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CADERNO DOUTRINÁRIO EXPOSIÇÕES DIDÁTICAS Divulgação do Espiritismo ORGANIZADO E DISTRIBRUIDO PELO CENTRO ESPÍRITA “ 18 DE ABRIL “ RIO DE JANEIRO BRASIL

CADERNO DOUTRINÁRIO - bvespirita.combvespirita.com/Estudos Doutrinarios - Parte 5 (Centro Espirita 18... · caderno doutrinÁrio exposiÇÕes didÁticas divulgação do espiritismo

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  • CADERNO DOUTRINRIO

    EXPOSIES DIDTICAS

    Divulgao do Espiritismo

    ORGANIZADO E DISTRIBRUIDO PELO

    CENTRO ESPRITA 18 DE ABRIL RIO DE JANEIRO

    BRASIL

  • CAMILLE FLAMMARION

    Astrnomo e escritor, foi tambm um esprita convicto e praticante. Suas obras enriqueceram muito a literatura esprita. Nasceu Camille Flammarion no dia 26 de fevereiro de 1842, na Frana, e desencarnou a 4 de julho de 1925. Ia seguir a carreira eclesistica e chegou a cursar o seminrio de Langres, mas abandonou o seminrio ainda jovem, e foi lutar pela vida. Dotado de muita inclinao para a cincia, ficou adido, aos 16 anos de idade, ao Observatrio de Paris, como aluno de astronomia, tendo sido designado para servir na Repartio das Longitudes.

    Sua maior predileo era justamente a astronomia. Ainda moo, montou um observatrio particular, em Juvisy, o qual foi transferido, depois, para Paris. Fundou a Sociedade Astronmica da Frana e publicou aproximadamente quarenta trabalhos sobre astronomia. Suas obras cientificas foram traduzidas em diversas lnguas. Organizou tambm cursos populares de astronomia. A

    fama de Flammarion comeou, a bem dizer, quando publicou um livro, que logo se tornaria clebre: A pluralidade dos mundos habitados. O livro teve grande e imediata repercusso nos meios mais cultos da Europa, justamente porque apareceu no momento em que muito se acentuava as tendncias materialistas da poca. Foi por causa desse livro que Flammarion se decidiu a estudar o Espiritismo. Houve, realmente, uma coincidncia muito relevante. Conta o prprio Flammarion que, ao passar por uma galeria em Paris, viu exposto O Livro dos Espritos e, pela curiosidade do ttulo, resolveu folhear o Livro; com surpresa, notou prontamente que O Livro dos Espritos defendia uma tese que estava inteiramente de acordo com a tese que ele, defendera em sua obra. Da por diante tornou-se amigo e companheiro de Allan Kardec, tendo trabalhado como mdium, na antiga Sociedade Parisiense de Estudos Espritas. Em 1867 Flammarion publicou outro livro notvel: Deus na Natureza, livro em que, com argumentos cientficos, afirma a existncia de Deus.

    Com esprito crtico, sempre afeito orientao cientfica, realizou estudos e pesquisas durante

    longos anos, o que lhe permitiu escrever As Foras Naturais Desconhecidas e, depois, outros trabalhos de real valor. Entre outras obras espritas, ainda hoje citadas, como fontes autorizadas: O Desconhecido e os problemas psquicos, Casas Mal Assombradas, A Morte e seus mistrios. Coube, finalmente, a Camillo Flammarion fazer o discurso de despedida, beira do tmulo de Allan Kardec, em nome dos espritas de Paris. Nesse memorvel discurso, reafirmou a sua convico esprita e declarou o seguinte: Fra Allan Kardec um homem de cincia e de certo no houvera podido prestar este primeiro servio e a dilat-lo at muito longe, como um convite a todos os coraes. Ele, porm, era o que eu denominarei simplesmente o bom senso encarnado. Deixou Flammarion, como se v, notvel contribuio literatura esprita. No ficou apenas no fenmeno: aceitou a reencarnao que a base da filosofia esprita.

  • O ESPIRITISMO, COMO DISSE ALLAN KARDEC, UMA DOUTRINA QUE

    DIRIGE UM APELO A RAZO. A VERDADEIRA CULTURA ESPRITA , POIS AQUELA QUE LEVA A CRIATURA HUMANA A ENRIQUECER A INTELIGNCIA APRIMORANDO O SENTIMENTO.

    Afirmao reencarnacionista de Flammarion: Nossas existncias anteriores preparam nossa vida atual. Nossa vida atual

    prepara as existncias vindouras. A alma traz, ao reecarnar-se, aptides resultantes dos conhecimentos adquiridos anteriormente.

  • INTRODUO com toda a satisfao que a Diretoria do Centro Esprita 18 de Abril publica o 5 Caderno

    Doutrinrio. claro que o faz com o desejo sincero de concorrer para a divulgao da doutrina codificada por Allan Kardec, em obedincia ao estatuto. O grupo de estudos pequeno, mas o certo que no faltou at hoje o auxlio do alto para que os seus dirigentes, que so meros instrumentos humanos, possam desempenhar sua tarefa, tanto quanto lhes possvel. Conseguimos, felizmente, manter o esprito de equipe em nosso grupo, e por isso mesmo o trabalho no individual, de todos, e quando dizemos todos, abrangemos diretores, associados, freqentadores e amigos. Diretoria cumpre apenas executar o programa do Centro. Continuamos a adotar, em nossos estudos, o mtodo didtico pelo qual se nortearam as atividades deste Centro, desde os seus primeiros momentos. Relativamente parte material, no poderemos esquecer jamais a cooperao dos companheiros. Conquanto no nos seja usual citar nomes, podemos dizer que a publicao de nossos Cadernos Doutrinrios, apesar da luta geral contra a falta de recursos, representa a boa vontade, o esprito de solidariedade dos poucos, mas prestimosos confrades que nunca deixaram de contribuir com sua ajuda financeira para as publicaes do Centro. A todos, indistintamente, os nossos agradecimentos.

    Queremos esclarecer que no presente Caderno figuram alguns assuntos que j foram objeto de estudos anteriores. Todavia, para obedecer ao sentido de seqncia, o Caderno que ora lanamos no poderia deixar de tocar em problemas doutrinrios j referidos nos Cadernos 3 e 4, especialmente por necessidade do prprio desenvolvimento das questes propostas. Se, finalmente, com esta publicao, conseguir levar algum benefcio a quem porventura esteja interessado no estudo da luminosa Doutrina Esprita, dar-se- por muito satisfeita a

    Diretoria do Centro Esprita 18 de Abril Rio de Janeiro, maro de 1959

  • 1 Srie de Palestras Origem, plano e contedo geral do LIVRO DOS ESPRITOS

    1 Palestra: Origem

    J se sabe o que O Livro dos Espritos , obra absolutamente indispensvel a quem queira conhecer a doutrina esprita, rene os ensinos dados por diversos Espritos, atravs de mais de dez mdiuns. , portanto, uma obra de origem espiritual, em sua essncia. Convm notar, entretanto, que esses ensinos no foram apenas recebidos, aceitos e colecionados por Allan Kardec, sem exame, sem crticas. No. necessrio, por isso mesmo, no perder de vista a parte humana, isto , a parte pessoal de Allan Kardec em relao s comunicaes dos Espritos e idoneidade dos mdiuns. Poderia parecer, primeira vista, que o trabalho de Allan Kardec se reduziu a simples coleta de material, sem interferncias, sem esprito analtico, como se tudo houvesse cado mecanicamente do Alto. No, no foi assim que surgiu O Livro dos Espritos , em cujo trabalho de elaborao cabe realmente aos Espritos a parte substancial, sem que, todavia, se possa ou deva concluir a ao do Codificador da Doutrina. Na realidade, e preciso frisar este ponto , logo de inicio , Allan Kardec no recebeu passivamente os ensinos espirituais: formulou questes, ops as suas dvidas, estabeleceu um plano de trabalho, comparou as comunicaes e ainda foi mais longe, porque submeteu ao crivo da razo todas as questes. oportuno lembrar que muitas comunicaes foram por ele rejeitadas, por falta de concordncia lgica. Isto prova saciedade que Allan Kardec interferiu, muitas vezes, na preparao da obra. Se aparecesse, por exemplo, um esprito galhofeiro ou ignorante, e dissesse um absurdo, Kardec seria o primeiro a recusar a comunicao, pois o seu comportamento, durante todo o longo e persistente perodo de organizao da doutrina, jamais se desviou dessa orientao crtica. Podemos, pois, afirmar que Allan Kardec no incorporou nem seria capaz de incorporar doutrina qualquer comunicao ou idia ambgua e obscura. Tudo, como se diz na linguagem vulgar, foi muito bem peneirado, rigorosamente analisado. De fato, O Livro dos Espritos no de autoria humana, e que o diz o prprio Allan Kardec. No fosse ele um missionrio, e todo missionrio, alm de outras indispensveis qualidades morais, deve ter honestidade intelectual. Kardec fez questo de esclarecer que a obra dos Espritos, e por isso o ttulo adequado: Livro dos Espritos. O ttulo j diz a origem da obra.

    2 palestra: Plano da obra

    Convm dizer, preliminarmente, que a introduo, feita por Allan Kardec, uma sntese da doutrina, quanto aos seus princpios bsicos. To necessrio como a leitura da obra, em si, a leitura da introduo, justamente porque o Codificador da doutrina fixou, a, com clareza, os pontos gerais, as noes iniciais do Espiritismo, abrindo caminho para a compreenso indispensvel do conjunto, em suas linhas primaciais.

    Quem l atentamente a introduo de O Livro dos Espritos, antes de qualquer outra

    cogitao, j tem uma idia geral do que seja a doutrina esprita e, assim, deve ter mais facilidade para compreender, depois, o sentido de certas questes propostas e discutidas no corpo da obra.

    O plano das matrias divide O Livro dos Espritos, como se sabe , em quatro partes. A diviso

    no arbitrria nem ocasional, pois no simples arrumao de temas e comentrios sem correspondncia lgica, sem seqncia de pensamento. No, absolutamente! As matrias esto distribudas por ordem metodolgica, isto , partindo das questes mais gerais para as questes especiais, do mesmo modo que, comeando por uma srie de especulaes na ordem metafsica ou transcendental, desce aos problemas prticos ou inerentes natureza humana. O aspecto inicialmente especulativo no se separa do aspecto propriamente humano das aplicaes, pois o Espiritismo , por excelncia, uma doutrina de carter normativo, porque visa, acima de tudo, transformao moral do homem, e por isso tem normas implcitas de procedimentos.

  • Vejamos agora, a diviso geral da obra:

    1 parte: Causas primrias Deus Elementos gerais do Universo, criao, Princpio Vital. 2 parte: Mundo dos Espritos Princpio de progressividade Pluralidade das existncias Encarnao dos Espritos etc.

    3 parte: Leis Morais (Noes iniciais, Leis de adorao, Trabalho, Reproduo, Conservao, Destruio, Sociedade, Progresso, Igualdade, Liberdade, Justia, Amor e Caridade).

