Iracema, mon amour - cdn. ?· Iracema, mon amour ... Adorei o livro. Botamos a conversa em dia, tomamos…

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    12-Nov-2018

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<ul><li><p>Iracema, mon amour </p><p>Diego Braga Norte </p></li><li><p> 2 </p><p> Esta obra foi licenciada com uma Licena Creative Commons - Attribution-NonCommercial-</p><p>NoDerivs 3.0 Unported. Para ver uma cpia desta licena, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/ ou envie um pedido por escrito para Creative </p><p>Commons, 171 Second Street, Suite 300, San Francisco, California 94105, USA. </p></li><li><p> 3 </p><p>Em uma histria, os fatos no importam. Como realmente aconteceu irrelevante. O importante como ela merece ser lembrada. E contada. </p></li><li><p> 4 </p><p>Esse dirio foi escrito entre os dias 28 de dezembro de 2004 e 18 de janeiro de 2005. Eu e meu amigo Anselmo partimos de Campo Grande rumo Machu </p><p>Picchu. Com pouco dinheiro e muita vontade, conseguimos completar nossa empreitada. Valeu. Na transcrio do dirio, tentei manter a linguagem oral e </p><p>despojada com que ele foi escrito. Portanto, no se assustem com frases que comeam num tempo verbal e terminam com outro. Gramaticalmente incorreto, </p><p>porm compreensvel. Espero que gostem. A viagem, ns adoramos. </p></li><li><p> 5 </p><p>1 Dia Partida Campo Grande, 28/12/2004. Sob um sol incandescente e com atraso, o Anselmo chegou na precria </p><p>rodoviria campo-grandense. Precria at elogio. Precisamente uma hora e 30 minutos antes, eu chegara l, com as pernas bambas. No caminho, quase bati o fusco do meu av. Foi por pouco. Muito pouco mesmo. Estava desenvolvendo uma velocidade boa, digamos um pouco acima do limite permitido, que era de 60 km/h. Ansioso para dar tudo certo. O farol minha frente fechou. Brequei, lgico. Os freios recm trocados precisavam ainda de uma amaciada. O fusco tinha um bom arranque, mas no gostava muito de frear. Pisei fundo e os pneus comearam a gritar. Um carro estava minha frente, j parado no sinal. Patinei at quase chapar a bunda do carro, ainda bem que a pista ao lado estava vaga, pois eu desviei direita, tirando tinta. Parei j em cima da faixa de pedestres, ou seja, no iria evitar a batida de maneira alguma. Quase foi. </p><p> Cheguei rodoviria s 7h00 e esperei at o nibus chegar. A rodoviria de </p><p>Campo Grande no prima pela beleza arquitetnica, muito menos pela limpeza e praticidade. uma vergonha para uma capital estadual que foi planejada. O resto da cidade bem organizado, com ruas largas e avenidas amplas. E rotatrias. Muitas rotatrias. Adianto que o Pepe no pde viajar por problemas profissionais e o Eduardo no foi por ser um profissional em criar problemas. </p><p> J na casa dos meus avs, o Anselmo me presenteou com um exemplar </p><p>sensacional do Sin City, do Frank Miller. Desde pequeno eu admiro este cara. Adorei o livro. Botamos a conversa em dia, tomamos um caf e samos para andar e suar um pouco. Andamos at a casa dos meus tios. Acordamos meu primo Andr e antes mesmo dele se levantar, j estvamos na sua piscina. Tive que sair da piscina para atender ao telefone, era a minha querida Marina me desejando boa viagem. Depois da piscina e de alguma conversa toa, voltamos para a casa dos meus avs. Banho, almoo e samos para a rodoviria. Nosso bumba estava marcado para o meio-dia, o calor do sol a pino assustador e ainda bem que entramos logo no buso, que inclusive, era muito bom, com vidros fum para amenizar a claridade e ar condicionado para amenizar o calor. Notamos que havia mais uma turma de mochileiros no mesmo nibus. Ainda no sabamos quantos eram e nem para onde iam. </p><p> A to esperada viagem estava comeando. No estava nem um pouco </p><p>nervoso, tampouco ansioso. No estava nada. Peguei o buso como se estivesse pegando um Lapa Penha ou um Butant/USP