano, e outras que, mesmo situadas em reas violentas no

    apresentam a ocorrncia desta.

    Por fim, reitera que a violncia na escola um fenmeno mltiplo e

    diverso, que assume determinados contornos em conseqncia de prticas

    inerentes aos estabelecimentos escolares e ao sistema de ensino, bem como s

    relaes sociais nas escolas (ABRAMOVAY, 2002, p. 70).

    23

  • Este fenmeno traria repercusses na viso e no papel desta escola, em

    que os alunos passam a no acreditar que ela vetor de ascenso social, e por

    reafirmar prticas de excluso, no cumprindo assim, seu papel socializador.

    Claudemir Belintane (1998) utiliza em seu estudo acerca da violncia

    escolar, uma concepo ampla do tema, em que busca diferenciar a violncia que

    inerente ao processo educativo e contextualizar esta instituio no seu meio scio

    econmico.

    Analisa o caso de duas escolas, uma de periferia e outra de classe mdia.

    Na primeira a violncia escolar teria sua origem fora dos muros escolares, em que

    tal situao invade o universo escolar, ou seja, os arredores da escola, o bairro, os

    morros, as periferias andam mesmo transbordando suas violncias sobre a escola e

    sufocando as possibilidades de exerccio da didtica (BELINTANE, 1998, p. 27).

    Outro ponto abordado pelo autor de que esta violncia observada na

    escola da periferia tambm fruto do enfraquecimento ou mesmo desaparecimento

    da autoridade parental, em que o par educar e ser educado, cuja matriz institucional

    comea na tessitura das dinmicas parentais, parece enredado em outra lgica que

    extrapola a subverso comum do filho que luta para subverter o desejo ou o gozo

    paterno (BELINTANE, 1998, p. 28).

    Tambm pode ser apontado como fator desencadeador desta violncia, o

    choque civilizatrio entre os jovens, a famlia, a escola e assim por diante. Este

    processo apesar de ser inerente formao do indivduo, neste caso extrapola seus

    limites normais de conflito.

    Dentro deste contexto, utiliza a teoria de Marcuse acerca da sobretaxa de

    represso em que

    A sobretaxa, a mais-represso de que fala Marcuse, evidente nas camadas desprivilegiadas. As correlaes entre pacto edpico e pacto social so muito incongruentes, o que a civilizao e o Pai prometem em troca da conteno dos instintos agressivos e dos esforos civilizatrios inscrevem-se na categoria do dolo, ou seja, no ganha fora suficiente para sublimar em pactos culturais ( BELINTANE, 1998, p. 28)

    Este choque agregado a outras deficincias sociais, tais como moradia,

    alimentao, lazer, tambm levariam este jovens a desenvolver como soluo de

    seus conflitos, um comportamento violento.

    24

  • Com relao segunda escola, este pacto de que falamos, ou seja,

    aquele feito entre classes que referendam os valores difundidos nela se mantm.

    Este comportamento violento seria uma investidura contra a escola, que

    ao desempenhar suas obrigaes enquanto instituio se transverte do papel

    paterno, ou seja, a metfora paterna, o lugar da lei, oscilar sempre diante de

    possveis novas substituies ou recontextualizaes j que a escola o lugar da

    cultura formalizada, extenso do desejo paterno, da lei (BELINTANE, 1998, p.

    28).

    A investidura violenta contra a escola seria um comportamento normal

    (devido inclusive a presso a que so submetidos os alunos com relao ao

    resultado), inerente ao processo civilizatrio, sendo possvel a sua resoluo com o

    auxlio da psicologia.

    Teixeira e Porto (1998), defendem que dentre os fatores externos que

    levariam os jovens a se comportar de maneira violenta, esto fatores ligados a sua

    condio econmico-social, tais como a misria, a falta de moradia, de lazer ou

    mesmo de polticas voltadas para este pblico.

    Sendo assim, o seu combate exigido tanto pela sociedade quanto pelo

    poder pblico, em que seu tratamento, s vezes inadequado, acaba por criar um

    imaginrio do medo, cujas conseqncias poderiam influenciar o aumento desta

    violncia.