    4 parte: Penas e gozos, penas e prazeres futuros. A distribuio dos assuntos obedece ordem do planejamento, em trs etapas: 1 etapa: generalidades, o conhecimento das causas, do Universo e suas leis; 2 etapa: problemas gerais, at certo ponto, mas logo seguido de problemas especficos, como a encarnao dos Espritos, emancipao da alma, interveno dos espritos no mundo corpreo e tantos outros. 3 etapa: aplicaes vida e ao comportamento individual, porque nos indica o modo de proceder perante as leis da natureza, a fim de mantermos conscientemente o indispensvel equilbrio entre esprito e matria, entre o mundo e Deus. Depois da compreenso de todos esses problemas, vem a parte que podemos chamar de conseqncias, porque precisamente a parte que trata do futuro, isto , dos sofrimentos ou dos prazeres, decorrentes da maneira por que se conduziu a nossa existncia. Como remate, a concluso pessoal de Allan Kardec, constituindo o capitulo final, em nove sees, reaviva as concepes bsicas da doutrina. assim, finalmente, que esta organizado O Livro dos Espritos. H encadeamento lgico, da primeira a ltima parte. J se v que no um trabalho de mera compilao ou simples reunio de pensamentos esparsos, sem ordem de seqncia. Quando estudarmos o problema do mtodo, veremos que a doutrina emprega o mtodo dedutivo, quando parte naturalmente das causas gerais, para chegar aos problemas especiais, como emprega tambm o mtodo indutivo, quando parte dos fatos particulares ou das coisas mais prximas para chegar aos conceitos gerais. Isto demonstra que Allan Kardec organizou O Livro dos Espritos com disciplina de raciocnio, dentro da ordem natural do pensamento filosfico, e por isso mesmo, ele prprio declarou que o Espiritismo passou a ser levado mais a srio quando tomou corpo filosfico. 3 palestra: Contedo geral

    H uma srie de questes, que so formuladas obrigatoriamente em qualquer tratado de Filosofia, com a diferena, apenas, de que a interpretao e os argumentos so diferentes, conforme sejam as idias e a escola de cada autor ou tratadista. Os problemas, na ordem geral, so sempre os mesmos, sujeitos a todas as divergncias interpretativas e, consequentemente, podendo levar a concluses opostas, de acordo com o ponto de vista de quem estuda ou discute. Temos, por exemplo, a existncia de Deus, a origem do Universo e da vida, o princpio da evoluo e outros tantos pontos fundamentais da discusso filosfica. Tais problemas so apresentados em qualquer escola filosfica espiritualista, materialista, ecltica etc. e cada qual tem o seu modo de ver, suas premissas habituais, seus argumentos especiais, suas concluses inevitveis.

    A noo de origem do Universo, por exemplo, discutida por um materialista e um esprita, no pode levar s mesmas concluses, no s porque ambos partem de premissas opostas, como tambm

  • porque as idias se encaminham por uma ordem divergente. H ocasies em que, embora as premissas estejam em desacordo, a concluso pode ser coincidente e vice-versa, mas a verdade que, em determinados problemas, no possvel realizar esse tipo de raciocnio; se um dos contendores parte da premissa de que Deus no existe, e se o outro comea afirmando que Deus existe e a causa primria de todas as coisas, naturalmente as concluses vo ser antagnicas. Tudo isto inerente parte geral da Filosofia. No entanto, com as noes gerais, alis indispensveis, a nossa inteligncia fica mais predisposta apreenso de questes especiais, como a natureza do Esprito, necessidade do perisprito, emancipao da alma, laboratrio do mundo invisvel etc. No se pode discutir a ao do Esprito sobre a matria, problema de natureza especial, sem ter, pelo menos, uma idia do que seja o Esprito e a possibilidade ou no de sua existncia. questo de mtodo. Na sistematizao doutrinria do LIVRO DOS ESPRITOS encontramos, portanto, uma parte geral e uma parte especial, com o subsequente corolrio. Ainda na parte geral, certos problemas, apresentados e discutidos pela doutrina esprita, vo incidir forosamente sobre diversas cincias, porque so problemas atinentes s propriedades da matria, origem da vida, evoluo biolgica e espiritual, formao dos seres vivos , raas humanas, inteligncia e instinto etc., etc. Com isto, queremos apenas frisar que o Espiritismo uma doutrina que, como disse Allan Kardec, toca em diversos ramos do conhecimento humano. No exagerou o Codificador do Espiritismo, pois realmente certos assuntos atinentes ao contedo bsico do Livro dos Espritos e de outras obras da Codificao tem relao com algumas cincias, inclusive as chamadas exatas ou positivas. Quando a reencarnao, por exemplo, nos faz pensar na diferena de alguns tipos humanos ou de algumas anomalias fisionmicas, evidentemente nos leva ao terreno da discusso antropolgica; se a doutrina discute o princpio da hereditariedade e a formao dos seres vivos, est entrando na seara da Biologia; se, logo, depois, levanta discusso sobre as propriedades da matria, sua constituio etc., est no domnio da Fsica; do mesmo modo que, ao tratar das propriedades do perisprito e suas relaes com o organismo, no pode deixar de tocar na Fisiologia, e assim por diante.

    Passando, agora, parte especial, vamos encontrar, no contedo fundamental dO Livro dos

    Espritos, assuntos inerentes estrutura da doutrina esprita, como fenmenos psquicos de sonambulismo, intuio, justia da reencarnao, esquecimento do passado, o modo por que os espritos exercem influncia nos atos humanos, inutilidade de objetos materiais, como talisms, e outros. portanto, uma srie de problemas que as concepes bsicas vo suscitando a cada passo. Dizemos que so problemas inerentes estrutura da doutrina esprita, porque embora outras doutrinas espiritualistas tratem dos mesmos problemas, a conceituao e a interpretao do Espiritismo diferem, em determinados aspectos, em relao a outras doutrinas.

    A 3 parte, como se sabe, compreende as Leis Morais, j anteriormente citadas. Qual o objetivo do plano geral dO LIVRO DOS ESPRITOS ao deixar as Leis Morais para depois? Ainda neste ponto vemos a ordem lgica. Ora, as Leis Morais j nos levam para o terreno das aplicaes, pois o homem, para obter o necessrio equilbrio fisico-espiritual, deve viver em harmonia com as leis divinas, no plano natural e no plano moral. Antes de tudo, necessrio compreender a origem divina da harmonia universal (1 parte do Livro dos Espritos), para que se saiba como respeitar as leis divinas. O conhecimento geral sempre anterior s aplicaes. O que aprendemos, ao chegarmos terceira parte da obra, justamente COMO PROCEDER EM FACE AS LEIS MORAIS. o ensino prtico ou aplicado, como decorrncia do que j sabemos pelo estudo das outras partes. Primeiramente vem a especulao; depois, a aplicao, a vivncia, com resultado daquilo que j conhecemos. Temos, pois, na 3 parte do Livro dos Espritos, o ensino de carter pragmtico para o nosso comportamento perante as leis naturais, incluindo o mundo fsico. Isto quer dizer que a harmonia esta em sabermos respeitar, tambm , as leis da matria. A mortificao do corpo no purifica o esprito, como erradamente ensinam certas crenas, e por isso devemos proceder com equilbrio entre o corpo e o esprito: o que purifica o esprito o trabalho, a pratica do bem, a virtude, sem ser necessrio sacrificar o corpo. No diz a doutrina que o corpo o instrumento do esprito? Se assim , temos o dever de zelar o nosso corpo, torn-lo til ao do esprito. No se deve chegar ao exagero de maldizer a matria, chamando-a de coisa imunda, ou imprestvel, pois esta concepo est contra a doutrina esprita. Porventura a matria de nosso corpo tambm no faz parte do plano geral da obra

  • divina? Por que, pois, despreza-la ou madize-la, se o corpo merece tratamento cuidadoso, a fim de que o esprito encontre nele um instrumento adequado.

    Sensatamente, o Espiritismo desaprova todas as crenas ou prticas que levem ao exagero de

    sacrificar o corpo, como reprova o desleixo, a negligncia em relao ao cuidados corporais. Nosso corpo digno, desde que saibamos dignifica-lo, assim como podemos transform-lo em objeto indigno, se praticamos atos atentatrios integridade fsica ou se descambarmos para as extravagncias que degradam. Tudo depende de nosso procedimento, do uso de nosso livre arbtrio, de nossa conscincia de responsabilidade, pois a matria no tem culpa de nossos abusos nem responsvel pelos nossos atos deliberados. Se, na realidade, o esprito sofre a influncia da matria, e a doutrina esprita no desconhece este princpio, tambm certo que o Esprito que comanda os atos humanos. Consequentemente, para viver em harmonia com as Leis Divinas, ningum deve chegar ao exagero de relaxar a defesa do corpo ou desprezar as regras de higiene, como tambm no precisa fugir da vida social e das contingncias biolgicas, alegando o falso pretexto de que necessrio sair do mundo para no cometer pecado. A Doutrina Esprita no ensina isto. Tambm se pratica o mal pelo pensamento. Cumpre a cada qual, e agora ensino da doutrina, evitar os abusos, as licenciosidades, os desregramentos etc., mas da no se segue que o Espiritismo recomende ou aprove um estilo de vida contrrio s necessidades naturais e aos padres regulares da convivncia humana. Quem assim pensa est fora do pensamento da doutrina. claro que, em face do conhecimento adquirido pelo estudo das obras fundamentais da doutrina, os seus adeptos vo, aos poucos naturalmente, modificando os seus costumes, melhorando os seus hbitos, desprezando tudo quanto possa embrutecer ou aviltar o homem. Ento, uma vez chegando este ponto, j podemos compreender que a 3 parte do Livro dos Espritos mostra ao homem o caminho normal do bom procedimento na vida de ralaes, a fim de que no saia do meio termo, isto , nem se prender demais matria, esquecendo o esprito, nem querer viver somente para o esprito, esquecendo a matria. O bom senso deve ser, sempre, o nosso roteiro. O ideal da vida normal no est no puritanismo dos que desprezam o mundo nem est no imediatismo dos que s vivem para as coisas do mundo, mas no equilbrio consciente entre os dois planos, porque ambos so necessrios: o material e o espiritual. o que ensina a doutrina esprita.

    Certas atitudes antiquadas ou extravagantes, em observadas em pessoas que no obedecem as

    aspiraes do meio termo, no podem envolver o Espiritismo, porque o esprita esclarecido no pretende tomar o cu de assalto nem se apresenta em pblico com aparncias de santo. A atitude compatvel com o procedimento do esprita aquela que consiste em se esforar para ser melhor, mais decente, mais honesto, mais compreensivo, mais equilibrado, sem o aspecto de beato nem de manaco. Passemos finalmente a 4 parte da obra.