Helipolis. Assim, sem mais nem menos, como se fosse algo absolutamente trivial. Sem emoo alguma e sem remorso. A estrada era bem plana, como quase todo o estado de Mato Grosso do Sul. O nibus praticamente no fez curvas, era uma reta s. A primeira e nica parada foi num posto prximo da cidade de Miranda, na entrada do Pantanal. Compramos um sorvete e conversamos sobre a diversidade do Brasil. Pararam outros nibus e no posto tinha gringos indo ao Pantanal, mestios, ndios, negros, brancos e japoneses. Com exceo dos gringos, todos os outros </p></li><li><p> 6 </p><p>eram brasileiros. por esta diversidade que o passaporte brasileiro um dos mais visados para roubo e posterior falsificao, todo mundo pode se passar por brasileiro. Peo perdo por essa ltima observao manjada, suada e gasta. </p><p> De volta ao nibus e iniciamos os contatos com os outros mochileiros. Um </p><p>dos caras estava lendo um panfleto sobre Machu Picchu e eu pedi emprestado. Estavam viajando em quatro pessoas, trs homens (Joo, Edwin e Douglas) e uma mulher (Lgia). Joo e Edwin eram residentes da medicina de Ribeiro Preto, o Douglas era irmo do Edwin e era tambm o guia do grupo. E a Lgia era uma amiga deles todos. Chegamos a Corumb e logo chamamos a ateno dos guias locais. Os hotis e as agncias de turismo da cidade colocam funcionrios na rodoviria para abordar os turistas. Quem nos abordou foi um sujeito chamado Junior. Foi educado e prestativo. Explicou-nos que j no havia mais tempo de pegar o Trem da Morte na Bolvia. Falou dos perigos do pas vizinho e das taxas cobradas pelo pessoal da fronteira boliviana. Ofereceu-nos carona at sua pousada. Fomos. Todos numa Kombi velha e barulhenta. A pousada do Junior chamava-se Green Trek e custava R$10,00 por pessoa. Os servios oferecidos e as instalaes eram todos bem R$10,00. No havia segurana, o banheiro coletivo era muito ruim e os quartos apertados no eram nem um pouco confortveis. Agradecemos, pegamos informaes sobre a cidade e samos para procurar outro lugar. Corumb fica nas margens do rio Paraguai, que maior do que eu imaginava e menor do que sua fama. </p><p> Depois de consultar e negociar uns trs hotis diferentes, ns acabamos </p><p>ficando no Hotel Premier, que nos ofereceu um servio justo por R$20,00 cada um. O calor continuava forte e mais um banho antes de sair para jantar foi necessrio. Eu queria comer peixe, o pessoal queria rodzio. Venceu a maioria. No restaurante a Lgia encontrou um conhecido de So Paulo. Ela chinesa e mora no Brasil desde pequena, acabou encontrando com uma turma de mais de 50 turistas chineses radicados em So Paulo. E o guia do povo todo era justamente seu conhecido. Os dois conversaram em chins e o guia tirou vrias fotos nossas. Foi muito estranho. Senti-me numa vitrine. Ou num museu. Somente eu e o Anselmo bebemos cerveja para ajudar a empurrar as carnes e depois da refeio o pessoal foi fazer uma hora de internet e ns fomos dar um rol por Corumb. A praa central bacana, a nica coisa que estragava era a decorao de natal. Paramos em um boteco para espantar o calor e tomar umas cervejas nana nenm. Mesmo noite, o calor nos fazia transpirar. Sentia-me em constante banho-maria. Num caldeiro sob o fogo. As cigarras fazendo uma algazarra lembraram-me a minha infncia. Como que um inseto to pequeno pode fazer um barulho to alto? Inesperadamente, o Anselmo dirigiu-se ao balco e comprou cigarros e fogo. Acendeu. Naquele momento descobri que tinha voltado a fumar. Disse-me que era de vez em quando. Voltamos ao hotel e dormimos. Ainda bem que tnhamos deixado o ar condicionado ligado. </p></li><li><p> 7 </p><p>2 Dia Anselmo e Diego na terra do sol Corumb/Puerto Quijaro, 29/12/04. Acordamos cedo. Tomamos um banho para conter o forte calor e para ter </p><p>certeza que estvamos realmente acordados. Eram 6h30 e o sol j ardia em brasa. Tivemos um caf da manh modesto e justo, compatvel com o preo da