    Este imaginrio seria formado tanto de matria racional quanto

    individualizadora em que

    este imaginrio do medo, bem como sua concretizao, tem suas razes paradoxalmente fincadas, por um lado, numa crena infinita na razo, que pretende explicar o medo por meio do conhecimento cientfico e eliminar simultnea e gradativamente formas simblicas de trat-lo; por outro, num excessivo individualismo prprio do liberalismo moderno (selfmade man), que vem promovendo, cada vez mais, o distanciamento entre os indivduos. (TEIXEIRA; PORTO, 1998, p. 58).

    Sua conseqncia direta seria uma viso etnocntrica, em que h a

    excluso do outro, do diferente, criando uma situao de marginalizao.

    Alm disto, este imaginrio legitimaria o Estado a tomar medidas cada

    vez mais autoritrias e leis mais punitivas, e tambm

    25

  • legitima discursos oficiais de polticos, da mdia, de chefes religiosos, de personalidades diversas, sobre o aumento da violncia e da criminalidade como resultado de uma sociedade em decadncia moral. Famlias desfeitas, liberao das mulheres, liberdade sexual, crise da tica do trabalho, crise da f religiosa, crise moral so algumas causas citadas desse aumento (TEIXEIRA; PORTO, 1998, p. 56).

    O imaginrio do medo alm das conseqncias na sociedade j expostas,

    atua tambm dentro dos portes escolares infiltrando nesta, o que a autora classifica

    de cultura da violncia.

    Esta cultura se manifesta em diferentes modalidades, seja na forma

    institucional, seja na forma simblica, em que a violncia parte da escola e tambm

    dos alunos, atravs da indisciplina, depredaes e agresses.

    Uma alternativa apontada pelas autoras seria a de que a escola voltasse

    a fortalecer seus ritos de forma a redesenhar a linha de aproximao e de cimento

    scio-cultural que une os pares envolvidos. A aproximao da escola com a

    comunidade tambm posta como alternativa para se reverter, canalizar a violncia

    de forma que esta se torne produtiva, e que

    o desafio canaliz-la, organiz-la, integr-la e combin-la com outras prticas sociais e simblicas da escola. Trata-se, em outras palavras, de procurar formas de geri-la enquanto figura da desordem, j que nenhuma sociedade pode ser purgada de toda desordem (GUIMARES,1996 ou 1998? ver anotaes nas referncias, p. 61).

    Guimares (2006) afirma que a escola, ao homogeneizar os pares que

    dela fazem parte (professores, alunos, funcionrios), seria violenta na medida em

    que no admitiria a diferena de comportamento, de pensamento.

    Afirma, tambm, que a violncia inerente ao processo educacional na

    medida em que este dialoga com a transmisso de conhecimento, ou melhor, se

    ensinar mais que transmitir contedos, ou seja, poder gerir relaes com saber,

    a aprendizagem implica uma tenso, uma violncia para aprender (GUIMARES,

    2006 ou 1998? ver anotaes nas referncias, p. 2).

    O papel do professor fundamental neste processo, devendo agir de

    forma a no se impor, buscando sempre a aproximao com os alunos. Sendo

    26

  • assim, deve buscar o equilbrio, para no se tornar autoritrio nem permissivo.

    (GUIMARES, 2006 ou 1998? ver anotaes nas referncias).

    Este equilbrio tambm deve ser buscado pela escola enquanto

    instituio, visto que a busca da eliminao da violncia da esfera escolar acabaria

    com a ambigidade inerente deste fenmeno. (GUIMARES, 2006 ou 1998? ver

    anotaes nas referncias).

    Por fim, a autora afirma ainda que este fenmeno seria uma forma de

    unio, em que quando esta tenso vivida coletivamente, ela assegura a coeso

    do grupo; quando impedida de se expressar, transforma-se numa violncia to

    desenfreada que nenhum aparelho repressor, por mais eficiente que seja, poder

    conter (GUIMARES, 2006 ou 1998? ver anotaes nas referncias, p. 4).