    Devemos encerrar esta srie de explanaes com a parte final do LIVRO DOS ESPRITOS,

    exatamente a parte que podemos chamar, por nossa conta, de coroamento, porque a parte que se refere s esperanas e consolaes. , naturalmente, o corolrio dos ensinos anteriores. Note-se, mais uma vez, a organizao metdica da doutrina: antes de tratar de consolaes, antes de falar em gozos na vida espiritual, a doutrina d o conhecimento; mostra as leis divinas; chama a ateno do homem para a compreenso da vida, a comear pelo plano material; desperta-lhe o sentimento de dever e responsabilidade, perante as leis da natureza a fim de que uma vez esclarecido, compreenda conscientemente a sua responsabilidade perante a justia de Deus. Se, no entanto, a doutrina comeasse pelas promessas de consolaes como se estivesse anunciando algum paraso, poderia despertar quando muito, a fora da imaginao, mas deixaria de ser, como , uma doutrina de carter normativo, uma doutrina de harmonia entre Deus e o mundo, entre a vida material e a vida espiritual. Antes de tudo, preciso conhecer a natureza, saber comportar-se no mundo, compreender as relaes, entre a vida presente e a vida futura; do conhecimento, vem a noo de responsabilidade; da responsabilidade, vem a luta ntima para se tornar melhor, para se harmonizar com as leis divinas. Isto quer dizer, por outras palavras, que a felicidade no se compra custa de penitncias nem de mortificaes; nossa felicidade, que a paz de conscincia, a tranqilidade espiritual, depende da maneira por que preparamos o nosso futuro, isto , depende das intenes e dos atos que orientam e caracterizam a nossa vida na Terra. Muito se pedir aquele a quem muito foi dado diz o

  • Evangelho. No adianta a devoo puramente mecnica, como no adianta pedir auxlio aos espritos, se cada qual no procura enquadrar-se nos padres da dignidade, melhorando o carter, refinando os costumes, elevando os sentimentos e, acima de tudo, praticando a Lei do Amor, que a sntese de toda a sabedoria divina. Sem chegarmos a esse estado espiritual, que preparado progressivamente pela compreenso e pelo esforo prprio, e por isso no pode ser obra de um impulso fervoroso nem de um ato de f sem isso, no teremos gozos e consolaes.

    No admitindo a idia de cu nem de inferno ou de purgatrio, a doutrina esprita encara o

    problema da vida futura ou vida de alm tmulo, como vulgarmente se diz, em termos diferentes da teologia. Para o Espiritismo a vida futura ou vida espiritual pode ser penosa ou tranqila, luminosa ou trevosa, se o Esprito houver procedido bem ou mal, se abusou de suas faculdades ou se utilizou os recursos humanos para fazer escndalo ou desrespeitar as leis divinas. A experincia da vida terrena, por exemplo, sujeita s leis e necessidades naturais, de que fala a 3 parte do Livro dos Espritos, uma oportunidade para adquirirmos conhecimento e nos melhorarmos moralmente. (Questo n 192, em combinao com as questes 127 e365). Se, entretanto, no aproveitarmos a experincia terrena ou no quisermos cuidar da parte espiritual da vida, a responsabilidade nossa, no de Deus, no dos espritos, no do destino, palavra de sentido vago, uma vez que temos o livre arbtrio, embora no seja absoluto. Que sucede, ento, segundo a filosofia esprita? Voltaremos terra, uma vez, duas vezes, tantas vezes se faam necessrias, em existncias difceis, at que procuremos o caminho reto das leis divinas. No h cu nem inferno: o que h a lei geral de causa e efeito, atravs da reencarnao.

    V-se, portanto, que as esperanas e consolaes, referidas na ltima parte do Livro dos

    Espritos, tem relao com o nosso procedimento, com os nossos atos na vida particular e social. Se, na realidade, no h progresso sem experincia, sem aprendizado, tambm certo que a experincia resulta do trabalho, do estudo, dos sofrimentos, pois tudo serve de meio para o nosso aperfeioamento gradativo. No fosse as decepes e, s vezes, certas humilhaes, certas frustraes, nosso orgulho no seria abatido, e o orgulho uma forma de escravido espiritual, um entrave ao progresso moral; no fossem as dificuldades, as aperturas de vida, no exercitaramos nossa inteligncia; no fossem as quedas, finalmente, trazendo crises de conscincia, provocando a dor fsica ou moral, no teramos oportunidade para reconhecer a nossa ignorncia, os nossos erros. Muitas e muitas vezes, precisamos cair para aprender, pois preciso que desabe o castelo de vaidade e ambies desenfreadas para que o Esprito se compenetre da realidade e possa realizar mais uma etapa de progresso.

    Sem mais inveja, ambio injusta, personalismo, a nossa vida interior ser muito mais feliz.

    Intimamente, aquele que chegar a este ponto, ter gozos que o mundo vulgar jamais poder compreender. a felicidade subjetiva, que se no confunde com a felicidade artificial das grandezas conquistadas pelo engodo, pela violncia, pelos artifcios enganosos. Tudo isto, em suma, uma preparao para as consolaes e para uma vida espiritual mais elevada, mais compatvel com o reino de Deus, que no um reino esttico, cercado de esplendores ou fantasias, mas o reino da justia e do amor. Se, finalmente quisermos ter uma boa vida espiritual, saibamos preparar bem a vida terrena pelo trabalho, pela honestidade, pela prtica do bem. o que nos ensina a doutrina esprita. Temos, com estas explicaes, uma idia geral do contedo doutrinrio do Livro dos Espritos, obra absolutamente indispensvel a quem quiser estudar seriamente o Espiritismo.

    LEITURAS Relativas a esta srie de palestras

    1) Quanto origem da doutrina esprita.

    Ler Prolegmenos , em seguida Introduo d Livro dos Espritos, pois ai se encontra a primeira indicao.

  • 2) Relativamente ao esprito Verdade.

    Convm ler, Obras Pstumas, a comunicao de 25 de maro de 1856, sob o ttulo Meu guia espiritual, pois este assunto muito interessante seno indispensvel parte histrica da doutrina, visto como aquele esprito, chamado pelo nome de Verdade , foi o guia de Kardec na organizao d O Livro dos Espritos. 3) Sobre o LIVRO DOS ESPRITOS

    Sua origem e as circunstncias em que se formou. Indispensvel, segundo o nosso modo de ver, a leitura das comunicaes de 10 de junho de 1856 e

    11 de setembro do mesmo ano, todas contidas em Obras Pstumas , de Allan Kardec, II parte. Necessria ainda a leitura da prpria Introduo d Livro dos Espritos, para que se tenha, logo de incio, uma idia clara do contedo da 1 obra fundamental do Espiritismo.

    4) Critrio e comportamento de Allan Kardec durante a organizao da doutrina.

    Este ponte tambm indispensvel aos que se iniciam ao estudo regular da doutrina. Como se conduziu Allan Kardec perante os ensinos dos espritos? Qual foi o seu critrio pessoal em relao s comunicaes? Como procedeu ele com os mdiuns? Indicamos, como fonte direta, as declaraes do prprio Allan Kardec, na 2 parte de Obras Pstumas, captulo intitulado Minha primeira iniciao no Espiritismo, entre cujas afirmaes se lem as seguintes: Conduzi-me com os espritos, como houvera feito com os homens . Logo adiante: Apliquei a essa nova cincia o mtodo experimental. Utilizou-se diz ele do concurso de mais de10 mdiuns . Ainda sobre o emprego do mtodo experimental, recomenda-se a leitura de Gnese de Allan Kardec, cap. I n 14. Deve ser lido, indispensavelmente, o cap. III, do Livro dos Mdiuns, porque trata do mtodo.

    5) Vida Contemplativa Mortificaes.

    Com referncias participao do homem na vida social, como tambm aos cuidados inerentes ao corpo., assuntos referidos nesta srie de palestras, parece-nos igualmente recomendvel a leitura dos seguintes pontos: questes 657 e718, d O Livro dos Espritos,, assim como o cap. XVII d O Evangelho Segundo o Espiritismo, especialmente o n} 10 do mesmo capitulo.

    6) O Espiritismo toca em diversos ramos do conhecimento.

    Referncia a este ponto: Gnese cap. I n 18, parte final. Como leitura indicada, o cap. III, da 1 parte do Livro dos Espritos, referente Criao, torna-se igualmente necessria porque naquele capitulo so discutidos diversos problemas inerentes a cincias humanas: biologia, histria, geologia, antropologia etc. Do mesmo modo, encontram-se no corpo d A Gnese, de Allan Kardec, especialmente nos captulos VII a XII, problemas que envolvem ao mesmo tempo geologia, astronomia, histria, psicologia est. O cap. XIV, da mesmo obra, por tratar especialmente dos fluidos, abrange at problemas de fsica , como de psicologia e fisiologia.

    J se v que o Espiritismo entra realmente em diversos domnios da cultura humana. NOTA Com o intuito de facilitar o estudo e as consultas, resolvemos citar, no fim de cada sria

    de palestras, as questes ou passagens mais necessrias para a compreenso dos temas estudados. Sabemos, por experincia, que as pessoas ainda no muito familiarizadas com as obras bsicas do Espiritismo quase sempre encontram dificuldades quando querem verificar um pensamento ou encontrar determinado assunto, porque no sabem como e onde procur-lo no corpo da doutrina. Em

  • que livro? Qual o capitulo? ... Qual o nmero da questo a que se refere o assunto procurado ?... Os estudiosos e expositores habituais da doutrina certamente no necessitam mais deste breve auxilio bibliogrfico. Como, porm, o nosso estudo tem preocupao didtica, julgamos oportuno fornecer aos principiantes ou interessados uma espcie de roteiro, para que possam ir logo fonte de consulta, no lugar exato. As pessoas que pretenderem desenvolver a sua cultura doutrinria ou enriquecer a erudio naturalmente sabero procurar maiores subsdios na literatura esprita, que j imensa e cada vez mais vulgarizada. Entretanto, necessrio partir da base. E qual a base? A Codificao de Allan Kardec. No aconselhvel fazer estudo de cpula ou de obras correlatas sem o alicerce das obras fundamentais da doutrina.

    O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO O O A GNESE LIVRO DOS CU E O DOS ESPRITOS INFERNO O LIVRO DOS MDIUNS

  • 2 Srie de palestras Relaes dO LIVRO DOS ESPRITOS com as outras obras da Codificao do Espiritismo 1 - O Livro dos Espritos e o Livro dos Mdiuns

    Antes de apresentar pontos de conexo entre O Livro dos Espritos e O Livro dos Mdiuns parece-nos oportuno lembrar que a doutrina codificada por Allan Kardec pode muito bem ser figurada como um edifcio, cuja coluna central o Livro dos Espritos, pois todos os outros so derivaes desta obra, na qual se acham os princpios fundamentais da doutrina. Seguindo a ordem cronolgica, as obras bsicas do Espiritismo surgiram nas seguintes datas: Livro dos Espritos (18 de abril de 1857); Livro dos Mdiuns (janeiro de 1861); O Evangelho Segundo o Espiritismo (abril de 1864); O Cu e o Inferno (agosto de 1865); Gnese (janeiro de 1868). J fizemos referncia a este assunto no Caderno n 4. Os dois livros introdutrios O que o Espiritismo e o Principiante Esprita destinados a pessoas que se iniciam nos estudos espritas, tratam de questes j desenvolvidas nas obras bsicas. Vejamos, como simples ilustraes, o conjunto das obras bsicas e a posio d O Livro dos Espritos na constituio da doutrina esprita.