estadia. No encontramos o pessoal, porm, o Anselmo, sempre prevenido, j havia escrito um bilhete para eles. Deixou-o na portaria. Depois de pagar e conversar com um sujeito muito caricato que aparentemente era o dono do hotel, ns fomos para o terminal de nibus urbano. No caminho quase que eu tropeo no Gregor Samsa. Srio. Uma barata gigantesca estava no nosso caminho, de barriga para cima e pernas para o ar. No cho ardente de Corumb, at o personagem kafkiano morre de insolao. Sem dvida nenhuma, foi a maior barata que eu j vi em minha vida. Agora, escrevendo este relato, olho para uma rgua, e digo que a barata tinha algo entre 15 e 17cm de tamanho. Sem exagero. Era maior que um mao de cigarros. </p><p> Esperamos no terminal por uns bons 10 minutos e pegamos o Fronteira. </p><p>Depois, outros 10 minutos atravessando Corumb e vendo a bela paisagem pantaneira proporcionada pelo rio Paraguai e pelas reas alagadas prximas ao leito do rio. Atravessamos a fronteira caminhando e foi mais tranqilo do que imaginvamos. Ganhamos um visto para 30 dias e negociamos um txi at a estao de trem. A porra txi estava do avesso! Explico. Na Bolvia, no h indstria automobilstica, mas h leis que permitem importao de carros usados. Portanto, boa parte dos carros velhos da sia, do Brasil e Argentina esto na Bolvia. O txi que pegamos era de marca japonesa, pas onde a direo era do lado direito, como nos carros britnicos. Simplesmente havia uma gambiarra monstro e o carro estava do avesso. O painel era na direita, e a direo foi colocada num buraco, esquerda. As marchas ficaram todas invertidas, bvio, pois eram feitas para serem trocadas com a mo esquerda. Mas o nosso lacnico motorista parecia no se importar com este pequeno detalhe conceitual, tocou em frente. </p><p> As primeiras imagens e impresses da Bolvia me decepcionaram. Era muito </p><p>mais pobre, muito mais suja, muito mais carente e muito mais catica que eu pintava em minha imaginao. Puerto Quijaro revelou-se um dos locais mais pobres e feios que eu j passei. Trabalhando, eu j estive em favelas paulistanas em Sapopemba e Guaianases na zona leste, estive tambm em Helipolis e Engenheiro Marsilac, na zona sul; mas nunca havia passado por alguma coisa parecida com Puerto Quijaro. A pobreza e a carncia so ultrajantes. A quantidade de lixo acumulado nas ruas e em todos os estabelecimentos absurdamente exagerada. Tudo isto sob um sol de mais de 35, sete e pouco da manh. Como sabemos, lixo orgnico exposto ao calor, se deteriora e fede. Fede muito. A cidade fedia a lixo, esgoto a cu aberto, suor e poeira. A maldita garrafa PET merece um captulo parte. So visveis em todos os lugares e direes possveis. Como uma verdadeira praga bblica, elas infestam e contaminam tudo, se alastrando por todos os cantos da Bolvia. E o saldo desta equao macabra gente. O que </p></li><li><p> 8 </p><p>sobra gente. A gente o resto. Sim, apesar de todas as condies desfavorveis h proliferao da espcie humana, h muita gente nas ruas da cidade. Pior, boa parte desta gente responsvel pelo estado deplorvel da cidade em que eles prprios moram. Muitos bolivianos jogam todos os dejetos e sobras no cho. A quantidade de crianas que h na Bolvia tambm chama a ateno. So muitas mesmo, a maioria menor que 12 anos. So muitos os jovens casais que viajam com seus filhos pequenos, e so muitas as mes que andam nas cidades carregando suas crianas. Hoje a Bolvia tem em torno de 8 milhes de habitantes. Certamente este nmero vai crescer rapidamente, e muito. As ruas das cidades transbordam crianas. </p><p> No pargrafo que vocs acabaram de ler e no pargrafo abaixo, iniciei o que </p><p>eu porcamente chamo de sociologia sensorial emprica. Chamo-a assim, com este nome idiota e pretensioso, admito, por falta de outro termo adequado. Peo licena ao impaciente leitor e vida leitora para tecer estes comentrios to pobres quanto a prpria