    Jos Vicente Tavares dos Santos, ao estudar o tema da violncia escolar,

    afirma que esta seria fruto de uma evoluo social fruto do capitalismo, e tambm

    do enclausuramento do gesto e da palavra (SANTOS, 2001, p. 107).

    Neste contexto, o papel socializante da escola estaria comprometido, na

    medida em que tal instituio seria local de exploses de atos violentos e conflitos

    sociais, sendo considerado um fenmeno de sociedade .

    O autor observa que apesar de ser sempre criminalizado, o jovem

    tambm vtima do processo educacional, por este ser pautado na autoridade do

    professor e da escola. Afirma ainda que esta violncia fruto do conflito de classes

    e de grupos culturais.

    Tambm faz parte da formao deste fenmeno, a violncia simblica

    exercida pelos professores e funcionrios sobre a comunidade (neste caso a

    perifrica), alm da desproporcionalidade da cobrana que feita escola com

    relao ao seu papel socializador, formador.

    Para compreender tal fenmeno, o autor prope, o reconhecimento e

    reconstruo da complexidade das relaes sociais que esto presentes no espao

    social da escola (SANTOS, 2001, p. 107).

    Enfim, o autor que para pacificar o ambiente escolar necessria a

    integrao da escola com a comunidade em que est inserida, a fim de reconstruir

    os laos sociais abalados pelos atos violentos, alm de tentar entender o que esta

    por traz, obscurecido, em tais atos.

    27

  • 2 - Segundo grupo

    Charlot (2002) ao estudar o fenmeno violncia escola, afirma que o

    problema da violncia escolar no novo, visto que, h registro deste fenmeno

    ainda no sculo XIX.

    O que h de novo so as suas formas de manifestao, como o homicdio

    ou o estupro, que apesar de serem acontecimentos isolados, trazem para a

    sociedade um sentimento de insegurana e a percepo de que os limites j no

    so mais respeitados. (CHARLOT, 2002)

    O autor observa, tambm, que os alunos que se comportam de maneira

    violenta, esto cada vez mais jovens, a infncia no mais vista como inocente

    como j o fora antes. Assim, atualmente, um questionamento pertinente seria com

    relao ao comportamento destas crianas quando se tornarem adolescentes.

    Segundo ele a invaso da escola por terceiros (pessoas de fora desta,

    como ex-alunos, traficantes, membros da comunidade), que na maioria dos casos,

    adentram o interior escolar para se vingar de divergncias ocorridas dentro ou fora

    da escola, tambm um problema enfrentado pela escola.

    O autor destaca, tambm, que em decorrncia desta situao gerado

    tanto nos professores, quanto nos funcionrios, um sentimento de insegurana com

    relao a sua prpria segurana e com relao segurana dos alunos.

    Faz a diferenciao da violncia na escola, escola e da escola. A

    primeira seria aquela ocorrida dentro dos portes escolares, sem ter ligao com a

    instituio ou sua funo. A segunda seria aquela em que o que se pretende atingir

    so a instituio e seus representantes, e a terceira, seria institucional, simblica,

    praticada pela escola e qual os jovens so submetidos. Um exemplo seria a

    distribuio da classe, ou o tratamento recebido pelos alunos (CHARLOT, 2002).

    Observa que nas escolas onde h um alto ndice de violncia, ocorre, de

    acordo com Charlot (2002), uma tenso social, em que por qualquer

    desentendimento desencadeada uma srie de atos violentos. Devido a isto, seria

    necessrio o estudo da fonte destas tenses para que o problema seja diminudo.

    Por conseguinte, o autor aponta como provveis fontes destas tenses a

    localizao da escola, o bairro, a comunidade, o desemprego (que contraditrio na

    medida em que os alunos abandonam a escola ao afirmarem que esta no seria

    28

  • capaz de form-los para este mercado e ao mesmo tempo fonte de esperana

    para o ingresso no mesmo), a falta de articulao entre a sociedade e a escola.