    Depois desta explicao preliminar, j podemos fazer um confronto entre O Livro dos

    Espritos e o Livro dos Mdiuns , pela ordem de antigidades, pois o Livro dos Mdiuns que vem logo depois d O Livro dos Espritos, pela sequncia cronolgica. Convm estabelecer, desde logo, duas premissas indispensvel:

    O Livro dos Espritos contm a generalidade, O Livro dos Mdiuns contm uma parte especial, trata de problemas especficos do

    Espiritismo. Podemos, assim, figurar duas ordens de relaes: no campo das idias gerais e no campo das

    particularidades. Faamos ilustraes no quadro negro.

    I Relaes no campo das idias gerais

    EXISTNCIA DO ESPRITO

    H Espritos? Dos Espritos (Sua origem e natureza) Livro dos Mdiuns, cap. I II parte, cap. I, dO Livro dos Espritos O maravilhoso e o sobrenatural Vida esprita Livro dos Mdiuns, cap. II Livro dos Espritos, cap. VI da II parte O Espiritismo exige estudo srio Estudo srio e continuidade Problema do mtodo Livro dos Espritos Introduo, VIII; Livro dos Mdiuns, cap. III Concluso, parte final da obra Natureza das comunicaes Escala esprita. Diferentes ordens de espritos Classificao e ordens Livro dos Espritos, questes 96 a 100 Livro dos Mdiuns, cap. X

  • Neste ligeiro quadro comparativo, queremos apenas dar uma idia geral dos pontos de correspondncia entre O Livro dos Espritos e o Livro dos Mdiuns , no que toca ao problema inicial da existncia do Esprito. J podemos ver, por ai, o sentido de conexo, de que j falamos, pois iremos verificar, a seguir que todas as obras da doutrina esto relacionadas entre si. DO Livro dos Espritos bom repetir - partem as questes fundamentais, enquanto as outras obras, cada qual cingindo-se a questes especiais, desdobram os princpios gerais, com as necessrias aplicaes. Todas elas, porm se prendem fonte, que O Livro dos Espritos.

    Vejamos, agora, as relaes dO Livro dos Espritos com O Livro dos Mdiuns , no que toca

    a certos aspectos especiais. Ilustrao no quadro negro.

    II Relaes no campo das particularidades

    PROBLEMAS OBJETIVOS

    Ao dos espritos sobre a matria Interveno dos espritos no mundo corporal Livro dos Mdiuns, cap. I, segunda parte Livro dos Espritos, cap. IX, 2 parte Viso dos espritos Dupla vista, sonambulismo etc. Livro dos Mdiuns, cap. VI n 19, 2 parte Livro dos Espritos, questo 447 Problemas da obsesso Influncia oculta dos espritos, possessos, Livro dos Mdiuns, cap. XXIII convulsionrios Livro dos Espritos, questes 459, 473 e 481 Identidade dos espritos Perisprito, Diferentes ordens de espritos Livro dos Mdiuns, cap. XXIV Livro dos Espritos, questes 93 e seguintes Fenmenos de sonambulismo, aparies, Emancipao da alma, Sonambulismo Ao do perisprito, dupla vista, Segunda vista, letargia, catalepsia, etc. Intuio etc. Livro dos Espritos, cap. VIII, 2 parte Livro dos Mdiuns, cap. XV e XVI

    Temos, ai, apenas alguns pontos de coincidncia, pois o nosso objetivo simplesmente deixar claro que existem relaes diretas entre os dois livros bsicos do Espiritismo. Naturalmente, os que fizerem comparaes minuciosas encontraro ainda outros ensinos correspondentes.

    Convm lembrar, antes de encerrar esta exposio, que O Livro dos Mdiuns , apesar de seu

    ttulo muito simples no um formulrio, uma srie de regras para se fazer mdium: , antes, um livro de estudo srio, um tratado amplo da mediunidade, em todos os seus aspectos. Embora faam parte uma da outra, como diz o prprio Allan Kardec, so duas obras distintas. Para se entender bem O Livro dos Mdiuns ou tentar experincias medinicas, necessrio ler primeiramente O Livro dos Espritos. o prudente conselho de Allan Kardec, na introduo do Livro dos Mdiuns: aqueles que quiserem ocupar-se seriamente da matria (contedo geral dO Livro dos Mdiuns) aconselhamos que

  • leiam, em primeiro lugar, o Livro dos Espritos, que contm os princpios fundamentais, sem o que certas partes destes seriam dificilmente compreendidas. Necessidade do estudo metdico, portanto. Vejamos, agora, as correlaes dO Livro dos Espritos com os demais livros bsicos da doutrina.

    2 - O Livro dos Espritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo Cronologicamente, O Evangelho Segundo o Espiritismo o livro que vem logo depois dO

    Livro dos Mdiuns . Tendo sido publicado, como j vimos em abril de 1864. O Evangelho o 3 livro bsico da Codificao. Rene, como se sabe, um conjunto de ensinos morais do Cristo. A preocupao de Allan Kardec, quando incorporou as mximas crists doutrina, foi estabelecer uma espcie de terreno neutro, acima das controvrsias religiosas. Precisamente por isso mesmo, o Espiritismo no entra na discusso de problemas histricos nem exegticos: fica com a parte moral, que bsica, e se aplica a todos os homens, e deixa os pormenores, as divergncias e sutilezas verbais para os especialistas em tais assuntos ou para os que desejarem fazer estudos eruditos. Ao Espiritismo interessa fundamentalmente a parte moral do Evangelho, pois esta a cpula da doutrina, como j se disse inmeras vezes. Como assunto de cultura religiosa, interessante discutir mincias, levantar questes sobre o aspecto histrico de certas passagens da vida do Cristo etc.; nada disto, porm, decisivo para a reformar moral da criatura humana, e este, acima de tudo, o verdadeiro escopo da doutrina. Claro que se no deve fechar o campo do estudo e da pesquisa histrica. Jamais! Para evitar mais demandas de carter religioso e a fim de que o Espiritismo ficasse eqidistante de polmicas inoportunas, preferiu Allan Kardec, prudentemente, sensatamente, ater-se parte moral do Evangelho, pois nenhum outro sistema de moral superou, em essncia e solidez, aquilo que o Cristo ensinou e exemplificou. Convm notar, entretanto, que o Espiritismo interpreta o Evangelho, no o Evangelho que interpreta o Espiritismo. com a chave do Espiritismo que compreendemos o pensamento de muitos ensinos fundamentais do Evangelho. No podemos, pois, estudar o Evangelho, tal qual se acha no Novo Testamento, desprezando os recursos e as elucidaes da doutrina esprita. Nosso estudo evanglico deve ser feito, sempre, LUZ DO ESPIRITISMO, para que possamos, assim, compreender o pensamento vivo do Cristo como soluo para os problemas do destino humano.

    Allan Kardec explica muito bem este ponto na prpria introduo dO Evangelho Segundo o

    Espiritismo, cuja leitura se torna cada vez mais necessria. A princpio, o Codificador do Espiritismo escolhera, para esse livro, o ttulo de Imitao do Evangelho, e ele quem no-lo diz. Logo depois, entretanto, por sugesto do editor Didier e de outras pessoas, resolveu dar-lhe o ttulo definito de Evangelho Segundo o Espiritismo. Veja-se bem que o ttulo j exprime a orientao da obra: o Evangelho Segundo o Espiritismo, no o Espiritismo segundo o Evangelho. O Evangelho pode ser interpretado segundo o Budismo, segundo o Catolicismo, segundo a Igreja Luterana etc., etc. Cada qual tem a sua interpretao, mas o Evangelho, isto , a Boa Nova anunciada por Jesus, um s; a sua mensagem dirigida a TODOS, sem cogitao de grupos, nem de raas ou de seitas. Ora, a doutrina esprita apoia-se em fenmenos psquicos e provas medinicas; seus raciocnios essenciais so inteiramente concordantes com a tese da reencarnao. Logo, a interpretao esprita, a no ser em determinados pontos gerais, como a existncia de Deus e da alma, no pode coincidir com a interpretao catlica do Evangelho, nem com a interpretao protestante, por exemplo. Abstendo-se de apreciar questes dogmticas e pontos de vistas de escolas ou correntes, o Espiritismo extrai do Evangelho a sua substncia, isto , a parte moral, pois a moral do Evangelho est acima de todas as controvrsias e todos os sofismas. O Espiritismo adota a moral de Jesus, porque ela condiz inteiramente com o carter e os objetivos da doutrina esprita. Passemos, agora, s relaes dO Evangelho Segundo o Espiritismo com O Livro dos Espritos.

  • Ensino Coletivo

    Concordncia Universal Origem da doutrina esprita. Ensino dos espritos Introduo dO Evangelho Segundo O Livro dos Espiritismo o Espiritismo, parte II Esprito de Verdade Prolegmenos

    Espiritismo e Cristianismo

    Complemento dos ensinos do Cristo A doutrina esprita e a moral de Jesus O Evangelho Segundo o Espiritismo O Livro dos Espritos, questes 625-627 Cap. I n 7 e 8 Tambm na parte final do mesmo livro Concluso, seo VIII

    Pluralidade dos mundos H muitas moradas na casa do meu pai Encarnao em diferentes mundos O Evangelho Segundo o Espiritismo Mundos transitrios Cap. III; n 25 O Livro dos Espritos, questes 172, 234 e 235

    Reencarnao em planetas inferiores O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. III n 5 questes 174, 178 e 192.

    Ressurreio e Reencarnao O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. IV Pluralidade das existncias questes 166 a 196

    Reencarnao em planetas inferiores O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. III n 5 questes 174, 178 e 192.

    Esquecimento do passado O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. V n 11 questes 392 a 398

  • Suicdio O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. V n 14 questes 943 a 955

    O Consolador Prometido O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. VI n 3 cap. XXIII n 17 questes 627

    Inimigos desencarnados O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. XII n 5 questes 295 e 296, 459 a 480 e 549

    Problemas do parentesco O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. XIV n 8 questes 203 a 217

    Problema da propriedade O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. XVI n 9-15 questes 880 a 885

    Livre arbtrio e determinismo O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. IX n 10 cap. XXVII n 6 a 12 questes 368, 843 a 867

    Cuidado com o corpo

    O Espiritismo reprova o desleixo corporal, a macerao e as privaes voluntrias. O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. V n 26 questes 718 a 721

  • Vida Social

    O Espiritismo no aprova o isolamento sistemtico, a fuga aos deveres humanos. O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. XVII n 10 questes 766 a 772

    O Espiritismo e a moral do Evangelho O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. XVII n 4 questes 625 e 627, tambm na Concluso do Livro, parte final, seo VIII.