Bolvia. Vendo, ouvindo, cheirando, comendo, bebendo, sentindo e pensando. assim que eu pretendo desenvolver as percepes que permearo a narrativa da viagem. Enfim. Relendo o trecho acaba de me ocorrer uma correo ao termo, l vai: sociologia sensorial emprica de fundo de quintal. Reparem na rima da slaba al e no eco que ela provoca. Assim fica um termo mais prximo do real, ainda que conserve a pretenso. </p><p> Comeo ento falando do povo boliviano. Parafraseando Caetano, diria que </p><p>eles so todos ndios. Ou quase ndios. A maioria do povo de baixa estatura. A mesma maioria tambm parece estar acima do peso. Sim, so baixinhos e gordinhos. No era de se estranhar, dado ao estado crnico que o pas se encontra, proporcionando ao seu povo uma alimentao muito fraca em protenas e fibras, e muito abundante em gorduras e carboidratos. Cultivam mais de 20 tipos de tubrculos, as batatas. Vocs podem achar muito, eu tambm achei; mas os incas cultivavam mais de 200 tipos de tubrculos. Hoje este nmero foi reduzido a praticamente 10% do total. De uma maneira geral, os bolivianos se alimentam muito mal. Mesmo em restaurantes caros a variedade oferecida pouca. Praticamente no comem verduras e legumes. H correntes histricas e antropolgicas que defendem que os incas e outros povos pr-colombianos eram altos, maiores que os europeus que aqui chegaram. Encolheram depois de sculos de fome, humilhao e escravido. Os bolivianos me pareceram um povo muito triste. Digo isto de uma maneira geral, claro que h excees. Os bolivianos apresentaram-se para mim como um povo muito desterrado, pois eles no so espanhis, europeus. Tambm tampouco so ndios; haja visto que mudaram radicalmente seus modos de viver em sociedade. Ou seja, eles aparentemente tm razes muito fracas, tnues. No sabem mais o que so. O clima de pessimismo notrio em toda a Bolvia, e a baixa auto-estima parece impregnada alma e ao carter do povo boliviano. uma tragdia. Falo isto com mea-culpa, visto que ns brasileiros tambm somos um povo ainda em formao, tambm estamos em busca de uma identidade e um carter genuinamente nacional, por mais fragmentado e fugaz que isto possa ser ou soar. Entretanto, os bolivianos me pareceram ainda mais perdidos neste labirinto coletivo em busca de </p></li><li><p> 9 </p><p>seus valores perdidos. E tambm ainda mais perdidos na epopia ptria de forjar e identificar-se com novos valores, algo que ns brasileiros, para mim, estamos conseguindo, mesmo que seja a passos de tartaruga trpega e bbada. </p><p> Em frente debilitada estao de trens de Puerto Quijaro, havia dezenas de </p><p>cambistas. Todos sentados em cadeiras nas ruas. Ou melhor, todas. S vi mulheres trabalhando de cambistas. O cmbio estava de 8 bolivianos (B$) para 1 dlar (US$). Na Bolvia toda, ns no achamos nada superior a B$8,04 para US$1,00. Trocamos uma grana e nos dirigimos para a imensa e tumultuada fila que se juntava no porto principal da estao. Os guardas tinham uma lista com alguns nomes e s entrava quem estivesse nome na lista. Disseram-nos que a lista era feita com um dia de antecedncia, mas se rolasse uma propina, seria possvel botar nossos l. Bom, quase tudo na Bolvia possvel apressar com uma propina. E quase todos so passveis de aceitar a, digamos, gorjeta. Qualquer semelhana com o nosso pas no mera coincidncia. Mas ns no pagamos nada e ningum, a viagem estava sendo feita com poucos recursos financeiros. A sada foi esperar no tumulto, junto com uma multido gritando e sob o sol mais forte que j castigou meu couro. Um calor sem precedentes. J haviam me informado que a regio de Corumb muito quente, mas eu nunca poderia imaginar que fosse uma filial do inferno. Em p, suando mais que tampa de cuscuz, fizemos amizade com quatro caras de Florianpolis, todos estudantes da Federal de l. Dois gachos, Otvio e Flvio, e dois catarinenses, Joo e Gabriel. </p><p> A temperatura era capaz de der...</p></li></ul>