    Estabelece uma relao entre o saber e a violncia escolar, no sentido de

    que, onde h a satisfao no aluno no h violncia, ou seja, este processo esta

    ligado s prticas de ensino quotidianas que, em ultimo caso, constituem o corao

    do reator escolar: bem raro encontrar alunos violentos entre os que acham sentido

    e prazer na escola (CHARLOT, 2002, p. 442).

    2.2.1 - Na linha de Charlot

    Chrispino (2007? ou Chrispino apud Redorta, 2007? ver anotaes nas

    referncias) ao analisar o problema da violncia escolar, afirma que os jovens vem

    na violncia, um grande problema que acaba por afast-los ou atrapalham o

    processo de aprendizagem.

    Contudo, apesar de todas as dificuldades, o jovem ainda cr na

    educao como alternativa e na escola como instrumento de mobilidade social e de

    diferenciao para o futuro (CHRISPINO, 2007? ou Chrispino apud Redorta, 2007?

    ver anotaes nas referncias, p. 15).

    Este autor utiliza o conceito de conflito na tentativa de delimitar o

    problema e propor solues para tal. Neste sentido, classifica como conflito toda

    opinio ou forma de interpretao divergente, referente a um determinado fato,

    acontecimento, sendo que este pode ser intra ou inter pessoal. Devido a isto, afirma

    que o conflito inerente vida em sociedade.

    Defende, ainda, que apesar de o conflito ser considerado fator que quebraria

    a ordem, afirma que o conflito a manifestao da ordem em que ele prprio se

    produz e da qual se derivam suas conseqncias principais. O conflito a manifestao

    da ordem democrtica, que o garante e o sustenta, ou seja, a ordem e o conflito so

    resultado da interao entre os seres humanos. A ordem, em toda sociedade humana,

    no outra coisa seno uma normatizao do conflito (Ibid., p. 17).

    Por conseguinte, destaca Chrispino (2007? ou Chrispino apud Redorta,

    2007? ver anotaes nas referncias), no universo escolar no poderia ser diferente.

    Estes conflitos seriam alguns dos causadores da violncia observados no meio

    escolar. Outra possvel causa apontada pelo autor seria a falta de comunicao

    entre os professores, alunos e funcionrios.

    29

  • Com relao massificao da educao, este autor afirma que esta a

    tambm causa de conflitos, uma vez que, ao abrir a escola para estes alunos com

    diferente historicidade, cultura, comportamentos e assim por diante, no o fez com o

    seu modo de ensinar, e nem mesmo com relao estrutura fsica, em alguns

    casos, ou seja, apesar de ter proporcionado o acesso a escola, esta no modificou

    sua estrutura, no estando assim, preparada para a recepo destes.

    Spsito na anlise do problema da violncia no meio escolar considera a

    violncia como

    todo ato que implica na ruptura de um nexo social pelo uso da fora. Nega-se, assim, a possibilidade da relao social que se instala pela comunicao, pelo uso da palavra, pelo dilogo e pelo conflito. Mas a prpria noo encerra nveis diversos de significao, pois os limites entre o reconhecimento ou no do ato como violento so definidos pelos atores em condies histricas e culturais diversas (1998, p. 3).

    A autora considera tambm a existncia da violncia simblica

    previamente conceituada por Bourdieu.

    Ao buscar as razes da violncia escolar, avalia que apesar de vlida

    nesta situao, realizar apenas o paralelo entre violncia pobreza no suficiente

    para a anlise do problema, visto que, h situaes em que mesmo inseridas em

    comunidades de extrema pobreza, algumas escolas no apresentam altos ndices

    de violncia (SPSITO, 1998).

    Tambm vlidos neste estudo, mas igualmente insuficientes, so os

    aspectos histricos e as razes culturais do Brasil, em que se verifica um conjunto de

    situaes de excluso, corrupo e banalizao da violncia, gerando assim um

    cenrio propcio a esta, devido ao fato de que, segundo a autora, a raiz deste

    problema moderna e deriva do atual processo de democratizao do pas, e que

    alargar direitos em uma esfera no significa, necessariamente, a dilatao de direitos em outras, ao contrrio, pode-se observar a sua retrao ou encolhimento. O processo de expanso de alguns direitos no mbito da democracia poltica, como o voto e outras formas de participao da sociedade, no significa que outros espaos e instituies tenham alcanado estatuto mais democrtico nesse mesmo perodo (SPSITO, 1998, p. 5).