    Orar bem

    O valor da prece no est nas palavras ou na atitude, mas no sentimento. O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. XXVII n 4 e 15 questo 660

    Necessidade da instruo O Evangelho Segundo Espiritismo O Livro dos Espritos Cap. VI n 5 amai-vos... Instrui-vos. Questes 192, 365 e 791 Com estas referncias, que so apenas indicaes, podero os principiantes ou interessados verificar os pontos de correlao entre O Evangelho segundo o Espiritismo e O Livro dos Espritos, obras bsicas da doutrina. Podero ir mais longe, procurando outros liames entre as duas obras. Queremos, apenas, dentro de nosso plano de trabalho, mostrar o entrosamento, como j fizemos ver desde o comeo de nossos estudos doutrinrios. O Evangelho nem preciso dize-lo o nosso cdigo de procedimento. Devemos, porm, interpretar o Evangelho luz da doutrina esprita e, no, fazer dele uma espcie de brevirio. Os ensinos do Cristo nos chamam responsabilidade a todo o momento e em todas as situaes da vida. intil esperar graas dos cus sem esforo prprio, sem fazer por merecer. o prprio Cristo quem diz: A cada um segundo as suas obras. O espiritismo pela via da razo esclarecida, nos faz compreender, no a letra, mas o esprito do Evangelho, que a bssola de nossa vida, desde que nos compenetremos de que precisamos realizar, antes de tudo, a nossa reforma ntima para podermos colocar o Reino de Deus em ns, como recomendou Jesus.

  • 3 - O Livro dos Espritos e O Cu e o Inferno Depois da publicao dO Evangelho segundo o Espiritismo, vem O Cu e o Inferno, por ordem cronolgica. Esta ltima obra saiu em agosto de 1865, e tem a seguinte denominao original: Esta ltima obra saiu em agosto de 1865, e tem a seguinte denominao original: O Cu e o Inferno ou a Justia de Deus segundo o Espiritismo. uma obra que tem, como se v, imediatas relaes com O Livro dos Espritos, porque trata especialmente da vida futura e das questes atinentes justia divina. Poderamos dizer que o livro em que se discutem os problemas teolgicos. De fato a teologia tem as suas concepes de inferno, cu, purgatrio, paraso etc., e com isto se formam dogmas tradicionais. Foi precisamente para examinar esses problemas luz do Espiritismo que Allan Kardec incluiu uma obra especial, com o ttulo de O Cu e o Inferno, no corpo da Codificao. O livro esta dividido em duas grandes partes: a 1 parte consiste na discusso doutrinria acerca da morte, bem como a respeito de demnios, anjos, penas eternas e outros ensinos teolgicos: a 2 parte rene, como elemento de confirmao, diversas comunicaes de Espritos, nas quais se apresenta o problema da morte de modo objetivo. , portanto, a parte prtica, corroborando a teoria. um livro necessrio, como os outros, tanto mais quanto o problema da justia divina fundamental para a doutrina esprita. Sem uma explicao lgica deste problema, a filosofia do Espiritismo ficaria sem um ponto de segurana quanto ao destino humano, uma vez que todas as discusses filosficas dizem respeito, no fundo, ao grande problema de se saber se existe realmente uma justia acima da justia humana e qual o nosso destino aps a morte: o cu, o estado nirvnico, o inferno, o purgatrio, a beatitude indefinida, o nada absoluto dos materialistas radicais?... Afinal, para onde vai a alma?... Tudo isso sempre causou preocupao ao homem, em todos os tempos. Os telogos e os filsofos escreveram muito, mas no deram uma resposta inteiramente satisfatria ao problema. Fazia-se necessrio, para o Espiritismo, um livro que tratasse, especialmente, de tais problemas, visto como os outros livros se preocupam com assuntos diversos, embora partindo da mesma base. A doutrina esprita, como um todo, no poderia ficar incompleta. Da a importncia de uma obra com O Cu e o Inferno, parte integrante da Codificao do Espiritismo. Depois desta sucinta introduo, podemos examinar as relaes dO Cu e o Inferno com O Livro dos Espritos, de acordo com o plano desta srie de estudos.

    O problema da morte em face do Espiritismo O Cu e o inferno O Livro dos Espritos Os primeiros captulos dizem respeito No cap. III da 2 parte (questes de 149 a 165) a dois problemas que se completam. o problema da morte discutida amplamente, O porvir e o nada; causas do com a idia fundamental de que o porvir do temor da morte. esprito destri a idia negativa do nada O Cu e o inferno O Livro dos Espritos Captulos III, IV, V, VI: A reencarnao explica a sabedoria da Cu, inferno, purgatrio, doutrina justia divina, com este princpio: Das penas eternas. o bom pai deixa sempre aberta a seus Mostra que impossvel conciliar tais filhos uma porta para o arrependimento. Concepes com a doutrina esprita, Questes 166 a 171. Cuja filosofia tem por base a reencarnao

  • O Cu e o inferno O Livro dos Espritos Discusso sobre anjos e demnios, Anjos e demnios: questes 128 a 131 Nos captulos VIII, IX e X da 1 Diferentes ordens de espritos: Parte, mostrando que tais noes Questes 96 a 126 So apenas fices teolgicas. O Cu e o inferno As penas futuras, segundo o Espiritismo. Teoria de que a carne e fraca... Captulo VII: discute-se, neste captulo, a influncia do organismo sobre as tendncias viciosas, pois a tese esprita, no abonando incondicionalmente o pretexto de que a carne fraca, por ser contrrio ao princpio do livre arbtrio, mostra que as tendncias para a animalidade, como para o vcio e o crime, decorrem do atraso do esprito. o esprito que influi sobre a carne e, no a carne sobre o esprito. Mais adiante, porm, a doutrina mostra, no Livro dos Espritos (questo 367) que h influncia recproca entre o corpo e o esprito. Todavia, quanto mais elevado o esprito, menor a influncia do corpo sobre ele. Logo, o homem no pode querer justificar os seus vcios e os seus abusos com a desculpa corrente de que a carne fraca. O problema exige consideraes. O Livro dos Espritos Questes 958 a 989. Todo o problema das penas futuras esta discutido e interpretado no desenvolvimento suscitado por essas questes, luz da reencarnao. Quanto ao problema do livre arbtrio em face das imposies da matria e dos instintos, as questes 367, 711, 712, 845, 846 a 850 elucidam as idias discutidas sobre o assunto, dizendo claramente qual a posio da doutrina esprita em face da tais problemas. V-se, finalmente que O Livro dos Espritos , como fonte bsica, fornece os elementos primordiais para a compreenso dos problemas propostos nO Cu e o Inferno . Diz a doutrina: O instrumento no d a faculdade. Tendo o homem o instinto de assassino, seu prprio Esprito quem possui este instinto...

    Temos, ai, nesse confronto, a concordncia entre as duas obras doutrinrias: O Cu e o Inferno e O Livro dos Espritos. A primeira desdobra o que est na segunda obra, condensado em princpios gerais. Se, por um lado, a teoria da penas eternas , por exemplo, inconcilivel com a doutrina esprita, principalmente porque contrria prpria idia da bondade divina, tambm certo, por outro lado, que o Espiritismo no nega a existncia da sano na vida futura. A toda falta corresponde uma sano. O provrbio popular esta certo: quem faz aqui ou ali, paga... Ao invs de admitir penas eternas, o que inconcebvel, a doutrina esprita faz sentir o homem que o princpio de RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL permanece no tempo e no espao. Isto quer dizer que, se a criatura humana fez o mal, a responsabilidade fica, e continua para alm da sepultura, na outra vida, como se costuma dizer; tanto faz mudar de pais ou trocar de nome, tanto hoje como daqui a um sculo, a dvida no desaparece. O faltoso pagar, cedo ou tarde, o ltimo ceitil, como diz o Evangelho. Pagar... como? Indo para o inferno? Ficando eternamente sob as penas implacveis? No! Ensina a doutrina esprita que a lei moral esta na conscincia de cada um de ns, e justamente essa lei que nos acusa ou nos absolve, no foro ntimo. A conscincia no morre, porque o esprito imortal, e se a conscincia no morre, a responsabilidade no se extingue no tmulo, pois continua a acompanhar o esprito em todos os seus passos. A reencarnao , portanto, o meio qual o esprito volta terra, pagando o ltimo ceitil, para que se cumpra toda a Lei.

  • A reencarnao tambm um meio de progresso. O esprito faltoso paga o que fez, mas pode , a seguir, realizar o seu progresso atravs do trabalho e da virtude. No h um ponto final na jornada do esprito. O inferno seria esse ponto final, em contraposio prpria lei do progresso. A idia de inferno uma negao da sabedoria e misericrdia divina. O Espiritismo leva o homem a compreender em primeiro lugar, que, sendo o esprito imortal, todas as nossas faltas, como todas as nossas virtudes ficam no acervo ou na bagagem do esprito, e4 vo influir no progresso ou no retardamento futuro; em segundo lugar, que a responsabilidade pelas faltas ou pelos crimes ocultos ou descobertos, obriga a volta do esprito a novas existncias, pelo fio inevitvel da reencarnao. Se assim , no adianta encobrir, no adianta disfarar, porque a verdade vai aparecer, de qualquer forma. Justamente por isso mesmo, o esprito deve ter uma conscincia do dever muito lcida e ativa, porque j sabe que, embora possa fugir ao julgamento da justia humana, no escapa s acusaes de sua conscincia nem foge ao cumprimento da Lei Divina. No h mrito em proceder bem sob a vigilncia de um fiscal ou com medo dos Tribunais. O mrito esta exatamente na ao que o indivduo pratica, em razo da conscincia do dever, ainda que no esteja sendo observado. O homem de bem, alis, no precisa ser fiscalizado para cumprir os seus deveres. Antes da lei escrita, existe a lei moral, gravada na conscincia. H pessoas que, embora sejam crentes, embora se digam religiosas, ainda no compreenderam bem o problema da responsabilidade futura. Tais pessoas, (algumas delas so pontuais em suas devoes), cometem os atos mais ilcitos, praticam as aes mais vergonhosas e pensam que, iludindo a sociedade ou conseguindo ser absolvidas pela justia humana, custa de amizade influentes ou de recursos da terra, j resolveram o seu problema... Que engano!... E a justia divina? E o tribunal da conscincia? E a responsabilidade do esprito? Quantos indivduos existem, por toda parte, que passam entre os homens como anjos ou modelo de honestidade, mas tem um vida negra, cheia de mazelas morais, encobrindo os piores crimes contra a honra e a propriedade alheia! Depois da morte, qual ser a situao desses indivduos, que enganaram a todo o mundo, mas no enganam a Justia Suprema? Iro para o inferno, ensinam os telogos. No h inferno, diz o Espiritismo, o que h uma lei de responsabilidade, lei justa e universal, fundada no princpio de causa e efeito. Ento, por fora da Lei Divina, que no omissa nem faz distino, o indivduo reencarna, vem sofrer e aprender at reparar o mal que praticou, reconstruindo os lares que destruiu. Certas afinidades ou simpatias, na terra, entre pessoas de condio intelectual e social muito diferente, muitas vezes so casos de compromissos passados. Foi um lar destrudo na existncia anterior; foi um direito usurpado por meio de arranjos e sofismas, e assim por diante. O esprito devedor volta terra, vai reencarnar, em determinados casos, no seio da mesma famlia onde se encontra a vtima de outrora, afim de que de d a reparao. A sociedade tem muitos e muitos desses dramas, que muita gente no compreende. Muitas vezes um compromisso do passado ou compromisso crmicos, na linguagem teosfica, vem quebrar preconceitos, alterar uma tradio secular no seio de uma famlia, para que dois espritos se reconciliem. Tudo isto o fio da reencarnao, manifestando a sabedoria de Deus. A noo de inferno desaparece, luz da prpria razo, porque a filosofia esprita, fundamentada na reecarnao ou tese das vidas sucessivas, nos d uma noo mais compatvel com a compreenso de Deus, com pai justo e misericordioso, numa um juiz impassvel e vingador. isto, em suma, o que se encontra na obra O Cu e o Inferno, em conexo com O Livro dos Espritos.

  • 4 - O Livro dos Espritos e A Gnese

    Chegamos, pela ordem cronolgica, ao ltimo livro da Codificao de Allan Kardec: A Gnese. certo que o codificador da doutrina deixou outro livro, cujo ttulo j indica publicao posterior desencarnao do Autor: Obras Pstumas . Trataremos dele no fim desta srie. Nosso estudo, agora, prende-se s conexes entre A Gnese e O Livro dos Espritos. Convm lembrar, inicialmente, que A Gnese se divide em trs partes: a gnese propriamente dita, isto , as aplicaes do Espiritismo em face dos problemas da origem do homem e da vida; a interpretao dos chamados milagres luz do Espiritismo e, por fim a interpretao esprita das predies. A 1 edio foi publicada em 1868, em Paris. um complemento das outras obras, com exceo apenas de algumas teorias ainda hipottic as. o que nos diz Allan Kardec, como criteriosa advertncia, no prefcio da 1 edio.

    Como ligeira notcia histrica, devemos recordar que A Gnese foi publicada exatamente

    quando a Frana, estava na inquietante expectativa da guerra franco-prussiana. Em 1870, dois anos depois do aparecimento do livro, a Frana esteve sob a ocupao alem, tendo mobilizado toda as suas energias e todos os seus recursos para se libertar do inimigo. Convm notar que o Esprito instrutor de Kardec, prevendo a brutalidade dos acontecimentos que deveriam abalar profundamente a Nao, aconselhou que se no retardasse a publicao da obra. Dizia, ento, a entidade orientadora: urge p -la em execuo, sem demora e apressar-lhe quanto antes a publicao. preciso que a primeira impresso j se tenha produzido nos espritos, quando estalar o conflito europeu. Ponderava o Esprito comunicante, e com razo, que, uma vez desencadeada a luta, todas as preocupaes do povo se concentrariam nos problemas da guerra e, assim, no haveria ambiente para se pensar, com calma, nos altos problemas filosficos. Alm de tudo, os fatos se passavam em Paris, e a dominao alem, como realmente se deu em 70, iria perturbar toda a vida da Cidade. Haveria, depois, lugar tranqilo para reunies espirituais? A situao de uma Cidade ocupada por tropas inimigas de incerteza e apreenses, seno de caos... Por tudo isso, e querendo ver a obra terminada quanto antes, o instrutor espiritual recomendou a Kardec a concluso da obra, antes do conflito europeu. Pouco depois, apesar da sada rpida que tivera o livro, veio outra comunicao, recomendando uma reviso e o lanamento imediato de nova edio;

    Passemos, depois disto, ao contedo geral da obra, antes de examinarmos as suas

    concordncias com o Livro dos Espritos. A Gnese, na realidade, um dos livros mais complexos da Codificao do Espiritismo, porque abrange assuntos muito diferentes, em funo da doutrina esprita, sem prejudicar a unidade do conjunto e o objetivo primordial. Podemos dividir a matria desse livro, sumariamente, em seis sees, apenas para efeito didtico, na seguinte ordem:

    I - Problemas filosficos:

    "Carter da revelao esprita - Existncia de Deus - Natureza Divina - O bem e o mal - Instinto e inteligncia - Destruio dos seres vivos etc.

    II - Problemas cientficos, atinentes s seguintes cincias:

    a) - fsica - a matria, as leis e as foras; b) - astronomia - sis e planetas, satlites, espao e tempo, problemas de uranografia etc.; c) - geologia - esboo geolgico da terra, perodo geolgicos, teorias sobre a formao da terra etc., etc. d) - biologia - formao dos seres vivos, discusso sobre gerao espontnea, homem corpreo, condies de vida na terra; e) - psicologia - psquica, sonambulismo, sonhos dupla vista, aparies etc.

  • III - Problemas bblicos luz da cincia: a) - Raa admica, "doutrina dos anjos decados", gnese mosaica, paraso, sistemas cosmognicos.

    IV - Problemas de interpretao evanglica, luz do Espiritismo:

    a) - Natureza de Jesus, os chamados "milagres" em face do Espiritismo; b) - fenmenos de bi-locao, "dupla vista" e outros, referidos nas descries evanglicas; c) - passagem da vida de Jesus; d) - prescincia.

    V - Problemas doutrinrios:

    a) - Reencarnao, os fludos e suas propriedades, ao dos Espritos sobre os fludos; b) -

    fotografia do pensamento; c) - manifestaes fsicas, mediunidade; d) - obsesses e possesses; e) - perisprito etc.

    VI - Problemas morais: a) - Sinais dos tempos; b) - influncia das comunicaes dos Espritos na renovao da humanidade; c) - esprito da solidariedade; d) - harmonia entre o progresso intelectual e o progresso moral; e) - prevalncia do progresso moral.

    ____________________ Em linhas gerais, esto a mencionados os problemas que formam o contedo d' A Gnese. oportuno lembrar que Allan Kardec, com a prudncia de sempre, principalmente a respeito de certas teorias relativas formao da terra e tantos outros assuntos, no faz afirmaes apriorsticas, mas apenas cita idias que eram correntes na poca em que escreveu a obra. V-se, pelo simples quadro das matrias, que Allan Kardec era um homem de grandes conhecimentos. No sendo propriamente um especialista, no sendo gelogo nem astrnomo, por exemplo, tinha uma cultura geral muito slida, grandemente auxiliada pela cultura espiritual. Era o que se pode chamar, com inteira propriedade, verdadeiro tipo de humanista. Tanto na parte intelectual quanto na parte moral, Allan Kardec estava portanto, altura da misso que lhe consagrou o nome e a obra. Vejamos, agora, as correlaes entre A Gnese e O Livro dos Espritos, embora em linhas gerais:

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    O Espiritismo e o Evangelho

    "A Gnese" afirma, no cap. I n 41, que o Espiritismo, longe de negar ou destruir o Evangelho, vem confirmar e explicar tudo quanto disse o Cristo.

    A mesma afirmao, por outras palavras, est n'O Livro dos Espritos, na questo 627, com desenvolvimento na concluso da obra, seo VIII.

    Sobre este ponto, A Gnese e O Livro dos Espritos esto igualmente em concordncia com a

    afirmao feita no cap. XVII n 4, d'O Evangelho segundo o Espiritismo, quanto ao fato de no Ter o Espiritismo criado moral nova, porque a sua moral a de Jesus.

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    Instinto e inteligncia

    A Gnese: cap. III n 11

    O Livro dos Espritos: questes 71 a 75.

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    Lei de destruio

    A Gnese: cap. III n 20

    O Livro dos Espritos: questes 728 a

    741.

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    Problemas relativos formao da terra, princpio vital, diversidade dos mundos

    A Gnese: Cap. VI n 58 e captulos VIII, IX e X.

    O Livro dos Espritos: "Introduo", ponto II; questes 37, 43, 55 a 58.

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    Origem e natureza dos Espritos

    A Gnese: Cap. XI n 1 a 9.

    O Livro dos Espritos: questes 76 a

    92.

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    Reencarnao

    A Gnese: Cap. XI n 17 a 37.

    O Livro dos Espritos: questes 132 e

    133; 166 a 168.

    ____________

    Perisprito

    A Gnese: Cap. XIV n 7 a 22.

    O Livro dos Espritos: questes 93 a 95. (Pontos de referncias para estudos mais desenvolvidos).

    ____________

    Emancipao da alma, fenmenos de sonambulismo etc.

    A Gnese: Cap. XIV.

    O Livro dos Espritos: questes 413 a 455.

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  • Conhecimento do futuro

    A Gnese: Cap. XVI.

    O Livro dos Espritos: questes 330, 522, 523, 524.

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    "Pactos", amuletos, magia

    (O Espiritismo reprova o uso de amuletos, medalhas, sinais, prticas de magia).

    A Gnese: Cap. I n 19.

    O Livro dos Espritos: questes 549 a 555.

    O mesmo assunto est referido na obra "O Cu e O Inferno" cap. X n11, I parte.

    Seguindo a mesma ordem de concordncia de pensamento, a reprovao do uso de talisms, frmulas sacramentais etc., aparece tambm no cap. XVII n 203e cap. XXV n 282, 17 d'O Livro dos Mdiuns.

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    Progresso moral e intelectual

    A prevalncia do progresso moral est

    prevista no cap. XVII, n 18 e 19 d'A Gnese, quando diz que s o progresso moral pode assegurar aos homens a felicidade na terra... Todavia o progresso intelectual tambm necessrio, e seria contra-senso releg-lo no plano das aquisies do Esprito. A doutrina encarece a necessidade do conhecimento, como meio, tendo como coroamento o progresso moral.

    A mesma idia est n'O Livro dos Espritos, nas questes 192 e 365,mostrando que o homem deve progredir intelectual e moralmente. A questo n 7912 chega a dizer que o progresso intelectual flor, o progresso moral fruto, e a flor vem a antes do fruto. Isto que dizer que, antes, se realiza o progresso intelectual, mas indispensvel chegar ao progresso moral.