    30

  • Neste contexto, o papel da escola questionado, na medida em que

    houve abertura da escola democratizou o acesso, fazendo-se necessrio a criao

    de espaos pblicos na vida escolar que permitiriam o reconhecimento das

    diferenas, a emergncia de conflitos e de prticas de negociao para a sua

    resoluo, a atenuao das desigualdades e a tolerncia (SPSITO, 1998, p. 5).

    Reiterando o j exposto, a diversidade de situaes onde ocorre a

    violncia, fora da escola, no caso a violncia estrutural, no por si s, determinante

    desta, ou seja, a diversidade tambm sinaliza para o fato de que ambientes sociais

    violentos nem sempre produzem prticas escolares caracterizadas pela violncia

    (SPSITO, 1998, p. 7).

    Por fim, ao analisar a produo cientifica sobre o tema, Spsito (1998)

    afirma que, no houve, por parte do poder pblico, no perodo analisado (1980-

    2000), pesquisa no sentido de se conhecer a fundo o problema e a proposio de

    alternativas para o problema.

    Thomaz (199- ver anotaes nas referncias) defende a idia de que

    alm da violncia simblica disseminada no pas, h tambm uma violncia real, que

    vem se desenvolvendo atravs de uma cultura de violncia.

    Analisa, tomando como referncia o pensamento de Maffesoli, que a

    violncia percebida no ambiente escolar

    representa um certo papel, precisando ser negociada e vista como manifestao maior do antagonismo existente entre a vontade e a necessidade, num confronto de valores, pois a luta fundamento, o elemento estrutural do fato social, de qualquer relao social, como lembra M. Weber (MAFFESOLI apud THOMAZ 2002 ver anotaes nas referncias, p. 12).

    Afirma, ainda, que esta faz parte da escola, da sua constituio, incentiva

    os seus membros a lutarem, reivindicarem condies melhores.

    Sendo assim, observa que a todo momento a escola sofre algum tipo de

    violncia, seja de organismos internacionais ou nacionais, dos prprios funcionrios

    inclusive. O que por vezes considerado violncia, poderia ser observado como

    uma tentativa de desconstruir a rigidez imposta por este e a este estabelecimento.

    Camacho (apud MARGULIS, ver anotaes nas referncias 2001) busca

    desconstruir a ideia de que a violncia est ligada somente a pobreza, aos grandes

    31

  • centros e a atualidade, ao pesquisar este tipo de comportamento em jovens de

    classe media .

    Para estuda-los utiliza os conceitos de moratria social , que seria o

    tempo que os jovens ficam sob a dependncia financeira dos pais,estando assim,um

    tempo prolongado sem responsabilidade, para se dedicarem aos estudos e ao

    lazer. Ja a moratria vital

    crdito temporal, um algo a mais e que tem vinculaes com o aspecto energtico do corpo. Essa moratria se identifica com a sensao de imortalidade to prpria dos jovens. Essa sensao e essa forma de se situar no mundo se associam com a falta de temeridade de alguns atos gratuitos; com condutas autodestrutivas, que colocam em risco a sade que eles julgam inesgotvel; com a audcia e o lanar-se em desafios; e com a exposio a acidentes, e a excessos de todo tipo (CAMACHO, apud MARGULIS, 2001 ver anotaes nas referncias, p.3).

    Com relao ao papel da escola, a autora afirma que , neste contexto, h

    a possibilidade de insero no mercado de trabalho atravs da permanencia

    relativamente prolongada nesta. Esta tambm uma viso destes jovens, tendendo

    a estabelecer uma relao pragmtica com a escola.