    Chegamos ao fim de nossos estudos comparativos. Com alguns exemplos apenas, procuramos

    mostrar os pontos em que mais se verificam as combinaes de idias entre O Livro dos Espritos e A Gnese. Existe, portanto, um sentido geral de interdependncia entre todas as obras da Codificao da doutrina esprita. E por isso ela chamada, com propriedade, um corpo de doutrina, porque todas as suas partes se ajustam harmonicamente. 5 - Obras Pstumas Este ltimo livro no pode ser posto margem, entre as fontes de consultas da doutrina esprita, conquanto a sua parte geral seja apenas um desdobramento de questes j interpretadas nos outros livros, com base, claro, na obra inicial: O Livro dos Espritos. Convm notar, entretanto, que a matria de Obras Pstumas esclarece e COMPLETA o sentido de muitos pontos bsicos da doutrina codificada. Tendo Allan Kardec deixado, em manuscrito, diversos estudos e apontamentos com os quais pretendia escrever um livro de remate para reafirmar e esclarecer alguma coisa que j estava no corpo da doutrina, discpulos seus tomaram a iniciativa de reunir o material e formar, assim, mais um

  • livro, com o ttulo de Obras Pstumas . Na parte propriamente doutrinria, h muitas idias esclarecedoras. Vejamos, por alto, o contedo da obra: I - Preliminares

    a) - Biografia de Allan Kardec. b) - Discurso de Camille Flammarion, beira do tmulo de Allan Kardec. Foi nesse

    memorvel discurso que Flammarion chamou Allan Kardec "o bem senso encarnado".

    II - Problemas doutrinrios

    c) - Deus, a alma e a criao. d) - Manifestaes dos Espritos e suas conseqncias religiosas. e) - Perisprito, fenmenos diversos, como transfiguraes, bi-coporeidade, "vista

    dupla", invisibilidade etc. f) - Fenmenos psquicos: telepatia, previses, sonambulismo etc. g) - Mediunidade, obsesso, possesso.

    III - Problemas evanglicos

    h) - Natureza do Cristo, "Milagres", predileo dos profetas, palavras de Jesus etc. i) - Teoria da beleza, msica celeste, msica esprita etc.

    IV - Problemas filosficos sociais

    j) - As cinco alternativas da Humanidade. k) - Influncia perniciosa do materialismo. l) - "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". m) - Aristocracia intelecto-moral. n) - "Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo".

    V - Histria da formao da doutrina esprita

    o) - Comunicaes de Espritos, com a indicao das respectivas datas, relativas s primeiras atividades de Allan Kardec, neste terreno.

    p) - Comunicaes sobre circunstncias em que foram elaborados os livros da Codificao.

    q) - A misso de Allan Kardec.

    VI - Projeto de organizao do Espiritismo

    r) - Problemas das cises. s) - Curso regular de Espiritismo. t) - Problema de chefia etc.

    VII - Princpios fundamentais da doutrina esprita, reconhecidos por verdades inconcussas.

    _________________ J se pode ver, portanto, que a matria doutrinria de Obras Pstumas est em concordncia com O Livro dos Espritos, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Livro dos Mdiuns, O Cu e O Inferno e A Gnese. H, porm, uma circunstncia muito importante. que a obra foi elaborada j

  • depois de organizada a Codificao da doutrina. Entre a publicao d'O Livro dos Espritos e A Gnese (1857 a 1868) decorreu um espao de tempo de 11 anos. Justamente por isso mesmo que a leitura de Obras Pstumas se torna cada vez mais necessria aos espritas, porque traz muitos esclarecimentos que alargam e, como j foi dito, completam o sentido de certos ensinos bsicos. A leitura de Obras Pstumas facilita a compreenso de alguns pontos delicados, porque fornece novos elementos de exame. interessante observar que, embora tenha sido escrita depois, a obra no destri nenhum dos princpios bsicos da doutrina, mas acrescenta expresses subsidirias em que os REFORAM luz de raciocnios conseqentes. Muita gente no sabe, por exemplo, que o Espiritismo se preocupa seriamente com o problema da Arte, mas no sentido de elev-la, espiritualiz-la, justamente para evitar que a arte seja banalizada. Infelizmente, porm, certos programas chamados "artsticos", apresentados em reunies festivas de carter esprita, so a mais grosseira desfigurao da arte espiritualizada. Ao invs de se procurar refinar a Arte cada vez mais, segundo as previses do Espiritismo, o que se tem feito, em muitos casos, transplantar para o meio esprita, sem noo de propriedade nem de esttica, o que h de mais vulgar, mais inexpressivo ... Pois bem, h um parte de Obras Pstumas especialmente relativa ao problema da Arte em face do Espiritismo. provvel que haja, por a, muitos espritas que ainda no leram Obras Pstumas . E quem no leu este livro ainda no est suficientemente informado a respeito de uns tantos pontos capitais da doutrina. precisamente em Obras Pstumas que Allan Kardec confirma, de modo categrico, o aspecto religioso do Espiritismo quando diz que o Espiritismo uma doutrina filosfica de "CONSEQUNCIAS RELIGIOSAS". Isto fundamental na doutrina. tambm atravs de Obras Pstumas que Allan Kardec faz sentir claramente, para evitar desvirtuamentos, o que o Espiritismo NO UMA RELIGIO CONSTITUDA (Veja-se, na I parte do Livro, o captulo intitulado: Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo). A falsa noo de tolerncia, que mais uma tendncia disfarada para acomodaes esdrxulas e incoerentes, chega ao exagero de permitir que se introduzam em sociedades espritas objeto de culto material, imagens e cerimonias absolutamente inadequadas ao carter da doutrina, quando o Codificador afirmou textualmente que o Espiritismo no uma religio constituda, pois no tem ritual, nem sacerdote, nem quadros de santos ou imagens, como no necessita de velas, incenso e outros objetos de igreja. Tolerncia respeito s idias alheias, no adeso, no "mistura" de crenas e prticas religiosas. (J dissemos em nosso Caderno n 3 qual conceito de religio, segundo o Espiritismo). O Espiritismo tem um aspecto religioso, porque a idias de Deus lhe fundamental e, alm disso, a doutrina vai ter s bases da religio: Deus, a alma e a vida futura. o que se l, ainda em Obras Pstumas . E para que se cultive sinceramente o sentimento religioso no necessria a adorao material nem a instituio de hierarquia sacerdotal. Outro ponto muito bem esclarecido, em Obras Pstumas , o que diz respeito definio de esprita. Muita confuso se tem por causa deste assunto; no entanto Allan Kardec deixou claro o problema quando afirmou que ESPRITA quem aceita os princpios da doutrina e com eles conforme a sua moral. No basta ser mdium, como no basta acreditar na comunicao dos Espritos ou freqentar sesses medinicas para ser esprita: preciso aceitar a doutrina, concordar com os seus princpios bsicos. (Leia-se indispensavelmente o que est escrito por Allan Kardec, na 2 parte de Obras Pstumas, no captulo intitulado: "Constituio do Espiritismo", na seo VIII e, especialmente, a seo X, nas ltimas pginas). Diz-se, por exemplo, que no Espiritismo no h mestres. Faz-se disto uma espcie de dogma. No h mestres, realmente, e nem Jesus se intitulou mestre , como Allan Kardec nunca se apresentou como mestre. No h mestre, no sentido absoluto, mas no pode deixar de haver ensino, e os que sabem mais devem ensinar aos que sabem menos. Claro que no h nem poderia haver lugar para uma ctedra de mestre no Espiritismo, mas tambm claro que h necessidade do estudo metdico e do aprendizado, pois os que ainda no sabem, porque no estudaram a doutrina ou no dispem de tempo e meios para estudos regulares,

  • devem aprender com os que estudam mais, para que possam, depois, ensinar aos outros. Como homem culto e sensato, Allan Kardec pensava assim, entanto isto certo, que ele prprio cogitou, logo cedo, da organizao de um CURSO REGULAR de Espiritismo, para evitar os inconvenientes da improvisao desarticulada, sem lastro, sem ordem, sem conhecimento seguro. O curso est previsto no Projeto de 1868, com o qual pretendia Allan Kardec fazer um trabalho de coroamento de sua obra, pois o plano grande e complexo. Tendo desencarnado no dia 31 de maro de 1869,no chegou a divulgar e muito menos iniciar a execuo do plano. Seus discpulos tiveram, felizmente, o cuidado de incluir o trabalho de Obras Pstumas, no captulo intitulado "Projeto-1868". H, em nosso movimento, quem no goste de ouvir falar em curso de Espiritismo, por entender que esta palavra d idia de academia, doutorado etc. Nada disto! Curso pressupe estudo regular, porque o estudo sem ordem, sem programa no pode dar o mesmo resultado de um estudo feito metodicamente, previamente organizado. H pessoas que, tendo muita vocao para a tribuna ou desejando sinceramente propagar a doutrina, poderiam produzir muito mais, se tivessem um lastro de estudos regulares, uma cultura doutrinria bem orientada; e se no apresentam mais eficincia em benefcio da Causa a que desejam servir, porque tem apenas noes esparsas, nunca metodizaram os seus estudos, mas preferem simplesmente as leituras ocasionais ou fragmentrias. Outras pessoas, como temos visto, no tendo embocadura ou iniciao em determinados assuntos, fazem leituras e mais leituras ao mesmo tempo, querem conhecer os mais variados assuntos de uma s vez, mas terminam envolvidas no labirinto de idias desconexas, porque no sabem distinguir nem discernir: falam e escrevem muito, "misturam" as matrias e, por fim, no se fazem entender. Muitas vezes, so pessoas inteligentes e ardorosas, mas no foram bem iniciadas nos estudos, porque no se habituaram metodizao de leituras. Da, a necessidade dos cursos regulares de Espiritismo. Muita gente quer comear pelo fim, isto , antes de ouvir ou aprender, faz questo de falar, quando no quer pontificar em determinados ambientes, embora no esteja em condies. Ora, quem no se interessa pelo estudo da doutrina, ainda que tenha boa vontade, no pode exp-la ou interpret-la eficientemente, aquele que estuda seriamente a doutrina, "queimando as pestanas", como vulgarmente se diz, e leva cinco, dez, doze anos preparando a sua bagagem de conhecimentos, no pode deixar de ter mais autoridade intelectual do que aquele que apenas faz alguma leitura dispersa, l uma vez por outra... O que sabe mais, porque teve trabalho de observar, ouvir e estudar cuidadosamente, deve ter mais possibilidades do que o que sabe menos. Alega-se muito a humildade , e , s vezes, em nome da humildade que se combate a idia de curso regulares nas sociedades espritas, como se um curso fosse algum despropsito, alguma heresia ... bom notar, entretanto, que a humildade no privilgio da ignorncia. H muita gente verdadeiramente culta e, no entanto, bem humilde, ao passo que se encontram muitos condutores ou guias, que so quase analfabetos, mas cheios de preveno e arrogncia, porque se presumem enciclopdicos ... A cultura real, que se no confunde com a falsa cultura, leva a pessoa a ser humilde, porque lhe mostra a necessidade da autocrtica, fazendo que cada qual, conscientemente, saiba at onde pode ir. Houve um homem, na antigidade, que disse isto: Eu sei que nada sei foi algum tolo ou ingnuo? No! Foi um dos filsofos da Grcia. Isto a humildade consciente, fruto da cultura do esprito. Podemos dizer, finalmente, que muitas pessoas, desconhecendo o pensamento de Kardec sobre determinados problemas do Espiritismo, e um deles o ensino organizado, tem ojeriza aos cursos de doutrina, mas a verdade que, aparentando humildade, no querem aprender nem ouvir o que os outros dizem, no querem receber lies dos que tem mais preparo: querem apenas aparecer, tomar a dianteira, embora no estejam doutrinariamente habilitados. humildade ou falsa humildade? ... Quem prega uma doutrina, ensina, embora no seja mestre, e para ensinar, preciso, antes, aprender, preparar-se. Isto a regra geral, em tudo na vida. Com estas idias gerais, j podemos dar por terminada a nossa exposio sobre Obras Pstumas , livro de grande importncia no conjunto da Codificao de Allan Kardec.