    Assim como Charlot (2002), Camacho (2001? ou apud MARGULIS, 2001?

    ver anotaes nas referncias) afirma o papel civilizador da escola, na medida em que

    esta deve hominizar o indivduo, ou seja, deve transmitir a este, os valores,condutas,

    adquiridos pelo Homem no decurso da histria, afim de socializ-lo.

    Dentro deste contexto, a autora afirma que a escola no vem cumprindo

    este papel socializador , deixando margem para os alunos terem contato e

    praticarem atos de violncia.

    Por fim afirma ainda que as pequenas violncias so na verdade

    mascaradas, ressaltando que

    vivemos uma situao paradoxal, porque, de um lado, brada-se contra a violncia e a favor de um retorno tica e, de outro, so produzidas imagens e explicaes para a violncia que impedem a visibilidade e a compreenso da violncia real. A violncia real ocultada por mecanismos ou dispositivos ideolgicos como os da excluso, o da distino, o jurdico, o sociolgico e o da inverso do real (CAMACHO 2001 ou apud MARGULIS, 2001? ver anotaes nas referncias, p. 7).

    32

  • Neste segundo captulo, observou-se as variadas formas de tratar o

    problema da violencia escolar. Os autores, como j exposto anteriormente, abordam o

    problema por vezes de forma ampla, observando-o de vrios angulos, noutras de forma

    restrita, utilizando conceitos pr definidos como parametro para estudar o problema.

    Apresenta-se, a seguir, um quadro com a definio de violncia escolar

    segundo os diversos autores consultados:

    33

  • Autor Definio de violncia escolar

    Eric Debarbieux Para o conceito de violncia escolar aceita uma definio ampla que inclui atos de delinqncia no necessariamente passveis de punio, ou que, de qualquer forma, passam despercebidos pelo sistema jurdico. A voz das vtimas deve ser levada em considerao na definio de violncia escolar, que diz respeito tanto a incidentes mltiplos e causadores de estresse que escapam punio, como o roubo de objetos pessoais durante os intervalos das aulas, quanto quelas agresses mais graves, como o estupro ou o furto.

    Mirian Abramovay Observa o problema das violncias na escolas, ou seja, admite e considera um grupo de aes como a violncia fsica, violncia simblica e a institucional como membros desta rede que acaba por constituir um ambiente violento ou propcio a ele.

    Maria do Rosrio Silveira Porto, e

    Maria Ceclia Sanches Teixeira

    Ao considerarem a violncia em sua amplitude, ressalta a violncia simblica que fruto, em parte, do imaginrio do medo que foi causado pela insegurana trazida pelo aumento desta violncia ou a propaganda de seu aumento.

    urea Maria Guimares

    Afirma que a violncia inerente ao processo educacional, transmisso de conhecimento, e tambm ao tentar tornar todos que dela fazem parte, iguais tanto no comportamento quanto no pensamento. Contudo, afirma que estes problemas se forem administrados, equilibrados podem trazer unio ao grupo.

    Jos Vicente Tavares dos Santos

    Considera que a violncia escolar faz parte do sistema capitalista. Afirma ainda que a falta de dilogo uma das principais causas deste fenmeno por abalar as relaes sociais presentes na escola e ma comunidade em que ela est inserida.

    Claudemir Belintane Admite a violncia em seu sentido amplo, tanto a simblica, quanto a fsica e a institucional. Busca diferenciar a violncia que inerente ao processo educacional daquela que seria prejudicial tanto ao aprendizado quanto as relaes sociais presentes na escola.

    EGUNDO GRUPO

    Bernard Charlot H uma diferenciao conceitual do que chamado violncia na escola - aquela que se passa dentro do espao fsico da escola sem nada ter haver com o ensino ou as praticas escolares; violncia escola - esta sim est ligada as prticas escolares e o ensino; e violncia da escola - esta com relao forma que a escola enquanto instituio de ensino trata os alunos. Salienta que estas definies no so nicas e que apresentam falhas ao tratar desta questo no podendo serem consideradas como absolutas.

    lvaro Chrispino A violncia escolar seria uma srie de conflitos que ao se acumular, ou melhor, ao no serem resolvidos atravs do dilogo entre as partes, acaba gerando episdios violentos dentro desta instituio.