  • Conceito bsico de Allan Kardec:

    " O Espiritismo uma doutrina filosfica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forosamente vai ter s bases fundamentais de todas as religies: Deus, a alma e a vida futura." Unidade da doutrina: O ponto mais sensvel, mais decisivo em tudo quanto estudamos, durante esta srie de palestras, a unidade da doutrina. Vimos, embora em linhas gerais, que O Livro dos Espritos, no apenas historicamente, mas tambm doutrinariamente, a obra central do Espiritismo, porque nele se consubstanciam os princpios bsicos da doutrina. Todos os outros livros da Codificao, desdobrando aspectos especiais, esto diretamente vinculados aquela obra fundamental, em virtude das correlaes gerais e especiais. Tem-se, portanto, a idia clara de um TODO ou de um conjunto homogneo. Isto quer dizer que a doutrina jamais poderia ser fracionada ou desmembrada em suas partes integrantes, sob pena de se lhe sacrificar a unidade. Consequentemente, no se pode dar preferncia sistemtica a este ou aquele aspecto em prejuzo dos outros. O Espiritismo , pela sua natureza e pelas suas conseqncia s, um corpo de doutrina com trs aspectos integrantes: cientfico, filosfico e religioso. Desprezar o lado religioso e exagerar o lado cientfico to prejudicial unidade da doutrina, como hipertrofiar a parte religiosa e relegar a base cientfica; do mesmo modo, seria contra-senso desenvolver o aspecto religioso, de modo unilateral, e abandonar as luzes da filosofia. Toda tentativa para desagregar o corpo da doutrina, exaltando mais um lado em prejuzo do outro, uma deformao perigosa. J vimos, tambm, que os livros da Codificao do Espiritismo esto, todos eles, relacionados entre si, pois existe um sentido completo de interdependncia. Seria, ento, inconveniente, por exemplo, desprezar O Livro dos Espritos e fazer estudo exclusivo d'O Evangelho segundo o Espiritismo, como seria igualmente contraproducente por o Evangelho de lado e adotar apenas uma obra nica da Codificao, seja ela qual for. Tais exageros so responsveis por interpretaes falsas e atitudes extremadas. preciso ter sempre a viso de conjunto, a noo fundamental de unidade , e nunca pretender dividir o corpo da doutrina. H quem diga que a doutrina em si est n'O Livro dos Espritos e, por isso, as obras restantes podem ser postas de lado; como tambm h quem diga que O Evangelho segundo o Espiritismo satisfaz inteiramente, e por isso no h necessidade das outras obras; tambm se diz, ali ou alhures, que, sendo o Espiritismo uma doutrina mais cientfica do que religiosa, basta O Livro dos Mdiuns ou bastaria A Gnese para resumir tudo quanto necessrio. Tudo isto so interpretaes unilaterais, em discordncia com a prpria organizao e o verdadeiro esprito da doutrina. Todos os livros da Codificao se reclamam e se completam: no podemos compreender certas passagens do Evangelho ... sem recorrer ao Livro dos Espritos, como no podemos deixar de procurar esclarecimentos n'O Livro dos Mdiuns ou n'A Gnese, por exemplo, quando se oferece oportunidade de estudar seriamente determinados pontos do ensino de Jesus. isto o que se chama interpretar o Evangelho segundo o Espiritismo. H problemas, n'O Livro dos Mdiuns , que nos levam forosamente s explicaes gerais d'O Livro dos Espritos e d'A Gnese, e assim por diante. Como, pois, estabelecer a primazia de um livro nico da Codificao - seja o Evangelho, seja O Cu e o Inferno ou qualquer outro, se a doutrina um CONJUNTO DE LIVROS INSEPARVEIS? certo que Allan Kardec, como homem de esprito realista, no tendo qualquer resqucio de fanatismo, deixou margem para que, mais tarde, quando o exigissem as necessidades da cincia, a doutrina fosse confrontada com as descobertas e os conhecimentos posteriores. Claro que certas idias, aceitas na poca de Kardec, sobre a Terra, como sobre alguns problemas de Fsica, Astronomia,

  • etc., no podem deixar de ser apreciadas luz de conhecimentos mais modernos. Isto faz parte do prprio sentido progressivo da cincia. As concepes da Fsica, na Segunda metade do sculo passado, ainda no podiam alcanar os conhecimentos que vieram depois, com Einstein, as teorias atmicas etc. Evidentemente, Allan Kardec no fechou a porta da investigao, pois ele era, acima de tudo, um homem de mentalidade cientfica, e sabia que a cincia progride atravs de retificaes, reconstrues e enriquecimentos. No Congresso Esprita e Espiritualista de 1890, por exemplo, falou-se neste problema, de acordo, com idias do prprio Allan Kardec, em virtude das revelaes cientficas que se verificaram depois da desencarnao do Codificador. Convm, no entanto, reconhecer que a BASE da doutrina slida e continua a ser ntegra em sua constituio. A doutrina pode muito bem acompanhar o desenvolvimento da cincia em todos os terrenos, receber contribuies novas, modificar opinies relativas a problemas da cultura humana sem quebrar a sua unidade, sem alterar as linhas essenciais de sua estrutura. Muita gente pensa que, para colocar a doutrina em dia com algumas descobertas atuais, preciso alter-la ou modificar-lhe o carter. No! A unidade da doutrina, que jamais foi abalada, permanece inatacvel, a despeito de todas as descobertas posteriores Codificao. isto o que precisa ficar bem claro, nenhuma obra de origem pessoal ou medinica substitui ou suplanta a Codificao de Allan Kardec. A fora da doutrina est justamente em sua integridade, na coerncia de seus princpios, na exatido de sua afirmaes, na pureza de seus ensinos e, como decorrncia de tudo isto, na segurana de sua UNIDADE.

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    LEITURAS

    Para facilitar o trabalho dos que desejarem formar um plano de estudos doutrinrios ou procurar imediatamente aluses diretas a determinados assuntos, no corpo da doutrina, recomendamos as leituras abaixo anotadas:

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    Sobre o Espiritismo e as bases da religio

    O Livro dos Espritos, "Concluso" V; Obras Pstumas, I parte cap. Intitulado "Ligeiras respostas aos detratores do Espiritismo": A Gnese, cap. I n 8.

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    O Espiritismo e a restaurao do verdadeiro Cristianismo

    O Livro dos Espritos, (Questes 625-627); comunicao dada em 15 de abril de 1860, Obras

    Pstumas, II parte; A Gnese, cap. I n 30.

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    O Espiritismo est acima de todos os cultos particulares

    Introduo d'O Evangelho segundo o Espiritismo (II) (Convm observar que uma das tradues brasileiras (1917), dando maus nfase, pe a expresso categrica: acima de todos os cultos . Outras tradues, inclusive a da LAKE, se S. Paulo, dizem isto: "O Espiritismo no tem nacionalidade e est fora de todos os cultos". Esta traduo est mais conforme fonte francesa, onde se l: le Spiritisme n'a nationalit; il est en dehors de toutes les cultes particuliers. Fora ou eqidistante de todos os cultos. o sentido da frase. Tambm se encontra em traduo espanhola a expresso fora de todos os cultos. Na realidade, sejam quais forem as ligeiras diferenas de tradues, o Espiritismo est fora e acima de todos os cultos, porque no tem

  • adorao material, nem smbolos, nem ritual de espcie alguma, como no tem sacerdotes). Note-se que, j na traduo de 1930, de Antnio Lima, aparece o advrbio fora e no mais acima de todos os cultos, o que prova, portanto, que o prprio tradutor modificou a forma de dizer, neste passo da Introduo, aproximando-se mais do original francs.

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    A fora do Espiritismo est na sua filosofia

    O Livro dos Espritos " Concluso" VI; Introduo d'O Livro dos Mdiuns ; A Gnese, cap. I n 52 (Comentrios).

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    O Espiritismo no teme as descobertas da cincia e estar sempre disposto a aceitar quaisquer

    verdades que venham a ser demonstradas

    A Gnese, cap. I ns 16-55; cap. X n 30; Obras Pstumas (parte final), captulo intitulado "Princpios fundamentais da doutrina esprita reconhecidos como verdades inconcussas.

    _______________

    Unidade da doutrina e o conceito de ESPRITA

    Preciso e clareza para evitar interpretaes divergentes

    Obras Pstumas "Projeto - 1868"; parte final do captulo intitulado "Ligeira resposta aos

    detratores do Espiritismo".

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    Espiritismo e Espiritualismo

    "Todo esprita espiritualista, mas nem todo espiritualista esprita".

    Introduo d'O Livro dos Espritos; O que o Espiritismo, de Allan Kardec(Ver o "Segundo dilogo", com o cptico).

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    Oferecemos, com isto, um roteiro sumrio, como remate de nossos estudos. Da por diante, os interessados podero descobrir, por iniciativa prpria, muitos outros pontos interessantes, medida que forem penetrando no pensamento da doutrina.

    ESTUDOS COMPLEMENTARES

    De acordo com o programa do Centro, realiza-se anualmente uma srie de estudos, que chamamos complementares, sobre determinados assuntos que, embora variveis, tratam de problemas doutrinrios e contribuem para o desenvolvimento de alguns temas j estudados. Neste Caderno, por exemplo, vamos resumir o mais possvel o estudo feito sobre a influncia da reencarnao na personalidade.

  • REENCARNAO E PERSONALIDADE

    Antes de tratarmos da influncia que a reencarnao possa ter na personalidade, convm dizer alguma coisa sobre o que seja personalidade, utilizando a terminologia prpria, pelo menos at certo ponto. H, em cada pessoa, aquilo que constitui a sua individualidade, o seu EU inconfundvel, e aquilo que se manifesta nas atitudes, nos hbitos, nas formas de convivncia social. Ento, para usar linguagem menos acadmica, podemos dizer que a personalidade aquilo que est por fora, nas maneiras, nas convenes, nas expresses pessoais, ao passo que o EU individual aquilo que fica oculto, mas no deixa de ser o que , sejam quais forem as mudanas exteriores. Exemplo prtico: cada pessoa o que , na realidade, ainda que a personalidade possa disfarar ou encobrir o que vai por dentro l na essncia de seu EU profundo. O estudo da personalidade matria inerente Psicologia, mas tambm interessa, e muito, ao Espiritismo. A palavra personalidad