    Luiza Mitiko Yshiguro Camacho

    Como violncia escolar, considera-a como a exacerbao das incivilidades quotidianas que, ao no serem controladas, acabam gerando conflitos fsicos ou verbais.

    Sueli Barbosa Thomaz

    Afirma que a escola sofre constantemente algum tipo de violncia, seja externa a ela ou dos seus membros. Admite tambm que esta violncia fruto da oposio, do confronto entre seus interesses e o interesse dos alunos.

    Quadro 2 - Sntese deste captuloFonte: autoria prpria

    34

  • CONSIDERAES FINAIS

    A violncia escolar um problema que atinge as instituies escolares de

    diversos pases, inclusive as brasileiras, e deve ser estudado de forma aprofundada,

    visto que a escola local privilegiado de aprendizagem e de socializao.

    Este problema aflige no somente as escolas da periferia, mas tambm

    as escolas de classe mdia e alta, como foi verificado neste trabalho.

    Foi observado, tambm, que este no um fenmeno novo, mas a

    produo sobre o tema relativamente recente, uma vez que os primeiros trabalhos

    realizados nesta rea so da dcada de 1980.

    Esta monografia objetivou identificar as variadas definies que so

    utilizadas para o estudo da violncia escolar, utilizando autores que foram divididos

    em duas correntes: uma em que os autores defendem o estudo deste fenmeno de

    forma ampla, e outro em que os autores defendem que necessrio, at para tornar

    vivel seu estudo, considerar o conceito de forma restrita. Procurou, tambm,

    demonstrar como esses autores identificaram as possveis razes que originariam

    este fenmeno.

    Ao estudar o fenmeno da violncia, nos mais diversos ambientes,

    depara-se com um problema conceitual, qual seja, a definio do que ou no

    violncia bastante polmica no meio acadmico. No h um consenso sobre sua

    definio.

    Sendo assim, a primeira corrente defende que a violncia deve ser

    estudada de forma ampla, abrangendo, inclusive o relato das vtimas.

    Ao defender esta posio, o faz pelo fato de considerar que o estudo

    restrito se basearia em dogmas, que por si s so altamente relativos e, ainda, por

    defender que nenhum conceito pode ser considerado como verdade absoluta.

    J a segunda corrente defende que deve haver uma pr - conceituao

    do termo para ser possvel, assim, observ-lo na realidade emprica dos fatos.

    Com relao ao fenmeno da violncia escolar no poderia ser diferente,

    as posies so as mesmas.

    Dentre as possveis origens do problema, foram apontados como

    geradores deste a falha na qualidade do ensino, ocorrida no processo de

  • democratizao da escola e a falta de dilogo tanto entre os alunos e membros da

    comunidade escolar quanto entre alunos e seus pais.

    A perda da autoridade dos pais perante os filhos, a transferncia de

    responsabilidade para a escola no que se refere educao, inclusive a moral dos

    filhos, ou seja, a desestruturao da famlia, enquanto instituio, tambm pode ser

    identificada como possvel causa da violncia escolar.

    Uma constatao importante foi percebida neste estudo, no que se refere

    ao condicionamento deste tipo de comportamento de acordo com a classe social:

    este fenmeno no exclusividade das classes mais pobres. Assim como na

    periferia h escolas situadas em regies violentas que conseguiram manter-se

    longe desta, h escolas de classe mdia em que podem ser evidenciados tais

    comportamentos.

    Por fim, vale salientar que este estudo no teve como pretenso esgotar o

    debate sobre a violncia escolar, mas pretendeu trazer ao debate alguns aspectos

    sobre a temtica no tocante, especialmente, s variadas definies que so

    utilizadas para o estudo da violncia escolar e possveis razes que originariam este

    fenmeno, procurando lanar desafios para a continuidade dos estudados acerca da

    violncia escolar, a fim de se buscar alternativas para a superao deste problema.

    36

  • 37

  • REFERNCIAS

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